Gebran Tueni: “A retirada de Israel do Líbano foi também uma derrota da Síria”

Os soldados da dinastia Assad no Líbano têm de voltar à Síria. Como os de  Ehud Barak se retiraram para Israel. Este foi o pedido de Gebran Tueni, director do An-Nahar, um dos mais prestigiados diários do Médio Oriente. Relações futuras “terão de ser entre dois Estados soberanos”. [Damasco estabeleceria laços diplomáticos bilaterais em 2008, mas silenciou o seu destemido crítico num atentado que o matou em 2005.] (Ler mais | Read more…)
Gebran Tueni pagou com a vida a sua oposição à presença de tropas sírias no Líbano. Foi assassinado em 2005, após a partida dos últimos soldados de Damasco - uma retirada forçada por uma revolta popular. ©  Direitos Reservados | All Rights Reserved
Gebran Tueni pagou com a vida a oposição às tropas sírias no Líbano. Foi assassinado em 2005, após a partida dos últimos soldados de Damasco – uma retirada forçada por uma revolta popular, o Movimento 14 de Março.
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Num país onde o nome de Hafez al-Assad [tinha] ser sussurrado, porque intocável, o líbanês Gebran Tueni [assassinado em 2005, supostamente por ordem de Damasco] ousava pronunciá-lo com todas as letras.

Ao contrário de outros compatriotas, o carismático director do diário An-Nahar, de Beirute, não [parecia] ter medo do Presidente sírio. Pelo contrário, arriscou mesmo escrever ao filho herdeiro da “dinastia” alauita em Damasco, Bashar, aconselhando um “reposicionamento” das suas tropas no “País do Cedro”.

[Em 26 de Abril de 2005, os últimos soldados sírios – de um total estimado em 40 mil que se instalou desde 1976 no Líbano – deixaram o país vizinho. Com o fim de 29 anos de domínio começou, por outro lado, uma série de atentados visando figuras críticas da dinastia Assad – um deles  Gebran Tueni, em 12 de Dezembro. Em Junho, o mais famoso cronista do ‘An-Nahar’, Samir Kassir, foi também assassinado, o mesmo destino do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em Fevereiro.]

Depois da retirada israelita da “zona de segurança” ocupada, forçada pelo movimento xiita, Tueni [queria] que a Síria [tratasse] o Líbano como “aliado”, não como “agente”.

Cabelo domado com brilhantina, bigode negro num rosto de cera, pulseira de ouro a espreitar do pulso esquerdo, charuto aceso num cinzeiro de prata, Tueni [tinha] quase a figura de um “padrinho”, à semelhança do de Francis Ford Copolla.

Este “D. Corleone de Beirute” – sem ofensa – [impressionava] pela eloquente arrogância, seguro de que o nome da família que, em 1933, fundou um dos mais prestigiados jornais do Médio Oriente lhe [dava] blindagem contra as investidas de Assad.

Ele não [exigia] a partida “imediata” dos cerca de 35-40 mil soldados sírios, que chegaram em 1976, a pedido dos cristãos, receosos que o influxo de refugiados palestinianos desequilibrasse o débil equilíbrio confessional num país também ele frágil. “Não queremos impor a [Assad] duas derrotas consecutivas”, disse-me, numa entrevista [em 2000].

Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro retiraram o último contingente. © Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images
Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro retiraram o último contingente.
© Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images

Para Tueni, um católico maronita [que tinha] ambições políticas à medida do seu grande império editorial e financeiro, a libertação do Sul do Líbano “foi, definitivamente, uma derrota não só de Israel, mas também da Síria”.

Damasco sempre usou os libaneses para recuperar os Montes Golã e não conseguiu o seu objectivo. Só um couraçado como Tueni poderia enfrentar deste modo o “Leão de Damasco”, sobretudo porque ele não [escondia] ser um discípulo de Michel Aoun.

Não que os cristãos libaneses [tivessem] boas recordações do general [que, aos 81 anos e numa ironia da história, seria eleito Presidente, em 2016, apoiado por antigos inimigos, como o Hezbollah, a milícia pró-iraniana que apoia o regime de Damasco]. Foi Aoun quem quase exterminou a comunidade, quando disputou a liderança dos maronitas em sangrentas batalhas, em Metn e Kesrouan, contra o rival Samir Geagea.

O único mérito de Aoun [até à eleição presidencial em 2016, apoiada pelo filho do assassinado primeiro-ministro Hariri, num sinal do declínio da influência saudita em Beirute] tinha sido a coragem de [26 anos antes] ter desafiado o poder sírio. Por essa afronta, Aoun foi obrigado a uma fuga humilhante do palácio de Baabda e do país – procurou exílio em França.

Geagea [cujo nome se pronuncia “JáJá”], por seu turno, foi condenado a cumprir três penas perpétuas – um castigo pela deslealdade a Damasco, não pelos vários massacres cometidos como chefe da extinta milícia falangista. Foi amnistiado em 2005 e continua a liderar  as Forças Libanesas, o segundo maior partido cristão.

[O seu colega Elie Hobeika, que matou centenas de palestinianos em Sabra e Shatila, ascendeu a ministro, quando Geagea foi preso, mas seria morto, em 2002, aos 45 anos, quando um carro armadilhado explodiu junto da sua residência no bairro de Hazamiyeh, em Beirute. O atentado foi reivindicado por um grupo que o acusava de ser um colaboracionista ao serviço de espiões sírios.]

Tueni só [vislumbrava] uma razão para o Governo central protelar o envio de de tropas libanesas para o Sul do país: “Os sírios estão a tentar encontrar uma nova estratégia regional”, porque “ficaram fora de jogo” com a precipitada retirada israelita. Damasco “perdeu o seu campo de batalha”. A partir de agora, se houver incidentes, quem pagará o preço, perguntou o político-jornalista visionário: os libaneses, os sírios no Líbano ou os sírios na Síria?

Os libaneses, garantiu Tueni, neto e homónimo do fundador do An-Nahar, não irão tolerar mais violência. Não querem continuar a ser vítimas. Israel, “espectador interactivo” na fase actual [em 2000], deve, por seu lado, tomar consciência de que qualquer ataque contra interesses sírios terá um profundo impacto sobre o regime em Damasco. Particularmente após a promoção de Bashar al-Assad ao comando nacional do Partido Baas, no poder, sem que o conflito entre a sua minoria alauita e a maioria sunita da população tenha sido resolvido.

A Síria, que continuou [até 2005, ano em que foi obrigada a uma retirada das suas forças] a ser um “actor”, também [sabia] que “a sua posição não é tão forte como era antes da retirada israelita”. Por isso, Assad “procura adiar soluções”, porque “não tem grande margem de manobra”.

Tueni [acreditava] que os Estados unidos forçaram os israelitas a aceitar as condições libanesas para uma retirada unilateral. Talvez tenham percebido que “Hafez al-Assad [que morreria pouco depois, em 2000] já não [era] o mestre do jogo”, e Washington não queria desperdiçar energias com Damasco, quando poderia “avançar aos soluços” com o processo palestiniano.

Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes. ©Hussein Malla|Associated Press
Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes.
©Hussein Malla|Associated Press

A posição irredutível de Hafez al-Assad (retirada total israelita dos Golã até à fronteira da guerra de 1967, incluindo ao Lago de Tiberíades/ Mar da Galileia principal recurso aquífero de Israel) “acabou por ser benéfica” para o [antigo] primeiro-ministro israelita, Ehud Barak. Este cumpriu a promessa eleitoral de retirar “os rapazes” do Líbano, não devolveu os Golã (onde a maioria dos colonos pertence ao seu Partido Trabalhista) e só [deu o que queria] aos palestinianos.

Para o Líbano, Tueni [preconizava] o reposicionamento das tropas sírias no Vale de Bekaa (o Acordo de Taif, que deve o seu nome à cidade saudita onde foi assinado e que, em 1990, pôs fim a 15 anos de guerra civil estipula esta solução, mas não a aplicou) – até que os governos de Damasco e Beirute [estivessem] em condições de mudar o carácter das suas relações bilaterais.

[Só em 13 de Agosto de 2008, com Bashar al-Assad no poder, Damasco aceitaria estabelecer laços diplomáticos com Beirute, abdicando do plano da ‘Grande Síria’.]

Gebran Tueni escreveu a Bashar – já responsável pelo dossier libanês antes de assumir a Presidência síria – para dizer ao filho de Hafez que o Líbano [queria] ver restituída a sua soberania. Ao fazê-lo, irritou o seu pai, Ghassan Tueni (1926-2012), jornalista, deputado e ministro, várias vezes preso por enfurecer poderes.

Em 1976, tropas sírias ocuparam a redacção do An-Nahar e suspenderam a publicação por 18 dias. Para evitar a censura de Damasco, o jornal passou a ser editado em Paris, mas em 1978 foi relançado em Beirute, sob a direcção de Gebran Tueni.

Em 1981, a guerrilha palestiniana expulsou o diário de Beirute ocidental. Em 1982, durante a invasão israelita, a sede do jornal foi bombardeada e a publicação foi novamente suspensa. Em 1984 e em 1990, milícias armadas acabaram com o An-Nahar, mas este renasceria em 1992, seis décadas depois de ter sido criado com 50 moedas de ouro, quatro páginas e cinco jornalistas: de 500 exemplares no início, [tinha em 200o] uma circulação de quase 50 mil.

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni.
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado no jornal PÚBLICO em 3 de Junho de 2000 | This article, now updated and revised, was published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 3, 2000

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