Dunya Mikhail: A poeta que deu voz às vítimas do Daesh

Uma das mais importantes escritoras do Iraque conta num livro, belíssimo e comovente, a história de Abdullah Shrem, um apicultor de Sinjar que aproveitou a sua rede de contactos nas montanhas do Curdistão para salvar mulheres yazidis raptadas e escravizadas pelo autoproclamado “estado islâmico”. (Ler mais | Read more):

Dunya Mikhail: “De início, eu queria escrever uma epopeia sobre o sofrimento [das mulheres yazidis resgatadas por Abdullah Shrem] Ao ouvir as suas histórias, que parecem inacreditáveis, encontrei a minha epopeia nas suas vozes”
© Nina Subin

Em Sinjar, Abdullah Shrem tinha um “enorme jardim” onde, durante horas a fio, descobria “os segredos, a meticulosa organização e a harmonia com a natureza” das suas colmeias. O que mais o maravilhava era “as superiores qualidades de voo da abelha rainha, em comparação com os machos”, mas também o facto de, sem ela, o enxame ficar desorientado, o que o fez “valorizar profundamente” as mulheres da sua vida.

A assumida “obsessão” de Shrem com as colmeias deu lugar a outra quando o “estado islâmico” ou Daesh raptou a sua sobrinha Marwa, em Outubro de 2014. A partir daquele momento, ele “deixou de cuidar de abelhas para combater bestas”.

Comerciante de mel no Iraque e na Síria, tinha dinheiro, reputação, contactos e, acima de tudo, conhecia bem o terreno agreste. Aproveitou-se de tudo isto para criar uma rede de transportadores e contrabandistas, homens e mulheres, para resgatar as suas “rainhas”, aquelas a quem o Daesh chama sabaya (escravas).

São as histórias heróicas deste salvador e das sobreviventes – Marwa, Nadia, Parveen, Nazik, Zuhour, Badia, Kamy, Maha, Mona, Nidal, Claudia, Lalish, Jamila e outras – que Dunya Mikhail, uma das maiores poetas iraquianas, narra em The Beekeeper of Sinjar: Rescuing the Stolen Women of Iraq [publicado em português como “O homem que salvava mulheres”, Ed. Asa, Outubro 2019], um livro extraordinário que atesta o sofrimento e a capacidade de resistência do povo yazidi face ao genocídio cometido pelo Daesh.

Quase todos os relatos seguem um padrão. Os homens eram conduzidos até valas comuns e abatidos a tiro. As mulheres eram separadas: as mais velhas enterradas vivas, muitas vezes com os seus netos ainda bebés; as mais jovens, casadas ou virgens, vendidas e compradas em mercados de escravas (sexuais e domésticas), frequentemente realizados durante “competições de récitas do Corão, ou em leilões na Internet. Os rapazes eram radicalizados em mesquitas, forçados a treino militar, fazer explosivos, cometer atrocidades.

Há histórias com um fim agridoce, como a de Zuhour, que estava grávida do terceiro filho quando foi raptada e viu o marido enterrado vivo à sua frente. Conseguiu fugir do cativeiro e foi acolhida pela costureira Reem, filha de um combatente daeshi. As duas mulheres estabeleceram uma relação de amizade tão forte que, quando o emissário de Shrem foi buscar Zuhour, a protectora Reem desabafou: “Quem me dera ir consigo.”

Há histórias com um fim amargo, como a de Jamila, sequestrada quando ia ter com o noivo. Ao fim de um ano e meio de clausura, tortura e escravidão, conseguiu fugir com três outras companheiras de infortúnio. Juntas, superaram todos os obstáculos e perigos.

De regresso a casa, Jamila tinha esperança de que o amado a receberia de braços abertos, orgulhoso da sua luta vitoriosa. A mãe destruiu-lhe as ilusões, quando revelou: “Ele casou-se o mês passado”. Com o seu vestido florido e sem dizer uma palavra que traísse emoção, Jamila saiu à rua e suicidou-se.

Três jovens yazidis queimam insenso durante a cerimónia de abertura da primeira vala comum onde o Daesh lançou algumas das suas vítimas, em Kojo, Sinjar, Curdistão iraquiano
© Alessio Mamo | Al Jazeera

Dunya Mikhail, natural de Bagdad, conheceu o apicultor de Sinjar por acaso. Ele ajudou na tradução de uma conversa telefónica com Nadia, que a ela tinha sido apresentada por um jornalista yazidi. Os dois não mais deixaram de comunicar – ele no Curdistão iraquiano e ela nos Estados Unidos.

Ele detalhava as suas complexas operações de resgate, umas mais bem sucedidas do que outras – por vezes os daeshis arruinavam os seus planos, ora matando os contrabandistas ora ficando com milhares de dólares que ele pagava sem libertarem as escravas. Ela, minuciosamente, tomava nota de tudo o que ouvia.

A autobiografia de Dunya também é tecida de “prisão, tortura, morte, desaparecimentos, massacres e violações”, como, no seu premiado livro de poemas The War Works Hard, descreve Saadi Simawe, autora do prefácio. Tradutora e jornalista do antigo diário Baghdad Observer, ela foi colocada numa lista de alvos a abater durante a tirania de Saddam Hussein.

“Os escritores são como aquela criança que (no conto de Hans Christian Andersen) diz que o rei vai nu”, diz-me Dunya Mikhail, numa entrevista por e-mail, justificando por que fugiu para os EUA, a nação que ajudou o regime do Partido Baas a subir ao poder, em 1963, e o derrubou, em 2003.

“Era problemático dizer a verdade num lugar e num tempo em que queriam que mobilizássemos soldados para a guerra, para terem uma morte sem sentido. Como escritora, eu precisava do pensamento livre. A censura foi a principal razão por que deixei o meu país.”

“Tínhamos um edifício que se chamava mesmo ‘Departamento da Censura’”, adianta Dunya. “Os que lá trabalhavam tinham de controlar o que era ‘aceitável’ e ‘inaceitável’ para quem escrevia e lia. Alguns dos meus escritos foram considerados ‘subversivos’. Consegui partir e chegar à América porque tinha aqui familiares. Descobri que aqui, onde vivo há vinte anos, a censura não tem um edifício em terra, mas está no ar, implícita.”

Dunya, que deixou a pátria “com uma mala de viagem”, pensou na “injustiça que era pessoas partirem de mãos vazias” quando o Daesh tomou de assalto as terras onde os yazidis dizem habitar há mais de 1500 anos. “As que partiram de mãos vazias também tiveram mais sorte do que os que foram escravizadas”, observou.

“Quando mulheres foram roubadas e postas à venda em mercados públicos, senti-me insultada e não podia ficar calada. Contactei várias pessoas em Sinjar e em aldeias vizinhas, e descobri que eu era como uma parteira. Tinha de testemunhar o sofrimento das mulheres até se consumar o parto. De início, queria escrever uma epopeia sobre o sofrimento delas. Ao ouvir as suas histórias que parecem inacreditáveis, encontrei a minha epopeia nas suas vozes.”

Aisha, uma jovem yazidi com as suas duas filhas, Jinan e Jihan, na casa da família em Sinjar. As duas meninas foram raptadas pelo Daesh e mãe foi escravizada. Em 2018, as três regressaram ao Curdistão iraquiano, resgatadas na Síria em duas operações distintas
© Alessio Mamo | Al Jazeera

“Todas as histórias [recolhidas durante um ano] foram difíceis de escrever”, garante Dunya. “Mas pensei para mim mesma: se a verdade é dura e angustiante de ouvir, nada é mais duro e angustiante do que tudo o que elas sofreram.” Ficou psicologicamente afectada? “Sim – até tive sonhos influenciados por estas histórias. Num deles, eu era raptada por extraterrestres vindos de outros planetas.”

Abdullah Shrem continua a resgatar sobreviventes. “Há milhares de pessoas que permanecem desaparecidas. O ‘califado’ do Daesh caiu, mas a sua ideologia está por toda a parte.” E os sobreviventes continuam a contactar Dunya. “Procuram saber se estou bem, como se quisessem consolar-me.”

“Um dos sobreviventes, Idrees [que testemunhou a morte à queima-roupa do filho e do irmão], referiu que ler a sua história no meu livro o fez reviver tudo o que passou. Senti-me culpada, mas ele disse-me que o livro foi o melhor presente que jamais recebera.”

Dunya sabia “muito pouco” dos yazidis. “Só o que ouvia quando ainda vivia no Iraque, que eles vendiam boas azeitonas. Depois da catástrofe de 2014 aprendi tanto. O que mais me fascinou foi o facto de serem eles quem mantém intactos os rituais da antiga Mesopotâmia.”

“Símbolos dos tempos sumérios estão inscritos nas paredes do Templo de Lalish”, em Sinjar. É este o seu centro espiritual, onde, na primeira quarta-feira de Abril, continuam a celebrar o Ano Novo, alumiando 365 lanternas, num sinal de esperança.

Os tempos ainda são, porém, de escuridão. Traídos por árabes e curdos, que os abandonaram nos seus piores momentos, será possível restabelecer a confiança entre vizinhos? “É uma pergunta difícil, porque o que aconteceu deixou feridas muito profundas”, admite Dunya Mikhail.

“Não é impossível cicatrizá-las, mas deixarão marcas na mente e no corpo. A sobrevivência nunca é completa. Mas há esperança de que a dor aproxime as pessoas mais do que as afaste.”

Dunya adoraria ver construído, na região, um museu da memória, “Porque a memória deve ser publicamente evocada e não ignorada. Honraria pelo menos a dor e a necessidade de dar testemunho.”

“Dar voz a uma memória dolorosa e silenciosa é difícil, mas extremamente importante.” Defende também a criação de “um tribunal internacional, presidido pela ONU, para julgar os perpetradores de genocídio e crimes contra a humanidade”.

E o que fazer com os milhares de mulheres, viúvas e filhos do Daesh, muitos deles renegados pelas famílias e pelos seus Estados que lhes negam cidadania? “Alguns são vítimas de abusos físicos e emocionais; outros são crentes radicais na ideologia salafista-jihadista”, anota Dunya. “Saber distingui-los não é fácil.”

Uma jovem yazidi, numa sessão de apoio psicológico na Alemanha – um dos principais países de refúgio na Europa -, tenta contar a sua história de vida usando pedras, para marcar os acontecimentos traumáticos, e flores, para ilustrar os momentos mais felizes
© Inka Reiter | Forbes

Mais dramática é a situação das mulheres yazidis que os daeshis escravizaram e engravidaram. “Conheço uma sobrevivente que regressou ao lugar de onde fugiu porque não conseguia viver sem a filha que dera à luz durante a sua escravidão”, revela Dunya.

“É por isto que digo que a sobrevivência dos yazidis não está completa. Mães que sobrevivem sem os filhos, não é uma sobrevivência real. Sobreviveram sozinhas e não podem esquecer o que lhes aconteceu a elas e aos seus entes queridos.”

Há quem tema que o Yazidismo esteja em risco de extinção, mas não Dunya, que pertence à maior denominação cristã do Iraque, os caldeus da Igreja Católica do Oriente. Os yazidis que procuram o exílio “transportam a sua religião para onde quer que vão”, observa. Todos nós o fazemos”.

Caldeus, assírios, ortodoxos gregos, melquitas, arménios – os cristãos do Iraque totalizavam 1,5 milhões fiéis em 2003. Estima-se que agora sejam pouco mais de 500 mil. “Os daeshis pintaram as suas casas com a letra ‘N’ de Nasara [cristãos], denuncia Dunya.

“Com uma letra vermelha, tentaram reduzir a sua longa história para os ameaçar: ou partem ou morrem. Eu tinha primos na região. Fugiram, tal como os yazidis. Ali estava a campa da minha avó. Quando vi que os terroristas destruíam túmulos e sepulturas, senti que a minha avó tinha morrido uma segunda vez.”

“Não olhar para trás era o meu objectivo quando deixei o Iraque, mas, como Orfeu, quebrei a promessa”, confessa Dunya Ibrahim, que, após duas décadas de exílio, voltou à pátria, em curta visita. “Fui ao encontro das pessoas olhos nos olhos. Não perguntei nada do que pensava perguntar-lhes. Ia preparada para ouvir histórias terríveis. O que mais me surpreendeu, todavia, foi a esperança que elas tentaram dar-me.”

“Uma das mulheres no campo [de deslocados] apontou para uma fotografia de uma paisagem natural no seu calendário de 2016, e disse-me que o próximo calendário terá, provavelmente, imagens mais verdejantes.”

Dunya Mikhail e Abdullah Shrem, o apicultor de Sinjar no templo yazidi de Lalish, no Iraque
© Dunya Mikhail

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Outubro de 2019 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, October 2019 edition

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