Retrato de um tirano

A revolução síria começou em Março de 2011 com um grafito: “Doutor, és o próximo”. Oito anos depois de causar o maior desastre humano do século XXI, o oftalmologista Bashar al-Assad salvou a ditadura com a ajuda de russos e iranianos. Espera agora que árabes e europeus o legitimem e reconstruam um país devastado. (Ler mais | Read more…)

Um poster com a cara de Bashar al-Assad no local de um atentado suicida na região de Damasco, a capital, em 9 de Fevereiro de 2016
© Louai Beshara | AFP | Getty Images

Ayman Abdel Nour conhece bem Bashar al-Assad, colega na Universidade de Damasco. “Formei-me na Faculdade de Engenharia e ele na de Medicina, divididas por uma feroz competição. Fomos apresentados, em 1984, por um vizinho que andara com ele no liceu”, conta-me, por telefone, o cristão sírio que teve de se exilar para não ser enforcado pelo amigo de outrora.

“Bashar era um tipo simpático e até humilde”, garante Abdel Nour. “Tímido, fugia do contacto com as pessoas. Costumava baixar os olhos nas conversas com outros. Não lhe interessava a política. Passava despercebido no seu Peugeot 505. Ninguém diria que era filho do Presidente.”

Ainda que raras, Abdel Nour lembra-se das visitas à residência da família Assad na capital, condomínio separado do palácio presidencial, fortaleza no Monte Mezzeh que, encomendado a um arquiteto japonês, terá custado cerca de mil milhões de dólares. “Era tudo normal”, observa. Nunca se encontrou com o pai, Hafez, a mãe, Anisa Makhlouf, ou os quatro irmãos, Bassel, Maher, Majd, e a irmã, Bushra. “Cada um deles tinha os seus aposentos e suites.”

Em 1992, o médico Bashar foi especializar-se em oftalmologia no Western Eye Hospital, em Londres. “Nunca perdemos o contacto e, quando ele voltou à Síria, em 1994, a seguir à morte do irmão mais velho, Bassel, tornei-me seu conselheiro”, adianta Abdel Nour, que foi também um membro influente do Baas, o partido que monopoliza o poder. “Ajudei-o a preparar o futuro.”

O pai chamou Bashar para preencher o vazio deixado pela morte do primogénito (entre os quatro rapazes), que há muito preparava para ser o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe. O garante da imunidade e impunidade do regime.

O coronel Bassel perdera a vida num acidente de viação, aos 32 anos. Inicialmente, Hafez suspeitava de uma tentativa de golpe, mas confirmou-se ter sido uma fatalidade causada por uma paixão irreprimível por carros velozes. Foi no funeral do filho que viram chorar pela primeira vez a “Esfinge de Damasco”. 

Em 2000, quando Hafez morreu, Abdel Nour continuou a aconselhar Bashar, uma missão sem remuneração, acreditando que o agora presidente “queria mesmo” mudar o país. “Ele aceitava todas as ideias que lhe sugeríamos. Eu convenci o Comando Regional do Baas a aprovar reformas importantes – a reestruturação do sector industrial público, a introdução de seguradoras e bancos privados ou a criação de uma bolsa de valores.”

Hafez, Anisa e os filhos em 1974. Da esquerda para a direita: Maher, Majd, Bassel, Bushra e Bashar. Uma “dinastia perigosa”, como lhe chamou a BBC num brilhante documentário
© Alexandra de Borchgrave |BBC | Getty Images

A partir de 2003, porém, o filho de Hafez tornou-se “uma pessoa completamente diferente”, refere Abdel Nour. “As poucas reformas, económicas e administrativas, que ele aplicava serviam só para favorecer familiares, em particular o primo Rami Makhlouf [conhecido como “o senhor 60%”- todas as empresas estrangeiras precisavam do seu aval para funcionar -, “o homem mais rico do país”, dono da Syriatel, maior operador de telecomunicações nacional, e de outros negócios, da banca ao imobiliário.]”

Bashar começou a dizer que não podia fazer mais concessões, porque o país estava sujeito a enormes pressões externas, na sequência da invasão americana do Iraque” em 2003. Ele temia o azar de Saddam Hussein.

Revoltado com uma “corrupção galopante” e um “presidente paranóico e psicopata”, que exigia a “adulação reservada a um messias”, Abdel Nour afastou-se de Bashar, o alauita que usou cristãos, drusos e outras minorias contra a maioria sunita, a que pertence a mulher, Asma Akhras, com quem se casou apesar da hostilidade de Anisa, que queria para o filho uma noiva da sua seita.

Em 2003, o engenheiro damasceno criou o blogue All4Syria, crítico do regime. Em 2007, ameaçado de morte, fugiu para o Dubai. Quatro anos depois, mudou-se para a Califórnia, onde fundou a ONG Syrian Christians for Peace.

Combatente do Exército Sírio Livre, inicialmente o principal grupo de resistência da oposição, em guarda numa casa na cidade velha de Aleppo, 19 Fevereiro de 2014
© Jalal Al-Mamo | Reuters

Ao contrário de Abdel Nour, o politólogo Salam Kawakibi, que nasceu em Aleppo, onde dirigiu o Institut Français du Prochain Orient, nunca deu o benefício da dúvida ao ditador. O que aconteceu em 2000 “foi uma falsa esperança”, diz-me por e-mail.

“Para alguns, uma esperança abortada. Da minha parte, como pessimista convicto no que concerne à vontade de os ditadores se reformarem, nunca acreditei [em Bashar]. Ele é o filho de um sistema e foi imposto pela vontade do pai para suceder a um irmão defunto numa república! Mataram a ‘Primavera de Damasco’ no seu berço.”

“Bashar nunca foi reformista”, sublinha o neto de Abd al-Rahman al-Kawakibi (1854-1902), este sim um genuíno reformador, defensor da instauração, durante o Império Otomano, de um regime baseado na liberdade de consciência, na igualdade entre todos os cidadãos, na separação dos poderes executivo e legislativo, político e religioso.

A  obra de referência de Abd al-Rahman al-Kawakibi, que Salam traduziu para francês em 2016 com o título de Du Despotisme e autres textes, é “a denúncia das consequências desastrosas do despotismo para a religião, o saber, a economia, a moral, a educação e o progresso”.

“A securitocracia que reina na Síria desde 1979 não tolera qualquer manifestação da oposição contra o que o sistema impôs como modo de vida aos cidadãos”, lamenta o actual diretor do Centre Arabe de Recherche et d’Études Politiques, em Paris. O único método conhecido e largamente praticado pelo regime é o da força.”

“Quando matou dezenas de milhares de civis em Hama, em 1982, com o consentimento da dita comunidade internacional, Hafez al-Assad percebeu que terror resulta. Bashar não poderia empreender reformas reais porque sabia que isso seria o fim do seu regime. Optou por um solução violenta e parece que, a curto prazo, ela está a dar frutos.”

Em oito anos de guerra, quase ou mais de meio milhão de  sírios foram mortos. Cerca de 5,6 milhões são refugiados e 6,1 milhões deslocados internos. Na foto, crianças em Ghouta Oriental, cercada e destruída pelo regime
© Aldimashqi | Anadolu Agency | Getty Images

“Em 2000, muitos antigos presos políticos, intelectuais, artistas, advogados, cineastas e activistas dos direitos humanos consideraram que havia em Bashar, mais do que uma esperança, uma oportunidade”, diz-me, por seu turno, o cientista político libanês Ziad Majed, co-autor (com Subhi Hadidi e Farouk Mardam-Bey) da magnífica biografia Dans la tête de Bachar al-Assad.

“Era uma oportunidade para abrir um certo espaço que lhes permitisse debater, negociar, publicar, abrir fóruns”, adianta Majed, também autor de Syrie, la Révolution orpheline. “Na realidade, fizeram tudo isso, publicando textos brilhantes em jornais libaneses e em sites que surgiam naquela altura. Todos tentaram aproveitar um momento de hesitação nos círculos de poder.”

“Bashar falava de reformas, como se o legado do pai precisasse de reforma, embora, ao mesmo tempo, toda a máquina de propaganda do regime elogiasse as conquistas e a grande obra do regime paterno.”

Segundo Majed, estudioso das transições políticas regionais no mundo árabe, Bashar “precisava de uma espécie de reformas estatais”. Por isso, ao chegar à presidência, “aventurou-se com uma certa neo-liberalização económica, graças a nacionalizações que beneficiaram, acima de tudo, o primo Rami Makhlouf”.

“Foi neste contexto que intelectuais, opositores políticos, dissidentes impuseram, durante alguns meses, fóruns, petições, artigos. Mas tudo acabou, em Fevereiro [de 2000], porque o regime não conseguia sequer tolerar este tipo de vozes e as reivindicações para a libertação dos presos políticos, o regresso dos que estavam no exílio, o fim do estado de emergência.”

“O regime atacou os fóruns e prendeu muitos dos seus organizadores, e até membros do Parlamento que participavam nesses debates”, recorda Majed. “Demonstrou assim que nada mudara na cena política e que as únicas mudanças seriam apenas económicas, na área do consumo, do turismo… Mas até isto permaneceria sob o controlo das famílias Assad e Makhlouf.”

Meninas que perderam as suas casas na província de Deraa – berço da revolução – sorriem para a câmara, numa tenda nas proximidades de Quneitra, a única cidade controlada pela Síria nos Montes Golã, ocupados por Israel desde a guerra de 1967
© Alaa Al-Faqir | Reuters

O grande teste aconteceu em Março de 2011, quando um grupo de 15 rapazes, entre os 10 e os 15 anos, inspirados pelas sublevações populares na Tunísia e no Egito, escreveu nas paredes da cidade de Deraa: “Doutor, és o próximo.” Os grafiteiros foram detidos e torturados pelos mukhabarat (espiões) locais.

As famílias de Deraa, que no passado mantiverem laços com o Baas e os Assad, foram humilhadas quando reclamaram a libertação dos filhos. Seguiram-se manifestações pacíficas nas ruas, imediatamente dispersas a tiro pelas forças de Najib. Várias pessoas foram mortas. Não mais parou o ciclo funerais-protestos-repressão. E assim nasceu a revolução.

“É difícil dizer que a Síria poderia ter evitado este terrível cenário se tudo tivesse sido diferente em Deraa”, observa Zia Majed. “A verdade é que o regime não soube, desde o princípio, lidar com a situação naquela cidade, ou no sul em geral, que foi uma das bases do Partido Baas nos anos 1950-1960.”

“Muitos líderes de Deraa no Baas desempenharam cargos ministeriais no passado. Mas entre os anos 1990 e 2000, tal como noutras localidades periféricas da Síria, Deraa registou um declínio económico e marginalização, devido a cortes num orçamento de Estado que privilegiava mais a capital e outras cidades.”

“Havia muita revolta em Deraa e esta aumentou ainda mais com a humilhação e a tortura dos rapazes [dos graffiti]”, explica Majed. “Em Deraa, o chefe dos serviços secretos locais, Atef Najib, era primo paterno de Bashar. E esta foi outra razão para o regime reagir como se fosse um ataque à própria família no poder.”

“O regime achava que, se os reprimisse em Deraa, os protestos não se propagariam a outras regiões. Que Deraa se tornaria apenas mais uma cidade mártir como Hama [cerca de 20 mil mortos, em 1982].”

“O regime achava que bastaria uma repressão brutal em Deraa para voltar a erguer o muro do medo que começava a ruir. Não esperava que manifestantes noutras noutras zonas urbanas e rurais exigissem a sua queda.”

A realidade é que “a estrutura do regime sírio nunca permitiu qualquer compromisso político que permitisse reconhecer os direitos da sociedade e aceitar os seus clamores”, anota Ziad Majed. “Esta estrutura foi concebida para lidar com a sociedade como se ela fosse um potencial inimigo.”

Um homem cava sepulturas para as próximas vítimas da guerra, em Arbeen, no subúrbio de Ghouta, leste de Damasco, em 10 Março de 2014
© Yaseen al-Bushy | Reuters

“O regime é extremamente habilidoso e flexível politicamente com o exterior”, informa o académico libanês. “Com actores regionais e internacionais faz compromissos, negoceia, entra em contradições. Era aliado da União Soviética e dialogava com os EUA. Atacava verbalmente Israel, mas mantinha os Montes Golã, perdidos na guerra de 1967, como a região fronteiriça mais pacífica desde 1974.”

“Interveio no Líbano, sob pretexto de apoiar a causa palestiniana, mas abandonou os palestinianos e os libaneses [durante a guerra civil] em 1976. Era aliado da Arábia Saudita, mas também apoiou [a revolução islâmica no] Irão em 1979.”

No que toca a Síria, a posição do regime é totalmente diferente. “Nunca aceitou lidar com a sociedade como um actor político, reconhecer os seus direitos, aceitar as suas reivindicações”, critica Majed.

“É por isso que em 2011, Bashar agiu tal como o pai, que foi obreiro de vários massacres e da repressão que deixou milhares de desaparecidos, provavelmente mortos sob tortura na prisão [de Tadmur, no deserto de] Palmira.”

“Em 2011, Bashar achou que ceder aos manifestantes seria visto como um sinal de fraqueza e, por isso, retaliou imediatamente com violência extrema”, avalia Majed. “Uma violência que visava uns grupos mais do que outros, visava os sunitas das áreas rurais mais do que outras comunidades.”

“Ele queria mostrar que a revolta era sunita, podendo assim defini-la, mais tarde, como uma tentativa de islamização, e não como uma sublevação popular com motivações políticas e sociais.”

“Bashar herdou a estrutura do regime e a mentalidade do pai, de não aceitar qualquer negociação com a sociedade, convicto de que só a repressão mantém os cidadãos obedientes e permite a sobrevivência do regime, do partido, dos serviços secretos, dos seus clãs e da sua seita.”

“O regime achava que bastaria uma repressão brutal em Deraa para voltar a erguer o muro do medo que começava a ruir. Não esperava que manifestantes noutras noutras zonas urbanas e rurais exigissem a sua queda”
© Reuters

A activista síria-britânica Leila al-Shami, que estava em Damasco em 2000 a trabalhar com o movimento de direitos humanos, comprova que, naquele ano, quando Bashar “herdou do pai a ditadura”, muitos esperavam mudanças. Porque ele falava de “modernização, liberalização e desenvolvimento”, alguns actores da sociedade civil ousaram apelar a “um sistema multipartidário, imprensa livre e à libertação de presos políticos.”

Mas o que a jornalista e co-autora (com Robin Yassin-Kassab) de Burning Country: Syrians in Revolution and War presenciou foi “um fosso entre retórica e realidade”, como diz numa entrevista por e-mail. “Entraram em vigor reformas económicas, mas apenas consolidaram a riqueza de alguns capitalistas, enquanto eram cortados subsídios, empobrecendo ainda mais a população. Nunca houve reformas políticas. Muitos dos que pugnavam por mudanças foram presos.”

“Face a esta realidade e ao medo incutido na população pelo regime, não imaginei possível a sublevação em 2011”, confessa Leila al-Shami. “No entanto, porque os movimentos revolucionários ganhavam ímpeto no Egipto e na Tunísia, os sírios ganharam coragem e encheram as ruas, reivindicando liberdades políticas e justiça sócio-económica.”

“O que os sírios conseguiram – construir estruturas de base em circunstâncias impossíveis – deveria ter sido celebrado e apoiado por todo o mundo”, observa a activista que ajudou a fundar a Tahrir-ICN, rede que pretende ligar as lutas contra o autoritarismo no Médio Oriente, Norte de África e Europa.

“No entanto, o democratas sírios não foram capazes de despertar uma significativa solidariedade para a sua luta e enfrentaram uma brutal contra-revolução por parte do regime, dos seus aliados internacionais e de vários grupos jihadistas, cada um com a sua agenda.”

Residentes do campo de refugiados palestinianos de Yarmouk, no sul de Damasco, esperam socorro depois de um longo cerco, em 4 Fevereiro de 2014
© AP |SANA

Leila deplora que, desde o início, o regime se tivesse apresentado como um combatente contra terroristas religiosos – “mesmo quando os islamistas nem sequer tinham uma presença real na sublevação e quem dominava as ruas eram manifestantes pacíficos”.

“Muitos na ‘comunidade internacional’ aceitaram a narrativa do regime”, condena a activista síria. “Mas este era um binário simplista, porque houve sempre uma terceira escolha: os democratas que acreditavam na liberdade e na democracia. Infelizmente, foram abandonados e perseguidos, enquanto os islamistas ganharam poder.”

“É claro que a oposição também cometeu erros”, reconhece Leila al-Shami. “Mas é razoável presumir que, se tivesse recebido apoio, a situação na Síria seria muito diferente do que é hoje.”

O politólogo Salam Kawakibi invoca “várias razões” para o fracasso da revolução. A primeira é “a inesperada e inédita violência a que o regime recorreu”. Mas também “a falta de apoio real da maior parte dos países ‘amigos’ do povo sírio, a herança caótica de práticas políticas, designadamente no seio da oposição, que nunca teve liberdade de se exprimir publicamente desde o final dos anos 1950, e a ingerência de forças regionais para manipular os opositores, sobretudo depois da militarização” da revolta.

“Uma vitória militar dos rebeldes era impossível não apenas porque os seus líderes estavam divididos, mas também porque nenhum país influente na cena síria quis realmente acabar com Assad, ao contrário do que aconteceu com a Rússia e o Irão, presentes e em força para auxiliar o regime contra o seu povo”, acusa Kawakibi.

“Praticamente não existiram negociações de paz. De um lado, houve conversações entre o regime e a ONU; do outro, conversações entre grupos da oposição e a ONU. O regime, ainda antes de receber apoio directo de Moscovo em 2015, já rejeitava qualquer forma de negociação, considerando que toda a oposição era terrorista e vinha do estrangeiro.”

Nos escombros de um edifício em Duma, em Damasco, homens resgatam um bebé que sobreviveu a um ataque de forças leais a Bashar al-Assad, em 7 Janeiro de 2014. A criança de 27 meses, Rateb Malis, seria depois entregue ao pai e às irmãs
© Bassam Khabieh | Reuters

“Há certamente um problema com a oposição síria, pois não foi capaz de formar uma liderança forte, elaborar um discurso político claro e de se impor, regional e internacionalmente, face a aliados e inimigos”, reconhece o cientista político Zia Majed. “Mas há, também, um problema no que diz respeito ao activismo na Síria. Não devemos esquecer que durante 41 anos, antes de 2011, vigorou o estado de emergência. Os sírios não podiam formar partidos políticos ou ser politicamente activos.”

“Toda a sociedade síria era controlada por serviços secretos, pelo medo e por esquadrões da morte”, lembra Majed. “Não havia experiência política antes da sublevação, excepto os opositores na clandestinidade, entre alguns intelectuais, entre as elites. Isso deixou marcas. Por outro lado, a oposição síria deixou-se aprisionar pelas dinâmicas regionais e internacionais. Alguns dos seus aliados tentaram usar a oposição contra os seus inimigos.”

Apesar de tudo, e partilhando o desânimo de Kawakibi, Majed conclui: “Mesmo que a oposição tivesse uma liderança forte e centralizada, mesmo com um discurso claro e independência face às dinâmicas exteriores, não tenho a certeza de que as coisas teriam sido muito diferentes no que diz respeito ao atual equilíbrio de poderes.”

“Porque os países ocidentais, alguns Estados árabes [Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar] e a Turquia não se mostraram tão determinados como os russos e os iranianos no apoio e protecção que concederam ao regime.”

Além disso, indica Majed, “o facto de a revolução síria ter começado logo após o desastre líbio, depois do que aconteceu no Iraque e da vitória da Irmandade Muçulmana no Egipto, fez com que decaísse no Ocidente a euforia em relação às ‘primaveras árabes’”.

“A chegada de milhares de refugiados e os discursos anti-imigração, a ascensão de grupos de extrema-direita em muitos países, o aumento da islamofobia, a ascensão do Daesh na Síria e a propaganda de Assad de que a solução era ele ou o ‘estado islâmico’ – tudo isso jogou a favor do regime”, acrescenta Majed.

Combatentes do Exército Sírio Livre, Mohamad-Noor (à esquerda), 14 anos, e Hadi, de 15, mostram uma fotografia do amigo Khaled, também de 15 anos, morto por um atirador furtivo no bairro de Khalidiya, em Aleppo, em 13 Março de 2014
© Jalal Al-Mamo | Reuters

O académico libanês culpa igualmente “grupos esquerdistas que, com têm uma retórica anti-imperialista mas não conhecem a sociologia da Síria nem estão interessados em ouvir os sírios nas suas análises geoestratégicas. Acham que Assad é um anti-imperialista, porque ele ataca, de vez em quando, os americanos (mesmo quando negoceia com eles)”.

Em resumo, “à esquerda e à direita, ninguém estava interessado em resolver a crise. Só Moscovo e Teerão se empenharam em salvar Assad”.

E é “graças a Moscovo e a Teerão” que, depois de oito anos de guerra, quase meio milhão de mortos, 5,6 milhões de refugiados e 6,1 milhões de deslocados internos, que Bashar tem agora sob seu domínio “60 a 66%” do território, estima Ziad Majed. Antes da intervenção russa, tinha apenas em seu poder uns 20%.

As forças curdas apoiadas pelos EUA que combateram o Daesh no leste, controlam, hoje, “cerca de 20%”; depois, há um enclave em Idlib, controlado pelo grupo jihadista Al Nusra; estando o restante, “cerca de 10% ou um pouco mais”, nas mãos da oposição síria aliada da Turquia.

“Assad não derrotou o seu povo – a Rússia e o Irão é que ganharam esta guerra”, realça Salam Kawakibi. “Contudo, a soberania do regime não é efectiva. Quem controla [os 60-66%] são forças não estatais e não o poder central. São milícias de defesa civil, mercenários e soldados russos, milícias confessionais vindas do Iraque e do Líbano, afegãos hazaris [recrutados pelos Irão], etc… São eles, e não Assad, os mestres no terreno.”

Assad até pode clamar vitória, mas Zia Majed tem esperança de que o ditador não será facilmente reabilitado: “Porque há muitas sanções europeias contra o regime e há cada vez mais processos judiciais para que ele responda por crimes de guerra e contra a humanidade.”

A normalização não é ainda possível “porque se desconhecem intenções de russos e iranianos – quem controlará o país no futuro próximo? – e porque a política dos EUA não é clara – Donald Trump anunciou e depois adiou uma retirada. A Administração americana espera que os russos expulsem Teerão, mas russos e iranianos são aliados”.

A maioria dos líderes árabes, “também eles ditadores e criminosos como Assad”, segundo Majed, “não têm ilusões” face à gigantesca presença militar o Irão na Síria. Israel, por seu lado, rejeita a presença iraniana, “mas não se importa que Assad permaneça no poder”. A Rússia “desempenha o papel de fiel da balança – é aliado de Assad, do Irão, de Israel e da Turquia – e quer dar-se bem, também, com os europeus”, comenta Majed.”

Até agora, não há solução política e ainda há margem para negociações e acordos, compromissos. Talvez russos e iranianos estejam a preparar-se para uma próxima fase, para definir quem controla a situação.”

A destruição em Homs, cidade sitiada e bombardeada pelo regime (27 Janeiro de 2014)
© Yazan Homsy | Reuters

Uma recente visita de Bashar a Teerão “deixou claro” que a República Islâmica “não está disposta a sair da Síria depois de tudo o que investiu” – o ditador poderá “tornar-se refém de uma rivalidade entre aliados, russos e iranianos, o que abalará o seu poder.”

Embora alguns Estados europeus (Áustria, Itália, Hungria e Polónia) pareçam também receptivos à ideia de apaziguar Bashar, pressionando uma ambivalente UE a ajudar na reconstrução do país, para deste modo se livrarem de refugiados “indesejados”, Zia Majed avisa: “Não acho possível uma solução para a Síria enquanto Assad se mantiver no poder. Porque a questão política não se resolverá.”

“A presença de russos e iranianos não será eterna”, confia o académico em Paris. “Um dia, terá de haver negociações e acordos. Além disso, haverá certamente mais processos por crimes de guerra instaurados por diferentes organizações, mas também por países, como a França, a Suécia, a Holanda, a Grã-Bretanha, Espanha, a Alemanha e os EUA [ao abrigo da justiça universal]. Há muitas investigações sobre o uso de armas químicas, tortura e violações, massacres.”

“A impunidade, do regime ou de qualquer outro campo acusado de crimes de guerra, tem de acabar”, vinca Ziad Majed. “É claro que há pessoas no Estado sírio que não fazem parte desta máquina assassina. São tecnocratas, funcionários de ministérios e devem ser protegidos. Há até pessoas próximas do regime que devem poder participar na transição. Mas as famílias Assad e Makhlouf não podem ser parte da solução, porque isso não seria uma solução.”

Salam Kawakibi não esconde o desalento: “O futuro que vejo para a Síria é o de um marasmo humano prolongado na ausência de uma solução política e de uma justiça transicional [medidas para a reparação das violações de direitos humanos]. Teremos um poder central muito enfraquecido que depende de protectores estrangeiros e de aliados locais, para quem a regra é um sistema mafioso.”

Heróis da revolução síria: os activistas Razan Zaitouneh, o marido, Wael Hamada, Samira al-Khalil, mulher de Yassin al-Haj Saleh, e Nazem Hamadi, desaparecidos desde 2013 depois de raptados por um grupo jihadista
© sn4hr.org

É certo, constata Kawakibi, que alguns países árabes reabriram embaixadas em Damasco, “mas nenhum está disposto a investir um cêntimo enquanto a corrupção continuar a ser, como é desde há décadas, a pedra angular do sistema político sírio.”

“Os russos e os iranianos não têm meios para investir na reconstrução. Limitam-se a participar na destruição. Os refugiados mais pobres, na Jordânia e no Líbano, exigem transição política, justiça e segurança antes do regresso – três condições que não podem ser satisfeitas nas circunstâncias actuais”.

A jornalista Leila al-Shami tem informações de que muitos refugiados, sobretudo os mais pobres no Líbano e na Jordânia, têm regressado, “mas apenas porque a sua situação no exílio lhes parece impossível, dada a falta de oportunidades que enfrentam e a retórica cada vez mais hostil e xenófoba contra eles”.

Alguns destes retornados “arriscam detenção e prisão à chegada à Síria; alguns foram torturados até à morte; outros foram obrigados a integrar as forças armadas do regime e enviados para a frente de batalha”.

Por outro lado, “muitos dos deslocados internos não querem voltar às áreas controladas pelo regime”, diz Leila. “No campo de Rukban, perto da fronteira com a Jordânia, onde a situação humanitária é desesperada, os que ali estão têm protestado contra os planos de Bashar e da Rússia para os transferir para zonas controladas pelas forças governamentais, exigem ser colocados em áreas sob controlo da oposição, no norte.”

Sírios fogem da guerra, em 2011, pela fronteira com a Turquia – país que acolheu quase dois milhões de refugiados desde o início do conflito
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images

“Os refugiados deixaram a Síria receando Assad, até mais do que o Daesh”, indica Ziad Majed. “Não planeiam voltar enquanto perceberem que nada mudou em termos de violência. Até mesmo em áreas onde houve acordos, como no sul da Síria ou cidades como Ghouta Oriental, reconquistada por Assad, muitas pessoas estão desaparecidas ou foram mortas nas cadeias.”

“Ninguém, dos que fugiram por motivos políticos, acredita no regime. E a reconstrução também não será possível enquanto Bashar estiver no poder. Não vejo a Europa a gastar biliões de euros para oferecer a Síria ao Irão ou à Rússia.”

“É necessária uma solução política para que os refugiados regressem, e para que a reconstrução avance”, recomenda o professor libanês. “Mas nada disto será possível com a família Assad. É inaceitável que a única pessoa responsável, directa ou indirectamente, [por este desastre humano] possa manter-se no poder.”

“É como dizer aos sírios que eles não são parte da comunidade internacional, que não estão abrangidos pela lei internacional, que as convenções de Genebra não foram redigidas para os proteger, que eles podem ser mortos por qualquer um.”

A falta de protecção “conduzirá a mais frustração e extremismo”, alerta Ziad Majed. “É com base nesta narrativa de vitimização que grupos como o Daesh recrutam e emergem, ameaçando o mundo inteiro.”

“Bashar al-Assad não pode ser parte da solução, porque isso não seria uma solução”
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Memórias da revolução

Testemunhas das aspirações e sofrimento dos sírios, Leila al-Shami, Salam Kawakibi e Ziad Majed guardam, apesar dos fracassos e do desespero, memórias felizes da revolução.

“Lembrar-me-ei sempre das histórias de cidadãos comuns que arriscaram tudo para oferecer uma mudança positiva às suas comunidades, em particular, e à sociedade, em geral”, afirma Leila al-Shami.

“No nosso livro [Burning Country], contamos muitas dessas histórias – pessoas que mobilizaram protestos, que tentaram formar conselhos locais democráticos para organizarem as suas comunidades na ausência do Estado, que distribuíam ajuda humanitária a comunidades cercadas ou trabalhavam em hospitais clandestinos que estavam sempre a ser alvos de bombas dos russos e do regime.”

“Uma história que não esqueço”, destaca Leila, “é a de Souad Nofal, uma mulher de Raqqa que disse não ao ‘estado islâmico’. Durante meses, ela organizou um protesto solitário contra o Daesh – exigindo a libertação de prisioneiros, protecção das minorias e direitos para as mulheres.”

“Também participava activamente em manifestações contra o regime e criou a Fundação Janna, dedicada a dar mais poder às mulheres. Maravilhei-me com a sua coragem – enfrentando o Daesh sozinha. Também ela simboliza o modo como os sírios livres se opuseram a todos os autoritarismos – do regime e islamistas – que são a antítese da luta pela liberdade.”

A Salam Kawakibi “impressionou a capacidade de os jovens se organizarem em comités de coordenação local para gerir diferentes aspectos da via quotidiana”, porque esta era, “por excelência, uma resistência pacífica”.

Quanto a Ziad Majed, quando pensa na revolução, recorda-se em particular de activistas como a advogada Razan Zaitouneh (com quem Leila trabalhou) que documentava para os comités populares os abusos de direitos humanos. Define-a como “uma das mulheres mais extraordinárias dedicada à causa síria, da democracia e da justiça social”.

Lembra-se também de Samira al-Khalil, antiga presa política sob o regime Hafez al-Assad, uma activista pelos direitos humanos que colaborava com Razan Zaitouneh em Douma, “também ela dedicada à protecção de mulheres e crianças em Ghouta Oriental e Damasco”.

Samira, mulher do médico Yassin al-Haj Saleh, considerado “a consciência da revolução”, e Razan foram sequestradas por um grupo jihadista e estão desaparecidas desde 2013. O ano em que, raptado pelo regime, também desapareceu o amigo Fayed Amir, prisioneiro de Hafez e Bashar.

“Em 2011-2012 vivemos momentos de alegria, de humor, vontade e determinação de acabar com o medo, para construir algo de novo. Infelizmente, os sírios não tiveram o que a maioria deles esperava.”

Protestos pacíficos de centenas de milhares de argelinos durante semanas consecutivas forçaram o presidente Bouteflika a demitir-se, em Abril, após duas décadas no poder
© Ryad Kramdi | AFP

No Sudão, também protestos pacíficos que atraíram dezenas de milhares de pessoas forçaram o exército a afastar e a prender Omar al-Bashir, que estava há 30 anos no poder.
© EPA-STR | The Irish Times

Argélia e Sudão: a esperança

Leila al-Shami, Salam Kawakibi e Ziad Majed exaltam e exultam com as revoluções na Argélia e no Sudão [onde, em Abril, foram derrubados dois déspotas: Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir, há 20 e 30 anos no poder, respectivamente.]

Congratula-se Leila: “Os actuais protestos mostram que os povos da região rejeitam ditaduras instaladas desde há décadas. As causas [das “primaveras árabes” de 2011] – “a falta de liberdades políticas e de oportunidades económicas, a corrupção e elevadas taxas de desemprego -, ainda não foram resolvidas.”

“O que mudou foi a mentalidade das pessoas, que já não estão dispostas a sofrer a opressão em silêncio. Os protestos na Argélia e no Sudão também mostram que ninguém se calará quando ameaçam com o ‘exemplo sírio’ – o de que manifestações conduzem à repressão e ao conflito. Espero que os argelinos e os sudaneses possam ter o apoio que merecem.”

Alegra-se Salam: “As revoltas árabes ainda não deram a sua última palavra. A matança na Síria certamente que assustou muitos, mas não travou o desenvolvimento do processo político na região. Além disso, Assad não ganhou a guerra. Foi salvo por potências estrangeiras e pela indiferença dos países ‘livres’. Os protestos de hoje não se vão limitar à Argélia e ao Sudão, mas também também ao Iraque e a outros países árabes, que há muito estão num turbilhão.”

Ziad anima-se: “Os protestos são um sinal encorajador. Mostram que a fase histórica que vivemos no final de 2010 e depois em 2011, na Tunísia, no Egipto, na Líbia, no Iémen, no Bahrein e na Síria, não acabou apesar de contra-revoluções, golpes, violência, intervenções, conflitos militares.”

“O Egipto é agora governado por [Abdel Fattah El] Sisi, depois de um golpe militar que impôs uma nova ditadura. A Líbia está um caos [com dois governos rivais disputando o controlo de Trípoli, a capital]. No Bahrein, a revolução foi imediatamente pelas autoridades locais e sauditas. O Iémen é um desastre, com sauditas e iranianos a combater ali, directa e indirectamente, matando as esperanças do povo iemenita. A Tunísia é a única excepção – teve um sucesso relativo na sua transição, mas ainda enfrenta muitos riscos.”

“E agora, temos o Sudão e a Argélia, com novas esperanças. Embora não se possam fazer comparações simplistas, há reivindicações semelhantes – de transição política, de liberdade, dignidade, justiça social.”

“As pessoas não aceitam a ameaça, a chantagem, a pressão, os argumentos dos regimes, para os quais só há uma solução, ‘Ou nós ou o caos’, ‘ou nós ou a guerra civil’; ‘ou nós o cenário sírio e líbio’. Vemos agora uma nova geração mais uma vez nas ruas, a exigir o fim de uma situação humilhante.”

“Há, portanto, esperança de que as contra-revoluções, repressão e violência não derrotaram completamente as lutas de 2011. Há uma nova vaga na Argélia e no Sudão. Nada nos diz que acabará aqui. Haverá altos e baixos. Haverá derrotas, sonhos desfeitos ou traídos. Mas esta nova fase histórica no mundo árabe não acabará em breve.”

Ayman Abdel Nour
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ziad Majed
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Leila al-Shami e Robin Yassin-Khassab, autores do livro Burning Country. Ela, entrevistada para este artigo, não se deixa fotografar para preservar a sua segurança
© Sergi Alcàzar | elnacional.cat/es

Este artigo, agora actualizado e na versão integral, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, na edição de 16 de Março de 2019 | This article, now an updated  and extended version, was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, on March 16, 2019 edition.

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