A festa do Sultão antes da tempestade

Taimur governou Omã como um déspota. Tinha petróleo mas o seu carro era puxado por escravos. Os súbditos não podiam usar óculos de sol, nem guarda-chuvas nem sapatos. Foi assim de 1932 até 1970, quando o filho Qaboos bin Said o derrubou do trono. Trinta anos depois [em 4 de Novembro de 2000], os omanitas celebraram, no Majlis (assembleia consultiva) o fim do “reino da escuridão” e o “abençoado renascimento” de “Sua Majestade o Sultão”. (Ler mais | Read more…)

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Qaboos bin-Said al Said, o sultão de Omã, chegou majestoso: uma imaculada dishdasha (túnica nacional com um cordão ao pescoço embebido em perfume), uma capa preta debruada a ouro, um caleidoscópico mussar (turbante) enrolado na cabeça e uma khanjar (adaga de prata de ponta curva) presa à cintura.

Em Mascate [a 4 de Novembro de 2000], dezenas de convidados esperaram quase duas horas para ver e ouvir o homem que há 30 anos pôs fim a um “reino de escuridão” e implantou uma “monarquia iluminada”.

Ao assinalar três décadas no trono que retirou ao seu pai tirano, o sultão de Omã decidiu uma vez mais estabelecer a diferença em relação aos seus vizinhos árabes do Golfo Pérsico. Ele, que foi dos primeiros a convencer os súbditos a aceitar mulheres no Majlis al-Shura (uma assembleia consultiva em que os membros são eleitos) e no Conselho de Estado (membros nomeados por decreto real), aproveitou o recomeço das sessões “parlamentares” para comemorar o que designou de “abençoado renascimento”.

Foi a primeira vez que Qaboos abriu as portas da assembleia a estrangeiros e o gesto ganhou ainda mais valor porque deu visibilidade aos “representantes do povo”, antecipando os festejos do Dia Nacional de 18 de Novembro.

Numa sala onde a electricidade dos 13 lustres do tecto se confundia com o sol que invadia os vitrais, um prolongado silêncio antecedeu a chegada do monarca.

A audiência repartida por cadeiras vermelhas (família real), cadeiras azuis (membros do parlamento e do Governo) e cadeiras bordeaux (os outros) remexeu-se quando, no exterior, uma banda militar tocou o hino da nação.

Duas portas abriram-se e entrou, acompanhado de seis oficiais, a figura mais importante do dia: baixinho, barbas brancas a sobressair num rosto moreno de olhos melancólicos.

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O sultão fez sentar os que se levantaram em sua honra, sentando-se ele próprio numa poltrona que se distinguia de todas as outras pela coroa e brasão no topo. O discurso foi breve: pouco mais de cinco minutos.

Prometeu continuar, “com a permissão de Deus”, o que chamou de “construção interactiva entre Governo e cidadãos”; reforçar e diversificar a economia (o gás natural está gradualmente a compensar o esgotamento das reservas de petróleo); melhorar a qualidade da mão-de-obra omanita (num país onde o número de expatriados não pára de crescer); e consolidar uma política externa de paz e cooperação “com os irmãos nos estados árabes e islâmicos e os [nossos] amigos em todo o mundo”.

Neste contexto, e sem nunca mencionar Israel, reafirmou o “direito dos povos árabes a recuperar os territórios ocupados em 1967”. Garantiu também o seu “apoio firme ao direito do povo palestiniano à autodeterminação e ao estabelecimento do seu Estado independente, no seu solo nacional, com Jerusalém como capital”.

A passagem é importante, porque Omã, que nunca acolheu palestinianos devido ao apoio que os líderes destes deram a uma rebelião na fronteira com o Iémen no final da década de 1960, foi o primeiro país árabe a suspender os laços com Israel após os bombardeamentos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, [em Outubro de 2000].

Já tinha sido a primeira monarquia árabe do Golfo a abrir uma missão comercial em Telavive e a permitir que os israelitas abrissem a sua em Mascate – ambas estão agora encerradas.

Faz parte do carácter independente deste país (que nunca se considerou um protectorado ou uma colónia, apesar dos muitos invasores) agir como lhe apetece em termos de política externa. Em 1978, por exemplo, não se importou de ofender os “irmãos” quando recusou cortar relações com o Egipto de Sadat por este ter assinado uma paz separada com Israel.

Em 1985, o sultanato, que era o país mais anti-soviético do Médio Oriente, foi o primeiro a enviar um embaixador para Moscovo. Nunca aceitou marginalizar o Irão – o poderoso vizinho no Estreito de Ormuz -, mantendo uma neutralidade que lhe garante estabilidade.

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Os omanitas têm ainda um orgulho desmesurado na sua história, em particular no modo como derrotaram a supremacia portuguesa no Oceano Índico em 1622, depois de mais de um século de domínio luso, cujos vestígios arquitectónicos persistem nos fortes de Jalali (São João) e Mirani (Almirante) na baía de Mutrah, arredores de Mascate.

O orgulho maior está, porém, reservado aos últimos 30 anos de poder de Sua Majestade Qaboos. Afinal, foi ele que, em 1970, acabou com o governo déspota do seu emocionalmente instável pai, Said bin Taimur.

Este sultão, que não merece ser citado nas biografias do filho, transformou um país que foi um império – no seu apogeu, estendeu-se de África Oriental ao Baluchistão – num dos Estados mais atrasados do mundo.

Taimur teria escravos para lhe empurrar o carro (não usava combustível no depósito), proibia os súbditos de andar de bicicleta, de usar sapatos, óculos de sol ou guarda-chuva. Fechava os portões de Mascate três horas após o pôr-do-sol e os que se aventurassem a sair à noite tinham de andar com uma lanterna junto ao queixo para não serem atingidos a tiro pela polícia.

Só havia três escolas, primárias e todas para rapazes. Os que queriam estudar no estrangeiro precisavam de autorização especial, que quase sempre era recusada. Quando queriam regressar, não podiam, para não “contaminar” os outros com as suas ideias.

Tão desconfiado era Taimur que mandou o seu próprio filho estudar para a Academia Real Militar de Sandhurst, na Inglaterra e, quando ele regressou colocou-o sob prisão domiciliária num quarto do palácio.

Em 1970, Qaboos enfrentou o pai. Pediu tropas ao xá da Pérsia [Mohammad Reza Pahlavi], à Jordânia e aos britânicos, e dinheiro aos sauditas, para esmagar uma insurreição, apoiada por chineses e soviéticos, em Dhofar (no Sul). Unificou Omã e Mascate sob a designação de Sultanato de Omã. Mandou o pai para o exílio em Londres, onde este morreu, no esplendor ocidental que renegava, no Claridges Hotel.

Trinta anos depois, os omanitas agradecem a Qaboos o desenvolvimento que o petróleo permitiu, as auto-estradas, a educação gratuita para rapazes e raparigas, as dezenas de hospitais e clínicas, as instituições financeiras (uma aldeia pode ter duas agências bancárias) e a Internet, os inúmeros jardins e parques tratados por batalhões de trabalhadores asiáticos.

Ele é um monarca absoluto, mas sabe que a maioria dos seus dois milhões de súbditos o adora. Às vezes, escreveram insuspeitos jornalistas ocidentais na revista The Economist e no jornal The Washington Post, conduz ele próprio o seu BMW ou Land Cruiser (este é também o reino dos Toyotas) para, sem guarda-costas, ouvir os queixumes dos cidadãos.

Rahila Amer al-Riyami é uma das duas mulheres eleitas este ano para o Majlis al-Shoura, assembleia que aconselha o sultão de Omã e onde a maioria dos 83 membros são homens. Formou-se em Sociologia e Psicologia no Cairo e é com sotaque egípcio que exalta as qualidades do seu soberano.

“Antes de Sua Majestade subir ao trono [em 1970], as raparigas não iam à escola. Agora são metade dos alunos nas universidades. Fazem parte do parlamento, do Governo, da polícia e das Forças Armadas”.

Qaboos bin-Said, o monarca, exortou as mulheres a participar na vida política e ela aceitou o conselho. Com um sorriso matreiro, congratula-se de ter obtido mais votos do que um candidato masculino. Não desvaloriza o seu futuro cargo, de reduzidos poderes. “Temos de ir passo a passo: se saltarmos, caímos.”

[O “pacífico” reino de Qaboos, sempre retratado como um oásis de estabilidade numa região turbulenta, começou a enfrentar a fúria dos súbditos em 2011, após as revoltas populares a chamada “Primavera Árabe” em 2011. Dezenas de opositores foram detidos, alguns beneficiando posteriormente de um indulto, outros a quem foi negado o perdão por terem ousado “difamar” o próprio sultão que, apesar de uma grave crise económica e um elevado desemprego de jovens licenciados, recusou reformas políticas e partilhar poderes. Ele, sem herdeiro designado e doente, permanece chefe do governo, ministro dos Negócios Estrangeiros, das Finanças e da Defesa, comandante supremo dos militares e até governador do Banco Central.]

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A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto, com um título diferente e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Novembro de 2000 | This article, now revised, under a different title and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 5, 2000.

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