Dunya Mikhail: A poeta que deu voz às vítimas do Daesh

Uma das mais importantes escritoras do Iraque conta num livro, belíssimo e comovente, a história de Abdullah Shrem, um apicultor de Sinjar que aproveitou a sua rede de contactos nas montanhas do Curdistão para salvar mulheres yazidis raptadas e escravizadas pelo autoproclamado “estado islâmico”. (Ler mais | Read more):

Dunya Mikhail: “De início, eu queria escrever uma epopeia sobre o sofrimento [das mulheres yazidis resgatadas por Abdullah Shrem] Ao ouvir as suas histórias, que parecem inacreditáveis, encontrei a minha epopeia nas suas vozes”
© Nina Subin

Em Sinjar, Abdullah Shrem tinha um “enorme jardim” onde, durante horas a fio, descobria “os segredos, a meticulosa organização e a harmonia com a natureza” das suas colmeias. O que mais o maravilhava era “as superiores qualidades de voo da abelha rainha, em comparação com os machos”, mas também o facto de, sem ela, o enxame ficar desorientado, o que o fez “valorizar profundamente” as mulheres da sua vida.

A assumida “obsessão” de Shrem com as colmeias deu lugar a outra quando o “estado islâmico” ou Daesh raptou a sua sobrinha Marwa, em Outubro de 2014. A partir daquele momento, ele “deixou de cuidar de abelhas para combater bestas”.

Comerciante de mel no Iraque e na Síria, tinha dinheiro, reputação, contactos e, acima de tudo, conhecia bem o terreno agreste. Aproveitou-se de tudo isto para criar uma rede de transportadores e contrabandistas, homens e mulheres, para resgatar as suas “rainhas”, aquelas a quem o Daesh chama sabaya (escravas).

São as histórias heróicas deste salvador e das sobreviventes – Marwa, Nadia, Parveen, Nazik, Zuhour, Badia, Kamy, Maha, Mona, Nidal, Claudia, Lalish, Jamila e outras – que Dunya Mikhail, uma das maiores poetas iraquianas, narra em The Beekeeper of Sinjar: Rescuing the Stolen Women of Iraq [publicado em português como “O homem que salvava mulheres”, Ed. Asa, Outubro 2019], um livro extraordinário que atesta o sofrimento e a capacidade de resistência do povo yazidi face ao genocídio cometido pelo Daesh.

Três jovens yazidis queimam insenso durante a cerimónia de abertura da primeira vala comum onde o Daesh lançou algumas das suas vítimas, em Kojo, Sinjar, Curdistão iraquiano
© Alessio Mamo | Al Jazeera

Quase todos os relatos seguem um padrão. Os homens eram conduzidos até valas comuns e abatidos a tiro. As mulheres eram separadas: as mais velhas enterradas vivas, muitas vezes com os seus netos ainda bebés; as mais jovens, casadas ou virgens, vendidas e compradas em mercados de escravas (sexuais e domésticas), frequentemente realizados durante “competições de récitas do Corão, ou em leilões na Internet.

Os rapazes eram radicalizados em mesquitas, forçados a treino militar, fazer explosivos, cometer atrocidades.

Há histórias com um fim agridoce, como a de Zuhour, que estava grávida do terceiro filho quando foi raptada e viu o marido enterrado vivo à sua frente. Conseguiu fugir do cativeiro e foi acolhida pela costureira Reem, filha de um combatente daeshi.

As duas mulheres estabeleceram uma relação de amizade tão forte que, quando o emissário de Shrem foi buscar Zuhour, a protectora Reem desabafou: “Quem me dera ir consigo.”

Há histórias com um fim amargo, como a de Jamila, sequestrada quando ia ter com o noivo. Ao fim de um ano e meio de clausura, tortura e escravidão, conseguiu fugir com três outras companheiras de infortúnio. Juntas, superaram todos os obstáculos e perigos.

De regresso a casa, Jamila tinha esperança de que o amado a receberia de braços abertos, orgulhoso da sua luta vitoriosa. A mãe destruiu-lhe as ilusões, quando revelou: “Ele casou-se o mês passado”. Com o seu vestido florido e sem dizer uma palavra que traísse emoção, Jamila saiu à rua e suicidou-se.

Uma antiga escrava sexual de vários combatentes do Daesh (à direita) chora no momento em que se despede da sua tia, antes de deixar o Iraque para viver na Alemanha
© Lindsey Addario | The New York Times

Dunya Mikhail, natural de Bagdad, conheceu o apicultor de Sinjar por acaso. Ele ajudou na tradução de uma conversa telefónica com Nadia, que a ela tinha sido apresentada por um jornalista yazidi. Os dois não mais deixaram de comunicar – ele no Curdistão iraquiano e ela nos Estados Unidos.

Ele detalhava as suas complexas operações de resgate, umas mais bem sucedidas do que outras – por vezes os daeshis arruinavam os seus planos, ora matando os contrabandistas ora ficando com milhares de dólares que ele pagava sem libertarem as escravas. Ela, minuciosamente, tomava nota de tudo o que ouvia.

A autobiografia de Dunya também é tecida de “prisão, tortura, morte, desaparecimentos, massacres e violações”, como, no seu premiado livro de poemas The War Works Hard, descreve Saadi Simawe, autora do prefácio. Tradutora e jornalista do antigo diário Baghdad Observer, ela foi colocada numa lista de alvos a abater durante a tirania de Saddam Hussein.

“Os escritores são como aquela criança que (no conto de Hans Christian Andersen) diz que o rei vai nu”, diz-me Dunya Mikhail, numa entrevista por e-mail, justificando por que fugiu para os EUA, a nação que ajudou o regime do Partido Baas a subir ao poder, em 1963, e o derrubou, em 2003.

“Era problemático dizer a verdade num lugar e num tempo em que queriam que mobilizássemos soldados para a guerra, para terem uma morte sem sentido. Como escritora, eu precisava do pensamento livre. A censura foi a principal razão por que deixei o meu país.”

“Tínhamos um edifício que se chamava mesmo ‘Departamento da Censura’”, adianta Dunya. “Os que lá trabalhavam tinham de controlar o que era ‘aceitável’ e ‘inaceitável’ para quem escrevia e lia. Alguns dos meus escritos foram considerados ‘subversivos’. Consegui partir e chegar à América porque tinha aqui familiares. Descobri que aqui, onde vivo há vinte anos, a censura não tem um edifício em terra, mas está no ar, implícita.”

Raptada aos 13 aos, Jihan Qassem foi forçada, aos 15, a casar-se com um tunisino combatente do Daesh. Com os seus filhos, ambos fugiriam do reduto de Baghouz, quando este foi bombardeado em Março de 2019
© AP | straitstimes.com

Dunya, que deixou a pátria “com uma mala de viagem”, pensou na “injustiça que era pessoas partirem de mãos vazias” quando o Daesh tomou de assalto as terras onde os yazidis dizem habitar há mais de 1500 anos. “As que partiram de mãos vazias também tiveram mais sorte do que os que foram escravizadas”, observou.

“Quando mulheres foram roubadas e postas à venda em mercados públicos, senti-me insultada e não podia ficar calada. Contactei várias pessoas em Sinjar e em aldeias vizinhas, e descobri que eu era como uma parteira.”

“Tinha de testemunhar o sofrimento das mulheres até se consumar o parto. De início, queria escrever uma epopeia sobre o sofrimento delas. Ao ouvir as suas histórias que parecem inacreditáveis, encontrei a minha epopeia nas suas vozes.”

Aisha, uma jovem yazidi com as suas duas filhas, Jinan e Jihan, na casa da família em Sinjar. As duas meninas foram raptadas pelo Daesh e mãe foi escravizada. Em 2018, as três regressaram ao Curdistão iraquiano, resgatadas na Síria em duas operações distintas
© Alessio Mamo | Al Jazeera

“Todas as histórias [recolhidas durante um ano] foram difíceis de escrever”, garante Dunya. “Mas pensei para mim mesma: se a verdade é dura e angustiante de ouvir, nada é mais duro e angustiante do que tudo o que elas sofreram.” Ficou psicologicamente afectada? “Sim – até tive sonhos influenciados por estas histórias. Num deles, eu era raptada por extraterrestres vindos de outros planetas.”

Abdullah Shrem continua a resgatar sobreviventes. “Há milhares de pessoas que permanecem desaparecidas. O ‘califado’ do Daesh caiu, mas a sua ideologia está por toda a parte.” E os sobreviventes continuam a contactar Dunya. “Procuram saber se estou bem, como se quisessem consolar-me.”

“Um dos sobreviventes, Idrees [que testemunhou a morte à queima-roupa do filho e do irmão], referiu que ler a sua história no meu livro o fez reviver tudo o que passou. Senti-me culpada, mas ele disse-me que o livro foi o melhor presente que jamais recebera.”

Dunya sabia “muito pouco” dos yazidis. “Só o que ouvia quando ainda vivia no Iraque, que eles vendiam boas azeitonas. Depois da catástrofe de 2014 aprendi tanto. O que mais me fascinou foi o facto de serem eles quem mantém intactos os rituais da antiga Mesopotâmia.”

“Símbolos dos tempos sumérios estão inscritos nas paredes do Templo de Lalish”, em Sinjar. É este o seu centro espiritual, onde, na primeira quarta-feira de Abril, continuam a celebrar o Ano Novo, alumiando 365 lanternas, num sinal de esperança.

Turkia Hussein, acompanhada dos seus filhos, festeja a primavera no santuário yazidi de Lalish, no norte do Iraque, dando graças por ter escapado aos seus captores do Daesh
© Marcio Pimenta | PRI

Os tempos ainda são, porém, de escuridão. Traídos por árabes e curdos, que os abandonaram nos seus piores momentos, será possível restabelecer a confiança entre vizinhos? “É uma pergunta difícil, porque o que aconteceu deixou feridas muito profundas”, admite Dunya Mikhail.

“Não é impossível cicatrizá-las, mas deixarão marcas na mente e no corpo. A sobrevivência nunca é completa. Mas há esperança de que a dor aproxime as pessoas mais do que as afaste.”

Dunya adoraria ver construído, na região, um museu da memória, “Porque a memória deve ser publicamente evocada e não ignorada. Honraria pelo menos a dor e a necessidade de dar testemunho.”

“Dar voz a uma memória dolorosa e silenciosa é difícil, mas extremamente importante.” Defende também a criação de “um tribunal internacional, presidido pela ONU, para julgar os perpetradores de genocídio e crimes contra a humanidade”.

E o que fazer com os milhares de mulheres, viúvas e filhos do Daesh, muitos deles renegados pelas famílias e pelos seus Estados que lhes negam cidadania? “Alguns são vítimas de abusos físicos e emocionais; outros são crentes radicais na ideologia salafista-jihadista”, anota Dunya. “Saber distingui-los não é fácil.”

Uma yazidi que havia sido rapada pelo Daesh, mas conseguiu fugir em 2016, encontrou refúgio, para si e para os filhos numa residência na província de Duhok, norte do Iraque
© Ari Jalal | Reuters

Mais dramática é a situação das mulheres yazidis que os daeshis escravizaram e engravidaram. “Conheço uma sobrevivente que regressou ao lugar de onde fugiu porque não conseguia viver sem a filha que dera à luz durante a sua escravidão”, revela Dunya.

“É por isto que digo que a sobrevivência dos yazidis não está completa. Mães que sobrevivem sem os filhos, não é uma sobrevivência real. Sobreviveram sozinhas e não podem esquecer o que lhes aconteceu a elas e aos seus entes queridos.”

Há quem tema que o Yazidismo esteja em risco de extinção, mas não Dunya, que pertence à maior denominação cristã do Iraque, os caldeus da Igreja Católica do Oriente. Os yazidis que procuram o exílio “transportam a sua religião para onde quer que vão”, observa. Todos nós o fazemos”.

O líder religioso yazidi Asmar Asmail derrama água benta sobre a cabeça de Hure Kaso Murad – um passo importante para a sua reintegração na comunidade depois de ter sido forçada pelo Daesh a converter-se ao Islão
© Marcio Pimenta | PRI

Caldeus, assírios, ortodoxos gregos, melquitas, arménios – os cristãos do Iraque totalizavam 1,5 milhões fiéis em 2003. Estima-se que agora sejam pouco mais de 500 mil. “Os daeshis pintaram as suas casas com a letra ‘N’ de Nasara [cristãos], denuncia Dunya.

“Com uma letra vermelha, tentaram reduzir a sua longa história para os ameaçar: ou partem ou morrem. Eu tinha primos na região. Fugiram, tal como os yazidis. Ali estava a campa da minha avó. Quando vi que os terroristas destruíam túmulos e sepulturas, senti que a minha avó tinha morrido uma segunda vez.”

“Não olhar para trás era o meu objectivo quando deixei o Iraque, mas, como Orfeu, quebrei a promessa”, confessa Dunya Ibrahim, que, após duas décadas de exílio, voltou à pátria, em curta visita.

“Fui ao encontro das pessoas olhos nos olhos. Não perguntei nada do que pensava perguntar-lhes. Ia preparada para ouvir histórias terríveis. O que mais me surpreendeu, todavia, foi a esperança que elas tentaram dar-me.”

“Uma das mulheres no campo [de deslocados] apontou para uma fotografia de uma paisagem natural no seu calendário de 2016, e disse-me que o próximo calendário terá, provavelmente, imagens mais verdejantes.”

Dunya Mikhail e Abdullah Shrem, o apicultor de Sinjar no templo yazidi de Lalish, no Iraque
© Cortesia de | Courtesy of Dunya Mikhail

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Outubro de 2019 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, October 2019 edition

Yazidis: Um povo em busca de futuro

Cinco anos após o genocídio cometido pelo “estado islâmico”, a segunda maior minoria religiosa do Iraque e uma das mais perseguidas ainda não encontrou justiça e paz. Mas encontrou heróis. Como Pari Ibrahim, fundadora e directora executiva da Free Yezidi Foundation. Esta é a sua história. (Ler mais | Read more…)

Pari Ibrahim, fundadora e directora executiva da Free Yezidi Foundation, com crianças do campo de refugiados de Khanke, no Curdistão iraquiano
© Free Yezidi Foundation

Na madrugada de 3 de agosto de 2014, a vida de Pari Ibrahim mudou radicalmente. “Acordei com vozes agitadas à minha volta e perguntei aos meus pais: ‘O que se passa?’”. Eles responderam: “O estado islâmico entrou em Sinjar e está a matar os homens e a raptar mulheres e crianças. O estado islâmico está a cometer um genocídio e ninguém nos ajuda.”

Em Sinjar, no norte do Iraque, porque “o estado islâmico ameaça matar quem não se converter ao Islão”, os familiares de Pari e milhares de outros yazidis fugiam para o monte sagrado com o mesmo nome da cidade situada entre os rios Tigre e Eufrates.

“Fiz uma busca frenética por notícias online e não havia nada sobre o meu povo, que agonizava sem alimentos nem água, esperando lentamente pela morte”, conta-me Pari Ibrahim numa entrevista por e-mail.

“As nossas mulheres e meninas estavam a ser violadas e torturadas. Eu tinha de fazer alguma coisa.” E foi assim que, aos 24 anos, ela interrompeu a licenciatura em Direito na Universidade de Amesterdão e abandonou o emprego numa biblioteca para criar a Free Yezidi Foundation (FYF), organização de ajuda aos “mais vulneráveis”.

Yezidis forçados a fugir das suas casas pelo Daesh em Sinjar procuram refúgio na fronteira com a Síria, em 2014
© Rodi Said | Reuters | The Irish Times

Pari não se esquece que, em 1991, também ela, com apenas 2 anos, os seus três irmãos, a mãe e o pai tiveram de fugir para as montanhas da antiga Mesopotâmia, quando o ditador Saddam Hussein esmagou uma rebelião curda numa ofensiva que causou cerca de 20 mil mortos.

“Foi uma caminhada cansativa que parecia sem fim”, recorda. “Estava muito frio. Começou a cair neve e a chover torrencialmente. Não tínhamos nada. Os meus pais deixaram tudo para trás, para poderem carregar ao colo os filhos, demasiado frágeis para andarem sozinhos. Muita gente morreu.”

“Nós conseguimos chegar a Silopi, um campo de refugiados na Turquia, onde ficámos um ano, até sermos chamados para iniciar nova vida na Holanda, como refugiados políticos.”

Em 2014, desesperada “porque ninguém levantava um dedo” para salvar um povo que se considera o mais antigo do mundo, Pari Ibrahim organizou manifestações em Haia, na Holanda, e em Bruxelas, na Bélgica, em frente do Parlamento Europeu.

“Comecei a aparecer nas televisões. Iniciei [nas redes sociais] a hashtag #StopYezidiGenocide. Fui falar à ONU em Genebra e, depois disso, começaram a chegar fundos. Mas só quando o presidente Barack Obama decidiu que os EUA iriam lançar ataques aéreos contra o estado islâmico, é que sentimos, finalmente, que as nossas vozes tinham sido ouvidas.”

Pari Ibrahim, em 2016, na cidade de Sinjar, destruída pelo Daesh
© Free Yezidi Foundation

Sinjar seria libertada por soldados curdos e voluntários yazidis em 13 de Novembro de 2015, mas as acções do Daesh ainda hoje atormentam Pari e outros yazidis.

“Na minha família, 19 mulheres e meninas foram raptadas. Duas conseguiram fugir, mas 17 continuam desaparecidas. Não temos esperança de as reencontrar.”

“Vinte e um homens foram mortos. Estarão em valas comuns. Foram as duas sobreviventes que revelaram como os homens e as mulheres mais velhas foram enterrados vivos.”

“Foram elas que nos disseram que tinham sido torturadas e violadas. São memórias indescritíveis de quem perdeu tudo. Nós, como comunidade, perdemos tudo.”

Uma família yazidi que fugiu da violência em Sinjar, abriga-se uma escola na região autónoma curda de Dohuk, no norte do Iraque, em Agosto de 2014
© Safin Hamed | AFP | Getty Images | thestar.com

“Temos agora a certeza de que o estado islâmico cometeu um genocídio, já reconhecido pelo Departamento de Estado americano, pelo Museu do Holocausto dos EUA, pela Comissão da Nações Unidas para a Síria, pelo Parlamento Europeu e por outras instituições e organismos internacionais”, realça Pari.

Até 20 de julho deste ano, as estatísticas são estas: dos 550 mil yazidis que viviam no Iraque, 360 mil são agora deslocados internos. O número de órfãos totaliza 2745. Foram encontradas 80 valas comuns, além de dezenas de outras sepulturas individuais.

Pelo menos 68 templos foram destruídos. Mais de mil yazidis foram obrigados a emigrar. Calcula-se em 6417 o número de raptados. Foram libertados 3487, mas 2930 continuam cativos ou desaparecidos.

“A vida dos deslocados internos é muito dura”, atesta Pari, cuja fundação dá apoio – terapêutico, educacional e profissional – a mulheres e crianças no campo de Xanque, província curda de Duhok, onde cerca de 16 mil residentes coexistem com outros 12 mil que habitam tendas e edifícios improvisados e inacabados nas imediações.

“É extremamente difícil viver numa tenda. Ao fim de cinco anos, as pessoas perdem a esperança. Os psicólogos na FYF alertam-nos que cada vez mais pessoas têm pensamentos suicidas. E a realidade é que há cada vez mais suicídios.”

Mulheres yazidis choram a morte dos seus entes queridos, numa cerimónia que marcou a abertura da primeira vala comum das vítimas do Daesh em Kojo, Sinjar, Curdistão iraquiano
© Alessio Mamo | Al Jazeera

“O genocídio ainda não acabou”, alerta Pari. “Por isso, insistimos na necessidade de uma intervenção, para sabermos onde estão as mulheres e as crianças desaparecidas.”

“A comunidade internacional falhou totalmente ao não perceber o carácter do estado islâmico. Não soube prevenir o seu aparecimento e, do ponto de vista da justiça e responsabilidade, não sabe o que fazer desde a queda do autoproclamado califado.”

“É difícil entender o objectivo de tratados e convenções sobre genocídio, crimes contra a humanidade e outras atrocidades se as potências mundiais não agem quando esses crimes são cometidos em flagrante”, critica Pari.

“Agora que terminou com êxito a campanha militar para, pelo menos, privar o estado islâmico de território, muitos pensam que o trabalho está feito. Isso é errado. Ainda há dezenas de milhares de membros do Daesh espalhados pela Síria e pelo Iraque. E há muitos na Europa.”

“Os sobreviventes do genocídio merecem ser ouvidos e participar nos julgamentos dos crimes do estado. Até isso acontecer, não haverá justiça. Se um daeshi for condenado por ser terrorista, mas não por comprar e vender escravas yazidis, onde está o peso legal deste processo?”

“Não há uma solução única” para este problema”, acentua a directora executiva da FYF. “Se houver um tribunal, provavelmente julgarão apenas os cabecilhas do Daesh. Serão, talvez, 10, 20, 50. Mas os perpetradores são dezenas de milhares, soldados rasos que admitiram envolvimento em centenas e violações e assassínios.”

Famílias yazidis que fugiram de Sinjar aguardam por ajuda num edifício abandonado que, em 2014, antes da derrota do Daesh, usavam como residência principal, em Dohuk, região autónoma curda no norte do Iraque
© Youssed Boudlal | Reuters | Al Jazeera

O que Pari Ibrahim não quer é um sistema em que muçulmanos sunitas sejam acusados sem provas e sem direito a advogados de defesa. “Isso não é justiça, mas vingança. Corremos este risco no Iraque e na Síria onde os tribunais não são fiáveis.”

O que ela quer é uma colaboração entre um tribunal internacional e as SDF naqueles dois países. “É um enorme desafio. Se falharmos, os genocidas regressarão. Aliás, já começaram a construir o ‘estado islâmico 2.0’.”

Além de justiça, os yazidis reclamam “maior representação política”. No parlamento de Erbil, de um total de 111 lugares, “5 são atribuídos aos cristãos, 5 aos turcomanos e até um aos arménios, comunidade muito pequena –, mas nenhum aos yazidis”, constata Pari. “Isto é injusto. Devíamos ter direito a 5, pelo menos.” Na capital iraquiana, os yazidis têm apenas uma deputada, Vian Dakhil.

Concentrados em áreas disputadas por Bagdad e Erbil que se mantêm subdesenvolvidas porque nem o Governo central nem o governo regional curdo têm certeza de que, no futuro, controlarão estes territórios, os marginalizados yazidis reclamam, igualmente, “oportunidades iguais em termos económicos e académicos”, destaca Pari Ibrahim.

Um cartaz nas ruas de Sinjar homenageia Vian Dakhil, a única deputada yazidi no Parlamento iraquiano cujo discurso, inesperado e emotivo, denunciando o genocídio do seu povo obrigou a comunidade internacional a agir contra o Daesh. Em 2014, ela recebeu o Prémio Anna Politovskaya pela coragem e determinação que demonstrou
© Alessio Mamo | Al Jazeera

A província de Nínive, que inclui Sinjar, já enfrentava escassez de empregos e serviços antes da chegada do Daesh, segundo um estudo do Middle East Research Institute (MERI).

Os yazidis tinham apenas acesso a um hospital de cerca de 15-20 camas. Sem maternidade, muitas grávidas eram obrigadas a deslocar-se a Duhok, distante 167 km.

Também não há universidades nem faculdades na região. Para terem ensino superior, os yazidis vão para Mosul, cidade que nunca foi, para eles, muito hospitaleira.

Estima-se que, só em 2013, cerca de 1300 alunos abandonaram os estudos devido a ameaças de morte.

“Em comparação com outros, sinto que somos sempre relegados para último plano”, queixa-se Pari. “Talvez agora que somos reconhecidos pelo mundo [Nadia Murad, uma das sobreviventes, ganhou o Nobel da Paz, em 2018, e vários outros prémios], possamos ter mais portas abertas.”

Famílias yazidis provenientes de Sinjar chegam ao posto fronteiriço de Fishkhabur, entre a região curda de Dohuk, no Iraque, e a Síria, em 10 de Agosto de 2014. Foram milhares as que fugiram das suas aldeias e procuraram refúgio nas áreas controladas por forças curdas depois de uma ofensiva do Daesh
© Moises Saman | Magnum | TIME

A rivalidade entre árabes e curdos no norte do Iraque também tem impacto na representação das minorias, segundo o estudo do MERI.

Na luta pelo controlo territorial, ambas as partes exercem intensa pressão sobre os yazidis para que se identifiquem como curdos ou árabes, “subvertendo a sua distinta identidade religiosa”.

Entre 1970 e 2003, tentando subjugar os insurrectos curdos, Saddam Hussein repovoou Sinjar e arredores com árabes sunitas.

Para estabelecer laços de lealdade, os yazidis receberam-nos de braços abertos, escreve Susan Shand em Sinjar: 14 Days that Saved the Yazidis from Islamic State. Deram-lhes o título de “Kreef” ou “Padrinho”. Todas as crianças yazidis tinham, à nascença um “kreef”.

A queda de Saddam e a ascensão ao poder de um governo maioritariamente xiita em Bagdad geraram grande ressentimento entre os árabes sunitas. Quando o Daesh chegou, muitos deles viraram-se contra os yazidis.

Os combatentes curdos (peshmerga) que protegiam as aldeias yazidis também se retiraram sem aviso, o que muitos condenaram como “traição”.

“Estamos muito longe de restabelecer a confiança”, assevera Pari Ibrahim. “Vizinhos tornaram-se captores, amigos tornaram-se violadores e famílias inteiras foram cúmplices e participantes activos nos crimes cometidos contra o meu povo. Sem justiça, não será possível restaurar a confiança e a amizade.”

Um homem reza à porta do mais sagrado tempo yazidi  – o túmulo do Sheikh Adi – em Lalish, no norte do Iraque
© David Honl | zumapress.com | Corbis | National Geographic

“Árabes e curdos precisarão de muito tempo, e de muitos actos de boa fé, até que os yazidis – impotentes, sem privilégios e em risco – voltem acreditar neles. A ideologia do Daesh ainda não foi derrotada. O meu povo continua, com razão, a sentir-se ameaçado.”

Para o “estado islâmico”, os yazidis são “adoradores do diabo”, o que muito ofende esta minoria cuja fé incorpora elementos zoroastras, maniqueístas, judeus, cristãos e muçulmanos sufis. “É uma religião oral, sem um livro sagrado”, descreve Susan Shand.

“Venera um ser supremo chamado Yasdan, que criou o mundo e o olha passivamente. Dele emanam sete grandes espíritos, o maior dos quais é o Anjo Pavão, denominado Melek Taus e considerado o alter ego de Deus.”

“É por Melek Taus, a quem rezam cinco vezes por dia, ser também conhecido como Shaytan, palavra árabe para ‘demónio’, que os yazidis são erradamente chamados de ‘adoradores do diabo’, um equívoco reforçado pelo facto de não haver conceito de inferno no Yazidismo.”

Os yazidis acreditam que “a transmigração da alma leva à sua purificação através de um renascimento contínuo, por isso a morte não tem um destino final.”

Sheikh Kato, líder espiritual dos yazidis, e outros clérigos libertam pombas brancas durante a cerimónia que marcou a abertura da primeira de mais de 70 valas comuns em Kojo, Sinjar. Sobreviventes e famílias das vítimas do genocídio perpetrado pelo Daesh juntaram-se aqui em Junho de 2019
© Alessio Mamo | Al Jazeera

O pior que pode acontecer a um yazidi é ser expulso da comunidade, porque isso “significa que a sua alma jamais progredirá”. As conversões são proibidas e só os nascidos na religião a ela podem pertencer.

A comunidade tem quatro castas. A mais importante é a de Baba Sheikh, seguido como um “homem santo”, e a sua família. A quarta, a dos Murid ou Plebeus, inclui a maioria dos yazidis. Não há casamentos mistos entre estas castas.

O “estado islâmico” colocou, uma comunidade conservadora perante um dos seus maiores desafios. O que fazer com as antigas escravas dos daeshis e os seus filhos nascidos de violações?

Para já, os líderes aceitaram apenas acolher as mulheres, não as crianças, forçando muitas delas a escolhas duríssimas. Abandonar os filhos, dá-los para adopção ou ficar com eles arriscando o repúdio do colectivo.

“Nós, na Free Yezidi Foundation, apoiamos as sobreviventes e as suas escolhas”, orgulha-se Pari Ibrahim. “Estaremos com elas em qualquer circunstância. Para as que tiveram filhos de pais violadores, tentamos encontrar-lhes alternativas de vida no estrangeiro.”

“Não podem ficar no Iraque, porque a maioria dos yazidis jamais aceitará os seus filhos. Receiam que, tendo o mesmo sangue, possam vir a imitar o mau comportamento dos pais”.

Um baptismo yazidi no templo sagrado de Lalish, no norte do Iraque
© Francesco Brembati | worldnomads.com

“Não me chocam estas reacções, porque a nossa comunidade está traumatizada”, ressalva Pari. “Mas temos de proteger as nossas mulheres e os seus direitos, independentemente do que pensam os homens e as famílias. E não podemos ignorar os direitos de as crianças ficarem com as mães. Não podemos agravar a dor das sobreviventes.”

“Estamos a tentar modernizar a religião”, garante Pari Ibrahim. “Este é apenas um dos muitos problemas internos que temos de resolver.”

“As mulheres são sempre as que carregam o peso das tradições. E estas tradições têm de mudar. A decisão de não permitir o regresso das mulheres com os filhos dos violadores é antiquada e cruel.”

O que, talvez, forçará a comunidade “a adaptar-se e ajustar-se à vida moderna” poderão ser as pressões da diáspora, sobretudo dos jovens, admite Pari. Centenas de yazidis estão a juntar-se a outros que já vivem no estrangeiro, sobretudo na Europa.

Uma jovem yazidi, numa sessão de apoio psicológico na Alemanha – um dos principais países de refúgio na Europa -, tenta contar a sua história de vida usando pedras, para marcar os acontecimentos traumáticos, e flores, para ilustrar os momentos mais felizes
© Inka Reiter | Forbes

“Na Holanda ou na Alemanha, temos de respeitar as leis europeias”, observa Pari. “Isto não é mau, porque nos encoraja a aprender e a respeitar regras modernas que nos serão benéficas. E porque nos oferece a possibilidade de viver em sociedades onde não somos tratados de forma inferior, só por termos uma religião diferente.”

“Cada vez mais yazidis procuram o exílio porque a pátria não é segura”, reconhece Pari, temendo que parte da sua cultura se perca.

“Cinco anos depois do genocídio, pouco foi feito para tornar Sinjar um lugar aonde possamos regressar. Não há infra-estruturas, não há segurança, não há justiça. Temos medo que tudo se repita. Este não é o nosso primeiro genocídio – é o 74º.”

Dilbar Ali Ravu, 10 anos, é beijado pela tia Dalal Ravu, durante uma reunião de famílias no Iraque, em Março de 2019, após cinco anos de cativeiro imposto pelo Daesh
© Philip Issa | Associated Press (AP)

Em Amesterdão, Pari Ibrahim conseguiu acabar o curso de Direito, em 2017. “Sou a primeira pessoa da minha família a concluir a universidade – o que é, para mim, uma enorme conquista.

Inicialmente, o meu sonho era ser juiz num tribunal na Holanda, para garantir que as vítimas e os sobreviventes sejam ouvidos. Mas a Free Yezidi Foundation preenche-me e aqui tento aplicar a justiça de uma forma diferente.”

“Fico muito feliz quando vejo o sorriso das mulheres e crianças que acompanhamos nos nossos [dois] centros. Alegra-me que sintam amor e protecção, mesmo que por breves instantes.”

“É uma alegria ouvir os que beneficiam do nosso trabalho dizerem que mudámos as suas vidas e lhes restituímos a esperança de dias melhores.”

Pari Ibrahim, fundadora e directora executiva da Free Yezidi Foundation
© Free Yezidi Foundation

Este artigo foi originalmente publicado na revista ALÉM-MAR, edição de Outubro de 2019 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, October 2019 edition

Moçambique aspira a uma paz abensonhada*

Em 1988, quando João Paulo II visitou Maputo, o país vivia em guerra civil. Mais de três décadas depois, e antes de cruciais eleições marcadas para Outubro, o Papa Francisco chega, em Setembro, para abençoar um acordo que reconcilia a Frelimo, no poder, e a Renamo, na oposição. Um novo ciclo de governação com as armas em silêncio “seria histórico”, afirma Eric Morier-Genoud, autor de um livro extraordinário sobre a singular Diocese da Beira.  (Ler mais | Read more...)

O Papa Francisco, à chegada a Maputo, em 4 de setembro, acompanhado do presidente de Moçambique, Filipe Nyusi
© Paul Haring | CNS

Professor de História Africana na Queen’s University, em Belfast (Irlanda do Norte), Eric Morier-Genoud especializou-se em política e religião, guerra e resolução de conflitos na África Austral. A sua obra mais recente é Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940-1986, um livro fascinante de mais de 200 páginas centrado da Diocese da Beira, no seu primeiro bispo, Sebastião Soares de Resende, e nos numerosos missionários que, antes e depois da independência de Moçambique, lutaram por uma Igreja verdadeiramente africana contra um Estado colonial repressivo.

A propósito da visita do Papa Francisco a Maputo, na sequência de um acordo de cessar-fogo “permanente” entre a Frelimo e a Renamo, 27 anos depois de a Igreja Católica de Moçambique e a Comunidade de Sant’Egídio terem mediado os esforços para pôr fim a 15 anos de uma guerra civil que causou um milhão de mortos, o académico que já antes publicara The War Within: New Perspectives on the Civil War in Mozambique, 1976-1992, deu-me esta entrevista por e-mail:

A publicação do seu último livro coincide com a visita do Papa Francisco a Moçambique e com um novo acordo de paz entre a Frelimo e a Renamo. Concorda que é “um momento histórico”, como avaliou o presidente Filipe Nyusi?

O Governo de Moçambique e a Renamo [dirigida por Ossufo Momade, o sucessor de Afonso Dhlakama, que morreu em 2018] assinaram, em 6 de Agosto, um acordo dito de “Paz Definitiva e Reconciliação” [que se seguiu a outro, de “cessação das hostilidades”, firmado dias antes na Gorongosa, onde começou a guerra em 1977].

O Papa chega a Maputo um mês depois, em 4 de Setembro, para uma visita de 48 horas. São dois acontecimentos muito importantes que se relacionam, volens nolens [quer se queira, quer não], com um terceiro: as eleições gerais do próximo dia 15 de Outubro [para presidente da República, membros do Parlamento e – pela primeira vez – governadores das 11 províncias, que até agora eram designados pelo chefe de Estado]. Estes três acontecimentos articulam-se e irão produzir um novo ciclo governativo – o quinquénio 2020-2025.

A esperança de haver um novo ciclo de governação em paz plena constitui uma perspectiva animadora e potencialmente histórica. [O acordo, que é já o terceiro, entre os antigos inimigos prevê a integração dos combatentes da Renamo nas Forças de Defesa e Segurança do Estado e da Polícia – uma decisão que analistas descrevem como importantíssima, porque em Moçambique não é o Exército o mais poderoso].

Muitas nuvens pairam, no entanto, sobre este cenário: divisões no seio da Renamo (a ala militar separou-se e diz recusar o acordo de paz [que prevê o desarmamento dos últimos guerrilheiros, antes da chegada do Papa]); risco de conflitos resultantes das eleições; e a insurreição islamista que há dois anos abala o norte de Moçambique [em particular a província de Cabo Delgado].

Dançarinos moçambicanos acolhem o Papa Francisco à sua chegada a Maputo
© Paul Haring | CNS | Catholic New York

“A história da Igreja Católica em Moçambique é de grandeza nos séculos XVI e XVII, de declínio no século XVIII e de colapso em meados do século XIX”, tornando-se uma instituição “organizada, autónoma e auto-suficiente” apenas entre 1940 e 1986, o período que o seu livro aborda. Como é que a caracteriza actualmente? Que igreja é que o Papa Francisco vai encontrar? E que papel pode desempenhar?

A Igreja Católica em Moçambique é, hoje, uma instituição forte, empenhada em várias áreas, sejam a evangelização, a educação, a saúde ou a paz. É uma instituição muito antiga, com uma história própria, complexa, e com presença em todas as regiões do país.

É, portanto, uma instituição madura a que o Papa vai encontrar, com as suas doze dioceses, bispos e dois cardeais [D. Júlio Duarte Langa – que traduziu os documentos do Concílio Vaticano II para as várias línguas moçambicanas – e D. Alexandre dos Santos – que ajudou organizar e a mediar as primeiras negociações de paz no final dos anos 1980].

A mensagem de Francisco será muito bem recebida, porque a população aspira à paz, e a Igreja tem reputação de ser um bom mediador. A questão agora é saber que processo de reconciliação vai o Governo iniciar e com quem irá fazer esse trabalho. Eu espero que seja com a Igreja Católica, uma das poucas instituições que, depois do acordo de 1992, fez um trabalho de base, nas comunidades, a favor da reconciliação.

Freiras moçambicanas tentam cumprimentar o Papa Francisco à saída de uma reunião na Catedral de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Maputo
© Alessandra Tarantino | AP | religionnews.com

Como surgiu a ideia de centrar esta sua obra na Diocese da Beira? E seria ela “a voz dissidente da Igreja colonial” sem o seu primeiro bispo, D. Sebastião Soares de Resende, que desde a sua chegada, em 1943, denunciou os abusos sociais, raciais e laborais, que comparava a escravatura, cometidos pelas autoridades portuguesas em Moçambique?

Há muitos anos que estudo as religiões na Europa e em África, com particular enfoque na África do sul e em Moçambique. Nos anos 1990, a diocese de Beira chamou a minha atenção porque não encaixava nos discursos sobre este tema na altura.

Muitos diziam, seguindo discursos do presidente Samora Machel [1933-1986], na década anterior, que as igrejas protestantes em Moçambique tinham sido nacionalistas enquanto a Igreja Católica tinha sido colonialista.

Ora na Beira, o bispo era favorável à independência e, se uma parte significativa do clero era colonialista, também havia muitos padres a favor do nacionalismo africano e até alguns adeptos da Teologia da Libertação. Como definir a posição da Igreja da Beira perante esta diversidade? Nacionalista ou colonialista? Ou a pergunta estaria mal colocada?

A resposta que dou no meu livro é a de que a Igreja Católica é uma instituição singularmente complexa. Não a podemos definir somente pelos seus bispos ou pela sua hierarquia. Se a Igreja Católica tem uma hierarquia forte, também tem estruturas horizontais que são autónomas (em particular os institutos da vida consagrada e as sociedades da vida apostólica).

Assim sendo, um bispo pode adoptar uma determinada posição ou política enquanto os institutos e as sociedades podem, na mesma diocese, discordar e adoptar posições ou políticas (ligeiramente ou bastante) diferentes.

No caso da Beira, nos anos 1970, a diferenças acabaram sendo profundas e levaram a um conflito aberto entre certas congregações e o bispo, com consequências nunca antes vistas, como a decisão de um instituto [o dos Padres Brancos] abandonar um país em protesto contra a posição da hierarquia.

O Papa Francisco saúda os fiéis moçambicanos à chegada ao estádio de Zimpeto, em Maputo, onde celebrou uma missa campal
© Tiziana Fabi | AFP | Getty Images |

Sebastião era exímio na gestão das diversas congregações religiosas. Por que é que a Beira atraiu tantos missionários, tão diferentes na sua acção pastoral, dos conservadores Jesuítas e Franciscanos aos mais revolucionários Padres de Burgos?

A Diocese da Beira é um caso incomum de diversidade interna. Na altura da independência, tinha 18 institutos activos. Era um caso incomum, mas, ao mesmo tempo, bastante representativo da Igreja no seu todo.

Esta diversidade desenvolveu-se porque havia falta de missionários portugueses para trabalhar em todas as colónias. Os bispos tiveram, pois, de pedir a congregações religiosas estrangeiras que fossem para Moçambique.

O bispo da Beira era muito dinâmico e preocupava-se pouco com a nacionalidade dos seus missionários. Recrutava todos os institutos que aceitassem ira para a região central de Moçambique. Singular na Beira foi o facto de haver muitos institutos e de D. Sebastião ter um estilo de liderança também incomum.

Ele não exigia uma ou outra linha pastoral, social ou política, mas aceitava e apoiava todas, enquanto trabalhassem para o bem da Igreja. É claro que ele tinha algumas preferências, mas a sua postura era a de apoiar todos de maneira igual. Os bispos e administradores apostólicos que lhe sucederam não tiveram o mesmo equilíbrio e isso criou tensões e, em certos casos, crise.

A maior parte dos sucessores de D. Sebastião teve dificuldade em dirigir a diocese até à independência. O caso mais dramático foi o de D. Manuel Ferreira Cabral: entrou de tal modo em conflito, que acabou por fugir da sua diocese e renunciar ao cargo.

Mulheres moçambicanas com cestos de comida à cabeça dançam durante um encontro do Papa Francisco com bispos, padres, religiosos, seminaristas e catequistas na Catedral de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Maputo
© Paul Haring | CNS

Quando é que a Igreja percebeu que tinha de ser “menos imperial e mais profética”? Que papel é que os missionários desempenharam nesta evolução?

As reformas do Concílio Vaticano II e o crescente nacionalismo em Moçambique, no início dos anos 1960, cristalizaram e reforçaram as diferenças entre institutos religiosos na Diocese da Beira. Os Combonianos, por exemplo, chegaram ali em 1968 e participaram destas dinâmicas.

Politicamente, uns começaram por favorecer o nacionalismo africano, outros viam neste nacionalismo o risco de [enveredar pelo] comunismo. Religiosamente, uns queriam manter o trabalho da Igreja assente em grande obras sociais, outros queriam renovar e modernizar a pastoral e centrar-se nos leigos.

A ideia duma Igreja profética só foi articulada nos anos 1970, embora haja traços dela na década de 1960, já com o bispo da Beira e vários missionários a desenvolver um projecto religioso para além do colonialismo. Os Combonianos alinharam neste última perspectiva.

Consequentemente, nos anos 1970, houve discussões e até conflitos sobre a linha pastoral e política que a Igreja teria de adoptar. Alguns institutos assumiram posições intransigentes contra o Estado e contra a hierarquia católica. Houve discussões profundas em todo o país, e até no Vaticano.

Freiras moçambicanas preparar os seus telemóveis para fotografar o Papa Francisco, que na sua viagem a Maputo, considerada “estratégica” para consolidar a paz, denunciou a corrupção e consolou mães e filhos afetados com o vírus HIV
© Ben Curtis | AP

No seu livro, é interessante constatar que, embora muitos missionários, sobretudo depois do Vaticano II, fossem a favor da independência dos territórios africanos, a maioria era “anticomunista” e só alguns, os mais adeptos da Teologia da Libertação, se assumiam abertamente marxistas. Como é que estas tensões afectaram a Igreja?

É verdade: a maioria dos missionários em Moçambique antes da independência era anticomunista. O tempo era o de Guerra Fria, e o Vaticano era oficialmente contra o comunismo. Mas, na categoria de anticomunista havia posicionamentos muito diferentes.

Para falar só de política, havia adeptos do colonialismo que entendiam este como a melhor forma de garantir a continuação e expansão do Cristianismo.

Havia os que defendiam uma reforma do colonialismo, alguns deles dizendo que o sistema deveria evoluir (devagar) para uma forma de independência africana, outros achando que a sociedade deveria evoluir para um modelo multirracial num império federal português.

Um terceiro grupo era favorável ao nacionalismo africano e à independência de Moçambique, mas receava o comunismo e, por isso, apoiava o nacionalismo africano somente cristão.

Os missionários adeptos da Teologia da Libertação constituíam um outro grupo, mais pequeno, mas desempenharam um papel significativo ao estabelecer ligação com a Frelimo durante a guerra de libertação, e ao oferecer, depois da independência, um apoio incondicional à revolução da Frelimo.

Tudo isto levou a uma multiplicação de vozes e a uma fragmentação da postura da Igreja antes da independência – eu refiro que, a certo momento, houve uma implosão da Igreja na Diocese da Beira (nos anos 1970). Por outro lado, isto abriu um leque de possibilidades para o futuro.

A Igreja poderia ter seguido vários rumos – alguns deles recusados pela maioria dos missionários; outros não autorizados pelo Vaticano; e outros ainda negados pelo governo de Moçambique após a independência.

“Vocês têm o direito à paz”, disse o Papa Francisco aos moçambicanos, durante a missa campal no Estádio de Zimpeto, em Maputo, onde se rezou e dançou
© Paul Haring | CNS

Na década de 1970 e, em particular, em 1974, ano da Revolução de Abril em Portugal, os missionários em Moçambique, alguns presos pela PIDE por denunciarem massacres, enfrentavam ainda mais destemidamente as autoridades coloniais. Pressentiriam eles que estava iminente a queda do regime em Lisboa?

Os missionários católicos não previram, especificamente, o golpe de Estado do 25 de Abril em Portugal. Mas muitos anteviam (alguns deles desde o inicio dos anos 1960) que haveria mudança de regime político e o fim do colonialismo a curto ou a médio prazo.

A partir de 1973, verificava-se em Moçambique um ambiente de fim de reino (e fim de império). E foi por esta altura que foram cometidos grande massacres, alguns dos quais denunciados por missionários. Face a esta situação, os missionários reagiram de formas diferentes, como disse antes.

A maioria mostrou-se politicamente neutra; alguns optaram por defender o regime de maneira mais frontal e empenhada, uns colaborando com a PIDE/DGS; outros enfrentaram o colonialismo directamente, denunciando os abusos em público, falando de paz e assinalando um outro futuro possível.

Finalmente, alguns padres espanhóis de Burgos e umas irmãs no centro de Moçambique apoiaram a luta de libertação para acelerar a proclamação da independência.

Tecidos tradicionais africanos com a imagem do Papa à venda numa loja em Maputo, antes da chegada do chefe da Igreja Católica
© Gianluigi Guercia | AFP| Getty Images | The Washington Post

O período pós-independência foi um desafio e um revés para a Igreja, que perdeu o seu património nas nacionalizações e se viu perseguida pela Frelimo de Samora Machel, desconfiado de que o clero católico apoiava a Renamo. Quando e por que razão ficou aberto o caminho para uma reconciliação?

A independência foi um período difícil para a Igreja Católica em Moçambique, tal como foi para as outras organizações religiosas no país. Houve nacionalizações, acusações, muita suspeição e alguma repressão.

O período mais duro foi entre 1977 e 1980, quando o Estado confrontou a Igreja directamente, fechando lugares de culto, condenando bispos a detenção domiciliária, etc.

Embora tenha sido difícil, há quem considere que este período também foi benéfico, porque forçou a Igreja a repensar o seu papel e a reorganizar-se.

O processo de nacionalização libertou a Igreja da tarefa e do peso das suas instituições sociais (educação e saúde), e permitiu que se decentralizasse, des-hierarquizasse e centrasse nas comunidades eclesiásticas e nos leigos.

Assim emergiu a “Igreja das palhotas” (Pe. Luizia, A Igreja das Palhotas, Ed. Paulinas, 2017). A partir de 1982, o Estado mudou de política religiosa e decidiu diminuir o fosso que os separava, reforçando o que os unia.

Enquanto as tensões diminuíam, a guerra civil avançava e desfazia comunidade eclesiásticas. Após a guerra, a hierarquia da Igreja reergueu-se e o Estado devolveu-lhe as propriedades que havia nacionalizado.

Por isso, hoje não se fala tanto de reconciliação entre Igreja e Estado. Só alguns sectores católicos pedem uma reconciliação em relação ao período colonial, quando a hierarquia apoiou sem reservas o colonialismo.

O Papa Francisco numa visita a um centro que acolhe doentes com VIH e que é administrado pela Comunidade de Sant’ Egídio, que ajudou a Igreja Católica de Moçambique a mediar o primeiro acordo de paz entre a Frelimo e a Renamo em 1992
© santegidio.org

Que balanço faz do processo de paz Frelimo-Renamo de 1992 e como avalia o acordo anunciado em Agosto e a amnistia geral aprovada pelo Parlamento em Julho? Conduzirá esta à justiça ou, como critica a Human Rights Watch, “é uma traição” às milhares de vítimas dos “graves abusos” cometidos pelas duas partes beligerantes”?

O acordo de paz de 1992, mediado pela Igreja Católica moçambicana, e por Sant’Egidio (após anos de trabalho de outros actores, incluindo líderes protestantes e franciscanos) foi um sucesso. Permitiu mais de 25 anos de paz, talvez não uma paz perfeita, mas sólida.

Actos violentos circunscritos entre 2013 e 2014, opondo Governo e Renamo, conduziram a um meio acordo de paz em 2014, antes das eleições nacionais, mas este não foi suficiente para impedir o regresso da violência, no ano seguinte e até 2016, quando a oposição declarou um cessar-fogo unilateral.

O Acordo Paz e Reconciliação assinado em Agosto último conclui as negociações iniciadas em 2013 e, oxalá, termine este período de violência política.

Quanto à amnistia geral, acredito que foi necessária para chegar agora a pacto de paz dita “definitiva”. O que a Human Right Watch e outros na sociedade civil criticam é que esta amnistia (a seguir à de 2014) irá impedir a responsabilização dos crimes cometidos e a compensação das vítimas.

Arisca-se, assim, a criar a impressão de que crimes políticos não têm consequências jurídicas. E, provavelmente, isso irá também dificultar, senão impedir, um trabalho de memória e reconciliação que muitos acham necessário para não se repetir este tipo de situação no futuro.

“O acordo 1992 mediado pela Igreja Católica moçambicana e por Sant’Egidio (após anos de trabalho de outros actores, incluindo líderes protestantes e franciscanos) foi um sucesso”, diz Eric Morier-Genoud. “Permitiu mais de 25 anos de paz, talvez não uma paz perfeita, mas sólida”
© s.hdnux.com

O conflito com a Renamo não é o único em Moçambique. A alegada insurreição islamista na província de Cabo Delgado representa, também, uma grave ameaça que o Estado parece incapaz de travar. Como se avizinha o futuro?

A insurreição islamista no norte de Moçambique começou há quase dois anos. Um grupo de religiosos radicais cresceu à margem da sociedade e contra a sociedade. Tornou-se violento em Outubro de 2017. Desde então, temos ataques regulares, agora quase diários, contra aldeias e vias de transporte.

O Governo de Moçambique conseguiu conter, geograficamente, os insurrectos na zona norte de Cabo Delgado. Mas estes rebeldes não só mantiveram as suas posições como intensificaram os ataques (que inicialmente eram só nocturnos e contra aldeias indefesas). Ultimamente, terão até estabelecido ligação ao ‘estado islâmico’ [Daesh].

Sendo Cabo Delgado uma zona de investimentos bilionários nos sector do gás e outros minerais, o Estado moçambicano e a comunidade internacional estão extremamente preocupados. É um problema que eles terão de resolver juntos, numa acção não apenas militar, mas também politica, social e religiosa.

* Este título, com o objetivo de juntar as palavras “benção” e “sonho”, inspira-se no livro Estórias Abensonhadas, do escritor moçambicano Mia Couto

Uma relação de mais de cinco séculos

© ACN | zenit.org

A história do Catolicismo em Moçambique conheceu “grandeza, declínio e colapso”, diz o académico Eric Morier-Genoud. Para poder sobreviver, a Igreja deixou de ser “imperial” para se tornar “profética”. 

1498

Em 11 de Março, mês em que as naus de Vasco da Gama, a caminho da Índia, aportam em Moçambique, é celebrada a primeira missa, em latim, na ilha de São Jorge;

1505

Construção da primeira igreja, em Sofala. Os primeiros missionários enviados pela Igreja são Jesuítas e Dominicanos;

1562

Em 12 de Fevereiro, o Papa Pio IV autoriza o rei de Portugal a nomear um administrador eclesiástico para os reinos de Ormuz, Moçambique e Sofala, pertencentes à longínqua Diocese de Goa, criada em Janeiro de 1533 por Clemente VII;

1590

A partir deste ano, enfrentando imensas dificuldades, nem Dominicanos nem Jesuítas conseguem expandir-se e concentram-se na área do Rio Zambeze, onde trabalham com populações brancas de ascendência portuguesa e pequenos núcleos de africanos que habitam as propriedades daquelas duas ordens;

1612

Em 21 de Janeiro, a pedido do rei Filipe II, o Papa Paulo V desliga Goa da Província de Moçambique, que se torna uma prelazia;

1759

O Marquês de Pombal expulsa os Jesuítas de Portugal e a Igreja perde metade dos missionários em Moçambique;

1820-1830

Neste período, com o anticlericalismo provocado pela guerra civil entre liberais e absolutistas em Portugal, a Igreja entra em colapso em Moçambique. Em 1855, só há aqui cinco padres e nenhum prelado. Na segunda metade do século XIX, após a independência do Brasil, e em paralelo com o projeto colonial “Partilha da África”, as elites em Lisboa decidem construir neste continente o “terceiro império português”. Com escassez de fundos, porque só conseguem ocupar a costa e o vale do Rio Zambeze, procuram atrair a Igreja Católica e empresas privadas para assistir ao seu esforço de colonização, uma deles a Companhia de Moçambique, a quem é dado o controlo do centro do território. Na segunda metade do século XIX, regressam os missionários – em 1909, já havia 71 padres (seculares e membros de ordens religiosas e dez freiras – um número sem precedentes;

1910

Com a revolução que pôs fim à monarquia e instaurou a República Portuguesa, um novo regime anticlerical expulsa novamente os jesuítas e outras congregações, em Portugal e em Moçambique;

1916-1926

A partir de 1916, é autorizado o regresso das ordens a Portugal. Em 1918, depois do golpe militar de Sidónio Pais, um novo Governo restabelece os laços com a Santa Sé, decidindo subsidiar a Igreja nas colónias africanas e favorecendo os padres seculares (com vínculo a um bispo e presbitério diocesanos, ao contrário dos sacerdotes regulares, ligados a institutos religiosos), porque são “considerados mais nacionalistas”;

1930

Depois de outro golpe, em Maio de 1926, que instaurou a “Ditadura Nacional”, as missões católicas ultramarinas ganham “estatuto orgânico, o que lhes permite receber apoio ideológico e financeiro do Estado. Com isto, aumenta o número de missionários;

D. Sebastião Soares de Resende (à esq. de batina), o primeiro bispo da Diocese da Beira, numa foto de 1959
© delagoabayworld.wordpress.com

1940

A Santa Sé e Salazar, no poder desde 1932, assinam uma Concordata e um Acordo Missionário, oferecendo à Igreja amplo espaço de missão nas colónias, em áreas como a educação, a saúde e o serviço social. (Em 1941, é assinado o adicional, e mais detalhado, Estatuto Missionário.) Esta Concordata distingue-se dos 28 acordos assinados pelo Vaticano com outros países europeus, porque embora estabeleça uma clara separação entre Igreja e Estado em Portugal, define uma aliança estreita entre as duas partes nas colónias. Na metrópole, a Igreja abdica de ser indemnizada pela nacionalização dos seus bens durante a Primeira República e aceita que o seu pessoal não receba salários do Estado Novo; nas colónias, o regime investe maciçamente nas atividades missionárias, desde a atribuição de terras ao financiamento de dioceses. A Igreja, por seu turno, aceita que a sua hierarquia seja de nacionalidade portuguesa e concorda não só em evangelizar mas em “civilizar” os africanos. O Vaticano nomeia D. Teodósio Clemente de Gouveia, um vicentino, para arcebispo da arquidiocese de Lourenço Marques (actual Maputo) e administrador apostólico interino das dioceses da Beira e de Nampula;

1943

No dia 21 de Abril, a Santa Sé nomeia o primeiro bispo da Beira: Sebastião Soares de Resende. Este padre secular, de 37 anos, professor e vice-director do Seminário Maior do Porto, chega em 1 de Dezembro à sua diocese – com uma área de 360.645 km2, ocupava metade da colónia de Moçambique, tinha dois milhões de habitantes e apenas 1,9% de católicos.

1962

O presbiteriano Eduardo Mondlane, educado nos Estados Unidos, funda a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) em Dar-es-Salam, na Tanzânia, de onde inicia a luta armada pela independência;

1970

Em 1 de Julho, o Papa Paulo VI recebe, no Vaticano, os chefes da guerrilha em Angola (Agostinho Neto), Guiné (Amílcar Cabral) e Moçambique (Marcelino dos Santos), provocando a fúria do Governo de Marcello Caetano, que viu neste encontro um encorajamento aos católicos, no Continente e no Ultramar, a opor-se à guerra colonial;

1971

A sociedade missionária dos Padres Brancos decide abandonar Moçambique, onde está presente desde 1946, por “falta de condições para fazer uma verdadeira evangelização”. O governo marcellista antecipa-se a este gesto sem precedentes e expulsa-os antes de eles saírem de livre vontade;

1972

Por denunciarem, com provas, as matanças de civis cometidas pelas tropas portuguesas, são presos e expulsos os Padres de Burgos que trabalham em Tete. Aqui é perpetrado, em 16 de Dezembro, o massacre de Wiriyamu, amplamente divulgado na Europa só em 1973, primeiro pelo padre comboniano Luís Afonso Costa, que seria expulso de Moçambique, e depois pelo sacerdote, escritor e historiador jesuíta inglês Adrian Hastings, no jornal The Times, na véspera da visita de Marcello Caetano a Londres, em Julho;

Samora Machel, numa foto de 1971, durante a guerra pela independência de Moçambique, teve uma relação difícil com a Igreja Católica
© enca.com

1973

Num discurso ao Sacro Colégio, em 22 de Dezembro, o Papa Paulo VI diz: “Até que não chegue a hora em que os direitos de todos os povos, entre os quais os direitos à autodeterminação e à independência, sejam devidamente reconhecidos e dignificados, não poderá haver paz verdadeira e duradoura, mesmo que a prepotência das armas possa temporariamente ter a supremacia sobre as reacções dos opositores”;

1974

Em Janeiro, numa assembleia plenária em Nampula, os Missionários Combonianos (34 padres, 19 irmãos e 41 irmãs) decidem apresentar à Conferência Episcopal de Moçambique um documento intitulado Um Imperativo de Consciência. O texto tem a data do dia 12 e é assinado por todos os membros do grupo, mas também pelo bispo desta arquidiocese, D. Manuel Vieira Pinto. Nele se questiona a política colonial do regime e o comportamento de “cumplicidade” e “contratestemunho” da Igreja Católica. No dia 14, é expulso também o bispo Vieira Pinto;

1975

Em 25 de Junho, a Frelimo chega ao poder. Samora Machel, o novo líder, acusa a Igreja Católica de colaboração com a opressão colonial, e nacionaliza todas as suas estruturas nas áreas da educação e da saúde. Perante o avanço da guerra civil com a Renamo, o movimento anticomunista de Afonso Dhlakama, Machel “desiste de alienar as instituições cristãs e abandona as ambições anti-religiosas”. A partir de 1986, a Frelimo começa a devolver as propriedades nacionalizadas após a independência;

O primeiro acordo de paz mediado pela Igreja Católica de Moçambique foi assinado, em Roma, em 4 de Outubro de 1992, pelo presidente Joaquim Chissano (da Frelimo, à esq.) e por Afonso Dhlakama, da Renamo, pondo fim a 16 anos de guerra civil que causou um milhão de mortos
© Sapo Notícias

1988

A convite da Frelimo, o Papa João Paulo II visita Moçambique, e o Vaticano nomeia cardeal o arcebispo de Maputo D. Alexandre dos Santos. Este desempenha, no ano seguinte, um papel fundamental nas negociações entre a Frelimo e a Renamo das quais resulta um acordo de paz em 1992;

2014

O Papa Francisco nomeia o segundo cardeal de Moçambique, D. Júlio Duarte Langa, bispo emérito de Xai-Xai (antiga João belo), uma diocese no Sul;

2019

De 4 a 6 de Setembro, o Papa Francisco visita Moçambique no âmbito de uma viagem apostólica a África que o primeiro-ministro em Maputo, Filipe Nyusi, descreve como “marco histórico”.

Fontes: “Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940-1986 (Eric Morier-Genoud, 2019); A Igreja Católica e o Estado Novo” (Pedro Ramos Brandão, ‘Latitudes’, Nº 27, Setembro 2006); “História da Igreja em Moçambique” (fradescarmelitas.org.br); “Os Missionários Combonianos e o Estado Novo” (Carlos Neves Sobrinho, ambicanos.blogspot.com, Março 2016); “Y a-t-il une spécificité protestante au Mozambique?” (Eric Morier-Genoud, ‘Lusotopie’, 1998); “Breve Retrospectiva ao historial de relacionamento entre a Igreja Católica e o Estado em Moçambique” (Benedito Marime, Setembro de 2017); Agência Ecclesia.

Eric Morier-Genoud é professor de História Africana na Queen’s University, em Belfast (Irlanda do Norte). Especializou-se em política e religião, guerra e resolução de conflitos na África Austral
© chathamhouse.org

Esta entrevista (com um título diferente) e esta cronologia foram inicialmente publicados na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2019 | This interview (under a different headline) and this timeline were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2019 edition

Istambul: Erdogan perdeu, a Turquia venceu

Na cidade onde o Bósforo une a Europa e a Ásia, um candidato da oposição até há pouco tempo desconhecido, Ekrem Imamoglu, desferiu uma humilhante derrota ao presidente que governa como um sultão. Não é ainda o fim de 25 anos de poder autocrático, mas é uma prova de vida da democracia. (Ler mais | Read more…)

A foto do presidente Recep Tayyip Erdogan nas mãos de um apoiante, numa rua de Istambul decorada com a bandeira nacional turca
© Reuters | The Independent

O reinado de Recep Tayyip Erdogan “está a chegar ao fim”, acredita Nesrin Nas, economista turca, que foi deputada e a primeira mulher na liderança do antigo Partido da Mãe Pátria, secular e nacionalista. “O medo desapareceu e a esperança começou a ocupar o seu lugar.”

E a esperança dançou e cantou nas ruas de Istambul durante toda a noite de 23 de Junho, depois de confirmado o triunfo histórico de Ekrem Imamoglu como presidente da Câmara de Istambul: 54,21% dos votos, segundo o Conselho Eleitoral Supremo (YSK) – um limiar nunca antes alcançado. Erdogan, por exemplo, aqui foi eleito em 1994 com apenas 25,2%, maioria relativa.

Até bastiões ultraconservadores que sempre votaram no Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, de Erdogan) – Fathi, Uskudar, Eyup e Beyoglu – deram a maioria ao candidato do Partido Republicano do Povo (CHP). Um resultado extraordinário, tendo em conta que quase todo o aparelho de Estado foi mobilizado contra Imamoglu.

Pela primeira vez num quarto de século, o AKP perdeu o controlo da cidade onde Erdogan iniciou a sua carreira política. “Quem ganha Istambul, ganha a Turquia”, dizia ele.

Foi um vexame para o mais poderoso líder turco desde Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da moderna nação erguida das ruínas do Império Otomano.

Os istambullus não perdoaram a Erdogan ter pressionado os juízes do YSK a invalidar (alguns) resultados da votação de 31 de Março, sob a alegação de dúbias irregularidades, e a repetir o escrutínio em Junho. Muitos adiaram ou interromperam férias para votar. A afluência às urnas foi de 84% (mais de 8,9 milhões).

Em menos de três meses, Imamoglu aumentou a sua vantagem de 13 mil votos (0,2%) para mais de 700 mil sobre o rival, o ex-primeiro-ministro Binali Yildirim, do AKP, que obteve 44,99%, que perdeu até em circunscrições onde tinha ganhado em Março.

Um autarca praticamente desconhecido (ver caixa) até ser escolhido pelo mais antigo partido turco, Imamoglu, 49 anos, mostrou desde o início ser o oposto do “sultão” Erdogan, 65, que governa o país desde 2002, primeiro como chefe de governo e depois como presidente da república, com poderes quase absolutos desde um referendo em 2017, implacável para com qualquer forma de dissidência.

“Viemos para fazer a paz, para nos amarmos uns aos outros”, disse Imamoglu no discurso de vitória, de pé sobre o tejadilho de um autocarro, perante milhares de apoiantes.

“Não nos interessa a roupa nem o estilo de vida de ninguém. Queremos justiça e democracia. Nesta linda cidade, prometo-vos que iremos construir o futuro.”

A referência ao vestuário foi simbólica, pois o CHP, orgulhosamente kemalista e laicista num país predominantemente muçulmano, apoiou durante anos a proibição de as mulheres ocultarem o cabelo com o hijab em instituições e escolas públicas. Imamoglu não esconde a sua religiosidade, e o partido também se tornou mais tolerante.

Ekrem Imamoglu, o vencedor, tira uma fotografia a si próprio e aos seus simpatizantes/apoiantes, numa mercearia em Istambul, durante a campanha eleitoral, em Maio de 2019
© Chris McGrath | Getty Images | The Washington Post

Apoiantes de Ekrem Imamoglu celebram a sua vitória, em Istambul
© Reuters | South China Morning Post

Nos agradecimentos aos aliados, Imamoglu não se esqueceu dos curdos – 10% do eleitorado de Istambul –, em particular os militantes do HDP, o Partido Democrático do Povo, que defende as minorias, dos arménios aos alevitas, e cujo líder, o jovem e carismático Selahattin Demirtas, foi fundamental para dar força ao candidato do CHP.

Demirtas, como agora Imamoglu, emergiu como uma estrela da política turca em 2014, ao ganhar 10% dos votos (terceiro lugar) nas eleições presidenciais 4, e ao fazer entrar o HDP na Assembleia Nacional, quinze meses depois, com 13% dos sufrágios.

Foi o bastante para Erdogan o colocar na prisão, juntamente com milhares de outros membros do seu partido, nos últimos três anos.

Manter esta aliança tácita com o HDP será crucial para Imamoglu, porque o “problema curdo”, depois de 35 anos de guerra e mais de 40 mil mortos, continua a ser um dos mais espinhosos para qualquer político na Turquia.

Desesperado à medida que as sondagens confirmavam a crescente popularidade de Imamoglu, Erdogan envolveu-se pessoalmente na campanha e ainda tentou usar Abdullah Öcalan, o líder do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, separatista) que cumpre pena perpétua por terrorismo, para que apelasse à neutralidade dos curdos. Estes ignoraram um e outro.

Foi um jogo arriscado. A eleição deixou de ser apenas local para se transformar num referendo à linguagem sectária e aos métodos repressivos de Erdogan.

Contados 95% dos votos, Binali Yildirim reconheceu a derrota. Erdogan também deu os parabéns a Imamoglu, mas todos os que o conhecem sabem que irá dificultar a tarefa do vencedor. Porque o AKP ainda controla 25 dos 39 distritos de Istambul e detém a maioria na assembleia municipal.

Numa barbearia em Istambul, clientes vêem e ouvem na televisão Muharrem Ince, o líder do CHP que escolheu Ekrem Imamoglu para ser o candidato do partido kemalista à cidade onde Erdogan iniciou a sua carreira política e que tem sido um bastião do islamista AKP, no poder
© EPA | The Independent

Nem tendo ao seu serviço todos os media estatais e a máquina burocrática do AKP, o partido no poder, Binali Yildrim, o candidato de Erdogan, conseguiu derrotar Ekram Imamoglu
© hurriyetdailynews.com

“O resultado em Istambul é muito importante para a luta pela democracia, mas um Erdogan enfraquecido será muito perigoso”, alerta Nesrin Nas, numa entrevista que me deu, por telefone e correio electrónico.

“A sua prioridade, a partir de agora, vai ser manter unido o AKP e convencer o seu parceiro MHP [Partido do Movimento Nacionalista, extrema-direita, a manter-se numa coligação de facto]. A atmosfera política continuará tensa ainda durante algum tempo.”

“Há 25 anos que Istambul é a principal fonte de financiamento e receita do partido de Erdogan”, observa Nesrin.

“Para ele, o controlo da cidade” que representa 32% do produto interno bruto (PIB) e 25% dos 81 milhões de habitantes da Turquia “tem uma dimensão política, económica e social – perder tudo isto é um primeiro sinal de que irá perder a Presidência.”

Nas municipais de Março, apesar de ter sido o partido mais voltado, com 51,67% do total dos votos, o AKP já havia sofrido perdas importantes em seis grandes centros urbanos, designadamente Ancara (a capital), Adana, Antalya e Esmirna. A perda de Istambul foi descrita como “um tremor de terra”.

Para Yavuz Baydar, um dos mais respeitados e premiados jornalistas turcos, forçado por Erdogan ao exílio, a anulação da primeira vitória de Imamoglu foi uma “tentativa de autogolpe” por parte do presidente, perante a denúncia da “imensa corrupção e clientelismo” na cidade onde o estreito do Bósforo une a Europa e a Ásia.

Agora, a oposição ganhou “superioridade moral e combustível político para enfraquecer a estrutura de poder de Erdogan”, diz-me, por e-mail, o actual director do Ahval, diário digital trilingue (turco, árabe e inglês), com sede em Londres.

“A oposição secular permaneceu muito tempo num estado de letargia, porque, sendo um bloco da classe média, também beneficiava dos serviços sociais gratuitos oferecidos às massas devotas. O que impulsionou a revolta contra o poder de Erdogan foi, sem dúvida, a queda dos indicadores económicos e a epidemia de nepotismo que afecta o seu estatuto social.”

O nepotismo estará presente nos grupos e fundações religiosas criados pelo AKP que, em 2018, terão recebido dos cofres da câmara o equivalente a 130 milhões de euros, segundo um relatório municipal citado pelo site alemão DW (Deutsche Welle).

A Fundação para a Juventude (TUGVA) foi a que, alegadamente, recebeu mais fundos: 11,3 milhões. Do seu conselho de administração fazem parte Esra Albayrak, filha do presidente, e a mulher do ministro da Economia.

Duas mulheres curdas exprimem deste modo apoio a Selahatin Demirtas, líder do PartidoDemocrático do Povo, defensor das minorias, que, da prisão, onde Erdogan o colocou, fez um apelo ao voto – que se revelou crucial – em Imamoglu
© AFP | Getty Images | The Independent

Nesrin Nas concorda que uma grave crise económica (o desemprego subiu para 14,7%, a taxa mais alta da última década, a inflação situa-se nos 18,7%, a OCDE prevê, para este ano, uma contracção no crescimento de 2,6%; a lira perdeu 28% do seu valor em 2018 e 10% desde Janeiro de 2019) foi um factor que influenciou os resultados eleitorais.”

“Mas também pesou “o estilo [tirânico] de Erdogan e do seu aliado, Devlet Bahçeli [líder do MHP] – ambos abalaram a paz interna”, sobretudo nas cidades e, em particular, nas cidades curdas, “onde as pressões são insustentáveis”.

“Só se sentem seguros os que estão próximos de Erdogan”, lamenta Nesrin Nas, salientando que, desde o fracassado golpe para derrubar o presidente em 2016, “quase um quinto da população está sob investigação e os tribunais deixaram de ser independentes, objectivos e transparentes, num gigantesco recuo do Estado de Direito”.

Dezenas de milhares de pessoas foram demitidas ou presas, “a maior parte delas activistas dos direitos humanos, dirigentes da oposição, intelectuais e jornalistas”, acusados de pertencerem ou serem simpatizantes do movimento Izmet, de Fethullah Gülen, um teólogo refugiado nos EUA que no passado foi aliado de Erdogan.

“Muitas pessoas já perceberam que este regime é disfuncional, que só produz desigualdade, injustiça e pobreza”, afirma Nesrin Nas. “As eleições municipais permitiram que os dissidentes se unissem e fizessem e ouvir a sua voz.”

Também no AKP se levantam vozes incomodadas com o “carácter errático e desligado da realidade” de Erdogan, como descreve Yavuz Baydar. “O presidente rodeou-se de bajuladores que já não representam o partido original, e tornou-se num obstáculo mais do que num trunfo”.

Por ser “demasiado poderoso”, Erdogan tem travado qualquer motim interno, mas, agora, depois de duas derrotas consecutivas em Istambul, talvez os principais críticos – Abdullah Gül (presidente de 2007 a 2014) e Ali Babacan (que foi ministro da Economia, responsável pelas negociações com a União Europeia) “possam desafiar Erdogan, se forem suficientemente ousados” e formarem “um novo movimento de centro-direita pró-ocidental.”

Outro potencial adversário é Ahmet Davutoglu, que chefiou a diplomacia (de 2009 a 2014) e o Governo (de 2014 a 2016), e estará a preparar também a criação de um novo partido. Baydar acha-o “demasiado ambicioso para as suas limitadas capacidades e visão irrealista do mundo, além de ser odiado pelos curdos pela destruição que ordenou quando era primeiro-ministro”.

Embora feliz pela “bofetada” que os istambullus deram a “um quase ditador, cada vez mais isolado”, Yavuz Baydar, tal como Nesrin Nas, prevê que os próximos tempos serão ainda tumultuosos.

“A crise económica vai ressurgir em pleno, a par com o conflito com os Estados Unidos”, que ameaçam expulsar Ancara de um programa de caças avançados F-35, se insistir em comprar à Rússia um sistema de mísseis de defesa aérea S-400 e avançar com a produção conjunta de uma nova geração de S-500.

Baydar teme que a Turquia “possa ser arrastada para uma deriva nacionalista e entrar numa nova e mais obscura fase”. Porque, para Erdogan, todos os conflitos políticos são existenciais, e ele ainda possui os instrumentos necessários “para se livrar dos inimigos”.

Ekrem Imamoglu fez história

Ekrem Imamoglu: Uma vitória simbólica para a oposição e humilhante para Erdogan
© Murad Sezer | Reuters

Em Dezembro de 2018, quando o Partido Republicano do Povo (CHP) escolheu o seu candidato a presidente da Câmara de Istambul, poucos tinham ouvido falar em Ekrem Imamoglu. Mas, seis meses depois, ele tornou-se “o rosto mais visível” da oposição e um provável candidato ao lugar do chefe de Estado, Recep Tayyip Erdogan, nas eleições previstas para 2023.

Nascido há 49 anos na cidade de Trabzon, região do Mar Negro, no nordeste da Turquia, Imamoglu (o nome pronuncia-se sem o “g”, tal como Erdogan) estudou Economia na Universidade de Istambul antes de se dedicar aos negócios de construção civil da família.

Em 2014, cinco anos depois de entrar na política, foi eleito presidente da câmara de Beylikdüzü, um pequeno município de classe média na parte europeia de Istambul, onde ganhou fama de bom administrador.

Durante a campanha para desalojar o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) da maior e mais rica cidade do país, a principal estratégia de Imamoglu para conquistar eleitores foi a amabilidade e a serenidade com que se dirigia às pessoas, nas ruas e bazares. Aos que recusavam apertar-lhe a mão, ele oferecia um abraço.

Fundamentais foram também as redes sociais – tem 2,7 milhões de seguidores no Twitter –, que lhe permitiram romper um bloqueio quase total imposto por mais de 90% dos media, colocados ao serviço de Binali Yildirim, o candidato de Erdogan.

“A minha maior arma é um método milenar de comunicação: passar a palavra de boca em boca”, explicou Imamoglu, que em 31 de Março e depois numa nova votação em 23 de Junho derrotou Yildirim, desferindo um duro e humilhante golpe a Erdogan e ao AKP, que há 25 anos controlavam Istambul.

Ekrem Imamoglu distribuiu beijos e abraços durante a campanha eleitoral
© AP | The National

Se “o coração da Turquia” se rendeu a um quase desconhecido, muito se deve a um rapazinho de 13 anos que, por acaso, lhe ofereceu um glorioso slogan. Passava o seu autocarro por uma rua de Istambul quando o garoto, chamado Berkay, lhe disse: “Irmão mais velho, tudo vai ficar bem (her şey çok güzel olacak). “Exactamente, bravo!”, exclamou Imamoglu, afectuoso e sorridente. Foi o bastante para o vídeo desta conversa se tornar viral numa nação cansada da face habitualmente crispada de Erdogan.

“Sejam quais forem as feridas abertas, para as cicatrizarmos temos de nos encontrar, individualmente, com todos os segmentos da sociedade, todas as identidades étnicas, todos os grupos religiosos”, disse o candidato do CHP, o mais antigo partido turco fundado pelo pai da nação, Mustafa Kemal Atatürk.

Seguindo um recém-publicado Livro do Amor Radical, concebido por Ates Ilyas Bassoy, director de campanha, Imamoglu deu instruções aos partidários para “não serem insultuosos ou cínicos” no contacto com os adversários.

A sua mensagem positiva contrastou com os insultos de Erdogan, a quem pediu uma audiência para discutir propostas para Istambul. Foi um gesto intrigante que agradou às massas conservadoras e religiosas que votam no AKP: em 23 de Junho, vários bastiões do partido do presidente escolheram Imamoglu e não Yildirim.

Também contou muito o facto de Imamoglu assumir que é muçulmano praticante, num partido que, com um novo líder Kemal Kiliçdaroglu, deixou de ser elitista e hostil a expressões públicas de fé.

“Eu vou reconciliar esta nação”, prometeu Imamoglu, que contou com o apoio do Partido Democrático do Povo (HDP, centro-esquerda e pró-curdo) e do Partido Bom (IYI, direita), da historiadora Meral Aksener, que abandonou o MHP, quando este movimento se aliou a Erdogan.

No discurso da vitória, em 23 de Junho, Ekrem Imamoglu assegurou que a sua porta estará sempre aberta a todos, os que votaram e não votaram nele. Os apoiantes esperam mais: que, tal como aconteceu com o combativo Recep Tayyip Erdogan em 1994, Istambul seja a rampa de lançamento para o gentil homem que veio de Beylikdüzü chegar ao palácio presidencial em Ancara.

Nesrin Nas, economista turca, que foi deputada e a primeira mulher na liderança do antigo Partido da Mãe Pátria, secular e nacionalista
© sivilsayfalar.org

Yavuz Baydar, premiado e influente jornalista que Erdogan forçou ao exílio, actual director do Ahval, diário digital trilingue (turco, árabe e inglês),com sede em Londres
© ahvalnews.com

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Julho-Agosto 2019 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, July-August 2019 edition

Daesh*: O “califado” morreu, a ideologia não

Cinco anos após a sua proclamação, extinguiu-se um pseudo-estado que dominou uma área e uma população equivalentes à de Portugal e contribuiu para a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial. Foi uma derrota física, não mental. Este é um movimento que, orgulhoso dos seus crimes, continua a inspirar salafistas-jihadistas, de Mosul a Moçambique. (Ler mais | Read more…)

“Ao distorcer a religião, com um comportamento extremo e ultrajante brutalidade, o ‘estado islâmico’ contribuiu para o fim do ‘califado’ como entidade física”, diz Audrey Kurth Cronin, autora de How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns
© New Statesman

Em 29 de Junho de 2014, quando proclamou um “governo que tudo sacrifica à vontade de Deus”, o Estado Islâmico parecia uma força invencível. Bastaram-lhe cem dias para dissolver as fronteiras da Síria e do Iraque e mudar o mapa do Médio Oriente.

Cinco anos depois, a organização conhecida como Daesh* perdeu o seu “califado” graças ao que analistas do think-tank Middle East Institute, em Washington, descreveram como “a mais bem sucedida campanha militar não convencional de toda a história”.

Ao conquistar território – de Raqqa, a sua “capital”, na Síria, até Mosul, a segunda maior cidade do Iraque –, “o ‘estado islâmico’ pôs um enorme alvo internacional nas suas costas”, diz-me Audrey Kurth Cronin, autora de uma obra de referência, How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns.

Seria, pois, inevitável, o fim de uma entidade que, no seu auge, controlou uma área e uma população equivalentes às de Portugal (100 mil quilómetros quadrados; 11 milhões de habitantes), recrutou 41.490 combatentes em 80 países; acumulou uma fortuna superior a 3000 milhões de euros (exploração de petróleo, extorsão e tráfico de seres humanos); levou a cabo ou inspirou pelo menos 4300 ataques em 29 países; inundou as redes sociais com vídeos de escravatura sexual, raptos, execuções, crucificações e decapitações; e causou o maior número de refugiados e deslocados internos desde a II Guerra Mundial.

“O ‘estado islâmico’ começou por ser uma organização terrorista no Iraque e ganhou ímpeto graças a dois erros e a uma surpreendente oportunidade”, lembra, por e-mail, Audrey Cronin, professora na School of International Service da American University, em Washington.

“O primeiro erro foi cometido pelo Governo dos Estados Unidos, ao desmantelar o exército dominado pelos sunitas, durante a ocupação que se seguiu à invasão [em 2003].”

“O segundo erro, após a retirada americana, foi cometido pelo governo dominado pelos xiitas [e chefiado por uma figura sectária, Nouri al-Maliki], ao oprimir os sunitas para que não voltassem [ao poder]. A seguir, Bashar al-Assad esmagou a revolta popular na Síria e a subsequente guerra civil deu ao ‘estado islâmico’ o lugar perfeito para se reforçar.”

Entre 2011 e 2014, o Daesh “evoluiu de organização terrorista para uma insurreição e, depois, para um exército convencional, representando uma aliança entre jihadistas sunitas e numerosos oficiais do Baas [o extinto partido único iraquiano]”, adianta Audrey Cronin.

Agora, com muitos dos seus membros mortos, em fuga ou na clandestinidade, “assistimos a uma evolução inversa: de um exército convencional com território, tornou-se numa insurreição e, novamente, num grupo terrorista transnacional”.

A académica que estudou 475 organizações terroristas para concluir que todas elas têm, em média, um tempo de vida de oito anos, consegue definir exatamente o que esmagou o “estado islâmico”, entre 2014 e 2019.

“Foi, principalmente, um combate lento, desgastante e firme levado a cabo no terreno pelo exército iraquiano, pelas Forças Democráticas Sírias [conhecidas pela sigla inglesa SDF], muito apoiadas por uma coligação militar [de curdos e árabes] liderada pelos EUA (sobretudo com ataques aéreos) e uma coligação dirigida pela França – além de uma extraordinária convergência de outros actores: a Turquia, a Síria, a Rússia, o Irão e o Hezbollah [libanês].”

Em Junho de 2018, Eissa al-Ali e a sua família, refugiados no Iraque, regressam à Síria e à sua casa em Raqqa, 80% da qual foi destruída nos combates para derrotar o califado
Ivor Prickett | panos.co.uk

“Ao distorcer a religião, com um comportamento extremo e uma ultrajante brutalidade, o próprio ‘estado islâmico’ contribuiu para o fim do califado como entidade física”, avalia a ex-diretora do programa de estratégia militar do U.S. National War College, em Washington, que aconselhou o Congresso americano após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Ela está convencida de que a comunidade internacional tudo fará para impedir o regresso de um “projeto territorial, violento e revisionista”.

O regresso mais problemático parece ser o dos combatentes estrangeiros (ver caixa), 4000-5000 dos quais europeus. Quem são eles e o que os motivou a deixarem as suas casas para se juntarem a um grupo que, ao contrário de outros genocidas, exibe e não esconde os seus crimes?

“O que mais me surpreendeu, e não deveria ser uma surpresa, é que a maioria dos que partiram são jovens normais, homens e mulheres”, diz-me, por e-mail, Amarnath Amarasingam, que dirige um estudo sobre combatentes estrangeiros na Universidade de Waterloo, no Canadá, e é autor (com o sociólogo Lorne L-Dawson) do relatório I Left to be Closer to Allah, publicado pelo Institute for Strategic Dialogue, em Londres, onde é senior fellow.

“É claro que alguns têm problemas mentais, vários tiveram uma infância difícil, outros queriam fazer alguma coisa depois de verem imagens de massacres na Síria e outros ainda queriam fazer parte da criação de uma utopia, onde a lei islâmica [Sharia], como eles a vêem, seria aplicada na sua forma mais pura.”

Estes combatentes “partiram por um conjunto de razões diferentes, mas não achei que algum deles fosse malvado ou doido”, observa Amarasingam, considerado um dos mais brilhantes especialistas em extremismo.

“Eles acreditavam profundamente em algo e agiam em conformidade. Podemos considerar repugnantes estas convicções e as organizações a que eles se juntaram, mas precisamos de perceber como eles pensam e agem se quisermos impedir a próxima geração de cometer os mesmos erros.”

Uma família de desalojados da aldeia de Shora, 25 km a sul de Mosul, no Iraque, onde o Daesh proclamou o “califado” em 2014, à chegada a um checkpoint do exército iraquiano nos arredores de Qayara, em Outubro de 2016
© Ivor Prickett | panos.co.uk

“A ideia de que os jihadistas são niilistas violentos não faz sentido, porque, para eles, as suas acções fazem TODO o sentido”, salienta o investigador canadiano.

“Eles estão envolvidos numa guerra cósmica. Este mundo é apenas um trampolim para o próximo. Cada gesto seu tem um significado e consequências sobre o seu corpo, a sua mente, as suas famílias e a sua vida além-morte. É o exato oposto do niilismo.”

Amarasingam reconhece que o regresso dos combatentes estrangeiros “será o grande desafio do futuro”, dada a sua complexidade. “Por um lado, sim, muitos dos que pretendem voltar estão desiludidos e tencionam continuar a batalha nos seus países.”

“Outros reconhecem que erraram e querem seguir em frente. Há também os que continuam profundamente comprometidos [com a jihad], não admitem que erraram e terão de ser vigiados de perto. Mas durante quanto tempo? Quando é que saberemos que eles se des-radicalizaram? É difícil dizer.”

A mesma situação se aplica às mulheres destes combatentes que foram para o califado. “Algumas partiram de bom grado, enfrentaram dificuldades para lá chegar, ocuparam casas que eram de sírios, abusaram dos habitantes locais [escravizaram yazidis, por exemplo].”

“São cúmplices dos crimes do ‘estado islâmico’. Outras apaixonaram-se por combatentes em conversas online ou foram levadas pelos maridos. O espectro é, como se vê, difícil de avaliar de uma perspetiva de segurança ou de avaliação de risco.”

As crianças, realça Amarasingam, são uma questão igualmente complicada. “Milhares nasceram na Síria de pais de umas 50 nacionalidades. Muitos dos países de origem [dos combatentes estrangeiros] tiveram seis anos [desde a progressão militar do Daesh em 2013] para tomar uma decisão.”

“Mas não fizeram disso uma prioridade política. Agora, esses menores estão em campos de tendas, doentes e a morrer. É uma vergonha.”

“São crianças que enfrentaram o abandono, a morte de um dos pais, uma educação interrompida, uma exposição prematura à violência e outros problemas”, lembra o académico canadiano.

“É necessário acolher essas crianças e dar-lhes apoio médico e psicológico. Não as podemos deixar como penhora aos curdos ou perdidos no Iraque.”

É também este o conselho de Daniel Byman, autor de Road Warriors: Foreign Fighters in the Armies of Jihad, que distingue entre combatentes estrangeiros (“os que deixam a pátria por uma causa”) e mercenários (“os que lutam por dinheiro”).

“Os países europeus devem assumir a responsabilidade pelos seus combatentes”, diz-me Byman, numa breve entrevista por e-mail, enfatizando que “será um erro” deixá-los no Iraque e na Síria.

“As crianças do califado com direito a cidadania europeia devem ser recebidas na Europa, tratadas como vítimas de abusos e não como potenciais ameaças.”

Um soldado das forças especiais iraquianas, numa posição defensiva no bairro de Rifai, em Mosul, dispara conta combatentes do Daesh na cidade, em Maio de 2017. Em 8 de Julho do mesmo ano, a cidade onde Abu Bakr al-Baghdadi se proclamou califa foi libertada
© Ivor Prickett | panos.co.uk

Homens que fugiram das áreas controladas pelo Daesh em Hawija, aguardam para ser interrogados por forças de segurança numa base perto de Kirkuk, no Curdistão iraquiano, em Dezembro de 2016
© Ivor Prickett | panos.co.uk

Se não há consenso quanto ao acolhimento dos “retornados”, há unanimidade quanto à ameaça que o Daesh continua a representar apesar do colapso do califado e de – nota Daniel Byman – “uma grande redução” no número de novos combatentes, “desencantados com o fracasso dos que prometiam combater os inimigos do Islão”.

“O ‘estado islâmico’ entrará, possivelmente, num compasso de espera na Síria e no Iraque, onde ressurgirá quando as condições forem propícias”, prevê Amarnath Amarasingam.

Até lá, porque “precisa de comunicar ao mundo que ainda é relevante e o seu alcance continua global, retomará a atividade na Ásia do Sul [onde, em 21 de abril, no Sri Lanka, clamou responsabilidade por uma série de atentados suicidas que causaram quase 300 mortos e 500 feridos], no Sudeste Asiático e em algumas zonas de África”.

No dia 4 de junho [de 2019], o Daesh reivindicou, pela primeira vez, uma presença em Moçambique, qualificando o país como um “ramo da África Central”, depois de um alegado confronto com o exército moçambicano, em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado.

A insurreição no norte de Moçambique, envolvendo um misterioso grupo designado por al-Shabab, numa região onde multinacionais exploram petróleo e os habitantes vivem em extrema pobreza, começou em 2017 e já causou mais de 150 mortos. Alguns foram decapitados em aldeias depois incendiadas.

Que o Daesh se aproveita de Estados e regiões vulneráveis é o que constata Colin P. Clarke, em After the Caliphate, em que refere quatro cenários futuros para o movimento salafista-jihadista global: a Al-Qaeda Central, de Ayman al-Zawahiri, suplanta o Daesh, de Abu Bakr al-Baghdadi; a Al-Qaeda e o Daesh reconciliam-se; o Daesh renasce em detrimento da Al-Qaeda; ou ambos se tornam insignificantes.

“De momento, especialmente depois dos atentados no Sri Lanka, e porque continua ativo no Iraque e na Síria, não vejo o ‘estado islâmico’ a desaparecer no curto prazo”, diz-me Clarke, investigador no International Centre for Counter-Terrorism, em Haia (Holanda).

“A Al-Qaeda foi criada em 1988 e ainda cá anda 30 anos depois, avançando agora na província de Idlib, na Síria.”

Antes de começar o assalto ao derradeiro ao último bastião do Daesh, centenas de mulheres e crianças fugiram de Baghouz, uma pequena aldeia entre o Iraque, a leste, e o rio Eufrates, a ocidente e a sul. Ali viveriam, segundo fontes oficiais, cerca de 1500 civis e uns 500 combatentes do “estado islâmico”
© Rodi Said | Reuters | Business Insider

Audrey Kurth Cronin, que no seu livro destaca seis dinâmicas para o fim dos grupos terroristas – decapitação (o destino de Abimael Guzmán, líder do Sendero Luminoso, preso no Peru), negociações (o exemplo do IRA na Irlanda do Norte), sucesso (o caso do ANC na África do Sul), fracasso (o destino do Grupo Islâmico no Egipto), repressão (como aconteceu aos separatistas na Techetchénia) e reorientação (o caminho do Hezbollah no Líbano) –, acha que o Daesh só poderá seguir noutra direção ou tornar-se irrelevante.

“A reorientação, desde 2015, já transformou o ‘estado islâmico’ de um exército convencional numa mais pequena insurreição, um grupo terrorista transnacional profundamente enfraquecido que tenta reagrupar-se em lugares como o Afeganistão ou a Líbia”.

“A segunda dinâmica – o fracasso – também parece em marcha”, adianta a professora em Washington. “Para cativar a imaginação popular, o ‘estado islâmico’ definiu a sua identidade conquistando território e criando um califado.”

“É óbvia a diferença entre o que o grupo apregoa e a realidade no terreno. Isto não quer dizer que não irá planear novos ataques, mas o mais provável é a emergência de um sucessor diferente.”

O que Clarke e Cronin excluem por completo é a possibilidade de negociações, como as que estão em curso entre os Taliban e os Estados Unidos.

“É impossível negociar com a Al-Qaeda ou com o ‘estado islâmico’, porque estes são grupos terroristas transnacionais com objetivos globais, ao contrário dos Taliban, cujas preocupações se limitam ao Afeganistão”, comenta Clark.

Quase 30 mil pessoas, segundo fontes oficiais, terão fugido de Baghouz (onde estariam refugiadas em grutas e túneis), entre o início de Janeiro e meados de Março de 2019. Cerca de 5000 seriam combatentes
© Rodi Said | Reuters | Business Insider

[Em 17 de Agosto de 2019, o Daesh reivindicou, em comunicado, que um dos seus combatentes se fez explodir num casamento na capital afegã, causando pelo menos 63 mortos e 180 feridos entre os mais de mil convidados. Sobreviventes (entre eles os noivos) e vítimas pertencem à marginalizada minoria hazhara, que é xiita – fiéis do ramo do Islão que o Daesh, sunita, considera “o inimigo próximo” e prioritário, ao contrário da America, o “inimigo longínquo”.

Foi um dos mais mortíferos atentados do “estado islâmico”, numa altura em que os Taliban se preparam para negociar com o Governo de Cabul, depois de se terem comprometido em respeitar um cessar-fogo e em não apoiar “ataques terroristas internacionais”, como os do Daesh e da Al-Qaeda, para assim acelerar a partida dos restantes 14 mil soldados americanos.

Analistas acreditam que o Afeganistão (a par do Sahel e da África Ocidental) poderá ser o território onde o Daesh, que ali terá cerca de 3000 combatentes, alguns deles antigos taliban desiludidos, tentará restabelecer o califado que perdeu na Síria e no Iraque.

O ataque ao casamento em Cabul, além de seguir a habitual estratégia de instilar o medo, terá sido “uma demonstração de supremacia” por parte do Daesh, numa “competição pelo poder” com os Taliban, escreveu, no jornal britânico ‘The Guardian’, Jason Burke, que é autor de vários livros sobre a Al-Qaeda e o “estado islâmico”.]

Mulheres combatentes das Forças Democráticas Sírias, coligação de curdos e árabes conhecida pela sigla inglesa SDF, celebram a derrota do Daesh em Raqqa, na Síria, em 20 de Outubro de 2017, depois de uma campanha miitar que durou quatro meses
© AFP | Getty Images | The Independent

“A única maneira de combater o movimento salafista-jihadista global, violento contra não muçulmanos e muçulmanos [xiitas] que despreza como apóstatas, é derrotar as suas estratégias de mobilização e polarização”, defende Audrey Cronin, cujo próximo livro será Power to the People: How Open Technological Innovation is Arming Tomorrow’s Terrorists.

Esta obra alerta para o modo como as redes sociais, drones e outra robótica ou a inteligência artificial dão poderes a grupos e indivíduos para desencadearem novas formas de guerra.

“Temos de conter a capacidade de eles recrutarem e treinarem seguidores, sobretudo pela via digital. E devemos impedi-los de galvanizar populações segundo linhas sectárias – as que permitiram ao Estado Islâmico ganhar força. Não poderemos vencer este movimento se não contrariarmos a sua capacidade para semear divisões, explorar ódios e justificar a violência.”

* Acrónimo árabe de ‘al-Dawla al-Islamiya al-Iraq al-Sham’ (Exército Islâmico do Iraque e Levante), Daesh é a designação usada e preferida pela maioria dos muçulmanos, por ser semelhante às palavras árabes Daes (“aquele que esmaga algo com os pés) e ‘Dahes ‘(“aquele que semeia a discórdia”).

Ao serviço da jihad 

Elementos de uma unidade de contraterrorismo iraquiana exibem (em 2017) uma bandeira do Daesh de pernas para o ar, junto das ruínas da Mesquita de al-Nuri, onde Abu Bakr al-Baghdadi se proclamou califa em 2014
© AFP | Getty Images | slate.com

37.497–41.490

Número estimado de cidadãos de 80 países juntaram-se ao Daesh na Síria e no Iraque, dos quais 32 808 homens (75%). Cerca de 5000 partiram de Estados europeus.

4162-4761

Eram mulheres, ou seja, 10 a 13% do total;

3704-4640

Eram menores, isto é, 9 a 12% do total, dividindo-se estes em três categorias: bebés (0-4 anos); crianças (5-14) e adolescentes (17-17);

18.852

Combatentes eram originários do Médio Oriente e Norte de África, 7252 da Europa de Leste, 5965 da Ásia Central, 5904 da Europa Ocidental, 1010 da Ásia do Leste, 1063 da Sudeste Asiático, 753 das Américas, Austrália e Nova Zelândia, 447 da Ásia do Sul e 244 da África Subsariana.

7145-7366

Pessoas já regressaram aos seus países (20% do total) – 79% homens, 4% (256) mulheres e 411-1180 menores (17%).

Fonte: ‘From Daesh to “Diaspora”: Tracing Women and Minors of Islamic State’, relatório publicado em 2018 pelo International Centre for the Study of Radicalisation, do King’s College, em Londres.

Hamza bin Laden já não é uma ameaça

Uma fotografia de Hamza bin Laden, supostamente tirada no dia do seu casamento, encontrada pelas forças especiais americanas no refúgio onde assassinaram o seu pai em 2011 e divulgada pela CIA

Em Fevereiro, os Estados Unidos ofereceram uma recompensa de um milhão de dólares a quem ajudasse a localizá-lo. Em Março, a Arábia Saudita revogou a sua cidadania. Aos 29-30 anos, Hamza bin Laden era a esperança da Al-Qaeda de voltar a ser relevante no movimento jihadista global, agora que o rival Daesh perdeu o “califado”.

Terá sido assassinado em 2017, segundo três fontes de espionagem americanas citadas pela NBC News. Se isso se confirmar, será um duro golpe para a Al-Qaeda.

Único filho de Khairia Sabar, descrita como a preferida das quatro mulheres de Osama bin Laden, Hamza seria o único dos irmãos que se mostrava determinado a dar continuidade às ambições do pai, e a vingar a sua morte.

Osama, arquiteto dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, foi assassinado dez anos depois por forças especiais americanas no Paquistão. E seria aqui, mais precisamente do lado afegão da fronteira, que Hamza estaria refugiado e de onde divulgava gravações áudio e vídeo apelando a novos ataques contra “os judeus” e “os cruzados”.

Em 2015, por exemplo, Hamza apelou a ataques contra interesses dos EUA, da França e de Israel, assim como a atentados em capitais ocidentais. No ano seguinte, exortou os fiéis à união na Síria (onde a Al-Qaeda Central e o Daesh são rivais) com o objectivo de “libertar a Palestina, e avisou os americanos de que continuariam a ser alvos.

Em 2017, numa gravação áudio, Hamza reivindicou responsabilidade por um atentado bombista em Manchester, dez dias depois de ter sido cometido, mas investigadores nunca estabeleceram qualquer ligação com a Al-Qaeda.

Antes da notícia do seu presumível (e misterioso) desaparecimento, especialistas em questões de segurança dividiam-se quanto à possibilidade de Hamza poder vir a liderar a “Rede” fundada pelo pai.

Uns duvidavam que, com “pouco treino militar e refém de Ayman al-Zawahiri”, o sucessor de Osama, o jovem Hamza fosse capaz de revitalizar uma organização fragilizada por várias cisões e derrotas militares.

Outros acreditavam que com o seu “pedigree familiar, fervor jihadista e carisma”, ele já era “uma estrela em ascensão” capaz de cativar novos fiéis e financiadores no Golfo Pérsico desiludidos com o Daesh.

Em declarações ao diário britânico The Guardian, Peter Bergen, autor de vários livros sobre a Al-Qaeda, exprimiu dúvidas sobre se Hamza bin Laden seria um verdadeiro líder operacional. “Terá ele feito alguma coisa?”, interrogou-se. “Terá ele comandado alguma operação significativa [na Síria, no Iémen ou em África onde a Al-Qaeda Central tem “filiais”]?” Ainda não há respostas.

Audrey Kurth Cronin, autora de uma obra de referência, How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns
© Alexis Glenn | Creative Services | George Mason University

Amarnath Amarasingam, professor na Universidade de Waterloo, no Canadá, autor (com o sociólogo Lorne L-Dawson) do relatório I Left to be Closer to Allah, publicado pelo Institute for Strategic Dialogue, em Londres
© Dylan Robertson | calgaryherald.com

Daniel Byman, autor de Road Warriors: Foreign Fighters in the Armies of Jihad
© alchetron.com

P. Clarke, autor de After the Caliphate e investigador no International Centre for Counter-Terrorism, em Haia (Holanda)
© Foreign Policy Research Institute

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO, edição de 10 de Julho de 2019 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, July 10, 2019 edition

O juízo final do estado (não) islâmico

O grupo que em 2014 mudou a geografia do Médio Oriente perdeu o “califado” cinco anos depois de o ter proclamado. Esvaiu-se a sua utopia messiânica, mas não o pesadelo que a ideologia salafista-jihadista representa. Caner K. Dagli, co-autor de uma monumental obra de exegese do Corão, e Jessica Stern, antiga conselheira de segurança de Bill Clinton, ajudam-nos a explicar a trajectória religiosa e belicosa do Daesh*. (Ler mais | Read more...)

Combatentes apoiados pelos EUA vigiam um edifício no povoado de Baghouz, o último reduto do “califado” do Daesh na Síria, em 3 de Março de 2019
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images | NPR

Jessica Stern não ficou surpreendida com o curto tempo de vida do “califado” que o Daesh proclamou em Junho de 2014, depois do que parecia uma ascensão imparável, de Aleppo, na Síria, até Mosul, no Iraque. Caiu em Março. Na ignomínia.

“Ao controlar um território do tamanho da Grã-Bretanha, o que é raro para a maioria dos grupos terroristas contemporâneos, o ‘estado islâmico’ tornou-se bastante vulnerável – os seus inimigos sabiam onde o encontrar, porque o seu endereço tinha remetente”, diz-me a autora de ISIS: The State of Terror e Terror in the Name of God: Why Religious Militants Kill.

O grupo perdeu o território sob seu domínio, mas “permanece uma ameaça importante”, alerta a investigadora que foi membro do Conselho Nacional de Segurança do Presidente Bill Clinton e hoje é professora na Universidade de Boston, nos EUA.

“Segundo responsáveis militares americanos, dezenas de milhares de combatentes sírios e iraquianos continuam escondidos na região, dezenas de milhares de combatentes estrangeiros escaparam, alguns deles regressando aos países de origem, e outros foram para as wilayats ou províncias do Daesh”, refere a académica a quem o Council on Foreign Affairs deu o título de Superterrorism Fellow.

O Daesh tem atualmente “cerca de dez wilayats e umas duas dezenas de redes [salafistas-jihadistas]”, adianta Jessica Stern. “Expande-se internacionalmente graças à colaboração com grupos rebeldes locais. Se um destes grupos promete lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi, [o ‘“califa’ do ‘estado islâmico’], e este juramento é aceite, tornam-se imediatamente afiliados.”

“Alguns deles são declarados províncias. Foi o que aconteceu com o Boko Haram [na Nigéria], que é a ‘Província da África Ocidental; o Abu Sayyaf e outros grupos nas Filipinas e na Indonésia, a ‘Província da Ásia do Leste’; e o Ansar Beit al-Maqdis, a ‘Província do Sinai’ [no Egipto]”.

Em Abril, num vídeo que o Daesh divulgou, Baghdadi anunciou a criação de uma nova “província”, na África Central, e aceitou os juramentos de lealdade de grupos no Mali e no Burkina Faso. Neste país, em particular, os alvos têm sido igrejas católicas – três ataques entre Abril e Maio.

É por tudo isto que Jessica Stern está pessimista: “Quando as forças americanas deixaram o Iraque em 2011, havia no país 700 membros da Al-Qaeda. Agora, pelo menos segundo Donald Trump, o ‘estado islâmico’ foi mais uma vez ‘derrotado’ – mas isto não é verdade!”

“Sim, perdeu o seu proto-estado, mas continua a ser uma poderosa organização terrorista, com dezenas de milhares de combatentes e centenas de milhões de dólares.”

Como é que um exército genocida e apocalíptico pode continuar a exercer este poder de atração depois de uma vexante derrota? “Muitos dos que viveram esse pesadelo continuam a acreditar na utopia”, diz a especialista em terrorismo. “Apesar de uma realidade horrenda sob o ‘estado islâmico’, milhares de pessoas continuam a ser-lhe fiéis.”

Campo de refugiados de al-Hawl, que acolheu muitos dos que fugiram após a queda do califado do Daesh na Síria
© Quentin Sommerville | New Statesman

Em 2015, num ensaio publicado na revista The Atlantic, sob o título What ISIS Really Wants e no qual tenta explicar por que o Daesh funciona como um íman não apenas para aventureiros e psicopatas, mas também para seguidores fervorosos, o autor, Graeme Wood, gerou controvérsia ao declarar: “A realidade é que o ‘estado islâmico’ é islâmico: Muito islâmico.”

Para Wood, todas as decisões e leis promulgadas pelo Daesh “aderem a uma ‘metodologia profética’, isto é, seguem o exemplo de Maomé ao mais ínfimo pormenor”. Os muçulmanos, acrescenta, “podem rejeitar o ‘estado islâmico’; quase todos o fazem”, mas não podem “fingir que este grupo não é religioso”.

Citando Bernard Heykel, que ele descreve como “o principal especialista na teologia” do Daesh, Wood observa que, muitas organizações muçulmanas, ao considerarem o Daesh “não islâmico”, padecem de “uma visão cor de rosa da sua própria religião”, desvalorizando o que esta “exige do ponto de vista legal e histórico”.

Insistir em que o Daesh “distorce” as escrituras do Islão “é absurdo e só se compreende por ignorância intencional”, diz Heykel a Wood.

“As pessoas querem absolver o Islão [com] o mantra de o Islão ser uma ‘religião de paz’. (…) O Islão é o que os muçulmanos fazem e como interpretam os seus textos [sagrados]. E estes textos são partilhados por todos os muçulmanos sunitas”, não apenas o Daesh – que “tem tanta legitimidade como os outros.”

Para Haykel, professor americano de origem libanesa na Universidade de Princeton, os combatentes do Daesh “são reminiscências autênticas do Islão original e reproduzem fielmente as nomas da guerra” definidas no Corão.

“Escravatura, crucificação e decapitação são métodos da tradição medieval adormecidos há centenas de anos que os jihadistas fizeram reviver”. O que mais surpreende, acrescenta, “não é apenas o seu literalismo, mas a seriedade com que lêem esses textos.”

Os argumentos de Graeme Wood e Bernard Heykel mereceram uma crítica dura (The Phony Islam of ISIS) de Caner K. Dagli, professor de Estudos Religiosos no Jesuit College of the Holy Cross, em Worcester (Massachusetts, EUA), co-autor de uma extraordinária obra de tradução e comentário do Corão, The Study Quran.

A interpretação que o Daesh faz da religião “não é literal, nem séria”, mas sim “estreita, rígida e exclusivista”, sublinhou Dagli. A sua “metodologia profética” não passa da prática de “escolher o que lhe convém e desprezar o que não lhe interessa”, ignorando séculos de exegese por parte de juristas e teólogos – sunitas e xiitas.

Uma bicicleta no meio de veículos calcinados em Baghouz, o povoado onde morreu o “califado” do Daesh na Síria
© Chris McGrath | Getty Images | The Washington Post

Embora relacionados, o “Islão” que corresponde à Cristandade (a civilização) distingue-se do “Islão” que corresponde ao Cristianismo (a religião), uma distinção que, recomenda Dagli, também deve ser feita quando se usa os termos “islâmico” e “não islâmico”. Os muçulmanos para quem o Daesh é “não islâmico” não negam que os combatentes do grupo sejam “muçulmanos.”

“Pense nesta afirmação: Os nazis são ocidentais”, diz-me Dagli, em entrevista por email, o académico de ascendência circassiana nascido na América. “De um ponto de vista, é uma afirmação inegável: os nacional-socialistas [de Hitler] não vieram da Mongólia.”

“Mas se eu afirmar, ‘Os nazis são muito ocidentais’ (como Wood disse, que o Daesh é muito islâmico), então as pessoas percebem imediatamente a distinção. O primeiro uso de “ocidental” ou “islâmico” é uma descrição geográfica/civilizacional, o segundo é um julgamento de valor sobre a melhor e a pior expressão de uma civilização.”

Quando perguntamos o que o Daesh pensaria de Study Quran – uma obra de cinco autores e quase 2000 páginas, “ecuménica sem ceder às agendas do liberalismo secular”, que demorou uma década a produzir e incorpora várias tradições proféticas (hadith) –, Caner K. Dagli responde: “Tenho a certeza que, para eles, não tem qualquer interesse.”

Na interpretação que o grupo de Baghdadi faz das escrituras, “o problema está no facto de eles acreditarem em todas as noções rígidas dos textos sagrados, acreditarem que deve ser óbvio para todos que a leitura que eles fazem é a correcta, e que quem não concorda com eles só pode ser estúpido ou demoníaco.”

“Esta é a marca de todos os fundamentalistas (políticos, religiosos, ideológicos), que, de um modo geral, não compreendem que outros possam, em boa fé, olhar para as mesmas fontes de autoridade e chegar a uma conclusão diferente”, lamenta Dagli.

“Felizmente que o mundo cultural intelectual islâmico, na sua maioria, sempre foi capaz de tolerar uma pluralidade de ideias e ver nessa variedade uma força e não uma fraqueza.”

“Nem todos percebem que os maníacos que enchem as fileiras do ‘estado islâmico’ têm por vezes zero conhecimento religioso e só se interessam por uma gloriosa violência para sua própria exaltação, encontrando na ideologia deste grupo uma justificação pronta a usar para matar sem limites.”

Homens que fugiram do último bastião do Daesh na Síria esperam numa fila para serem interrogados por forças curdas e americanas
© Richard Hall | The Independent

Alguns analistas dizem que é impossível entender “a mente do estado islâmico” sem perceber a história do wahhabismo, a doutrina puritana e castradora do teólogo Muhammad ibn ‘Abd al-Wahhab, que, em 1774, firmou um pacto político-religioso com Muhammad ibn Saud, ajudando-o a estabelecer o primeiro Estado saudita, o Emirado de Diriyah. Uma doutrina que se mantém no reino actual.

Wahhab, tal como Baghdadi, intimava os fiéis a jurar lealdade a um único líder muçulmano. Os desobedientes seriam mortos, as suas mulheres violadas, os seus bens confiscados. Também ele era um takfiri, o que excomunga e mata os “apóstatas”.

Foi ele quem reintroduziu a ideia de “martírio em nome da jihad”, garantindo aos suicidas “entrada imediata no paraíso”.

“É verdade que, em termos das suas crenças em relação aos não muçulmanos e até a outros muçulmanos (como os xiitas), os wahhabitas na Arábia Saudita e os salafistas, em geral, têm bastantes conceitos nocivos em comum”, admite Caner K. Dagli.

“Mas não basta perguntar o que liga as posições de ambos em termos de violência. Também devemos questionar a razão por que, em muitos casos, elas não conduzem à violência.”

“É conveniente para as potências ocidentais centrarem-se em questões ideológicas, porque isso desvia a atenção do facto de a existência do Daesh ser impossível sem a destruição do Iraque (ver segundo texto).”

Em todo o caso, reconhece, é verdade que “alguns destacados líderes religiosos sauditas não sabem como lidar com o facto de grupos como o ‘estado islâmico’ se basearem em textos considerados normativos do sistema wahhabita do seu reino”.

Foi na Arábia Saudita que nasceu Osama bin Laden, o fundador da Al-Qaeda (“A Rede”) e mentor do jordano Abu Musab al-Zarqawi, “pai” do Daesh, ambos assassinados por forças americanas. Embora um e outro fizessem parte do movimento salafista-jihadista global, o ‘estado islâmico’ liderado agora pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi rapidamente suplantou a casa-mãe, que passou a ser dirigida pelo egípcio Ayman al-Zawahiri.

Membros das Forças Democráticas Sírias, coligação árabe-curda apoiada pelos Estados Unidos e conhecida pela sigla inglesa SDF, descansam depois de uma operação para repelir terroristas do Daesh em Baghouz
© AFP | South China Morning Post

Desde 2014, quando cortaram relações, devido a divergências inconciliáveis na luta pela supremacia (ver segundo texto), que o Daesh e a Al-Qaeda Central se digladiam numa guerra civil de carácter regional, tribal, étnica e nacionalista.

“Os grupos jihadistas estão constantemente a dividir-se e a fundir-se, voltando a dividir-se e a fundir-se”, atenta Jessica Stern que, em ISIS: The State of Terror, dedica um capítulo inteiro à rivalidade entre Baghdadi e Zawahiri. “Eles competem por dinheiro, combatentes e atenção, mas também colaboram ocasionalmente.”

“O Daesh emergiu de uma cisão na Al-Qaeda no Iraque e é possível que volte a integrar a Al-Qaeda Central”, indica a investigadora americana. “O ‘estado islâmico’ continuou a extraordinária brutalidade e violência anti-xiita da predecessora, Al-Qaeda no Iraque [AQI]; embora a Al-Qaeda Central evite este tipo de crueldade em que o Daesh se especializou, ambos continuam a ser organizações implacáveis, e ambos aprendem com a concorrência.”

Embora o Daesh olhe o mundo de forma totalitária e niilista, Jessica Stern garante que “não representa ameaça existencial para qualquer país ocidental”. E explica porquê: “Há 79 Estados numa coligação contra o ‘estado islâmico’.”

“Mesmo com dezenas de milhares de seguidores, [este grupo] constitui, para o Ocidente, uma ameaça psicológica mais do que militar. É provável que continue a expandir-se em países com governos fracos, em democracias iliberais ou incompletas, em guerras civis sectárias. São estes os factores de risco conhecidos na propagação de grupos terroristas.”

E será possível algum dia negociar com o Daesh como os EUA estão a fazer com os Talibã no Afeganistão? “É provável que alguma entidade venha, numa determinada altura, a negociar com Baghdadi, mas quase seguramente nenhum Estado ocidental.”

Civis que fugiram de Baghouz, o último reduto do Daesh, aguardam a sua vez para embarcarem em Camiões depois de passar pelo controlo das Forças Democráticas Sírias, num posto provisório de vigilância, em 9 de Fevereiro de 2019
© Chris Mcgrath | Getty Images | The Washington Post

Desmantelado o “califado”, um dos grandes desafios para os Estados na Europa cujos cidadãos se juntaram ao Daesh será decidir o que fazer com os que regressam, em particular com as mulheres e filhos desses mujahedin – a maioria vítimas, mas alguns também perpetradores de crimes de guerra.

Dos mais de 42 mil combatentes estrangeiros do Daesh, cerca de 5000 eram europeus. Destes, aproximadamente 30% regressaram a casa e outros 14% terão sido mortos, informa Colin P. Clarke no seu livro After the Caliphate.

“Esta é uma questão extremamente difícil de responder”, afirma Jessica Stern, que ajudou a organizar os primeiros programas de des-radicalização, reabilitação e reintegração de terroristas, cuja eficácia ainda não foi possível avaliar.

“Há riscos significativos, seja qual for o modo que os países escolham lidar com a situação. Se eu tivesse de tomar uma decisão, ela dependeria do número de operacionais e do seu perfil de ameaça.”

Entre Junho de 2014 e Junho de 2017, foram cometidos 32 ataques jihadistas na Europa, dos quais 17 só em França. Entre Junho de 2017 e Junho de 2018, houve mais uma dúzia.

“Seria miopia minimizar o significado da ideologia islamista” do Daesh, “porque o salafismo-jihadismo se tornou num poderoso movimento social, uma marca popular e duradoura que veio para ficar e ganhar mais adeptos”, escreve o académico libanês Fawaz A. Gerges em ISIS: A History.

Em sua opinião, para “proteger o sagrado da manipulação política e o Estado da manipulação religiosa”, o objectivo deveria ser “uma separação formal da mesquita e do Estado.”

O que resta da Universidade de Mosul, no Iraque, depois de ter sido incendiada e destruída durante uma batalha contra o Daesh, em 10 de Abril de 2017 – princípio do fim do califado
© Marko Djurica | Reuters

Será possível este processo histórico?, perguntamos a Caner K. Dagli. “Porquê este apelo, agora? É esta a questão”, responde. “De um modo geral, as pessoas preferem olhar para factores dentro do Islão, sem tentar compreender 1400 anos de civilização islâmica.”

“O nível do discurso sobre ideologia e violência no mundo islâmico tende a ser caricato. Imagine alguém a tentar explicar o conflito na Irlanda do Norte com base na ideologia católica ou protestante e a leitura dos respectivos textos sagrados.”

“A discussão sobre o mundo muçulmano está muitas vezes a este nível, porque, e esta é a principal razão, os intelectuais ocidentais tentam evitar a discussão sobre o papel desempenhado pelo domínio ocidental no mundo de maioria muçulmana e os efeitos das guerras.”

“Qualquer proposta de explicar o ‘estado islâmico’ ou os Taliban que não comece na destruição das sociedades do Iraque e do Afeganistão por uma invasão armada não é séria, e deve ser ignorada”, esclarece Dagli.

“Imaginem a América a ser invadida e ocupada durante 20 ou 30 anos, ter o seu exército dissolvido, a sua sociedade civil destruída, a sua economia de rastos, uma grande parte da sua população deslocada, e depois receber lições de potências estrangeiras sobre o papel da religião na sociedade e o apelo do Cristianismo radical.”

“Eu diria: deixem as pessoas em paz e, então, se a sua incapacidade para ‘separar mesquita e Estado’ ainda continuar a causar problemas, então terão o direito de dizerem alguma coisa. Além disso, quem é que nomeou o Ocidente árbitro do que o mundo muçulmano deve ou não fazer com as suas sociedades?”

Apesar de tudo, reconhece Dagli, “não há dúvida que o mundo muçulmano tem muitos problemas que são internos e não são responsabilidade de potências externas – afinal de contas, o wahhabismo na Arábia Saudita nada tem a ver com o imperialismo ocidental.”

Daesh: ascensão, queda – e futuro

Membros das Forças Democráticas Sírias (coligação de curdos e de árabes apoiada pelos EUA) de vigia em Raqqa, na Síria, em 20 de Outubro de 2018, depois de conquistarem a cidade que o Daesh proclamara “capital do califado
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images | The Guardian

O autoproclamado “estado islâmico” nasceu no Iraque como um ramo da Al-Qaeda. Cresceu com a invasão de Bush para derrubar Saddam, o sectarismo do governo xiita de Maliki e o vazio de poder na Síria de Assad. Com uma ideologia genocida e apocalíptica, tornou-se na mais famosa e infame das organizações do movimento salafista-jihadista global. Esta é a sua história:

2003

Em 20 de Março, George W. Bush anuncia o início da guerra no Iraque, depois de convencer o mundo que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça – nunca encontradas.

Em 9 de Abril, a coligação militar liderada pelos EUA, derruba o ditador em Bagdad e, em Maio, ordena não só a dissolução do Baas, o partido único que há 35 anos governava o país, mas também do Exército e serviços secretos.

Ficam sem emprego e com armas mais de cem mil pessoas, a maioria delas sunitas num país predominantemente xiita – receita para um conflito interconfessional.

Em 19 de Agosto, o Jama’at al-Tawid wal-Jihad (TWJ, Grupo do Monoteísmo e Jihad), chefiado pelo jordano Ahmad Fadhil Nazzal al-Kalayah – mais conhecido pelo “nome de guerra” Abu Musab al-Zarqawi –, faz-se anunciar com um estrondo, ao destruir à bomba o quartel-general da ONU num hotel em Bagdad.

2004

Em Abril, soldados e mercenários dos EUA no Iraque cercam a cidade sunita de Falluja, onde ficam durante um mês – centenas de pessoas são mortas. A CBS News divulga imagens de uma série de abusos cometidos, em 2003, por militares americanos e agentes da CIA, na prisão de Abu Ghraib: espancamentos, sodomia, assassínios.

Em Junho, os EUA entregam a soberania do Iraque a um governo interino dirigido pelo antigo exilado xiita Iyad Allawi.

Em Outubro, beneficiando do crescente sentimento anti-americano, Zarqawi transforma o TWJ em Al-Qaeda no Iraque (AQI). Jura baya (lealdade) a Osama bin Laden, que conhecera no Afeganistão e cuja organização, diminuída após reveses no Afeganistão, Paquistão, Iémen e Arábia Saudita, recupera vitalidade com a guerra de Bush.

Em Novembro, convencido por 93 teólogos a apoiar a jihad de Zarqawi – centrada no “inimigo próximo” (os xiitas, a que chama Rafidah – “apóstatas e politeístas” – e os “traidores” sunitas) e não no “inimigo longínquo” (os EUA), prioridade da Al-Qaeda Central, Bin Laden nomeia-o “emir” ou chefe da AQI. É um “casamento de conveniência, ditado pelos interesses de ambos e não pela teologia”.

O objectivo de Zarqawi é ter acesso a fundos e beneficiar de uma “marca célebre” que pode atrair combatentes estrangeiros. Para Bin Laden, é a oportunidade de reivindicar vitórias militares contra as tropas americanas e rejuvenescer a sua base com novos recrutas árabes e muçulmanos.

2005

Em Maio, sob a liderança de Zarqawi, um arruaceiro conhecido na sua aldeia “pelas tatuagens e por beber como um peixe” – práticas proibidas pelo Islão a que aderiu tardiamente ao sair da cadeia após cumprir pena por “roubo, crime sexual e venda de droga”, a AQI intensifica os atentados, raptos, crucificações e decapitações.

O método preferido de Zarqawi é enviar bombistas suicidas para mesquitas, mercados ou esquadras da polícia. Causa o máximo de danos e cativa publicidade. É com orgulho que os fiéis o apelidam de “Xeque dos Matadouros”.

2006

Desfile de combatentes do Daesh em Raqqa, por eles proclamada capital do “califado”, na Síria,, em 30 de Junho de 2014
© Reuters

Em 22 de Abril, o recém-eleito presidente iraquiano, Jalal Talabani, um curdo, pede a Nuri al-Maliki, um xiita, para formar um governo de unidade e pôr fim a meses de impasse político.

Em 7 de Junho, forças americanas matam Zarqawi durante um ataque aéreo ao seu refúgio perto de Baquba.

Em Outubro, o Conselho Shura dos Mujahedin, criado para (em vão) reconciliar facções islamistas e líderes tribais sunitas, dá uma “identidade nacional” à insurreição, nomeando para novo “emir” o iraquiano Hamed Dawood Mohammed Khalil al-Zawi, que adopta o “nome de guerra” de Abu Omar al-Baghdadi.

Em Dezembro, condenado por crimes contra a humanidade, Saddam Hussein é executado em Camp Justice, uma base conjunta americana-iraquiana, nos arredores de Bagdad.

2007

Em Janeiro, o ISI/EII apresenta a sua bandeira negra oficial. No topo, rabiscou a branco “Só há um Deus”, e num círculo branco, para “imitar o selo” do profeta do Islão, empilhou a frase “Maomé é o Mensageiro de Deus”. As cores escolhidas são “adequadas à sua visão maniqueísta do mundo, sem áreas cinzentas entre os binários de certo e errado, crente e pagão”.

É também em Janeiro que tropas americanas mobilizam grupos de sunitas a quem oferecem armas e dinheiro para combater a Al-Qaeda. Entre eles estão os chamados Filhos do Iraque ou Sahawat (Conselhos do Despertar), na província de Anbar.

2008

Em Janeiro, o Parlamento iraquiano aprova legislação para permitir o regresso à vida pública de ex-responsáveis sunitas do Partido Baas.

2009

Em Janeiro, o primeiro-ministro Maliki, a quem os americanos entregaram no ano anterior o controlo de Anbar, começa a atacar os grupos Sahawat, atiçando as tensões sectárias.

Em Agosto, tendo recuperado o apoio nas zonas tribais sunitas que antes o escorraçaram, o “estado islâmico” ataca à bomba os ministérios dos Negócios Estrangeiros e das Finanças, causando centenas de mortos.

2010

Em 18 de Abril, Abu Omar al-Baghdadi e o seu “ministro da defesa”, Abu Ayyub al-Masri, são mortos num ataque conjunto de forças iraquianas e americanas.

Em Maio, um misterioso Abu Bakr al-Baghdadi, “nome de guerra” de Ibrahim ibn Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai, nascido em 1976 em Samarra, no “Triângulo Sunita”, substitui Abu Omar al-Baghdadi como “comandante dos fiéis”.

Oriundo de uma família de classe média e conservadora, “dedicado à religião e ao futebol desde a infância”, supostamente doutorado em jurisprudência islâmica, Baghdadi junta-se à AQI, de Zarqawi, em 2006.

Prisioneiro em Camp Buqqa – chamada de “Escola da Al-Qaeda”, por ser incubadora de jihadistas, é aqui que Baghdadi conclui que a sua vida “não tem sentido sem matar”.

2011

O Daesh conquistou Palmira no verão de 2015, não apenas a cidade, mas os poços de petróleo adjacentes, o que lhe permitiu expandir-se na região. O nível de destruição no que a Unesco classificou como património a humanidade é aterrador. (Um fotógrafo da Agence France-Presse testemunhou o antes e depois de uma das mais extraordinárias jóias arquitectónicas do mundo – nesta imagem, o que resta do Templo de Bel, que remonta ao ano 32 a.C.)
© Joseph Eid | AFP | Getty Images | The Independent

Em Fevereiro, inspirados pelas “primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto, dezenas de milhares de iraquianos organizam, durante vários dias, gigantescas manifestações contra o “governo corrupto” de Nuri al-Maliki, apoiado pelo Irão e pelos EUA. O primeiro-ministro responde com mais repressão.

Em 2 de Maio, Osama bin Laden é assassinado no seu refúgio em Abbottabad, no Paquistão, numa operação levada a cabo por forças especiais americanas, a partir do Afeganistão.

No final do ano, aproveitando-se de um vazio de poder no movimento jihadista, Baghdadi envia para a Síria dois colaboradores próximos, Abu Mohammed al-Julani e Mullah Fawzi al-Dulaimi, para ali formar uma célula operacional (Jabhat al-Nusra ou Frente al-Nusra) e combater o regime do xiita-alauita Bashar al-Assad.

Em Dezembro, os EUA dão por concluídas as suas operações militares no Iraque. Por esta altura, antigos membros do Baas e ex-oficiais de Saddam já haviam transformado o ISI/EII de uma “rede de mafiosos num exército profissional, perito em guerrilha e em guerra convencional”. Estima-se que 30% dos comandantes do grupo de Baghdadi fossem membros do antigo regime que ele conheceu em Camp Bucca.

2012

Só neste ano é que Julani assume publicamente que a Frente al-Nusra está envolvida na guerra na Síria, infiltrada entre outros grupos rebeldes, escondendo a ideologia jihadista para não atrair a atenção dos EUA. Deste modo, ganha apoios locais, particularmente em zonas rurais, como Deir al-Zour e Raqqa, onde o desemprego ronda os 90% e a inflação os 400%.

Num país em desintegração, a Frente al-Nusra não tem dificuldade em mobilizar centenas de sunitas depauperados e abandonados por uma oposição fragmentada e manipulada por potências externas, aos quais paga 400 dólares por mês e, se casados, mais 50 por cada filho e 100 por cada mulher.

2013

Em Abril, inquieto com a crescente popularidade de Abu Mohammed al-Julani que mantém os seus rebeldes activos em 11 das 13 províncias da Síria, Abu Bakr al-Baghdadi assume, publicamente e pela primeira vez, a aliança entre o Estado Islâmico no Iraque e a Frente al-Nusra.

Aproveita também para, unilateralmente, dissolver os dois grupos, fundindo-os numa nova entidade: o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (EIIS ou ISIS, na sigla inglesa).

Julani reage indignado, jurando lealdade ao sucessor de Bin Laden na Al-Qaeda Central, Ayman al-Zawahri. A prioridade de Baghdadi é combater primeiro os homens de Julani e só depois os de Assad. Em Agosto, o ISIS/EIIS ataca a Frente al-Nusra em Raqqa e Aleppo – “mudando completamente a natureza da rebelião na Síria”.

2014

O êxodo, escravatura e genocídio da minoria yazidi do Iraque foram dos piores crimes de guerra cometidos pelo Daesh (Na foto, famílias a caminho da montanha de Sinjar, junto à povoação fronteiriça síria de Elierbeh of Al-Hasakah, em 11 de Agosto de 2014)
© Rodi Said | Reuters

Em Janeiro, o ISIS/EIIS assume o controlo total de Raqqa e proclama-a “capital” do seu emirado – decisão altamente simbólica. Em Fevereiro, a Al-Qaeda Central, liderada por Zawahiri, corta relações com o grupo de Baghdadi.

Em Abril, o ISIS/EIIS derrota a Frente al-Nusra, ficando a controlar 95% da província de Deir al-Zour, rica em petróleo. Este recurso, que consegue exportar clandestinamente e de que detém o monopólio, representa metade das suas receitas, avaliadas em cerca de mil milhões de dólares. O restante provém de assaltos a bancos, extorsão e tráfico de seres humanos.

Estes fundos permitem-lhe financiar o esforço de guerra, atraindo mais combatentes nacionais e estrangeiros, da Europa à Ásia Central; administrar o território que domina, com eficácia, fanatismo e uma “distinta identidade pan-sunita”.

Em de 10 de Junho, cerca de 1500 homens de Baghdadi apoderam-se de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, depois de neutralizarem e 6000 mil soldados e polícias em apenas quatro dias.

Em 30 de Junho, o ISIS/EIIS proclama um “califado”, ou um “governo que tudo sacrifica à vontade de Deus”, restaurando uma entidade extinta em 1924 após o colapso do Império Otomano; anula as fronteiras do Iraque e da Síria delineadas nos Acordos de Sykes-Picot em 1906; e muda o seu nome para “Estado Islâmico” (IS/EI).

Os opositores, mas também governos e media, identificam-no como Daesh, acrónimo de al-Dawla al-Islamiya al-Iraq al-Sham (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) – por ser semelhante às palavras árabes Daes (“aquele que esmaga algo com os pés) e Dahes (“aquele que semeia a discórdia”).

Em Julho, na sua primeira aparição em público, Abu Bakr al-Baghdadi lidera a oração na Grande Mesquita de al-Nuri, em Mosul, construída no século XII, autoproclamando-se Califa Ibrahim, líder da umma: a comunidade de 1500 milhões de muçulmanos em todo o mundo.

No mesmo mês, o ISIS/EIIS lança o primeiro número da revista em língua inglesa, Dabiq – nome inspirado numa localidade síria próxima de Aleppo, onde, segundo a sua ideologia apocalíptica, “o Islão travará a última grande batalha antes do dia do Juízo Final”.

Em 6 de Agosto, as bandeiras negras chegam à cidade de Sinjar, no norte do Iraque, habitada pela minoria religiosa Yazidi considerada “satânica” pelos jihadistas. Mais de 30 mil famílias procuram refúgio nas montanhas. Pelo menos 500 homens são executados. Setenta crianças morrem de sede. Mulheres são vendidas para escravas sexuais.

É também em Agosto que, enquanto o Twitter proíbe todas as contas do Daesh, uma coligação liderada pelos EUA, inicia uma campanha aérea contra o “estado islâmico” no Iraque, a que se segue outra, em Setembro, na Síria.

2015

A 21 de Maio, o ISIS/EIIS entra na cidade síria de Palmira, classificada pela UNESCO como património mundial da humanidade, e aqui destrói, em Agosto, o templo de Baalshamin, com 2000 anos.

Em 13 de Novembro, forças curdas iraquianas, com apoio aéreo da coligação internacional, libertam Sinjar após dois dias combates.

2016

Baghouz, Síria: Os derradeiros dias do califado (18 de Março de 2019)
© Reuters

À medida que vai perdendo terreno e muitos dos seus homens vão sendo eliminados, o Daesh e os salafistas-jihadistas que o seguem intensificam os ataques e atentados suicidas na Europa (França, Bélgica, Alemanha), no Norte de África (Líbia, Egipto), na Ásia (Bangladesh, Cazaquistão, Malásia, Afeganistão, Paquistão), no Médio Oriente, nos Estados Unidos.

No Iraque, em 3 de Julho, um carro armadilhado explode numa zona comercial de Bagdad, matando pelo menos 292 pessoas e ferindo outras 200 – o mais sangrento atentado desde 2003.

2017

Em 13 de Abril, os EUA fazem detonar a sua mais potente bomba não nuclear sobre uma base do Daesh no Afeganistão. O grupo continua a reivindicar atentados dentro e fora do “califado”.

Em 26 de Maio, o Daesh mata mais de 200 civis iraquianos em Mosul – mas, em 10 de Julho sofre um duro golpe ao perder esta cidade.

Em 9 de Dezembro, depois de uma campanha que inclui 25 mil ataques aéreos, o Iraque confirma a “libertação total” do seu território.

2018

Em 23 de Agosto, o Daesh divulga uma mensagem áudio de Baghdadi. Nesta gravação de 55 minutos, uma voz masculina admite que o grupo está a ser derrotado, mas pede aos seguidores que continuem a lutar e a morrer pelos princípios de Hakimiyya (“o poder de Deus na terra”) e al-wala’ wa al-bara’ (“fidelidade à comunidade sunita e denúncia do outro”) porque só este é “o caminho do Paraíso”.

2019

Homens com presumíveis ligações ao Daesh à espera de serem interrogados pelos seus captores curdos e americanos, após o colapso do “califado” na Síria
© The New Yorker

Em 23 de Março, as Forças Democráticas Sírias, maioritariamente curdas, conquistam Baghouz, o derradeiro bastião do Daesh – é o fim do “califado”.

Em Abril, pela primeira vez em cinco anos e poucos dias depois de um mortífero atentado no Sri Lanka, o Daesh divulga um vídeo em que Baghdadi, sentado no chão ao lado de uma metralhadora, deixa uma mensagem aos fiéis: “Alá ordenou-nos que liderássemos a jihad, não que a ganhássemos.”

Na Síria e no Iraque, com o seu slogan baqiyya wa tatamaddad (“permanecer e expandir”), o Daesh ainda mantém entre 14 mil e 18 mil combatentes, três mil dos quais estrangeiros (segundo a ONU), ou entre 28.600 e 3600 (estimativas do Pentágono). Em 2018, calculavam-se em 230 mil os salafistas-jihadistas pelo mundo fora – um aumento de 247% em relação a 2001, quando começou a “guerra global ao terror”. A soteriologia, ou “doutrina da salvação por um redentor”, é resiliente e auto-regenerativa. É a ideologia messiânica que nasce e floresce nos Estados falhados.

FONTES:

CLARKE, COLIN P., After the Caliphate; COCKBURN, Patrick, The Rise of Islamic State: ISIS and the New Sunni Revolution; GERGES, Fawaz A., ISIS: A History; KENNEDY, Hugh, Caliphate: The History of an Idea; MANNE, Robert, The Mind of the Islamic State: ISIS and the Ideology of the Caliphate; MAHER, Shiraz: Salafi-Jihadism: The History of an Idea; MCCANTS, William, The ISIS Apocalypse: The History, Strategy, and Doomsday Vision of the Islamic State; ROY, Olivier, Le djihad et la mort; STERN, Jessica e BERGER, J. M., ISIS: The State of Terror; WEISS, Michael e HASSAN, Hassan, ISIS: Inside the Army of Terror; WRIGHT, Lawrence, The Terror Years: From Al-Qaeda to the Islamic State.

Jessica Stern, autora de ISIS: The State of Terror e Terror in the Name of God: Why Religious Militants Kill
© hoover.org

Caner K. Dagli, professor de Estudos Religiosos no Jesuit College of the Holy Cross, em Worcester (Massachusetts, EUA), co-autor do livro de exegese corânica The Study Quran
© Twitter

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Junho de 2019 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, June 2019 edition

Argélia e Sudão: A liberdade está a passar por aqui

Duas décadas de poder de Abdelaziz Bouteflika e três de Omar al-Bashir chegaram ao fim. Não tombaram os regimes, mas os milhares de manifestantes que nas ruas exigem democracia também não arredam pé. (Ler mais | Read more…)

Apesar de as manifestações estarem proibidas desde 2001 na capital, dezenas de milhares de argelinos saíram à rua – e não apenas em Argel, mas por todo o país, protestando pacificamente contra um quinto mandato de Abdelaziz Bouteflika
© Billal Bensalem | NurPhoto | Getty Images

É a segunda temporada das “primaveras árabes” de 2011 ou a continuação da luta pela independência de 1954-1962? Rachid Tlemçani, um dos mais notáveis académicos argelinos, escusa-se a classificar a revolta popular que obrigou Abdelaziz Bouteflika a renunciar a um quinto mandato depois de 20 anos na Presidência.

“Não tenho tempo para me envolver em definições”, responde-me, em entrevista por e-mail, o professor de Ciência Política na Universidade de Argel. “O que está a acontecer é uma nova fase de um movimento social. É o acumular de lutas passadas que moldaram o país. É um movimento de massas que chegou à fase da maturação.”

“Não gostamos da analogia com as ‘primaveras árabes’”, diz-nos também a argelina Dalia Ghanem-Yazbeck, analista no Carnegie Middle East Center em Beirute, Líbano. “Preferimos chamar-lhe ‘revolução dos sorrisos’. Esta é uma sequência única de acontecimentos jamais vista desde os anos 1990”, quando o exército anulou a vitória eleitoral da Frente Islâmica de Salvação Nacional (FIS), abrindo caminho a uma guerra civil que causou cerca de 200 mil mortos.

“Bouteflika saiu do poder por pressão do povo e do exército”, refere a especialista em radicalização, islamismo e jihadismo na Argélia. “Se os argelinos não tivessem saído à rua durante semanas consecutivas, Bouteflika ainda estaria no poder e o Exército não o afastaria. O poder popular apanhou o regime desprevenido e o exército foi forçado a tomar decisões.”

Tlemçani, autor de duas obras de referência, Élections et elites en Algérie (2003) e State and Revolution in Algeria (1986), concorda que os militares, “como toda a gente” – incluindo o que Dalia Ghanem-Yazbeck qualifica de “desacreditada oposição” –, foram surpreendidos.

Não tiveram alternativa a deixar cair o discípulo protegido do herói da resistência Houari Boumediène; o sedutor de olhos azuis que atraía celebridades europeias; o revolucionário que abraçou as causas de Che Guevara, Nelson Mandela, Eldridge Cleaver e Yasser Arafat; o mais jovem ministro dos Negócios Estrangeiros (aos 26 anos) que amplificou a voz dos não-alinhados; o presidente que, em 1999, depois de um exílio forçado, ajudou a pacificar um país exangue.

“O que importa à classe dominante na Argélia não é a ideologia mas o rendimento”, comenta o politólogo Tlemçani. “A queda das receitas do petróleo desde 2014 exacerbou as lutas dentro desta classe. Porque o movimento popular tem sido gigantesco e nacional, atraindo pessoas de todas as idades e sexos, de todos os estratos sociais, a classe dominante não foi capaz de o confrontar. Nestas circunstâncias, cada grupo tenta agora salvar os seus interesses. Por isso, foi fácil ao Exército afastar Bouteflika.”

Foi contra um regime corrupto, a que chamam Le Pouvoir, e não apenas contra Abdelaziz Bouteflika (aqui numa foto de 2012) que os argelinos se revoltaram
© Faoruk Batiche | AFP

Era uma rebelião inevitável. “No período pós-colonial, o novo poder político apostou tudo num processo de construção de um Estado em detrimento da construção de uma nação e da promoção de uma sociedade civil e liberdades colectivas”, critica o ex-investigador nas universidades americanas de Georgetown e Harvard.

“O antigo poder colonial ofereceu plena assistência a elites corruptas, que puseram em prática este modelo de desenvolvimento, de cima para baixo. O Estado nas sociedades pós-coloniais tem sido um mero aparelho repressivo – há quem lhe chame deep state; eu prefiro chamar-lhe ‘security state’.”

Foi contra este “Estado de segurança”, e não apenas contra Bouteflika, que os argelinos se revoltaram depois de, em 10 de Fevereiro, o quase invisível chefe de Estado ter anunciado que se candidatava às presidenciais de 18 de Abril.

“Claro que já não tenho a mesma força física de outrora […], mas a vontade inquebrantável de servir a pátria nunca me abandonou”, informou Bouteflika, debilitado por um AVC e um cancro no estômago, há anos imobilizado numa cadeira de rodas, a maior parte do tempo internado no estrangeiro, as funções oficiais delegadas a um círculo restrito.

Na sexta-feira, 22 de Fevereiro, em resposta a apelos anónimos nas redes sociais, e apesar de as manifestações estarem proibidas desde 2001 na capital, dezenas de milhares de argelinos saíram à rua. Não apenas em Argel, mas por todo o país, protestando pacificamente contra uma “humilhação nacional”.

A 3 de Março, um dia depois de festejar 83 anos numa clínica em Genebra, Bouteflika insistiu em apresentar a sua candidatura ao Conselho Constitucional. Na mesma noite, porém, numa carta lida na televisão nacional, prometeu que, caso fosse eleito, não cumpriria o novo mandato até ao fim e anteciparia eleições.

Enganou-se se esperava silenciar os manifestantes. E teve outra surpresa ao regressar à pátria, no dia 10, após mais duas semanas de ausência: o chefe de Estado-Maior do Exército, Ahmed Gaïd Salah, por ele nomeado, declarou-se “orgulhoso de pertencer a [este] povo autêntico e de partilhar os mesmos valores e princípios.”

No dia 11, o presidente desistiu do quinto mandato e adiou as eleições sine die. Os manifestantes regozijaram, mas recusaram o que pressentiram como “o prolongamento do quarto mandato”, e mantiveram a pressão. Em privado e em público, o general Salah exigiu a demissão do chefe de Estado. Em 2 de Abril, o homem por todos conhecido por Boutef saiu de cena. No dia 4, numa carta de despedida, pediu desculpa aos compatriotas por ter falhado o seu dever.

Os chefes do poderoso exército deixaram cair Bouteflika, esperando assim preservar o regime, mas os manifestantes em Argel exigem um poder civil
© Associated Press (AP)

Ao abrigo do Artigo 102 da Constituição, o presidente da Câmara Alta do Parlamento, Abdelkader Bensalah, foi nomeado presidente interino durante 90 dias, até um próximo escrutínio agendado para 14 de Julho. Mas estas medidas não acalmaram a efervescência nas ruas, onde se erguem cartazes e gritam slogans exigindo novos líderes, eleições sem fraudes e um Estado de direito.

No dia 17, demitiu-se Tayeb Belaiz, presidente do conselho constitucional – um dos “3B” protegidos por Bouteflika (os outros são Bensalah e o primeiro-ministro, Noureddine Bedoui) cujo afastamento é exigido pelos manifestantes. E assim continua o impasse.

O Exército esforça-se por não ser excluído para proteger os seus interesses, mas os argelinos não parecem dispostos a aceitá-lo como interlocutor legítimo. Aprenderam com os erros cometidos no Egipto, no Iémen, na Líbia e na Síria (ver texto “Arábia Infeliz”).

“A questão crucial é o que irá acontecer no futuro imediato”, salienta Rachid Tlemçani. “Ninguém sabe. Sabemos apenas que esta revolução pacífica, liderada por jovens [45% da população tem menos de 25 anos], homens e mulheres, reclama uma mudança profunda do regime: Sistème degage! Mas não podemos descartar, teoricamente falando, o risco de a Argélia se tornar um novo Egipto.”

“O Exército e o establishment político querem uma mudança cosmética, a purga de apenas algumas personalidades corruptas e visíveis. Mas a Argélia insiste em empurrar o Exército para os quartéis. Enquanto os exércitos no Médio Oriente e Norte de África se envolverem na política, as sociedades não terão garantias de liberdade e democracia.”

Um vídeo de Alaa Salah, estudante de engenharia e arquitectura, 22 anos, cantando a revolução (thawra) sudanesa perante uma multidão, em Cartum, foi visto por milhões de pessoas no Twitter
© Lana Haroun | The Independent

Como evitar o cenário egípcio é também o dilema do Sudão, onde milhares de manifestantes pacíficos forçaram o exército a derrubar Omar al-Bashir – o único presidente que, em exercício, foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de genocídio, crimes de guerra e contra a Humanidade.

Tal como os argelinos, os sudaneses continuam vigilantes nas ruas e praças, exigindo o fim do regime e não apenas do déspota que os governou durante três décadas.

Além de Bashir, de 75 anos, afastado em 11 de Abril, a pressão popular forçou igualmente a demissão de Awad Ibn Auf, ministro da Defesa e mentor do golpe, no dia 12; e de Salah Abdallah Gosh, que comandava o odiado Serviço de Segurança e Informação Nacional (NISS), no dia 13.

O novo “homem forte” é agora outro general, Abdel Fattah Abdelrahman Burhan, 60 anos, que sobe na hierarquia, aparentemente, graças ao apoio das Forças de Apoio Rápido (RSF). Este grupo paramilitar é visto como “a nova face” das antigas milícias Janjaweed, que cometeram atrocidades em massa no Darfur.

Segundo a ONU, ali foram mortas quase 400 mil pessoas e 2,7 milhões deslocadas depois de rebeldes negros se terem insurgido, em 2003, contra o governo de maioria árabe em Cartum, acusando-o de discriminação, política e económica.

Não admira que os manifestantes não baixem a guarda, apesar do tom conciliatório de Burhan e de algumas concessões que já fez: a libertação de centenas de prisioneiros políticos, a prisão de ex-dirigentes ou a transferência de Bashir para uma penitenciária de alta segurança onde ele encarcerava os inimigos.

Em 21 de Abril, a Associação dos Profissionais Sudaneses (SPA) – médicos, professores, engenheiros, advogados e outras classes –, que organiza os protestos desde 2018, suspendeu os contactos com o Conselho Militar chefiado por Burhan.

Acusa-o de integrar “os restos” do regime de Bashir e de não responder às reivindicações de uma transferência imediata de poder para um governo civil durante um período de transição de quatro anos. E enquanto os militares apelaram ao “regresso à vida normal”, a SPA exortou a “uma escalada” das manifestações.

Burhan, por seu turno, prometeu responder aos manifestantes no prazo de uma semana, depois de conhecer os nomes propostos para um “conselho civil com um representante militar”.

Omar al-Bashir, um ditador intocável durante três décadas
© Mohamed Nureldin Abdallah | Reuters

A grande vitória da SPA até agora foi a queda de um homem que se julgava intocável. Nascido em 1944 numa família de camponeses, em Hosh Wad Banaqa, quando o norte árido e desértico fazia parte do Reino do Egipto e do Sudão, Omar al-Bashir muito jovem sentiu o apelo da vida militar. Formado numa academia no Cairo, combateu na segunda guerra israelo-árabe de 1973.

Em 1981, de regresso a Cartum, foi promovido a comandante de um regimento de pára-quedistas, assumindo um papel central na guerra contra os rebeldes cristãos e animistas do Exército de Libertação do Povo do Sudão, de John Garang, no sul.

Em 1989, com a patente de coronel, Bashir liderou o golpe que derrubou Sadiq al-Mahdi, o primeiro chefe de um governo democraticamente eleito. Aliado de Hassan al-Turabi, líder da Frente Islâmica Nacional, dissolveu o Parlamento, ilegalizou os partidos políticos, prendeu opositores e introduziu a Sharia (lei islâmica).

Em 1993, aboliu a junta que chefiava e autoproclamou-se presidente. Três anos depois, concorrendo sozinho, venceu eleições com “75,7%” dos votos, mas só em 1999 é que restabeleceu o multipartidarismo e cortou relações com Turabi.

Foi sempre uma figura controversa. Deu refúgio aos terroristas Abu Nidal, Carlos, o Chacal, e Osama bin Laden. Apoiou Saddam Hussein na invasão iraquiana do Kuwait e os rebeldes que derrubaram Muammar Kadhafi na Líbia. Foi dos primeiros a reabilitar Bashar al-Assad na Síria.

“Não tem medo do TPI [que emitiu contra ele dois mandados de captura em 2009 e 2010]?”, perguntou-lhe um jornalista em 2015, o ano em que foi reeleito com “95%” dos votos. “Só tenho medo de Deus”, foi a resposta do fugitivo.

Tal como na Argélia, também no Sudão os militares foram rápidos a deixar cair Omar al-Bashir, mas, face à persistência dos manifestantes, que não desistem de um governo civil, o exército e a sua temível milícia Janjaweed decidiram reprimir os manifestantes pacíficos
© Sky News

A revolução que selou o destino de Bashir começou com protestos estudantis em 2011 – o ano das “primaveras árabes”, mas sobretudo o ano em que o Sul do Sudão se tornou Estado independente, levando consigo ¾ dos campos petrolíferos que sustentavam o vizinho norte, o maior país de África antes da secessão.

A partir de Setembro de 2013, quando Cartum extinguiu os subsídios ao diesel e ao gás doméstico, o país irrompeu em motins contra uma acentuada subida de preços.

“Nessa altura, o uso da força foi imediato e maciço”, recorda, em entrevista por telefone,  o académico americano Eric Reeves, que há quase duas décadas estuda e analisa o Sudão. “Mais de 200 pessoas foram mortas. Segundo a Amnistia Internacional, Bashir deu ordens para atirar a matar.”

“Em 2016 [durante uma campanha de desobediência civil e greves contra aumentos de preços dos combustíveis, da luz e de medicamentos], Bashir recorreu aos mesmos métodos”, acrescenta Reeves. “Mas, em Dezembro de 2018 [quando o preço do pão triplicou], a fúria do povo superou o medo da repressão, dos espancamentos, das detenções, da tortura”.

Apesar de os EUA terem levantado as sanções em 2017, “a economia sudanesa está à beira do colapso”, constata o autor de A Long Day’s Dying: Critical Moments in the Darfur Genocide e Compromising with Evil: An archival history of greater Sudan, 20007-2012.

“A inflação está altíssima, assim como o desemprego. Diminuíram as reservas de moeda estrangeira. Não há capacidade para importar quantidade suficiente de trigo para fazer farinha e pão, para importar óleo alimentar ou medicamentos. A vida tornou-se impossível para os menos afortunados.”

Pneus a arder depois de forças militares terem dispersado um sit-in junto ao quartel-general do Exército, em Cartum, a capital, onde pelo menos cem pessoas foram mortas, em Junho
© VOA

Reeves, senior fellow no François-Xavier Bagnoud Center for Health and Human Rights da Universidade de Harvard, está convencido de que Bashir “foi o bode expiatório de um golpe palaciano”.

Não confia nos militares, que “consomem 70% do orçamento de Estado”, mas tem esperança que, num país onde 2/3 da população tem menos de 30 anos, a SPA sairá triunfante do “mais importante acontecimento político da história pós-colonial sudanesa”.

Outros analistas mostram-se menos optimistas, depois de verem as reacções de Abu Dhabi e Riade (que prometeram 3000 milhões de dólares) e do Cairo, céleres a declarar apoio a Burhan, que esperam venha a salvaguardar os seus interesses no Corno de África.

Bashir era um negociador hábil. Afastou-se da Al-Qaeda para se aproximar da América. Tinha boas relações com o Egipto de Abdel Fattah El Sisi e com o nemésis deste, a Irmandade Muçulmana, financiada pelo Qatar. Cortou laços com o Irão para receber fundos dos sauditas, rivais de Teerão, em troca do envio de centenas de soldados sudaneses para a guerra do Iémen.

Sauditas e emiratis “concluíram que, no Sudão e na Argélia, “a mudança tornou-se inevitável, mas querem que a transferência de poder seja supervisionada pelos militares”, conclui Mustafa Alani, do Gulf Research Center, citado pelo diário libanês L’Orient-Le Jour.

Burhan, tal como Haftar na Líbia (ver segundo texto), é visto como um novo Sisi – o sucessor de Mubarak que também recebeu milhões de emiratis e sauditas para abortar as aspirações revolucionárias dos egípcios.

[Em 2 de Agosto, depois de prolongadas negociações entre o Conselho Militar e a Aliança para a Liberdade e a Mudança que liderava os protestos contra os generais que ocuparam o lugar de Bashir chegaram a um acordo com vista a um governo de transição, anunciou a União Africana.]

Do coronel Kadhafi ao marechal Haftar

Enquanto argelinos e sudaneses fazem cair déspotas, os líbios temem o advento de outra ditadura que ameaça transformar o seu país num “Iémen do Mediterrâneo”.

Um líbio em Benghazi exibe a fotografia de Khalifa Haftar, o autoproclamado “marechal de campo” que procura, com apoio da Arábia Saudita e dos Emirados, conquistar Trípoli
© Esam Omran Al-Fetori | Reuters

As Nações Unidas esperavam que, depois de anos de conflito e anarquia desde a queda de Muammar Kadhafi, os senhores da guerra na Líbia estariam dispostos a negociar uma partilha de poder e a unificar o país.

Uma conferência nacional estava marcada para 14 de Abril, mas foi indefinidamente adiada quando, no dia 5, Khalifa Haftar, o “homem forte” em Cirenaica (leste) e Fezã (sul) decidiu avançar sobre Trípoli, a capital, na Tripolitânia (oeste).

O seu objectivo declarado é derrubar o primeiro-ministro Fayez al-Sarraj, do Governo do Acordo Nacional (GAN), até agora reconhecido pela maior parte da comunidade internacional.

Haftar diz que quer “livrar a Líbia dos extremistas”, mas o enviado especial da ONU, Ghassan Salamé, prefere qualificar a ofensiva em curso de “golpe de Estado”.

Muitos desconfiam que o objectivo primordial do general de 75 anos que se promoveu a “marechal de campo” é tornar-se no próximo Kadhafi. Ele próprio deixou claro que “a Líbia não está preparada para ser uma democracia”.

[À hora a que este artigo foi paginado] Haftar ainda não entrara em Trípoli – porque milícias aliadas de Sarraj mobilizaram combatentes e equipamento noutras cidades e, numa feroz resistência, forçaram o recuo do autoproclamado Exército Nacional Líbio (ENL).

Em 21 de Abril, violentos combates, ataques aéreos e, pela primeira vez, aparentemente, drones armados já tinham causado 227 mortos, 1228 feridos e mais de 20 mil deslocados, segundo estimativas da ONU.

“A guerra em Trípoli entrou oficialmente numa fase mais perigosa, e tornou-se um ataque por parte de uma potência invasora – os Emirados Árabes Unidos [que têm uma base de drones em Al Khadim, a sul da cidade]”, critica Anas El Gomati, director do think tank líbio Sadeq Institute, citado pelo diário britânico The Guardian. “A Líbia está à beira de se tornar num Iémen no Mediterrâneo.”

O “marechal” Haftar, que já controla os campos de petróleo líbios, precisa das instituições financeiras na capital para continuar a comprar a lealdade dos vários e imprevisíveis grupos armados que compõem o seu exército
© Bloomberg

Haftar, reconhecido como líder por um parlamento/governo rival do GAN em Tobruk (leste), conta com o apoio não apenas dos Emirados, mas também da Arábia Saudita, do Egipto, da França, da Rússia e agora, aparentemente, de Donald Trump, que de súbito mudou a política dos EUA para a Líbia. Deixou de condenar a campanha unilateral do homem que foi cúmplice de Kadhafi e cliente da CIA para dar luz verde ao que designa por “batalha contra o terrorismo.”

A decisão de Trump, depois de Washington e Moscovo terem chumbado uma proposta de cessar-fogo no Conselho de Segurança das Nações Unidas, surpreendeu analistas regionais.

Porque as forças de Haftar, que prometeram uma “vitória rápida e decisiva”, não só têm vindo a perder terreno como dificilmente conseguirão obter legitimidade e impor a sua autoridade na capital.

[Em Junho, a política da Administração Trump em relação à Líbia terá voltado a mudar, desta vez para marginalizar Haftar.]

Em Trípoli, um dos alvos do ENL é o Banco Central, nas mãos de um cartel de milicianos que impõem a sua própria versão da lei e ordem e enriquecem de forma ilícita.

Haftar, que já controla os campos de petróleo líbios, precisa das instituições financeiras na capital para continuar a comprar a lealdade dos vários e imprevisíveis grupos armados que compõem o seu exército.

A guerra de Haftar é também uma contenda entre os islamistas da Irmandade Muçulmana, que supostamente apoia Sarraj através do Qatar e da Turquia, e os salafistas seguidores do xeque saudita Rabi’ bin Hadi al-Madkhali, por sua vez abençoados por Riad, Abu Dhabi e Cairo.

Um dos princípios fundamentais do madkhalismo é obedecer cegamente a qualquer líder muçulmano por mais injusto e cruel que seja.

Os madkhalistas, que se opuseram à queda de Kadhafi, recusam eleições e qualquer participação política, alegando que “isso dá primazia ao indivíduo sobre Deus” – o contrário do que defende a confraria que sauditas, emiratis e egípcios vêem como obstáculo aos seus interesses regionais.

No leste da Líbia, os madkhalistas apoiam devotamente Haftar, não apenas com fatwas [éditos religiosos] a seu favor, mas integrando brigadas do ENL. A sua motivação nada tem a ver com o movimento reformista, secular e democrático na Argélia e no Sudão.

Arábia infeliz

Todos os ditadores nesta foto de 2010 foram afastados do poder ou mortos: Muammar Kadhafi (centro), Ali Abdullah Saleh (2º à esq.), Hosni Mubarak (à dir.) e Zine El Abidine Ben Ali (1º à es.q)
© Khaled Desouki | AFP | Getty Images

O Egipto trocou um ditador, Hosni Mubarak, por outro, Abdel Fattah El Sisi. No Bahrain, a família Al Khalifa continua a reinar, com protecção saudita. No Iémen, Abdullah Saleh foi morto e o país morre numa guerra invencível. Na Síria, o tirano Bashar al-Assad recuperou o controlo graças a russos e iranianos. Que “primavera” foi esta?

De origem europeia, o termo “Primavera Árabe” evoca a “Primavera dos Povos” de 1848, a vaga de revoluções que derrubou regimes de França à Suíça, de Itália à Alemanha; a “Primavera de Praga” de 1968, que foi a luta contra o domínio de Moscovo sobre a Checoslováquia; ou a “Primavera da Europa de Leste” de 1989, que fez cair um Estado (a URSS), um império (o Pacto de Varsóvia) e uma ideologia global (o comunismo soviético).

Muitos viram um paralelo entre estas sublevações e as revoltas populares de 2011 que levaram à queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, de Hosni Mubarak, no Egipto, de Muammar Kadhafi, na Líbia, e de Ali Abdullah Saleh, no Iémen. Muitos esperavam que os islamistas fossem marginalizados e que, numa era de novas tecnologias, o poder ficasse nas mãos de uma nova geração de democratas e seculares. Não foi isso o que aconteceu.

TUNÍSIA

A Tunísia foi o berço das revoluções árabes iniciadas em 2011. O primeiro presidente a cair foi Zine El Abidine Ben Ali
© New York review of Books

O mundo árabe incendiou-se quando, em 17 de Dezembro de 2010, o vendedor ambulante Tarek al-Tayeb Mohamed Bouazizi se imolou pelo fogo na cidade tunisina de Sidi Bouzid, incapaz de suportar humilhações diárias por parte de corruptas autoridades municipais.

No dia 29, os protestos na Tunísia chegaram à vizinha Argélia. A 14 de Janeiro, quando Zine El Abidine Ben Ali, no poder desde 1987, foi obrigado a demitir-se e a fugir para a Arábia Saudita, começaram protestos na Jordânia. Seguiu-se Omã, no dia 17, o Egipto, no dia 25 e o Sudão no dia 30. No dia 12 de Fevereiro, foi a vez do Iraque, no dia 14, do Bahrain, no dia 19, do Kuwait, no dia 20 de Marrocos.

Oito anos depois da queda do ditador, a corrupção e o desemprego continuam o mal maior, mas a “Revolução de Jasmim” ofereceu à Tunísia um certo grau de democracia. Realizaram-se duas eleições nacionais – em 2011 para a Assembleia Constituinte e em 2014 para o Parlamento e Presidente da República. A próxima será em Novembro.

Em 2012, muitos grupos seculares formaram um único partido, Nidaa Tounes, fundado por Beiji Caid Essebi, hoje com 92 anos. Em 2014, o Nidaa Tounes foi o partido mais votado; dois meses depois, Essebi tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito, para um cargo em grande medida protocolar.

Sem uma maioria clara, os secularistas e os “democratas muçulmanos” do Ennahda (eles recusam a etiqueta “islamistas”, porque, dizem, não encaixam na categoria do Daesh) formaram uma coligação que, devido a profundas divergências, em pouco tempo se transformou num governo minoritário, chefiado pelo primeiro-ministro, Youssef Chahed, um dissidente do Nidaa Tounes, que formou o seu Tahia Tounes.

A Freedom House reconhece que os tunisinos beneficiam agora de mais liberdades cívicas e direitos políticos. Numa escala em que 1 é o país mais livre e 7 o menos, a Tunísia saltou do lugar 6 para 2.5 em 2010. É o único país árabe que merece a classificação de “livre”.

A democracia não trouxe prosperidade e os protestos, contra a austeridade ou a falta de trabalho, são frequentes e ruidosos. O desespero e a frustração continuam a crescer.

Nas últimas eleições municipais, em 2018, apenas um terço do eleitorado foi às urnas – uma descida de 60% em relação a 2014. E os candidatos independentes ganharam mais votos do que qualquer partido, um sinal de alarme.

EGIPTO

Hosni Mubarak, no Egipto, foi o segundo ditador a cair, mas a revolução foi sequestrada pelos militares quando Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmaa, chegou à presidência
© johnminchillo.com

Hosni Mubarak, tal como Ben Ali, não mais voltou ao poder que ocupou durante três décadas, depois da sublevação que obrigou o exército a afastá-lo em 10 de Fevereiro de 2011. Mas o que hoje vigora no Egipto não é a democracia pela qual clamavam milhares de manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo, mas o “regime contra-revolucionário” de Abdel Fatah El Sisi, que acaba de obter licença do Parlamento para se manter no poder até 2030.

Depois de Mubarak, os egípcios tiveram um presidente democraticamente eleito (em 2012, com 52% dos votos), Mohammed Morsi, dirigente da Irmandade Muçulmana. Em Julho de 2013, depois de um mês de protestos nas ruas contra a má governação de Morsi, este foi destituído e preso pelo exército comandado por Sisi.

Em Agosto, centenas de apoiantes do presidente deposto concentrados em dois acampamentos no Cairo foram mortos a tiro por forças de segurança no que organizações de direitos humanos classificam como “o pior massacre da história moderna do Egipto”.

Desde que assumiu o lugar de Morsi que tem sido este o método de Sisi. Não tolera a mínima crítica. São proibidas manifestações. Centenas de websites foram bloqueados. Quase todos os media independentes foram silenciados. Jornalistas, bloggers e académicos têm sido detidos.

A ONU acusa Sisi de usar leis antiterroristas para deter activistas que lutam pelos direitos das mulheres ou fazem campanha contra a tortura e as execuções extrajudiciais. Haverá no país “dezenas de milhares” de prisioneiros políticos.

O regime justifica estas medidas com “a necessidade de restaurar a estabilidade e de combater a insurreição” islamista ligada ao Daesh na península do Sinai.

IÉMEN

A “primavera” do Iémen rapidamente se tornou um inverno rigoroso – uma guerra invencível onde crianças são usadas como soldados pelos dois campos beligerante
© Sebastiano Tomada | Getty Images | Rolling Stone

Ao contrário do que aconteceu noutros países árabes, no Iémen “foram divisões e rivalidades entre elites políticas da poderosa confederação tribal Hashid que moldaram a trajectória da revolta”, dizem os autores de “Revolution Suspended”, um dos capítulos do livro The New Middle East, coordenado por Fawaz A. Gerges.

Em 2011, os rivais do presidente, Ali Abdullah Saleh, “juntaram-se ao movimento de protesto popular e assumiram o seu controlo”. Contestado desde Janeiro, Saleh aceitou, em Novembro, assinar um acordo de transição, negociado pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que o obrigou a ceder três décadas de poder ao seu adjunto, Abd-Rabbu Mansur Hadi, em troca de imunidade.

Isto permitiu que, “em alguns aspectos, o velho regime se mantivesse”. Mansour Hadi deveria ser chefe de Estado interino até à realização de eleições, mas teve de enfrentar um crescendo de ataques da Al-Qaeda, um movimento separatista no sul, corrupção, desemprego e escassez alimentar num país que já era o mais pobre do Médio Oriente.

Aproveitando-se da fraqueza do novo presidente, o movimento Houthi, que defende a minoria xiita zaidita do Iémen e já várias vezes se rebelara contra Saleh, conquistou a província de Saada, no norte.

Muitos iemenitas, incluindo sunitas e responsáveis militares leais a Saleh, desiludidos com a transição que os marginalizava, apoiaram os Houthi quando eles atacaram Sanaa, em 2014, e avançaram sobre Áden, em 2015, obrigando Hadi a fugir do país.

Alarmados com a ascensão dos Houthis, uma milícia xiita com ligações ao Irão e ao Hezbollah libanês, a Arábia Saudita e outros oito Estados árabes – com apoio logístico de Washington, Londres e Paris – lançaram uma campanha de bombardeamentos aéreos para que Hadi retomasse o poder. Mas ele continua exilado e o seu governo reinstalado em Áden é incapaz de fornecer os serviços mais básicos à população.

Os Houthis continuam em Sanaa (onde assassinaram Ali Abdullah Saleh em 2017) e mantêm o cerco à cidade de Taiz, de onde lançam mísseis contra território saudita.

Uma guerra que deveria “durar algumas semanas” prolonga-se, invencível, desde há quatro anos na antiga Arabia Felix, cobiçada pela sua localização estratégica. Situa-se num estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, por onde passa a maior parte dos fornecimentos mundiais de petróleo.

As estimativas da ONU apontam para mais de 7000 civis mortos e mais de 11 mil feridos desde 2015 – 65% causados pelos ataques dos sauditas e aliados. Os números recolhidos pelo grupo internacional Armed Conflict Location & Event Data Project, com sede nos Estados Unidos, são mais elevados: pelo menos 67.650 civis e combatentes mortos desde 2016.

Outros milhares de civis morreram de má nutrição e doenças. Cerca de 80% da população – 24 milhões – precisa de ajuda humanitária. Mais de 3,3 milhões são deslocados internos.

BAHRAIN

Um manifestante anti-governamental coloca uma flor no arame farpado na antiga Rotunda das Pérolas, em Manamá, onde começou a “primavera” do Bahrain, em Fevereiro de 2011
© John Moore | Getty Images

Há muito que a maioria xiita do Reino do Bahrain, pobre e discriminada pela minoria sunita no trono que a considera “uma quinta coluna do Irão”, reclamava mais direitos. Mas só em 2011 é que as suas reivindicações ganharam dimensão nacional.

Em Fevereiro, os manifestantes começaram por pedir um Parlamento eleito e uma nova Constituição. Quando alguns deles foram mortos, dezenas de milhares concentraram-se na (entretanto demolida) Rotunda da Pérola, em Manamá, a capital, para exigir o afastamento da família real.

Em Março, o rei Hamad Al Khalifa pediu ajuda à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, que enviaram cerca de 1500 militares para salvar uma dinastia que existe há 200 anos (desde que a tribo Utub migrou do Najd para o Kuwait no início do século XVIII).

Foi uma intervenção apoiada pelos EUA, que têm neste país a sua Quinta Esquadra. A sublevação foi duramente reprimida: milhares de pessoas foram detidas e torturadas. Pelo menos 50 terão sido mortas.

SÍRIA

Manifestantes numa marcha de protesto contra o regime de Bashar al-Assad, na cidade de Aleppo, Síria, erguem a velha bandeira nacional (verde, branca, preta e vermelha) que se tornou num símbolo de oposição ao regime
© Aaamir Qureshi | AFP | Getty Images

Em 31 de Janeiro de 2011, numa entrevista ao Wall Street Journal, o presidente Bashar al-Assad dizia-se convencido de que a onda de protestos na Tunísia não chegaria ao seu país. “Enfrentamos circunstâncias mais difíceis do que a maioria dos Estados árabes, mas a Síria é estável.”

Excesso de confiança: No dia 6 de Março, um grupo de rapazes foi preso em Deraa, por grafitar os muros da cidade com os slogans revolucionários gritados na Praça Tahrir no Cairo. Seria o “momento Mohamed Bouazizi sírio”, como anota Christopher Phillips no seu livro The Battle for Syria.

No final do mês, milhares de sírios enchiam as ruas de várias cidades, primeiro exigindo reformas e, depois, a queda do regime, quando este optou por uma brutal repressão e não pelo diálogo.

“A revolução síria não era liderada por um partido de vanguarda nem estava sujeita a um controlo centralizado”, lê-se em Burning Country, uma obra fundamental de Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami. “Não se cindiu, porque nunca foi monolítica. Começou nas ruas entre pessoas de diferentes origens.”

Nas primeiras semanas desta revolução, foram criados em bairros, aldeias e cidades Comités de Coordenação Locais (CCL) ou tanseeqiyat, que organizavam actos de desobediência civil, considerando que a resistência armada ou uma intervenção militar estrangeira “seria inaceitável política, nacional e etnicamente.”

O objetivo dos CCL não era apenas a queda de um sistema injusto, mas a liberdade de todos os sírios. Se Assad – que em 2002, quando sucedeu ao pai, alimentara a esperança vã de uma “Primavera de Damasco” – fosse derrubado pela força, alegavam os comités, “seria virtualmente impossível estabelecer as bases legítimas” de um país democrático. Não foi esta a posição que prevaleceu.

Seguiu-se uma guerra civil, um conflito sectário que se tornou no maior desastre humano do século XXI. Exacerbado pela minoria alauita no poder, criou as condições para a emergência do terror sunita salafista e abriu a porta a seis protagonistas externos, todos defendendo diferentes agendas (Rússia, EUA, Irão, Arábia Saudita, Turquia, Qatar).

Quase meio milhão de sírios foram mortos e quase dois milhões feridos. Mais de 5,6 milhões são refugiados e outros 6,2 milhões são deslocados internos – metade dos quais são crianças. No final de 2013, segundo a ONU, o desenvolvimento humano na Síria regredira quatro décadas.

Dois anos depois, metade dos hospitais públicos estavam encerrados, menos de metade das crianças frequentava a escola e mais de 80% dos sírios viviam na pobreza. A esperança média de vida baixou de 70 para 55 em quatro anos. Quase 12 milhões de sírios precisam de assistência, ou seja 65% dos que permanecem no país.

Graças a Moscovo e a Teerão, Assad recuperou o controlo de 60% do país. Países que antes exigiam a sua demissão como condição prévia para a paz, reconstrução e reconciliação mostram-se agora receptivos a reabilitá-lo.

Mas os sírios, animados pelas sublevações na Argélia e no Sudão, continuam a acreditar que Bashar terá o mesmo destino de Bouteflika e Bashir. Em Abril, manifestantes voltaram às ruas, sobretudo em Deraa, berço da revolução, e em Ghouta Oriental.

Autocratas em queda

Em África e no Médio Oriente, 2/3 dos líderes nacionais que perderam o poder, entre 1960 e 1980, foram derrubados ou morreram de causas naturais, mas desde então a maioria tem saído de cena porque perde eleições ou não se recandidata. Esta é a conclusão de um estudo realizado por investigadores da Universidade de Rochester (Nova Iorque), citados pela revista britânica The Economist. Há agora maior esperança de transições democráticas.

OS QUE PARTIRAM…

Zine El Abidine Ben Ali – TUNÍSIA Presidente durante 24 anos. Ascendeu ao poder, em Novembro de 1987, com um golpe palaciano que afastou o líder da independência Habib Bourguiba. Foi derrubado em Janeiro de 2011 na primeira revolta das “primaveras árabes”.

Hosni Mubarak- EGIPTO Presidente durante três décadas. Em 1981, sucedeu a Anwar El Sadat. Em 2011, ano o exército deixou-o cair, pressionado por uma sublevação popular inspirada na revolta tunisina.

Abdoulaye Wade – SENEGAL Presidente de 2000 até 2012, ano em que foi impedido de se candidatar a um terceiro mandato. Aos 91 anos, ainda concorreu às eleições legislativas de 2017 e ganhou um lugar (que não ocupou) no Parlamento.

Blaise Campaoré – BURKINA FASO Presidente do antigo Alto Volta durante 27 anos, chefiou os golpistas que assassinaram o herói nacionalista Thomas Sankara em 1987. Clamou vitória nas eleições de 1991, 1998, 2005 e 2010, mas quando tentou rever a Constituição para, em 2014, obter novo mandato, o povo rebelou-se obrigando-o a demitir-se.

Yahya Jammeh – GÂMBIA Presidente da Gâmbia durante 23 anos, de 1994 até 2017. Perdeu as eleições em 2016, mas só deixou o poder depois de forçado pela União Africana e pela ONU, que se recusaram a reconhecê-lo.

Robert Mugabe- ZIMBABWE Presidente de 1987 a 2017, foi forçado pelo exército e pelo seu partido, ZANU-PF, a pôr fim a 40 anos de poder, quando preparava a mulher, Grace, para ser a sua herdeira. O sucessor, Emmerson Mnangagwa, prometeu uma “era de democracia”, mas em Janeiro deste ano o país viveu os piores abusos de direitos humanos desde há uma década. Soldados foram acusados de raptos, violações, assassínios, depois de protestos organizados por sindicatos contra o aumento do preço dos combustíveis. O seu regime assemelha-se cada vez mais ao do antecessor.

José Eduardo dos Santos – ANGOLA Presidente durante 38 anos, de 1979 até 2017 – a sua longevidade no poder só era ultrapassada por Teodoro Obiang, na Guiné Equatorial. Do seu legado, fica o fim da guerra civil, em 2002, mas também um país empobrecido apesar dos imensos recursos, que apenas beneficiaram os mais próximos do poder – sobretudo a família de “Zédu”.

Jacob Zuma – ÁFRICA DO SUL Presidente de 2009 até 2018, ano em que um crescendo de pressões, suspeitas de corrupção e uma moção de censura no Parlamento o forçaram a demitir-se.

Joseph Kabila – REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO Presidente da RDC (ex-Zaire) de 2001, quando sucedeu ao defunto pai, Laurent Désiré, até 2019. Terá manipulado as últimas eleições para que o sucessor fosse Felix Tshisekedi, o mais fraco líder da oposição. Continua a viver no palácio presidencial em Kinshasa, a capital, e mantém-se influente como senador vitalício.

Abdelaziz Bouteflika – ARGÉLIA Presidente de Argélia de 1999 até 2019, há muito que estava fisicamente incapacitado de governar. Quando tentou candidatar-se a um quinto mandato, o povo e o exército – que tudo controla – interromperam duas décadas de poder.

Omar al-Bashir – SUDÃO Presidente durante 30 anos, de 1989 a 2019, acusado de genocídio, crimes de guerra e contra a Humanidade, foi afastado num golpe militar depois de gigantescas manifestações populares.

… E OS QUE (AINDA) FICAM

Paul Biya – CAMARÕES Presidente desde 1982, este cristão francófono tem afastado todos os adversários desde que sucedeu a Ahmadou Ahidjo, um muçulmano que foi o primeiro chefe de Estado. Clama ter vencido as eleições de 1992, 1997, 2004, 2011 e 2018. Considerado “um dos mais brutais ditadores do mundo”, é suspeito de ter ordenado “um genocídio” (violações, assassínios, aldeias queimadas) na região separatista anglófona do sul dos Camarões.

Teodoro Obiang – GUINÉ EQUATORIAL Presidente desde 1979, ano em que, num golpe militar, derrubou e executou o tio, o primeiro chefe de Estado, Francisco Macías Nguema. Um ditador que exige ser venerado como um deus e governa por decreto um país rico em petróleo e gás, membro da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP), Obiang é acusado de corrupção e abuso de poder, incluindo raptos, prisões arbitrárias, tortura e assassínios extrajudiciais.

Yoweri Museveni – UGANDA Presidente desde 1986, é um antigo líder rebelde que ajudou a derrubar dois tiranos, Idi Amin (1971-79) e Milton Obote (1980-85), mas também se envolveu na guerra civil na RDC e em conflitos na região dos Grandes Lagos. De 74 anos, já vai no quinto mandato, após mudar as leis que obrigavam-se a retirar-se.

Idriss Déby – CHADE Presidente desde 1990, ano em que derrubou Hissène Habré (condenado a prisão perpétua, no Senegal, em 2016, por violações de direitos humanos, como a ordem para matar 40 mil pessoas). Déby tem sobrevivido a várias rebeliões. Reivindica vitórias eleitorais em 1996, 2001, 2006, 2011 e 2016, após ter mudado as leis a seu favor.

Denis Sassou-Nguesso – REPÚBLICA DO CONGO Presidente do Congo-Brazaville, primeiro num regime de partido único, de 1979 a 1992, e depois a partir de 1997, quando as suas forças rebeldes destituíram o primeiro chefe de Estado democraticamente eleito, Pascal Lissouba. Em 2016, depois de mudar a Constituição, ganhou um terceiro mandato. A sua governação está, alegadamente, envolvida em vários escândalos de corrupção.

Paul Kagamé – RUANDA Presidente desde 2000. Comandou a força rebelde que pôs fim ao genocídio ruandês em 1994. Reeleito em 2017, com “98,79%” dos votos, é um “ditador amigo” de governos ocidentais. Internamente, é visto como “um dos mais repressivos líderes africanos” – muitos dos seus críticos têm sido mortos ou desaparecem misteriosamente.

Faure Gnassingbé – TOGO Presidente desde 2005, sucedeu ao pai, Gnassingbé Eyadéma, que governou do golpe de 1967 até à morte. Faure conquistou um terceiro mandato nas eleições de Abril de 2015, que a União Europeia considerou fraudulentas. Uma coligação de partidos da oposição mobilizou protestos em massa. A repressão matou mais de mil manifestantes. Cerca de 40 mil pessoas fugiram para o Benim e o Gana.

Isaias Afwerki – ERITREIA Primeiro presidente após a independência que pôs fim a 30 anos de guerra, em 1993. É líder do partido único (Frente Popular para a Justiça e Democracia) e de um regime acusado pela ONU de “sistemáticas violações dos direitos humanos que podem configurar crimes contra a Humanidade”. A Amnistia Internacional estima em mais de 10 mil o número de presos políticos no país.

Ismaïl Omar Guelleh – DJIBOUTI Presidente desde 1999, era chefe dos serviços secretos quando foi escolhido para suceder ao tio Hassan Gouled Aptidon, o primeiro chefe de Estado pós-independência em 1977. Guelleh foi reeleito em 2005, em 2011 (depois de mudar a Constituição para conseguir um terceiro mandato e apesar de gigantescos protestos populares) e em 2016.

Mohamed Ould Abdel Aziz – MAURITÂNIA Presidente desde 2009, ajudou a derrubar dois chefes de Estado, Maaouya Ould Sid’Ahmed Abdallahi, em 2005, e Sidi Ould Cheikh Abdallahi, em 2008. Em 2012, este aliado do Ocidente contra a Al-Qaeda teve de ser hospitalizado depois do que uns dizem ter sido uma tentativa de assassínio. Ele alega que soldado o alvejaram num “acidente”. Em 2014, foi eleito para um segundo mandato de cinco anos. Em 2017, impôs um referendo para abolir o “inútil” Senado e, segundo a oposição, perpetuar o seu poder.

Pierre Nkurunziza – BURUNDI Presidente desde 2005, está a cumprir um terceiro mandato que expira em 2020. A sua candidatura às eleições 2015 gerou protestos que duraram dois meses. A repressão por parte das forças de segurança causou pelo menos cem mortos. Em 15 de Maio, fracassou um golpe quando ele estava no estrangeiro. Foi eleito em Julho, o que levou muitos opositores a fugir do país, juntando-se a um êxodo de mais de 400 mil burundianos.

Ali Bongo – GABÃO Presidente desde 2009, sucedeu ao pai, Omar Bongo, que governou durante 41 anos, de 1967 até à morte. Ali renovou o mandato em Agosto de 2016, após eleições fraudulentas. Em Outubro de 2018, sofreu um AVC na Arábia Saudita. Em 7 de Janeiro deste ano, oficiais militares tentaram derrubá-lo, enquanto ele convalescia em Marrocos. O golpe falhou e o governo em Libreville mantém-se em funções.

Azali Assoumani – COMORES Presidente da República Federal Islâmica das Comores – um arquipélago no extremo norte do canal de Moçambique em que a chefia do Estado é assumida rotativamente pelos líderes das três principais ilhas –, chegou ao poder pela primeira vez em 1999 num golpe de Estado. Ganhou eleições em 2002, 2016 e 2019 – estas últimas consideradas fraudulentas por vários observadores africanos. O último escrutínio gerou uma grave crise política, com tiroteio em Moroni, a capital, em Março último, na sequência da ordem de prisão do chefe da oposição, Soilihi Mohamed, que recusou reconhecer a reeleição do presidente.

Mswati III – eSWATINI Rei da antiga Suazilândia, foi coroado em 1986, quando tinha 18 anos – tem agora 50. Governa como monarca absoluto. Com 15 mulheres (o pai teve 70), 23 filhos e 210 irmãos, o seu reinado tem sido caracterizado por “corrupção, luxo, excentricidade”, o que deixa o país “à beira do desastre económico”. É também criticado por abusos de direitos humanos como “raptos, prisões arbitrárias, tortura, expropriação de bens, restrições à liberdade de expressão e associação, ataques à comunidade LGBT, líderes sindicais e activistas contra o trabalho infantil.”

Rachid Tlemçani, professor de Ciência Política na Universidade de Argel
© lematindalgerie.com

Dalia Ghanem-Yazbeck, analista no Carnegie Middle East Center em Beirute, Líbano 
© Juan Luis Rod | elperiodico.com

Eric Reeves, autor de A Long Day’s Dying: Critical Moments in the Darfur Genocide e Compromising with Evil: An archival history of greater Sudan, 20007-2012
© sudanreeves.org

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Maio de 2019 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, May 2019 edition

Nigéria: O gigante continua adormecido

Caos, violência e uma abstenção recorde marcaram as eleições gerais no país mais populoso de África e o que tem mais pobreza extrema em todo o mundo, apesar da riqueza petrolífera. O presidente, Muhammad Buhari, ganhou um segundo mandato para governar uma nação ferida por múltiplos conflitos étnicos e religiosos, corrupção crónica e exclusão de milhões de jovens. (Ler mais | Read more...)

“Se olharmos para o padrão de voto, os estados de maioria cristã no sul e no leste [com apenas 20% de afluência às urnas] rejeitaram Buhari e preferiram Atiku” – que é do norte, muçulmano e da etnia fulani, tal como Buhari”, diz o analista nigeriano Jideofor Adibe
© UNDP Nigeria

A primeira esperança de Jideofor Adibe quando Muhammad Buhari tomar posse como presidente da Nigéria, em 29 de Maio, é que não perca tempo a formar governo. No início do primeiro mandato, em 2015, demorou seis meses, com isso ganhando o epíteto de Baba-Go-Slow (“Pai Anda Devagar”).

“Se voltar a desperdiçar seis meses, o país entra novamente em recessão”, avisa, numa entrevista telefónica, o nigeriano Adibe, cientista político, académico, editor e um dos observadores das eleições gerais de Março.

“Estamos todos à espera de ver se, para o próximo governo, Buhari convidará tecnocratas competentes, e não apenas pessoas da sua confiança. Ele tem de empreender mudanças urgentes ou a sua tarefa será bem mais difícil.”

Para já, Buhari enfrenta uma batalha legal, pois a sua vitória, por quatro milhões de votos (dados oficiais), foi rejeitada pelo principal adversário, Atiku Abubakar, que garante ter recebido “quase dois milhões”.

É, apesar de tudo, um “sinal positivo”, anota Adibe, que o derrotado “tenha recorrido aos tribunais, e não à violência, para contestar os resultados”.

“A prioridade terá de ser a formação de um governo inclusivo, que não seja suspeito de favorecer os muçulmanos do norte”, onde a participação excedeu os 50%, sublinha Adibe, professor associado de Ciência Política na Nasarawa State University, em Keffi (Nigéria), fundador e director da prestigiada revista académica African Renaissance.

“Se olharmos para o padrão de voto, os estados de maioria cristã no sul e no leste [com apenas 20% de afluência às urnas] rejeitaram Buhari e preferiram Atiku” – que é do norte, muçulmano e da etnia fulani, tal como Buhari.

“Fosse quem fosse o vencedor, a sua missão seria sempre muito complicada”, admite Adibe. Num país rico e dependente do petróleo (é o maior produtor de África), mas que ultrapassou a Índia em pobreza extrema (87 milhões), “a corrupção endémica é um dos [nossos] maiores infortúnios, mas não bastará ao presidente continuar a fazer promessas de a combater.

“É imprescindível criar postos de trabalho, não apenas na agricultura, e abrir perspectivas de futuro aos jovens”, os mais afectados pelo desemprego (23,1%), sublinha Adibe.

“Sentindo-se excluídos, os jovens são facilmente atraídos para o banditismo ou recrutados por movimentos secessionistas e extremistas. A maior parte dos conflitos que assolam a Nigéria deve-se ao facto de o governo não ser inclusivo e haver um grande desespero económico. O presidente tem de mudar isto, em vez de estar sempre a culpar governantes anteriores.”

A luta implacável contra o Boko Haram, o grupo que, em 2014, raptou 276 meninas de uma escola em Chibok foi uma das promessas cumpridas por Muhammad Buhari
© CNN

A eleição do chefe de Estado, de 109 senadores e 360 deputados da Assembleia Nacional, no dia 23 de Fevereiro, “foi muito importante por várias razões – e uma delas por ter sido a primeira vez que votaram nigerianos nascidos após o fim do poder militar há 20 anos”, enaltece Idayat Hassan, directora em Abuja, a capital, do Center for Democracy and Development (CDD), que promove a democracia e o desenvolvimento na África Ocidental.

Embora só 35 milhões tivessem ido às urnas – a mais baixa taxa de participação desde que o país regressou a um governo civil em 1999, a advogada que coordenou o Movimento contra a Corrupção na Nigéria salienta a grandeza do escrutínio que faz do seu país um barómetro em África. “Foram as maiores eleições no continente, com mais de 84 milhões de eleitores inscritos”, destacou, em entrevista, por email

Para Idayat Hassan, “é significativo” que o “Gigante de África” esteja a viver “um dos mais longos períodos ininterruptos de democracia na sua história.” Quanto à abstenção recorde, justifica-a, em parte, com “o medo da violência e o medo de que os votos não contem”.

Foi também isso que constatou Jideofor Adibe, observador do Center for Development Research: “Muita gente ficou em casa porque, em 2015, houve imensas fraudes e centenas de mortos. Uma robusta presença policial e militar [sobretudo no sul] terá afastado eleitores.”

“Outros, desapontados com os resultados de há quatro anos, terão achado que qualquer voto seria em vão. E nem toda a gente estava disposta a esperar em longas filas.”

“Esta foi a 20ª tentativa de realizar eleições democráticas”, exulta Adibe. “Em alguns lugares, testemunhámos caos, confrontos e irregularidades. Mas, na maior parte do país, a votação até correu bem.”

É um veredicto que não parece aplicar-se à eleição de 29 dos 36 governadores – figuras poderosas que controlam orçamentos maiores do que os de alguns países africanos.

Em Lagos, por exemplo, com 17,5 milhões de habitantes, a população conjunta de Cabo Verde, Gabão, Gâmbia, Libéria e Serra Leoa, o PNB é maior do que o Quénia. No escrutínio de 9 de Março, a maioria dos observadores denunciou gravíssimas irregularidades.

O Congresso dos Progressistas (APC), de Buhari, ganhou em 13 estados. O Partido Popular Democrático (PDP), de Atiku, conquistou nove, sobretudo nas regiões petrolíferas do Delta do Níger, no sul e sudeste.

Nos restantes estados, em cinco dos quais o PDP estaria em vantagem, a comissão eleitoral declarou os resultados inconclusivos.

Atiku Abubakar, o líder do Partido Democrático Popular, não aceitou a derrota nas eleições presidenciais e recorreu aos tribunais
© Sunday Alamba | AP | VOX

A apatia dos eleitores poderá ser explicada pela personalidade do vencedor e do vencido. Numa nação onde cerca de 62% dos mais de 190 milhões de habitantes tem menos de 25 anos, Buhari tem 76 e Atiku 72.

O presidente reeleito é visto como incorruptível, mas alguns dos que o rodeiam têm a reputação manchada. Também o rival, que de um contentor portuário construiu um império nos setores do petróleo e distribuição, é suspeito de enriquecimento ilícito.

“É mais o que une Buhari e Atiku do que o que os distingue”, escreveu, no site do Council on Foreign Relations, John Campbell, antigo diplomata norte-americano em Abuja e co-autor do livro Nigeria: What the World Needs to Know.

“São da mesma geração, nascidos antes da independência e ambos procuram representar um país onde a média de idades é de 18 anos. Nenhum deles oferece ideias novas.”

O país já mudou as leis que impediam o acesso dos mais jovens à política, graças a uma dinâmica iniciativa nas redes sociais designada por #NotTooYoungToRun. Ainda assim, dos 23 mil candidatos às eleições de 23 de Fevereiro, só dez tinham menos de 40 anos.

Os maiores apoiantes de Buhari são os pobres do norte. Este general na reserva que, nos anos 1980, fez parte de um regime militar assume-se agora um “democrata renascido”.

Em 2015, beneficiou de uma vaga de deserções no PDP e andou pelo país com o símbolo do APC na mão – uma vassoura – prometendo “limpar” o país dos flagelos da corrupção e dos insurrectos islamistas do Boko Haram, entretanto transformado num “franchisado” do autoproclamado “estado islâmico” (Daesh).

Foi o primeiro candidato da oposição a derrotar um presidente incumbente, Goodluck Jonathan, cristão da etnia Ijaw.

Já foram mudadas as leis que impediam o acesso dos mais jovens à política, graças a uma dinâmica iniciativa nas redes sociais designada por #NotTooYoungToRun
© votenotfight.org

A luta implacável contra o grupo que, em 2014, raptou 276 meninas de uma escola em Chibok foi uma das promessas cumpridas por Buhari.

“O Boko Haram não foi erradicado, como assegura o presidente, mas está bastante enfraquecido”, graças a uma intervenção militar no nordeste, reconhece Jideofor Adibe.

Embora também tenha investido na agricultura e em infra-estruturas, Buhari foi, porém, incapaz de revitalizar a “maior economia de África”, e a sociedade permanece “muito desigual, com o fosso entre ricos e pobres a impedir o país de desenvolver o seu verdadeiro potencial”, avalia Idayat Hassan. “Isto é tão grave que alguns nigerianos se questionam sobre se a democracia é a solução”.

Os apoiantes de Buhari, pai de dez filhos para quem “o lugar da mulher é na cozinha”, deram-lhe o benefício da dúvida, indiferentes às críticas de que passou grande parte do primeiro mandato ausente, em tratamento numa clínica de Londres, e de que quem tem governado o país é o vice-presidente, Yemi Osimbajo.

Para Idayat Hassan, o maior desafio do presidente reeleito, num país com cerca de 250 grupos étnicos, será enfrentar a “situação de insegurança em cinco de seis zonas geopolíticas da Nigéria” – no nordeste, no centro e no sul.

Nigerianos deslocados internos depois de ataques islamistas às suas localidades fazem fila para se recensearem antes do voto, em Yola
© Sunday Alamba | AP

O conflito no nordeste, região que inclui seis estados – Adamawa, Bauchi, Borno, Gombe, Taraba e Yobe – é, provavelmente, o mais grave da última década. No reduto do Boko Haram, sete anos de ataques e confrontos com tropas federais causaram cerca de 20 mil mortes e 2,6 milhões de deslocados internos.

No centro-norte, onde se situam os estados de Benue, Kogi, Kwara, Nasarawa, Níger e Plateau, intensifica-se outro conflito, “complexo e multifacetado”.

Trata-se de “uma competição por terra e recursos, com ataques e contra-ataques de represália”, entre pastores muçulmanos da minoria fulani e agricultores cristãos, explicam Abul Azad, Emily Crawford e Heidi Kaila, autores do relatório Conflict and Violence in Nigeria.

À medida que aumenta a população da região, áreas que antes serviam para apascentar animais são agora usadas para cultivo. Por outro lado, alterações climáticas e a pressão do Boko Haram têm reduzido os terrenos de pasto, forçando os criadores de gado a seguir para sul.

E, no sul, que inclui os estados de Akwa Ibom, Bayelsa, Cross River, Delta, Edo e Rivers, onde a Nigéria explora o petróleo, as desigualdades entre populações locais e funcionários das petrolíferas, mas também e a degradação ambiental causada por derrames de crude, alimentam igualmente fortes tensões étnicas e políticas.

No sudeste, o maior elemento de instabilidade é o legado não resolvido da guerra do Biafra (1967-1970) de que resultou um milhão de mortos.

Ressentido com a falta de oportunidades, o povo igbo, predominantemente cristão, retomou em 2015 os apelos à autonomia, através de um novo movimento separatista: Povos Indígenas do Biafra/IPOB. Para o governo, eles são “terroristas” e as suas manifestações têm sido duramente reprimidas.

No Delta do Níger, militantes do Movimento para a Emancipação, ao qual fora prometida uma amnistia geral em 2009, voltaram a pegar em armas em 2016. Os seus ataques a importantes oleodutos têm causado avultados prejuízos económicos.

“Em países em desenvolvimento, onde o processo de formação do Estado-nação ainda está em curso, as divisões religiosas e étnicas tendem a ser muito profundas e exacerbadas em tempo de eleições”, salienta Jideofor Adibe.

O analista nigeriano concorda com a análise da BBC de que as eleições de Fevereiro-Março “nunca prometeram a possibilidade de uma nova era”. Para ser honesto, conclui ele, “muitos de nós ficámos desiludidos. Há pouca coisa para celebrar. Em muitas regiões, o resultado não reflecte a vontade popular. Mas a verdade é que tudo isto faz parte de um processo democrático.”

A maior população cristã de África

Uma mulher comunga durante a Missa de Ano Novo na Igreja Católica do Santo Rosário, em Abuja, Nigéria, 1 Janeiro de 2014
© Afolabi Sotunde | Reuters | America Magazine

Numa “competição pelas almas” na Nigéria, um país com tantos cristãos como muçulmanos, são as igrejas pentecostalistas nacionais – e não o Islão – que mais atraem fiéis católicos.

Com cerca de 80 milhões de cristãos – 20 milhões dos quais católicos –, a Nigéria é o país com a maior população cristã de África. O continente tem, actualmente, cerca de 158 milhões de católicos e, até 2025, terá 230 milhões, ou 1/6 dos católicos de todo o mundo, segundo estimativas do Vaticano.

Foram os portugueses que, no século XV, levaram o Catolicismo para o território da actual Nigéria. “Este esforço missionário praticamente desapareceu no século XVII, e só renasceria em 1865, em Lagos, com a Sociedade das Missões Africanas de Lyon”, informa o Religious Literacy Project, da Universidade de Harvard (EUA).

Em 1920, já havia diversas missões na região do povo igbo, possivelmente mais do que as da Sociedade Missionária da Igreja Anglicana. Em 1950, foi criada a primeira arquidiocese de Kaduna, Lagos e Onitsha. O maior seminário católico do mundo situa-se em Enugu, no sudeste.

As escolas católicas ganharam popularidade porque, ao contrário das protestantes, que davam aulas nas línguas locais, ensinavam em inglês – “uma forma de os igbo progredirem numa sociedade colonial”, refere o projecto de Harvard. Cuidados médicos também facilitaram as conversões.

Em 1967, a Igreja Católica envolveu-se profundamente na guerra civil no Biafra, que começou com uma série de ataques contra comunidades igbo no norte e uma tentativa de golpe secessionista, acabando em 1970 com a vitória das tropas federais e um milhão de mortos.

Cerimónia religiosa de uma igreja pentecostal na Nigéria – a música e a dança conferem um sentimento de pertença
© America Magazine

Hoje, apesar de o Catolicismo continuar a crescer num país onde há quase tantos cristãos como muçulmanos – muitos sacerdotes nigerianos são enviados para paróquias noutros continentes em crise de vocações –, o maior desafio que se coloca à Igreja não é o Islão, mas os numerosos movimentos pentecostalistas, salienta a revista jesuíta America.

Numa “feroz competição pelas almas” estão numerosas “Igrejas Africanas, criadas em África por africanos”: Christ Apostolic Church, Redeemed Christian Church of God, Living Faith Church Worldwide, Christ Embassy, Deeper Christian Life Ministry, Mountain of Fire and Miracles, Lord’s Chosen Charismatic Revival Movement, The Synagogue, Church of All Nations, Celestial Church of Christ ou Dominion City.

O que leva os católicos nigerianos a explorar estas igrejas pentecostalistas? Por um lado, “percepções erradas” que os fiéis nem sempre conseguem contrariar, como as de que a Igreja “pratica a idolatria, venerando Maria e outros ídolos, e não acredita no Espírito Santo”, escreve Linus Unah na revista jesuíta.

Por outro lado,  “há aspectos do Pentecostalismo”, caracterizado por uma “leitura literal das escrituras”, que jovens católicos consideram “mais apelativos do que a fé em que foram criados”: a música e a dança, que conferem um sentimento de pertença, ou a crença de que a Bíblia é a palavra infalível de Deus.

Uma estudante universitária entrevistada por Linus Unah explica uma das razões por que mudou de campo: “A Igreja [Católica] é muito grande e todos parecem demasiado ocupados. Na Dominion City, se eu não aparecer para o serviço religioso, de certeza que alguém me telefonará ou enviará uma mensagem escrita para saber se estou bem.”

Para ir ao encontro dos jovens, a Igreja Católica nigeriana adoptou rituais como “milagres, curas e interpretação de línguas”
© The Star

Estas “unidades eclesiásticas”, pequenas e inclusivas, integram “oito a 40 paroquianos que [na ausência de sacerdotes] se reúnem semanalmente em igrejas ou nas suas casas, para discutir as leituras de domingo, ajudarem-se uns aos outros a manterem-se unidos na vida e na fé, e ajudarem os irmãos e irmãs mais necessitados.” O problema é que atraem apenas pais e mães, não os filhos.

Para ir ao encontro dos jovens, a Igreja nigeriana criou então outras unidades, que incorporam rituais como “milagres, curas e interpretação das línguas”, designadamente, a National Association of Catholic Corps Members, a Nigeria Federation of Catholic Students, o Catholic Charismatic Renewal of Nigeria e o Catholic Biblical Movement of Nigeria.

A cientista política canadiana Ruth Marshall, estudiosa das religiões na Nigéria, citada pelo jornal The New York Times, constata outro fenómeno: o crescente número de igrejas evangélicas que locais que deixam o “Gigante de África” para se instalarem noutras regiões do mundo. Uma delas, a Redeemed Christian Church of God – com mais de 600 mil membros – “conseguiu construir uma cidade com dinheiro nigeriano”.

Esta evolução religiosa, constata o NYT, “tem consequências políticas: “num país onde as eleições presidenciais requerem dois terços dos votos, nenhum candidato pode ser eleito apenas com o apoio de cristãos ou muçulmanos”. Muhammad Buhari, o presidente, muçulmano do Norte, agora reeleito para um segundo mandato, escolheu para vice-presidente Yemi Osinbajo, um pastor evangélico do Sul de maioria cristã.

Até 2050, a população da Nigéria, cada vez mais jovem, deverá aumentar dos 180 milhões para mais de 300 milhões, o que constitui um grande desafio para os políticos nacionais
© AP

“Superpotência sem poder”

É assim que a BBC descreve a Nigéria, um país onde “mais de metade dos 190,9 milhões de habitantes vivem em pobreza absoluta e 60% da população urbana não consegue comprar uma casa.” Mas se esta é uma face sombria do “Gigante de África”, há outros rostos que o iluminam.

Chinua Achebe (1930-2013), “pai da literatura africana”, romancista, ensaísta, crítico e académico, autor de livros fundamentais como Quando Tudo se Desmorona, o primeiro, publicado em 1958. Traduzido para 50 línguas, vendeu mais de oito milhões de exemplares.

Wole Soyinka, dramaturgo, 84 anos, o primeiro africano a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1986.

Ben Okri, poeta e romancista, 59 anos, vencedor do Booker Prize em 199, com The Famished Road.

Chimamanda Ngozi Adichie, 41 anos, activista e autora, entre outros, do manifesto Todos Devemos Ser Feministas. (Na foto)

Fela Kuti (1938-1998), pioneiro do Afrobeat, género musical que funde ritmos tradicionais como o funk e o jazz. O seu sucessor é o filho mais velho Femi Kuti, e os dois inspiraram certamente a nova “mistura de hip-hop, R&B, dancehall e house” que é o Afrobeats (com “s”), agora celebrizado por artistas com Wizkid, Davido, Tiwa Savage ou Jidenna, premiados por todo o mundo.

Genevieve Nnaji, 39 anos, actriz, argumentista, produtora e realizadora. Começou a carreira aos 8 numa série televisiva nigeriana e hoje é uma diva de Nollywood, a florescente indústria cinematográfica.

Idayat Hassan, directora em Abuja, do Center for Democracy and Development

Jideofor Adibe, cientista político, académico, editor e um dos observadores das eleições gerais de Março

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Abril 2019 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2019 edition

Retrato de um tirano

A revolução síria começou em Março de 2011 com um grafito: “Doutor, és o próximo”. Oito anos depois de causar o maior desastre humano do século XXI, o oftalmologista Bashar al-Assad salvou a ditadura com a ajuda de russos e iranianos. Espera agora que árabes e europeus o legitimem e reconstruam um país devastado. (Ler mais | Read more…)

Um poster com a cara de Bashar al-Assad no local de um atentado suicida na região de Damasco, a capital, em 9 de Fevereiro de 2016
© Louai Beshara | AFP | Getty Images

Ayman Abdel Nour conhece bem Bashar al-Assad, colega na Universidade de Damasco. “Formei-me na Faculdade de Engenharia e ele na de Medicina, divididas por uma feroz competição. Fomos apresentados, em 1984, por um vizinho que andara com ele no liceu”, conta-me, por telefone, o cristão sírio que teve de se exilar para não ser enforcado pelo amigo de outrora.

“Bashar era um tipo simpático e até humilde”, garante Abdel Nour. “Tímido, fugia do contacto com as pessoas. Costumava baixar os olhos nas conversas com outros. Não lhe interessava a política. Passava despercebido no seu Peugeot 505. Ninguém diria que era filho do Presidente.”

Ainda que raras, Abdel Nour lembra-se das visitas à residência da família Assad na capital, condomínio separado do palácio presidencial, fortaleza no Monte Mezzeh que, encomendado a um arquiteto japonês, terá custado cerca de mil milhões de dólares. “Era tudo normal”, observa. Nunca se encontrou com o pai, Hafez, a mãe, Anisa Makhlouf, ou os quatro irmãos, Bassel, Maher, Majd, e a irmã, Bushra. “Cada um deles tinha os seus aposentos e suites.”

Em 1992, o médico Bashar foi especializar-se em oftalmologia no Western Eye Hospital, em Londres. “Nunca perdemos o contacto e, quando ele voltou à Síria, em 1994, a seguir à morte do irmão mais velho, Bassel, tornei-me seu conselheiro”, adianta Abdel Nour, que foi também um membro influente do Baas, o partido que monopoliza o poder. “Ajudei-o a preparar o futuro.”

O pai chamou Bashar para preencher o vazio deixado pela morte do primogénito (entre os quatro rapazes), que há muito preparava para ser o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe. O garante da imunidade e impunidade do regime.

O coronel Bassel perdera a vida num acidente de viação, aos 32 anos. Inicialmente, Hafez suspeitava de uma tentativa de golpe, mas confirmou-se ter sido uma fatalidade causada por uma paixão irreprimível por carros velozes. Foi no funeral do filho que viram chorar pela primeira vez a “Esfinge de Damasco”. 

Em 2000, quando Hafez morreu, Abdel Nour continuou a aconselhar Bashar, uma missão sem remuneração, acreditando que o agora presidente “queria mesmo” mudar o país. “Ele aceitava todas as ideias que lhe sugeríamos. Eu convenci o Comando Regional do Baas a aprovar reformas importantes – a reestruturação do sector industrial público, a introdução de seguradoras e bancos privados ou a criação de uma bolsa de valores.”

Hafez, Anisa e os filhos em 1974. Da esquerda para a direita: Maher, Majd, Bassel, Bushra e Bashar. Uma “dinastia perigosa”, como lhe chamou a BBC num brilhante documentário
© Alexandra de Borchgrave |BBC | Getty Images

A partir de 2003, porém, o filho de Hafez tornou-se “uma pessoa completamente diferente”, refere Abdel Nour. “As poucas reformas, económicas e administrativas, que ele aplicava serviam só para favorecer familiares, em particular o primo Rami Makhlouf [conhecido como “o senhor 60%”- todas as empresas estrangeiras precisavam do seu aval para funcionar -, “o homem mais rico do país”, dono da Syriatel, maior operador de telecomunicações nacional, e de outros negócios, da banca ao imobiliário.]”

Bashar começou a dizer que não podia fazer mais concessões, porque o país estava sujeito a enormes pressões externas, na sequência da invasão americana do Iraque” em 2003. Ele temia o azar de Saddam Hussein.

Revoltado com uma “corrupção galopante” e um “presidente paranóico e psicopata”, que exigia a “adulação reservada a um messias”, Abdel Nour afastou-se de Bashar, o alauita que usou cristãos, drusos e outras minorias contra a maioria sunita, a que pertence a mulher, Asma Akhras, com quem se casou apesar da hostilidade de Anisa, que queria para o filho uma noiva da sua seita.

Em 2003, o engenheiro damasceno criou o blogue All4Syria, crítico do regime. Em 2007, ameaçado de morte, fugiu para o Dubai. Quatro anos depois, mudou-se para a Califórnia, onde fundou a ONG Syrian Christians for Peace.

Combatente do Exército Sírio Livre, inicialmente o principal grupo de resistência da oposição, em guarda numa casa na cidade velha de Aleppo, 19 Fevereiro de 2014
© Jalal Al-Mamo | Reuters

Ao contrário de Abdel Nour, o politólogo Salam Kawakibi, que nasceu em Aleppo, onde dirigiu o Institut Français du Prochain Orient, nunca deu o benefício da dúvida ao ditador. O que aconteceu em 2000 “foi uma falsa esperança”, diz-me por e-mail.

“Para alguns, uma esperança abortada. Da minha parte, como pessimista convicto no que concerne à vontade de os ditadores se reformarem, nunca acreditei [em Bashar]. Ele é o filho de um sistema e foi imposto pela vontade do pai para suceder a um irmão defunto numa república! Mataram a ‘Primavera de Damasco’ no seu berço.”

“Bashar nunca foi reformista”, sublinha o neto de Abd al-Rahman al-Kawakibi (1854-1902), este sim um genuíno reformador, defensor da instauração, durante o Império Otomano, de um regime baseado na liberdade de consciência, na igualdade entre todos os cidadãos, na separação dos poderes executivo e legislativo, político e religioso.

A  obra de referência de Abd al-Rahman al-Kawakibi, que Salam traduziu para francês em 2016 com o título de Du Despotisme e autres textes, é “a denúncia das consequências desastrosas do despotismo para a religião, o saber, a economia, a moral, a educação e o progresso”.

“A securitocracia que reina na Síria desde 1979 não tolera qualquer manifestação da oposição contra o que o sistema impôs como modo de vida aos cidadãos”, lamenta o actual diretor do Centre Arabe de Recherche et d’Études Politiques, em Paris. O único método conhecido e largamente praticado pelo regime é o da força.”

“Quando matou dezenas de milhares de civis em Hama, em 1982, com o consentimento da dita comunidade internacional, Hafez al-Assad percebeu que terror resulta. Bashar não poderia empreender reformas reais porque sabia que isso seria o fim do seu regime. Optou por um solução violenta e parece que, a curto prazo, ela está a dar frutos.”

Em oito anos de guerra, quase ou mais de meio milhão de  sírios foram mortos. Cerca de 5,6 milhões são refugiados e 6,1 milhões deslocados internos. Na foto, crianças em Ghouta Oriental, cercada e destruída pelo regime
© Aldimashqi | Anadolu Agency | Getty Images

“Em 2000, muitos antigos presos políticos, intelectuais, artistas, advogados, cineastas e activistas dos direitos humanos consideraram que havia em Bashar, mais do que uma esperança, uma oportunidade”, diz-me, por seu turno, o cientista político libanês Ziad Majed, co-autor (com Subhi Hadidi e Farouk Mardam-Bey) da magnífica biografia Dans la tête de Bachar al-Assad.

“Era uma oportunidade para abrir um certo espaço que lhes permitisse debater, negociar, publicar, abrir fóruns”, adianta Majed, também autor de Syrie, la Révolution orpheline. “Na realidade, fizeram tudo isso, publicando textos brilhantes em jornais libaneses e em sites que surgiam naquela altura. Todos tentaram aproveitar um momento de hesitação nos círculos de poder.”

“Bashar falava de reformas, como se o legado do pai precisasse de reforma, embora, ao mesmo tempo, toda a máquina de propaganda do regime elogiasse as conquistas e a grande obra do regime paterno.”

Segundo Majed, estudioso das transições políticas regionais no mundo árabe, Bashar “precisava de uma espécie de reformas estatais”. Por isso, ao chegar à presidência, “aventurou-se com uma certa neo-liberalização económica, graças a nacionalizações que beneficiaram, acima de tudo, o primo Rami Makhlouf”.

“Foi neste contexto que intelectuais, opositores políticos, dissidentes impuseram, durante alguns meses, fóruns, petições, artigos. Mas tudo acabou, em Fevereiro [de 2000], porque o regime não conseguia sequer tolerar este tipo de vozes e as reivindicações para a libertação dos presos políticos, o regresso dos que estavam no exílio, o fim do estado de emergência.”

“O regime atacou os fóruns e prendeu muitos dos seus organizadores, e até membros do Parlamento que participavam nesses debates”, recorda Majed. “Demonstrou assim que nada mudara na cena política e que as únicas mudanças seriam apenas económicas, na área do consumo, do turismo… Mas até isto permaneceria sob o controlo das famílias Assad e Makhlouf.”

Meninas que perderam as suas casas na província de Deraa – berço da revolução – sorriem para a câmara, numa tenda nas proximidades de Quneitra, a única cidade controlada pela Síria nos Montes Golã, ocupados por Israel desde a guerra de 1967
© Alaa Al-Faqir | Reuters

O grande teste aconteceu em Março de 2011, quando um grupo de 15 rapazes, entre os 10 e os 15 anos, inspirados pelas sublevações populares na Tunísia e no Egito, escreveu nas paredes da cidade de Deraa: “Doutor, és o próximo.” Os grafiteiros foram detidos e torturados pelos mukhabarat (espiões) locais.

As famílias de Deraa, que no passado mantiverem laços com o Baas e os Assad, foram humilhadas quando reclamaram a libertação dos filhos. Seguiram-se manifestações pacíficas nas ruas, imediatamente dispersas a tiro pelas forças de Najib. Várias pessoas foram mortas. Não mais parou o ciclo funerais-protestos-repressão. E assim nasceu a revolução.

“É difícil dizer que a Síria poderia ter evitado este terrível cenário se tudo tivesse sido diferente em Deraa”, observa Zia Majed. “A verdade é que o regime não soube, desde o princípio, lidar com a situação naquela cidade, ou no sul em geral, que foi uma das bases do Partido Baas nos anos 1950-1960.”

“Muitos líderes de Deraa no Baas desempenharam cargos ministeriais no passado. Mas entre os anos 1990 e 2000, tal como noutras localidades periféricas da Síria, Deraa registou um declínio económico e marginalização, devido a cortes num orçamento de Estado que privilegiava mais a capital e outras cidades.”

“Havia muita revolta em Deraa e esta aumentou ainda mais com a humilhação e a tortura dos rapazes [dos graffiti]”, explica Majed. “Em Deraa, o chefe dos serviços secretos locais, Atef Najib, era primo paterno de Bashar. E esta foi outra razão para o regime reagir como se fosse um ataque à própria família no poder.”

“O regime achava que, se os reprimisse em Deraa, os protestos não se propagariam a outras regiões. Que Deraa se tornaria apenas mais uma cidade mártir como Hama [cerca de 20 mil mortos, em 1982].”

“O regime achava que bastaria uma repressão brutal em Deraa para voltar a erguer o muro do medo que começava a ruir. Não esperava que manifestantes noutras noutras zonas urbanas e rurais exigissem a sua queda.”

A realidade é que “a estrutura do regime sírio nunca permitiu qualquer compromisso político que permitisse reconhecer os direitos da sociedade e aceitar os seus clamores”, anota Ziad Majed. “Esta estrutura foi concebida para lidar com a sociedade como se ela fosse um potencial inimigo.”

Um homem cava sepulturas para as próximas vítimas da guerra, em Arbeen, no subúrbio de Ghouta, leste de Damasco, em 10 Março de 2014
© Yaseen al-Bushy | Reuters

“O regime é extremamente habilidoso e flexível politicamente com o exterior”, informa o académico libanês. “Com actores regionais e internacionais faz compromissos, negoceia, entra em contradições. Era aliado da União Soviética e dialogava com os EUA. Atacava verbalmente Israel, mas mantinha os Montes Golã, perdidos na guerra de 1967, como a região fronteiriça mais pacífica desde 1974.”

“Interveio no Líbano, sob pretexto de apoiar a causa palestiniana, mas abandonou os palestinianos e os libaneses [durante a guerra civil] em 1976. Era aliado da Arábia Saudita, mas também apoiou [a revolução islâmica no] Irão em 1979.”

No que toca a Síria, a posição do regime é totalmente diferente. “Nunca aceitou lidar com a sociedade como um actor político, reconhecer os seus direitos, aceitar as suas reivindicações”, critica Majed.

“É por isso que em 2011, Bashar agiu tal como o pai, que foi obreiro de vários massacres e da repressão que deixou milhares de desaparecidos, provavelmente mortos sob tortura na prisão [de Tadmur, no deserto de] Palmira.”

“Em 2011, Bashar achou que ceder aos manifestantes seria visto como um sinal de fraqueza e, por isso, retaliou imediatamente com violência extrema”, avalia Majed. “Uma violência que visava uns grupos mais do que outros, visava os sunitas das áreas rurais mais do que outras comunidades.”

“Ele queria mostrar que a revolta era sunita, podendo assim defini-la, mais tarde, como uma tentativa de islamização, e não como uma sublevação popular com motivações políticas e sociais.”

“Bashar herdou a estrutura do regime e a mentalidade do pai, de não aceitar qualquer negociação com a sociedade, convicto de que só a repressão mantém os cidadãos obedientes e permite a sobrevivência do regime, do partido, dos serviços secretos, dos seus clãs e da sua seita.”

“O regime de Assad achava que bastaria uma repressão brutal em Deraa para voltar a erguer o muro do medo que começava a ruir. Não esperava que manifestantes noutras noutras zonas urbanas e rurais exigissem a sua queda”
© Reuters

A activista síria-britânica Leila al-Shami, que estava em Damasco em 2000 a trabalhar com o movimento de direitos humanos, comprova que, naquele ano, quando Bashar “herdou do pai a ditadura”, muitos esperavam mudanças. Porque ele falava de “modernização, liberalização e desenvolvimento”, alguns actores da sociedade civil ousaram apelar a “um sistema multipartidário, imprensa livre e à libertação de presos políticos.”

Mas o que a jornalista e co-autora (com Robin Yassin-Kassab) de Burning Country: Syrians in Revolution and War presenciou foi “um fosso entre retórica e realidade”, como diz numa entrevista por e-mail. “Entraram em vigor reformas económicas, mas apenas consolidaram a riqueza de alguns capitalistas, enquanto eram cortados subsídios, empobrecendo ainda mais a população. Nunca houve reformas políticas. Muitos dos que pugnavam por mudanças foram presos.”

“Face a esta realidade e ao medo incutido na população pelo regime, não imaginei possível a sublevação em 2011”, confessa Leila al-Shami. “No entanto, porque os movimentos revolucionários ganhavam ímpeto no Egipto e na Tunísia, os sírios ganharam coragem e encheram as ruas, reivindicando liberdades políticas e justiça sócio-económica.”

“O que os sírios conseguiram – construir estruturas de base em circunstâncias impossíveis – deveria ter sido celebrado e apoiado por todo o mundo”, observa a activista que ajudou a fundar a Tahrir-ICN, rede que pretende ligar as lutas contra o autoritarismo no Médio Oriente, Norte de África e Europa.

“No entanto, o democratas sírios não foram capazes de despertar uma significativa solidariedade para a sua luta e enfrentaram uma brutal contra-revolução por parte do regime, dos seus aliados internacionais e de vários grupos jihadistas, cada um com a sua agenda.”

Residentes do campo de refugiados palestinianos de Yarmouk, no sul de Damasco, esperam socorro depois de um longo cerco, em 4 Fevereiro de 2014
© AP |SANA

Leila deplora que, desde o início, o regime se tivesse apresentado como um combatente contra terroristas religiosos – “mesmo quando os islamistas nem sequer tinham uma presença real na sublevação e quem dominava as ruas eram manifestantes pacíficos”.

“Muitos na ‘comunidade internacional’ aceitaram a narrativa do regime”, condena a activista síria. “Mas este era um binário simplista, porque houve sempre uma terceira escolha: os democratas que acreditavam na liberdade e na democracia. Infelizmente, foram abandonados e perseguidos, enquanto os islamistas ganharam poder.”

“É claro que a oposição também cometeu erros”, reconhece Leila al-Shami. “Mas é razoável presumir que, se tivesse recebido apoio, a situação na Síria seria muito diferente do que é hoje.”

O politólogo Salam Kawakibi invoca “várias razões” para o fracasso da revolução. A primeira é “a inesperada e inédita violência a que o regime recorreu”. Mas também “a falta de apoio real da maior parte dos países ‘amigos’ do povo sírio, a herança caótica de práticas políticas, designadamente no seio da oposição, que nunca teve liberdade de se exprimir publicamente desde o final dos anos 1950, e a ingerência de forças regionais para manipular os opositores, sobretudo depois da militarização” da revolta.

“Uma vitória militar dos rebeldes era impossível não apenas porque os seus líderes estavam divididos, mas também porque nenhum país influente na cena síria quis realmente acabar com Assad, ao contrário do que aconteceu com a Rússia e o Irão, presentes e em força para auxiliar o regime contra o seu povo”, acusa Kawakibi.

“Praticamente não existiram negociações de paz. De um lado, houve conversações entre o regime e a ONU; do outro, conversações entre grupos da oposição e a ONU. O regime, ainda antes de receber apoio directo de Moscovo em 2015, já rejeitava qualquer forma de negociação, considerando que toda a oposição era terrorista e vinha do estrangeiro.”

Nos escombros de um edifício em Duma, em Damasco, homens resgatam um bebé que sobreviveu a um ataque de forças leais a Bashar al-Assad, em 7 Janeiro de 2014. A criança de 27 meses, Rateb Malis, seria depois entregue ao pai e às irmãs
© Bassam Khabieh | Reuters

“Há certamente um problema com a oposição síria, pois não foi capaz de formar uma liderança forte, elaborar um discurso político claro e de se impor, regional e internacionalmente, face a aliados e inimigos”, reconhece o cientista político Zia Majed. “Mas há, também, um problema no que diz respeito ao activismo na Síria. Não devemos esquecer que durante 41 anos, antes de 2011, vigorou o estado de emergência. Os sírios não podiam formar partidos políticos ou ser politicamente activos.”

“Toda a sociedade síria era controlada por serviços secretos, pelo medo e por esquadrões da morte”, lembra Majed. “Não havia experiência política antes da sublevação, excepto os opositores na clandestinidade, entre alguns intelectuais, entre as elites. Isso deixou marcas. Por outro lado, a oposição síria deixou-se aprisionar pelas dinâmicas regionais e internacionais. Alguns dos seus aliados tentaram usar a oposição contra os seus inimigos.”

Apesar de tudo, e partilhando o desânimo de Kawakibi, Majed conclui: “Mesmo que a oposição tivesse uma liderança forte e centralizada, mesmo com um discurso claro e independência face às dinâmicas exteriores, não tenho a certeza de que as coisas teriam sido muito diferentes no que diz respeito ao atual equilíbrio de poderes.”

“Porque os países ocidentais, alguns Estados árabes [Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar] e a Turquia não se mostraram tão determinados como os russos e os iranianos no apoio e protecção que concederam ao regime.”

Além disso, indica Majed, “o facto de a revolução síria ter começado logo após o desastre líbio, depois do que aconteceu no Iraque e da vitória da Irmandade Muçulmana no Egipto, fez com que decaísse no Ocidente a euforia em relação às ‘primaveras árabes’”.

“A chegada de milhares de refugiados e os discursos anti-imigração, a ascensão de grupos de extrema-direita em muitos países, o aumento da islamofobia, a ascensão do Daesh na Síria e a propaganda de Assad de que a solução era ele ou o ‘estado islâmico’ – tudo isso jogou a favor do regime”, acrescenta Majed.

Combatentes do Exército Sírio Livre, Mohamad-Noor (à esquerda), 14 anos, e Hadi, de 15, mostram uma fotografia do amigo Khaled, também de 15 anos, morto por um atirador furtivo no bairro de Khalidiya, em Aleppo, em 13 Março de 2014
© Jalal Al-Mamo | Reuters

O académico libanês culpa igualmente “grupos esquerdistas que, com têm uma retórica anti-imperialista mas não conhecem a sociologia da Síria nem estão interessados em ouvir os sírios nas suas análises geoestratégicas. Acham que Assad é um anti-imperialista, porque ele ataca, de vez em quando, os americanos (mesmo quando negoceia com eles)”.

Em resumo, “à esquerda e à direita, ninguém estava interessado em resolver a crise. Só Moscovo e Teerão se empenharam em salvar Assad”.

E é “graças a Moscovo e a Teerão” que, depois de oito anos de guerra, quase meio milhão de mortos, 5,6 milhões de refugiados e 6,1 milhões de deslocados internos, que Bashar tem agora sob seu domínio “60 a 66%” do território, estima Ziad Majed. Antes da intervenção russa, tinha apenas em seu poder uns 20%.

As forças curdas apoiadas pelos EUA que combateram o Daesh no leste, controlam, hoje, “cerca de 20%”; depois, há um enclave em Idlib, controlado pelo grupo jihadista Al Nusra; estando o restante, “cerca de 10% ou um pouco mais”, nas mãos da oposição síria aliada da Turquia.

“Assad não derrotou o seu povo – a Rússia e o Irão é que ganharam esta guerra”, realça Salam Kawakibi. “Contudo, a soberania do regime não é efectiva. Quem controla [os 60-66%] são forças não estatais e não o poder central. São milícias de defesa civil, mercenários e soldados russos, milícias confessionais vindas do Iraque e do Líbano, afegãos hazaris [recrutados pelos Irão], etc… São eles, e não Assad, os mestres no terreno.”

Assad até pode clamar vitória, mas Zia Majed tem esperança de que o ditador não será facilmente reabilitado: “Porque há muitas sanções europeias contra o regime e há cada vez mais processos judiciais para que ele responda por crimes de guerra e contra a humanidade.”

A normalização não é ainda possível “porque se desconhecem intenções de russos e iranianos – quem controlará o país no futuro próximo? – e porque a política dos EUA não é clara – Donald Trump anunciou e depois adiou uma retirada. A Administração americana espera que os russos expulsem Teerão, mas russos e iranianos são aliados”.

A maioria dos líderes árabes, “também eles ditadores e criminosos como Assad”, segundo Majed, “não têm ilusões” face à gigantesca presença militar o Irão na Síria. Israel, por seu lado, rejeita a presença iraniana, “mas não se importa que Assad permaneça no poder”. A Rússia “desempenha o papel de fiel da balança – é aliado de Assad, do Irão, de Israel e da Turquia – e quer dar-se bem, também, com os europeus”, comenta Majed.”

Até agora, não há solução política e ainda há margem para negociações e acordos, compromissos. Talvez russos e iranianos estejam a preparar-se para uma próxima fase, para definir quem controla a situação.”

A destruição em Homs, cidade sitiada e bombardeada pelo regime (27 Janeiro de 2014)
© Yazan Homsy | Reuters

Uma recente visita de Bashar a Teerão “deixou claro” que a República Islâmica “não está disposta a sair da Síria depois de tudo o que investiu” – o ditador poderá “tornar-se refém de uma rivalidade entre aliados, russos e iranianos, o que abalará o seu poder.”

Embora alguns Estados europeus (Áustria, Itália, Hungria e Polónia) pareçam também receptivos à ideia de apaziguar Bashar, pressionando uma ambivalente UE a ajudar na reconstrução do país, para deste modo se livrarem de refugiados “indesejados”, Zia Majed avisa: “Não acho possível uma solução para a Síria enquanto Assad se mantiver no poder. Porque a questão política não se resolverá.”

“A presença de russos e iranianos não será eterna”, confia o académico em Paris. “Um dia, terá de haver negociações e acordos. Além disso, haverá certamente mais processos por crimes de guerra instaurados por diferentes organizações, mas também por países, como a França, a Suécia, a Holanda, a Grã-Bretanha, Espanha, a Alemanha e os EUA [ao abrigo da justiça universal]. Há muitas investigações sobre o uso de armas químicas, tortura e violações, massacres.”

“A impunidade, do regime ou de qualquer outro campo acusado de crimes de guerra, tem de acabar”, vinca Ziad Majed. “É claro que há pessoas no Estado sírio que não fazem parte desta máquina assassina. São tecnocratas, funcionários de ministérios e devem ser protegidos. Há até pessoas próximas do regime que devem poder participar na transição. Mas as famílias Assad e Makhlouf não podem ser parte da solução, porque isso não seria uma solução.”

Salam Kawakibi não esconde o desalento: “O futuro que vejo para a Síria é o de um marasmo humano prolongado na ausência de uma solução política e de uma justiça transicional [medidas para a reparação das violações de direitos humanos]. Teremos um poder central muito enfraquecido que depende de protectores estrangeiros e de aliados locais, para quem a regra é um sistema mafioso.”

Heróis da revolução síria: os activistas Razan Zaitouneh, o marido, Wael Hamada, Samira al-Khalil, mulher de Yassin al-Haj Saleh, e Nazem Hamadi, desaparecidos desde 2013 depois de raptados por um grupo jihadista
© sn4hr.org

É certo, constata Kawakibi, que alguns países árabes reabriram embaixadas em Damasco, “mas nenhum está disposto a investir um cêntimo enquanto a corrupção continuar a ser, como é desde há décadas, a pedra angular do sistema político sírio.”

“Os russos e os iranianos não têm meios para investir na reconstrução. Limitam-se a participar na destruição. Os refugiados mais pobres, na Jordânia e no Líbano, exigem transição política, justiça e segurança antes do regresso – três condições que não podem ser satisfeitas nas circunstâncias actuais”.

A jornalista Leila al-Shami tem informações de que muitos refugiados, sobretudo os mais pobres no Líbano e na Jordânia, têm regressado, “mas apenas porque a sua situação no exílio lhes parece impossível, dada a falta de oportunidades que enfrentam e a retórica cada vez mais hostil e xenófoba contra eles”.

Alguns destes retornados “arriscam detenção e prisão à chegada à Síria; alguns foram torturados até à morte; outros foram obrigados a integrar as forças armadas do regime e enviados para a frente de batalha”.

Por outro lado, “muitos dos deslocados internos não querem voltar às áreas controladas pelo regime”, diz Leila. “No campo de Rukban, perto da fronteira com a Jordânia, onde a situação humanitária é desesperada, os que ali estão têm protestado contra os planos de Bashar e da Rússia para os transferir para zonas controladas pelas forças governamentais, exigem ser colocados em áreas sob controlo da oposição, no norte.”

Sírios fogem da guerra, em 2011, pela fronteira com a Turquia – país que acolheu quase dois milhões de refugiados desde o início do conflito
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images

“Os refugiados deixaram a Síria receando Assad, até mais do que o Daesh”, indica Ziad Majed. “Não planeiam voltar enquanto perceberem que nada mudou em termos de violência. Até mesmo em áreas onde houve acordos, como no sul da Síria ou cidades como Ghouta Oriental, reconquistada por Assad, muitas pessoas estão desaparecidas ou foram mortas nas cadeias.”

“Ninguém, dos que fugiram por motivos políticos, acredita no regime. E a reconstrução também não será possível enquanto Bashar estiver no poder. Não vejo a Europa a gastar biliões de euros para oferecer a Síria ao Irão ou à Rússia.”

“É necessária uma solução política para que os refugiados regressem, e para que a reconstrução avance”, recomenda o professor libanês. “Mas nada disto será possível com a família Assad. É inaceitável que a única pessoa responsável, directa ou indirectamente, [por este desastre humano] possa manter-se no poder.”

“É como dizer aos sírios que eles não são parte da comunidade internacional, que não estão abrangidos pela lei internacional, que as convenções de Genebra não foram redigidas para os proteger, que eles podem ser mortos por qualquer um.”

A falta de protecção “conduzirá a mais frustração e extremismo”, alerta Ziad Majed. “É com base nesta narrativa de vitimização que grupos como o Daesh recrutam e emergem, ameaçando o mundo inteiro.”

“Bashar al-Assad não pode ser parte da solução, porque isso não seria uma solução”
© versobooks.com

Memórias da revolução

Testemunhas das aspirações e sofrimento dos sírios, Leila al-Shami, Salam Kawakibi e Ziad Majed guardam, apesar dos fracassos e do desespero, memórias felizes da revolução.

“Lembrar-me-ei sempre das histórias de cidadãos comuns que arriscaram tudo para oferecer uma mudança positiva às suas comunidades, em particular, e à sociedade, em geral”, afirma Leila al-Shami.

“No nosso livro [Burning Country], contamos muitas dessas histórias – pessoas que mobilizaram protestos, que tentaram formar conselhos locais democráticos para organizarem as suas comunidades na ausência do Estado, que distribuíam ajuda humanitária a comunidades cercadas ou trabalhavam em hospitais clandestinos que estavam sempre a ser alvos de bombas dos russos e do regime.”

“Uma história que não esqueço”, destaca Leila, “é a de Souad Nofal, uma mulher de Raqqa que disse não ao ‘estado islâmico’. Durante meses, ela organizou um protesto solitário contra o Daesh – exigindo a libertação de prisioneiros, protecção das minorias e direitos para as mulheres.”

“Também participava activamente em manifestações contra o regime e criou a Fundação Janna, dedicada a dar mais poder às mulheres. Maravilhei-me com a sua coragem – enfrentando o Daesh sozinha. Também ela simboliza o modo como os sírios livres se opuseram a todos os autoritarismos – do regime e islamistas – que são a antítese da luta pela liberdade.”

A Salam Kawakibi “impressionou a capacidade de os jovens se organizarem em comités de coordenação local para gerir diferentes aspectos da via quotidiana”, porque esta era, “por excelência, uma resistência pacífica”.

Quanto a Ziad Majed, quando pensa na revolução, recorda-se em particular de activistas como a advogada Razan Zaitouneh (com quem Leila trabalhou) que documentava para os comités populares os abusos de direitos humanos. Define-a como “uma das mulheres mais extraordinárias dedicada à causa síria, da democracia e da justiça social”.

Lembra-se também de Samira al-Khalil, antiga presa política sob o regime Hafez al-Assad, uma activista pelos direitos humanos que colaborava com Razan Zaitouneh em Douma, “também ela dedicada à protecção de mulheres e crianças em Ghouta Oriental e Damasco”.

Samira, mulher do médico Yassin al-Haj Saleh, considerado “a consciência da revolução”, e Razan foram sequestradas por um grupo jihadista e estão desaparecidas desde 2013. O ano em que, raptado pelo regime, também desapareceu o amigo Fayed Amir, prisioneiro de Hafez e Bashar.

“Em 2011-2012 vivemos momentos de alegria, de humor, vontade e determinação de acabar com o medo, para construir algo de novo. Infelizmente, os sírios não tiveram o que a maioria deles esperava.”

Protestos pacíficos de centenas de milhares de argelinos durante semanas consecutivas forçaram o presidente Bouteflika a demitir-se, em Abril, após duas décadas no poder
© Ryad Kramdi | AFP

No Sudão, também protestos pacíficos que atraíram dezenas de milhares de pessoas forçaram o exército a afastar e a prender Omar al-Bashir, que estava há 30 anos no poder.
© EPA-STR | The Irish Times

Argélia e Sudão: a esperança

Leila al-Shami, Salam Kawakibi e Ziad Majed exaltam e exultam com as revoluções na Argélia e no Sudão [onde, em Abril, foram derrubados dois déspotas: Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir, há 20 e 30 anos no poder, respectivamente.]

Congratula-se Leila: “Os actuais protestos mostram que os povos da região rejeitam ditaduras instaladas desde há décadas. As causas [das “primaveras árabes” de 2011] – “a falta de liberdades políticas e de oportunidades económicas, a corrupção e elevadas taxas de desemprego -, ainda não foram resolvidas.”

“O que mudou foi a mentalidade das pessoas, que já não estão dispostas a sofrer a opressão em silêncio. Os protestos na Argélia e no Sudão também mostram que ninguém se calará quando ameaçam com o ‘exemplo sírio’ – o de que manifestações conduzem à repressão e ao conflito. Espero que os argelinos e os sudaneses possam ter o apoio que merecem.”

Alegra-se Salam: “As revoltas árabes ainda não deram a sua última palavra. A matança na Síria certamente que assustou muitos, mas não travou o desenvolvimento do processo político na região. Além disso, Assad não ganhou a guerra. Foi salvo por potências estrangeiras e pela indiferença dos países ‘livres’. Os protestos de hoje não se vão limitar à Argélia e ao Sudão, mas também também ao Iraque e a outros países árabes, que há muito estão num turbilhão.”

Ziad anima-se: “Os protestos são um sinal encorajador. Mostram que a fase histórica que vivemos no final de 2010 e depois em 2011, na Tunísia, no Egipto, na Líbia, no Iémen, no Bahrein e na Síria, não acabou apesar de contra-revoluções, golpes, violência, intervenções, conflitos militares.”

“O Egipto é agora governado por [Abdel Fattah El] Sisi, depois de um golpe militar que impôs uma nova ditadura. A Líbia está um caos [com dois governos rivais disputando o controlo de Trípoli, a capital]. No Bahrein, a revolução foi imediatamente pelas autoridades locais e sauditas. O Iémen é um desastre, com sauditas e iranianos a combater ali, directa e indirectamente, matando as esperanças do povo iemenita. A Tunísia é a única excepção – teve um sucesso relativo na sua transição, mas ainda enfrenta muitos riscos.”

“E agora, temos o Sudão e a Argélia, com novas esperanças. Embora não se possam fazer comparações simplistas, há reivindicações semelhantes – de transição política, de liberdade, dignidade, justiça social.”

“As pessoas não aceitam a ameaça, a chantagem, a pressão, os argumentos dos regimes, para os quais só há uma solução, ‘Ou nós ou o caos’, ‘ou nós ou a guerra civil’; ‘ou nós o cenário sírio e líbio’. Vemos agora uma nova geração mais uma vez nas ruas, a exigir o fim de uma situação humilhante.”

“Há, portanto, esperança de que as contra-revoluções, repressão e violência não derrotaram completamente as lutas de 2011. Há uma nova vaga na Argélia e no Sudão. Nada nos diz que acabará aqui. Haverá altos e baixos. Haverá derrotas, sonhos desfeitos ou traídos. Mas esta nova fase histórica no mundo árabe não acabará em breve.”

Ayman Abdel Nour

Ziad Majed

Leila al-Shami e Robin Yassin-Khassab, autores do livro Burning Country. Ela, entrevistada para este artigo, não se deixa fotografar para preservar a sua segurança
© Sergi Alcàzar | elnacional.cat/es

Este artigo, agora actualizado e na versão integral, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, na edição de 16 de Março de 2019 | This article, here an updated  and extended version, was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, on March 16, 2019 edition.