Sul do Líbano: Viagem à Hezbollândia

O “êxodo” israelita [em 2000] transformou o Sul do Líbano numa atracção. É como estar numa zona de guerra sem guerra. Na “zona de segurança” desocupada, os cristãos esperavam protecção do Estado depois do colapso da milícia do general Haddad. Os xiitas do Hezbollah proclamam vitória. (Ler mais | Read more…)

Graças a diversas tácticas de guerrilha, o Hezbollah - milícia e partido xiita - liderado pelo Xeque Nasrallah (foto no topo do carro de combate) conseguiu forçar a retirada de Israel do Sul do Líbano. © Nicolien Kegels

Graças a diversas tácticas de guerrilha (incluindo a explosão de burros armadilhados à beira de estradas por onde circulavam patrulhas militares), o Hezbollah – milícia e partido xiita – liderado pelo Xeque Nasrallah (foto no topo do carro de combate) forçou a retirada unilateral de Israel do Sul do Líbano onde estabelecera uma “zona de segurança” entregue a uma milícia cristã que financiava e treinava.
© Nicolien Kegels

[Em 2000], Nassim Sayeh lembra-se que, onze anos antes, bateram à sua porta na aldeia cristã de Al-Mashab. Os mensageiros traziam uma lista com os nomes dos “convidados” a ingressar no Exército do Sul do Líbano (ESL), a milícia pró-israelita na “zona de segurança” agora desocupada.

Sayeh, na época intérprete do batalhão sueco da Força Interina das Nações Unidas no Sul do Líbano (UNIFIL), recusou o convite.

Os mensageiros partiram mas voltaram nos dias seguintes. “Cansei-me de esperar pela morte”, confessa Sayeh no jardim da sua vistosa moradia onde os visitantes são acolhidos com café, ameixas, bolos e laranjada.

“Só podíamos sair e entrar com autorização especial do general [Saad] Haddad [o comandante do ESL] e quando saíamos, os outros olhavam para nós com suspeição, como traidores”. Alguns dos familiares, amigos e vizinhos de Sayeh não resistiram ao “terror psicológico”.

Ele arranjou maneira de se libertar da sua “prisão”. Graças a contactos pessoais com os capacetes-azuis de Estocolmo na UNIFIL, conseguiu um visto turístico para entrar na Suécia. Numa semana, teve a “sorte grande” de receber uma licença de trabalho e posteriormente cidadania.

Ao Sul do Líbano, regressava todos os anos na Primavera-Verão, para passar um mês com a família, dividida entre Al-Mashad e Beirute.

Nas férias deste ano [2000], iniciadas há uma semana e meia, estava ele de novo na casa da mãe – uma corpulenta mulher com a Virgem Maria de ouro ao pescoço -, quando recebeu um telefonema. Era o seu irmão, general no Exército regular libanês, a avisá-lo de que o ESL estava prestes a render-se e que o Hezbollah ia entrar na aldeia.

“Foi uma noite de pesadelo, para mim que só tinha visto tipos do Hezbollah na televisão”, recorda. “Famílias inteiras fugiram, em pânico, para Israel. Eu mantive o sangue-frio. Contactei os padres e as freiras e todos juntos combinámos com o movimento xiita a melhor maneira de agirmos”.

A coordenação resultou. Não houve ataques vingativos, não houve banho de sangue. Os que permaneceram trancados dentro de suas casas reapareceram quando a milícia debandou ou se rendeu, para saudarem a vitoriosa guerrilha.

As Nações Unidas estacionaram uma força interina (UNIFIL) no Sul do Líbano mas esta nunca foi capaz de travar as várias  invasões israelitas. © Marco K. |    Wikimedia Commons

As Nações Unidas estacionaram uma força interina (UNIFIL) no Sul do Líbano mas esta nunca foi capaz de travar as várias invasões israelitas.
© Marco K. | Wikimedia Commons

Em 1978, quando o ESL entrou na aldeia, os cristãos também haviam ajudado as famílias muçulmanas a escaparem a eventuais tormentos. Embora a milícia tivesse batalhões xiitas e brigadas drusas.

Hoje, 22 anos depois, Sayeh, técnico de informática em busca de noiva, diz que o fim da ocupação “foi o melhor que podia ter acontecido”.

A retirada israelita foi, todavia, tão precipitada que ele sente desdém pelos invasores. “O ESL fez-lhes o trabalho sujo e depois abandonaram-nos à sua sorte. Exploraram os mercenários durante os 22 anos mas nem 22 minutos lhes deram para escapar. Se eu fosse do ESL teria vontade de matar um ou dois soldados israelitas”.

Sayeh teve conhecimento de que alguns aldeões de Al-Mashad que fugiram para Israel tencionavam regressar. Os combatentes para serem julgados; os condenados para cumprir “penas ligeiras”; os seus familiares para refazerem vidas destroçadas.

“Eles não querem ser tratados [por Israel] como palestinianos”, exclamou Sayeh, com o sarcasmo de quem conhece a realidade nos territórios ocupados da Cisjordânia e Faixa de Gaza.

“Fui lá [a Israel] como turista, com passaporte sueco, não como libanês”, justifica-se. Com a pele bronzeada por 30 graus à sombra, os olhos azuis de Sayeh enchem-se de orgulho ao exaltar as qualidades da sua pátria adoptiva. “Sabiam que um ex-primeiro-ministro na Suécia tem de esperar a sua vez na fila do aeroporto para fazer o check-in?

No Líbano, um ex-primeiro-ministro anda com 150 guarda-costas e uma coluna de Mercedes atrás dele. A corrupção é o que me mantém fora daqui”. E também o facto de não haver aqui o sentimento de pertencer a uma nação.

“Os libaneses são leais à família em primeiro lugar, depois à sua religião e por último ao Estado”. Em todo o caso, ele esperava que o Estado assuma em breve a sua responsabilidade no Sul “libertado”.

O antigo general Saad Haddad, fundador e comandante da milícia pró-israelita Exército do Sul do Líbano,  num encontro com militares da UNIFIL, no início dos anos 1980 © Svein H. Olsen

O antigo general Saad Haddad (à direita com boné), fundador e comandante da milícia pró-israelita Exército do Sul do Líbano, num encontro com militares da UNIFIL, no início dos anos 1980
© Svein H. Olsen

As pessoas precisam de se sentir protegidas. “Os xiitas do ESL têm o Hezbollah e o [Movimento] Amal; os drusos têm Walid Jumblatt, o chefe da comunidade; os cristãos não têm ninguém”. Mesmo sem protecção, Sayeh acredita que o Hezbollah não vai dar pretexto a Israel para retomar as hostilidades. “A prioridade deles é ser um partido político em Beirute”, afirmou, mais em tom de esperança do que convicção.

Quanto à Síria, que [mandou ostensivamente] em Beirute [até à retirada total das suas tropas em 2005], ele não acreditava que o Presidente Hafez al-Assad [que morreria em 2000, ano da retirada israelita] não queria provocar uma guerra com Israel. “Já repararam que apenas alguns metros separam os soldados sírios dos israelitas nos Montes Golã?”

Para um homem obcecado com computadores, Sayeh recusa aceitar “a realidade feudal” que prevalece no Líbano. E inveja a “capacidade tecnológica” adquirida por Israel: “Não os vejo como meus inimigos. O nosso problema é a geografia. Estamos no lugar errado e por isso pagamos um preço elevado”.

Sayeh tem 35 anos mas os seus cabelos grisalhos deixam-no mais próximo dos 50. “A vida não tem sido fácil. Todo este tempo apenas procurámos sobreviver”.

Quinze anos após a sua retirada do Líbano, a Síria é agora, para o Líbano, uma ameaça existencial ainda maior.  Mais de um milhão de refugiados procuraram refúgio no "País do Cedro"- © The Washington Times

Quinze anos após a sua retirada do Líbano, a Síria – dilacerada por uma guerra desde 2011 – passou a ser temida pelo país vizinho como uma ameaça existencial ainda maior. Mais de um milhão de civis, a maioria mulheres e crianças, procuraram refúgio no “País do Cedro”-
© The Washington Times

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 31 de Maio de 2000 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 31, 2000

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