O juízo final do estado (não) islâmico

O grupo que em 2014 mudou a geografia do Médio Oriente perdeu o “califado” cinco anos depois de o ter proclamado. Esvaiu-se a sua utopia messiânica, mas não o pesadelo que a ideologia salafista-jihadista representa. Caner K. Dagli, co-autor de uma monumental obra de exegese do Corão, e Jessica Stern, antiga conselheira de segurança de Bill Clinton, ajudam-nos a explicar a trajectória religiosa e belicosa do Daesh*. (Ler mais | Read more...)

Combatentes apoiados pelos EUA vigiam um edifício no povoado de Baghouz, o último reduto do “califado” do Daesh na Síria, em 3 de Março de 2019
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images | NPR

Jessica Stern não ficou surpreendida com o curto tempo de vida do “califado” que o Daesh proclamou em Junho de 2014, depois do que parecia uma ascensão imparável, de Aleppo, na Síria, até Mosul, no Iraque. Caiu em Março. Na ignomínia.

“Ao controlar um território do tamanho da Grã-Bretanha, o que é raro para a maioria dos grupos terroristas contemporâneos, o ‘estado islâmico’ tornou-se bastante vulnerável – os seus inimigos sabiam onde o encontrar, porque o seu endereço tinha remetente”, diz-me a autora de ISIS: The State of Terror e Terror in the Name of God: Why Religious Militants Kill.

O grupo perdeu o território sob seu domínio, mas “permanece uma ameaça importante”, alerta a investigadora que foi membro do Conselho Nacional de Segurança do Presidente Bill Clinton e hoje é professora na Universidade de Boston, nos EUA.

“Segundo responsáveis militares americanos, dezenas de milhares de combatentes sírios e iraquianos continuam escondidos na região, dezenas de milhares de combatentes estrangeiros escaparam, alguns deles regressando aos países de origem, e outros foram para as wilayats ou províncias do Daesh”, refere a académica a quem o Council on Foreign Affairs deu o título de Superterrorism Fellow.

O Daesh tem atualmente “cerca de dez wilayats e umas duas dezenas de redes [salafistas-jihadistas]”, adianta Jessica Stern. “Expande-se internacionalmente graças à colaboração com grupos rebeldes locais. Se um destes grupos promete lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi, [o ‘“califa’ do ‘estado islâmico’], e este juramento é aceite, tornam-se imediatamente afiliados.”

“Alguns deles são declarados províncias. Foi o que aconteceu com o Boko Haram [na Nigéria], que é a ‘Província da África Ocidental; o Abu Sayyaf e outros grupos nas Filipinas e na Indonésia, a ‘Província da Ásia do Leste’; e o Ansar Beit al-Maqdis, a ‘Província do Sinai’ [no Egipto]”.

Em Abril, num vídeo que o Daesh divulgou, Baghdadi anunciou a criação de uma nova “província”, na África Central, e aceitou os juramentos de lealdade de grupos no Mali e no Burkina Faso. Neste país, em particular, os alvos têm sido igrejas católicas – três ataques entre Abril e Maio.

É por tudo isto que Jessica Stern está pessimista: “Quando as forças americanas deixaram o Iraque em 2011, havia no país 700 membros da Al-Qaeda. Agora, pelo menos segundo Donald Trump, o ‘estado islâmico’ foi mais uma vez ‘derrotado’ – mas isto não é verdade!”

“Sim, perdeu o seu proto-estado, mas continua a ser uma poderosa organização terrorista, com dezenas de milhares de combatentes e centenas de milhões de dólares.”

Como é que um exército genocida e apocalíptico pode continuar a exercer este poder de atração depois de uma vexante derrota? “Muitos dos que viveram esse pesadelo continuam a acreditar na utopia”, diz a especialista em terrorismo. “Apesar de uma realidade horrenda sob o ‘estado islâmico’, milhares de pessoas continuam a ser-lhe fiéis.”

Campo de refugiados de al-Hawl, que acolheu muitos dos que fugiram após a queda do califado do Daesh na Síria
© Quentin Sommerville | New Statesman

Em 2015, num ensaio publicado na revista The Atlantic, sob o título What ISIS Really Wants e no qual tenta explicar por que o Daesh funciona como um íman não apenas para aventureiros e psicopatas, mas também para seguidores fervorosos, o autor, Graeme Wood, gerou controvérsia ao declarar: “A realidade é que o ‘estado islâmico’ é islâmico: Muito islâmico.”

Para Wood, todas as decisões e leis promulgadas pelo Daesh “aderem a uma ‘metodologia profética’, isto é, seguem o exemplo de Maomé ao mais ínfimo pormenor”. Os muçulmanos, acrescenta, “podem rejeitar o ‘estado islâmico’; quase todos o fazem”, mas não podem “fingir que este grupo não é religioso”.

Citando Bernard Heykel, que ele descreve como “o principal especialista na teologia” do Daesh, Wood observa que, muitas organizações muçulmanas, ao considerarem o Daesh “não islâmico”, padecem de “uma visão cor de rosa da sua própria religião”, desvalorizando o que esta “exige do ponto de vista legal e histórico”.

Insistir em que o Daesh “distorce” as escrituras do Islão “é absurdo e só se compreende por ignorância intencional”, diz Heykel a Wood.

“As pessoas querem absolver o Islão [com] o mantra de o Islão ser uma ‘religião de paz’. (…) O Islão é o que os muçulmanos fazem e como interpretam os seus textos [sagrados]. E estes textos são partilhados por todos os muçulmanos sunitas”, não apenas o Daesh – que “tem tanta legitimidade como os outros.”

Para Haykel, professor americano de origem libanesa na Universidade de Princeton, os combatentes do Daesh “são reminiscências autênticas do Islão original e reproduzem fielmente as nomas da guerra” definidas no Corão.

“Escravatura, crucificação e decapitação são métodos da tradição medieval adormecidos há centenas de anos que os jihadistas fizeram reviver”. O que mais surpreende, acrescenta, “não é apenas o seu literalismo, mas a seriedade com que lêem esses textos.”

Os argumentos de Graeme Wood e Bernard Heykel mereceram uma crítica dura (The Phony Islam of ISIS) de Caner K. Dagli, professor de Estudos Religiosos no Jesuit College of the Holy Cross, em Worcester (Massachusetts, EUA), co-autor de uma extraordinária obra de tradução e comentário do Corão, The Study Quran.

A interpretação que o Daesh faz da religião “não é literal, nem séria”, mas sim “estreita, rígida e exclusivista”, sublinhou Dagli. A sua “metodologia profética” não passa da prática de “escolher o que lhe convém e desprezar o que não lhe interessa”, ignorando séculos de exegese por parte de juristas e teólogos – sunitas e xiitas.

Uma bicicleta no meio de veículos calcinados em Baghouz, o povoado onde morreu o “califado” do Daesh na Síria
© Chris McGrath | Getty Images | The Washington Post

Embora relacionados, o “Islão” que corresponde à Cristandade (a civilização) distingue-se do “Islão” que corresponde ao Cristianismo (a religião), uma distinção que, recomenda Dagli, também deve ser feita quando se usa os termos “islâmico” e “não islâmico”. Os muçulmanos para quem o Daesh é “não islâmico” não negam que os combatentes do grupo sejam “muçulmanos.”

“Pense nesta afirmação: Os nazis são ocidentais”, diz-me Dagli, em entrevista por email, o académico de ascendência circassiana nascido na América. “De um ponto de vista, é uma afirmação inegável: os nacional-socialistas [de Hitler] não vieram da Mongólia.”

“Mas se eu afirmar, ‘Os nazis são muito ocidentais’ (como Wood disse, que o Daesh é muito islâmico), então as pessoas percebem imediatamente a distinção. O primeiro uso de “ocidental” ou “islâmico” é uma descrição geográfica/civilizacional, o segundo é um julgamento de valor sobre a melhor e a pior expressão de uma civilização.”

Quando perguntamos o que o Daesh pensaria de Study Quran – uma obra de cinco autores e quase 2000 páginas, “ecuménica sem ceder às agendas do liberalismo secular”, que demorou uma década a produzir e incorpora várias tradições proféticas (hadith) –, Caner K. Dagli responde: “Tenho a certeza que, para eles, não tem qualquer interesse.”

Na interpretação que o grupo de Baghdadi faz das escrituras, “o problema está no facto de eles acreditarem em todas as noções rígidas dos textos sagrados, acreditarem que deve ser óbvio para todos que a leitura que eles fazem é a correcta, e que quem não concorda com eles só pode ser estúpido ou demoníaco.”

“Esta é a marca de todos os fundamentalistas (políticos, religiosos, ideológicos), que, de um modo geral, não compreendem que outros possam, em boa fé, olhar para as mesmas fontes de autoridade e chegar a uma conclusão diferente”, lamenta Dagli.

“Felizmente que o mundo cultural intelectual islâmico, na sua maioria, sempre foi capaz de tolerar uma pluralidade de ideias e ver nessa variedade uma força e não uma fraqueza.”

“Nem todos percebem que os maníacos que enchem as fileiras do ‘estado islâmico’ têm por vezes zero conhecimento religioso e só se interessam por uma gloriosa violência para sua própria exaltação, encontrando na ideologia deste grupo uma justificação pronta a usar para matar sem limites.”

Homens que fugiram do último bastião do Daesh na Síria esperam numa fila para serem interrogados por forças curdas e americanas
© Richard Hall | The Independent

Alguns analistas dizem que é impossível entender “a mente do estado islâmico” sem perceber a história do wahhabismo, a doutrina puritana e castradora do teólogo Muhammad ibn ‘Abd al-Wahhab, que, em 1774, firmou um pacto político-religioso com Muhammad ibn Saud, ajudando-o a estabelecer o primeiro Estado saudita, o Emirado de Diriyah. Uma doutrina que se mantém no reino actual.

Wahhab, tal como Baghdadi, intimava os fiéis a jurar lealdade a um único líder muçulmano. Os desobedientes seriam mortos, as suas mulheres violadas, os seus bens confiscados. Também ele era um takfiri, o que excomunga e mata os “apóstatas”.

Foi ele quem reintroduziu a ideia de “martírio em nome da jihad”, garantindo aos suicidas “entrada imediata no paraíso”.

“É verdade que, em termos das suas crenças em relação aos não muçulmanos e até a outros muçulmanos (como os xiitas), os wahhabitas na Arábia Saudita e os salafistas, em geral, têm bastantes conceitos nocivos em comum”, admite Caner K. Dagli.

“Mas não basta perguntar o que liga as posições de ambos em termos de violência. Também devemos questionar a razão por que, em muitos casos, elas não conduzem à violência.”

“É conveniente para as potências ocidentais centrarem-se em questões ideológicas, porque isso desvia a atenção do facto de a existência do Daesh ser impossível sem a destruição do Iraque (ver segundo texto).”

Em todo o caso, reconhece, é verdade que “alguns destacados líderes religiosos sauditas não sabem como lidar com o facto de grupos como o ‘estado islâmico’ se basearem em textos considerados normativos do sistema wahhabita do seu reino”.

Foi na Arábia Saudita que nasceu Osama bin Laden, o fundador da Al-Qaeda (“A Rede”) e mentor do jordano Abu Musab al-Zarqawi, “pai” do Daesh, ambos assassinados por forças americanas. Embora um e outro fizessem parte do movimento salafista-jihadista global, o ‘estado islâmico’ liderado agora pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi rapidamente suplantou a casa-mãe, que passou a ser dirigida pelo egípcio Ayman al-Zawahiri.

Membros das Forças Democráticas Sírias, coligação árabe-curda apoiada pelos Estados Unidos e conhecida pela sigla inglesa SDF, descansam depois de uma operação para repelir terroristas do Daesh em Baghouz
© AFP | South China Morning Post

Desde 2014, quando cortaram relações, devido a divergências inconciliáveis na luta pela supremacia (ver segundo texto), que o Daesh e a Al-Qaeda Central se digladiam numa guerra civil de carácter regional, tribal, étnica e nacionalista.

“Os grupos jihadistas estão constantemente a dividir-se e a fundir-se, voltando a dividir-se e a fundir-se”, atenta Jessica Stern que, em ISIS: The State of Terror, dedica um capítulo inteiro à rivalidade entre Baghdadi e Zawahiri. “Eles competem por dinheiro, combatentes e atenção, mas também colaboram ocasionalmente.”

“O Daesh emergiu de uma cisão na Al-Qaeda no Iraque e é possível que volte a integrar a Al-Qaeda Central”, indica a investigadora americana. “O ‘estado islâmico’ continuou a extraordinária brutalidade e violência anti-xiita da predecessora, Al-Qaeda no Iraque [AQI]; embora a Al-Qaeda Central evite este tipo de crueldade em que o Daesh se especializou, ambos continuam a ser organizações implacáveis, e ambos aprendem com a concorrência.”

Embora o Daesh olhe o mundo de forma totalitária e niilista, Jessica Stern garante que “não representa ameaça existencial para qualquer país ocidental”. E explica porquê: “Há 79 Estados numa coligação contra o ‘estado islâmico’.”

“Mesmo com dezenas de milhares de seguidores, [este grupo] constitui, para o Ocidente, uma ameaça psicológica mais do que militar. É provável que continue a expandir-se em países com governos fracos, em democracias iliberais ou incompletas, em guerras civis sectárias. São estes os factores de risco conhecidos na propagação de grupos terroristas.”

E será possível algum dia negociar com o Daesh como os EUA estão a fazer com os Talibã no Afeganistão? “É provável que alguma entidade venha, numa determinada altura, a negociar com Baghdadi, mas quase seguramente nenhum Estado ocidental.”

Civis que fugiram de Baghouz, o último reduto do Daesh, aguardam a sua vez para embarcarem em Camiões depois de passar pelo controlo das Forças Democráticas Sírias, num posto provisório de vigilância, em 9 de Fevereiro de 2019
© Chris Mcgrath | Getty Images | The Washington Post

Desmantelado o “califado”, um dos grandes desafios para os Estados na Europa cujos cidadãos se juntaram ao Daesh será decidir o que fazer com os que regressam, em particular com as mulheres e filhos desses mujahedin – a maioria vítimas, mas alguns também perpetradores de crimes de guerra.

Dos mais de 42 mil combatentes estrangeiros do Daesh, cerca de 5000 eram europeus. Destes, aproximadamente 30% regressaram a casa e outros 14% terão sido mortos, informa Colin P. Clarke no seu livro After the Caliphate.

“Esta é uma questão extremamente difícil de responder”, afirma Jessica Stern, que ajudou a organizar os primeiros programas de des-radicalização, reabilitação e reintegração de terroristas, cuja eficácia ainda não foi possível avaliar.

“Há riscos significativos, seja qual for o modo que os países escolham lidar com a situação. Se eu tivesse de tomar uma decisão, ela dependeria do número de operacionais e do seu perfil de ameaça.”

Entre Junho de 2014 e Junho de 2017, foram cometidos 32 ataques jihadistas na Europa, dos quais 17 só em França. Entre Junho de 2017 e Junho de 2018, houve mais uma dúzia.

“Seria miopia minimizar o significado da ideologia islamista” do Daesh, “porque o salafismo-jihadismo se tornou num poderoso movimento social, uma marca popular e duradoura que veio para ficar e ganhar mais adeptos”, escreve o académico libanês Fawaz A. Gerges em ISIS: A History.

Em sua opinião, para “proteger o sagrado da manipulação política e o Estado da manipulação religiosa”, o objectivo deveria ser “uma separação formal da mesquita e do Estado.”

O que resta da Universidade de Mosul, no Iraque, depois de ter sido incendiada e destruída durante uma batalha contra o Daesh, em 10 de Abril de 2017 – princípio do fim do califado
© Marko Djurica | Reuters

Será possível este processo histórico?, perguntamos a Caner K. Dagli. “Porquê este apelo, agora? É esta a questão”, responde. “De um modo geral, as pessoas preferem olhar para factores dentro do Islão, sem tentar compreender 1400 anos de civilização islâmica.”

“O nível do discurso sobre ideologia e violência no mundo islâmico tende a ser caricato. Imagine alguém a tentar explicar o conflito na Irlanda do Norte com base na ideologia católica ou protestante e a leitura dos respectivos textos sagrados.”

“A discussão sobre o mundo muçulmano está muitas vezes a este nível, porque, e esta é a principal razão, os intelectuais ocidentais tentam evitar a discussão sobre o papel desempenhado pelo domínio ocidental no mundo de maioria muçulmana e os efeitos das guerras.”

“Qualquer proposta de explicar o ‘estado islâmico’ ou os Taliban que não comece na destruição das sociedades do Iraque e do Afeganistão por uma invasão armada não é séria, e deve ser ignorada”, esclarece Dagli.

“Imaginem a América a ser invadida e ocupada durante 20 ou 30 anos, ter o seu exército dissolvido, a sua sociedade civil destruída, a sua economia de rastos, uma grande parte da sua população deslocada, e depois receber lições de potências estrangeiras sobre o papel da religião na sociedade e o apelo do Cristianismo radical.”

“Eu diria: deixem as pessoas em paz e, então, se a sua incapacidade para ‘separar mesquita e Estado’ ainda continuar a causar problemas, então terão o direito de dizerem alguma coisa. Além disso, quem é que nomeou o Ocidente árbitro do que o mundo muçulmano deve ou não fazer com as suas sociedades?”

Apesar de tudo, reconhece Dagli, “não há dúvida que o mundo muçulmano tem muitos problemas que são internos e não são responsabilidade de potências externas – afinal de contas, o wahhabismo na Arábia Saudita nada tem a ver com o imperialismo ocidental.”

Daesh: ascensão, queda – e futuro

Membros das Forças Democráticas Sírias (coligação de curdos e de árabes apoiada pelos EUA) de vigia em Raqqa, na Síria, em 20 de Outubro de 2018, depois de conquistarem a cidade que o Daesh proclamara “capital do califado
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images | The Guardian

O autoproclamado “estado islâmico” nasceu no Iraque como um ramo da Al-Qaeda. Cresceu com a invasão de Bush para derrubar Saddam, o sectarismo do governo xiita de Maliki e o vazio de poder na Síria de Assad. Com uma ideologia genocida e apocalíptica, tornou-se na mais famosa e infame das organizações do movimento salafista-jihadista global. Esta é a sua história:

2003

Em 20 de Março, George W. Bush anuncia o início da guerra no Iraque, depois de convencer o mundo que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça – nunca encontradas.

Em 9 de Abril, a coligação militar liderada pelos EUA, derruba o ditador em Bagdad e, em Maio, ordena não só a dissolução do Baas, o partido único que há 35 anos governava o país, mas também do Exército e serviços secretos.

Ficam sem emprego e com armas mais de cem mil pessoas, a maioria delas sunitas num país predominantemente xiita – receita para um conflito interconfessional.

Em 19 de Agosto, o Jama’at al-Tawid wal-Jihad (TWJ, Grupo do Monoteísmo e Jihad), chefiado pelo jordano Ahmad Fadhil Nazzal al-Kalayah – mais conhecido pelo “nome de guerra” Abu Musab al-Zarqawi –, faz-se anunciar com um estrondo, ao destruir à bomba o quartel-general da ONU num hotel em Bagdad.

2004

Em Abril, soldados e mercenários dos EUA no Iraque cercam a cidade sunita de Falluja, onde ficam durante um mês – centenas de pessoas são mortas. A CBS News divulga imagens de uma série de abusos cometidos, em 2003, por militares americanos e agentes da CIA, na prisão de Abu Ghraib: espancamentos, sodomia, assassínios.

Em Junho, os EUA entregam a soberania do Iraque a um governo interino dirigido pelo antigo exilado xiita Iyad Allawi.

Em Outubro, beneficiando do crescente sentimento anti-americano, Zarqawi transforma o TWJ em Al-Qaeda no Iraque (AQI). Jura baya (lealdade) a Osama bin Laden, que conhecera no Afeganistão e cuja organização, diminuída após reveses no Afeganistão, Paquistão, Iémen e Arábia Saudita, recupera vitalidade com a guerra de Bush.

Em Novembro, convencido por 93 teólogos a apoiar a jihad de Zarqawi – centrada no “inimigo próximo” (os xiitas, a que chama Rafidah – “apóstatas e politeístas” – e os “traidores” sunitas) e não no “inimigo longínquo” (os EUA), prioridade da Al-Qaeda Central, Bin Laden nomeia-o “emir” ou chefe da AQI. É um “casamento de conveniência, ditado pelos interesses de ambos e não pela teologia”.

O objectivo de Zarqawi é ter acesso a fundos e beneficiar de uma “marca célebre” que pode atrair combatentes estrangeiros. Para Bin Laden, é a oportunidade de reivindicar vitórias militares contra as tropas americanas e rejuvenescer a sua base com novos recrutas árabes e muçulmanos.

2005

Em Maio, sob a liderança de Zarqawi, um arruaceiro conhecido na sua aldeia “pelas tatuagens e por beber como um peixe” – práticas proibidas pelo Islão a que aderiu tardiamente ao sair da cadeia após cumprir pena por “roubo, crime sexual e venda de droga”, a AQI intensifica os atentados, raptos, crucificações e decapitações.

O método preferido de Zarqawi é enviar bombistas suicidas para mesquitas, mercados ou esquadras da polícia. Causa o máximo de danos e cativa publicidade. É com orgulho que os fiéis o apelidam de “Xeque dos Matadouros”.

2006

Desfile de combatentes do Daesh em Raqqa, por eles proclamada capital do “califado”, na Síria,, em 30 de Junho de 2014
© Reuters

Em 22 de Abril, o recém-eleito presidente iraquiano, Jalal Talabani, um curdo, pede a Nuri al-Maliki, um xiita, para formar um governo de unidade e pôr fim a meses de impasse político.

Em 7 de Junho, forças americanas matam Zarqawi durante um ataque aéreo ao seu refúgio perto de Baquba.

Em Outubro, o Conselho Shura dos Mujahedin, criado para (em vão) reconciliar facções islamistas e líderes tribais sunitas, dá uma “identidade nacional” à insurreição, nomeando para novo “emir” o iraquiano Hamed Dawood Mohammed Khalil al-Zawi, que adopta o “nome de guerra” de Abu Omar al-Baghdadi.

Em Dezembro, condenado por crimes contra a humanidade, Saddam Hussein é executado em Camp Justice, uma base conjunta americana-iraquiana, nos arredores de Bagdad.

2007

Em Janeiro, o ISI/EII apresenta a sua bandeira negra oficial. No topo, rabiscou a branco “Só há um Deus”, e num círculo branco, para “imitar o selo” do profeta do Islão, empilhou a frase “Maomé é o Mensageiro de Deus”. As cores escolhidas são “adequadas à sua visão maniqueísta do mundo, sem áreas cinzentas entre os binários de certo e errado, crente e pagão”.

É também em Janeiro que tropas americanas mobilizam grupos de sunitas a quem oferecem armas e dinheiro para combater a Al-Qaeda. Entre eles estão os chamados Filhos do Iraque ou Sahawat (Conselhos do Despertar), na província de Anbar.

2008

Em Janeiro, o Parlamento iraquiano aprova legislação para permitir o regresso à vida pública de ex-responsáveis sunitas do Partido Baas.

2009

Em Janeiro, o primeiro-ministro Maliki, a quem os americanos entregaram no ano anterior o controlo de Anbar, começa a atacar os grupos Sahawat, atiçando as tensões sectárias.

Em Agosto, tendo recuperado o apoio nas zonas tribais sunitas que antes o escorraçaram, o “estado islâmico” ataca à bomba os ministérios dos Negócios Estrangeiros e das Finanças, causando centenas de mortos.

2010

Em 18 de Abril, Abu Omar al-Baghdadi e o seu “ministro da defesa”, Abu Ayyub al-Masri, são mortos num ataque conjunto de forças iraquianas e americanas.

Em Maio, um misterioso Abu Bakr al-Baghdadi, “nome de guerra” de Ibrahim ibn Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai, nascido em 1976 em Samarra, no “Triângulo Sunita”, substitui Abu Omar al-Baghdadi como “comandante dos fiéis”.

Oriundo de uma família de classe média e conservadora, “dedicado à religião e ao futebol desde a infância”, supostamente doutorado em jurisprudência islâmica, Baghdadi junta-se à AQI, de Zarqawi, em 2006.

Prisioneiro em Camp Buqqa – chamada de “Escola da Al-Qaeda”, por ser incubadora de jihadistas, é aqui que Baghdadi conclui que a sua vida “não tem sentido sem matar”.

2011

O Daesh conquistou Palmira no verão de 2015, não apenas a cidade, mas os poços de petróleo adjacentes, o que lhe permitiu expandir-se na região. O nível de destruição no que a Unesco classificou como património a humanidade é aterrador. (Um fotógrafo da Agence France-Presse testemunhou o antes e depois de uma das mais extraordinárias jóias arquitectónicas do mundo – nesta imagem, o que resta do Templo de Bel, que remonta ao ano 32 a.C.)
© Joseph Eid | AFP | Getty Images | The Independent

Em Fevereiro, inspirados pelas “primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto, dezenas de milhares de iraquianos organizam, durante vários dias, gigantescas manifestações contra o “governo corrupto” de Nuri al-Maliki, apoiado pelo Irão e pelos EUA. O primeiro-ministro responde com mais repressão.

Em 2 de Maio, Osama bin Laden é assassinado no seu refúgio em Abbottabad, no Paquistão, numa operação levada a cabo por forças especiais americanas, a partir do Afeganistão.

No final do ano, aproveitando-se de um vazio de poder no movimento jihadista, Baghdadi envia para a Síria dois colaboradores próximos, Abu Mohammed al-Julani e Mullah Fawzi al-Dulaimi, para ali formar uma célula operacional (Jabhat al-Nusra ou Frente al-Nusra) e combater o regime do xiita-alauita Bashar al-Assad.

Em Dezembro, os EUA dão por concluídas as suas operações militares no Iraque. Por esta altura, antigos membros do Baas e ex-oficiais de Saddam já haviam transformado o ISI/EII de uma “rede de mafiosos num exército profissional, perito em guerrilha e em guerra convencional”. Estima-se que 30% dos comandantes do grupo de Baghdadi fossem membros do antigo regime que ele conheceu em Camp Bucca.

2012

Só neste ano é que Julani assume publicamente que a Frente al-Nusra está envolvida na guerra na Síria, infiltrada entre outros grupos rebeldes, escondendo a ideologia jihadista para não atrair a atenção dos EUA. Deste modo, ganha apoios locais, particularmente em zonas rurais, como Deir al-Zour e Raqqa, onde o desemprego ronda os 90% e a inflação os 400%.

Num país em desintegração, a Frente al-Nusra não tem dificuldade em mobilizar centenas de sunitas depauperados e abandonados por uma oposição fragmentada e manipulada por potências externas, aos quais paga 400 dólares por mês e, se casados, mais 50 por cada filho e 100 por cada mulher.

2013

Em Abril, inquieto com a crescente popularidade de Abu Mohammed al-Julani que mantém os seus rebeldes activos em 11 das 13 províncias da Síria, Abu Bakr al-Baghdadi assume, publicamente e pela primeira vez, a aliança entre o Estado Islâmico no Iraque e a Frente al-Nusra.

Aproveita também para, unilateralmente, dissolver os dois grupos, fundindo-os numa nova entidade: o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (EIIS ou ISIS, na sigla inglesa).

Julani reage indignado, jurando lealdade ao sucessor de Bin Laden na Al-Qaeda Central, Ayman al-Zawahri. A prioridade de Baghdadi é combater primeiro os homens de Julani e só depois os de Assad. Em Agosto, o ISIS/EIIS ataca a Frente al-Nusra em Raqqa e Aleppo – “mudando completamente a natureza da rebelião na Síria”.

2014

O êxodo, escravatura e genocídio da minoria yazidi do Iraque foram dos piores crimes de guerra cometidos pelo Daesh (Na foto, famílias a caminho da montanha de Sinjar, junto à povoação fronteiriça síria de Elierbeh of Al-Hasakah, em 11 de Agosto de 2014)
© Rodi Said | Reuters

Em Janeiro, o ISIS/EIIS assume o controlo total de Raqqa e proclama-a “capital” do seu emirado – decisão altamente simbólica. Em Fevereiro, a Al-Qaeda Central, liderada por Zawahiri, corta relações com o grupo de Baghdadi.

Em Abril, o ISIS/EIIS derrota a Frente al-Nusra, ficando a controlar 95% da província de Deir al-Zour, rica em petróleo. Este recurso, que consegue exportar clandestinamente e de que detém o monopólio, representa metade das suas receitas, avaliadas em cerca de mil milhões de dólares. O restante provém de assaltos a bancos, extorsão e tráfico de seres humanos.

Estes fundos permitem-lhe financiar o esforço de guerra, atraindo mais combatentes nacionais e estrangeiros, da Europa à Ásia Central; administrar o território que domina, com eficácia, fanatismo e uma “distinta identidade pan-sunita”.

Em de 10 de Junho, cerca de 1500 homens de Baghdadi apoderam-se de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, depois de neutralizarem e 6000 mil soldados e polícias em apenas quatro dias.

Em 30 de Junho, o ISIS/EIIS proclama um “califado”, ou um “governo que tudo sacrifica à vontade de Deus”, restaurando uma entidade extinta em 1924 após o colapso do Império Otomano; anula as fronteiras do Iraque e da Síria delineadas nos Acordos de Sykes-Picot em 1906; e muda o seu nome para “Estado Islâmico” (IS/EI).

Os opositores, mas também governos e media, identificam-no como Daesh, acrónimo de al-Dawla al-Islamiya al-Iraq al-Sham (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) – por ser semelhante às palavras árabes Daes (“aquele que esmaga algo com os pés) e Dahes (“aquele que semeia a discórdia”).

Em Julho, na sua primeira aparição em público, Abu Bakr al-Baghdadi lidera a oração na Grande Mesquita de al-Nuri, em Mosul, construída no século XII, autoproclamando-se Califa Ibrahim, líder da umma: a comunidade de 1500 milhões de muçulmanos em todo o mundo.

No mesmo mês, o ISIS/EIIS lança o primeiro número da revista em língua inglesa, Dabiq – nome inspirado numa localidade síria próxima de Aleppo, onde, segundo a sua ideologia apocalíptica, “o Islão travará a última grande batalha antes do dia do Juízo Final”.

Em 6 de Agosto, as bandeiras negras chegam à cidade de Sinjar, no norte do Iraque, habitada pela minoria religiosa Yazidi considerada “satânica” pelos jihadistas. Mais de 30 mil famílias procuram refúgio nas montanhas. Pelo menos 500 homens são executados. Setenta crianças morrem de sede. Mulheres são vendidas para escravas sexuais.

É também em Agosto que, enquanto o Twitter proíbe todas as contas do Daesh, uma coligação liderada pelos EUA, inicia uma campanha aérea contra o “estado islâmico” no Iraque, a que se segue outra, em Setembro, na Síria.

2015

A 21 de Maio, o ISIS/EIIS entra na cidade síria de Palmira, classificada pela UNESCO como património mundial da humanidade, e aqui destrói, em Agosto, o templo de Baalshamin, com 2000 anos.

Em 13 de Novembro, forças curdas iraquianas, com apoio aéreo da coligação internacional, libertam Sinjar após dois dias combates.

2016

Baghouz, Síria: Os derradeiros dias do califado (18 de Março de 2019)
© Reuters

À medida que vai perdendo terreno e muitos dos seus homens vão sendo eliminados, o Daesh e os salafistas-jihadistas que o seguem intensificam os ataques e atentados suicidas na Europa (França, Bélgica, Alemanha), no Norte de África (Líbia, Egipto), na Ásia (Bangladesh, Cazaquistão, Malásia, Afeganistão, Paquistão), no Médio Oriente, nos Estados Unidos.

No Iraque, em 3 de Julho, um carro armadilhado explode numa zona comercial de Bagdad, matando pelo menos 292 pessoas e ferindo outras 200 – o mais sangrento atentado desde 2003.

2017

Em 13 de Abril, os EUA fazem detonar a sua mais potente bomba não nuclear sobre uma base do Daesh no Afeganistão. O grupo continua a reivindicar atentados dentro e fora do “califado”.

Em 26 de Maio, o Daesh mata mais de 200 civis iraquianos em Mosul – mas, em 10 de Julho sofre um duro golpe ao perder esta cidade.

Em 9 de Dezembro, depois de uma campanha que inclui 25 mil ataques aéreos, o Iraque confirma a “libertação total” do seu território.

2018

Em 23 de Agosto, o Daesh divulga uma mensagem áudio de Baghdadi. Nesta gravação de 55 minutos, uma voz masculina admite que o grupo está a ser derrotado, mas pede aos seguidores que continuem a lutar e a morrer pelos princípios de Hakimiyya (“o poder de Deus na terra”) e al-wala’ wa al-bara’ (“fidelidade à comunidade sunita e denúncia do outro”) porque só este é “o caminho do Paraíso”.

2019

Homens com presumíveis ligações ao Daesh à espera de serem interrogados pelos seus captores curdos e americanos, após o colapso do “califado” na Síria
© The New Yorker

Em 23 de Março, as Forças Democráticas Sírias, maioritariamente curdas, conquistam Baghouz, o derradeiro bastião do Daesh – é o fim do “califado”.

Em Abril, pela primeira vez em cinco anos e poucos dias depois de um mortífero atentado no Sri Lanka, o Daesh divulga um vídeo em que Baghdadi, sentado no chão ao lado de uma metralhadora, deixa uma mensagem aos fiéis: “Alá ordenou-nos que liderássemos a jihad, não que a ganhássemos.”

Na Síria e no Iraque, com o seu slogan baqiyya wa tatamaddad (“permanecer e expandir”), o Daesh ainda mantém entre 14 mil e 18 mil combatentes, três mil dos quais estrangeiros (segundo a ONU), ou entre 28.600 e 3600 (estimativas do Pentágono). Em 2018, calculavam-se em 230 mil os salafistas-jihadistas pelo mundo fora – um aumento de 247% em relação a 2001, quando começou a “guerra global ao terror”. A soteriologia, ou “doutrina da salvação por um redentor”, é resiliente e auto-regenerativa. É a ideologia messiânica que nasce e floresce nos Estados falhados.

FONTES:

CLARKE, COLIN P., After the Caliphate; COCKBURN, Patrick, The Rise of Islamic State: ISIS and the New Sunni Revolution; GERGES, Fawaz A., ISIS: A History; KENNEDY, Hugh, Caliphate: The History of an Idea; MANNE, Robert, The Mind of the Islamic State: ISIS and the Ideology of the Caliphate; MAHER, Shiraz: Salafi-Jihadism: The History of an Idea; MCCANTS, William, The ISIS Apocalypse: The History, Strategy, and Doomsday Vision of the Islamic State; ROY, Olivier, Le djihad et la mort; STERN, Jessica e BERGER, J. M., ISIS: The State of Terror; WEISS, Michael e HASSAN, Hassan, ISIS: Inside the Army of Terror; WRIGHT, Lawrence, The Terror Years: From Al-Qaeda to the Islamic State.

Jessica Stern, autora de ISIS: The State of Terror e Terror in the Name of God: Why Religious Militants Kill
© hoover.org

Caner K. Dagli, professor de Estudos Religiosos no Jesuit College of the Holy Cross, em Worcester (Massachusetts, EUA), co-autor do livro de exegese corânica The Study Quran
© Twitter

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Junho de 2019 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, June 2019 edition

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