O Ocidente não tem promovido os seus valores, mas sim os seus interesses no Médio Oriente

Este é um artigo de opinião, publicado após os atentados de 11 de Setembro de 2011 nos Estados Unidos, quando o mundo despertou para o terrorismo da al-Qaeda e de Osama bin Laden, o milionário, fiel à implacável doutrina wahhabita, que os sauditas foram obrigados a declarar apátrida. (Ler mais | Read more…)

Um fuzileiro americano cobre com a bandeira dos EUA uma estátua de Saddam Hussein, em Abril de 2003, o ano da invasão que derrubou o presidente do Iraque
© Tamzo Haidar| AFPI | EPA

“Durante a Guerra Fria, a América tinha muitos amigos entre os seus inimigos”, escreveu Hugo Young [1938-2003], o biógrafo de Margaret Thatcher, num artigo publicado no diário britânico The Guardian.

Naquele tempo, cidadãos da Polónia, Hungria e União Soviética “absorveram a ideia de que o modo de vida americano lhes oferecia algo a que podiam aspirar [e] começaram a compreender o que a liberdade significava porque não a tinham”.

Que ninguém duvide: tal como os povos da antiga “Cortina de Ferro“, também há muitos árabes e muçulmanos que gostariam de se livrar dos seus governantes déspotas para elegerem, sem fraudes, líderes democráticos.

Mas, ao contrário dos povos da Europa de Leste, árabes e muçulmanos não têm ao seu lado um Ocidente empenhado em promover os valores da civilização que José Manuel Fernandes descreveu como a “mais humana, equilibrada, rica e progressiva que a Humanidade conheceu”.

O Ocidente tudo fez para encorajar os dissidentes soviéticos a combater o que designava como “Império do Mal”. Incentivaram-nos a desconstruir mitos, a derrubar muros e a expor hediondos crimes contra a Humanidade cometidos em nome do socialismo.

Mas será que existe esse apoio determinado em relação aos opositores laicos das ditaduras protegidas do Médio Oriente? Não, não existe!

© Eva Bee | The Guardian

O Médio Oriente tem certamente os seus [Alexandre] Soljenitsin e [Andrei] Sakharov, mas ninguém mostra vontade de os conhecer. No Ocidente, só se conhece o estereótipo do terrorista árabe dos filmes de Chuck Norris.

“Há algo de verdade nesses estereótipos, porque tem havido violência e terrorismo”, reconheceu o académico palestiniano Edward Saïd [1935-2003] numa entrevista que me deu, [em Lisboa]. “Mas é frustrante o pouco que se sabe sobre a cultura árabe, a literatura árabe, o cinema árabe, a poesia árabe, a arte árabe. Só é absorvida uma imagem extremamente politizada e redutora.” Said responsabiliza ambas as partes.

“Todos os regimes árabes são ditaduras que só se preocupam em manter-se no poder e em garantir a sobrevivência. Para eles, os Estados Unidos são importantes porque são uma superpotência. Eles querem apoio americano para os seus regimes. À parte isto, há muito pouco intercâmbio cultural. Pouquíssimos livros árabes estão traduzidos.”

Há três poetas árabes muito famosos – Nizar Qabbani, Mahmoud Darwish e Adonis – e as suas obras só estão traduzidas em francês, não em inglês. […] Nas universidades americanas há vários programas de estudos medievais, mas nem um só tem a componente do Islão árabe medieval, como o da Andaluzia. Quase nada há sobre a experiência islâmica ibérica.”

A negligência de uma parte fundamental das sociedades árabes-muçulmanas aprofunda um vazio político que vai sendo preenchido por extremistas religiosos – os únicos dispostos a sacrificar vidas (as suas e de outros) porque são os únicos que dispõem de uma rede global (terrorista) de logística.

E o mais grave é que o Ocidente tem fechado os olhos à obliteração da oposição laica no Médio Oriente, para salvaguardar os seus interesses: políticos, geoestratégicos ou económicos. Vejamos:

Tropas britânicas em Bagdad, onde entraram com forças americanas depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque
© The Baghdad Post

No Egipto – segundo maior receptor de ajuda financeira dos EUA depois de Israel -, o [anterior] Presidente Hosni Mubarak, candidato único em escrutínios pouco transparentes [até ser destituído na sequência de ume revolta popular em 2011] reprime os seus adversários políticos.

Mas americanos e europeus ignoram os abusos, porque alguns desses adversários – e não necessariamente apenas os islamistas radicais – cometem a “heresia” de criticar as humilhantes condições de paz impostas pelo Estado judaico aos árabes.

De Damasco a Tunes, milhares de pacíficos activistas muçulmanos apodrecem nas cadeias sem culpa formada ou são executados sumariamente. Mas o “nosso mundo civilizado” que respeita os direitos humanos não os considera merecedores de serem julgados.

O próprio líder líbio Muammar Kadhafi, ostracizado como “patrocinador do terrorismo”, está a ser reabilitado pelo Ocidente, que o vê como um “dique contra o integrismo islâmico” no Magreb.

O autoproclamado Presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, derrubou um governo democraticamente eleito mas também está a ser legitimado, porque vai alinhar com a América contra Osama bin Laden.

Uma equipa do 3º Regimento Alpino do exército italiano dá instrução num treino básico de infantaria a forças aliadas em Erbil, no Iraque
© Tracy McKithern | thedefensepost.com

A Arábia Saudita é uma monarquia absoluta, “com um poder esclerosado e um imobilismo político e social elevado à categoria de dogma”, como escreveu Jean-Michel Foulquier, antigo diplomata francês em Riad.

No seu livro, a que deu o título de Reino dos Três Silêncios, ele denuncia os americanos e europeus que, para “fazerem fortunas”, aceitam ser “mudos, cegos e surdos” perante as atrocidades que testemunham.

A doutrina “wahabita” (fruto de uma aliança entre o teólogo Muhammad Ibn ‘Abd al-Wahhab e o Rei Ibn Saud) representa a faceta mais impiedosa do Islão sunita.

Foi esta ideologia que os Taliban afegãos adoptaram. E foram os “wahabitas” sauditas – e não o Irão xiita – os primeiros exportadores do “fundamentalismo” islâmico. Com petrodólares, eles financiaram escolas corânicas e formaram pregadores radicais, da Argélia ao Djibuti.

No entanto, tem sido do interesse da América e da Europa suportar a Casa de Saud. Porque o único país do mundo que deve o seu nome à família que o fundou é o maior exportador mundial de petróleo e uma das principais bases militares dos EUA no Golfo Pérsico.

Alguma voz se ergueu quando o Rei Fahd mandava, por exemplo, enterrar vivos os homossexuais por serem “impuros aos olhos de Deus”?

Soldado francês no Mali, onde Paris tenta travar uma insurreição islamista
© almasdarnews.com

Outros vizinhos da Arábia Saudita, como o Bahrain, o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos, são governados por príncipes que chegaram ao poder depois de derrubarem pais, irmãos ou primos.

Eliminam igualmente, na maior impunidade, qualquer oposição, incluindo minorias que apenas reclamam uma mais equitativa distribuição das riquezas petrolíferas.

O mais grave é que entre os influentes consultores desta realeza se encontram actuais ou antigos agentes dos serviços secretos britânicos. Terrível é ainda o facto de o Dubai, Riad e Islamabad serem os únicos governos que reconheceram as autoridades de Cabul.

A justificação para este reconhecimento foi compreendida pelo Ocidente: os Taliban (não obstante financiarem uma guerra civil com o tráfico de ópio) controla[va]m troços do território afegão por onde passam oleodutos até à Ásia Central.

O Iraque é outro exemplo da “hipocrisia” ocidental. Durante anos, Saddam Hussein assassinou (alguns com as suas próprias mãos) os que poderiam constituir uma alternativa ao seu reinado de terror. Chegou a liquidar dissidentes exilados em países europeus, e as imagens de milhares de civis mortos por armas químicas no Curdistão (Norte) foram ignoradas como “fotomontagens”.

Assim tinha de ser porque a CIA estava empenhada em fornecer armas e informações de satélite ao “carniceiro de Bagdad” para que ele ganhasse a primeira guerra do Golfo (1980-1988) contra o Irão.

Saddam passou de aliado a inimigo quando se quis apropriar das reservas petrolíferas do Kuwait (1990). Mas nem assim o Ocidente foi capaz de levar até ao fim a Tempestade no Deserto: não havia outro ditador capaz de impedir a desintegração do mosaico étnico e confessional que é o Iraque, e subsequentemente, a da Síria e a da Turquia (membro da NATO).

Até a França, baluarte da “liberdade, igualdade e fraternidade”, não teve escrúpulos em firmar com Saddam contratos petrolíferos, aguardando apenas o levantamento das sanções da ONU.

© The Economist

Finalmente, um dos maiores desastres da política externa ocidental foi o contragolpe no Irão que, em 1953, recolocou o Xá Mohammad Reza Pahlavi no Trono do Pavão e depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh. Este europeísta secular que queria modernizar o país e reformar as tradições religiosas foi afastado pela CIA e pelo MI-6.

O seu pecado: ousou nacionalizar, em 1951, a Anglo-Iranian Oil Company, um gigante controlado pelos britânicos, que retinham 70% das receitas. A Pérsia era um império estratégico que valia o sacrifício de todos os “valores ocidentais”.

Os EUA ignoraram os terríveis crimes cometidos pela SAVAK, a polícia secreta do último monarca da dinastia Pahlavi, e forneceram ao seu aliado as melhores armas que o dinheiro podia comprar.

O problema é que, com o afastamento do carismático Mossadegh, os sentimentos antiamericanos exacerbaram-se num país traumatizado por muitas invasões (turcos seljúcidas, mongóis, gregos, árabes). Ficou assim aberto o caminho para que o Ayatollah Khomeini empreendesse a sua sangrenta revolução islâmica.

Pacheco Pereira tem razão quando afirma que os fanáticos que enterraram uma parte do mundo sob os escombros do World Trade Center não são pobres nem humilhados. “São gente educada, movimentando cartões de crédito.” Aliás, nunca se ouviu dizer a Bin Laden que a sua luta [era] pela causa dos palestinianos despejados em miseráveis campos de refugiados.

Inebriado com a vitória na guerra do Afeganistão, que contribuiu para a dissolução da URSS, o milionário apátrida [parecia] embriagado com uma “missão divina” de destruir a América. É dever do Ocidente travar este fanático, porque ele contribui para a demonização do Islão.

“Um muçulmano terá dificuldade em aceitar que a sua religião só legitima o autoritarismo, mesmo que, ao longo da história, ela tenha sido ponto de referência obrigatório de inúmeros partidos e regimes não-democráticos”, observou Ghassan Salamé, co-autor de Democracy Without Democrats – The Renewal of Politics in the Muslim World e historiador no Centre National de Recherche Scientifique (CNRS), de Paris.

“Ser um bom muçulmano e um bom democrata não é uma aberração.”

© Rick Loomis | Los Angeles Times

Este artigo de opinião, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO em 21 de Setembro de 2001 | This opinion article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 21, 2011.

Um dia nas corridas (de camelos)

O omanita Saalem al-Hamdoun tem cinco camelos “puro sangue”, o valor de uma “noiva bonita”. Um deles equivaleria, segundo estimativas, a 30 mil contos [100 mil euros], mas o preço pode triplicar se, numa próxima corrida, chegar em primeiro lugar. Na nova pista da aldeia de Al-Sawadi, os seus filhos jockeys, de 15 e 16 anos, treinam os animais a ser mais velozes. (Ler mais | Read more…)

© hilvanderwaalphotography.com

Já passava das duas da tarde, num dia de Novembro, quando os homens de Al-Sawadi se concentraram junto de uma árvore para inaugurar a nova pista de corridas de camelos. Descalços, sentados em círculo, saudaram primeiro o xeque da aldeia. Rezaram depois, beberam café e, certamente, falaram de negócios.

Em Omã — sultanato da Península Arábica e do Golfo Pérsico — um camelo que alcance o primeiro lugar numa competição poderia valer [em 2001] mais de 30 mil contos [hoje, uns cem mil euros].

“Espiões” dos países vizinhos costumam infiltrar-se entre a assistência procurando descobrir os animais mais valiosos para os estábulos reais. E não é cliché que, da casa do pai, por mais plebeu que fosse, uma bonita noiva omanita não sairia, no passado, por menos de cinco camelos, de boa raça e puro sangue.

Era, portanto, um dia especial em Al-Sawadi, povoação que fica a mais de uma hora de carro de Mascate, a capital. Embora não houvesse apostas nem prémios, donos, treinadores e jockeys estavam todos entusiasmados com a oportunidade de experimentar o novo trilho e exibir a vitalidade dos seus animais.

© hilvanderwaalphotography.com

As mulheres não apareceram. Só pick-ups, jipes e criaturas de uma bossa que caminhavam graciosas apesar de, em alguns exemplares, ser visível uma baba repugnante a escorrer pelo queixo.

Os camelos, dizem os criadores, costumam expelir secreções do estômago quando não apreciam os modos dos humanos que deles se aproximam.

De telemóvel na mão e uma túnica branca até aos pés, Saalem al-Hamdoun parecia o mais feliz, e abastado, de todos os participantes.

Dois dos seus oito filhos estavam prestes a correr com os mais velozes dos seus cinco camelos — um deles estimado em 30 mil riais ou quase 20 mil contos. Samha, de 15 anos, e Suood, de 16, não o deixaram ficar mal, apesar da rebeldia dos bichos.

Os dois jockeys esperaram pela sua vez num grupo de quase 40 miúdos e graúdos, de onde sobressaíam um garoto de 8 anos e um velhote com mais de 60. Ao sinal de que a sua vez chegara, os filhos de Saalem avançaram até ao ponto de partida.

Os camelos, cada um seguro por duas cordas, presas às narinas e ao pescoço, relincharam e resistiram a ajoelhar as patas dianteiras. Tentaram fugir, levantando uma nuvem de poeira, mas uma chicotada vergou-os.

A obediência durou pouco. Quando Samha subia para o dorso do animal, este ergueu-se repentinamente e lançou o rapaz à terra recém-escavada. Suood já ia lançado à frente. Teve de voltar para trás, porque a corrida é sempre a dois.

“Ele paga-me a insolência”, vociferou Saalem, trocando a amabilidade pelo insulto. Se o camelo era teimoso, o dono era obstinado e, dirigindo-se à pista, ele fustigou de novo o animal com uma vara.

© hilvanderwaalphotography.com

Com ajuda do pai, Samha conseguiu finalmente dominar o camelo. Os dois irmãos estavam agora lado a lado, prontos a correr 800 metros.

Já tinham adquirido estabilidade suficiente para competirem sozinhos, sem orientação de um parceiro adulto. Os mais inexperientes levam uma corda à cintura que o treinador segura, para prevenir quedas abruptas.

Samha e Suood chegaram à meta — impossível calcular a velocidade — primeiro que todos os outros concorrentes. O regresso foi a passo lento, por fora da pista, até chegar ao ponto de partida. Só quando o animal ficou completamente imobilizado, a respiração menos ofegante, é que a corrida terminou.

É quase pôr-do-Sol, os animais estão exaustos e a fúria de Saalem voltou ao estado de simpatia. “Estes são os meus meninos!”, exclama o vencedor, precisando que eles treinam todas as tardes e que os camelos comem tâmaras e milho, porque “só bem alimentados podem ser bons corredores”.

Os olhos desviam-se para outro filho. “Chama-se Mussay, tem 12 anos e também está a ser preparado”, exulta o anfitrião, lembrando que aquela foi a idade com que se casou. “Antigamente, os nossos pais exigiam ver os netos ainda em vida e por isso arranjavam-nos noivas quase à pressa”.

Quanto ganhou Saalem? “Nada; isto não era um jogo nem uma corrida a sério”, responde o dono dos camelos. “Não sou vendedor; sou criador. Vim aqui só para treinar”. E um dos que mais brilhou nos “treinos” foi o velhote do grupo dos jockeys.

Magrinho mas musculado, ele provou que o seu vigor era superior à resistência do camelo que não o deixava subir para a bossa. Umas cinco vezes o camelo o deitou ao chão e igual número o velhote se levantou, com mais determinação em domar o animal.

© hilvanderwaalphotography.com

Os camelos omanitas foram e permanecem famosos em toda a Arábia. Os da região de Batinah têm a melhor reputação.

Criados na planície costeira que se estende para Norte, de Mascate até aos penhascos de Musandam (Moçandão), são particularmente estimados pela raça — não há misturas de sangue, e isso é cuidadosamente controlado — velocidade e excepcional beleza. O único defeito parece ser a incapacidade de ficarem quietos.

As razões para ainda serem criados camelos são, provavelmente, mais sentimentais e de tradição do que económicas.

Para o trabalho, estes animais já quase foram suplantados pelas carrinhas japonesas, omnipresentes e ubíquas. Continuam, porém, a ser muito procurados pelos xeques do Golfo, e, em certos casos, constituem uma conta bancária ambulante.

Um camelo bem tratado é um fundo de investimento ou um bem de luxo. Quando o seu dono precisa de dinheiro imediato, pode vendê-lo, e sempre com lucro.

Entre algumas tribos, um dote matrimonial é calculado em camelos, e estes servem, muitas vezes, de congelador móvel: se há convidados ou motivos para celebrar, a carne está ali pronta a ser sacrificada.

Os camelos tornaram-se fonte de orgulho e prazer em vez de resposta a necessidades económicas. Já quase ninguém anda de camelo.

Quando têm dinheiro, as famílias optam pela pick-up, porque facilita o transporte dos animais de e para os mercados, e encurta o tempo de viagem em busca de água — a maior preocupação dos bedu.

Numa entrevista que, em 1998, deu à Outside Magazine, Sir Wilfred Thesiger [1910-2003], o grande explorador do Rub al-Khali ou Empty Quarter, maior deserto  de areia, na Arábia, lamentava que os beduínos prefiram agora as pick-ups e os todo-o-terreno aos camelos.

Em inglês, o nobre nómada que falava fluentemente árabe, dividiu o tempo em duas épocas: “b.c. e a.d.” – não “before Christ e after Christ (antes de Cristo/ depois de Cristo) mas before cars e after driving. A sua “forte convicção” é a de que “o maior desastre na História da Humanidade foi a invenção do motor de combustão interna”.

A vida com uma bossa

© hilvanderwaalphotography.com

• Um camelo pesa entre 450 e 680 quilos. Come praticamente tudo o que cresce no deserto, incluindo plantas salgadas que outros herbívoros rejeitam. Quando está esfomeado, também se alimenta de peixe, carne, ossos e peles. A sua dieta alimentar em cativeiro inclui feno e cereais, com suplementos de vitaminas e minerais.

• De todos os animais do mundo, só o camelo é capaz de armazenar água no deserto. Pode beber entre 60 e 100 litros de água, mesmo salobra ou salgada, em apenas 15 minutos. Em média, só precisa de se refrescar em cada três a quatro dias.

• Patas enormes e macias facilitam-lhe o andar no deserto. As suas longas pálpebras protegem-lhe os olhos do vento e as narinas fecham-se para impedir a entrada de areia. Os lábios são espessos para resistir a plantas grossas e ásperas. Tem calosidades nos joelhos e noutras partes do corpo que tocam a areia quente, para que, ao sentar-se,  possa sentir-se confortável.

• O camelo da Arábia tem uma bossa sem qualquer estrutura óssea. Enganam-se os que pensam ser a bossa o lugar onde ele armazena a água. Pelo contrário, aquilo é só gordura. O tamanho da bossa varia com a alimentação e as condições climáticas.

• O camelo, graças à protecção de um pêlo espesso e de uma bossa volumosa, suporta muito calor e até muito frio, se este for seco. Muitos animais morrem quando perdem 20 por cento do seu peso, mas o camelo tolera desidratações  — sobrevive com uma perda de 40 por cento de água. A temperatura do corpo pode subir seis graus acima do normal sem que o animal tenha suores (o que faz perder a água).

© hilvanderwaalphotography.com

• O camelo corre como uma girafa, com as duas pernas de cada lado do corpo movendo-se simultaneamente, e por isso chamam-lhe “navio do deserto”. Há séculos que este animal serve fielmente o homem em todo o tipo de tarefas, mas quando se irrita expele do estômago uma espécie de espuma mal cheirosa, que afasta quem está próximo dele.

• Os árabes aproveitam quase todas as partes do corpo do camelo: o pêlo serve para tecer tendas; a carne é usada na culinária; o leite é bebido fresco ou transformado em queijo; os ossos, depois de secos, substituem o marfim; os excrementos são reciclados em combustível.

• Um camelo vulgar anda a uma velocidade de 6,5 quilómetros por hora. A trote, pode atingir 13. Nas corridas, famosas na Arábia, ultrapassam os 16 km/h e num só dia chegam a percorrer 200 quilómetros. A carga que podem transportar é de cerca de 200 quilos durante quase 70 quilómetros/dia.

• Em árabe, há pelo menos 160 palavras para dizer “camelo”, um animal cuja origens remontam à América do Norte. Actualmente só existe, domesticado, em África e na Ásia e em certas regiões desérticas da Austrália.

• Os beduínos marcam todos os seus camelos, no dorso ou no pescoço. Se numa travessia do deserto um deles morrer, os membros da tribo assinalam o local onde tiveram de deixar a carga com a marca do animal. Outros beduínos que por ali passarem não poderão nunca tocar nos bens que os outros deixaram para trás.

• Um camelo produz mais de 30 embriões para gestação imediata ou serem guardados indefinidamente em nitrogénio líquido. Em Fevereiro de 1995, pela primeira vez no mundo, nasceu um bebé camelo de um embrião que foi congelado a 196 graus centígrados negativos e depois introduzido numa “nova” mãe em cujo organismo se desenvolveu durante 13 meses.

• Os camelos, se forem de boa raça, suportam com agilidade e firmeza terrenos montanhosos e rochosos. Se estiverem apenas habituados a zonas planas e de areia, caem com mais facilidade, cortam-se nas patas e quebram os ossos. Mas o que os camelos da Arábia não suportam mesmo é lama. Escorregam e precisam de uma grande ajuda para se voltar a erguer.

As cabras e os Bedu

© David Harford | flickr.com

Quando se pergunta aos Bedu (a expressão “beduíno” não é usada em Omã) sobre os seus animais, eles falarão em primeiro lugar dos camelos, mas as cabras são igualmente valiosas. Há um espaço para elas em cada beit ou “casa” — terminologia da tribo Jenaiba, que se orgulha de usar o árabe clássico, em oposição aos seus vizinhos Harsussi ou Mahra, que se exprimem em línguas semitas do Sul.

Quem já dormiu num acampamento bedu certamente passou pela experiência de ser lambido a meio da noite por uma cabra, que ainda deixou o cobertor do visitante cheio de excrementos. E quem percorre as estradas de Salalah, terá sido previamente avisado de que deve dar prioridade às cabras quando elas se atravessam no caminho. O mesmo privilégio é reconhecido às vacas e aos camelos — quem buzinar para lhes apressar o passo pode ser multado.

Não haja, porém, confusões: criar camelos é tarefa de homens; criar cabras é trabalho de mulheres. São elas que as apascentam pelas estepes, às vezes com um recipiente para leite enfiado na cabeça como se fosse um capacete.

É uma prevenção contra a sede, tal como o termo de café quase sempre na mão. Entre os Bedu, o vício é o café, não o tabaco. Taqahwa! — “Beba um café” — é uma frase repetida pelos omanitas, da casa mais opulenta à tenda mais humilde.

Num acampamento bedu, as mulheres participam na vida social mais do que nos centros urbanos. Quando têm visitas, elas podem estar presentes à roda da fogueira, mas raramente se sentarão no cobertor estendido para os hóspedes.

Participam na conversa, mas não na preparação dos alimentos — isso compete aos homens, anfitriões e convidados. Se não houver homens, quando o visitante chega, elas não deixam de aparecem. Mas, embora sejam elas a convidar para a refeição, terá de ser o visitante masculino a matar a cabra, a extrair-lhe a pele, a cortá-la aos pedaços, a fazer o molho e a amassar o pão, enquanto todos esperam pela comida.

A cabra é morta com uma facada no pescoço depois de ter sido virada para Meca (o mais importante santuário do Islão, na Arábia Saudita). Na tribo Jenaiba, se a cabra for morta à frente do visitante é sinal que ele foi bem aceite.

Uma vez morta, a cabra é deixada no chão até o sangue secar. Seguidamente, é virada de pernas para o ar e, numa operação meticulosa, a sua pele é retirada para, depois de seca e tratada, fazer impermeáveis sacos de comida ou de água.

A carne é lavada em várias águas antes de ser cozinhada em água e sal, às vezes com cebola e outras com tomate. A cabeça vai directamente para a fogueira onde é tostada para ser comida.

Os miolos e a língua servem de sobremesa. O fígado às vezes também é grelhado em cima das brasas, e funciona como entrada. Os olhos vão para o lixo. A qualquer hora do dia, os Bedu oferecerão aos hóspedes a matança de uma cabra, e consumam o acto mesmo que eles recusem.

As vacas e os Jeballis

© eslkevin.wordpress.com

Se as cabras são um precioso património em Omã, as vacas não ficam atrás em estatuto. Os Jeballis — membros das tribos das montanhas de Dhofar, no Sul — são os únicos que criam gado na Arábia, o que levou os geógrafos a situar as suas origens na África Oriental.

Este “enclave etnográfico” exprime-se em dialectos mutuamente imperceptíveis e nenhum deles escrito, mais parecidos com a língua da Etiópia do que com o árabe. As vacas, que caracterizam o modo de vida dos Jeballis, oferecem-lhes comida e bebida, meios de troca (em dinheiro e em géneros), roupas e acessórios para o dia-a-dia.

O gado é tão importante que os Jeballis costumam dar ao primeiro filho o nome da sua vaca favorita. Numa qualquer festa, a posição social e a generosidade do anfitrião são avaliadas de acordo com o número de vacas que ele manda matar para as refeições.

Durante séculos, os Jeballis viveram isolados do resto do mundo e inspiravam medo. “Tudo, desde o modo de vestir até ao seu sistema de valores era diferente dos costumes entre os árabes”, escreveu a jornalista suíça Liesl Graz no seu livro The Omanis, Sentinels of the Gulf.

Noções de honra, confiança e hospitalidade não se associavam aos Jeballis. Eles não precisavam de justificação para roubar ou matar.

Não envergavam os tradicionais dishdasha e mussar (túnica e turbante omanitas) e distinguiam-se até pelos tabus: comiam javalis (que os habitantes do Norte consideram uma espécie de porco, carne proibida pelo islão) mas não provavam hiena (convencidos de que estes animais são os bruxos dos camelos).

Dhofar foi uma zona de guerra civil até 1976. Quando venceu a revolta (apoiada pelo vizinho Iémen, que cobiçava os postos de petróleo na fronteira), uma das prioridades do sultão Qaboos bin Said foi integrar os Jeballis na sociedade. Ofereceu-lhes cidadania e benefícios financeiros em troca de lealdade.

Hoje, eles têm melhores condições de vida, mas continuam a ser difíceis por natureza. Queixam-se que as obras de abastecimento de água aterrorizam as suas vacas e que as estradas lhes destroem as pastagens.

É preciso no entanto fazer uma distinção: no Sul, nem todos os Dhofaris são Jeballis. Esta confusão ainda permanece em muitas mentes no Norte e terá originado o velho ditado omanita: “Se no teu caminho encontrares uma cobra e um dhofari, mata primeiro o dhofari”.

© hilvanderwaalphotography.com

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 11 de Fevereiro de 2001 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on February 11, 2001

Rub’al Khali: Deserto belo e cruel

Com os seus 600 mil quilómetros quadrados, Rub al-Khali ou Empty Quarter é o maior deserto de areia do mundo. Podemos visitá-lo a partir de Salalah, no Sul de Omã, na Península Arábica. De jipe é mais confortável, mas o explorador britânico Sir Wilfred Thesiger [1910-2003] deixou escrito que a única maneira de contemplar a beleza das dunas será a pé ou de camelo. (Ler mais | Read more…)

© National Geographic

Diz a lenda que, quando separou o mar e a terra, Deus quis deixar um lugar inabitável, proibido, desconhecido. Os árabes deram-lhe o nome de Rub’ al Khali e o resto do mundo, por influência britânica, chama-lhe Empty Quarter. É o maior deserto de areia, com quase 600 mil quilómetros quadrados.

Talvez os beduínos tivessem vagueado pela imensidão deste território, em busca de alimentos e pastagens para os seus animais. Mas se uma tribo alguma vez atravessou o Empty Quarter, dos montes de Nejd, a norte, até aos planaltos de Hadhramaut, a sul, não deixou jamais qualquer mapa.

Durante séculos, o Empty Quarter foi uma barreira inexpugnável aos que sonhavam viajar pelo centro da Península Arábica.

Além dos perigos que constituíam tribos guerreiras, bandidos impiedosos e xeques desconfiados, havia ainda que sobreviver a dunas de 200 metros de altura, encostas vertiginosas, montanhas rochosas, pântanos e salinas.

E no entanto, apesar da sua inacessibilidade, existiu no Empty Quarter uma extraordinária cidade — Ubar —, que “desapareceu” por volta do ano 300.

Segundo Rashid al-Din, um historiador do século XIII, Ubar foi criada para imitar o Paraíso. Prosperou graças ao comércio do incenso e era o orgulho de um rei, Shaddad. Grande era o esplendor de Ubar, com os seus sumptuosos palácios e magníficos jardins.

Tão grande que, indignado com a arrogância do soberano e a ruindade dos súbditos, “Deus mandou punir a cidade de Shaddad com uma tempestade de areia e pedras”.

Da noite para o dia, prossegue a lenda, Ubar “foi engolida pelas dunas”. E, a partir desse momento, foi habitada apenas por “criaturas malévolas, com um só olho, uma só perna e um só braço”.

© Lonely Planet

As lendas do Empty Quarter tornaram-se irresistíveis para exploradores e aventureiros como Bertram Thomas, John Philby e Wilfred Thesiger.

Depois deles, é a própria NASA, com os seus satélites, que procura descobrir o mistério de Ubar. Arqueólogos italianos estão, por seu turno, a investigar as ruínas do que se supõe ter sido o palácio da Rainha de Sabá.

O meu objectivo era mais modesto, quando combinei com Mohamed e Najib, os nossos guias omanitas, partir em direcção a Rub al-Khalil: queríamos ver as dunas e os oásis, se possível ao pôr do Sol, e encontrar tendas de beduínos com os seus camelos.

Sir Thesiger [1910-2003] nunca aprovaria o meio utilizado para a minha viagem. Não fui a pé nem de camelo, como ele fez na sua primeira e segunda travessia, de 1945 a 1950. Fui de jipe, o que, para aquele nobre nómada do deserto, constitui quase uma heresia. Escreveu ele no prefácio de Arabian Sands, um dos seus livros:

Quando regressei a Omã e a Abu Dhabi em 1977 […] fiquei desiludido e ressentido com as mudanças que a descoberta e produção do petróleo levaram à região. […] A vida tradicional ‘bedu’ […] tinha sido irrevogavelmente destruída com a introdução dos transportes motorizados, de helicópteros e aviões.

Foi, portanto, num todo-o-terreno que o guia Mohamed, nascido numa tribo bedu (em Omã, não se usa o termo “beduíno”), apareceu no Hotel Hilton, de Salalah, a capital da província de Dhofar (no Sul), para me levar ao Empty Quarter.

Thesiger, apaixonado por bin Kabina e bin Ghabaisha, os seus ajudantes-de-campo que “pareciam meninas”, teria ficado igualmente desapontado com Mohamed. Este jovem, cujo rosto também “se iluminava quando sorria”, deixou a família no deserto para ganhar dinheiro na cidade e poder casar-se.

© geographical.co.uk

Não ficaria, contudo, tão desiludido se observasse a perícia com que Mohamed nos conduziu à “cidade perdida” de Ubar e às dunas, sem camelos nem beduínos, do Rub al-Khalil.

Silencioso ao volante — o seu inglês resumia-se a meia dúzia de palavras —, ele provou ter um excelente treino de observação. Apesar de haver já muitas marcas de pneus que serviam de sinalização, Mohamed conhecia, minuciosamente, o terreno.

A multiplicidade de pequenos tufos verdes e cinzentos faz com que todos pareçam iguais, mas Mohamed sabia distingui-los. E isso é importante para andar no caminho certo.

Um outro guia explicara que um simra, por exemplo, com as suas pequenas bagas vermelhas, comestíveis mas amargas, não é igual a um thermat, com bagas amarelas, que podem ser comidas pelos camelos mas não por pessoas.

Mohamed não se perdeu. Entusiasmou-se até com as raríssimas gotas de chuva que caíram numa parte do percurso, apesar de terem deixado a estrada mais escorregadia.

Ele era cauteloso e foi por isso que nos privou de ver o pôr do Sol. A província de Dhofar, onde o Sultão Qaboos bin Said teve de vencer uma rebelião nos anos 1970, ainda é uma zona de perigo. Pressente-se isso nos checkpoints e bases militares que nos acompanham até ao Empty Quarter.

O que não mudou nos Bedu e nos outros omanitas é o seu rigor no cumprimento dos preceitos islâmicos. Najib, com a sua dishdasha cor de salmão (só em serviço é obrigatório usar a túnica branca), fez Mohamed parar pelo menos três vezes numa tarde, para ambos se lavarem e rezarem virados para Meca.

Apoiado numa bengala, que lhe dava um porte de aristocrata, Naijb — “o meu pai deu-me este nome em homenagem ao escritor egípcio Naguib Mahfouz” —, fez questão de me explicar o ritual das orações aos “infiéis” que o acompanhavam.

© nasa.gov

Nem um nem outro se importaram de ser fotografados, na areia a olhar o céu, terminando cada prece com o louvor Allahu Akbar (Deus é grande!). Por vezes, parecia um murmúrio, outras um cântico. Na vastidão do deserto, eles estavam certos de que Alá ouvia as suas vozes e o nosso silêncio.

“A grande paz do Islão desceu suavemente sobre mim”, escreveu o explorador Philby depois de “possuído” pelo espírito do deserto e do seu povo. Thesiger relatou “a tranquilidade” que sentiu debaixo de um sol ardente.

Sentei-me nas dunas do Empty Quarter. Admirei a sua infindável geometria. As cores amarelo-ocre que as faziam reluzir. A textura suave onde pés se enterram.

Mas aqui não vi camelos (apenas na estância de Al-Sawadi, nos arredores de Mascate, a capital, no dia em que foi inaugurada uma pista de corrida). E os beduínos que encontrei não viviam em tendas, mas em casas de cimento construídas pelo governo.

“Algumas pessoas insistirão em que viverão melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista — eu não acredito nisso!”, frisou Thesiger em Arabian Sands.

Os bedu não são sentimentais. A vida no deserto é, realmente, demasiado dura para eles serem românticos como alguns ocidentais os imaginam. Há ainda muita miséria e doenças, e eles sobrevivem graças a extraordinárias qualidades de honra, confiança, amizade, irmandade, lealdade e hospitalidade.

Orgulhosos do que são, não têm medo da “civilização” a que se refere Thesiger. Dizem que apenas desejam uma “boa vida” com quatro “m” — medressa (escola); mustashfa (clínica), mesjid (mesquita) e mayy (água).

© alarabiya.net

CONDUZIR

Antes de pegar no seu todo-o-terreno e partir para uma aventura no deserto, informe alguém para onde vai e quando espera regressar. Transporte pelo menos cinco litros de água por pessoa. E prepare-se para o seu telemóvel não funcionar.

CAMINHAR

Se caminhar pela areia, adapte-se gradualmente, expondo-se ao sol por períodos curtos. Beba água frequentemente e coma refeições pequenas a intervalos regulares.

SEM RUMO

Se perder o rumo no deserto, fique dentro do veículo e sinalize a pedir ajuda. Se tiver de andar em busca de auxílio, espere até ao pôr-do-Sol e deixe um bilhete a dizer para onde foi. Se tiver água beba-a e não a poupe, para não desidratar.

DOENÇAS

Os três tipos de doenças mais associados à exposição do sol do deserto são: cãibras, exaustão e apoplexia (esta última fatal). Os sintomas, que podem tornar-se progressivamente mais graves, vão desde cólicas abdominais e espasmos musculares até náuseas, tonturas, enxaquecas, pele pegajosa, confusão mental ou perda de consciência.

BICHOS MAUS

Há vários insectos venenosos no deserto, mortais sobretudo para crianças e idosos, ou alguém com alergias. Entre os bichos mais perigosos que se podem encontrar está um escorpião pequenino e colorido, cuja mordedura causa erupções cutâneas e dificuldades em engolir e respirar. Há ainda várias espécies de aranhas, abelhas e formigas, que podem causar vómitos, dores de cabeças e outras reacções mais adversas.

NEM PERFUMES, NEM BRILHANTES

Para evitar encontros com criaturas nocivas, convém não pôr as mãos nem os pés em sítios que não sejam visíveis; abanar as roupas antes de as vestir; nunca andar descalço, perfumar-se ou usar roupas brilhantes.

ÁGUA, SABÃO E GELO

Quando não sabe o que lhe mordeu, o melhor é lavar a área infectada com sabão e água; aplicar gelo usando um pedaço de tecido para não haver contacto directo com a pele (não mais de dez minutos de cada vez). Quem não tiver a vacina do tétano (dez anos de validade), é recomendável ser vacinado 72 horas depois de qualquer mordedura desconhecida.

Sir Wilfred Thesiger
© pinimg.com

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Janeiro de 2001 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on January 21, 2001

A festa do Sultão antes da tempestade

Taimur governou Omã como um déspota. Tinha petróleo mas o seu carro era puxado por escravos. Os súbditos não podiam usar óculos de sol, nem guarda-chuvas nem sapatos. Foi assim de 1932 até 1970, quando o filho Qaboos bin Said o derrubou do trono. Trinta anos depois [em 4 de Novembro de 2000], os omanitas celebraram, no Majlis (assembleia consultiva) o fim do “reino da escuridão” e o “abençoado renascimento” de “Sua Majestade o Sultão”. (Ler mais | Read more…)

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Qaboos bin-Said al Said, o sultão de Omã, chegou majestoso: uma imaculada dishdasha (túnica nacional com um cordão ao pescoço embebido em perfume), uma capa preta debruada a ouro, um caleidoscópico mussar (turbante) enrolado na cabeça e uma khanjar (adaga de prata de ponta curva) presa à cintura.

Em Mascate, dezenas de convidados esperaram quase duas horas para ver e ouvir o homem que há 30 anos pôs fim a um “reino de escuridão” e implantou uma “monarquia iluminada”.

Ao assinalar três décadas no trono que retirou ao seu pai tirano, o sultão de Omã decidiu uma vez mais estabelecer a diferença em relação aos seus vizinhos árabes do Golfo Pérsico.

Ele, que foi dos primeiros a convencer os súbditos a aceitar mulheres no Majlis al-Shura (uma assembleia consultiva em que os membros são eleitos) e no Conselho de Estado (membros nomeados por decreto real), aproveitou o recomeço das sessões “parlamentares” para comemorar o que designou de “abençoado renascimento”.

Foi a primeira vez que Qaboos abriu as portas da assembleia a estrangeiros e o gesto ganhou ainda mais valor porque deu visibilidade aos “representantes do povo”, antecipando os festejos do Dia Nacional de 18 de Novembro.

Numa sala onde a electricidade dos 13 lustres do tecto se confundia com o sol que invadia os vitrais, um prolongado silêncio antecedeu a chegada do monarca.

A audiência repartida por cadeiras vermelhas (família real), cadeiras azuis (membros do parlamento e do Governo) e cadeiras bordeaux (os outros) remexeu-se quando, no exterior, uma banda militar tocou o hino da nação.

Duas portas abriram-se e entrou, acompanhado de seis oficiais, a figura mais importante do dia: baixinho, barbas brancas a sobressair num rosto moreno de olhos melancólicos.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

O sultão fez sentar os que se levantaram em sua honra, sentando-se ele próprio numa poltrona que se distinguia de todas as outras pela coroa e brasão no topo. O discurso foi breve: pouco mais de cinco minutos.

Prometeu continuar, “com a permissão de Deus”, o que chamou de “construção interactiva entre Governo e cidadãos”; reforçar e diversificar a economia (o gás natural está gradualmente a compensar o esgotamento das reservas de petróleo); melhorar a qualidade da mão-de-obra omanita (num país onde o número de expatriados não pára de crescer); e consolidar uma política externa de paz e cooperação “com os irmãos nos estados árabes e islâmicos e os [nossos] amigos em todo o mundo”.

Neste contexto, e sem nunca mencionar Israel, reafirmou o “direito dos povos árabes a recuperar os territórios ocupados em 1967”. Garantiu também o seu “apoio firme ao direito do povo palestiniano à autodeterminação e ao estabelecimento do seu Estado independente, no seu solo nacional, com Jerusalém como capital”.

A passagem é importante, porque Omã, que nunca acolheu palestinianos devido ao apoio que os líderes destes deram a uma rebelião na fronteira com o Iémen no final da década de 1960, foi o primeiro país árabe a suspender os laços com Israel após os bombardeamentos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, (em Outubro de 2000).

Já tinha sido a primeira monarquia árabe do Golfo a abrir uma missão comercial em Telavive e a permitir que os israelitas abrissem a sua em Mascate – ambas estão agora encerradas.

Faz parte do carácter independente deste país (que nunca se considerou um protectorado ou uma colónia, apesar dos muitos invasores) agir como lhe apetece em termos de política externa. Em 1978, por exemplo, não se importou de ofender os “irmãos” quando recusou cortar relações com o Egipto de Sadat por este ter assinado uma paz separada com Israel.

Em 1985, o sultanato, que era o país mais anti-soviético do Médio Oriente, foi o primeiro a enviar um embaixador para Moscovo. Nunca aceitou marginalizar o Irão – o poderoso vizinho no Estreito de Ormuz -, mantendo uma neutralidade que lhe garante estabilidade.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Os omanitas têm ainda um orgulho desmesurado na sua história, em particular no modo como derrotaram a supremacia portuguesa no Oceano Índico em 1622, depois de mais de um século de domínio luso, cujos vestígios arquitectónicos persistem nos fortes de Jalali (São João) e Mirani (Almirante) na baía de Mutrah, arredores de Mascate.

O orgulho maior está, porém, reservado aos últimos 30 anos de poder de Sua Majestade Qaboos. Afinal, foi ele que, em 1970, acabou com o governo déspota do seu emocionalmente instável pai, Said bin Taimur.

Este sultão, que não merece ser citado nas biografias do filho, transformou um país que foi um império – no seu apogeu, estendeu-se de África Oriental ao Baluchistão – num dos Estados mais atrasados do mundo.

Taimur teria escravos para lhe empurrar o carro (não usava combustível no depósito), proibia os súbditos de andar de bicicleta, de usar sapatos, óculos de sol ou guarda-chuva. Fechava os portões de Mascate três horas após o pôr-do-sol e os que se aventurassem a sair à noite tinham de andar com uma lanterna junto ao queixo para não serem atingidos a tiro pela polícia.

Só havia três escolas, primárias e todas para rapazes. Os que queriam estudar no estrangeiro precisavam de autorização especial, que quase sempre era recusada. Quando queriam regressar, não podiam, para não “contaminar” os outros com as suas ideias.

Tão desconfiado era Taimur que mandou o seu próprio filho estudar para a Academia Real Militar de Sandhurst, na Inglaterra e, quando ele regressou colocou-o sob prisão domiciliária num quarto do palácio.

Em 1970, Qaboos enfrentou o pai. Pediu tropas ao xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, à Jordânia e aos britânicos, e dinheiro aos sauditas, para esmagar uma insurreição, apoiada por chineses e soviéticos, em Dhofar (no Sul).

Unificou Omã e Mascate sob a designação de Sultanato de Omã. Mandou o pai para o exílio em Londres, onde este morreu, no esplendor ocidental que renegava, no Claridges Hotel.

Trinta anos depois, os omanitas agradecem a Qaboos o desenvolvimento que o petróleo permitiu, as auto-estradas, a educação gratuita para rapazes e raparigas, as dezenas de hospitais e clínicas, as instituições financeiras (uma aldeia pode ter duas agências bancárias) e a Internet, os inúmeros jardins e parques tratados por batalhões de trabalhadores asiáticos.

Ele é um monarca absoluto, mas sabe que a maioria dos seus dois milhões de súbditos o adora. Às vezes, escreveram a revista The Economist e o jornal The Washington Post, conduz ele próprio o seu BMW ou Land Cruiser (este é também o reino dos Toyotas) para, sem guarda-costas, ouvir os queixumes dos cidadãos.

Rahila Amer al-Riyami é uma das duas mulheres eleitas este ano para o Majlis al-Shura, assembleia que aconselha o sultão de Omã e onde a maioria dos 83 membros são homens. Formou-se em Sociologia e Psicologia no Cairo e é com sotaque egípcio que exalta as qualidades do seu soberano.

“Antes de Sua Majestade subir ao trono [em 1970], as raparigas não iam à escola. Agora são metade dos alunos nas universidades. Fazem parte do parlamento, do Governo, da polícia e das Forças Armadas”.

Qaboos bin-Said, o monarca, exortou as mulheres a participar na vida política e ela aceitou o conselho. Com um sorriso matreiro, congratula-se de ter obtido mais votos do que um candidato masculino. Não desvaloriza o seu futuro cargo, de reduzidos poderes. “Temos de ir passo a passo: se saltarmos, caímos.”

[O “pacífico” reino de Qaboos, sempre retratado como um oásis de estabilidade numa região turbulenta, começou a enfrentar a fúria dos súbditos em 2011, após as revoltas populares a chamada “Primavera Árabe” em 2011.

Dezenas de opositores foram detidos, alguns beneficiando posteriormente de um indulto, outros a quem foi negado o perdão por terem ousado “difamar” o próprio sultão que, apesar de uma grave crise económica e um elevado desemprego de jovens licenciados, recusou reformas políticas e partilhar poderes.

Ele, sem herdeiro designado e doente, permanece chefe do governo, ministro dos Negócios Estrangeiros, das Finanças e da Defesa, comandante supremo dos militares e até governador do Banco Central.]

 

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto, com um título diferente e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Novembro de 2000 | This article, now revised, under a different headline, and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 5, 2000.

Hafez al-Assad (1930 : 2000): Ele preferia ser temido do que amado

Nas ruas, cidadãos despediram-se com lágrimas do “Leão de Damasco”. No Parlamento, deputados exibiam dor. Na televisão, um locutor chorou ao dar a notícia da morte do homem a quem Henry Kissinger chamava “Esfinge”. Patrick Seale, o biógrafo, disse convictamente que o Presidente sírio “não morreu derrotado”. (Ler mais | Read more…)

© Manu Brabo

© Manu Brabo

O destino pregou uma partida ao homem que, metodicamente, planeou a sua vida. A morte bateu à porta do Presidente sírio, Hafez al-Assad, às 11 horas da manhã [de 10 de Junho de 2000] em Damasco, uma semana antes de o seu filho, Bashar, ser elevado ao comando regional do Partido Baas, no poder.

Como se houvesse já um meticuloso plano, o Baas logo modificou a Constituição para garantir que pelo menos um dos desejos de Assad fosse cumprido: o futuro líder não precisa de ter 40 anos mas só 34 (a idade de Bashar quando o pai saiu de cena, e não necessita de ser membro do comando regional. Basta-lhe ser um árabe.

Assad, que morreu de (mais um) ataque cardíaco (um médico libanês próximo da família enumerou outras doenças de que o líder padecia: linfoma, diabetes e insuficiência renal), conseguiu com esta sucessão um dos seus principais objectivos, já que outras ambições ficaram por realizar.

Como a de recuperar os Montes Golã, perdidos quando era ministro da Defesa em 1967, ou a de ver o mundo árabe unido, sob a sua liderança, contra o domínio de Israel no Médio Oriente.

Em todo o caso, é indiscutível que em 30 anos de regime, Assad com os seus cinco mandatos consecutivos de sete anos (a última eleição foi em 1999, com mais de 99% dos votos) marcou de forma indelével a região onde nasceu em 6 de Outubro de 1930.

A “extraordinária consistência”, realçada pelo seu biógrafo, o jornalista britânico Patrick Seale [1930-2014], era admirada até pelos inimigos.

A imagem que projectava de um homem introspectivo, calculista e duro terá sido moldada pelas montanhas agrestes de Qurdaha, a aldeia natal no norte da Síria. Aqui tudo tinha de ser conquistado.

“Cada campo tinha de ser desbravado com muito suor e cada homem era dono do seu cantinho e da sua arma”, escreveu Seale na biografia presidencial, Asad: The Struggle for the Middle East.

Hafez al-Assad e a família que deu ao mundo árabe a primeira dinastia republicana
© Business Insider

Os primeiros anos de Assad foram passados fora de casa, em cima de um burro, a caminhar pelos campos, ajudando a regar colheitas ou a colher frutos, ou a vaguear com outras crianças.

O carisma terá sido herdado do avô, Suleyman, e do pai, Abu Suleyman, camponeses fortes e respeitados, que serviam de mediadores em disputas entre aldeões e por isso subiram na escala social. A promoção foi assinalada em 1927, quando o apelido da família, Wahhish (Selvagem) – conquistado pelo avô numa luta com um pugilista turco – , mudou para Assad (Leão).

O pai de Hafez era o centro da sua vida. Na aldeia, só Ali Suleyman sabia ler. Seguia atentamente a II Guerra Mundial, assinalando com alfinetes os locais de batalha num mapa afixado no quarto de Assad.

Aos 70 anos, prendia um papel de cigarro a uma árvore e, com a sua arma, desfazia-o em pedaços, para admiração dos miúdos. Os filhos beijavam-lhe a mão pela manhã, não se sentavam na sua presença e, já crescidos, não se atreviam a fumar diante dele. Ali Suleyman era sobretudo obedecido e foi com ele que Assad aprendeu o lema: “Mais vale ser temido do que amado”.

Discípulo fiel do Partido Baas, criado em 1940 por dois professores damascenos (o cristão Michel Aflaq e o sunita Salah al-din al-Bitar), Assad defendia uma visão de Estado nacionalista, secular, socialista e pan-árabe.

Desde o golpe de Estado (“revolução”) de 1963 (já com Assad como chefe de facto da Força Aérea) até 1970, o Baas foi caracterizado por lutas internas durante as quais líderes rivais exploravam os seus laços tribais e regionais.

Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), de Londres, “estas lutas coincidiam, habitualmente, com lealdades sectárias, uma vez que as tribos pertenciam, de um modo geral, à mesma seita”.

Um exemplo foi o fracassado golpe, em 1966, levado a cabo por partidários – a maioria dos quais drusos – do general “baasista” druso .

Hafez al-Assad com Muammar Kadhafi da Líbia (ao centro) e Anwar al-Sadat do Egipto (à esq.)
© syrianfreepress.files.wordpress.com

As lutas resultaram primeiro numa vitória dos rivais alauitas de Assad, em 1970, e depois na suprema ascensão deste ao poder no ano seguinte. O golpe de 1971 foi o último de uma sequência que desestabilizou a Síria desde a independência ganha à França em 1946.

Posteriormente, outros tentaram derrubar Assad, mas em vão.A estabilidade é reconhecida pelos sírios que ontem, nas ruas ou nos bancos do Parlamento, choraram a morte do “Leão de Damasco”.

O seu poder foi, no entanto, consolidado à força de repressão. Uma ubíqua polícia secreta prevenia ameaças, reais ou imaginárias. A maior ameaça proveio da Irmandade Muçulmana, que pertence à maioria sunita da população (57% de nove milhões) e que Assad esmagou em 1984, após uma rebelião na cidade de Hama.

Os sunitas, excepto talvez as classes comerciais, sempre olharam para os alauitas (11% dos habitantes) como uma seita xiita herege. E Assad, para se proteger, integrou no seu círculo outras minorias – ismailis, drusos, curdos, circassianos, cristãos ortodoxos e arménios – que com ele prosperaram.

O regime sempre  desmentiu práticas sectárias, mas nota o IEEI, sob a Presidência de Assad, o grosso dos soldados nas unidades de elite são alauitas e a maior parte das posições-chave são ocupadas por alauitas, sobretudo os do clã do defunto chefe de Estado.

Num país sem conceito de “nacionalidade síria”, os lideres sempre confiaram nas relações de comunidade, tribo e clã, consideradas centrais nesta sociedade. Isso é reflectido na predominância dos oficiais alauitas.

As reformas de liberalização económica iniciadas no início dos anos 1990 terão sido parcialmente introduzidas para persuadir as “minorias protegidas” a manter o statu quo.

O código de investimento foi mudado para permitir que empresas sejam totalmente controladas por estrangeiros e que investidores beneficiem de uma taxa de câmbio de mercado livre.

A campanha anticorrupção – “menina dos olhos” de Bashar – faz parte deste movimento de reforma, necessário para sanear uma economia que, depois de um sólido investimento, desacelerou nos últimos três anos, com previsões de recessão.

A queda nos preços do petróleo reduziu as receitas em cerca de 30 por cento em 1998, e o crescimento populacional (mais de 3,5%/ano, uma das maiores taxas do mundo) contribuiu para uma subida acentuada do desemprego e declínio dos serviços sociais.

Se a tendência persistir, refere o IEEI, a população será de 32 milhões em 2025. E, como os recursos são poucos, haverá certamente escassez de água. A seca dos últimos anos só serviu para agravar a situação.

Esta é uma das razões por que Assad não pôde abdicar do Mar da Galileia. Nas negociações com Israel, retomadas em Dezembro após um hiato de quase quatro anos e suspensas de novo em Janeiro, Assad bateu com a porta quando o primeiro-ministro israelita, Ehud Barak, lhe apresentou uma proposta de retirada dos Golã que não lhe devolvia o controlo do Lago de Tiberíades, um dos maiores reservatórios de água de Israel.

Barak, enfraquecido por uma crise de governo, não aceitou recuar até às fronteiras da guerra de 1967, como Assad exigia. Assad, que há vários anos disputa a água do Rio Tigre com a Turquia, onde o rio nasce, também não cedeu, mesmo que a paz tenha sido por ele proclamada “opção estratégica”.

Saddam Hussein, presidente do Iraque (e líder de uma facção rival do Partido Baas, em Bagdad), e Yasser Arafat, líder da OLP: os dois principais inimigos de Hafez al-Assad
© anp-archief.nl

Advogado da unidade árabe (a Síria, sob a sua liderança formou com o Egipto uma República Árabe Unida, que apenas durou de 1958 a 1961), Assad nunca perdoou a “traição” de Anwar el-Sadat, o primeiro a fazer a paz com Israel, em 1979. Preferiu morrer com a “honra intacta”, sem imitar o exemplo de um dos seus maiores rivais, o presidente da Autoridade Palestiniana e líder histórico da OLP, Yasser Arafat [1929-2004].

A aliança estratégica que, dois anos depois, a Síria estabeleceu com o Irão (xiita, como os alauitas) permitiu-lhe usar a milícia Hezbollah no Líbano como forma de pressão sobre Israel. O trunfo caiu-lhe das mãos em Maio [de 2000] quando a guerrilha xiita forçou os soldados israelitas e a sua milícia a abandonar o Sul do Líbano sem restituir os Golã à Síria.

Ainda assim, Assad não abriu o jogo. Enquanto os israelitas o ameaçavam com “duras represálias”, ele instruiu as organizações palestinianas pró-sírias a manterem-se quietas.

Consciente de que os seus 35 mil soldados e cerca de um milhão de trabalhadores sírios são agora o alvo após a retirada israelita, mandou sair das ruas os uniformes militares para os substituir por fardas civis dos mukhabarat (agentes secretos).

Continuou, entretanto, a enviar sinais de que estaria disposto a reatar as negociações com Israel. Assad não suportava a ideia de Arafat avançar em detrimento da Síria.

Foi para diminuir a influência de Arafat no Líbano que ele armou o Movimento Amal (xiita) e lhe ordenou que durante três anos (1985-1987) bombardeasse insistentemente os mais de 300 mil refugiados palestinianos.

A “guerra dos campos” causou mais mortos (vários milhares) do que a invasão israelita de Beirute e subsequentes massacres pela milícia Kataeb falangista pró-israelita em Sabra e Shatila. Inquirido pelo biógrafo Seale sobre a razão desta matança, Assad respondeu: “A Palestina é demasiado importante para ser deixada aos palestinianos”.

Assad, o trabalhador incansável que não fumava nem bebia álcool, baralhava todos com as suas estratégias. Quando amigos e adversários pensavam ter decifrado os seus desígnios, ele mudava de rota. Era paciente e sabia esperar pelo melhor momento de “devorar a sua presa”, segundo a descrição de um analista.

Hafez al-Assad com Richard Nixon (à esq.) e Henry Kissinger (à dir.) – o secretário de Estado americano a quem ele obrigava a ouvir, durante horas, a sua versão da história do Médio Oriente quando o recebia em Damasco
© pinimg.com

Nos anos 1980, Assad forçou a retirada de Israel e dos Estados Unidos do Líbano com bombas, assassínios e ataques suicidas cometidos por grupos islamistas apoiados por Damasco.

Em 1990-91, porém, órfão da extinta União Soviética, juntou-se aos Estados Unidos na segunda guerra do Golfo contra Saddam Hussein e aceitou participar numa conferência de paz com Israel em Madrid.

Em troca recebeu 2000 milhões de dólares da Arábia Saudita e o controlo do Líbano onde, em 1990, pôs fim a 15 anos de uma guerra civil que a Síria ajudou a alimentar. “Era um homem de princípios”, assegurou Patrick Seale, o biógrafo.

Assad conformou-se em não alcançar a paridade militar com a “entidade sionista” e desistiu de competir pela ainda mais inatingível hegemonia económica. Não se sentia, todavia, um homem derrotado. “Um dos seus maiores legados foi nunca ter aceitado o domínio político de Israel no Médio Oriente”, realça Seale.

“A morte levou da Síria um líder”, disse um locutor da televisão nacional. O papel tremia-lhe na mão. A voz embargou-se de emoção. As lágrimas chegaram aos olhos. “A tristeza está nos corações de cada homem, mulher e criança, porque a sua herança de actos e ideias é um planeta que há-de brilhar não só nesta geração como nas próximas”.

Hassan II [1929-1999] morreu em Marrocos. Hussein bin Talal [1935-199] morreu na Jordânia. Hafez el-Assad morreu na Síria. Uma era está a chegar ao fim no Médio Oriente, e a “geração Internet” chega ao poder: Mohammed VI em Rabat, Abdullah II em Amã e Bashar em Damasco.

Hafez al-Assad com Leonid Brejnev, secretário-geral do Partido Comunista Soviético – a URSS sempre foi o maior aliado da Síria
© Al-Ahram Weekly

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 11 de Junho de 2000 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 11, 2000

Gebran Tueni: “A retirada de Israel do Líbano foi também uma derrota da Síria”

Os soldados da dinastia Assad no Líbano têm de voltar à Síria. Como os de  Ehud Barak se retiraram para Israel. Este é o pedido do director do An-Nahar, um dos mais prestigiados e influentes diários do Médio Oriente. Relações futuras “terão de ser entre dois Estados soberanos”.  (Ler mais | Read more…)

Grebran Tueni, um dos maiores críticos da presença militar síria no Líbano, seria assassinado por ordem de Damasco cinco anos depois deste entrevista, em dezembro de 2005
© gebrantueni.com

Num país onde o nome de Hafez al-Assad tem ser sussurrado, porque intocável, o líbanês Gebran Tueni ousa pronunciá-lo com todas as letras.

Ao contrário de outros compatriotas, o carismático director do diário An-Nahar, de Beirute, não parece ter medo do Presidente sírio. Pelo contrário, arriscou mesmo escrever ao filho herdeiro da “dinastia” alauita em Damasco, Bashar, aconselhando um “reposicionamento” das suas tropas no “País do Cedro”.*

Depois da retirada israelita da “zona de segurança” ocupada, forçada pelo movimento xiita Hezbollah, Tueni quer que a Síria trate o Líbano como “aliado”, não como “agente”.

Cabelo domado com brilhantina, bigode negro num rosto de cera, pulseira de ouro a espreitar do pulso esquerdo, charuto aceso num cinzeiro de prata, Tueni tem quase a figura de um “padrinho” de Francis Ford Copolla, apenas na aparência física

Este “D. Corleone de Beirute” – sem ofensa – impressiona pela eloquente arrogância, seguro de que o nome da família que, em 1933, fundou um dos mais prestigiados jornais do Médio Oriente lhe dá blindagem contra as investidas de Assad.

Ele não exige a partida “imediata” dos cerca de 35-40 mil soldados sírios, que chegaram em 1976, a pedido dos cristãos, receosos que o influxo de refugiados palestinianos desequilibrasse o débil equilíbrio confessional num país também ele frágil.

“Não queremos impor a [Assad] duas derrotas consecutivas”, disse-me, numa entrevista.

Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro retiraram o último contingente. © Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images

Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de 1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro foram forçados a retirar o seu último contingente
© Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images

Para Tueni, um católico maronita que tem ambições políticas à medida do seu grande império editorial e financeiro, a libertação do Sul do Líbano “foi, definitivamente, uma derrota não só de Israel, mas também da Síria”.

Damasco sempre usou os libaneses para recuperar os Montes Golã e não conseguiu o seu objectivo. Só um couraçado como Tueni poderia enfrentar deste modo o “Leão de Damasco”, sobretudo porque ele não esconde ser discípulo de Michel Aoun**.

Não que os cristãos libaneses tenham boas recordações deste general que quase exterminou a comunidade, quando disputou a liderança dos maronitas em sangrentas batalhas, em Metn e Kesrouan, contra o rival Samir Geagea.

O único mérito de Aoun tinha sido a coragem de [26 anos antes] ter desafiado o poder sírio. Por essa afronta, Aoun foi obrigado a uma fuga humilhante do palácio presidencial de Baabda e do país – procurou exílio em França.

Geagea [cujo nome se pronuncia “JáJá”] foi, por seu turno, condenado a cumprir três penas perpétuas – um castigo pela deslealdade a Damasco, não pelos vários massacres cometidos como chefe da extinta milícia falangista.***

Tueni só vislumbra uma razão para o Governo central protelar o envio de de tropas libanesas para o Sul do país: “Os sírios estão a tentar encontrar uma nova estratégia regional”, porque “ficaram fora de jogo” com a precipitada retirada israelita. Damasco “perdeu o seu campo de batalha”.

A partir de agora, se houver incidentes, quem pagará o preço, perguntou o político-jornalista visionário: os libaneses, os sírios no Líbano ou os sírios na Síria?

Os libaneses, garantiu Tueni, neto e homónimo do fundador do An-Nahar, não irão tolerar mais violência. Não querem continuar a ser vítimas. Israel, “espectador interactivo” na fase actual, deve tomar consciência de que qualquer ataque contra interesses sírios terá um profundo impacto sobre o regime em Damasco.

A Síria, que continua a ser um “actor”, também sabe que “a sua posição não é tão forte como era antes da retirada israelita”. Por isso, Hafez al-Assad “procura adiar soluções”, porque “não tem grande margem de manobra”.

Tueni acredita que os Estados unidos forçaram os israelitas a aceitar as condições libanesas para uma retirada unilateral. Talvez tenham percebido que “Hafez al-Assad já não é o mestre do jogo”, e Washington não quer desperdiçar energias com Damasco, quando pode “avançar aos soluços” com o processo palestiniano.

Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes. ©Hussein Malla|Associated Press

Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes
© Hussein Malla|Associated Press

A posição irredutível de Hafez al-Assad (retirada total israelita dos Golã até à fronteira da guerra de 1967, incluindo ao Lago de Tiberíades/ Mar da Galileia, principal recurso aquífero de Israel) “acabou por ser benéfica” para o primeiro-ministro israelita, Ehud Barak.

Este cumpriu a promessa eleitoral de “retirar os rapazes” do Líbano, não devolveu os Golã (onde a maioria dos colonos pertence ao seu Partido Trabalhista) e só dá o que quer aos palestinianos.

Para o Líbano, Tueni preconiza o reposicionamento das tropas sírias no Vale de Bekaa (o Acordo de Taif, que deve o seu nome à cidade saudita onde foi assinado e que, em 1990, pôs fim a 15 anos de guerra civil estipula esta solução, mas não a aplicou) -, até que os governos de Damasco e Beirute  estejam em condições de mudar o carácter das suas relações bilaterais. ****

Gebran Tueni escreveu a Bashar al-assad [responsável pelo dossier libanês antes de assumir a presidência síria] – para dizer ao filho de Hafez que o Líbano quer ver restituída a sua soberania. Ao fazê-lo, irritou o seu pai, Ghassan Tueni (1926-2012), jornalista, deputado e ministro, várias vezes preso por enfurecer poderes.

Em 1976, tropas sírias ocuparam a redacção do An-Nahar e suspenderam a publicação por 18 dias. Para evitar a censura de Damasco, o jornal passou a ser editado em Paris, mas, em 1978, foi relançado em Beirute, sob a direcção de Gebran Tueni.

Em 1981, a guerrilha palestiniana expulsou o diário de Beirute ocidental. Em 1982, durante a invasão israelita, a sede do jornal foi bombardeada e a publicação foi novamente suspensa.

Em 1984 e em 1990, milícias armadas acabaram com o An-Nahar, mas este renasceria em 1992, seis décadas depois de ter sido criado com 50 moedas de ouro, quatro páginas e cinco jornalistas: de 500 exemplares no início,  tem agora [em 2000] uma circulação de quase 50 mil.

Gebran Tueni, aqui na redacção do An-Nahar, o jornal fundado pela sua família, era um católico maronita com ambições políticas
© An-Nahar English

*Em 26 de Abril de 2005, os últimos soldados sírios – de um total estimado em 40 mil que se instalaram desde 1976 no Líbano – deixaram o país vizinho. Com o fim de 29 anos de domínio começou, por outro lado, uma série de atentados visando figuras críticas da dinastia Assad – um deles  Gebran Tueni, em 12 de Dezembro. Em Junho, o mais famoso cronista do ‘An-Nahar’, Samir Kassir, foi também assassinado, o mesmo destino do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em Fevereiro.]

** Aos 81 anos e numa ironia da história, Michel Aoun seria eleito Presidente em 2016, apoiado por antigos inimigos, como o Hezbollah, a milícia pró-iraniana que apoia o regime de Damasco.

*** Em 2005, Samir Geaga foi amnistiado dos crimes de guerra que cometeu e continuou a liderar  as Forças Libanesas, o segundo maior partido cristão. O seu colega Elie Hobeika, que matou centenas de palestinianos em Sabra e Shatila, ascendeu a ministro, mas seria morto, em 2002, aos 45 anos, quando um carro armadilhado explodiu junto da sua residência no bairro de Hazamiyeh, em Beirute. O atentado foi reivindicado por um grupo que o acusava de ser um colaboracionista ao serviço de espiões sírios.

**** Só em 13 de Agosto de 2008, com Bashar al-Assad no poder, Damasco aceitaria estabelecer laços diplomáticos com Beirute, abdicando do plano da ‘Grande Síria’.

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni

Este artigo, que teve a colaboração de Graham Usher, agora revisto, actualizado e com outro título, foi publicado no jornal PÚBLICO em 3 de Junho de 2000 | This article, now updated, revised, and under a different headline, was published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 3, 2000 (Graham Usher contributed to this report)

Morte e ressurreição em Beirute

Mil vezes morremos, mil vezes sobrevivemos, dizem os libaneses. E Beirute tem sido prova dessa resistência. Mesmo que a crise económica só tenha beneficiado os ricos e corruptos. Os pobres ficaram mais pobres. Que o diga o engenheiro de fibra óptica Khaled Bashashi, que se tornou taxista profissional. (Ler mais | Read more...)

© Zena Assi artofthemideastdotcom.wordpress.com

© Zena Assi
artofthemideastdotcom.wordpress.com

Há questões no Líbano que não têm resposta. Interrogam-se os estrangeiros como é que um país onde a loucura colectiva disparou balas e morteiros a cada esquina pode ser habitado por um povo tão amigo e hospitaleiro.

A prova física da guerra que acabou em 1990 está em toda a parte, sobretudo em Beirute, a capital. Está nos edifícios bombardeados, nas estradas cortadas e esburacadas, nos tanques e checkpoints. A herança psicológica estará algures. Menos visível.

“Nós, os libaneses, morremos mil vezes e mil vezes renascemos”, exulta Mariam (só assim se identifica), dona-de-casa de profissão, classe média-alta, olhos GANT e pés DKNY, marcas registadas no corpo e compradas no estrangeiro.

De facto, dizem analistas, os libaneses, mais do que sobreviver, parece que florescem, com os seus carros desportivos que consomem litros de gasolina, a sua irresistível atracção por jóias e porte impecável. Sobretudo os da classe de Mariam, cristãos maronitas como ela, ou até muçulmanos sunitas como Ezzat Kabbara, próspero agente de navegação de Trípoli, no Norte.

“Os libaneses”, escreveram Carol Cadwalladr e Anna Sutton, em Lebanon (Traveller’s Survival Kit), têm um talento especial” para o dinheiro. “Sabem como o gastar, como o esconder e sobretudo como o fazer.”

© Zena Assi artofthemideastdotcom.wordpress.com

© Zena Assi
artofthemideastdotcom.wordpress.com

O Líbano é um país sem recursos naturais, embora estrategicamente importante. Aqui existem pessoas escandalosamente ricas.

A guerra criou uma “liga de milionários” dos campos de ópio do Vale de Bekaa, passando pela especulação imobiliária até ao tráfico de armas. Sobre o comércio de drogas, ninguém contesta que no auge da guerra civil o vale de Bekaa estava literalmente coberto de plantações de haxixe e ópio.

Nem valia a pena guardar segredo porque todas os partidos políticos, excluindo talvez os comunistas (de base xiita), tinham as mãos nestas lucrativas colheitas. As receitas financeiras eram imensas. Os lucros eram usados para comprar arsenais, e até políticos ao mais alto nível estavam envolvidos.

Conta-se que um incidente diplomático foi evitado in extremis quando a bagagem do antigo presidente da República Suleiman Frangieh foi revistada com demasiado zelo por uma alfândega nos Estados Unidos.

Os cerca de 35 mil soldados sírios no Líbano – eles deixam-se ver nos vários checkpoints [até 2005, quando foram forçados por uma revolta popular a uma retirada total] decorados com as fotografias do Presidente Assad – terão conduzido uma maciça campanha de limpeza em Bekaa, sob pressão dos Estados Unidos.

No entanto, garantem conhecedores da realidade libanesa, o negócio apenas passou a ser clandestino, transferido para o cume das montanhas ou camuflado entre espigas de trigo.

O preço do ópio é ainda 500 vezes superior à quantia que os agricultores recebem se cultivarem milho. Além disso, desde tempos imemoriais que se fuma haxixe em Bekaa e também na capital.

© Zena Assi artofthemideastdotcom.wordpress.com

© Zena Assi
artofthemideastdotcom.wordpress.com

Um exemplo é o Beirute Rock Café, um restaurante onde um empregado com o singular nome de Jihad Noon corre de mesa em mesa com o lume em brasa e o adequado aparelho para fumar – o narguilé.

No Beirute Rock Café, as suas cadeiras alinhadas numa varanda debruçada sobre o mar, os abastados de Beirute exibem o que têm de melhor. Raparigas com os rostos pesados de maquilhagem e os corpos leves de vestuário trocam olhares sedutores com rapazes carregados de ouro do pescoço aos pulsos.

Em Beirute, a minissaia convive bem com o chador negro. As mulheres não são fisicamente ameaçadas, embora tenham de recusar a atenção desmedida que lhes querem dispensar. Os homens libaneses, avisam os guias turísticos, confiam no seu charme e são persistentes.

Seja qual for a resposta, eles continuarão a oferecer-se para pagar o jantar. No Líbano, observaram Carol Cadwalladr e Anna Sutton, “todos os homens se sentem Don Juan; no entanto, muitas mulheres solteiras garantem que são virgens – alguém estará a mentir”.

A ostentação deste povo de comerciantes está, porém, camuflada sob uma crise económica. Veja-se o caso de Khaled Bashashi, engenheiro especializado em fibra óptica que concluiu o seu curso de sete anos em 1987, ainda durante a guerra. No mesmo ano emigrou para Genebra, mas só encontrou trabalho como paquete de armazém.

Em 1991, Khaled regressou à pátria, arranjou trabalho na sua área, mas o salário era apenas de 300 dólares/mês. Em 1993, decidiu tornar-se motorista de táxi.

“Não lamento a reviravolta. Agora ganho 1500 dólares/mês, não é muito, mas dá para sustentar mulher e dois filhos. Como engenheiro já estou ultrapassado. No meu tempo não havia telemóveis.”

© Zena Assi artofthemideastdotcom.wordpress.com

© Zena Assi
artofthemideastdotcom.wordpress.com

Com a crise em crescendo, nas ruas de Beirute, muitos ansiavam pelo regresso do primeiro-ministro Rafic Hariri [que seria assassinado em 2004, alegadamente por ordem de Damasco, por exigir – já fora do Governo – o reconhecimento da soberania libanesa pelo país vizinho]. O supermilionário libanês-saudita injectou milhões de dólares no país logo após o fim da guerra civil, em 1990.

Hariri caiu nas más graças dos patronos sírios e foi substituído por outro sunita, Selim el-Hoss. Hariri é o pai da Solidere, a companhia privada de cem mil accionistas que abriu o maior estaleiro do mundo em Beirute.

A cidade, em particular o centro, foi reconstruída em 4,4 milhões de metros quadrados. Mas os preços elevados dos imóveis tornam-nos inacessíveis e outros nem sequer foram acabados.

O erro de Hariri foi acreditar que a paz Líbano-Síria-Israel seria conseguida em três anos. Hafez al-Assad [que morreria de ataque cardíaco no mesmo ano da retirada unilateral das tropas israelitas] trocou-lhe as voltas e os números assustam: 22 mil milhões de dólares de divida pública, ou 125% do Produto Interno Bruto [em 2000].

Em 1999, pela primeira vez na sua história, o Líbano registou um crescimento negativo. A vida em Beirute é tão cara como em Nova Iorque, queixam-se habitantes e turistas. Há dez anos, era das mais baratas cidades do mundo.

Os ricos talvez estejam mais ricos e corruptos. Os pobres continuam pobres. A classe média sente sufoco.

No entanto, do leste ao oeste da velha “linha verde” que separava os combatentes da guerra civil, Beirute continuou a encher-se de betão. E continuou fracturada em pequenos segmentos, exclusivos de cada comunidade (cristãos, muçulmanos xiitas e sunitas, drusos…), como se uma cintura de pequenas Beirute competissem entre si.

 Zena Assi e a sua série ‘Beirut’:

Websitehttp://www.zenaassi.com/

Emailza@zenaassi.com

As suas obras são vendidas aqui:

Art Sawa, Dubai; Alwane Art Gallery, Beirute.

Zena Assi, artista libanesa, nasceu em 1974. As suas obras têm sido vendidas com sucesso pelas leiloeiras Sotheby’s e Christie’s. Os seus temas são variados, mas a série dedicada a beirute é considerada um dos seus trabalhos mais extraordinários  © savatier.blog.lemonde.fr/

Zena Assi, artista libanesa, nasceu em 1974. As suas obras têm sido vendidas com sucesso pelas leiloeiras Sotheby’s e Christie’s. Os seus temas são variados, mas a série dedicada a Beirute é considerada um dos seus trabalhos mais extraordinários.
© savatier.blog.lemonde.fr/

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Junho de 2000 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 1, 2000

Viagem à Hezbollândia

O “êxodo” israelita transformou o Sul do Líbano numa atracção. É como estar numa zona de guerra sem guerra. Na “zona de segurança” desocupada, os cristãos esperavam protecção do Estado depois do colapso da milícia do general Haddad. Os xiitas do Hezbollah proclamam vitória. (Ler mais | Read more…)

Cerimónias do “Dia da Resistência e da Libertação”, em Nabatiyeh, no Sul do Líbano, onde o Hezbollah e o seu líder, Sayyed Hassan Nasrallah (no cartaz), foram vitoriosos na lutra contra a ocupação israelita
© Ali Hashisho | Reuters

Nassim Sayeh lembra-se de, onze anos antes, terem batido à sua porta na aldeia cristã de Al-Mashab. Os mensageiros traziam uma lista com os nomes dos “convidados” a ingressar no Exército do Sul do Líbano (ESL), a milícia pró-israelita na “zona de segurança” agora desocupada.

Sayeh, na época intérprete do batalhão sueco da Força Interina das Nações Unidas no Sul do Líbano (UNIFIL), recusou o convite.

Os mensageiros partiram, mas voltaram nos dias seguintes. “Cansei-me de esperar pela morte”, confessa Sayeh no jardim da sua vistosa moradia, onde os visitantes são acolhidos com café, ameixas, bolos e laranjada.

“Só podíamos sair e entrar com autorização especial do general [Saad] Haddad [o comandante do ESL] e quando saíamos, os outros olhavam para nós com suspeição, como traidores”. Alguns dos familiares, amigos e vizinhos de Sayeh não resistiram ao “terror psicológico”.

Ele arranjou maneira de se libertar da sua “prisão”. Graças a contactos pessoais com os capacetes-azuis de Estocolmo na UNIFIL, conseguiu um visto turístico para entrar na Suécia. Numa semana, teve a “sorte grande” de receber uma licença de trabalho e posteriormente cidadania.

Ao Sul do Líbano, regressava todos os anos na Primavera-Verão, para passar um mês com a família, dividida entre Al-Mashad e Beirute.

Nas férias deste ano, iniciadas há uma semana e meia, estava ele de novo na casa da mãe – uma corpulenta mulher com a Virgem Maria de ouro ao pescoço -, quando recebeu um telefonema.

Era o seu irmão, general no Exército regular libanês, a avisá-lo de que o ESL estava prestes a render-se e que o Hezbollah iria entrar na aldeia.

“Foi uma noite de pesadelo, para mim que só tinha visto tipos do Hezbollah na televisão”, recorda. “Famílias inteiras fugiram, em pânico, para Israel. Eu mantive o sangue-frio. Contactei os padres e as freiras e todos juntos combinámos com o movimento xiita a melhor maneira de agirmos”.

Um soldado israelita patrulha um checkpoint, próximo da fronteira com o Sul do Líbano, de onde o Tsahal foi obrigado pelo Hezbollah a retirar-se em 2000
© Baz Ratner | Reuters

A coordenação resultou. Não houve ataques vingativos, não houve banho de sangue. Os que permaneceram trancados dentro de suas casas reapareceram quando a milícia debandou ou se rendeu, para saudarem a vitoriosa guerrilha.

Em 1978, quando o ESL entrou na aldeia, os cristãos também haviam ajudado as famílias muçulmanas a escaparem a eventuais tormentos. Embora a milícia tivesse batalhões xiitas e brigadas drusas.

Hoje, 22 anos depois, Sayeh, técnico de informática em busca de noiva, diz que o fim da ocupação “foi o melhor que podia ter acontecido”.

A retirada israelita foi, todavia, tão precipitada que ele sente desdém pelos invasores. “O ESL fez-lhes o trabalho sujo e depois abandonaram-nos à sua sorte. Exploraram os mercenários durante os 22 anos, mas nem 22 minutos lhes deram para escapar. Se eu fosse do ESL teria vontade de matar um ou dois soldados israelitas”.

Sayeh teve conhecimento de que alguns aldeões de Al-Mashad que fugiram para Israel tencionavam regressar. Os combatentes para serem julgados; os condenados para cumprir “penas ligeiras”; os seus familiares para refazerem vidas destroçadas.

“Eles não querem ser tratados [por Israel] como palestinianos”, exclamou Sayeh, com o sarcasmo de quem conhece a realidade nos territórios ocupados da Cisjordânia e Faixa de Gaza.

“Fui lá [a Israel] como turista, com passaporte sueco, não como libanês”, justifica-se. Com a pele bronzeada por 30 graus à sombra, os olhos azuis de Sayeh enchem-se de orgulho ao exaltar as qualidades da sua pátria adoptiva.

“Sabiam que um ex-primeiro-ministro na Suécia tem de esperar a sua vez na fila do aeroporto para fazer o check-in?

No Líbano, um ex-primeiro-ministro anda com 150 guarda-costas e uma coluna de Mercedes atrás dele. A corrupção é o que me mantém fora daqui”. E também o facto de não haver aqui o sentimento de pertencer a uma nação.

“Os libaneses são leais à família em primeiro lugar, depois à sua religião e por último ao Estado”. Em todo o caso, ele espera que o Estado assuma em breve a sua responsabilidade no Sul “libertado”.

O Hezbollah celebra a retirada israelita do Sul do Líbano, em 2000. Criado, armado e financiado pelo Irão, o Partido de Deus é hoje uma das mais importantes forças políticas libanesas
© AP

As pessoas precisam de se sentir protegidas. “Os xiitas do ESL têm o Hezbollah e o [movimento] Amal; os drusos têm Walid Jumblatt, o chefe da comunidade; os cristãos não têm ninguém”.

Mesmo sem protecção, Sayeh acredita que o Hezbollah não vai dar pretexto a Israel para retomar as hostilidades. “A prioridade deles é ser um partido político em Beirute”, afirmou, mais em tom de esperança do que convicção.

Quanto à Síria, que manda em Beirute, ele não acredita que o Presidente Hafez al-Assad não quisesse provocar uma guerra com Israel. “Já repararam que apenas alguns metros separam os soldados sírios dos israelitas nos Montes Golã?”

Para um homem obcecado com computadores, Sayeh recusa aceitar “a realidade feudal” que prevalece no Líbano. E inveja a “capacidade tecnológica” adquirida por Israel: “Não os vejo como meus inimigos. O nosso problema é a geografia. Estamos no lugar errado e por isso pagamos um preço elevado”.

Sayeh tem 35 anos mas os seus cabelos grisalhos deixam-no mais próximo dos 50. “A vida não tem sido fácil. Todo este tempo apenas procurámos sobreviver”.

O general Saad Haddad (à direita com boné) comandava o Exército do Sul do Líbano, a milícia cristã que foi criada, financiada e armada por Israel
© enacademic.com/pictures

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 31 de Maio de 2000 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 31, 2000

Graham Usher, um jornalista de causas

O livro Dispatches from Palestine é uma colecção de reportagens, entrevistas e análises políticas de um dos mais respeitados repórteres no Médio Oriente. Ele é uma testemunha que dá voz aos que “lutam contra o esquecimento'”. (Ler mais | Read more…)

Graham Usher foi dar aulas de Inglês em Gaza e, depois, tornou-se num dos repórteres mais brilhantes, mas nunca neutral – o que ele sempre assumiu – na Palestina

Em 1993, no dia em que o general Yitzhak Rabin anunciou o seu primeiro compromisso com o guerreiro Yasser Arafat, o pescador Abu Musa estava a descansar em casa, no campo de refugiados de Nuseirat, Faixa de Gaza.

Aos 60 anos, nem islamista barbudo nem rapazinho da Intifada, não era o tipo de palestiniano procurado por repórteres estrangeiros. Nasceu na árabe Majdal, agora a hebraica Ashkelon, e “perdeu tudo” quando o Estado de Israel foi fundado em 1948, depois de já ter vivido sob domínio britânico e egípcio.

Foi em Nuseirat, campo de refugiados na Faixa de Gaza, que o jornalista Graham Usher encontrou Abu Musa no dia em que foi oficializada a opção “Gaza/Jericó primeiro“. Inquirido sobre este acordo que abriu caminho à limitada autonomia palestiniana nos territórios ocupados, o pescador fixou o visitante e retorquiu:

“Sinto-me como um homem que perdeu um milhão de dólares e a quem apenas deram dez. Mas, repare, eu perdi dez milhões de dólares há muito tempo. Por isso vou ficar com os dez. Não podemos continuar assim. Eu aceito, eu aceito, eu aceito. Depois de tanto banho de sangue, eu aceito. Mas, por favor, não pergunte como eu me sinto”.

A história de Amu Musa é uma de muitas que Usher, correspondente em Jerusalém, seleccionou para incluir no seu livro Dispatches from Palestine: The Rise and Fall of the Oslo Peace Process.

“Se a História é escrita pelos seus vencedores (israelitas), então os jornalistas que alinham com os derrotados (palestinianos) devem escrever com a convicção de que os últimos deverão ser os primeiros”, dizia Graham Usher. “Até que o encontro com a vitória chegue, a nossa tarefa é ser testemunha e dar voz – porque ‘a luta de um povo contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento’”
© The Forward

É uma colecção de reportagens, entrevistas e análises políticas que desde 1993 enviou para The Economist, Middle East International, Journal of Palestine Studies, Al-Ahram e outras publicações que fizeram dele um dos mais aclamados especialistas de questões palestinianas.

Neste livro, há “personagens” simples, como Abu Musa, e gente influente, como o deputado Azmi Bishara, o primeiro árabe a disputar a chefia do Governo israelita; Yossi Beilin, o artífice do reconhecimento da OLP; Marwan Barghouti, o incorruptível activista da Fatah que muitos gostariam de ver suceder a Yasser Arafat; ou Illan Pappé, um dos “novos historiadores” israelitas que defende não um “Estado judaico” mas um “Estado de todos os seus cidadãos”.

São, porém, as conversas com os deserdados mais do que as audiências com os poderosos que cativam o leitor interessado no Médio Oriente.

Numa passagem pelo campo de Jabalya, em Gaza, na semana de 1998 em que Israel comemorava 50 anos de existência e os palestinianos cinco décadas da Nakba (tragédia), Usher reencontrou-se com o refugiado Ahmed Abdallah e deixou-o no seu artigo em discurso directo: “Nasci numa aldeia chamada Khaliyat…”

Como Abu Musa, também Abdallah aceitou a paz de Arafat e Rabin, embora um céptico Usher esteja convencido que “reconhecimento mútuo não signifique reconciliação”.

“Um refugiado nunca é tratado como um ser humano”, lamentou-se o morador de Jabalya, berço da revolta das pedras.

“O meu pai tinha 100 hectares de terra em Khaliyat. Eu estou disposto a desistir de 99. Mas preciso de ter um hectare, para poder construir uma casa na terra onde a minha mãe viveu, os meus irmãos nasceram e o meu pai está sepultado”.

Foi Ahmed Abdallah que diplomou Graham Usher, um orgulhoso discípulo de Gramsci, como advogado da causa palestiniana.

A empatia deu-se quando se conheceram em 1985, era o jornalista um simples professor de Inglês, ateu e anti-thatcherista [contra Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990;], que trocou o East End de Londres para dar aulas a refugiados em Gaza.

“Israel criou, sem dúvida, um paraíso para as minorias judaicas perseguidas”, afirmava Graham Usher. “Mas, por causa dessa ambição colonizadora e mais tarde messiânica, despojou os palestinianos de uma terra que clama exclusivamente como sua ou concentrou os que restaram em cantões. Esta é, essencialmente, a lógica do apartheid
© middleeastmonitor.com

Usher assume a “parcialidade” na introdução do seu livro editado pela Pluto Press: “Uma leitura superficial da minha primeira à última peça deixa bem claro onde estão as minhas simpatias. Nem sequer tento esconder o facto de este ser o trabalho de um anti-sionista. Para mim, o sionismo continua a ser uma ideologia colonialista, embora peculiar.”

“Israel criou, sem dúvida, um paraíso para as minorias judaicas perseguidas. Mas, por causa dessa ambição colonizadora e mais tarde messiânica, despojou os palestinianos de uma terra que clama exclusivamente como sua ou concentrou os que restaram em cantões. Esta é, essencialmente, a lógica do apartheid”.

“Se a História é escrita pelos seus vencedores”, conclui, “então os jornalistas que alinham com os derrotados devem escrever com a convicção de que os últimos deverão ser os primeiros. Até que o encontro com a vitória chegue, a nossa tarefa é ser testemunha e dar voz – porque ‘a luta de um povo contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento'”.

[Graham Usher morreu em Nova Iorque, a  8 de Agosto de 2013, devido aos efeitos da doença de Creutzfeldt-Jakob, que destrói as células do cérebro. Tinha 54 anos.]

Este artigo, agora actualizado e com um título novo, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO em 22 de Agosto de 1999 | This article, now updated and under a new headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on August 22, 1999