Um dia nas corridas (de camelos)

O omanita Saalem al-Hamdoun tem cinco camelos “puro sangue”, o valor de uma “noiva bonita”. Um deles equivaleria, segundo estimativas, a 100 mil euros [na altura desta reportagem em 2001, a moeda em Portugal era o escudo], mas o preço pode triplicar se, numa próxima corrida, chegar em primeiro lugar. Na nova pista da aldeia de Al-Sawadi, os seus filhos jockeys, de 15 e 16 anos, treinam os animais a ser mais velozes. (Ler mais | Read more…)

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Já passava das duas da tarde, num dia de Novembro, quando os homens de Al-Sawadi se concentraram junto de uma árvore para inaugurar a nova pista de corridas de camelos. Descalços, sentados em círculo, saudaram primeiro o xeque da aldeia. Rezaram depois, beberam café e, certamente, falaram de negócios.

Em Omã — sultanato da Península Arábica e do Golfo Pérsico — um camelo que alcance o primeiro lugar numa competição poderia valer [em 2001] mais de 30 mil contos.

“Espiões” dos países vizinhos costumam infiltrar-se entre a assistência procurando descobrir os animais mais valiosos para os estábulos reais. E não é cliché que, da casa do pai, por mais plebeu que fosse, uma bonita noiva omanita não sairia, no passado, por menos de cinco camelos, de boa raça e puro sangue.

Era, portanto, um dia especial em Al-Sawadi, povoação que fica a mais de uma hora de carro de Mascate, a capital. Embora não houvesse apostas nem prémios, donos, treinadores e jockeys estavam todos entusiasmados com a oportunidade de experimentar o novo trilho e exibir a vitalidade dos seus animais.

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As mulheres não apareceram. Só pick-ups, jipes e criaturas de uma bossa que caminhavam graciosas apesar de, em alguns exemplares, ser visível uma baba repugnante a escorrer pelo queixo. Os camelos, dizem os criadores, costumam expelir secreções do estômago quando não apreciam os modos dos humanos que deles se aproximam.

De telemóvel na mão e uma túnica branca até aos pés, Saalem al-Hamdoun parecia o mais feliz, e abastado, de todos os participantes. Dois dos seus oito filhos estavam prestes a correr com os mais velozes dos seus cinco camelos — um deles estimado em 30 mil riais ou quase 20 mil contos. Samha, de 15 anos, e Suood, de 16, não o deixaram ficar mal, apesar da rebeldia dos bichos.

Os dois jockeys esperaram pela sua vez num grupo de quase 40 miúdos e graúdos, de onde sobressaíam um garoto de 8 anos e um velhote com mais de 60. Ao sinal de que a sua vez chegara, os filhos de Saalem avançaram até ao ponto de partida.

Os camelos, cada um seguro por duas cordas, presas às narinas e ao pescoço, relincharam e resistiram a ajoelhar as patas dianteiras. Tentaram fugir, levantando uma nuvem de poeira, mas uma chicotada vergou-os.

A obediência durou pouco. Quando Samha subia para o dorso do animal, este ergueu-se repentinamente e lançou o rapaz à terra recém-escavada. Suood já ia lançado à frente. Teve de voltar para trás, porque a corrida é sempre a dois.

“Ele paga-me a insolência”, vociferou Saalem, trocando a amabilidade pelo insulto. Se o camelo era teimoso, o dono era obstinado e, dirigindo-se à pista, ele fustigou de novo o animal com uma vara.

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Com ajuda do pai, Samha conseguiu finalmente dominar o camelo. Os dois irmãos estavam agora lado a lado, prontos a correr 800 metros. Já tinham adquirido estabilidade suficiente para competirem sozinhos, sem orientação de um parceiro adulto. Os mais inexperientes levam uma corda à cintura que o treinador segura, para prevenir quedas abruptas.

Samha e Suood chegaram à meta — impossível calcular a velocidade — primeiro que todos os outros concorrentes. O regresso foi a passo lento, por fora da pista, até chegar ao ponto de partida. Só quando o animal ficou completamente imobilizado, a respiração menos ofegante, é que a corrida terminou.

É quase pôr-do-Sol, os animais estão exaustos e a fúria de Saalem voltou ao estado de simpatia. “Estes são os meus meninos!”, exclama o vencedor, precisando que eles treinam todas as tardes e que os camelos comem tâmaras e milho, porque “só bem alimentados podem ser bons corredores”.

Os olhos desviam-se para outro filho. “Chama-se Mussay, tem 12 anos e também está a ser preparado”, exulta o anfitrião, lembrando que aquela foi a idade com que se casou. “Antigamente, os nossos pais exigiam ver os netos ainda em vida e por isso arranjavam-nos noivas quase à pressa”.

Quanto ganhou Saalem? “Nada; isto não era um jogo nem uma corrida a sério”, responde o dono dos camelos. “Não sou vendedor; sou criador. Vim aqui só para treinar”. E um dos que mais brilhou nos “treinos” foi o velhote do grupo dos jockeys.

Magrinho mas musculado, ele provou que o seu vigor era superior à resistência do camelo que não o deixava subir para a bossa. Umas cinco vezes o camelo o deitou ao chão e igual número o velhote se levantou, com mais determinação em domar o animal.

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Os camelos omanitas foram e permanecem famosos em toda a Arábia. Os da região de Batinah têm a melhor reputação. Criados na planície costeira que se estende para Norte, de Mascate até aos penhascos de Musandam (Moçandão), são particularmente estimados pela raça — não há misturas de sangue, e isso é cuidadosamente controlado — velocidade e excepcional beleza. O único defeito parece ser a incapacidade de ficarem quietos.

As razões para ainda serem criados camelos são, provavelmente, mais sentimentais e de tradição do que económicas. Para o trabalho, estes animais já quase foram suplantados pelas carrinhas japonesas, omnipresentes e ubíquas. Continuam, porém, a ser muito procurados pelos xeques do Golfo, e, em certos casos, constituem uma conta bancária ambulante.

Um camelo bem tratado é um fundo de investimento ou um bem de luxo. Quando o seu dono precisa de dinheiro imediato, pode vendê-lo, e sempre com lucro. Entre algumas tribos, um dote matrimonial é calculado em camelos, e estes servem, muitas vezes, de congelador móvel: se há convidados ou motivos para celebrar, a carne está ali pronta a ser sacrificada.

Os camelos tornaram-se fonte de orgulho e prazer em vez de resposta a necessidades económicas. Já quase ninguém anda de camelo. Quando têm dinheiro, as famílias optam pela pick-up, porque facilita o transporte dos animais de e para os mercados, e encurta o tempo de viagem em busca de água — a maior preocupação dos bedu.

Numa entrevista que, em 1998, deu à Outside Magazine, Sir Wilfred Thesiger [1910-2003], o grande explorador do Rub al-Khali ou Empty Quarter, maior deserto  de areia, na Arábia, lamentava que os beduínos prefiram agora as pick-ups e os todo-o-terreno aos camelos.  Em inglês, o nobre nómada que falava fluentemente árabe, dividiu o tempo em duas épocas: “b.c. e a.d.” – não “before Christ e after Christ (antes de Cristo/ depois de Cristo) mas before cars e after driving. A sua “forte convicção” é a de que “o maior desastre na História da Humanidade foi a invenção do motor de combustão interna”.

A vida com uma bossa

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• Um camelo pesa entre 450 e 680 quilos. Come praticamente tudo o que cresce no deserto, incluindo plantas salgadas que outros herbívoros rejeitam. Quando está esfomeado, também se alimenta de peixe, carne, ossos e peles. A sua dieta alimentar em cativeiro inclui feno e cereais, com suplementos de vitaminas e minerais.

• De todos os animais do mundo, só o camelo é capaz de armazenar água no deserto. Pode beber entre 60 e 100 litros de água, mesmo salobra ou salgada, em apenas 15 minutos. Em média, só precisa de se refrescar em cada três a quatro dias.

• Patas enormes e macias facilitam-lhe o andar no deserto. As suas longas pálpebras protegem-lhe os olhos do vento e as narinas fecham-se para impedir a entrada de areia. Os lábios são espessos para resistir a plantas grossas e ásperas. Tem calosidades nos joelhos e noutras partes do corpo que tocam a areia quente, para que, ao sentar-se,  possa sentir-se confortável.

• O camelo da Arábia tem uma bossa sem qualquer estrutura óssea. Enganam-se os que pensam ser a bossa o lugar onde ele armazena a água. Pelo contrário, aquilo é só gordura. O tamanho da bossa varia com a alimentação e as condições climáticas.

• O camelo, graças à protecção de um pêlo espesso e de uma bossa volumosa, suporta muito calor e até muito frio, se este for seco. Muitos animais morrem quando perdem 20 por cento do seu peso, mas o camelo tolera desidratações  — sobrevive com uma perda de 40 por cento de água. A temperatura do corpo pode subir seis graus acima do normal sem que o animal tenha suores (o que faz perder a água).

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• O camelo corre como uma girafa, com as duas pernas de cada lado do corpo movendo-se simultaneamente, e por isso chamam-lhe “navio do deserto”. Há séculos que este animal serve fielmente o homem em todo o tipo de tarefas, mas quando se irrita expele do estômago uma espécie de espuma mal cheirosa, que afasta quem está próximo dele.

• Os árabes aproveitam quase todas as partes do corpo do camelo: o pêlo serve para tecer tendas; a carne é usada na culinária; o leite é bebido fresco ou transformado em queijo; os ossos, depois de secos, substituem o marfim; os excrementos são reciclados em combustível.

• Um camelo vulgar anda a uma velocidade de 6,5 quilómetros por hora. A trote, pode atingir 13. Nas corridas, famosas na Arábia, ultrapassam os 16 km/h e num só dia chegam a percorrer 200 quilómetros. A carga que podem transportar é de cerca de 200 quilos durante quase 70 quilómetros/dia.

• Em árabe, há pelo menos 160 palavras para dizer “camelo”, um animal cuja origens remontam à América do Norte. Actualmente só existe, domesticado, em África e na Ásia e em certas regiões desérticas da Austrália.

• Os beduínos marcam todos os seus camelos, no dorso ou no pescoço. Se numa travessia do deserto um deles morrer, os membros da tribo assinalam o local onde tiveram de deixar a carga com a marca do animal. Outros beduínos que por ali passarem não poderão nunca tocar nos bens que os outros deixaram para trás.

• Um camelo produz mais de 30 embriões para gestação imediata ou serem guardados indefinidamente em nitrogénio líquido. Em Fevereiro de 1995, pela primeira vez no mundo, nasceu um bebé camelo de um embrião que foi congelado a 196 graus centígrados negativos e depois introduzido numa “nova” mãe em cujo organismo se desenvolveu durante 13 meses.

• Os camelos, se forem de boa raça, suportam com agilidade e firmeza terrenos montanhosos e rochosos. Se estiverem apenas habituados a zonas planas e de areia, caem com mais facilidade, cortam-se nas patas e quebram os ossos. Mas o que os camelos da Arábia não suportam mesmo é lama. Escorregam e precisam de uma grande ajuda para se voltar a erguer.

As cabras e os Bedu

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Quando se pergunta aos Bedu (a expressão “beduíno” não é usada em Omã) sobre os seus animais, eles falarão em primeiro lugar dos camelos, mas as cabras são igualmente valiosas. Há um espaço para elas em cada beit ou “casa” — terminologia da tribo Jenaiba, que se orgulha de usar o árabe clássico, em oposição aos seus vizinhos Harsussi ou Mahra, que se exprimem em línguas semitas do Sul.

Quem já dormiu num acampamento bedu certamente passou pela experiência de ser lambido a meio da noite por uma cabra, que ainda deixou o cobertor do visitante cheio de excrementos. E quem percorre as estradas de Salalah, terá sido previamente avisado de que deve dar prioridade às cabras quando elas se atravessam no caminho. O mesmo privilégio é reconhecido às vacas e aos camelos — quem buzinar para lhes apressar o passo pode ser multado.

Não haja, porém, confusões: criar camelos é tarefa de homens; criar cabras é trabalho de mulheres. São elas que as apascentam pelas estepes, às vezes com um recipiente para leite enfiado na cabeça como se fosse um capacete.

É uma prevenção contra a sede, tal como o termo de café quase sempre na mão. Entre os Bedu, o vício é o café, não o tabaco. Taqahwa! — “Beba um café” — é uma frase repetida pelos omanitas, da casa mais opulenta à tenda mais humilde.

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Num acampamento bedu, as mulheres participam na vida social mais do que nos centros urbanos. Quando têm visitas, elas podem estar presentes à roda da fogueira, mas raramente se sentarão no cobertor estendido para os hóspedes.

Participam na conversa, mas não na preparação dos alimentos — isso compete aos homens, anfitriões e convidados. Se não houver homens, quando o visitante chega, elas não deixam de aparecem. Mas, embora sejam elas a convidar para a refeição, terá de ser o visitante masculino a matar a cabra, a extrair-lhe a pele, a cortá-la aos pedaços, a fazer o molho e a amassar o pão, enquanto todos esperam pela comida.

A cabra é morta com uma facada no pescoço depois de ter sido virada para Meca (o mais importante santuário do Islão, na Arábia Saudita). Na tribo Jenaiba, se a cabra for morta à frente do visitante é sinal que ele foi bem aceite.

Uma vez morta, a cabra é deixada no chão até o sangue secar. Seguidamente, é virada de pernas para o ar e, numa operação meticulosa, a sua pele é retirada para, depois de seca e tratada, fazer impermeáveis sacos de comida ou de água.

A carne é lavada em várias águas antes de ser cozinhada em água e sal, às vezes com cebola e outras com tomate. A cabeça vai directamente para a fogueira onde é tostada para ser comida.

Os miolos e a língua servem de sobremesa. O fígado às vezes também é grelhado em cima das brasas, e funciona como entrada. Os olhos vão para o lixo. A qualquer hora do dia, os Bedu oferecerão aos hóspedes a matança de uma cabra, e consumam o acto mesmo que eles recusem.

As vacas e os Jeballis

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Se as cabras são um precioso património em Omã, as vacas não ficam atrás em estatuto. Os Jeballis — membros das tribos das montanhas de Dhofar, no Sul — são os únicos que criam gado na Arábia, o que levou os geógrafos a situar as suas origens na África Oriental.

Este “enclave etnográfico” exprime-se em dialectos mutuamente imperceptíveis e nenhum deles escrito, mais parecidos com a língua da Etiópia do que com o árabe. As vacas, que caracterizam o modo de vida dos Jeballis, oferecem-lhes comida e bebida, meios de troca (em dinheiro e em géneros), roupas e acessórios para o dia-a-dia.

O gado é tão importante que os Jeballis costumam dar ao primeiro filho o nome da sua vaca favorita. Numa qualquer festa, a posição social e a generosidade do anfitrião são avaliadas de acordo com o número de vacas que ele manda matar para as refeições.

Durante séculos, os Jeballis viveram isolados do resto do mundo e inspiravam medo. “Tudo, desde o modo de vestir até ao seu sistema de valores era diferente dos costumes entre os árabes”, escreveu a jornalista suíça Liesl Graz no seu livro The Omanis, Sentinels of the Gulf. Noções de honra, confiança e hospitalidade não se associavam aos Jeballis. Eles não precisavam de justificação para roubar ou matar. Não envergavam os tradicionais dishdasha e mussar (túnica e turbante omanitas) e distinguiam-se até pelos tabus: comiam javalis (que os habitantes do Norte consideram uma espécie de porco, carne proibida pelo islão) mas não provavam hiena (convencidos de que estes animais são os bruxos dos camelos).

Uma família de Dhofaris. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Uma família de Dhofaris.
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Um Jeballi@ DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Um Jeballi
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Dhofar foi uma zona de guerra civil até 1976. Quando venceu a revolta (apoiada pelo vizinho Iémen, que cobiçava os postos de petróleo na fronteira), uma das prioridades do sultão Qaboos bin Said foi integrar os Jeballis na sociedade. Ofereceu-lhes cidadania e benefícios financeiros em troca de lealdade.

Hoje, eles têm melhores condições de vida, mas continuam a ser difíceis por natureza. Queixam-se que as obras de abastecimento de água aterrorizam as suas vacas e que as estradas lhes destroem as pastagens.

É preciso no entanto fazer uma distinção: no Sul, nem todos os Dhofaris são Jeballis. Esta confusão ainda permanece em muitas mentes no Norte e terá originado o velho ditado omanita: “Se no teu caminho encontrares uma cobra e um dhofari, mata primeiro o dhofari”.

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A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 11 de Fevereiro de 2001 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on February 11, 2001

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