Gebran Tueni: “A retirada de Israel do Líbano foi também uma derrota da Síria”

Os soldados da dinastia Assad no Líbano têm de voltar à Síria. Como os de  Ehud Barak se retiraram para Israel. Este é o pedido do director do An-Nahar, um dos mais prestigiados e influentes diários do Médio Oriente. Relações futuras “terão de ser entre dois Estados soberanos”.  (Ler mais | Read more…)

Grebran Tueni, um dos maiores críticos da presença militar síria no Líbano, seria assassinado por ordem de Damasco cinco anos depois deste entrevista, em dezembro de 2005
© gebrantueni.com

Num país onde o nome de Hafez al-Assad tem ser sussurrado, porque intocável, o líbanês Gebran Tueni ousa pronunciá-lo com todas as letras.

Ao contrário de outros compatriotas, o carismático director do diário An-Nahar, de Beirute, não parece ter medo do Presidente sírio. Pelo contrário, arriscou mesmo escrever ao filho herdeiro da “dinastia” alauita em Damasco, Bashar, aconselhando um “reposicionamento” das suas tropas no “País do Cedro”.*

Depois da retirada israelita da “zona de segurança” ocupada, forçada pelo movimento xiita Hezbollah, Tueni quer que a Síria trate o Líbano como “aliado”, não como “agente”.

Cabelo domado com brilhantina, bigode negro num rosto de cera, pulseira de ouro a espreitar do pulso esquerdo, charuto aceso num cinzeiro de prata, Tueni tem quase a figura de um “padrinho” de Francis Ford Copolla, apenas na aparência física

Este “D. Corleone de Beirute” – sem ofensa – impressiona pela eloquente arrogância, seguro de que o nome da família que, em 1933, fundou um dos mais prestigiados jornais do Médio Oriente lhe dá blindagem contra as investidas de Assad.

Ele não exige a partida “imediata” dos cerca de 35-40 mil soldados sírios, que chegaram em 1976, a pedido dos cristãos, receosos que o influxo de refugiados palestinianos desequilibrasse o débil equilíbrio confessional num país também ele frágil.

“Não queremos impor a [Assad] duas derrotas consecutivas”, disse-me, numa entrevista.

Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro retiraram o último contingente. © Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images

Soldados sírios em missão de patrulha num bairro do sul de Beirute, em em 27 de Maio de 1988. Em 2005, os senhores de Damasco que nunca haviam reconhecido a soberania do País do Cedro foram forçados a retirar o seu último contingente
© Rabin Moghrabi | AFP | Getty Images

Para Tueni, um católico maronita que tem ambições políticas à medida do seu grande império editorial e financeiro, a libertação do Sul do Líbano “foi, definitivamente, uma derrota não só de Israel, mas também da Síria”.

Damasco sempre usou os libaneses para recuperar os Montes Golã e não conseguiu o seu objectivo. Só um couraçado como Tueni poderia enfrentar deste modo o “Leão de Damasco”, sobretudo porque ele não esconde ser discípulo de Michel Aoun**.

Não que os cristãos libaneses tenham boas recordações deste general que quase exterminou a comunidade, quando disputou a liderança dos maronitas em sangrentas batalhas, em Metn e Kesrouan, contra o rival Samir Geagea.

O único mérito de Aoun tinha sido a coragem de [26 anos antes] ter desafiado o poder sírio. Por essa afronta, Aoun foi obrigado a uma fuga humilhante do palácio presidencial de Baabda e do país – procurou exílio em França.

Geagea [cujo nome se pronuncia “JáJá”] foi, por seu turno, condenado a cumprir três penas perpétuas – um castigo pela deslealdade a Damasco, não pelos vários massacres cometidos como chefe da extinta milícia falangista.***

Tueni só vislumbra uma razão para o Governo central protelar o envio de de tropas libanesas para o Sul do país: “Os sírios estão a tentar encontrar uma nova estratégia regional”, porque “ficaram fora de jogo” com a precipitada retirada israelita. Damasco “perdeu o seu campo de batalha”.

A partir de agora, se houver incidentes, quem pagará o preço, perguntou o político-jornalista visionário: os libaneses, os sírios no Líbano ou os sírios na Síria?

Os libaneses, garantiu Tueni, neto e homónimo do fundador do An-Nahar, não irão tolerar mais violência. Não querem continuar a ser vítimas. Israel, “espectador interactivo” na fase actual, deve tomar consciência de que qualquer ataque contra interesses sírios terá um profundo impacto sobre o regime em Damasco.

A Síria, que continua a ser um “actor”, também sabe que “a sua posição não é tão forte como era antes da retirada israelita”. Por isso, Hafez al-Assad “procura adiar soluções”, porque “não tem grande margem de manobra”.

Tueni acredita que os Estados unidos forçaram os israelitas a aceitar as condições libanesas para uma retirada unilateral. Talvez tenham percebido que “Hafez al-Assad já não é o mestre do jogo”, e Washington não quer desperdiçar energias com Damasco, quando pode “avançar aos soluços” com o processo palestiniano.

Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes. ©Hussein Malla|Associated Press

Ghassan Tueni, pai de Gebran, foi jornalista, deputado e ministro. Várias vezes o prenderam por enfurecer poderes
© Hussein Malla|Associated Press

A posição irredutível de Hafez al-Assad (retirada total israelita dos Golã até à fronteira da guerra de 1967, incluindo ao Lago de Tiberíades/ Mar da Galileia, principal recurso aquífero de Israel) “acabou por ser benéfica” para o primeiro-ministro israelita, Ehud Barak.

Este cumpriu a promessa eleitoral de “retirar os rapazes” do Líbano, não devolveu os Golã (onde a maioria dos colonos pertence ao seu Partido Trabalhista) e só dá o que quer aos palestinianos.

Para o Líbano, Tueni preconiza o reposicionamento das tropas sírias no Vale de Bekaa (o Acordo de Taif, que deve o seu nome à cidade saudita onde foi assinado e que, em 1990, pôs fim a 15 anos de guerra civil estipula esta solução, mas não a aplicou) -, até que os governos de Damasco e Beirute  estejam em condições de mudar o carácter das suas relações bilaterais. ****

Gebran Tueni escreveu a Bashar al-assad [responsável pelo dossier libanês antes de assumir a presidência síria] – para dizer ao filho de Hafez que o Líbano quer ver restituída a sua soberania. Ao fazê-lo, irritou o seu pai, Ghassan Tueni (1926-2012), jornalista, deputado e ministro, várias vezes preso por enfurecer poderes.

Em 1976, tropas sírias ocuparam a redacção do An-Nahar e suspenderam a publicação por 18 dias. Para evitar a censura de Damasco, o jornal passou a ser editado em Paris, mas, em 1978, foi relançado em Beirute, sob a direcção de Gebran Tueni.

Em 1981, a guerrilha palestiniana expulsou o diário de Beirute ocidental. Em 1982, durante a invasão israelita, a sede do jornal foi bombardeada e a publicação foi novamente suspensa.

Em 1984 e em 1990, milícias armadas acabaram com o An-Nahar, mas este renasceria em 1992, seis décadas depois de ter sido criado com 50 moedas de ouro, quatro páginas e cinco jornalistas: de 500 exemplares no início,  tem agora [em 2000] uma circulação de quase 50 mil.

Gebran Tueni, aqui na redacção do An-Nahar, o jornal fundado pela sua família, era um católico maronita com ambições políticas
© An-Nahar English

*Em 26 de Abril de 2005, os últimos soldados sírios – de um total estimado em 40 mil que se instalaram desde 1976 no Líbano – deixaram o país vizinho. Com o fim de 29 anos de domínio começou, por outro lado, uma série de atentados visando figuras críticas da dinastia Assad – um deles  Gebran Tueni, em 12 de Dezembro. Em Junho, o mais famoso cronista do ‘An-Nahar’, Samir Kassir, foi também assassinado, o mesmo destino do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em Fevereiro.]

** Aos 81 anos e numa ironia da história, Michel Aoun seria eleito Presidente em 2016, apoiado por antigos inimigos, como o Hezbollah, a milícia pró-iraniana que apoia o regime de Damasco.

*** Em 2005, Samir Geaga foi amnistiado dos crimes de guerra que cometeu e continuou a liderar  as Forças Libanesas, o segundo maior partido cristão. O seu colega Elie Hobeika, que matou centenas de palestinianos em Sabra e Shatila, ascendeu a ministro, mas seria morto, em 2002, aos 45 anos, quando um carro armadilhado explodiu junto da sua residência no bairro de Hazamiyeh, em Beirute. O atentado foi reivindicado por um grupo que o acusava de ser um colaboracionista ao serviço de espiões sírios.

**** Só em 13 de Agosto de 2008, com Bashar al-Assad no poder, Damasco aceitaria estabelecer laços diplomáticos com Beirute, abdicando do plano da ‘Grande Síria’.

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Capa do An-Nahar anunciando o assassínio do seu director, Gebran Tueni

Este artigo, que teve a colaboração de Graham Usher, agora revisto, actualizado e com outro título, foi publicado no jornal PÚBLICO em 3 de Junho de 2000 | This article, now updated, revised, and under a different headline, was published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 3, 2000 (Graham Usher contributed to this report)

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