Daesh*: O “califado” morreu, a ideologia não

Cinco anos após a sua proclamação, extinguiu-se um pseudo-estado que dominou uma área e uma população equivalentes à de Portugal e contribuiu para a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial. Foi uma derrota física, não mental. Este é um movimento que, orgulhoso dos seus crimes, continua a inspirar salafistas-jihadistas, de Mosul a Moçambique. (Ler mais | Read more…)

“Ao distorcer a religião, com um comportamento extremo e ultrajante brutalidade, o ‘estado islâmico’ contribuiu para o fim do ‘califado’ como entidade física”, diz Audrey Kurth Cronin, autora de How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns
© New Statesman

Em 29 de Junho de 2014, quando proclamou um “governo que tudo sacrifica à vontade de Deus”, o Estado Islâmico parecia uma força invencível. Bastaram-lhe cem dias para dissolver as fronteiras da Síria e do Iraque e mudar o mapa do Médio Oriente.

Cinco anos depois, a organização conhecida como Daesh* perdeu o seu “califado” graças ao que analistas do think-tank Middle East Institute, em Washington, descreveram como “a mais bem sucedida campanha militar não convencional de toda a história”.

Ao conquistar território – de Raqqa, a sua “capital”, na Síria, até Mosul, a segunda maior cidade do Iraque –, “o ‘estado islâmico’ pôs um enorme alvo internacional nas suas costas”, diz-me Audrey Kurth Cronin, autora de uma obra de referência, How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns.

Seria, pois, inevitável, o fim de uma entidade que, no seu auge, controlou uma área e uma população equivalentes às de Portugal (100 mil quilómetros quadrados; 11 milhões de habitantes), recrutou 41.490 combatentes em 80 países; acumulou uma fortuna superior a 3000 milhões de euros (exploração de petróleo, extorsão e tráfico de seres humanos); levou a cabo ou inspirou pelo menos 4300 ataques em 29 países; inundou as redes sociais com vídeos de escravatura sexual, raptos, execuções, crucificações e decapitações; e causou o maior número de refugiados e deslocados internos desde a II Guerra Mundial.

“O ‘estado islâmico’ começou por ser uma organização terrorista no Iraque e ganhou ímpeto graças a dois erros e a uma surpreendente oportunidade”, lembra, por e-mail, Audrey Cronin, professora na School of International Service da American University, em Washington.

“O primeiro erro foi cometido pelo Governo dos Estados Unidos, ao desmantelar o exército dominado pelos sunitas, durante a ocupação que se seguiu à invasão [em 2003].”

“O segundo erro, após a retirada americana, foi cometido pelo governo dominado pelos xiitas [e chefiado por uma figura sectária, Nouri al-Maliki], ao oprimir os sunitas para que não voltassem [ao poder]. A seguir, Bashar al-Assad esmagou a revolta popular na Síria e a subsequente guerra civil deu ao ‘estado islâmico’ o lugar perfeito para se reforçar.”

Entre 2011 e 2014, o Daesh “evoluiu de organização terrorista para uma insurreição e, depois, para um exército convencional, representando uma aliança entre jihadistas sunitas e numerosos oficiais do Baas [o extinto partido único iraquiano]”, adianta Audrey Cronin.

Agora, com muitos dos seus membros mortos, em fuga ou na clandestinidade, “assistimos a uma evolução inversa: de um exército convencional com território, tornou-se numa insurreição e, novamente, num grupo terrorista transnacional”.

A académica que estudou 475 organizações terroristas para concluir que todas elas têm, em média, um tempo de vida de oito anos, consegue definir exatamente o que esmagou o “estado islâmico”, entre 2014 e 2019.

“Foi, principalmente, um combate lento, desgastante e firme levado a cabo no terreno pelo exército iraquiano, pelas Forças Democráticas Sírias [conhecidas pela sigla inglesa SDF], muito apoiadas por uma coligação militar [de curdos e árabes] liderada pelos EUA (sobretudo com ataques aéreos) e uma coligação dirigida pela França – além de uma extraordinária convergência de outros actores: a Turquia, a Síria, a Rússia, o Irão e o Hezbollah [libanês].”

Em Junho de 2018, Eissa al-Ali e a sua família, refugiados no Iraque, regressam à Síria e à sua casa em Raqqa, 80% da qual foi destruída nos combates para derrotar o califado
Ivor Prickett | panos.co.uk

“Ao distorcer a religião, com um comportamento extremo e uma ultrajante brutalidade, o próprio ‘estado islâmico’ contribuiu para o fim do califado como entidade física”, avalia a ex-diretora do programa de estratégia militar do U.S. National War College, em Washington, que aconselhou o Congresso americano após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Ela está convencida de que a comunidade internacional tudo fará para impedir o regresso de um “projeto territorial, violento e revisionista”.

O regresso mais problemático parece ser o dos combatentes estrangeiros (ver caixa), 4000-5000 dos quais europeus. Quem são eles e o que os motivou a deixarem as suas casas para se juntarem a um grupo que, ao contrário de outros genocidas, exibe e não esconde os seus crimes?

“O que mais me surpreendeu, e não deveria ser uma surpresa, é que a maioria dos que partiram são jovens normais, homens e mulheres”, diz-me, por e-mail, Amarnath Amarasingam, que dirige um estudo sobre combatentes estrangeiros na Universidade de Waterloo, no Canadá, e é autor (com o sociólogo Lorne L-Dawson) do relatório I Left to be Closer to Allah, publicado pelo Institute for Strategic Dialogue, em Londres, onde é senior fellow.

“É claro que alguns têm problemas mentais, vários tiveram uma infância difícil, outros queriam fazer alguma coisa depois de verem imagens de massacres na Síria e outros ainda queriam fazer parte da criação de uma utopia, onde a lei islâmica [Sharia], como eles a vêem, seria aplicada na sua forma mais pura.”

Estes combatentes “partiram por um conjunto de razões diferentes, mas não achei que algum deles fosse malvado ou doido”, observa Amarasingam, considerado um dos mais brilhantes especialistas em extremismo.

“Eles acreditavam profundamente em algo e agiam em conformidade. Podemos considerar repugnantes estas convicções e as organizações a que eles se juntaram, mas precisamos de perceber como eles pensam e agem se quisermos impedir a próxima geração de cometer os mesmos erros.”

Uma família de desalojados da aldeia de Shora, 25 km a sul de Mosul, no Iraque, onde o Daesh proclamou o “califado” em 2014, à chegada a um checkpoint do exército iraquiano nos arredores de Qayara, em Outubro de 2016
© Ivor Prickett | panos.co.uk

“A ideia de que os jihadistas são niilistas violentos não faz sentido, porque, para eles, as suas acções fazem TODO o sentido”, salienta o investigador canadiano.

“Eles estão envolvidos numa guerra cósmica. Este mundo é apenas um trampolim para o próximo. Cada gesto seu tem um significado e consequências sobre o seu corpo, a sua mente, as suas famílias e a sua vida além-morte. É o exato oposto do niilismo.”

Amarasingam reconhece que o regresso dos combatentes estrangeiros “será o grande desafio do futuro”, dada a sua complexidade. “Por um lado, sim, muitos dos que pretendem voltar estão desiludidos e tencionam continuar a batalha nos seus países.”

“Outros reconhecem que erraram e querem seguir em frente. Há também os que continuam profundamente comprometidos [com a jihad], não admitem que erraram e terão de ser vigiados de perto. Mas durante quanto tempo? Quando é que saberemos que eles se des-radicalizaram? É difícil dizer.”

A mesma situação se aplica às mulheres destes combatentes que foram para o califado. “Algumas partiram de bom grado, enfrentaram dificuldades para lá chegar, ocuparam casas que eram de sírios, abusaram dos habitantes locais [escravizaram yazidis, por exemplo].”

“São cúmplices dos crimes do ‘estado islâmico’. Outras apaixonaram-se por combatentes em conversas online ou foram levadas pelos maridos. O espectro é, como se vê, difícil de avaliar de uma perspetiva de segurança ou de avaliação de risco.”

As crianças, realça Amarasingam, são uma questão igualmente complicada. “Milhares nasceram na Síria de pais de umas 50 nacionalidades. Muitos dos países de origem [dos combatentes estrangeiros] tiveram seis anos [desde a progressão militar do Daesh em 2013] para tomar uma decisão.”

“Mas não fizeram disso uma prioridade política. Agora, esses menores estão em campos de tendas, doentes e a morrer. É uma vergonha.”

“São crianças que enfrentaram o abandono, a morte de um dos pais, uma educação interrompida, uma exposição prematura à violência e outros problemas”, lembra o académico canadiano.

“É necessário acolher essas crianças e dar-lhes apoio médico e psicológico. Não as podemos deixar como penhora aos curdos ou perdidos no Iraque.”

É também este o conselho de Daniel Byman, autor de Road Warriors: Foreign Fighters in the Armies of Jihad, que distingue entre combatentes estrangeiros (“os que deixam a pátria por uma causa”) e mercenários (“os que lutam por dinheiro”).

“Os países europeus devem assumir a responsabilidade pelos seus combatentes”, diz-me Byman, numa breve entrevista por e-mail, enfatizando que “será um erro” deixá-los no Iraque e na Síria.

“As crianças do califado com direito a cidadania europeia devem ser recebidas na Europa, tratadas como vítimas de abusos e não como potenciais ameaças.”

Um soldado das forças especiais iraquianas, numa posição defensiva no bairro de Rifai, em Mosul, dispara conta combatentes do Daesh na cidade, em Maio de 2017. Em 8 de Julho do mesmo ano, a cidade onde Abu Bakr al-Baghdadi se proclamou califa foi libertada
© Ivor Prickett | panos.co.uk

Homens que fugiram das áreas controladas pelo Daesh em Hawija, aguardam para ser interrogados por forças de segurança numa base perto de Kirkuk, no Curdistão iraquiano, em Dezembro de 2016
© Ivor Prickett | panos.co.uk

Se não há consenso quanto ao acolhimento dos “retornados”, há unanimidade quanto à ameaça que o Daesh continua a representar apesar do colapso do califado e de – nota Daniel Byman – “uma grande redução” no número de novos combatentes, “desencantados com o fracasso dos que prometiam combater os inimigos do Islão”.

“O ‘estado islâmico’ entrará, possivelmente, num compasso de espera na Síria e no Iraque, onde ressurgirá quando as condições forem propícias”, prevê Amarnath Amarasingam.

Até lá, porque “precisa de comunicar ao mundo que ainda é relevante e o seu alcance continua global, retomará a atividade na Ásia do Sul [onde, em 21 de abril, no Sri Lanka, clamou responsabilidade por uma série de atentados suicidas que causaram quase 300 mortos e 500 feridos], no Sudeste Asiático e em algumas zonas de África”.

No dia 4 de junho [de 2019], o Daesh reivindicou, pela primeira vez, uma presença em Moçambique, qualificando o país como um “ramo da África Central”, depois de um alegado confronto com o exército moçambicano, em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado.

A insurreição no norte de Moçambique, envolvendo um misterioso grupo designado por al-Shabab, numa região onde multinacionais exploram petróleo e os habitantes vivem em extrema pobreza, começou em 2017 e já causou mais de 150 mortos. Alguns foram decapitados em aldeias depois incendiadas.

Que o Daesh se aproveita de Estados e regiões vulneráveis é o que constata Colin P. Clarke, em After the Caliphate, em que refere quatro cenários futuros para o movimento salafista-jihadista global: a Al-Qaeda Central, de Ayman al-Zawahiri, suplanta o Daesh, de Abu Bakr al-Baghdadi; a Al-Qaeda e o Daesh reconciliam-se; o Daesh renasce em detrimento da Al-Qaeda; ou ambos se tornam insignificantes.

“De momento, especialmente depois dos atentados no Sri Lanka, e porque continua ativo no Iraque e na Síria, não vejo o ‘estado islâmico’ a desaparecer no curto prazo”, diz-me Clarke, investigador no International Centre for Counter-Terrorism, em Haia (Holanda).

“A Al-Qaeda foi criada em 1988 e ainda cá anda 30 anos depois, avançando agora na província de Idlib, na Síria.”

Antes de começar o assalto ao derradeiro ao último bastião do Daesh, centenas de mulheres e crianças fugiram de Baghouz, uma pequena aldeia entre o Iraque, a leste, e o rio Eufrates, a ocidente e a sul. Ali viveriam, segundo fontes oficiais, cerca de 1500 civis e uns 500 combatentes do “estado islâmico”
© Rodi Said | Reuters | Business Insider

Audrey Kurth Cronin, que no seu livro destaca seis dinâmicas para o fim dos grupos terroristas – decapitação (o destino de Abimael Guzmán, líder do Sendero Luminoso, preso no Peru), negociações (o exemplo do IRA na Irlanda do Norte), sucesso (o caso do ANC na África do Sul), fracasso (o destino do Grupo Islâmico no Egipto), repressão (como aconteceu aos separatistas na Techetchénia) e reorientação (o caminho do Hezbollah no Líbano) –, acha que o Daesh só poderá seguir noutra direção ou tornar-se irrelevante.

“A reorientação, desde 2015, já transformou o ‘estado islâmico’ de um exército convencional numa mais pequena insurreição, um grupo terrorista transnacional profundamente enfraquecido que tenta reagrupar-se em lugares como o Afeganistão ou a Líbia”.

“A segunda dinâmica – o fracasso – também parece em marcha”, adianta a professora em Washington. “Para cativar a imaginação popular, o ‘estado islâmico’ definiu a sua identidade conquistando território e criando um califado.”

“É óbvia a diferença entre o que o grupo apregoa e a realidade no terreno. Isto não quer dizer que não irá planear novos ataques, mas o mais provável é a emergência de um sucessor diferente.”

O que Clarke e Cronin excluem por completo é a possibilidade de negociações, como as que estão em curso entre os Taliban e os Estados Unidos.

“É impossível negociar com a Al-Qaeda ou com o ‘estado islâmico’, porque estes são grupos terroristas transnacionais com objetivos globais, ao contrário dos Taliban, cujas preocupações se limitam ao Afeganistão”, comenta Clark.

Quase 30 mil pessoas, segundo fontes oficiais, terão fugido de Baghouz (onde estariam refugiadas em grutas e túneis), entre o início de Janeiro e meados de Março de 2019. Cerca de 5000 seriam combatentes
© Rodi Said | Reuters | Business Insider

[Em 17 de Agosto de 2019, o Daesh reivindicou, em comunicado, que um dos seus combatentes se fez explodir num casamento na capital afegã, causando pelo menos 63 mortos e 180 feridos entre os mais de mil convidados. Sobreviventes (entre eles os noivos) e vítimas pertencem à marginalizada minoria hazhara, que é xiita – fiéis do ramo do Islão que o Daesh, sunita, considera “o inimigo próximo” e prioritário, ao contrário da America, o “inimigo longínquo”.

Foi um dos mais mortíferos atentados do “estado islâmico”, numa altura em que os Taliban se preparam para negociar com o Governo de Cabul, depois de se terem comprometido em respeitar um cessar-fogo e em não apoiar “ataques terroristas internacionais”, como os do Daesh e da Al-Qaeda, para assim acelerar a partida dos restantes 14 mil soldados americanos.

Analistas acreditam que o Afeganistão (a par do Sahel e da África Ocidental) poderá ser o território onde o Daesh, que ali terá cerca de 3000 combatentes, alguns deles antigos taliban desiludidos, tentará restabelecer o califado que perdeu na Síria e no Iraque.

O ataque ao casamento em Cabul, além de seguir a habitual estratégia de instilar o medo, terá sido “uma demonstração de supremacia” por parte do Daesh, numa “competição pelo poder” com os Taliban, escreveu, no jornal britânico ‘The Guardian’, Jason Burke, que é autor de vários livros sobre a Al-Qaeda e o “estado islâmico”.]

Mulheres combatentes das Forças Democráticas Sírias, coligação de curdos e árabes conhecida pela sigla inglesa SDF, celebram a derrota do Daesh em Raqqa, na Síria, em 20 de Outubro de 2017, depois de uma campanha miitar que durou quatro meses
© AFP | Getty Images | The Independent

“A única maneira de combater o movimento salafista-jihadista global, violento contra não muçulmanos e muçulmanos [xiitas] que despreza como apóstatas, é derrotar as suas estratégias de mobilização e polarização”, defende Audrey Cronin, cujo próximo livro será Power to the People: How Open Technological Innovation is Arming Tomorrow’s Terrorists.

Esta obra alerta para o modo como as redes sociais, drones e outra robótica ou a inteligência artificial dão poderes a grupos e indivíduos para desencadearem novas formas de guerra.

“Temos de conter a capacidade de eles recrutarem e treinarem seguidores, sobretudo pela via digital. E devemos impedi-los de galvanizar populações segundo linhas sectárias – as que permitiram ao Estado Islâmico ganhar força. Não poderemos vencer este movimento se não contrariarmos a sua capacidade para semear divisões, explorar ódios e justificar a violência.”

* Acrónimo árabe de ‘al-Dawla al-Islamiya al-Iraq al-Sham’ (Exército Islâmico do Iraque e Levante), Daesh é a designação usada e preferida pela maioria dos muçulmanos, por ser semelhante às palavras árabes Daes (“aquele que esmaga algo com os pés) e ‘Dahes ‘(“aquele que semeia a discórdia”).

Ao serviço da jihad 

Elementos de uma unidade de contraterrorismo iraquiana exibem (em 2017) uma bandeira do Daesh de pernas para o ar, junto das ruínas da Mesquita de al-Nuri, onde Abu Bakr al-Baghdadi se proclamou califa em 2014
© AFP | Getty Images | slate.com

37.497–41.490

Número estimado de cidadãos de 80 países juntaram-se ao Daesh na Síria e no Iraque, dos quais 32 808 homens (75%). Cerca de 5000 partiram de Estados europeus.

4162-4761

Eram mulheres, ou seja, 10 a 13% do total;

3704-4640

Eram menores, isto é, 9 a 12% do total, dividindo-se estes em três categorias: bebés (0-4 anos); crianças (5-14) e adolescentes (17-17);

18.852

Combatentes eram originários do Médio Oriente e Norte de África, 7252 da Europa de Leste, 5965 da Ásia Central, 5904 da Europa Ocidental, 1010 da Ásia do Leste, 1063 da Sudeste Asiático, 753 das Américas, Austrália e Nova Zelândia, 447 da Ásia do Sul e 244 da África Subsariana.

7145-7366

Pessoas já regressaram aos seus países (20% do total) – 79% homens, 4% (256) mulheres e 411-1180 menores (17%).

Fonte: ‘From Daesh to “Diaspora”: Tracing Women and Minors of Islamic State’, relatório publicado em 2018 pelo International Centre for the Study of Radicalisation, do King’s College, em Londres.

Hamza bin Laden já não é uma ameaça

Uma fotografia de Hamza bin Laden, supostamente tirada no dia do seu casamento, encontrada pelas forças especiais americanas no refúgio onde assassinaram o seu pai em 2011 e divulgada pela CIA

Em Fevereiro, os Estados Unidos ofereceram uma recompensa de um milhão de dólares a quem ajudasse a localizá-lo. Em Março, a Arábia Saudita revogou a sua cidadania. Aos 29-30 anos, Hamza bin Laden era a esperança da Al-Qaeda de voltar a ser relevante no movimento jihadista global, agora que o rival Daesh perdeu o “califado”.

Terá sido assassinado em 2017, segundo três fontes de espionagem americanas citadas pela NBC News. Se isso se confirmar, será um duro golpe para a Al-Qaeda.

Único filho de Khairia Sabar, descrita como a preferida das quatro mulheres de Osama bin Laden, Hamza seria o único dos irmãos que se mostrava determinado a dar continuidade às ambições do pai, e a vingar a sua morte.

Osama, arquiteto dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, foi assassinado dez anos depois por forças especiais americanas no Paquistão. E seria aqui, mais precisamente do lado afegão da fronteira, que Hamza estaria refugiado e de onde divulgava gravações áudio e vídeo apelando a novos ataques contra “os judeus” e “os cruzados”.

Em 2015, por exemplo, Hamza apelou a ataques contra interesses dos EUA, da França e de Israel, assim como a atentados em capitais ocidentais. No ano seguinte, exortou os fiéis à união na Síria (onde a Al-Qaeda Central e o Daesh são rivais) com o objectivo de “libertar a Palestina, e avisou os americanos de que continuariam a ser alvos.

Em 2017, numa gravação áudio, Hamza reivindicou responsabilidade por um atentado bombista em Manchester, dez dias depois de ter sido cometido, mas investigadores nunca estabeleceram qualquer ligação com a Al-Qaeda.

Antes da notícia do seu presumível (e misterioso) desaparecimento, especialistas em questões de segurança dividiam-se quanto à possibilidade de Hamza poder vir a liderar a “Rede” fundada pelo pai.

Uns duvidavam que, com “pouco treino militar e refém de Ayman al-Zawahiri”, o sucessor de Osama, o jovem Hamza fosse capaz de revitalizar uma organização fragilizada por várias cisões e derrotas militares.

Outros acreditavam que com o seu “pedigree familiar, fervor jihadista e carisma”, ele já era “uma estrela em ascensão” capaz de cativar novos fiéis e financiadores no Golfo Pérsico desiludidos com o Daesh.

Em declarações ao diário britânico The Guardian, Peter Bergen, autor de vários livros sobre a Al-Qaeda, exprimiu dúvidas sobre se Hamza bin Laden seria um verdadeiro líder operacional. “Terá ele feito alguma coisa?”, interrogou-se. “Terá ele comandado alguma operação significativa [na Síria, no Iémen ou em África onde a Al-Qaeda Central tem “filiais”]?” Ainda não há respostas.

Audrey Kurth Cronin, autora de uma obra de referência, How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise of Terrorist Campaigns
© Alexis Glenn | Creative Services | George Mason University

Amarnath Amarasingam, professor na Universidade de Waterloo, no Canadá, autor (com o sociólogo Lorne L-Dawson) do relatório I Left to be Closer to Allah, publicado pelo Institute for Strategic Dialogue, em Londres
© Dylan Robertson | calgaryherald.com

Daniel Byman, autor de Road Warriors: Foreign Fighters in the Armies of Jihad
© alchetron.com

P. Clarke, autor de After the Caliphate e investigador no International Centre for Counter-Terrorism, em Haia (Holanda)
© Foreign Policy Research Institute

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO, edição de 10 de Julho de 2019 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, July 10, 2019 edition

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