Yassin al-Haj Saleh: “A revolução síria falhou porque não houve esforço global para eliminar um regime genocida”

Prisioneiro durante 16 anos, testemunha dos crimes da dinastia Assad, ele acreditava que a sublevação de Março de 2011 restituiria a liberdade ao povo. Oito anos, meio milhão de mortos e 12 milhões de refugiados/deslocados depois, chora a tragédia do seu país. Entrevista por e-mail, a partir de Berlim. (Ler mais | Read more…]

“Nestes oito anos, o regime não demonstrou vontade de negociar com nenhum revolucionário, nem mesmo com os opositores domesticados”, diz Yassin al-Haj Saleh. “Não aceitou renunciar sequer a 2% do seu poder”
© Maurice Weiss | Wissenschaftskolleg zu Berlin

Para muitos sírios, Yassin al-Haj Saleh é uma referência moral, o “guru” ou a “consciência” da revolução, iniciada em março de 2011. Médico, dos mais importantes pensadores e intelectuais do seu país, ajudou a fundar, em 1972, um partido comunista crítico de Hafez al-Assad, o ditador que governou três décadas até fazer do filho Bashar o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe.

Detido em 1980, quando tinha 19 anos, esteve até aos 35 nas cadeias do regime, o último dos quais na infame prisão de Tadmur (no deserto de Palmira), a que ele chama “campo de concentração” ou “o pior lugar na Terra”.

Nos primeiros dois anos da sublevação, Saleh e a mulher, Samira al-Khalil, também ela ex-prisioneira e dissidente, viveram na clandestinidade em Damasco, organizando a oposição em comités populares, documentando violações de direitos humanos. Samira e Firas, um dos irmãos de Saleh, foram raptados por jihadistas em 2013, e ele não mais teve notícias deles.

Nascido há 58 anos em Raqqa, “capital do califado” do Daesh, Saleh vive agora na Alemanha e aqui ficará três anos, como fellow no Wissenschaftskolleg zu Berlin (Instituto de Estudos Avançados de Berlim. Não sabe “ainda” se regressará a Istambul (Turquia), onde ajudou a fundar o centro para o diálogo e cultura Hamisch e o jornal online al-Jumhuriya.

É autor de vários livros, a maioria em árabe, o último dos quais Imperialistas Conquistados, sobre islamistas contemporâneos. Em francês publicou Récits d’une Syrie oubliée: Sortir la mémoire des prisons e La Question syriennne. Em inglês (também com edição francesa), The Impossible Revolution: Making Sense of the Syrian Tragedy é uma obra fundamental para perceber uma luta, que começou pacífica, contra uma implacável tirania.

Que memórias guarda dos primeiros dias da revolução? No primeiro capítulo do seu livro, nota-se um enorme otimismo. Por que estava, naquela altura, tão confiante de que o regime de Bashar al-Assad acabaria em breve?

Guardo na memória o funeral dos sírios mortos pelo regime em Douma e Ghouta Oriental, perto de Damasco, na primeira semana de Abril de 2011. Eu estava entre milhares de pessoas que assistiam ao funeral. As minhas lágrimas caíam enquanto erguia a fotografia de uma das vítimas.

Só mais tarde, vim a saber que também ali estavam, sem combinação prévia entre nós, a minha mulher, Samira Khalil, e a minha amiga Razan Zaitouneh [advogada e uma das mais importantes activistas sírias, raptada em 2013 pelo grupo extremista Jaish al-Islam , tal como o marido, Wael Hamada, Nazim Hamadi, e Samira.  Ficaram conhecidos como “Os Quatro de Douma”.]

O meu otimismo era realmente imenso. A revolução síria surgiu num amplo contexto revolucionário que derrubou dois crónicos regimes despóticos, na Tunísia [Zine El Abidine Ben Ali ] e no Egito [Hosni Mubarak]. Caminhava-se também rumo à mudança na Líbia e no Iémen. E a mudança no Bahrein só foi frustrada por uma intervenção saudita, apoiada pelos Estados Unidos.

Pareceu-me, e a muitos de nós naquele tempo, que nada seria capaz de parar essa onda revolucionária. Barack Obama chegou até a pedir a Bashar que renunciasse ao poder, porque calculou que, inevitavelmente, ele iria cair.

Hoje, olhando para trás, não me parece estranho o nosso otimismo. Estranho é a continuação do regime, protegido apesar de usar armas químicas e cometer inúmeros massacres. Apesar de mais de meio milhão de mortos e de um terço da população estar fora do país.

Crianças sírias brincam em Deraa, berço da revolução em 2011 e uma das várias cidades destruídas pelo regime de Bashar al-Assad
© Reuters

Por que é que Deraa, descrita como “uma cidade que mantinha laços financeiros e militares com a família Assad”, se tornou no “berço” da sublevação popular em Março de 2011?

Não é verdade que Deraa tivesse laços militares e financeiros especiais com a família Assad. Alguns burocratas do partido Baas [no poder] e ministros de Assad são originários de Deraa, mas esta é uma realidade que pertence ao passado e acabou destruída por uma mistura de políticas económicas neoliberais e de ditadura política.

Uma realidade abalada também pelas “primaveras árabes”, que nos trouxeram a esperança e, depois, pelo incidente que foi a detenção e a tortura de crianças que escreveram nas paredes frases ameaçando o regime com um mau destino.

O que correu mal para que a revolução se tivesse tornado “impossível”, uma “tragédia”?

Primeiro, a revolução era impossível porque estávamos perante um regime que, uma geração antes, matara dezenas de milhares de pessoas, minou a sociedade síria com serviços de segurança e medos interconfessionais. Depois, aconteceu outro impossível: [O regime] rompeu a revolução com massacres e armas proibidas, convidou iranianos e russos a participar no banquete dos assassinatos.

A vitória seria possível com uma oposição desunida, desorganizada e sem uma liderança eficaz?

Este é um regime genocida, e os regimes genocidas não são apenas problemas para os governados de um modo exclusivo, mas também problemas globais. São regimes que matam centenas de milhares e milhões de pessoas para perpetuarem o poder.

Não existe um povo ou uma oposição que consiga resistir a um regime com uma tal determinação e armas letais. Qual foi a liderança eficaz de uma oposição unificada na Alemanha nazi, na Rússia estalinista ou no Camboja dos Khmer Vermelhos?

Milhões ou dezenas de milhões foram mortos e os regimes permaneceram, ou a sua queda aconteceu graças a um esforço global coordenado. Na Síria, o esforço global coordenado concentrou-se em não ameaçar o regime genocida, em vez de o eliminar.

Socorristas resgatam crianças de escombros, um dia depois de um ataque do regime de Assad com bombas de fragmentação na cidade de Aleppo, norte da Síria, em Maio de 2015
© Karam al-Masri | AFP | Getty Images

Por que falharam as negociações para acabar com a guerra?

Um regime genocida não negoceia, nem aceita soluções políticas. Só sabe fazer a guerra contra os mais fracos. Nestes oito anos, o regime não demonstrou vontade de negociar com nenhum revolucionário, nem mesmo com os opositores domesticados. Não aceitou renunciar sequer a 2% do seu poder.

Em 2000, quando Bashar sucedeu ao pai, muitos acreditaram numa “Primavera de Damasco” capaz de reformar o regime. Por que havia essa esperança, sabendo-se que ele estava a ser preparado desde a morte do irmão Bassel, em 1994, para ser o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe?

Houve uma esperança ilusória de mudança nessa curta “Primavera de Damasco”, porque, como sociedade e opositores, ficámos sufocados durante vinte anos e sem autoconfiança.

O desaparecimento de um terrível tirano [Hafez al-Assad, que em 1982 ordenou um massacre na cidade de Hama – pelo menos 20 mil mortos -, para se vingar de uma insurreição da Irmandade Muçulmana] foi uma oportunidade para respirar, reunir e falar, isto é, recuperar um mínimo de política. Mas foi uma esperança ilusória, pois fazer de Bashar herdeiro tinha como objetivo impor um presente infindável aos governados, lutar contra o futuro e a mudança.

Infelizmente, a construção de uma dinastia republicana na Síria teve apoio francês e americano. A nível internacional, não se ouviu qualquer voz criticando a transformação da mais antiga república árabe numa monarquia hereditária.

Éramos fracos, estávamos isolados, sem apoio de ninguém, enquanto o regime era apoiado por todos.

No seu livro condena o “niilismo do regime” e o “niilismo dos islamistas de linha dura, em geral, e dos salafistas, em particular”. Qual é o denominador comum entre estes dois niilismos?

O denominador comum é a rejeição da política e a equação de “ou … ou…”; Assad ou ninguém! O Islão ou ninguém! Tudo ou nada. Um conflito político entre forças e programas transformou-se num conflito entre absolutos, cujo resultado é zero ou nada.

O deus dos niilistas islamistas e dos niilistas ateus é o poder absoluto, não acreditando em mais nada. Só o poder, nada mais que o poder. Os islamistas retiram sentido ao mundo; o regime nega o sentido inerente dos humanos – só adora o poder.

Era inevitável que sectarismo e religião viessem a privar a revolução do seu triunfo?

Teria sido possível evitar o sectarismo se o regime não tivesse sido sectário [usando os alauitas, como os Assad, e e outras minorias contra a maioria muçulmana sunita] . Um regime que depende, em larga escala, de órgãos sectários e que favorece uma parte da sociedade alheando outra.

Isto acontece desde que há 40 anos foram destruídos partidos políticos e organizações sociais. Isso deixou a porta da política aberta apenas à religião. E por esta porta entraram os niilistas islamistas.

Uma família de refugiados numa tenda em Saadnayel, no Vale de Bekaa, Líbano. A ONU estima que cerca de cinco milhões de pessoas fugiram da Síria desde o início da guerra civil em 2011
© Mohamed Azakir | Reuters

Depois de reconquistar quase 90% do território, Bashar está agora novamente a ser cortejado por outros líderes árabes. Há especulações de que a Síria poderá ser readmitida na Liga Árabe. Como avalia esta mudança?

Desde a década de 1970 que os regimes árabes são tiranias e estados retrógrados. Veem as revoltas populares e as tentativas para um público mais amplo entrar na arena política com um perigo existencial. Nisto, são apoiados por interesses ocidentais na região, que dão prioridade à segurança de Israel, país com armas nucleares, e à segurança das dinastias que protegem o petróleo.

Existe uma parceria entre a tirania regional e o imperialismo, para haver estabilidade no Oriente Médio sem democracia. E conseguem isto com a participação direta da nova Rússia czarista de [Vladimir] Putin. Estes regimes sabem que, hoje, é melhor venderem-se no Ocidente como elites modernas contra sociedades conservadoras, reacionárias e agressivas.

O extremismo religioso, aqui, parece ser um produto da natureza das sociedades e não um produto do seu estrangulamento político, económico e moral. Lamentavelmente, os governos ocidentais apoiam fascistas de gravata contra fascistas, mais fracos, de longas barbas, recusando-se a ver qualquer outra coisa nas nossas sociedades.

Como imagina o futuro da Síria?

A curto prazo, o país está dividido e o regime foi transformado num protetorado por russos, iranianos e suas milícias sectárias. A sociedade está extremamente cansada e dividida.

Para uma verdadeira reconciliação nacional, torna-se indispensável a responsabilização, o julgamento dos principais assassinos. A Síria precisa de uma paz baseada na justiça, não de um silêncio baseado no monopólio por parte do protetorado ‘assadista’.

Em 2001, nos tempos da “Primavera de Damasco”, e tinha eu acabado de sair da prisão há poucos anos, propus o princípio de uma reconciliação nacional, mas o regime e seus seguidores negavam a existência de qualquer problema.

Hoje, o regime tem um “Ministério da Reconciliação Nacional”, que pertence aos serviços de espionagem, os mesmos que impõem uma humilhante submissão àqueles cujas regiões foram reocupadas pelo regime e pelos seus protetores sob a fachada de reconciliação. No entanto, muitos defensores da reconciliação foram presos, torturados e mortos, em Deraa e noutras regiões.

Poderão os refugiados regressar em segurança?

Não vemos um retorno maciço dos refugiados à Síria, porque eles não confiam no regime. Não descarto o regresso de alguns, mas a possibilidade de retornarem em maior número parece-me dependente de uma verdadeira transição política e de uma vida política baseada na confiança e na posse, pelos sírios, do seu país.

Yassin al-Haj Saleh, com uma fotografia da mulher, Samira al-Khalil, desaparecida desde que foi raptada por um grupo jihadista em 2013
© The Bosphorus Review Of Books

A vitória de Bashar não parece ter desencorajado outros povos de se revoltarem contra os seus líderes. Como avalia os atuais protestos na Argélia e no Sudão [que derrubaram Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir, depois de 20 e 30 anos no poder, respectivamente]?

Bashar e os seus protectores podem [ter tentado] esmagar a revolução com armas mais potentes, mas não venceram. Uma vitória é política, legal e moral, e eles estão totalmente falidos a todos estes níveis.

A revolução no Sudão e os protestos na Argélia mostram o fracasso do ‘Assadismo’, como forma de aterrorizar o povo e exemplo dos perigos da revolução.

É uma boa mensagem para os sírios, e talvez possa ser uma mensagem para os egípcios, jordanos e iranianos, cujos regimes os intimidam dizendo: ‘Vocês querem que sejamos como a Síria?’ Eles usam-nos para educar os povos, mas parece que os povos recusam lições de assassinos.

Tem planos para concorrer a presidente numa Síria sem “Assadistas” e “Aslamistas” [termos usados por Saleh para designar os que usam os slogans “Assad ou ninguém”; “al-Aslam (em vez de al-Islam) ou ninguém].

Não sou político. Gosto é de escrever artigos, livros e lê-los. O que me preocupa, hoje no exílio, é vencer a batalha intelectual e moral contra “três monstros”: a tirania do Estado, os islamistas devotos do poder e as potências internacionais de controlo – russos, americanos e seus seguidores.

Tenho a certeza de que vamos vencer esta dura luta, e espero que isto seja a face de uma revolução cultural, cujo conteúdo essencial é a humanização, a transição do tempo dos monstros para o tempo humano.

O Daesh foi derrotado na Síria. Espera que Samira, a sua mulher, o seu irmão Firas e os seus amigos raptados voltem em segurança?

Samira não foi raptada pelo Daesh, mas por uma outra formação salafista – Exército do Islão [Jaish al-Islam] –, ao serviço do governo turco desde a ocupação de Ghouta Oriental, há um ano. O Daesh sequestrou e fez desaparecer o meu irmão Firas e outros amigos.

Os americanos e seus apoiantes no terreno não parecem interessados ​​em revelar a verdade sobre o destino dos desaparecidos e em fazer justiça. Há prisioneiros do Daesh, e ninguém parece querer um processo legal, sírio ou internacional, para o julgar e fazer justiça às suas vítimas.

O que preocupa os americanos e as potências ocidentais é o perigo de segurança que estes [jihadistas/salafistas] representam para eles. A ideia de um julgamento parece não lhes ter passado pela cabeça.

Que alegrias e tristezas guarda de Raqqa, a sua terra-natal e autoproclamada “capital” do “califado” do Daesh?

Raqqa foi o último lugar que habitei na Síria antes do meu exílio. Aqui vivi, clandestinamente, durante quase dois meses e meio, quando o Daesh reforçava o controlo sobre a cidade. Este foi um dos muitos impossíveis a que a Síria assistiu.

É triste que muitos acreditem que o Daesh se impôs a Raqqa por a cidade ser extremista na sua religiosidade e acolher favoravelmente doidos da religião. Foi o oposto.O Daesh dominou Raqqa porque esta era uma colónia interna, sem estrutura e auto-coesão. Faltava-lhe até mesmo liderança religiosa.

O meu sonho é voltar para onde Samira e Firas foram raptados, Ghouta Oriental e Raqqa. Seguir os passos de ambos e dos que desapareceram com eles. Um mundo inteiro destruiu as nossas vidas e os nossos sonhos. Mas continuamos a lutar de outras formas.

* Agradeço muito a Badr Hassanein, professor na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, que traduziu de árabe para português as respostas de Yassin al-Haj Saleh.

 

Este artigo, agora actualizado, na versão integral e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista SÁBADO, em 14 de Março de 2019 | This article, now an updated and extended version, and under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, March 14, 2019 edition.

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