Sir Wilfred Thesiger (1910-2003): Explorador do século XX

A 24 de Agosto de 2003, “tranquilamente no hospital”, morreu o homem que, em 93 anos de vida, percorreu um total de 160 mil quilómetros (estimativas suas) pelas terras mais inacessíveis do mundo. A pé ou de camelo, de preferência, viajou de África ao Médio Oriente, em busca dos povos mais intrépidos. (Ler mais | Read more…)

Oriundo de uma família de diplomatas e militares britânicos, Sir Wilfred Thesiger pertencia a uma espécie de clã de classe alta que tinha por divisa spes et fortuna ou "esperança e sorte". O seu pai era ministro responsável pela missão britânica na antiga Abissínia; o filho dizia que “não gostava da civilização”. @DR (Direitos Reservados| All Rights Reserved)

Oriundo de uma família de diplomatas e militares britânicos, Sir Wilfred Thesiger pertencia a uma espécie de clã de classe alta que tinha por divisa spes et fortuna ou “esperança e sorte”. O seu pai era ministro responsável pela missão britânica na antiga Abissínia (actual Etiópia); o filho dizia que “não gostava da civilização”.
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A aventura começou no berço e definiu-lhe a personalidade: “o primeiro inglês a nascer na Abissínia”, actual Etiópia. Aqui, em 1917, testemunhar o dramático regresso do exército do imperador, após uma das mais sangrentas batalhas africanas, deixou-lhe marcas.

Na autobiografia escreveu: “Esse dia implantou em mim o anseio pelo esplendor bárbaro, pela crueldade e cor e pelo rufar dos tambores”.

Thesiger nunca gostou da “civilização”, mas foi em Inglaterra que a sua odisseia acabou. Primeiro com a reforma num lar de idosos, em Orford House. Depois com o internamento hospitalar, até ao óbito.

Ficará na História, e um notável contributo para esse lugar foi a proeza de atravessar Uruq al Shaiba, uma região de dunas montanhosas do Empty Quarter ou Rub’ al Khali.

O maior deserto de areia, com quase 600 mil quilómetros quadrados, foi durante séculos uma barreira inexpugnável aos que sonhavam viajar pelo centro da Península Arábica.

Thesiger - Photo 2

Os Bedu eram companheiros de viagem de Thesiger, que levava consigo apenas o estritamente necessário: uma espingarda, uma máquina fotográfica (primeiro, uma velha Kodak do pai e, a seguir, uma Leica que  protegia com pele de camelo), uma lupa e uma bússola. Com os seus amigos, Sir Wilfred aprendeu os “duros códigos de honra, paciência, generosidade e hospitalidade que punham à prova toda a coragem de um ser humano”.
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 Oriundo de uma família de diplomatas e militares britânicos, Thesiger pertencia a uma espécie de clã de classe alta que tinha por divisa spes et fortuna ou “esperança e sorte”. O pai, ministro responsável pela missão britânica na região, morreu quando o jovem Wilfred, o mais velho de quatro filhos, tinha nove anos.

A família regressou então a Inglaterra e Thesiger foi estudar para Eton. Frequentou depois o Magdalen College de Oxford, onde ganhou vários prémios, incluindo o de ser o único britânico a receber um convite para assistir, em 30 de Novembro de 1930, à coroação de Ras Tafari como Imperador Hailé Selassié

Concluída a formatura, Thesiger regressou à Abissínia, onde, em 1934, resolveu o mistério do desaparecimento do rio Awash, que nasce nas montanhas a ocidente de Addis Abeba, flui para leste mas nunca chega ao mar. Essa viagem, confessou, foi “a mais perigosa de todas”.

Thseiger Photo 3

Thesiger ficará na História, e um notável contributo para esse lugar foi a proeza de atravessar Uruq al Shaiba, região de dunas montanhosas do Empty Quarter. O maior deserto de areia, quase 600.000 Km quadrados, foi durante séculos uma barreira inexpugnável aos que sonhavam viajar pelo centro da Península Arábica.
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Ele e os seus homens penetraram em território onde duas expedições italianas e outra do exército egípcio tinham sido aniquiladas pela tribo dos Danakil, guerreiros conhecidos por coleccionarem os testículos dos inimigos. Thesiger descobriu que o rio tinha a sua foz num lago salgado, mas mais importante do que a descoberta foi ter regressado vivo com todos os seus homens. Tinha apenas 23 anos.

A partir desse momento, Thesiger decidiu avançar para a “colorida e árdua” incursão no Empty Quarter. Para a concretizar, numa região de xeques muçulmanos desconfiados de cristãos, precisava de uma missão, e a cobertura foi-lhe dada pela Middle East Anti-Locust Unit (Unidade Anti-Gafanhotos do Médio Oriente), um ramo da organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Acompanhado dos seus beduínos, Thesiger levou apenas o estritamente necessário: uma espingarda, uma máquina fotográfica (primeiro uma velha Kodak do pai e a seguir uma Leica que ele protegia com pele de camelo), uma lupa e uma bússola. Com os Bedu aprendeu os duros códigos de honra, paciência, generosidade e hospitalidade que punham à prova toda a coragem de um ser humano.

“Algumas pessoas insistirão em que vivem melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista – eu não acredito nisso!”, sentenciou o nobre nómada Thesiger. “A nossa extraordinária ganância pelos bens materiais, a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância hão-de matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar”. @DR (Direitos Reservados| All Rights Reserved)

“Algumas pessoas insistirão em que vivem melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista – eu não acredito nisso!”, sentenciou Thesiger. “A nossa extraordinária ganância pelos bens materiais, a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância hão-de matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar”.
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Na despedida do Empty Quarter, em 1950, o autor de Arabian Sands – clássico da literatura de viagens que, como todos os seus livros, está recheado de preciosas fotografias a preto e branco – Thesiger ainda vagueou pelo mundo na década seguinte. Foi para o Sul do Iraque “viver como os búfalos”, com os Madan, “árabes dos pântanos”, mas achou os verões insuportáveis e, em 1951, refugiou-se no mais ameno Curdistão (Norte).

Em 1953, podiam encontrá-lo no Paquistão e, em 1956, no Afeganistão, onde se juntou aos Nuristanis. Quando a revolução iraquiana de 1958 o constrangiu a abandonar o país, Thesiger voltou à Etiópia, em 1960, para novas explorações.

Em 1968, no Quénia, infiltrou-se entre os Samburu, uma tribo que ao ver a sua figura esguia, grandes orelhas e o nariz pontiagudo lhe deu o cognome de “grande elefante que caminha sozinho.” Nos anos 90, a saúde frágil forçou-o a instalar-se na pátria dos antepassados. Ficou amargo.

“Algumas pessoas insistirão em que vivem melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista – eu não acredito nisso!”, sentenciou o nobre nómada Thesiger.

“A nossa extraordinária ganância pelos bens materiais, a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância hão-de matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar.”

O nobte nómada Wilfried Thesieger. @DR

O nobre nómada Wilfried Thesiger, numa das suas viagens pelo deserto de Omã.
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Agosto de 2003 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on August 28, 2003

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