Irão: O pior estará para vir?

Os EUA assassinaram o segundo homem mais poderoso da República Islâmica quando esta enfrentava a maior revolta política desde a queda da monarquia em 1979. Foi uma “agressão externa” que chocou muitos iranianos, incluindo os que protestam contra “as mentiras e a incompetência” do regime. As previsões são sombrias: uma vitória dos “duros” nas eleições de Fevereiro, uma guerra por procuração e a morte do agonizante acordo nuclear. (Ler mais | Read more…)

Homenagem a Qassem Soleimani, o homem que dirigia as guerra do Irão no Iraque, na Síria, no Líbano, no Afeganistão
© The New York Times

Um manifestante em Teerão ergue a fotografia de uma das 176 vítimas da queda do avião ucraniano abatido por mísseis dos Guardas da Revolução
© STR | AFP | The Washington Post

Nader Hashemi não ficou surpreendido ao ver os compatriotas protestar em massa contra a teocracia que os governa, dias depois de chorarem o “martírio” de Qassem Soleimani, o general cuja força os reprime nas ruas. “O Irão, um Estado de 80 milhões de habitantes, não é monolítico”, esclarece o director do Center for Middle East Studies da Universidade de Denver (Colorado, Estados Unidos), quando o inquiri sobre estes sinais de divisão e unidade.

Soleimani, 62 anos, comandante do batalhão Quds, corpo de elite dos Guardas da Revolução, foi assassinado por um drone americano, em 3 de Janeiro, no aeroporto de Bagdad. Os EUA alegaram, sem provas, que ele representava uma “ameaça iminente”.

Especula-se que a decisão de o eliminar terá sido um capricho de Donald Trump, embora ninguém negue que o segundo homem mais poderoso da República Islâmica tivesse as mãos manchadas de sangue.

Soleimani era o arquitecto da política externa de Teerão e o estratega militar da expansão regional iraniana – no Iraque, na Síria, no Líbano, no Iémen, no Afeganistão. Foi ele que, em 2005, conspirou para matar um protegido dos sauditas no Líbano, o primeiro-ministro Rafic Hariri, e assim consolidar o poder do Hezbollah.

Foi ele quem aproveitou o vazio criado por George W. Bush, após a queda de Saddam Hussein, para impor uma hegemonia xiita no Iraque. Foi ele que ajudou soldados americanos a derrotar o Daesh e criou milícias para matar soldados americanos e os forçar a uma retirada.

Foi ele quem convidou os russos a intervir na guerra síria, em 2015, oferecendo a vitória ao homicida Bashar al-Assad. Foi ele que armou e financiou os Houthis para combaterem as tropas de Riade no Iémen.

Em Novembro-Dezembro de 2019, quando dezenas de milhares de iranianos, a maioria jovens pobres e/ou desempregados, saíram à rua para contestar uma subida de 50% do preço dos combustíveis, coube aos Guardas da Revolução e à sua milícia Basiji a brutal repressão da maior contestação política ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979.

Inicialmente pacíficos, os protestos acabaram por se tornar violentos e alastrar a 29 das 31 províncias do país perante a resposta implacável das forças de Soleimani. Manifestantes enfurecidos atacaram “50 bases militares” – sugerindo um nível de coordenação sem precedentes – e incendiaram “731 bancos, 140 espaços públicos, nove centros religiosos, 70 postos de gasolina, 183 veículos da polícia, 1076 motociclos e 34 ambulâncias”, segundo um balanço do Ministério do Interior.

A Amnistia Internacional calcula que “mais de 300” pessoas foram mortas, muitas delas indiscriminadamente. A agência Reuters admite que terão sido “cerca de 1500”. Estima-se em “pelo menos 2000” o número de feridos e em “aproximadamente 7000” o de detidos.

Estas manifestações no Irão inspiraram as do Líbano e do Iraque, mobilizando xiitas, sunitas, cristãos e outros contra o domínio de Teerão e o sectarismo alimentado pelas milícias fiéis ao “mais importante soldado do Médio Oriente”.

Em 3 de Janeiro, porém, o assassínio de Soleimani gerou uma onda de indignação geral, com milhões de iranianos integrando um cortejo fúnebre supostamente maior do que o do fundador da república, Ayatollah Khomeini, em 1989.

Alguns opositores acusaram o regime de forçar a população a um luto patriótico fingido. Outros anotaram que o “modesto e incorruptível” Soleimani era uma figura popular e que a sua morte foi vista como “um acto de guerra”.

Iranianos enlutados acompanham o cortejo fúnebre do comandante Qassem Soleimani e do chefe paramilitar Abu Mahdi al-Muhandis; os dois homens foram assassinados num ataque ordenado por Trump no Iraque
© Sabah Arar | AFP | Newsweek

Uma vigília para recordar as vítimas do avião derrubado por mísseis iranianos, junto à Universidade Amir Kabir, em Teerão
© Ebrahim Norrozi | AP | The Boston Globe

Em 8 de Janeiro, o Irão vingou-se da “execução extrajudicial” de Soleimani disparando 16 mísseis contra duas bases militares dos Estados Unidos no Iraque. O Pentágono absteve-se de retaliar, porque “não houve baixas entre soldados americanos” (a CNN revelaria posteriormente que 11 foram feridos), tentando evitar uma escalada de tensões. Mas as tensões estavam ao rubro e o Irão cometeu, no mesmo dia, um erro fatal.

Pouco depois de um ataque à base de Ain al-Assad, os Guardas da Revolução abateram “por engano” um avião da Ukraine International Airlines, com destino a Kiev. Morreram todas as 176 pessoas a bordo.

Durante três dias, as autoridades em Teerão negaram responsabilidade, justificando a queda da aeronave com “problemas técnicos”. Só intensas pressões internacionais obrigaram o regime a uma admissão de culpa. “O avião foi confundido com um míssil – foi um erro indesculpável”, explicaram tardiamente as autoridades, nenhuma das quais se demitiu.

O New York Times verificou imagens de câmaras de segurança mostrando que foram dois mísseis, lançados de uma base militar a cerca de 12km de distância do Aeroporto de Teerão, que atingiram o voo PS752. O primeiro desactivou o equipamento de comunicação do avião e o outro foi disparado cerca de 23 segundos depois. Nenhum deles causou imediatamente a queda do aparelho.

Em chamas, o avião ainda faz inversão de marcha, mas, minutos depois, explodiu e despenhou-se. Falhou por um triz uma aldeia.

A tentativa de ocultar o crime escandalizou os iranianos, que, em ruidosos protestos, inundaram ruas, estações de metro e universidades, na capital e noutras cidades, exigindo a demissão e condenação do Líder Supremo. Outros queixavam-se: “Matam os nossos génios e deixam os mullahs no poder”. (Algumas das vítimas eram cientistas de dupla cidadania iraniana-canadiana.)

No Twitter, comentadores registaram que alguns dos que haviam participado nas procissões em memória de Soleimani juntaram-se aos que, dias depois, vituperavam o regime. Como entender esta aparente contradição?

“A cultura política iraniana está profundamente moldada pelos temas de anti-imperialismo, nacionalismo e democracia”, explica o académico Nader Hashemi, numa entrevista que me deu, por e-mail. “Após a morte de Soleimani, vimos a demonstração de um sentimento nacionalista e anti-imperialista.”

“Ele era um herói nacional que lutou na guerra Irão-Iraque [1980-1988] e protegeu o Irão do Daesh (os seus imensos crimes de guerra na Síria são pouco falados no Irão). O seu funeral, organizado pelo Estado, atraiu muitos apoiantes, mas também cidadãos que detestam o regime.”

“Depois da queda do avião ucraniano, muitos dos que foram ao funeral saíram igualmente à rua para protestar contra as mentiras do governo, e contra 40 anos de autoritarismo, corrupção e repressão”, adianta Hashemi. “Em resumo, os iranianos são capazes de protestar, simultaneamente, contra a política externa dos EUA e contra a ditadura clerical. Se virmos as coisas desta perspectiva, não há qualquer contradição.”

O assassínio de Qassem Soleimani foi precedido de um ataque à Embaixada dos EUA em Bagdad, no qual participaram milicianos pró-iranianos (como os da força paramilitar Hash al-Shaabi, aqui a partirem uma das janelas à prova de bala do edifício)
© AFP | middleeasteye.net

Depois do assassínio de Qassem Soleimani, o Irão atacou a base militar americana de Ain al-Asad, na província iraquiana de Anbar
© Qassim Abdul-Zahra | AP | deseret.com

A cientista política iraniana-americana Farideh Farhi, professora na Universidade do Havai, em Manoa, partilha a opinião do colega na Joseph Korbel School of International Studies em Denver. “A população do Irão é diversa em relação ao que pensa, mal ou bem, sobre o actual sistema”, diz-me ela, também por e-mail.

“Quando um dos seus generais, que muitos admiravam, é assassinado por um país que tem travado uma cruel guerra económica com impacto severo sobre a população, não surpreende a demonstração de unidade na fúria e no pesar.”

“Por outro lado, também eram inevitáveis os protestos após a queda trágica do avião ucraniano e subsequentes mentiras, porque muitos iranianos imaginam-se facilmente como passageiros daquele aparelho e como vítimas da inépcia e impiedade dos seus líderes”, comentou Farideh, membro do National Iranian-American Council (NIAC).

Para muitos iranianos na diáspora – sobretudo os que vêem Reza Pahlavi, o filho-herdeiro do último imperador, como alternativa de poder -, “o colapso do regime está próximo”. Alguns acreditam que o desaparecimento de Soleimani enfraqueceu a teocracia.

Nader Hashemi discorda: “O regime sairá reforçado. Até ao assassínio de Soleimani, o foco estava no legado das mortes de Novembro – quase 600 em 72 horas. Foram mortes que chocaram profundamente a sociedade iraniana, e o regime foi obrigado a pedir desculpa e a prometer indemnizações.”

“Agora, a República Islâmica tem um pretexto para mobilizar as pessoas à volta do nacionalismo e do anti-imperialismo, negligenciando questões como a repressão interna e as exigências de democracia.”

“Não hesito em dizer que Trump ofereceu à República Islâmica uma bóia de salvação. Os líderes iranianos conseguiram mudar completamente a narrativa dominante, para a centrar na política externa dos EUA – que já causava enorme miséria económica devido às debilitantes sanções impostas por Trump.”

Farideh Farhi alerta que “nenhum observador honesto da política iraniana pode falar com confiança sobre o futuro de um regime que se tem revelado resiliente, mesmo face a numerosos protestos. Não sei responder [se o colapso está iminente], mas adianto duas coisas.”

“A primeira é a de que, tendo em conta a falta de uma oposição organizada e uma alternativa, é muito prematuro falar de mudança de regime. Neste contexto, um colapso assemelhar-se-á mais a um caos do que a uma suave transição.”

“A segunda é a de que o modo como os recentes acontecimentos evoluíram expuseram os sérios desafios que se colocam ao governo e às várias instituições paralelas que gerem o país. Não sabemos como estas instituições irão reagir. Poderão enveredar numa direcção mais autoritária ou tentar amolecer os sentimentos populares, adoptando uma posição mais conciliatória e transparente.”

Numa mesquita em Teerão, mulheres iranianas choram a morte de Qassem Soleimani, uma figura venerada (e odiada) na República Islâmica
© Newsha Tavakolian | Magnum Photos | TIME

Milhares de iranianos saíram às ruas, furiosos por o regime ter tentado, durante três dias, negar a sua responsabilidade pela queda de um avião ucraniano, abatido “por engano”
© Arash Khamooshi | The New York Times

Ali Khamenei, o Supremo Líder, parece ter escolhido a primeira opção. Em 21 deste mês, o Irão terá eleições legislativas, e o Conselho dos Guardiões já vetou a recandidatura de 90 deputados reformistas, num sinal de que o regime endurece posições.

Farideh Farhi deplora que, “depois de uma tragédia, instituições não eleitas não vejam necessidade de mudança ou estejam com muito medo de quebrar velhos hábitos, mesmo que estes velhos hábitos sejam a causa de repetidos protestos.”

“Esta é uma prática corrente na República Islâmica que remonta aos anos 1990, quando o regime começou a afastar candidatos que considera excessivamente independentes ou com falta de lealdade ideológica”, recorda, por seu turno, Nader Hashemi.

“O crime destes candidatos é o de fazer perguntas sobre corrupção ou direitos humanos. As eleições no Irão nunca foram livres. Seria melhor designá-las por ‘selecções’. O resultado será provavelmente um parlamento cheio de ultraconservadores. À luz dos últimos acontecimentos, prevejo que afluência às urnas será muito baixa.”

Os Guardas da Revolução insistem em que “o conflito com os EUA ainda não acabou” e que não completaram a vingança pela morte de Soleimani. Estará uma nova guerra no horizonte?

“A haver uma guerra, será por procuração”, crê Hashemi. “O Irão sabe que não pode confrontar directamente os Estados Unidos. No ataque às bases americanas no Iraque, fez todos os esforços para não causar vítimas entre os soldados americanos. O método preferido de desafiar a posição dos EUA no Médio Oriente é usar os seus agentes [como as milícias] e travar uma guerra assimétrica.”

“Há muito tempo que o Irão vem fazendo isto. Podemos esperar mais ataques a navios no Golfo Pérsico, mais ataques a bases/soldados americanos através dos seus agentes, mais ataques a aliados dos EUA, como vimos em Setembro quando o Irão destruiu instalações petrolíferas da companhia Aramco na Arábia Saudita [e se safou].”

Equipas de salvamento no local onde se despenhou o avião ucraniano abatido por mísseis iranianos, pouco depois de ter descolado do Aeroporto de Teerão
© Akbar Tavakoli | IRNA | AP | kyivpost.com

O estado em que ficou o veículo em que seguia Qassem Soleimani, quando foi morto por um drone americano em Bagdad
© The New York Times

“Os Estados Unidos e o Irão já estão, efectivamente, em guerra, porque as sanções económicas que a América impôs aos iranianos também são uma guerra”, enfatizou Farideh Farhi. “Mas estamos a falar de dois países incomparáveis. Um é uma hiperpotência global, cujo poder militar e económico pode fácil e impunemente causar danos, mesmo quando se desvia de normas e leis internacionais.”

“O outro é uma potência regional de média dimensão que não pode causar danos directos aos EUA, economicamente ou de qualquer outra forma. Por isso, para convencer a América de que a sua campanha contra o Irão não está isenta de custos, este tem de recorrer a meios não convencionais. Não há qualquer hipótese de Teerão se envolver num confronto directo com os Estados Unidos.”

O que parece uma certeza é a agonia do acordo nuclear de 2015, conhecido pela sigla inglesa JCPOA. “Está ligado ao ventilador”, constata Nader Hashemi. “Embora o Irão e a Europa o tentem manter vivo, ele só existe em teoria. A culpa é de Donald Trump que revogou o acordo, em Maio de 2028, e está a encorajar o Reino Unido, a França e a Alemanha [o chamado grupo E3] a juntarem-se a ele.”

“Com a eleição de Boris Johnson, o acordo sofreu outro golpe, porque Johnson, agindo como agente de Trump, está a encorajar a negociação de um novo pacto. Mesmo que os europeus abandonem o acordo [original] e venham a impor novas sanções, não sabemos quais serão os efeitos práticos, porque o Irão já está sujeito às pesadas sanções de Trump.”

Por enquanto, apesar de Teerão ter retomado o enriquecimento de urânio, o E3 “parece interessado em salvar o JCPOA”, elogia Farideh Farhi, esperançosa de que haja ainda espaço para um “intenso processo diplomático”.

A questão que importa é saber “até que ponto os europeus estão confiantes de que poderão evitar uma escalada e não pedir novas sanções às Nações Unidas. O Irão ameaçou rever a sua doutrina nuclear – o que o poderá levar a abandonar o Tratado de Não Proliferação – se o E-3 levar o caso à ONU. Este é um resultado que a ninguém convém – nem ao Irão.”

“Este país é uma prisão e todos somos reféns – mas deixámos de ter medo”

Não se misturem com os guerreiros se tudo o que sabem fazer

É fugir quando o perigo vos ameaça

In: Shahnameh – O Livro dos Reis, a epopeia com que o grande poeta nacional iraniano Abolqassem Ferdowsi (?-1020) salvou a íngua, a história e a mitologia dos persas depois de várias invasões estrangeiras.

 

Uma fotografia que se tornou num símbolo dos protestos contra o regime no Irão
© STR |AFP |Getty Images | VOX

No dia em que a contactámos, Tarane(1), jornalista em Teerão, enviou-nos um vídeo perturbador. As imagens mostram um longo rasto de sangue num passeio da Rua Imã Khomeini, junto à estação de metro de Ostad Moein. Em passo apressado, transeuntes esforçam-se por não pisar este trilho que termina numa mancha densa, onde tombou um corpo ferido por balas.

Era sábado, 11 de Janeiro. Depois de três dias de negação, as autoridades iranianas admitiram finalmente ter abatido, “por engano”, um avião comercial ucraniano, num pico de tensão com os EUA, que haviam assassinado o general Qassem Soleimani, o segundo homem mais poderoso do regime.

Perderam a vida todas as 176 pessoas a bordo. Nas ruas rebentou “uma explosão de fúria”, relata Tarane, numa troca de mensagens. “Sentimo-nos mortos por dentro. Mentiram-nos. Que estúpidos são os nossos líderes! Como é que este governo nos pode proteger numa guerra?”

Os guardas terão começado a atacar por volta das 19:00. Para dispersar os manifestantes, usaram gás lacrimogéneo, bastões, projécteis de borracha e até munições reais. Várias pessoas ficaram feridas e outras foram detidas, segundo testemunhos citados pelo Centro de Direitos Humanos do Irão.

Tarane, de 28 anos, participou nos protestos que atraíram dezenas de milhares de iranianos, e alastraram da capital a outras cidades. Connosco ela partilhou várias fotografias e um outro pequeno filme.

Aqui vemos inúmeras pessoas, olhos melancólicos e rostos taciturnos, alguns protegidos por máscaras brancas, “para não serem identificados e perseguidos pelos [milicianos] basijis”, que, do cimo de um viaduto, filmavam esta ordeira amálgama humana, erguendo cartolinas brancas onde inscreveram slogans contra as autoridades.

Tal como em 1999, quando milhares de estudantes saíram à rua para tentar salvar a presidência do reformista Mohammad Khatami, e em 2009, para contestar a fraude eleitoral que deu um segundo mandato ao presidente ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, também agora ruas e universidades se encheram de jovens entoando um velho hino revolucionário, Yare Dabestani (“Meu colega de escola”), cuja letra simboliza a luta pela liberdade,

Meu colega de escola,

Estás aqui a meu lado

Um ditador paira sobre as nossas cabeças –

Tu choras e suspiras comigo

Gravado neste quadro negro

Estão o meu e o teu nome

A tirania que nos oprime

Não desapareceu com o tempo

Os campos da nossa cultura

Tornaram-se baldios esquecidos

Para o bem ou para o mal –

Os corações das pessoas estão agora mortos

Com as minhas e as tuas mãos

Teremos de derrubar este muro

Quem senão nós

Tem o poder de curar a nossa dor? (2)

“Veio gente de todas as idades e classes sociais”, exulta Tarane, descrevendo os protestos. “Pais e mães trouxeram os filhos. Já ninguém se assusta e foge como outrora. Lutam e gritam palavras de ordem [como “Abaixo Khamenei!”, o Supremo Líder] consideradas ofensas de pena capital. Vi pessoas a serem espancadas pelos basijis. Deixámos de ter medo deles.”

Um retrato emoldurado de Qassem Soleimani é erguido por mulheres iranianas, durante os três dias de celebrações oficiais da sua morte
© Newsha Tavakolian | Magnum Photos | TIME

Estudantes iranianos homenageiam as vítimas do avião ucraniano abatido por mísseis dos Guardas da Revolução, durante um protesto na Universidade de Amir Kabir, em Teerão
© Abedin Taherkenareh | EPA | The New York Times

“É de uma guerra que temos medo. Odiamos Donald Trump, porque ele é racista e mandou matar Soleimani, que era muito popular no Irão. Odiamos também o nosso governo religioso. Odiamos o hijab [que as mulheres são obrigadas a usar]. Odiamos os Pahlavi [a última dinastia imperial].”

“Os media do Irão e na diáspora, como a estação Manoto [ligada a figuras que promovem a reinstauração da monarquia] só desinformam. Para eles, ora somos heróis, ora somos vilões. A realidade é que este é um país complexo, amado por todos. Só ambicionamos viver em segurança e ter boas relações com o resto do mundo.”

“A vida é tão dura”, sobretudo desde que Trump abandonou o acordo nuclear assinado por Barack Obama em 2015 e impôs sanções mais penosas apesar de o Irão estar a cumprir o que prometera, lamenta Tarane. “É tão difícil trabalhar, ter um sustento. Não podemos comprar medicamentos, porque os preços duplicaram.”

O Fundo Monetário Internacional (FMI) admite que o embargo está a dizimar a economia iraniana, que se contrai “a uma alarmante taxa anual de 9,5%”. Em Dezembro, as exportações de petróleo, principal fonte de receitas, ficaram reduzidas a zero. A inflação aproxima-se dos 40%, dificultando o acesso a produtos básicos. Empresas correm o risco de fechar. Mais de um em cada quatro jovens iranianos não tem empregos, a maioria deles recém-licenciados, segundo o Banco Mundial.

“As pessoas estão desesperadas”, vinca Tarane. “Muitas refugiam-se na droga e no álcool. A geração mais nova pouco ou nada tem, excepto Instagram e narcóticos. Com o dinheiro que ganham [como “influenciadores”], os jovens drogam-se e embebedam-se mais.”

O número de toxicómanos no Irão, um Estado com 921 km de fronteira porosa com o Afeganistão, produtor de 90% do ópio que exporta para vários países, totalizava em 2018 entre 2,8 milhões e três milhões de pessoas, com idades entre os 15 e os 65 anos, segundo dados oficiais do Governo.

Revolta em Teerão: “Muitos iranianos imaginam-se facilmente como passageiros daquele aparelho e como vítimas da inépcia e impiedade dos seus líderes”
© Mona Hoobehfekr | ISNA| AP | Business Insider

Os números reais serão mais elevados, alerta a ONU. O consumo está a aumentar entre mulheres e crianças (algumas com 11 anos). Grávidas dão à luz bebés já viciados, que morrem prematuros ou dificilmente se livram desta dependência ao longo da vida.

“Os iranianos no exílio acham que uma mudança de regime é a solução para os nossos problemas, mas eu não acredito nisso”, sublinha Tarane. “Tenho medo de uma guerra que resulte na desintegração da pátria, cada pedaço cobiçado por outros. Vou para a rua protestar porque detesto tudo o que me obrigam a fazer neste país, que é uma prisão e onde todos vivemos como reféns.”

As eleições legislativas marcadas para 21 deste mês de Fevereiro não lhe oferecem esperança, admite Tarane. Dezenas de deputados reformistas foram impedidos de se recandidatar pelo Conselho dos Guardiões – o organismo que veta os políticos críticos.

“Palpita-me que, desta vez, ganharão os ‘falcões’, porque eles estão revoltados e porque o povo está desmotivado. Mesmo os que votaram nos reformistas tencionam abster-se. Prevejo o regresso aos tempos de Ahmadinejad. Se os ‘falcões’ desafiarem Trump, teremos uma guerra. E nós só queremos sobreviver.”

(1) Este nome é fictício, escolhido pela entrevistada, para garantir a sua segurança.

(2) Tradução livre a partir da versão inglesa

Nader Hashemi, director do Center for Middle East Studies da Universidade de Denver (Colorado, Estados Unidos)
© Middle East Politics Podcast | SoundCloud

Farideh Farhi, cientista política, professora na Universidade do Havai, em Manoa
© Middle East Institute

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Fevereiro de 2020 | These articles were originally published in the Portuguese new magazine ALÉM-MAR, February 2020 edition

“A ‘era da rebelião’ oferece muitos sinais de esperança”

A última década acabou como começou, e 2020 inicia-se da mesma forma. Com revoltas populares contra a autocracia, a desigualdade, a discriminação, o desemprego, a corrupção. “É admirável que tanta gente destemida em tantos países esteja a exigir aos seus governos elevados padrões de integridade e justiça social, muitas vezes arriscando a própria vida”, elogia o académico australiano Peter McPhee. Estas “rebeliões” – e não “revoluções” – mostram que pessoas corajosas encontrarão sempre forma de contestar poderes e reclamar direitos. (Ler Mais| Read more…)

Um manifestante enfrenta um grupo de polícias anti-motim, erguendo uma bandeira vermelha, durante um protesto em Roma (Itália), no âmbito um dia de marchas globais inspiradas pelo movimento Occupy Wall Street
© Alberto Pizzoli | AFP | Getty Images

Professor catedrático e emérito da Universidade de Melbourne, da qual foi o primeiro reitor e onde continua a dar aulas e a investigar, Peter McPhee é autor, co-autor e coordenador de mais de duas dezenas de livros. Entre as suas obras de referência estão The French Revolution: 1789-1799; Robespierre: A Revolutionary Life; Liberty or Death: The French Revolution; A Social History of France: 1789-1914. Em 2003, o governo australiano atribuiu-lhe a Medalha Centenária, reconhecendo o seu serviço à educação, em várias instituições de ensino superior. Em 2012, foi condecorado pela Rainha Isabel II com a Ordem da Austrália. Deu-me esta entrevista, conduzida em dois tempos, por email.

Como é que um historiador da Revolução Francesa olha para os protestos em massa que estão a abalar o mundo?  Podemos comparar os novos “rebeldes” a modernos jacobinos que lutam contra a tirania contemporânea, ou estamos a assistir a algo completamente diferente?

Como historiador da Revolução Francesa, e das revoluções em geral, olho para os protestos como um sinal de alerta que a sociedade emite: um indicador de transições e questões mais abrangentes. As actuais rebeliões em larga escala em vários países revelam o enorme stress que aflige o nosso mundo. E dizem-nos muito.

É profundamente revelador este tempo em que vivemos, com protestos gigantes no Médio Oriente e na América do Sul, mas também movimentos importantes em lugares diversos como Hong Kong, a Catalunha ou o Zimbabwe.

Precisamos, todavia, de distinguir entre protesto, rebelião e revolução. Embora os protestos nas suas diversas formas sejam endémicos, é muito raro as pessoas revoltarem-se violentamente contra um regime vigente. E são ainda mais raras as revoluções.

Tem havido revoluções genuínas ao longo da história. Mas os protestos que vemos hoje são, sobretudo, rebeliões com o propósito de afastar ou mudar radicalmente regimes atuais por outros que sejam mais democráticos, mais igualitários e menos corruptos. Não são movimentos revolucionários que tentam substituir um tipo de sociedade e política por outro.

Apoiantes dos direitos LGBT, em São Petersburgo (Rússia), lançam balões ao ar numa manifestação que assinala do Dia Mundial contra a Homofobia e Transfobia, em Maio de 2014
© Olga Maltseva | AFP | Getty Images

Está a dizer que estas rebeliões não são revoluções procuram apenas derrubar o regime e não o sistema?

Sim. Parece-me que estas rebeliões têm quatro objetivos comuns ou genéricos: respeito pela democracia; protecção contra a corrupção; oportunidades de emprego, em particular para jovens adultos; e melhores serviços sociais. É claro que cada rebelião tem também objetivos locais específicos.

Todas elas ocorrendo em países onde os governos clamam ser representantes da “vontade do povo”, as rebeliões apelam sobretudo a mudanças radicais no modo como os regimes se comportam mais do que tentam substituí-los por diferentes sistemas políticos e sociais. Esta é a razão por que acho que são rebeliões e não revoluções.

Vê outros denominadores comuns ou causas colectivas nestes protestos dominados por jovens?

Em muitos países, abunda a desilusão com o “défice democrático” (o fracasso do processo de uma suposta democratização nos anos 1990 [que seguiu ao colapso do Muro de Berlim e da União Soviética], a desconfiança e a hostilidade à corrupção).

A agravar tudo isto está a fúria gerada por uma acelerada globalização económica que resulta frequentemente num aumento do fosso entre ricos e pobres. Por um lado, [os jovens que protestam] vêem um abismo entre a sua educação e as suas aspirações; por outro, vêem asfixiadas as suas reais oportunidades de vida.

No Médio Oriente, por exemplo, 60% da população tem menos de 30 anos. [Cerca de 41% dos 7700 milhões de habitantes do mundo têm menos de 24. Os que têm menos de 15 totalizam 41% em África e 25% na Ásia e na América Latina, segundo estatísticas da ONU].

Dezenas de afegãos da província de Helmand descansam à chegada a Cabul, a capital, em Junho de 2018, depois de caminharem durante centenas de quilómetros, abstendo-se de comer e beber, para exigir o fim de décadas de conflito
© Mohammad Ismail | Reuters

“O país com maior probabilidade de se tornar revolucionário é o Iraque”, escreveu o professor no site “The Conversation”. Porquê? Não foi uma revolução o que aconteceu na Argélia ou no Sudão, onde as massas derrubaram dois ditadores (Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir), quebrando a barreira do medo reerguida após o fiasco das chamadas “primaveras árabes” no Egipto, na Líbia e na Síria?

Na Argélia e no Sudão, protestos persistentes conseguiram forçar líderes autoritários a demitirem-se. Na Argélia, foram marcadas eleições para 12 de Dezembro, mas os protestos continuam, porque as pessoas não arredam pé [das ruas].

No Sudão, um governo provisório aprovou uma lei para “desmantelar” o regime do ex-presidente Bashir, incluindo a dissolução do seu partido político e a expropriação dos seus bens. Sim, foram movimentos de protesto importantes e bem sucedidos – mas não foram revoluções e os seus resultados poderão vir a ser modestos.

A História ensina-nos que as revoluções só ocorrem quando há causas a longo prazo e uma ideologia sócio-política popular hostil ao regime em vigor.

Só se consegue derrubar um regime se os que detêm o poder não conseguirem conter confrontos violentos ou porque há deserções nas forças armadas. Não sabemos até que ponto estes factores estão suficientemente presentes nos protestos atuais. Não há provas de grandes deserções nas forças armadas ou na polícia em qualquer destas rebeliões.

Um factor muito importante na mais recente fase das “primaveras árabes” no Líbano, no Iraque e no Irão foi o abandono desordenado dos Estados Unidos dos seus compromissos internacionais na região. Isto criou a “tempestade perfeita” no Iraque, em conjunto com outros factores como o desemprego dos jovens, corrupção extrema e cepticismo político. Mas será que a fúria em relação aos governantes se transformará em ódio ao Irão?

Jovens sul-coreanas usam ganchos com flores no cabelo, numa concentração que se repete semanalmente junto à embaixada do Japão, em Seul, exigindo que este país assuma responsabilidade pelos abusos cometidos contra as chamadas “mulheres de conforto” durante a II Guerra Mundial
© Kim Kyung-Hoon | Reuters

Isso é importante porquê?

Sabemos que onde a fúria popular é desviada para a divisão religiosa ou a xenofobia as esperanças de uma sociedade melhor são frustradas. Há tantos exemplos, da Irlanda do Norte do passado ao Iraque actual [dominado por conflitos interconfessionais].

No entanto, foi muito significativo que o primeiro-ministro xiita Adel Abdul Mahdi [em Bagdad] tenha sido forçado a demitir-se recentemente na sequência de gigantescos protestos que agora reclamam uma mudança completa do sistema político. Isto é potencialmente revolucionário, pelo menos no sentido político.

Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o número de países que avançam para o autoritarismo excede os que adoptam a democracia, segundo um estudo recentemente publicado. Até que ponto as respostas dos regimes não democráticos – e as respostas dos governos democraticamente eleitos – a estes desafios estão a exacerbar os protestos que o professor define como “populares” e não “populistas”?

É importante distinguir entre “populista” e “popular”, uma vez que são respostas opostas ao desespero político e económico, alimentando uma raiva enorme.

Embora esta raiva alimente a base de partidos e líderes autoritários, “populistas” e até xenófobos (como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Rodrigo Duterte e Victor Orbán), a maioria das actuais rebeliões “populares” é sobretudo uma demonstração democrática de ultraje perante a injustiça social,  a corrupção das elites, a repressão política.

Os governos democraticamente eleitos nunca estiveram imunes a protestos. A lição mais solene que aprendemos em relações internacionais nos últimos 30 anos, desde 1989, é que eram muito ingénuas as nossas convicções quanto a uma estreita ligação entre democracia e boa governação.

O que importa é a qualidade do que designamos por cultura política, [um conceito] muito mais amplo do que [o de] política institucional.

A saúde das relações entre ambas condiciona o nível e a natureza dos protestos. Só quando há níveis aceitáveis de integridade e de prestação de contas na política institucional é que uma mais ampla cultura política é pacífica, mesmo se não desprovida de contestação. É uma noção simples, mas pouco comum na realidade!

Durante uma greve geral de 24 horas, em Atenas, em 2015, milhares de gregos saíram à rua em protesto contra as medidas de austeridade e cortes nos subsídios governamentais impostos pelo governo de esquerda de Alexis Tsipras
© Louisa Gouliamaki | AFP | Getty Images

Alguns analistas vaticinam que movimentos populares sem uma liderança clara terão os dias contados, porque, na ausência de estruturas organizativas que os mantenham num caminho não violento, haverá sempre o risco de cisões e cismas. Em Novembro, porém, depois de meses de protestos, muitos deles violentos, o movimento pró-democracia sem líderes em Hong Kong obteve uma estrondosa vitória eleitoral contra a poderosa China. Qual a sua opinião?

O movimento pró-democracia em Hong Kong orgulha-se de fluir pelas ruas “como a água”, que ninguém pode conter, e no entanto a sua extraordinária resiliência continua a esbarrar na teimosia das autoridades e – ainda mais importante –  na obediência e lealdade das forças armadas e da polícia.

Até agora, nem protestos engenhosos nem os resultados das eleições para os conselhos locais conseguiram demover os governantes.

Isto sugere que, para avançar, o movimento terá de negociar formalmente com as autoridades, só que o Partido Comunista Chinês em Pequim está de olho nos uigures em Xinjiang [província maioritariamente muçulmana onde a China reprime a aspirações à independência] e é improvável que aceite um compromisso.

A década terminou como começou, com reivindicações de mudança e países a mergulhar no desconhecido. Será a próxima década ainda mais explosiva? Quais os perigos e esperanças que se avizinham?

Os maiores perigos são a intercessão de um contínuo e rápido crescimento demográfico e consequentes pressões sobre os recursos, por um lado, e incessantes desastres climáticos e aquecimento global, por outro.

É muito provável que as respostas estes problemas se mantenham nacionalistas e autoritárias, gerando revolta popular contra injustiças evidentes. A nossa maior esperança é que uma nova geração de líderes políticos venha a elevar o nível da boa governação, integridade e postura internacional.

Mas como podem os jovens marcar a diferença num clima hostil, quando activistas como a sueca Greta Thunberg ou Joshua em Hong Kong, por exemplo, são constantemente criticados, deslegitimados ou detidos?

Um dos aspectos mais extraordinários das actuais rebeliões é, como diz, a ausência de uma liderança clara. Isso é uma fraqueza óbvia, mas também uma força. Porque dificulta os planos dos governos para reprimirem a oposição.

Líderes por uma mudança radical, como Greta Thunberg e Joshua Wong, sempre foram alvos para os que estão no poder. No entanto, é a resiliência e a capacidade de mobilizar os seus pares que fazem deles líderes. Haverá sempre indivíduos com um desejo ardente de melhorar as vidas dos concidadãos.

Liliana Segre (centro), 89 anos, sobrevivente do Holocausto e senador vitalícia, participa numa manifestação contra o racismo que juntou cerca de 600 presidentes de câmaras da Itália, em Dezembro de 2019. Numa altura em que o sentimento nacionalista e anti-imigração aumenta no país, Liliana Segre foi vítima de abusos e ameaças, depois de ter apelado a uma investigação aos crimes de ódio e anti-semitismo
© Luca Bruno | AP

Que recomendações faria aos líderes mundiais?

Neste momento, há um vazio trágico nas lideranças do mundo, com as três maiores potências (Estados Unidos, China, Rússia) envolvidas numa competição abertamente nacionalista, reivindicando impérios económicos e territoriais.

A retórica do interesse nacional e o desprezo deliberado pelas normas e regras de negociação internacionais estão a ser reforçados por pressões internas na União Europeia e pela fraqueza colectiva das Nações Unidas.

A UE está “desaparecida em combate” e a ONU mostra-se inábil para mudar egoísmos nacionais e sectários. Nunca houve uma necessidade tão urgente de líderes mundiais que promovam soluções genuinamente internacionais para os maiores problemas do mundo: alterações climáticas e suas consequências; conflitos militares e sociais devido a recursos limitados; pressões demográficas sobre o ambiente; conflitos nacionalistas e refugiados.

Noto que está pessimista em relação aos EUA de Trump (que poderá ser reeleito em 2020), à UE (onde a extrema-direita se mantém forte) e à ONU (que se revela ineficaz). O futuro também parece sombrio quando olhamos para o Reino Unido, prestes a embarcar numa viagem perigosa depois do Brexit; para a Índia de Narendra Modi, que parece transformar-se de um país democrático e secular numa “nação supremacista hindu”; para a China de Xi Jinping, que está a recolher DNA humano em massa para controlar identidades; para a Rússia de Vladimir Putin, que acaba de  aprovar uma lei visando perseguir jornalistas como “agentes estrangeiros”. Na América Latina, no Médio Oriente, na Ásia e em África, outros autocratas continuam resolutamente agarrados ao poder apesar de protestos incessantes. Onde é que vê sinais de esperança?

Há muitos sinais de esperança. Na Argélia, no Sudão e agora no Iraque, líderes impopulares têm sido forçados a demitir-se, embora não possamos assumir que o futuro virá a ser melhor. É admirável que tanta gente destemida em tantos países esteja a exigir aos seus governos elevados padrões de integridade e justiça social, muitas vezes arriscando a própria vida.

É claro que também há razões para sermos pessimistas, mas a lição da “era de rebelião” actual é que, mesmo sob regimes autocráticos, pessoas corajosas encontrarão sempre uma maneira de reivindicar os seus direitos.

Ao alegarem ter uma espécie de mandato popular, todos os governos estarão sempre vulneráveis à dissidência. Mesmo em países – como a China, a Venezuela ou o Irão – que atribuem a culpa pelos protestos a ingerências externas.

Peter McPhee, é professor catedrático e emérito da Universidade de Melbourne, da qual foi o primeiro reitor e onde continua a dar aulas e a investigar. É também autor, co-autor e coordenador de mais de duas dezenas de livros. Entre as suas obras de referência estão The French Revolution: 1789-1799; Robespierre: A Revolutionary Life; Liberty or Death: The French Revolution; A Social History of France: 1789-1914
© Cortesia de | Courtesy of Peter McPhee

 Uma década de protestos

Os últimos dez anos (2009-2019) foram marcados por um levantamento global contra a opressão e a corrupção dos políticos, desigualdades na sociedade e destruição do ambiente. Estas foram e são algumas lutas:

2009

IRÃO

Na noite de 12 de Junho, milhões de iranianos lançaram uma “Revolução Verde” para contestar os resultados das eleições que renovavam o mandato do presidente ultraconservador, Mahmoud Ahmadinejad. Mir Hossein-Mousavi e Mehdi Karroubi, os candidatos da oposição, que denunciaram fraude e clamaram vitória, foram e continuam presos. Centenas de pessoas foram atacadas, detidas e torturadas. Em 2011-2012 e 2017-2018, foram retomados e novamente reprimidos os protestos, desta vez contra as políticas económicas. Em 15 de Novembro de 2019, um aumento de 50% nos preços dos combustíveis gerou nova vaga de manifestações. Até Dezembro,  “mais de 300” pessoas (estimativa da Amnistia Internacional) ou “cerca de 1500” (dados da Reuters) terão sido mortas, muitas delas indiscriminadamente, o que chocou uma nação depauperada por décadas de sanções internacionais e pela incompetência e corrupção do regime. Milhares foram também feridas e detidas. Foi a maior  (e mais bem coordenada) revolta política contra a teocracia – abrangeu quase todas as províncias do país – desde a Revolução Islâmica de 1979.

Junho de 2009: Apoiantes do candidato reformista Mir Hossein Mousavi, que simbolizava a “revolução verde” e cuja vitória foi negada pelo regime, a favor do ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, que conseguiu fraudulentamente um segundo mandato
© Alfred Yaghobzadeh

2009-2019: Iranianos, a maioria jovens pobres e desempregados, protestam contra um aumento dos preços dos combustíveis, em Novembro de 2019, numa auto-estrada em Teerão
© Nazanin Tabatabaee | WANA | Reuters

2010

TUNÍSIA

Foi a “Revolução de Jasmim” na Tunísia, iniciada em Dezembro, que inspirou a chamada “Primavera Árabe”. Milhares de tunisinos saíram às ruas depois de um jovem desempregado, Mohamed Bouazizi, se ter imolado pelo fogo quando agentes da polícia o impediram de vender a sua mercadoria numa feira em Sidi Bouzid. Os subsequentes protestos forçariam o ditador Zine El Abidine Ben Ali a demitir-se, em Janeiro de 2011, após 23 anos na presidência. A Tunísia, com uma sociedade civil robusta, foi o único caso de estabilidade política resultante das primeiras revoltas que se propagaram a vários países: Egipto, Bahrain, Iémen, Iraque, Jordânia, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Omã, Síria. Em Outubro de 2019, cativando os jovens com a promessa de integridade, o professor de Direito Kais Saied, reformado e conservador, 61 anos, foi eleito presidente com 73% dos votos.

2010-2019: Depois da mais bem sucedida das “primaveras árabes”, os tunisinos elegeram como presidente o professor de Direito Kais Saied, um conservador de 61 anos, apoiado pelos islamistas, que conquistou 73% dos votos
© Reuters

2011

EGIPTO-IÉMEN-LÍBIA

Inspirados pela sublevação tunisina, os iemenitas revoltaram-se contra o seu ditador, Ali Abdullah Saleh, em Janeiro; os egípcios derrubaram Hosni Mubarak, em Fevereiro; e a Líbia livrou-se de Muammar Kadhafi em Agosto. No Cairo, eleições substituíram Mubarak por Mohammed Morsi, mas a agenda islamista deste enfureceu os cidadãos e os militares que o derrubariam, em 2013 (e contribuíram para a sua morte, de ataque cardíaco, alegadamente devido a negligência médica, na prisão, em  Junho de 2019). Hoje, o país é governado por um marechal, Abdel Fattah el-Sisi, que reprime violentamente qualquer tentativa de dissidência. No Iémen, Saleh foi morto num ataque, o país mergulhou no caos e uma guerra iniciada por sauditas em 2014 contra o movimento xiita Houthi causou até agora cerca de cem mil mortos e dois milhões de deslocados. A Líbia também se fragmentou: dois governos rivais e mais de 300 milícias estão envolvidos numa guerra sem fim à vista.

2011-2019: Egípcios protestam na praça Tahrir, no Cairo, depois de, em 2013, os militares terem derrubado o presidente-eleito Mohammed Morsi, cuja agenda islamista estava a ser contestada nas ruas; o Egipto é hoje governado pelo marechal Abdel Fattah el-Sisi, considerado um ditador ainda mais opressivo do que Hosni Mubarak, afastado na revolta popular de 2011
© Suhaib Salem | Reuters

2011-2014: Um soldado da coligação saudita que bombardeia o Iémen desde a queda do presidente Saleh numa sublevação popular, olha para Áden, em Março de 2017 – uma cidade sob controlo da milícia xiita pró-iraniana Houthi. A guerra que já causou mais de cem mil mortos e dois milhões de deslocados parece não ter fim à vista
© Amira al-Sharif (fotógrafa nascida na Arábia Saudita e que vive no Iémen) | The Washington Post

2011-2019: Um membro do autoproclamado “Exército Nacional Líbio”, ao serviço de um dos dois governos rivais ( criados após a queda de Muammar Khadafi), ensina crianças numa escola, na cidade de Benghazi, como lidar com minas e explosivos, em 12 de Março de 2017
© Esam Omran Al-Fetori | Reuters | cfr.org

SÍRIA

A “revolução” síria começou em Março, na cidade de Deraa, com protestos pacíficos exigindo reformas políticas, sociais e económicas. Só quando o presidente, Bashar al-Assad, ordenou às forças de segurança que disparassem sobre manifestantes indefesos é que a principal reivindicação passou a ser a queda do regime. A oposição, financiada e armada por vários países, cada um com a sua agenda, militarizou-se para resistir. O Irão e a Síria intervieram na subsequente guerra civil para salvar Assad. O resultado foi o maior drama humano do século XXI, com meio milhão de mortos, 1,9 milhões de feridos, 4,8 milhões de refugiados e 6,6 milhões de deslocados internos.

2011-2019: Crianças sírias numa manifestação contra o regime de Bashar al-Assad, na cidade de Homs, em Dezembro de 2011, o ano em que protestos pacíficos começaram a ser violentamente reprimidos pelas forças do ditador
© Associated Press | britannica.com

2012

ARGENTINA

Em Setembro e Novembro, milhares de argentinos revoltaram-se contra a insegurança, a corrupção e a reeleição para um terceiro mandato da presidente, Cristina Fernández de Kirchner. Uma multidão erguendo um cartaz com a inscrição “Chega de matar” ocupou o Obelisco, monumento tradicional em Buenos Aires, aludindo à crescente violência criminal no país. O protesto chegou também à Praça de Maio, diante da Casa Rosada, a sede do governo. em 2017 e 2019, com Maurício Macri na chefia do Estado e CFK como vice-presidente, os argentinos voltaram às ruas, em protesto contra um projecto-lei para reformar o regime de pensões de reforma, e para exigir aumento de salários e ajudas alimentares aos mais afectados pela grave crise económica que abala o país.

2012-2019: Junto ao Congresso argentino, em Buenos Aires, um manifestante dá um pontapé numa granada de gás lacrimogéneo lançada pela polícia anti-motim durante protestos contra um projecto-lei visando mudar o regime de pensões de reforma, em 2017
© Eitan Abramovich | AFP | france24.com

2013

TURQUIA

Em 28 de Maio, os turcos encheram as ruas de Istambul, inicialmente para travar um plano urbanístico que iria destruir os espaços verdes do Parque Gezi, na Praça de Taksin, e depois para condenar a violenta expulsão de um grupo de jovens que ali se concentrara. Cerca de três milhões e meio de pessoas terão participado em quase 5000 manifestações por todo o país. Na acção policial para esvaziar a praça, 22 foram mortas, 8000 feridas e 3000 detidas. O então primeiro-ministro (hoje presidente), Recep Tayyip Erdogan, adiou o controverso projecto, mas não perdoou os organizadores. Dezasseis deles começaram a ser julgados em 2019 e enfrentam penas de prisão perpétua, sob a acusação de “tentativa para derrubar o governo”.

 

2013-2019: Um polícia turco pulveriza com gás lacrimogéneo uma manifestante, identificada como Ceyda Sungur, no Parque Gezi, em Istambul, durante protestos, em 2013, contra planos urbanísticos do governo que destruiriam este “pulmão” da cidade. O agente nesta imagem, que se tornou símbolo da luta, foi condenado a uma pena suspensa de 20 meses de prisão e obrigado a plantar 600 árvores. Mas o governo de Erdogan não perdoou a ousadia dos que desafiaram os seus planos e perseguiu judicialmente os principais activistas
© Reuters | The Independent

UCRÂNIA

Em Novembro, os ucranianos iniciam uma revolução quando o presidente pró-russo Viktor Ianukovitch desistiu de um acordo de associação com a União Europeia, poucos dias da prevista assinatura. Este acordo iria permitir uma maior integração política e económica entre esta antiga república da URSS e a UE, mas Ianukovitch cedeu às pressões de Moscovo, com isso gerando um grande movimento de protesto  em Kiev, a capital. A polícia dispersou brutalmente os manifestantes concentrados em Maidan Nezalezhnosti  (Praça da Independência). Em Janeiro de 2014, perante um crescendo de violência nas ruas, Iakunovitch assinou uma série de leis restringindo o direito ao protesto, enfurecendo ainda mais centenas de milhares de ucranianos. Manifestantes ocuparam vários edifícios governamentais e só os evacuaram quando o parlamento revogou as leis anti-protesto e ofereceu amnistia às centenas de activistas que haviam sido detidos durante intensos confrontos com as forças de segurança. Em 18 de Fevereiro, quando a polícia tentou desocupar Maidan, cerca de 25 mil manifestantes cercaram o seu acampamento na praça com fogueiras. Outras dezenas de pessoas foram mortas e/ou feridas numa série de batalhas. O que foi descrito como “a mais sangrenta semana na história pós-soviética da Ucrânia” terminou no dia 21 de Fevereiro, graças à mediação da UE, que convenceu governo e oposição a aceitar uma redução dos poderes presidenciais (restaurando a Constituição de 2004), a convocação de eleições antecipadas e a formação de um governo interino. Yanukovitch fugiu do país antes de ser impugnado pelo Parlamento.

2013-2014: Um homem ajoelha-se perante um sacerdote ortodoxo numa zona que separa antes da polícia e manifestantes anti-governamentais, perto do Estádio do Dínamo de Kiev, na capital ucraniana, em 25 de Janeiro de 2014
© Rob Stothard | Getty Images | The Washington Post

2014

NICARÁGUA

Em Dezembro, dezenas de milhares de nicaraguenses saíram à rua, barricando estradas e confrontando as forças de segurança, quando o presidente, Daniel Ortega, e uma empresa chinesa lançaram a primeira pedra de um canal inter-oceânico, cujo projecto de construção expropriou terras de mais de cem mil camponeses. Quatro anos depois, em 16 de Abril de 2018, os nicaraguenses voltaram à rua, desta vez para condenar a insuficiente resposta do governo a incêndios florestais que queimaram milhares de hectares de uma reserva agrícola índia. No dia 18, o povo revoltou-se novamente, contra um plano (entretanto abandonado) de reforma da segurança social, que previa subida de impostos e redução de subsídios. Em Setembro de 2019, a oposição retomou as manifestações, apesar de proibidas, agora exigindo liberdade para os mais de 120 presos políticos, o fim dos assassínios de líderes camponeses, a demissão do antigo combatente da Frente Sandinista de Libertação Nacional que agora aspira ao poder vitalício e a convocação de eleições antecipadas, como recomendam os mediadores da Igreja Católica.

2014-2019: Estudantes universitários nicaraguenses numa marcha de protesto contra o presidente, Daniel Ortega, em Manágua, 30 de Maio de 2018
© Esteban Felix | AP

2015

MOLDOVA

Em Setembro, no o maior protesto desde que a Moldova se declarou independente da URSS em 1991, cerca de cem mil pessoas saíram à rua em luta contra a corrupção, depois de mil milhões de dólares terem sido desviados de três bancos nacionais. Esta “Revolução do Twitter”, convocada um movimento de cidadãos, Dignidade e Verdade, foi precedida de uma revolta em 2009, contra o então Executivo comunista, e a ela se seguiram outros protestos, em 2016 e 2017, 2018 e 2019, que fizeram cair vários governos.

2015-2019: Mulheres moldovas entoam slogans contra o governo durante um protesto que juntou cerca de 15 mil pessoas, em Chisnau, a capital do país, em 2016 – uma das muitas manifestações que se repetem, quase anualmente, nesta antiga república da União Soviética
© Vadim Ghirda | AP | irishtimes.com

2016

MARROCOS

Entre Outubro de 2016 e Junho de 2017, a região do Rif, pobre e berbere, no Norte de Marrocos, sublevou-se contra o poder central quando um pescador, Mohcine Fikri, morreu esmagado por um camião do lixo ao tentar recuperar 500kg de espadarte que a polícia lhe havia confiscado. Os protestos do Hirak (Movimento) Rif imediatamente alastraram a outros pontos do reino. As autoridades detiveram 42 activistas. Em 2019, estes viram confirmadas penas até 20 anos de prisão, por “conspiração contra a segurança do Estado”. Já em 2011 e 2012, protestos pelas “primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto haviam sido reprimidas pelo regime de Mohammed VI.

2016-2019: Manifestantes em Rabat, a capital de Marrocos, erguem a bandeira Amazigh e fotografias de Nasser Zafzafi, um dos líderes do Hirak (Movimento) al-Rif, durante protestos contra as medidas repressivas do governo do rei Mohammed VI contra os ativistas berberes
© Abdelhak Senna | EPA | Arab Reform Initiative

2017

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Em 21 de Janeiro, propositadamente no dia da investidura de Donald Trump e para repudiar posturas misóginas do novo presidente, uma Marcha das Mulheres tornou-se no maior protesto realizado num só dia na história dos EUA. Quase 5 milhões de pessoas participaram nesta marcha – cerca de um 1,6% da população americana –, para exigir que os direitos das mulheres sejam respeitados como direitos humanos. Foram contabilizadas mais de 400 manifestações a nível nacional e 168 em 81 outros países.

2016-2017: Clair Sheehan escreveu na testa “Não é o meu presidente” e exibe a frase num protesto contra a eleição de Donald Trump realizado no dia 9 de Novembro de 2016, em Seattle. No ano seguinte, o mesmo slogan seria ostentado por outros manifestantes na Womens’ March
© AP | politico.com

2018

FRANÇA

Em 17 de Novembro, revoltados com a decisão do governo de Emmanuel Macron de aumentar o imposto sobre os veículos a diesel e reagindo a uma petição online que atraiu quase um milhão de assinaturas, dezenas de milhares de franceses, sobretudo da classe média e dos subúrbios, foram para as ruas bloquear rotundas e cruzamentos. Os seus coletes amarelos deram nome a um possante movimento contestatário que inspirou outros semelhantes em vários países. As autoridades aboliram, entretanto, as taxas que geraram o protesto inicial, mas as reivindicações já são agora mais de 40, designadamente, a reintrodução de um imposto de solidariedade sobre a riqueza e o aumento do salário mínimo. A repressão policial terá contribuído para que o movimento fosse infiltrado por grupos violentos de extrema-direita, envenenando o que muitos consideravam uma luta justa.

2018-2019: Um manifestante do movimento Coletes Amarelos (Gilets Jaunes), numa manifestação de protesto contras as políticas sociais e económicas do presidente francês, Emmanuel Macron, em 29 de Dezembro de 2018
© Mehdi Fedouach ‹ AFP | albawa.com

HAITI

Em Julho e em Dezembro, centenas de milhares de haitianos saíram à rua em várias cidades, inicialmente para contestar o aumento dos preços dos combustíveis e depois para exigir a demissão do presidente, Jovenel Moïse, suspeito de corrupção. Os protestos deixaram “à beira do colapso total” um país onde 60% dos 11 milhões de habitantes sobrevive com menos de 2 dólares por dia e 25% com menos de um, “à beira do colapso total”, onde 3,7 milhões (um em cada três) precisam de ajuda alimentar urgente e um milhão passa fome.

2018-2018: Uma mulher grita palavras de ordem contra o presidente, Jovenel Moïse, durante um protesto, em Junho de 2019, em Port-au-Prince, capital do Haiti, depois de uma auditoria ao seu governo ter encontrado mais provas de corrupção em larga escala
© Dieu Nalio Chery | AP | NPR

REINO UNIDO

Em Outubro, nasceu em Londres e espalhou-se pelo mundo o movimento ecologista  Extinction Rebellion (XR, na sua abreviatura), empenhado numa campanha de desobediência civil pela protecção de todas as espécies do planeta. Alertando para a urgência de travar uma “catástrofe climática que ameaça a [nossa] sobrevivência”, os activistas do XR recorrem a diversos meios para fazer passar a sua mensagem, desde bloquear pontes a interromper com drones os voos no aeroporto de Heathrow. Vários activistas têm sido detidos.

2018-2019: Manifestantes bloqueiam a entrada do edifício da BBC em Londres durante um protesto do movimento Extinction Rebellion (XR), em defesa do clima; atrás deles, agentes da polícia habitualmente mobilizados para os dispersar e/ou deter
© PA | gloucestershirelive.co.uk

SUÉCIA

Em Agosto, uma estudante de 16 anos, Greta Thunberg, começou a faltar às aulas um dia por semana, acampando à porta do Parlamento em Estocolmo, exigindo das autoridades suecas uma acção firme contra o aquecimento global. A sua “Greve pelo Clima” ou “Sextas pelo Futuro” inspirou outras comunidades e países, transformando-se num dos poderosos movimentos globais. Por todo o mundo, apesar de enfrentar críticas e insultos, a adolescente que já recebeu vários prémios e foi nomeada para o Nobel da Paz atrai outros jovens para as suas iniciativas. Uma das mais recentes, em Dezembro de 2019, foi uma “Marcha Pelo Clima”, que serviu de contrapeso a uma cimeira da ONU (COP25) e mobilizou meio milhão de pessoas.

2018-2019: A activista sueca Greta Thunberg exibe o seu famoso cartaz Skolstrejk för klimatet (greve escolar pelo clima) numa marcha em Montreal (Canadá), em 27 de Setembro de 2019
© Josie Desmarais | nationalobserver.com

2019

ARGÉLIA

Em 16 de Fevereiro, transbordando a fúria reprimida em 2010-2012, milhões de argelinos iniciaram uma pacífica “Revolução dos Sorrisos”, que forçou a demissão do presidente, Abdelaziz Bouteflika, quando este se preparava para um quinto mandato. Os poderosos militares deixaram-no cair para salvar o regime: os cinco candidatos às eleições presidenciais de 12 de Dezembro apoiaram ou participaram nos executivos de Bouteflika. Inconformados, os argelinos continuam o seu “Hirak” (movimento de protesto), apesar de “centenas de detenções”, segundo grupos de direitos humanos. 

2011-2019: Jovens em protesto, em Argel, contra a candidatura de Abdelaziz Bouteflika a um quinto mandato presidencial – uma revolução pacífica que, em 2019, pôs fim a uma autocracia
© Bilal Bensalem | Nur Photo | Getty Images | vox.com

BOLÍVIA

O primeiro presidente indígena da Bolívia, no poder desde 2006, Evo Morales foi forçado demitir-se, em Novembro, após três semanas de protestos gerados por controversas eleições em que procurou obter um quarto mandato, proibido pela Constituição. Morales pediu asilo no México e aqui denunciou um golpe militar. O poder foi entregue interinamente à vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, da oposição. Depois de uma postura inicialmente agressiva, a ultraconservadora Áñez aceitou, entretanto, negociar com deputados do anterior governo a marcação de novas eleições. Também chegou a acordo com movimentos sociais que lhe são hostis, o que permitiu o levantamento de mais de 90 bloqueios de estrada, a retirada do exército de localidades não estratégicas e a revogação de uma lei polémica que concedia aos militares impunidade por acções violentas contra os manifestantes.

2019: Apoiantes de Evo Morales protestam, nas ruas da cidade de Cochabamba, contra a demissão do primeiro presidente indígena da Bolívia, que denunciou um golpe militar depois de eleições que lhe dariam um quarto mandato
© Ronaldo Schemidt | AFP | Folha de São Paulo

BRASIL

Em Agosto, quando incontroláveis fogos consumiam a Amazónia, milhares de pessoas encheram as ruas de cidades do Brasil – e de outras na América, Europa e Ásia  –, exigindo a preservação de uma floresta valiosa para toda a humanidade. Um dos alvos dos protestos foi o presidente, Jair Bolsonaro, apoiado por um influente lóbi agropecuário, responsável por muitas das queimadas e desmatação.

2017-2019: Marcelino Apurina, chefe tribal da aldeia Novo Paraíso, no ocidente da Amazónia, discursa contra as políticas do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, consideradas uma ameaça à vida dos povos indígenas
© AFP | theglobepost.com

CATALUNHA

Em 14 de Outubro, após a condenação dos principais líderes independentistas a penas entre 9 e 13 anos de prisão, manifestações em massa regressaram a Barcelona e a outras cidades catalãs. Tudo começou em 10 de Julho de 2010 quando 1,5 milhões de pessoas se manifestaram no centro de Barcelona contra a decisão do Supremo Tribunal de Espanha de anular ou reinterpretar vários artigos do Estatuto de Autonomia da Catalunha aprovado em 2006. Sob o lema Nosaltres decidim (“Nós decidimos”), foi uma mobilização até então sem precedentes, que se repetiria nos anos subsequentes. Em  27 de Outubro de 2017, no que o Governo de Madrid considerou ser uma violação da Constituição espanhola, o parlamento catalão realizou um referendo sobre a independência. O “sim” venceu e os organizadores do voto popular foram detidos ou forçados ao exílio.

2010-2019: Milhares de catalães encheram as ruas de Barcelona, em Março de 2019, depois de o Supremo Tribunal de Espanha ter decretado a detenção de cinco líderes independentistas e emitido mandados internacionais de captura contra outros seis políticos, entre eles o primeiro-ministro regional, Carles Puigdemont
© Marta Perez | EPA | The National

CHILE

As manifestações no Chile começaram em Novembro, quando o governo decretou um aumento de 3,75% (depois revogado) do preço dos bilhetes do Metro de Santiago. Os protestos, liderados por jovens, foram duramente reprimidos pela polícia, o que aumentou a indignação popular. A revolta é agora mais abrangente, contra a desigualdade social e as graves deficiências no sector público, criadas por políticas neoliberais (a privatização dos serviços de educação, saúde e pensões, água e electricidade) impostas desde a queda do ditador Augusto Pinochet, em 1990. Num dos países mais prósperos da América do Sul, o rendimento per capita deveria dar aos chilenos um salário mensal de 2000 dólares, mas a maioria aufere 550 ou menos. Os ricos ganham 14 vezes mais do que pobres. Nas ruas, exige-se a demissão do presidente, Sebastián Piñera.

2019: Por entre uma barricada de fogo, em Santiago do Chile, um manifestante ergue a bandeira nacional, durante protestos contra as políticas do presidente, Sebastián Piñera, apesar de ele ter afastado oito ministros e ter garantido à população que ouviu as suas reivindicações de maior igualdade e serviços sociais
© Matias Delacroix | AP

COLÔMBIA

Em Novembro, nos maiores protestos dos últimos 40 anos na Colômbia, centenas de milhares de pessoas desfilaram pelas ruas de várias cidades contra o Governo direitista de Iván Duque Márquez, exigindo a aplicação integral do acordo de paz com os rebeldes das FARC, combate à corrupção e o fim do assassínio de activistas de direitos humanos e líderes indígenas (pelo menos 155 foram mortos desde que Duque foi eleito em Agosto de 2018). A luta engloba outras reivindicações. Três greves gerais em duas semanas foram convocadas por movimentos sindicais contra planos para eliminar o fundo estatal de pensões, aumentar a idade da reforma e reduzir o salário dos jovens. Em pânico, as autoridades fecharam, temporariamente, fronteiras e colocaram o exército em alerta máximo.

2018-2019: Um manifestante colombiano é detido em Bogotá durante protestos contra o governo direitista de Iván Duque Márquez
© Luisa Gonzalez | Reuters | The Wall Street Journal

EQUADOR

Depois de quase duas semanas de protestos que paralisaram a economia do Equador e causaram sete mortos, o presidente, Lenín Moreno, aceitou revogar o “Decreto 883” que eliminava subvenções estatais aos combustíveis e punha em risco a subsistência das populações indígenas. No âmbito de um acordo bilateral, Moreno abandonou um plano do FMI que exigia o aumento dos preços do gasóleo e gasolina em troca de um empréstimo equivalente a 3,8 mil milhões de euros. Os líderes indígenas, por seu turno, cessaram as manifestações e bloqueios de estrada, que fecharam várias empresas, reduziram a metade a produção de petróleo e interromperam a exportação deste que é o principal recurso do país.

2019: Líderes indígenas equatorianos num protesto, em Outubro de 2019, contra políticas de austeridade que o presidente, Lenin Moreno, foi obrigado a abandonar
© Carlos Garcia Rawlins | Reuters

HONG KONG

Foi em Junho que começaram os protestos em Hong Kong, inicialmente apenas contra um projecto de lei para extraditar suspeitos para a China continental que ameaçava um sistema judicial independente. O controverso projecto foi abandonado em Setembro, mas os manifestantes passaram, entretanto, a exigir o que Pequim dificilmente lhes dará: democracia. Os protestos atraem milhares de cidadãos, apesar de violentos confrontos com as forças de segurança, e ganharam um novo estímulo depois de, em Dezembro, eleições locais terem dado uma enorme vitória aos opositores do regime chinês.

2019: O governo de Hong Kong proibiu que as pessoas ocultassem o rosto durante protestos contra medidas impostas por Pequim – a resposta dos manifestantes, em Outubro de 2019, foi usar máscaras de Halloween, em mais um desafio às autoridades
© Kin Cheung | AP

ÍNDIA

Uma nova lei de cidadania (Citizenship Amendment Act/CAA), aprovada em 12 de Dezembro, e propostas para criar um Registo Nacional de Cidadãos (National Register of Citizens/NRC) desencadearam gigantescos protestos, violentamente reprimidos pelas autoridades indianas. As manifestações começaram em Assam, Nova Deli, Meghalaya, Arunachal Pradesh e Tripura, no dia 4 do último mês de 2019, e rapidamente se propagaram por todo o país. A nova legislação beneficia os refugiados hindus, sikhs, jain, budistas, cristãos e persas vindos do Afeganistão, Paquistão e Bangladesh e residentes na Índia desde 2015, mas exclui os muçulmanos, os tâmil do Sri Lanka, os rohingya da Birmânia/Myanmar e os budistas do Tibete. Os manifestantes consideram as novas leis discriminatórias e inconstitucionais. Uma das maiores preocupações é a de que os nacionalistas hindus, liderados pelo primeiro-ministro, Narendra Modi, que já retiraram autonomia a Jammu e Caxemira – o único estado indiano onde a maioria da população professa o Islão – se estejam a preparar para fazer dos muçulmanos apátridas e os colocar em campos de detenção.

2019: Uma das muitas manifestações na Índia contra a nova lei de cidadania, que discrimina os muçulmanos, e fará parte de um alegado plano do primeiro-ministro, Narendra Modi, de transformar o país numa “nação supremacista hindu”
© Arupam Nath | Euronews

IRAQUE

No dia 1 de Outubro, milhares de iraquianos no centro e sul do país rebelaram-se contra o sistema sectário, corrupto e inepto que os governa desde que uma invasão americana derrubou o ditador Saddam Hussein em 2003. Exigem também o fim da influência iraniana, que controla várias milícias. Em 29 de Novembro, face à bravura dos manifestantes, que não abandonaram as ruas apesar de massacres cometidos pelas forças de segurança, demitiu-se o primeiro-ministro, Adil Abdul-Mahdi. Em Dezembro de 2019, um balanço da comissão independente de direitos humanos apontava para quase 500 mortos e cerca de 20 mil feridos. Em 2011, uma “primavera iraquiana” havia fracassado devido à acção repressiva do autoritário chefe de governo Nouri al-Maliki.

2011-2019: Manifestante ergue uma bandeira iraquiana em Najaf, durante manifestações contra o governo e a influência das milícias pró-iranianas, em 26 de Novembro 2019
© Alaa al-Marjani | Reuters

LÍBANO

Em 17 de Outubro, dezenas de milhares de libaneses, de todas as (17) confissões religiosas, iniciaram uma série de manifestações, indignados com um plano do governo para impor uma taxa de 6 dólares às telecomunicações (já as mais caras da região) via WhatsApp. Os protestos, que uniram cristãos, sunitas, xiitas e drusos contra toda uma classe política corrupta e sectária, foram os maiores de sempre no “País do Cedro” desde que, em 2005, um movimento cívico forçou a retirada de cerca de 40 mil soldados sírios, após o assassínio (ordenado por Damasco) de um popular primeiro-ministro, Rafic Hariri.

2019: Manifestantes tiram uma selfie em frente de pneus a arder que bloqueiam a principal estrada que liga Beirute ao Sul do Líbano, durante protestos contra a crise económica e a corrupção da elite política
© Ali Hashisho | Reuters

SUDÃO

2018-2019: De pé, envergando uma tradicional túnica branca, a estudante sudanesa Alaa Salah lidera os protestos populares em Cartum, a capital, que contribuíram para a queda do ditador Omar al-Bashir,Abril de 2019
© AFP | Getty Images

Protestos pacíficos contra o aumento do preço do pão, em Dezembro de 2018, abriram caminho a um movimento da sociedade civil, que haveria de pôr fim a três décadas de tirania de Omar al-Bashir, em Abril de 2019. Tal como na Argélia, os militares deixaram cair o presidente para manter o regime, mas a perseverança dos manifestantes, que não arredaram pé das ruas apesar de quase 250 mortos e mais de 1300 feridos, obrigou o exército a ceder o poder a um civil, Abdalla Hamdok, primeiro-ministro investido em 21 de Agosto para exercer funções durante um período transitório.

© Reuters

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Janeiro de 2020 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2020 edition.

Caxemira: Um inferno no paraíso

O Governo nacionalista hindu de Narendra Modi retirou a autonomia e os privilégios ao único estado de maioria muçulmana da Índia, supostamente para o desenvolver e combater o terrorismo. Os habitantes do território “mais militarizado do mundo” receiam que esteja em marcha um “projecto colonial” para os espoliar da sua identidade única. (Ler mais | Read more...)

Na Caxemira administrada por Nova Deli, as forças de segurança indianas são acusadas de cometer graves abusos de direitos humanos
© Rakesh Bakshi | AFP | Getty Images | axios.com

Hafsa Kanjwal nasceu e viveu na Caxemira até aos 6 anos. No auge de uma rebelião separatista e subsequente repressão em 1989, a família procurou refúgio nos Estados Unidos. Mas continua a visitar o que ela descreve como “um lugar extraordinariamente belo que, num minuto, nos corta a respiração e, no minuto seguinte, nos corta o coração”.

“Este é um lugar muito difícil, porque aqui vemos o melhor e o pior da humanidade”, diz-me, por telefone, a jovem que é agora professora de História da Caxemira e da Ásia do Sul em Lafayette College, Easton (Pensilvânia). O melhor “é um povo e uma cultura maravilhosos”. O pior é a presença de “quase um milhão” de soldados indianos e os seus repetidos abusos de direitos humanos no que se tornou o território “mais militarizado do mundo”.

A situação agravou-se no início de Agosto, quando o governo federal do primeiro-ministro Narendra Modi decidiu revogar dois artigos da Constituição que conferiam um estatuto especial a Jammu e Caxemira. O Artigo 370 dava a J&C vários poderes, como o de legislar em todas as áreas excepto as da Defesa, Negócios Estrangeiros e Comunicações. O Artigo 35A reconhecia o direito de os caxemiris continuarem a definir, como fazem desde 1927, quem são os “residentes permanentes”, os únicos com direito a adquirir bem patrimoniais e outros privilégios.

O estado de J&C é composto pela Caxemira, incluindo o Vale da Caxemira, com 8 milhões de habitantes, predominantemente muçulmanos; Jammu, com 6 milhões, a maioria hindus; e Ladaque, a região mais alta e inacessível, com 300 mil, metade muçulmanos e metade budistas.

A partir de agora, Ladaque separa-se de J&C e junta-se aos sete “territórios” da República – a categoria de Damão & Diu e Dagra & Nagar Haveli, que os portugueses ocuparam durante 450 anos. E Jammu e Caxemira deixa de ser um dos 29 estados (como hoje é Goa-Panaji/Pongim), para ser também um território, sob a alçada directa do governo central.

Em Srinagar, a maior cidade e a capital de verão de Jammu e Caxemira, um hotel (na foto) foi transformado em centro de detenção
© Adnan Abidi | Reuters

“Foi uma decisão histórica”, exultaram os nacionalistas hindus do Bharatiya Janata Party (BJP), o partido de Modi, assumidamente hostis ao multiculturalismo e federalismo. “Foi uma afronta aos princípios democráticos de uma nação secular”, criticou uma parte da oposição, sobretudo o Congresso Nacional Indiano, outrora a principal força política, o Dravida Munnetra Kazhagam, com base em Tamil Nadu, e o Partido Democrático Popular, da Caxemira.

Modi não se limitou a revogar os artigos que, na sua opinião, “impedem a unidade política e económica da Índia”. Colocou sob detenção domiciliária os principais dirigentes políticos da Caxemira, Mehbooba Mufti, Farooq Abdullah e Omar Abdullah, enviou mais 38 mil homens da Central Reserve Police Force (unidade paramilitar) para reprimir actos de desobediência e protesto, proibiu todas as reuniões públicas, cortou as ligações telefónicas (móveis e fixas), as transmissões de rádio, televisão e Internet, impondo um isolamento total.

Em Srinagar, a capital de Verão de J&C, correspondentes do diário The New York Times viram hospitais sem profissionais de saúde, escolas e mesquitas fechadas, lojas sem alimentos e farmácias sem medicamentos, parques e ruas desérticos. Só alguns jornais continuam a ser impressos, “distribuídos cuidadosamente de mão em mão”.

“Vivemos num inferno”, queixou-se uma médica, só identificada como Jamila. “Ninguém consegue dormir; não confiamos em ninguém”, lastimou-se Ahmad, que recusou dar o apelido.

Crianças rezam no exterior de uma mesquita erguida em memória de um santo sufi, Sheikh Syed Abdul Qadir Jeelani, em Srinagar, na Caxemira controlada pela Índia
© Mukhtar Khan | AP | insidearabia.com

“Há uma depressão colectiva na Caxemira”, constata Hafsa Kanjwal, co-fundadora de um grupo da sociedade civil e da diáspora, Stand With Kashmir (SWK). “Há muitos traumas psicológicos, mas, como a Caxemira é um centro espiritual, acho que as pessoas se agarram à sua fé e à esperança de que haverá justiça internacional. Talvez seja isso o que não as faz desistir e o que mais está presente nas suas orações.”

A autonomia da Caxemira “era meramente simbólica”, refere a professora Kanjwal. “Há muito tempo e de muitas formas que o Artigo 370 vinha sendo desrespeitado. O maior problema agora é a anulação do Artigo 35A. Isso significa que quem não seja residente permanente poderá, doravante, comprar terras e casas. Há receios  legítimos de uma mudança geográfica semelhante à que se verificou nos territórios ocupados da Palestina.”

“Teme-se que a Índia vá repovoar a Caxemira com hindus [os Pandits, muitos dos quais foram expulsos em 1960 e em 1990], desalojando a população local. A Caxemira é um espaço único [na Índia]. Uma vez removida a sua identidade muçulmana, desaparecerá o facto de ser um estado disputado que aguarda resolução. Tudo isto gera medos.”

Uma patrulha paramilitar indiana verifica um saco transportado por um residente de Srinagar, na Caxemira, durante o recolher obrigatório, em 8 de Agosto de 2019
© AP | asia.nikkei.com

Nas suas novas fronteiras, amputado de Ladaque, Jammu e Caxemira deixará de ter uma maioria de eleitores muçulmanos, não apenas porque Jammu é predominantemente hindu, mas também porque o direito de voto irá ser retirado aos muçulmanos que entraram no país após a divisão do subcontinente indiano em 1947, esclarece o cientista político francês Christophe Jaffrelot, entrevistado pelo site OrientXXI.

Neste contexto, observa o autor de L’Inde de Modi: National-populisme et démocratie ethnique, não é apenas um futuro com colonos pandits que cria ansiedade, mas também a chegada de indianos de outros estados.

Os caxemiris receiam, por exemplo, “a compra de terras por parte de promotores imobiliários que poderão construir segundas habitações ou até mesmo complexos turísticos no que até agora tem sido classificado como um ‘paraíso na Terra’, graças à sua beleza e ao seu clima impoluto.”

O que está a acontecer na Caxemira é semelhante ao que se passa na Birmânia, com os Rohingya, ou em Xinjiang/China, com os uigures, adverte Jaffrelot na entrevista intitulada Un incendiaire dans la poudrière du Cachemire indien (“Um incendiário no barril de pólvora da Caxemira indiana”).

“Por força da propaganda, a difusão de estereótipos e da desinformação nas redes sociais, os muçulmanos enfrentam um processo de desumanização. Os genocídios do passado, da Shoah ou do Ruanda, mostram-nos que a violência em massa contra as minorias é sempre precedida desta fase de desumanização que torna os crimes banais ou até legítimos.”

Poucos residentes se atrevem a sair de Anchar, um bairro da Caxemira cercado por barricadas de aço e arame farpado, para impedir que soldados indianos raptem rapazes na calada da noite
© Reuters | media.pri.org

“Os caxemiris resistem há 72 anos”, realça Hafsa Kanjwal. “Habituaram-se a armazenar comida para longos períodos de tempo, porque sabem que há sempre recolher obrigatório e outras situações complicadas. Aprenderam a ajudar-se uns aos outros, a cuidar uns dos outros, porque não têm assistência do Governo central.”

Com a Caxemira fechada ao mundo, o bairro de Anchar, em Srinagar, tornou-se no principal centro da luta pela sobrevivência.

“Aqui, as pessoas ergueram barreiras e barricadas com arame farpado, para garantir que o exército e os paramilitares indianos não entrarão nas suas casas – para as pilhar, raptar e torturar rapazes ou violar as mulheres”, destaca a académica na Pensilvânia. “Os jovens mantêm-se vigilantes durante toda a noite. Fazem muito barulho, para garantir que todos estarão acordados.”

Por que é que Modi decidiu agora privar a Caxemira da sua autonomia? Explica Christophe Jaffrelot: “O objectivo será facilitar investimentos provenientes de outras regiões da Índia. É verdade que os índices de desenvolvimento humano em J&C estão muito abaixo da média indiana, mas também é real que foi a autonomia que permitiu levar a cabo uma reforma agrária muito mais importante do que no resto da Índia, oferecendo maior igualdade.”

“J&C também obteve melhores resultados do que Gujarat [o estado que Modi governou entre 2001 e 2014 e onde encorajou um massacre de muçulmanos em 2002]: maior esperança de vida, descida da mortalidade infantil, mais educação das raparigas, menos pobreza.”

Orações durante a festa islâmica de Eid al-Adha. Jammu e Caxemira é o único estado de maioria muçulmana da União Indiana, e revogar o seu estatuto de autonomia sempre foi, alegadamente, uma ambição dos nacionalistas hindus
© Atul Loke | The New York Times

Tara Kartha, investigadora no Institute of Peace and Conflict Research, em Nova Deli, e no U.S. Institute of Peace (USIP), em Washington, confirma que Modi “pretende encorajar o investimento num estado atrasado e fomentar um governo local eficiente”. Mas aponta outra razão: “O avanço das negociações dos EUA com os talibã e a possibilidade de uma retirada das tropas americanas do Afeganistão.”

“A Índia receia que a história se venha a repetir”, anotou, num artigo publicado pelo USIP, a mulher que durante 17 anos trabalhou para o Conselho de Segurança Nacional da Índia. “Há 30 anos, quando outra superpotência, a URSS, deixou o Afeganistão, seguiu-se imediatamente um terrorismo intenso na Caxemira, à medida que os que combatiam os soviéticos regressavam à Índia.”

Imran Khan, primeiro-ministro do Paquistão, protestou veementemente contra “a última cartada de Modi” e alertou a ONU para “o potencial risco de uma guerra nuclear” na região.

Tara Kartha criticou-o: “Há anos que [Islamabad] vem mudando, unilateralmente, o estatuto dos territórios que ocupa na Grande Caxemira. Ainda o ano passado, alterou  a estrutura do governo de Azad Kashmir [Caxemira Livre]. É certo que a Índia também contestou estas medidas, mas não recorreu a ameaças.”

Soldados indianos obrigam uma residente da Caxemira a mostrar as suas receitas médicas, antes de autorizarem a sua entrada num hospital, em Srinagar, durante o recolher obrigatório, em Agosto de 2019
© Yawar Nazir | Getty Images | jacobinmag.com

Os indianos acusam os paquistaneses de treinar, armar e financiar grupos separatistas e jihadistas na Caxemira. E o combate ao terrorismo, sobretudo após um atentado com que, em 14 de Fevereiro, matou 40 paramilitares em Pulwama, distrito de J&C, foi uma das promessas de campanha de Modi que lhe deu uma estrondosa vitória nas eleições gerais de Maio.

O atacante pertencia ao Jaish-e-Mohammed, grupo islamista com base em Balkot, nordeste do Paquistão, a qual seria posteriormente bombardeada por 12 caças indianos – um deles abatido pela força aérea paquistanesa –, deixando os dois países rivais à beira de uma quinta guerra.

O que levou Adil Ahmad, de 22 anos, o bombista suicida de Pulwama, a aderir ao Jaish-e-Mohammed? “Segundo a família, radicalizou-se depois de ter sido preso e torturado pela polícia”, refere Christophe Jaffrelot.

“É preciso frisar que, além da polícia, o exército indiano tem muito má reputação na Caxemira, sobretudo porque uma lei antiga (Armed Forces Special Powers) garante uma quase impunidade aos seus inúmeros abusos de poder.”

Há um permanente sentimento de frustração, acrescenta Hafsa Kanjwal. “O Governo indiano nunca permitiu a emergência de uma liderança legítima na Caxemira. Os líderes que representam os anseios da população são constantemente sujeitos a prisões arbitrárias e não podem orientar as pessoas. Os únicos dirigentes que a Índia autoriza são os seus fantoches. Ironicamente, até esses estão agora detidos.”

Nesta fotografia de 9 de Agosto de 2019, residentes da Caxemira aproveitam um breve interregno no recolher obrigatório – que os encerra nas suas casas durante 24 horas e por tempo indefinido -, para poderem celebrar um feriado islâmico
© Mukhtar Khan | AP | i.dawn.com

O antropólogo e historiador Partha Chatterjee, professor no Centro de Estudos e Ciências Sociais, em Calcutá, e na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, nota que o seu país, admirado como “a maior democracia do mundo”, transformou-se profundamente no último meio século. “Há 50 anos, o nacionalismo indiano era principalmente anti-colonial”, escreveu ele no site thewire.in.

“[A Índia] via-se como uma força contra a exploração colonial e a discriminação racial, cometidas por poderes imperiais ocidentais, e solidária com as lutas pela libertação em África e no Sueste da Ásia. Agora, prefere ver-se como uma das grandes potências globais. E, como todas as grandes potências, tem o seu próprio problema colonial – a Caxemira.”

“Talvez o iminente acordo entre os EUA e os talibã – e a vantagem estratégica que dará ao Paquistão – tenha sido um factor para Modi desmembrar Jammu e Caxemira”, avaliou Chatterjee. “E talvez haja planos para mudar a demografia e o carácter político do estado. Mas as consequências serão catastróficas para o povo indiano. Porque esta lógica colonial não irá circunscrever-se à Caxemira.”

“Todas as identidades minoritárias que se atravessarem no caminho de uma nação homogénea – língua, religião, casta, género – também serão atacadas. Só a mais alta casta, masculina, hindu e que fala hindi terá o privilégio soberano de não ter de provar que é genuinamente indiana.”

Um jovem aldeão olha para o que resta de uma casa destruída durante uma mortífera entre militantes caxemiris e soldados indianos na região de Tral, distrito de Pulwama, a sul de Srinagar, em 5 de Março de 2019
© Tauseef Mustafa | AFP | Getty Images | dawn.com

Hafsa Kanjwal reconhece dificuldade em promover a “narrativa caxemiri”. Porque, para o mundo que fez de Modi um pária após o pogrom de Gujarat e agora o premeia pelo seu neoliberalismo económico e por ser um contrapeso à China, “a Caxemira é apenas um conflito entre os nacionalismos da Índia e do Paquistão – poucos se interessam pelas pessoas que lá vivem, suas histórias e aspirações.”

“Tem sido duro, porque a Índia insiste em usar a linguagem da ‘guerra ao terror’, identificando como extremistas ou terroristas os caxemiris que lutam pela autodeterminação. A Índia tem um tão significativo soft power económico e cultural, diria mesmo hard power, que ninguém a imagina um país tão violento. O contrário do Paquistão, que tem uma imagem negativa.”

“Não sei se Modi irá reavaliar a sua decisão ou se o pior estará para vir. Por ora, os tempos são sombrios. Mas se os países e as organizações internacionais continuarem a protestar e a pressionar [o Governo indiano], talvez seja possível que algo mude.”

Hafsa Kanjwal é professora de História da Caxemira (onde nasceu) e da Ásia do Sul em Lafayette College, Easton (Pensilvânia)
© news.lafayette.edu

Presa de impérios, principado, território cobiçado

Se há um paraíso na Terra

É este, é este, é este

Amir Khusrau, poeta sufi da Índia, mestre da literatura persa medieval, numa ode (ghazal) dedicada à Caxemira, em The Writings of Amir Khusrau: 700 Years After the Prophet – A 13th-14th Century Legend of Indian-Sub-Continent

© Yawar Nazir | Getty Images | Daily Beast

A Caxemira, no coração dos Himalaias, é uma vasta e estratégica região montanhosa que faz fronteira com a Índia, a sul, o Paquistão, a oeste, e a China a leste.

A parte indiana, Jammu e Caxemira (J&C) incluindo o precioso Vale da Caxemira, estende-se ao longo de 92.437km2 e tem 12,5 milhões de habitantes. A parte paquistanesa é composta por Azad Kashmir ou Caxemira Livre e Gilgit-Baltistan (antigos “Territórios do Norte”), ocupa 86.000 km2 e tem cerca de 6,4 milhões de habitantes.

A China, por seu turno, conquistou Aksai Chin e o vale de Shaksgam durante a guerra sino-indiana de 1962, e não parece desistir de recuperar um pedaço do nordeste da Caxemira indiana, de língua tibetana e língua budista.

A história da Caxemira é antiga. Remontará à era antes de Cristo. O seu maior império foi o de Lalitaditya-Muktapida, da dinastia Karkota, nos anos 700, um guerreiro que lhe “ofereceu uma glória nunca antes alcançada”.

Em termos religiosos, a Caxemira começou por praticar uma série de rituais arianos, inspirados no Sanatana Dharma (“Eterno Caminho”), hoje classificados como hindus. A partir do século II d.C., tornou-se num centro do Budismo Mahayana. Por volta do século V d.C., o Budismo foi perdendo terreno para o Shaivismo, baseado na devoção ao deu hindu Shiva.

A mistura de Shaivismo Caxemiri e de Budismo Mahayana facilitou a introdução no Vale da Caxemira de um Islão sunita e sufi que, nos anos 1200, chegou com viajantes, comerciantes, mercenários e missionários.

Entre 1300 e 1490, a religião fundada por Maomé na Arábia ganhou ainda mais fulgor com a presença de teólogos sunitas e xiitas vindos do Turquestão e do Irão, bem sucedidos nos seus esforços de conversão – excepto entre os da casta mais elevada dos hindus brâmanes, conhecidos na Caxemira como Pandits ou Bhattas (“pessoas cultas”).

O primeiro governante muçulmano da Caxemira, de 1320 a 1323, foi o príncipe outrora budista Lhachen Gyalbu Rinchen, de Ladaque, mas quem consolidou o Islão como religião de Estado foi Shah Mir, um mercenário turco da guarda de elite de Rinchen. Conhecido como Sultão Shams-ud-Din, governou entre 1339 e 1342 e fundou uma dinastia que dominou a Caxemira durante 222 anos.

Vieram depois outros conquistadores muçulmanos – os mogóis e os afegãos, que anexaram a Caxemira até 1819, ano em que o poderoso império sikh, de Ranjit Singh, conquistou a região. Ranjit reaproximou a Caxemira do Punjab (onde tinha a capital, Lahore) e fez dela a mais produtiva província do seu reino, em grande medida porque explorava e oprimia todos os caxemiris, independentemente da religião.

Geografia complicada

Um nómada da Caxemira, membro da comunidade Bakerwal, caminha perto do lago Kausar Nag, situado numa montanha de grande altitude, cerca de 90 km a sul de Srinagar
© Abid Bhat | roadsandkingdoms.com

A partir dos anos 1820, os sikhs foram ampliando território graças ao seu intrépido Khalsa Dal (exército), mas a morte do carismático Ranjit, em 1939, desferiu um golpe fatal ao império sikh. Seria derrotado em 1846 pelas forças da Companhia Britânica das Índias Orientais, numa batalha de que resultaram milhares de mortos nos dois campos..

Depois de dez governadores sikhs em 27 anos – “a maior calamidade” da história da Caxemira” –, os britânicos assumiram o poder, mas apenas por uma semana. Precisando de dinheiro para fazer face aos elevados custos da sua conquista do Punjab, e desconhecendo a riqueza da Caxemira, a Companhia das Índias vendeu-a a Gulab Singh, um hindu da dinastia Dogra, natural de Jammu.

Embora tivesse sido uma notável figura do exército e da corte de Ranjit Singh, quando este morreu Gulab aproximou-se dos britânicos, na altura em débil posição táctica e estratégica face a russos, afegãos e chineses, e prometeu-lhes proteger os seus interesses.

O Tratado de Amritsar que Gulab Singh assinou com a Coroa britânica, em 16 de Março de 1846, criou não apenas o principado de Jammu e Caxemira (J&C) mas, pela primeira vez desde a conquista mogol em 1586, deu também a um político local o controlo, ainda que sob suserania britânica, do norte do subcontinente indiano.

O cruel Gulab, cujos penosos impostos obrigaram à fuga para o Punjab de milhares de tecelões das célebres écharpes de caxemira, principal fonte de rendimento, enfrentou firme resistência. Os britânicos, que o consideravam aliado indispensável, foram obrigados a socorrê-lo com dez mil soldados.

Gulab passaria o resto dos seus dias na Caxemira e foi aqui que morreu em 1857, pouco depois da Revolta dos Cipaios – a rebelião de soldados indianos da Companhia Britânica das Índias que, naquele ano, quase destruiu as possessões desta empresa majestática.

Por volta de 1861, o sucessor de Gulab, marajá Ranbir Singh, que ajudara os britânicos a vencer a revolta, dominava completamente o território, após ter recapturado Gilgit aos sikhs, uma povoação que, a norte e nordeste, era fronteiriça com o “problemático Afeganistão”, a “instável China” e a “agressiva Rússia”.

Ranbir Singh revelou-se um governante fanático e impiedoso, que favorecia os hindus com terras, empregos e privilégios em detrimento dos muçulmanos. Ao impedir camponeses caxemiris de cultivarem os seus campos até estar presente um cobrador de impostos, arruinou as colheitas de Outono e contribuiu para a fome assoladora de 1877-1879, que matou 3/5 da população do Vale da Caxemira.

Em 1885, ascendeu ao trono Pratap Singh, que o estéril Ranbir reconheceu como filho. Em 1889, desconfiados de que o novo e incompetente marajá havia solicitado ajuda aos russos contra os britânicos, estes passaram a administrar directamente J&K através de um Conselho da Regência.

Hari Singh, Abdullah e Nehru

Protagonistas do drama da Caxemira – Da esq. para a direita: Xeque Abdullah, Lorde Mounbatten, Marajá Hari Singh e Jawaharlal Nehru
© jammukashmirnow.com

Em 1925, quando Pratap morreu, sucedeu-lhe o sobrinho Hari Singh, um general de Jammu, abençoado pelos britânicos, que continuou a dar primazia aos hindus dogras – na administração, no exército e na polícia –, marginalizando a maioria muçulmana.

Em 1931, J&C sublevou-se contra o marajá. Os britânicos intervieram, forçando-o a instituir um sistema que devolvia ao praja (“povo”) um limitado sufrágio universal, sem direito a liberdade de expressão, reunião, protesto ou oposição. Estas “reformas” não travaram a agitação social.

Em 1946, o líder da revolta de 1931, Xeque Muhammad Abdullah, e o seu partido, Conferência Nacional, iniciaram a campanha “Quit Kashmir” (Deixem a Caxemira), semelhante a outra, “Quit India”, que o Congresso Nacional Indiano, de Jawaharlal Nehru, lançara contra o poder britânico. A resposta do marajá foi impor a lei marcial e prender 900 opositores, um deles Abdullah, e forçando outros ao exílio.

Em 1947, a ascensão de Nehru (advogado e amigo de Abdullah) a primeiro-ministro da Índia independente marcou o rápido declínio de Hari Singh no principado composto, à época, por três províncias: Jammu, Caxemira e Distritos de Fronteira.

Quando os britânicos decidiram dividir a sua “jóia da coroa”, depois da II Guerra Mundial, o subcontinente indiano era composto por 17 províncias da “Índia Britânica” (dois terços do território) e mais de 500 estados da “Índia Principesca”. Embora não o mais populoso, o principado de Jammu e Caxemira era o maior em termos de área e o mais estratégico, com duas fronteiras internacionais: com a China (o Tibete, a leste, e Sinkiang, a nordeste) e com o Afeganistão (a norte).

Aquando da criação da Índia e do Paquistão, porque a maioria dos estados dos marajás estava rodeada ou separada da “Índia Britânica”, a potência colonial encorajou e/ou pressionou os principados a juntarem-se a um dos dois novos países.

Duas acessões controversas – de Junagadh e Hyderabad – abriram um precedente para a Índia e o Paquistão se envolverem em “duplicidades e diatribes” na Caxemira. O nawab de Junagadh e o nizam de Hyderabad eram príncipes muçulmanos de estados maioritariamente hindus, o contrário do que acontecia em J&C, onde Hari Singh era o marajá hindu de um principado predominantemente muçulmano.

Para surpresa de muitos, o estado de Junagadh, com 80% de hindus e não contíguo com o Paquistão, optou por fazer parte deste. Foi uma decisão contestada que a União Indiana anularia em Outubro de 1947. Em Hyderabad, com 85% de hindus, o nizam queria a independência, mas a Índia negou-lhe essa aspiração e invadiu este próspero enclave em setembro de 1948.

Na Caxemira, a que mais estava ligada geográfica, social, cultural e economicamente às regiões integradas no Paquistão, o marajá Hari Singh e o xeque Abdullah também ambicionavam a independência. O primeiro para criar um “Dograstão” (estado dos dogras); o segundo para se libertar de uma dinastia autocrática e anacrónica.

Índia e Paquistão

Soldados indianos e paquistaneses posam para fotografias, depois de trocarem presentes durante o feriado islâmico de Eid al-Adha, no posto fronteiriço de Chakan Da Bagh, na Caxemira, em 22 de Agosto de 2018
© Ministério Indiano da Defesa | Newsweek

De início, a Índia estaria disposta a abdicar de J&C, mas mudou de ideias quando o nawab de Junagadh decidiu juntar-se ao Paquistão. Se este país aceitava a acessão de um príncipe muçulmano cuja maioria de súbditos era hindu, então também a Índia faria o mesmo com o marajá hindu de um estado esmagadoramente muçulmano, ainda que diverso, disperso e desunido.

A comunidade muçulmana de J&C, por exemplo, não era monolítica: havia sunitas, xiitas, ismailis e sufis. As práticas religiosas dos sunitas de Jammu diferiam das do único grupo que era, religiosa e etnicamente, homogéneo: os muçulmanos sunitas caxemiris, muitos dos quais aderiram a tradições locais, como a adoração de santos – um anátema para os sunitas mais “fundamentalistas”.

Politicamente, também nenhum dos dois principais partidos de J&C tinha apoio universal. A Conferência Nacional (secular, de esquerda e pró-independência), do Xeque Abdullah, atraía caxemiris muçulmanos e hindus: a Conferência Muçulmana (mais retrógrada e pró-Paquistão) empolgava a maioria dos muçulmanos de Jammu.

Quanto ao impopular Hari Singh, nunca foi capaz de galvanizar um sentimento de cidadania e, quando partiram os britânicos que o sustentavam, o principado começou a fragmentar-se.

Entre 15 de Agosto e 26 de Outubro de 1947, três decisivos acontecimentos lançaram as sementes para um conflito que persiste sete décadas depois: 1) uma rebelião de muçulmanos pró-Paquistão contra o marajá na área de Poonch Jagir; 2) dois massacres interconfessionais em Jammu, envolvendo hindus e sikhs contra muçulmanos, por um lado, e muçulmanos contra hindus e sikhs, por outro; 3) uma invasão da Caxemira por um lashkar (exército) da tribo Pukhtoon, vindo de uma província paquistanesa.

Esta sangrenta invasão, acompanhada de violações e pilhagens, foi inútil, porque falhou a conquista do indispensável Vale da Caxemira e levou muitos caxemiris a perder a fé no Paquistão.

Em 26 de Outubro de 1947, o “Marajá General Sir Hari Singh Bahadur” acabou por aceder à Índia – era esta a condição para receber ajuda militar. No dia seguinte, 35 mil soldados indianos chegaram a Srinagar, capital de Verão de J&C. O Paquistão enviou igualmente forças regulares, e assim começou a Primeira Guerra da Caxemira. Outras seriam travadas em 1965, 1971 e 1999.

Em Janeiro de 1949, um ano depois de a Índia ter pedido a intercessão da ONU, a Caxemira viu-se dividida em duas partes (63% para a Índia e 37% para o Paquistão). Os beligerantes aceitaram um cessar-fogo, uma retirada de tropas, separadas por uma faixa de 770 km, mais tarde designada “Linha de Controlo”, e um plebiscito em que o povo de J&C decidiria se, na totalidade, queria fazer parte da Índia ou do Paquistão – países que jamais comtemplaram a opção de independência.

À espera da libertação

Jovens em Jammu e Caxemira lançam pedras a soldados indianos que controlam o território (foto de Agosto de 2019)
© Atul Loke | The New York Times

A realidade é que o plebiscito nunca se realizou, porque o Paquistão não confiava na Índia e porque a Índia percebeu que não teria hipótese de ganhar nas áreas de maior concentração muçulmana.

O acordo que Hari Singh assinou com Nova Deli dava a J&C um “estatuto especial” de autonomia, com direito a uma Constituição, a uma bandeira e a redigir leis, excepto nas áreas da Defesa, Negócios Estrangeiros e Comunicações. Os chefes do governo local designavam-se por presidente e primeiro-ministro. Só os “residentes permanentes” do estado tinham direito a comprar terras e casas.

Em 1952, terminaram formalmente 52 anos de poder de Hari Singh, o quarto e último marajá de J&C, e 106 da dinastia Dogra. Mas todos os anseios de autodeterminação dos caxemiris foram reprimidos. Em 1953, a Índia de Nehru prendeu o xeque Abdullah, que era primeiro-ministro, depois de ele ter aprovado uma reforma agrária que assustou latifundiários hindus e sugerido a possibilidade de independência.

Após 17 anos na cadeia, Abdullah fez um pacto com a Índia, desistindo do plebiscito recomendado pela ONU e regressou ao poder até 1982 – período relativamente pacífico. Em 1987, o governo indiano falsificou eleições, prendeu candidatos e simpatizantes da oposição – um deles, Yasin Malik, que viria a criar a Frente de Libertação de Jammu e Caxemira (FLJC).

Em 1989-1990, a FLJC e outros grupos separatistas, treinados e armados pelo Paquistão, inspirados pelos mujahedin afegãos, mergulharam a Caxemira numa rebelião total. Mataram centenas de muçulmanos pró-Índia, desde activistas políticos a presumíveis informadores dos serviços secretos de Nova Deli. Pelas mesma razões, assassinaram também centenas de pandits e forçaram a fuga dos restantes para Jammu e outras cidades.

Os anos seguintes continuaram a ser de violência e repressão, alimentadas pela doentia rivalidade entre a Índia e o Paquistão. Mas, neste “vale da morte”, onde mais de 80 mil pessoas perderam a vida, os caxemiris não desistem de lutar pela liberdade.

Fontes:

Curfewed Night: one Kashmiri Journalist’s Frontline Account of Life, Love, and War in His Homeland, de Basharat Peer; Kashmir: The Case for Freedom, de Tariq Ali, Hilal Bhatt, Anagana P. Chatterji, Habbah Khatun, Pankaj Mishra e Arundhati Roy; Paradise at War: A Political History of Kashmir, de Radha Kumar; Understanding Kashmir and Kashmiris, de Christopher Snedden.

© Sameer Mushtaq | Al Jazeera

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Dezembro de 2019 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, December 2019 edition

“Todos nós subestimámos Kim Jong-un, que provou ser um ditador cruel, astuto e calculista”

Na Coreia do Norte, com um povo faminto e elites corruptas, opositores escolhem desertar e não derrubar o regime. Quem se atreve sabe que não será o único perpetuamente desterrado para um gulag. Mas também os pais, a mulher e os filhos. Três gerações pagarão o preço da dissidência. Numa biografia ímpar e de leitura obrigatória, a jornalista Anna Fifield revela o mundo racional e absurdo do “Supremo Líder” em Pyongyang. (Ler mais | Read more...)

A Coreia do Norte de Kim Jong-un tem o quarto maior exército do mundo: 1,2 milhões de soldados, segundo Anna Fifield
© KCNA | AFP | The Wall Street Journal

Anna Fifield é autora da mais importante biografia do líder da Coreia do Norte: The Great Successor: The Divinely Perfect Destiny of Brilliant Comrade Kim Jong Un. Especialista na Ásia, atualmente chefe da delegação do diário The Washington Post em Pequim, a premiada jornalista neo-zelandesa fez 14 visitas – “fascinantes, bizarras e frustrantes” – ao “Reino Eremita”, desde 2005.

Para esta obra de mais de 300 páginas, Anna Fifield foi à procura de todos os que, longe do “paraíso socialista”, contactaram com Kim Jong-un, entre eles o português João Micaelo, seu melhor amigo numa escola em Berna, e os tios maternos obrigados a desertar, tal como dezenas de outros que aceitaram testemunhar.

Numa entrevista  que me deu, por e-mail, Anna Fifield fala das ambições e desafios do homem que completa 35 anos de vida em 8 de Janeiro de 2020 – o dia e o mês em que, em 2009, o pai o anunciou como sucessor.

Alguns esperavam que, tendo estudado na Suíça sobre direitos humanos e democracia, Kim Jong-un viria a ser um reformista. Mas, afinal, revelou-se um “ditador brutal”…

Todos o subestimámos porque, achávamos que iria fracassar. Com 27 anos, era muito jovem. Não tinha experiência nem qualificações para liderar o Partido (comunista) dos Trabalhadores ou o exército. E menos ainda o país. Mas deu provas de ser extremamente astuto e calculista, e enfrentou a missão com uma racionalidade surpreendente.

Kim Il-sung, o fundador da dinastia (à esq.), viveu até aos 82 anos. Kim Jong-il (à dir.) até aos 70. Kim Jong-un, que completa 35 no dia 8 de Janeiro de 2020, quer garantir que a sua “monarquia comunista”, sobrevivente há mais de sete décadas, não morrerá consigo
©KNS | AFP | Getty Images | NBC News

10 Outubro 2010: Kim Jong-un e o pai, Kim Jong-il, assistem em Pyongyang a um desfile militar que assinalou os 65 anos da criação do Partido (comunista) dos Trabalhadores da Coreia
© Vincent Yu | AP | The Atlantic

Como percebeu ele o que tinha a fazer para sobreviver?

Avançou desde logo com o programa nuclear. Para se defender do mundo exterior e reforçar o orgulho nacional. Foi também impiedoso ao ponto de, primeiro, se aproveitar das pessoas que conheciam bem as instituições do regime e, depois, quando já não precisava dos seus conselhos, mandá-las executar, como fez com um tio, o chefe do exército e o chefe da propaganda.

Um cientista político disse-me que os primeiros dois anos são os mais difíceis para um novo ditador. Findo esse período, serão maiores as probabilidades de sobreviver ou ter uma morte natural. Kim Jong-un está no poder há oito anos e firmemente ao leme.

Kim tem o quarto maior exército do mundo (1,2 milhões de soldados), capacidade para produzir 6-7 bombas nucleares por ano e ainda mísseis balísticos. Como avalia esta ameaça?

Ele investiu todo o dinheiro e energia num programa de armas nucleares e fez progressos impressionantes ao desenvolver mísseis balísticos intercontinentais que podem, teoricamente, atingir os EUA. A sua arma nuclear é, quase de certeza, a bomba de hidrogénio.

Era suposto que sanções internacionais o impedissem de arranjar fundos e componentes para fabricar estes arsenais. Mas o regime conseguiu contornar as sanções.

Além de testar estas armas e ameaçar usá-las, Kim formou também um gigantesco exército de ‘guerreiros cibernautas’, que atacam redes de computadores [em pelo menos 150 países], incluindo os da Sony nos EUA e do Serviço Nacional de Saúde britânico.

Conseguiram roubar 81 milhões de dólares do Banco Central do Bangladesh e só uma gralha os impediu de desviar mais. Para Kim, esta capacidade é muito útil, porque lhe permite causar o caos e ganhar dinheiro sem deixar rasto.

Kim Jong-un e Donald Trump durante o seu primeiro encontro em Junho de 2018. Da parte do líder norte-coreano, esta é “uma relação totalmente pragmática e não uma beautiful relantionship” como a descreve o president americano, segundo Anna Fifield
© Evan Vucci | AP | TIME

A Coreia do Norte construiu armas nucleares propositadamente para deter os EUA. E Washington tudo tem feito para conter e isolar Pyongyang. Será algum dia possível ultrapassar este fosso, estratégico e ideológico?

É da natureza dos ditadores serem paranóicos e a Coreia do Norte tem razões para temer os EUA. O regime instila o medo do que vem de fora, mantendo vivas as memórias da Guerra da Coreia, quando os bombardeamentos americanos quase aniquilaram o país.

Kim sabe bem o que aconteceu a Estados como o Iraque, a Líbia ou a Venezuela, onde a América derrubou líderes como ele. O seu regime garante que o programa nuclear tem objetivos de dissuasão, para evitar um ataque dos EUA. E eu acredito que Kim sabe que seria um suicídio usar armas nucleares de forma ofensiva.

Como é que define a relação entre Kim e Donald Trump?

Da parte de Kim, é uma relação totalmente pragmática e não a beautiful relantionship descrita por Trump. Contudo, Kim sabe que, não sendo Trump um presidente convencional, ele representa a melhor oportunidade para chegar a um pacto favorável com os EUA.

Não creio que vá desistir das armas nucleares, mas talvez aceite um pequeno compromisso para obter de Trump concessões, sobretudo o alívio das sanções.

Os norte-coreanos estão a par do calendário eleitoral americano, e esperam que Trump queira firmar um acordo, para o apresentar como uma vitória de política externa antes das eleições [de 2020]. Por outro lado, acho que há, também, algum desespero por parte de Kim.

Ele tem consciência de que, para continuar a clamar que é o melhor e mais legítimo líder, precisa de mostrar progressos no campo económico. E, com sanções, não consegue isso.

“Kim Jong-un sabe que ter um núcleo de elites com interesse em mantê-lo no poder é essencial à sua sobrevivência nas próximas décadas”, diz Anna Fifield. “Estas são as pessoas mais perigosas para o regime, porque as suas vidas começaram a melhorar e as expectativas a aumentar”. Fotos de cima para baixo: 1) Dois estudantes universitários analisam uma imagem numa câmara digital Canon Powershot A3300; 2) Uma mulher aprende a andar a cavalo num clube de equitação em Pyongyang; 3) Dois noivos poisam com o seu dálmata no jardim zoológico da capital norte-coreana
© vice.com

Apesar das sanções, o seu livro revela a existência de elites com acesso a todos os luxos. Quem são elas e até que ponto são fiéis ao regime?

Para a maioria dos norte-coreanos, a vida é extremamente difícil. A fome está em toda a parte. Mas Kim Jong-un criou uma classe de elites, sobretudo de millennials, a sua geração, que prospera graças a ele e, por isso, lhe são leais.

A vida nunca foi tão boa para quem tem 20 ou 30 anos e vive em Pyongyang. Se tiverem dinheiro, e graças à corrupção, podem comprar roupas da Zara e da H&M, ter aulas de ioga e beber cappuccinos

Kim Jong-un sabe que ter um núcleo de elites com interesse em mantê-lo no poder é essencial à sua sobrevivência nas próximas décadas. Por outro lado, ao permitir a criação de algumas empresas privadas, fez emergir uma classe média.

E estas são as pessoas mais perigosas para o regime, porque as suas vidas começaram a melhorar e as expectativas a aumentar.

Resta saber se Kim poderá manter este processo e este ritmo. Na Suíça, uma das disciplinas que ele estudou era História da Revolução Francesa: até que ponto recorda as lições sobre o que acontece quando as expectativas não são correspondidas?

Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, durante uma visita ao Vietname em Fevereiro de 2019: muitos descrevem-na como “a mulher mais poderosa da Coreia do Norte”
© Reuters

Kim Jong-un com a mulher, Ri Sol-ju: uma antiga bailarina, terá sido escolhida pelo pai dele (que inicialmente a queria para si). Vem de uma família fiel ao regime. Têm três filhos
© Reuters | South China Morning Post

O Muro de Berlim caiu e a URSS começou a ruir no ano em que o pai de Kim sucedeu ao avô. Outros déspotas, da Europa ao Médio Oriente, foram sendo afastados porque dissidentes corajosos arriscaram a vida pela liberdade. Na Coreia do Norte, as pessoas preferem desertar a tentar derrubar o regime. Porquê?

Muitos na Coreia do Norte sabem que a mitologia do regime é uma mentira. Os que veem filmes e séries estrangeiras, sobretudo da Coreia do Sul, percebem que o mundo lá fora é mais livre e rico. Quando perguntei a norte-coreanos por que não se revoltam eles, responderam-me que o sistema penal é tão severo que é impensável alguém criticar e menos ainda sublevar-se contra o regime.

Kim Jong-un continua a praticar a lei do “culpado por associação”, significando isso que três gerações de uma família serão castigadas se uma delas for suspeita de crimes políticos. Talvez haja alguém tentado a criticar Kim, mesmo sabendo que isso o condenará perpetuamente a um campo de internamento, mas quem se arrisca fazê-lo, se os pais, a mulher e os filhos também forem enviados para esses gulag? Um desertor disse-me: “Se discordamos do regime, não tentamos mudá-lo, tentamos fugir dele.”

O que pode acontecer se Kim, obeso e fumador compulsivo, morrer devido a problemas de saúde?

Isto foi o que mais me surpreendeu. Em 2014, ele desapareceu da cena pública durante seis semanas, e regressou apoiado numa bengala. Kim está tão obcecado em permanecer no poder e, no entanto, não se preocupa com a saúde, que é o seu maior risco de vida. Porquê?

Estará a preparar a irmã, Kim Yo-jong, para lhe suceder?

Não há planos óbvios de sucessão. A irmã é conselheira próxima e está a trabalhar claramente para ele. Mas, na Coreia do Norte, onde vigora o sistema de Confúcio, é difícil imaginar uma mulher ascender à liderança. Supõe-se que Kim Jong-un tem três filhos, todos na infância, incapazes de assumir o comando nas próximas décadas.

Depois deste livro, vai poder regressar à Coreia do Norte?

Não. Escrever sobre o líder é como uma heresia. Não estaria em segurança se voltasse.

Kim Jong-un durante uma visita a Vladivostok, na Rússia, em 24 de Abril de 2019
© Shamil Zhumatov | Reuters

Excentricidade e crueldade de um “brilhante camarada”

O avô, Kim Il-Sung, nasceu no dia em que naufragou o Titanic. O pai, Kim Jong-il, herdou o poder no ano em que caiu o Muro de Berlim e começou o colapso da União Soviética. E Kim Jong-un, o filho, veio ao mundo em 1984, confirmando, para a Coreia do Norte, os prognósticos de George Orwell de uma era de opressão e distopia.

  • Adulado por todos desde o berço, nunca foi possível a Kim Jong-un uma vida normal. Aos 7 anos, recebeu do pai um carro a sério, modificado para o poder conduzir sozinho; aos 11, deram-lhe um revólver Colt.45, que usava à cintura.
  • Kim, que atualmente possui umas 33 mansões por toda a Coreia do Norte, 28 das quais ligadas por caminhos de ferro, túneis e bunkers, cresceu em palácios fortificados em Pyongyang, a capital, ou na estância de veraneio de Wonsan – nos arredores da qual testa agora os seus mísseis balísticos.
  • Em cada um dos aposentos da família Kim, havia pianos Yamaha e Steinway, televisões Sony, computadores, videojogos (“Super Mario”, em particular), mesas de bilhar, milhares de peças Lego e Playmobil, puzzles e pistolas de plástico – com balas reais.

As primeiras fotos de Kim Jong-un na infância foram divulgadas pela televisão estatal da Coreia do Norte, durante um concerto em Pyongyang, em 16 de Abril de 2014
© Reuters

O português João Micaelo (à esquerda) e Kim Jong-un (ao centro), numa foto da escola que ambos frequentavam na Suíça
© radiocomercial.iol.pt

  • Havia também cinemas, com paredes revestidas a madeira para melhorar a acústica, cortinas de veludo que se abriam quando as luzes se apagavam e poltronas sedosas. Filhos de uma antiga bailarina, Ko Yong-hui, e de um playboy “alcoólico e fanático por filmes”, os irmãos Kim Jon-chol, Kim Jong-un e a irmã, Kim Yo-jong, viam Ben Hur, Drácula ou a saga James Bond.
  • Os filhos da terceira mulher de Kim Jong-il vestiam roupas feitas por medida, com tecidos que vinham de Inglaterra em malas Samsonite, e lavavam os dentes com pasta Colgate importada.
  • Em 1996, Kim foi estudar para a Suíça. Tinha dois passaportes diplomáticos: um da Coreia do Norte, em nome de “Pak-un”, e outro do Brasil, que o identificava como “Josef Pwag”. Na International School of Bern, o melhor amigo de Kim era João Micaelo, filho de imigrantes portugueses, que se lembra dele como “’Un’, o miúdo asiático [sempre] de fato de treino e ténis Nike”. Os dois faziam parte do grupo de “alunos mais fracos do 6A”.

Kim Jong-un e a antiga estrela do basquetebol americano Dennis Rodman, que já visitou três vezes a Coreia do Norte: uma amizade duradoura
© Reuters | South China Morning Post

  • Basquetebol era (e é) a paixão de “Pak-un”. Todos os dias, praticava no recinto da escola, usando o mesmo equipamento (genuíno) dos Chicago Bulls: camisola com o nº 23, de Michael Jordan, e ténis Air Jordan. A bola era uma Spalding da NBA. Em 2013, cumpriu o sonho de ter Dennis Rodman, dos Harlem Globetrotters, a jogar em Pyongyang – a 1º de três visitas que selaram uma amizade duradoura.
  • O que Kim evitava era ir a campos de férias, festas e discotecas. Também não ingeria bebidas alcoólicas e fugia do contacto com raparigas. A mulher com quem mais tarde se casaria, Ri Sol-ju, foi escolhida pelo pai (que inicialmente a queria para si), uma bela e talentosa cantora, oriunda de uma família fiel ao regime. Têm três filhos.
  • Em 2009, o pai escolheu Kim Jong-un para ser o “Grande Sucessor”. O miúdo desatento nas aulas em Berna foi imediatamente promovido a “Génio entre os Génios”, e o regime que só permite aos cidadãos celebrarem os aniversários dos líderes (única ocasião em que as crianças recebem presentes) ordenou que, doravante, mais ninguém se chamaria Kim Jong-un. Quem tinha esse nome, teria de escolher outro.

Na Coreia do Norte, a única ocasião em que as crianças recebem presentes é nos dias em que se celebra os aniversários dos três Kim
© KCNA | Reuters | Newsweek

  • Em 2011, Kim Jong-il morreu de ataque cardíaco, e o filho de 27 anos assumiu a liderança. O agora “Invencível e Triunfante General”, “Líder Determinado e Magnânimo”, “Guardião da Justiça”, “A Melhor Incarnação do Amor”, “Sol do Socialismo”… não perdeu tempo a aterrorizar ainda mais a sociedade.
  • Em 2013, o tio Jang Song-thaek, um reformista protegido pela China que promovia uma visão de futuro diferente da do líder, foi condenado à morte acusado de traição. Uma das provas foi “não ter aplaudido” o sobrinho quando este ascendeu a um dos seus muitos cargos.
  • Destino ainda mais cruel coube, em 2015, ao ministro da Defesa, Hyon Yong-chol, que cometeu a indelicadeza de adormecer quando Kim Jong-un estava a discursar. Foi executado publicamente com armas antiaéreas, o seu corpo reduzido a polpa.

Kim Jong-un com o tio Jang Song-thaek, um reformista protegido pela China que ele mandou executar por o considerar uma ameaça
© Kyiodo | Reuters | Corbis | Vanity Fair

Kim Jong-nam, o meio irmão de Kim Jong-un, que este mandaria assassinar num arrojado ataque cometido por duas mulheres, em 2017, no aeroporto de Kuala Lumpur
© Getty Images | The Sun

  • A vítima seguinte, em 2017, foi o meio-irmão, Kim Jong-nam. Num audacioso ataque no aeroporto de Kuala Lumpur, Malásia, duas mulheres injectaram-no com o mortífero gás de nervos VX, quando ele, com um passaporte português, embarcava para Macau, onde vivia. Ser informador da CIA não foi o crime que o matou, mas sim ser o primogénito (filho da segunda mulher) de Kim Jong-il e potencial aspirante ao lugar de Kim Jong-un.
  • Na Coreia do Norte, tudo e todos são controlados. Há agentes que verificam quantas vezes os cidadãos fazem vénias às estátuas dos líderes ou o quão ardentemente ouvem as sessões de ideologia. Todas as casas, edifícios públicos e até cada uma das carruagens do metro ostentam fotografias de Kim Il-sung e Kim Jong-il que devem ser limpas, diariamente, com “um pano especial guardado numa caixa especial”.
  • Os que cometem crimes “normais”, como assaltos, roubos, tráfico de droga e assassínios, são detidos em “lugares para tornar uma pessoa boa através da educação”. Os suspeitos de crimes políticos e ideológicos são desterrados para campos de trabalhos forçados de onde raramente saem com vida. Os prisioneiros, frequentemente torturados (as mulheres, por exemplo, são forçadas a suicidarem-se, a abortar, a ver os filhos mortos à sua frente), alimentam-se de sapos e insetos – a sua única proteína.

Foi no filme In the Line of Fire, de Clint Eastwood, sobre um agente que protege John F. Kennedy, que Kim Jong-un se inspirou para pôr os guarda-costas a correr ao lado e atrás da sua limusine blindada”Mercedes-Baybach S600 Pullman Guard, de 16 milhões de dólares
© Getty Images | Business Insider

  • A comida de Kim é testada por um provador, não vá alguém tentar envenená-lo. Em 2018, quando se encontrou com Donald Trump em Singapura, os ingredientes para as suas refeições foram transportados de Pyongyang num avião de carga especial.
  • No mesmo avião seguia o seu Mercedes-Maybach S600 Pullman Guard, de 1,6 milhões de dólares, totalmente blindado, as portas tão pesadas (5 toneladas) que, para abrirem e fecharem, têm os seus próprios motores.
  • Foi no filme Na Linha de Fogo, onde Clint Eastwood representa o papel de um agente secreto encarregado da proteção de John F. Kennedy, que o antigo colega de João Micaelo se inspirou para pôr 12 dos 120 mil guarda-costas do Comando da Guarda Suprema a correr ao lado e atrás da sua limusine.
  • Kim Il-sung viveu até aos 82 anos. Kim Jong-il até aos 70. Kim Jong-un, que completa 35 no dia 8 de Janeiro de 2020, quer garantir que a sua “monarquia comunista”, sobrevivente há mais de sete décadas, não morrerá consigo.

Fonte:

Este segundo artigo foi feito com base na edição internacional do livro de Anna Fifield, “The Great Successor: The Secret Rise and Rule of Kim Jong Un” (Ed. John Murray, Londres, 2019)

Anna Fifield e a edição americana de O Grande Sucessor
© Miguel Cervantes

Este dois artigos, com títulos diferentes, foram originalmente publicados na revista SÁBADO, edição de 28 de Novembro 2019 | These two articles, under different headlines, were originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, November 28, 2019 edition

“A norma da existência humana é a migração. A anomalia é uma fronteira fechada”

A liberdade de movimento “é um direito humano fundamental”, sublinha Reece Jones, coordenador e co-autor de Open Borders: In Defense of Free Movement. “Esta é a posição moral justa que toda gente deveria defender”, em vez de exacerbar o medo que, trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, constrói cada vez mais barreiras, vedações e fortificações. (Ler mais | Read more…)

Migrantes caminham escoltados pela polícia de fronteiras da Eslovénia para serem registados num capo nos arredores de Dobova
© Serguei Ponomarev | The New York Times

Em 1989, quando caiu a Cortina de Ferro, a esperança era a de que, seguindo o exemplo do de Berlim, todos os muros seriam derrubados. Mas, três décadas depois, o seu número aumentou de 5 para 70.

As novas fronteiras “já não são linhas defensivas militares contra a invasão de Estados”, explica Reece Jones, professor no Departamento de Geografia e Ambiente da Universidade do Havai, numa entrevista que me deu por e-mail. “Agora, servem de proteção contra o movimento de indivíduos descritos como ameaça a sistemas políticos, culturais e económicos”.

Foi para contestar as “restritivas e mortíferas” políticas de imigração na América e na Europa que este académico coordenou uma obra extraordinária acabada de publicar, com 20 autores e 284 páginas, Open Borders: In Defense of Free Movement.

Ele que já havia escrito outros livros de referência, como Violent Borders: Refugees and the Right to Move, está já a preparar o próximo, para provar que as leis de imigração nos EUA, desde as primeiras aprovadas em 1875, “têm tudo a ver com a raça”.

A queda do Muro de Berlim gerou esperança de que até as pequenas barreiras viriam a seriam derrubadas. Construir fronteiras era considerado um anacronismo em democracia. Mas o que aconteceu foi o oposto. O que premiu o gatilho?

O número de muros erguidos nos últimos 30 anos evidencia a mudança de objetivos das fronteiras na era da globalização. Como documentou a minha colega Elisabeth Vallet [autora de Borders, Fences and Walls], no final da II Guerra Mundial havia apenas cinco muros em todo o mundo. Em 2000, só havia 15, mas hoje são 70.

Com muros em tantos locais diferentes, é impossível generalizar sobre todos eles, mas eles são muitas vezes uma reação contra a globalização. Sempre que pessoas, ideias e capitais se movem pelo mundo, alguns sentem o desejo de recuar para recuperar maior controlo. Isto vê-se no Brexit, mas também na resistência a acordos de comércio livre e à imigração.

O hondurenho Jonatan Matamoros Flores, de 33 anos, parte de uma “caravana de migrantes”, fotografado no topo de uma vedação erguida em Tijuana, na fronteira do México com os Estados Unidos, em 8 de Dezembro de 2018
© Guillermo Arias | AFP | Getty Images | Newsweek

No caso da Europa, qual é o objetivo principal para a construção de mil quilómetros de muros em toda a UE – “a fronteira mais mortífera do mundo”? Como avalia a sua eficácia?

Os muros são, intrinsecamente, ineficazes na tentativa de travar qualquer movimento. Sem guardas, são facilmente derrubados ou trepados com uma escada. Os muros fortemente vigiados por guardas fronteiriços e equipamento de segurança podem impossibilitar o movimento em determinados pontos de acesso.

Alguns estudos indicam, todavia, que a militarização de uma zona particular da fronteira apenas desvia o movimento para outra zona, geralmente mais perigosa – o chamado ‘efeito funil’. E porque estes novos locais remotos são mais perigosos, há uma relação direta entre segurança fronteiriça e mortes de migrantes.

Fugindo da violência ou das más condições de vida nos seus países, as pessoas não deixam de migrar, mas a sua viagem torna-se mais mortífera. A agência Associated Press registou 14 000 mortes de migrantes em todo o mundo, entre 2014 e 2018.

É claro que a culpa por estas mortes é atribuída aos políticos e às agências fronteiriças que aplicam as novas leis contra a imigração. Ainda recentemente, foi apresentada uma queixa contra a União Europeia no Tribunal Penal Internacional, por ‘crimes contra a humanidade’ nas suas fronteiras.

[O processo, apresentado em 4 de junho por dois advogados, Juan Branco e Omer Shatz, acusa, em particular, a França, a Itália e a Alemanha de, ao tentarem travar imigrantes vindos da Líbia, terem contribuído para a morte de pelo menos 14 000 pessoas.]

Segundo o Transnational Institute, em Amesterdão, a extrema-direita na Europa (38 partidos políticos em 28 Estados membros) “tem manipulado a opinião pública para criar medos irracionais em relação aos imigrantes, uma xenofobia que ergueu muros mentais nas pessoas”. Noutras partes do mundo, também se vê um crescendo de racismo, intolerância religiosa e violência. Como se deve enfrentar estes desafios?

Tudo se resume ao medo. A extrema-direita tem sido capaz de o criar e de usar informações falsas para ver apoiadas as suas posições. Não esqueçamos, porém, que eles não representam a maioria em nenhum país. Como se constatou nas eleições europeias [em maio], os partidos da extrema-direita atingiram o limite ou até perderam votos na maioria dos países, após um crescimento rápido nos anos anteriores.

Uma criança que foge da guerra tenta subir com ajuda uma das vedações na fronteira da Síria com a Turquia, em Akçakale. Esta fotografia recebeu um prémio World Press Photo em 2016
© Bulent Kilic

Nos EUA, por outro lado, dados do Census Bureau publicados em 2018 revelam que a América precisa de mais e não menos imigrantes, porque o crescimento demográfico é o menor dos últimos 80 anos. Assim sendo, quais as principais razões para Donald Trump querer construir um muro de 5000 milhões de dólares na fronteira com o México? Será porque receia “uma minoria branca” em 2045? Até que ponto a sua política diverge da de anteriores presidentes?

Estou agora a escrever um outro livro, sobre raça e leis de imigração nos EUA. Embora muita gente pense que estas leis sejam normais em qualquer país, no caso americano, a primeira lei tinha tudo a ver com a raça, especificamente com o objetivo de afastar as pessoas não brancas.

As primeiras duas leis nacionais, Page Act, de 1875, e Chinese Exclusion Act, de 1882, proibiam a entrada de imigrantes chineses no país. E a primeira grande lei de imigração, Johnson-Reed Immigration Act, de 1924, estipulava quotas com base na origem nacional, interditando toda a imigração asiática e restringindo duramente outros imigrantes, exceto os que vinham do Norte e Ocidente da Europa.

Num artigo publicado no New York Times, o promotor desta lei, David Reed escreveu: “A partir de agora, a composição racial da América torna-se permanente”. O que agora assistimos é o regresso a essas normas do passado, com Trump e os seus aliados na direita a usarem a política migratória para restringir a imigração não branca.

Acaba de publicar Open Borders: In Defense of Free Movement. Por que continua esta missão, que considera “idealista”, numa era de intensos fluxos migratórios, tráfico de seres humanos e até doenças contagiosas, com Estados a reclamarem “o direito legítimo” de controlar território e “a obrigação” de proteger os interesses dos seus cidadãos?

Parte do meu trabalho como professor é ter uma visão mais alargada de um determinado tema e não me deixar arrastar pelas políticas do momento. O sistema de Estados soberanos é um desenvolvimento político relativamente novo: os primeiros Estados com fronteiras emergiram na Europa no século VII e espalharam-se pelo mundo em meados do século XX.

[O antropólogo americano] James C. Scott, no seu livro Against the Grain: A Deep History of the Earliest States, mostra que a atual configuração política só existiu para 0,2% da história humana na Terra. Portanto, há razão para acreditar que, no futuro, aparecerá um novo sistema que substituirá o atual. A norma da existência humana é a migração. A anomalia é uma fronteira fechada.

Em Open Borders, eu começo por perguntar se o movimento é um direito humano fundamental, e concluo que é. Embora no nosso atual momento político possa parecer idealista defender o direito de todos os seres humanos a moverem-se livremente por todo o mundo, esta é a posição moral justa que todos deveriam defender.

O desespero de uma migrante retida na fronteira entre a Hungria e a Sérvia, nas proximidades da cidade de Horgos, em 16 de Setembro de 2015
© Armend Nimaniarmend Nimani | AFP | Getty Images | TIME

O que acontece se, em consequência de uma guerra ou pobreza extrema, a maioria da população de um país se mudar para outro? Qual o impacto humano, económico e ambiental de uma política de fronteiras abertas?

Estudos sobre migração têm demonstrado, de maneira consistente, que esta é economicamente benéfica para ambas as partes, independentemente de serem migrantes económicos ou refugiados. Nos países de acolhimento, os imigrantes criam mais empregos, por exemplo, quando arrendam casas ou fazem compras em lojas locais.

Segundo um estudo realizado nos EUA, cada imigrante cria 1,2 postos de trabalho adicionais além do seu. A imigração também beneficia os países de origem, porque alivia a pressão sobre serviços sociais sobrecarregados, ao mesmo tempo que contribui para a economia com as remessas dos emigrantes. Em termos puramente económicos, é inequivocamente positivo defender fronteiras abertas.

A oposição à imigração tem, na maior parte dos casos, bases culturais. Os imigrantes introduzem no modo de vida do país que os acolhe novos alimentos, palavras e determinadas tradições, enquanto se integram no seu tecido social. Estas trocas culturais são geralmente benéficas, mas assustam algumas pessoas. Não creio que ter medo de os nossos vizinhos falarem uma língua diferente ou seguirem um modo de vida distinto seja justificação para os proibir de entrar num país.

O que são fronteiras, afinal, e desde quando é que Estados-nação são por elas definidos? É possível determinar quando se começaram a construir muros, como eram eles e como é que o controlo fronteiriço tem evoluído?

O papel específico desempenhado pelas fronteiras mudou dramaticamente nos últimos 300 anos. Originalmente, a maioria das fronteiras eram linhas defensivas militares onde um Estado colocava o seu exército para impedir uma invasão por outro Estado.

Embora algumas destas fronteiras ainda existam (por exemplo, a DMZ [Zona Desmilitarizada] na Península Coreana ou a Linha de Controlo de Caxemira [que separa a Índia e o Paquistão]), o propósito da maioria das fronteiras, no último século, passou a ser o de delinear espaços de autoridades soberanas separadas.

À medida que o sistema de Westfália de fronteiras mutuamente reconhecidas [depois da Guerra dos 30 anos que devastou a Europa de 1618 a 1648] foi sendo mundialmente aplicado, e particularmente depois da Criação das Nações Unidas em 1945, a ameaça de invasão por parte e um Estado vizinho diminuiu substancialmente. E as fronteiras tornaram-se lugares onde diferentes sistemas de autoridade soberana eram institucionalizados e aplicados.

Naquela época, os gigantescos projetos de segurança fronteiriça raramente eram necessários porque, na ONU, havia o reconhecimento mútuo da autoridade de cada Estado, e não havia uma ameaça iminente que justificasse uma infraestrutura tão onerosa.

Nos últimos 30 anos, na era da globalização e da mobilidade do trabalho, o objetivo das fronteiras voltou a mudar, para as tornar novamente linhas de proteção dos privilégios de um Estado. Em vez de linhas defensivas que afastam invasores, as fronteiras servem agora de proteção contra o movimento de indivíduos descritos como ameaça a sistemas políticos, culturais e económicos.

À medida que aumentam as provas de que as mudanças climáticas estão a forçar os seres humanos a migrar através de fronteiras internacionais, vários Estados têm vindo, com toda a urgência, a aprovar leis e a impedir entradas indesejadas.

Este novo objetivo mudou profundamente o modo como as fronteiras são construídas e patrulhadas, com a mobilização de mais pessoal e investimento numa vasta gama de tecnologias militares e de segurança para monitorizar, identificar e bloquear movimentos não autorizados.

Agentes da Guarda Civil Espanhola usam um elevador para retirar migrantes africanos que subiram a uma vedação quando, vindos de Marrocos, tentavam entrar no enclave de Ceuta 
© Reuters

Há um século, Franz Kafka descrevia a Grande Muralha da China como “um fracasso da imaginação humana”, mas muitas pessoas ainda olham para esta colossal estrutura com enorme admiração. Porquê?

Os muros funcionam como um símbolo. Eles removem todos os medos que as pessoas possam sentir sobre ideias abstratas, como a globalização, a imigração, a insegurança económica e as mudanças culturais. Instintivamente, Donald Trump percebeu o poder dos muros como um símbolo de ‘nós e eles’. É, por excelência, o símbolo da exclusão nacionalista.

Qual das barreiras, vedações ou fortificações erguidas desde 1989 pode hoje ser considerada o novo “Muro da Vergonha”?

Todas elas!

Reece Jones, professor no Departamento de Geografia e Ambiente da Universidade do Havai, EUA
© Reece Jones

Esta entrevista, com um título diferente, foi publicada originalmente na revista VISÃO, edição de 13 de Novembro de 2019 | This interview, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, November 13, 2019 edition

1989: Quando o impensável se tornou imparável

Como é que a República Democrática da Alemanha, um país que “tinha planos quinquenais para tudo, da produção de carrinhos de linhas a ginastas e espiões”*, não conseguiu antever nem controlar os acontecimentos que haveriam de ditar não apenas o seu fim e a queda do verdammte Mauer (maldito Muro) de Berlim, mas também o colapso de todos os regimes comunistas da Europa de Leste e da URSS? Cronologia de um ano extraordinário que para sempre mudou o mundo. (Ler mais | Read more…)

Alemães de Berlim Ocidental oferecem café a forças fronteiriças da RDA, em 11 de Novembro de 1989, depois da queda do muro que dividia a cidade
© DPA | AP Images | TIME

  • 7 de janeiro: Aos 87 anos, morre Hirohito, o último imperador “divino” do Japão, depois de um longo reinado de 63 anos durante o qual é acusado de “criminoso de guerra”, mas que termina, no dia do funeral, com elogios de 160 nações à sua “contribuição para a paz”;
  • 20 de janeiro: George H. W. Bush entra na Casa Branca, sucedendo a Ronald Reagan, o presidente que, de visita a Berlim, pede: “Senhor [Mikhail] Gorbatchov, derrube este muro”;
  • 3 de fevereiro: Um golpe militar acaba com 35 anos de ditadura de Alfred Stroessner no Paraguai, durante muito tempo um aliado dos EUA. Forçado ao exílio, vive 18 anos em Brasília, onde morre, em 2006, proibido de regressar à pátria;
  • 14 de fevereiro: O fundador da República Islâmica do Irão, Ayatollah Khomeini, indignado com o livro Versículos Satânicos (que nunca terá lido), emite uma fatwa condenando à morte o autor, Salman Rushdie. No mesmo dia, é colocado em órbita o primeiro de 24 satélites de GPS. Um sistema de posicionamento global, desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos EUA, permite determinar a posição, a velocidade e o fuso horário dos utilizadores em terra, mar e ar, 24 horas por dia, em todas as condições climatéricas e em qualquer parte do mundo;
  • 15 de fevereiro: A União Soviética anuncia a retirada total das suas tropas do Afeganistão que invadira dez anos antes. Os mujahedin que, apoiados pelos EUA, forçam esta rendição criam depois a Al-Qaeda, a rede terrorista de Osama in Laden, responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque;
  • 15 de março: Cerca de cem mil manifestantes em Budapeste manifestam-se apelando à democracia na Hungria;
  • 29 de março: Após uma revisão constitucional e no âmbito da Perestroika de Gorbatchov, milhões de eleitores votam para o Congresso dos Deputados do Povo da União Soviética (CCCP), que inclui, pela primeira vez, candidatos não membros do Partido Comunista. O Congresso é dissolvido em setembro de 1991, um mês depois de um golpe de Estado;
  • 9 de abril: Uma manifestação pacífica na república soviética da Geórgia é brutalmente reprimida por soldados do Exército Vermelho, que causam 20 mortos e muitos mais feridos, uma ação que fica conhecida como “Massacre de Tbilisi”;
  • 21 de abril: A Nintendo, que em setembro celebraria 100 anos de existência, lança a pequena consola portátil “Game Boy”, construída pelo inventor Gunpei Yokoi, que se tornaria num dos símbolos mais conhecidos da empresa japonesa e um fascinante objeto de cultura popular;
  • 25 de abril: A companhia americana Motorola apresenta o MicroTAC, o mais pequeno telemóvel do mundo (para os padrões da época), em versão analógica e design flip (o bocal dobra o seu teclado). As primeiras versões têm até 23 cm de comprimento e pesam 350 gr;

Telemóvel MicroTAC
© Motorola

  • 26 de abril: A URSS inicia uma retirada por fases das suas tropas estacionadas na Hungria;
  • 2 de maio: A “Cortina de Ferro” começa a ruir, quando a Hungria inicia o desmantelamento de vedações de arame farpado na sua fronteira com a Áustria;
  • 4 de maio: Na Praça Tiananmen, na capital chinesa, um grupo de estudantes de Pequim, Xangai, Xi’an e Nanjing iniciam um movimento a que chamam “Grande Revolução para a Democracia contra a Ditadura”;
  • 14 de maio: Mikhail Gorbatchov vai à China – a primeira visita de um líder soviético desde a de Nikita Krutchov em 1954. Termina assim, oficialmente, a “Ruptura Sino-Soviética” (1956-1966), o período em que Moscovo e Pequim se mantêm de relações cortadas, devido a divergências doutrinais quanto à aplicação do Marxismo-Leninismo;
  • 29 de maio: A NATO aceita negociar coma URSS a redução de armas nucleares de curto alcance na Europa;

O Ayatollah Khomeini morre no Irão, dez anos depois de derrubar a monarquia e fundar uma república islâmica, sucedendo-lhe Ali Khamenei (à esq.) como Supremo Líder
© wikimedia.org

  • 3 de junho: No Irão, Khomeini morre de ataque cardíaco, dez anos depois de derrubar 2500 anos de monarquia persa, deixando no seu lugar, como Supremo Líder, Ali Khamenei, que hoje tudo controla – da guerra na Síria ao programa nuclear;
  • 4 de junho: O exército chinês toma de assalto a Praça Tiananmen, para esmagar os protestos pró-democracia, num massacre que causa entre 300 e 5000 mortos (as estimativas são diversas). No dia 24, Jiang Zemin ascende à liderança comunista em Pequim, depois de o antecessor, Zhao Ziyang, ter sido afastado por apoiar o movimento estudantil e advogar uma separação de partido e Estado;

Estudantes chineses pró-democracia face a face com agentes da polícia durante as cerimónias fúnebres do reformista Hu Yaobang, em Abril de 1989 – os seus protestos seriam esmagados seis semanas depois no massacre de Tiananmen
© Catherine Henriette | AFP | Getty Images | axios.com

  • 5 de junho: Membros da central sindical Solidariedade, liderada por Lech Walesa, são autorizados a candidatar-se a eleições legislativas na Polónia governada pelo Partido Operário de Unidade Socialista (POUS), do general Wojciech Jaruzelski;
  • 16 de junho: Cerca de 250 mil pessoas juntam-se na Praça dos Heróis, em Budapeste, para homenagear o reformador Imre Nagy, enforcado em 1958, dois anos depois de ter abolido o regime de partido único e denunciado o Pacto de Varsóvia, na “primeira revolução antitotalitária” que precede a Primavera de Praga e que, tal como esta, é esmagada por tanques soviéticos;
  • 30 de junho: Em Cartum, Omar al-Bashir derruba o governo democraticamente eleito de Sadiq al-Mahdi que negoceia a paz com os rebeldes do futuro Sudão do Sul (em 2011). O brigadeiro depois promovido a general e três vezes eleito presidente inaugura uma ditadura que chega ao fim, 30 anos depois, em 11 de abril de 2019, também num golpe de Estado militar, após persistentes manifestações populares;
  • 5 de julho: Seinfeld estreia-se nos Estados Unidos, apesar da relutância dos executivos da estação de televisão NBC e mantém-se no ar até 1998, após nove temporadas e 180 episódios. Os críticos que inicialmente arrasam esta “série sobre o nada” hão de aclamá-la como “a melhor sitcom de todos os tempos”, seguida por dezenas de milhões de fãs;

Série televisiva Seinfeld
© wtop.com

  • 17 de julho: O Vaticano e a Polónia restabelecem laços diplomáticos cortados há 50 anos;
  • 20 de julho: Na Birmânia/Myanmar, a junta militar no poder “pede” a Aung San Suu Kyi, líder da Liga Nacional para a Democracia, na oposição, que deixe o país. Ela recusa e é colocada em prisão domiciliária, até 2010. Torna-se uma das mais destacadas prisioneiras políticas em todo o mundo. Ganha vários prémios, incluindo o Nobel da Paz. Perde todo o prestígio após vencer as eleições de 2015 e assumir o cargo de Conselheira de Estado, perante o seu silêncio cúmplice na perseguição à minoria muçulmana Rohingya;
  • 18 de agosto: Conhecidos os resultados das eleições de junho, termina oficialmente o regime de partido único na Polónia. Toma posse o governo de Tadeusz Mazowiecki, um dos líderes do movimento Solidariedade;
  • 19 de agosto: Milhares de húngaros e austríacos organizam um “piquenique pan-europeu” em Sopron, junto à fronteira que divide o Leste e o Ocidente, apelando à “demolição das barreiras físicas e culturais”. Parece um simples convívio, com churrasco e cervejas, mas ao fim deste dia chuvoso aparecem também uns 700 cidadãos da RDA (homens, mulheres e crianças), de férias na zona do Lago Balaton, na Hungria. Aproveitando a festa apadrinhada por Otto van Habsburg, filho do último Kaiser austro-húngaro, os alemães quebram o frágil portão de madeira na fronteira e entram em liberdade em Sankt Margarethen im Burgenland, na Áustria. Atrás deles vêm outros milhares. Trinta anos depois, permanece um mistério quem organiza este evento. A recém-formada oposição húngara? O filho do Kaiser, representado no piquenique pela filha, Walburga? Os serviços secretos? Ou, talvez, todos eles? Três meses depois, cai o Muro de Berlim;

Cerca de dois milhões de pessoas, da Estónia, Lituânia e Letónia, formaram uma enorme corrente humana ligando Riga a Vilnius numa extensão de 675 km, num protesto pacífico contra a ocupação soviética dos países bálticos
© estonianworld.com

  • 23 de agosto: Cerca de dois milhões de habitantes da Estónia, da Letónia e da Lituânia formam uma corrente humana de 675 km, ao longo destas três repúblicas, reivindicando a independência que chegaria em 1991, após o colapso da URSS. Em 23 de agosto de 2019, três décadas depois da célebre “Cadeia Báltica”, cerca de 200 mil manifestantes em Hong Kong dão também as mãos, exigindo liberdade e democracia, em protestos contra o governo pró-Pequim;
  • 20 de setembro: Frederick de Klerk toma posse como presidente da África do Sul, iniciando um processo que, no ano seguinte, conduz à libertação de Nelson Mandela, depois de 27 anos de prisão, e ao desmantelamento do regime de apartheid;
  • 26 de setembro: As últimas tropas vietnamitas retiram-se do Camboja, antigo Kampuchea Democrático, invadido em 1979 com o apoio da União Soviética para derrubar o regime dos Khmer Vermelho e de Pol Pot, responsáveis pelo genocídio de cerca de dois milhões de pessoas;

O Dalai Lama, líder espiritual dos tibetanos recebe o Prémio Nobel da Paz
© dalailama80.org

  • 5 de outubro: O Prémio Nobel da Paz é atribuído ao Dalai Lama, em reconhecimento pela sua campanha não-violenta para pôr fim à ocupação chinesa do Tibete, onde é reverenciado como líder político e espiritual;
  • 9 de outubro: Milhares de manifestantes em Leipzig, na RDA, exigem reformas e a legalização de partidos políticos;
  • 18 de outubro: Erich Honecker demite-se de secretário-geral do Partido da Unidade Socialista da RDA e sucede-lhe Egon Krenz. Nas ruas, milhares de manifestantes clamam por reformas democráticas. Em 1991, na sequência da reunificação alemã, Honecker pede asilo político na Embaixada do Chile em Moscovo, mas é extraditado no ano seguinte e julgado pelos crimes do regime. O processo é interrompido, porque a sua saúde é frágil, e ele regressa ao exílio chileno, onde morre de cancro, em 1994;

Egon Krenz (em baixo, ao centro) sucede a Erich Honecker (em baixo, à direita) como secretário-geral do Partido da Unidade Socialista da RDA
© Elke Bruhn-Hoffmann | AFP

  • 23 de outubro: A República Popular da Hungria torna-se República da Hungria, exatamente 33 anos após a Revolução Húngara de 1956, e o antigo Partido Comunista passa a chamar-se Partido Socialista, abrindo caminho às primeiras eleições multipartidárias, em 1990; .
  • 28 de outubro: Milhares de pessoas na Checoslováquia exigem nas ruas liberdade e democracia. Forças de segurança reprimem os manifestantes e prendem vários dissidentes, entre eles Vaclav Havel, o futuro presidente. Gorbatchov apela ao regime em Praga que responda aos anseios de mudança;
  • 7 de novembro: Demite-se na RDA o governo de Egon Krenz, o último líder comunista, que seria preso em 1990 e apenas libertado em 2003;
  • 9 de novembro: A RDA abre os checkpoints no Muro de Berlim, permitindo a entrada na RFA sem vistos;
  • 10 de novembro: Alemães em júbilo derrubam o muro que se tornara obsoleto. No mesmo dia, após 35 anos no poder, demite-se o presidente e líder comunista da Bulgária, Todor I. Zhivkov. Sucede-lhe o ministro dos Negócios Estrangeiros, Petar T. Mladenov, consciente de que são inevitáveis reformas políticas e económicas;

Celebração da Revolução de Veludo que pôs fim ao regime comunista, dividiu pacificamente a Checoslováquia em dois países (República Checa e Eslováquia) e abriu caminho à eleição presidencial do dissidente Vaclav Havel
© Lubomir Kotek | AFP | getty Images | The Independent

17 de novembro: Começa na Checoslováquia a “Revolução de Veludo”, uma série de protestos de dezenas de milhares de manifestantes, frequentemente reprimidos pela polícia de choque apesar do seu carácter pacífico, exigindo o fim de 41 anos de partido único;

24 de novembro: Ao oitavo dia de gigantescas manifestações, demite-se o chefe do Partido Comunista da Checoslováquia, Milous Jakes. Aos 97 anos (nasceu em 1922), continua a viver em Praga, como reformado da política, presença assídua em comícios comunistas;

25 de novembro: Cerca de 500 mil pessoas desfilam em frente à sede do Partido Comunista em Praga e milhões de outras aderem a uma greve geral durante duas horas, reclamando eleições livres;

1 de dezembro: Depois de mais de sete décadas de profunda rivalidade ideológica, o líder da URSS, Mikhail Gorbatchov, e o chefe de 850 milhões de católicos romanos, João Paulo II, encontram-se pela primeira vez, no Vaticano. É um acontecimento que o primeiro descreve como “extraordinariamente importante”. Anunciam o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Kremlin e a Santa Sé, e registam a promessa de Gorby de respeitar “as necessidades espirituais e a liberdade de consciência” de todos os soviéticos.

Mikhail Gorbatchov e o Papa João Paulo II, num encontro histórico no Vaticano, anunciam o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Kremlin e a Santa Sé
© americamagazine.org

  • 3 de Dezembro: Mikhail Gorbatchov e George H. W. Bush encontram-se em Malta, anunciando o óbito iminente da Guerra Fria entre os EUA e a URSS;
  • 10 de dezembro: Cerca de 50 mil pessoas em Sófia exigem uma revisão constitucional e o fim do monopólio do poder do Partido Comunista da Bulgária;
  • 11 de dezembro: O processo de democratização acelera-se na Checoslováquia: 11 dos 21 membros do novo Governo não são comunistas;

Patricio Aylwin fez a transição da ditadura de Pinochet para a democracia no Chile
© AFP | STR

  • 14 de Dezembro: O democrata-cristão Patricio Aylwin chega à Presidência do Chile – o primeiro eleito democraticamente após 17 anos de ditadura. Profundo defensor da Comissão da Verdade e Reconciliação, que expõe os crimes de Pinochet, o advogado, escritor, professor e senador Aylwin morre em 2016;
  • 17 de dezembro: No dia em que nos EUA, a cadeia de televisão FOX emite o primeiro episódio de Os Simpsons – uma série que se tornou de culto –, Fernando Collor de Mello derrota Luiz Inácio Lula da Silva na segunda volta das presidenciais no Brasil e torna-se o primeiro chefe de Estado eleito por voto popular após 29 anos de regime militar. O fracasso do seu plano económico (extinção de 920 mil postos de trabalho, taxa de inflação anual de 1200%) e denúncias de corrupção forçam a sua impugnação em 1992;

Julgados e condenados por “genocídio e sabotagem económica”, o ditador romeno Nicolae Ceausescu e a mulher, Elena, foram executados em 25 de Dezembro
© The Independent

21 de dezembro: Em Bucareste, intensificam-se os protestos antigovernamentais, iniciados na cidade de Timisoara no dia 17 e sanguinariamente reprimidos por ordem de Nicolae Ceausescu, secretário-geral do Partido Comunista. Com as forças de segurança a aliarem-se aos manifestantes, o ditador e a mulher, Elena, tentam fugir do país num helicóptero. São capturados por soldados. Julgados e condenados por “genocídio e sabotagem económica”, são executados por um pelotão de fuzilamento no dia 25;

  • 29 de Dezembro: O escritor e filósofo Vaclav Havel é eleito presidente da República pelo Parlamento da Checoslováquia, o país que em 1993 se divide, pacificamente, em dois: República Checa e Eslováquia.
  • 31 de dezembro: Entra em vigor o Plano Balcerowicz, que deve o nome ao ministro das Finanças Leszek Balcerowicz, uma “terapia de choque” (1,1 milhões de pessoas ficam sem emprego quando empresas públicas perdem subsídios ou são privatizadas) que transforma a Polónia de uma economia estatizada numa sociedade capitalista.

* Anne McElvoy, “It Happened One Night”, TIME, 18 junho 2009

Este artigo foi publicado originalmente numa edição especial da revista SÁBADO, em Novembro de 2019 | This article was originally published in a special edition of the Portuguese news magazine SÁBADO, in November 2019

Élisabeth Vallet e David Frye: O que significa um muro?

Trinta anos após a queda do Muro de Berlim, não apenas aumentou o número de barreiras e vedações em todo o mundo, como a Europa se transformou na “mais mortífera fronteira”: quase 35 mil migrantes perderam a vida – no mar, em campos de detenção ou centros de asilo –, entre 1993 e 2018. Entrevistei uma geógrafa e um historiador para perceber as fortificações do passado e do presente. (Ler mais | Read more...)

Um guarda vigia as muralhas do Kremlin, na zona central e mais antiga de Moscovo. As muralhas actuais remontam ao final dos anos 1400, tendo substituído as anteriores
© Misha Japaridze | Associated Press | The New York Times

David Frye, autor de Walls: A History of Civilization in Blood and Brick, está convencido de que, “na história humana, nenhuma invenção se compara aos muros no papel que desempenharam para criar e moldar a civilização. Sem muros, não haveria um [poeta romano] Ovídio, nem sábios chineses, matemáticos babilónios ou filósofos gregos.”

“Há mais de mil anos que se constroem muralhas”, salienta o professor de História Antiga e Medieval na Eastern Connecticut State University, nos EUA, numa entrevista que me deu por e-mail. “Elas foram edificadas, sobretudo, com objetivos de segurança. Para as primeiras cidades [como Jericó, na Palestina atual, que ergueu o primeiro muro defensivo em 8000 a.C.], representavam vida, a possibilidade de dormir em sossego, sem estar constantemente em guarda.”

“Mais: ofereciam liberdade. Porque estes muros podiam ser defendidos por homens sem necessidade de treino ou habilidade com armas. Os muros libertavam os homens da responsabilidade de serem guerreiros e permitia-lhes ocuparem-se com outras atividades. Os primeiros muros não criavam prisões. Criavam espaços seguros.”

O Muro de Berlim, pelo contrário, foi erigido “para aprisionar e não proteger”, realça Frye. “Ainda assim, nem todos o encaravam da mesma forma. [O Presidente dos EUA, John F.] Kennedy inicialmente acolheu-o com alívio [ver segundo texto]. Esperava que o muro diminuísse as tensões e evitasse uma guerra termonuclear, como ameaçara [o líder soviético Nikita] Krutchov. Foi, por isso, que Kennedy disse: ‘A wall is a hell of a lot better than a war”.

Os jornalistas que, na madrugada de 13 de agosto de 1961, assistiram à colocação dos primeiros rolos de arame farpado que iriam separar Berlim Leste de Berlim Ocidental “relataram o que viram “de maneira muito diferente da que Kennedy provavelmente gostaria”, anotou Frye.

O Muro de Berlim “não era, pois, olhado por todos da mesma maneira – uns viam-no como símbolo do domínio comunista; para outros, era um lugar onde crianças brincavam, turistas tiravam fotografias, famílias faziam piqueniques e outros faziam jogging.”

“Acabou por ser, como Kennedy disse, ‘melhor do que uma guerra’, mas também prendeu muitos alemães de Leste a um regime totalitário”, reconhece Frye. No entanto, 30 anos depois, “o Muro de Berlim está a ser usado, no contexto político atual, de uma maneira errada – é apresentado como símbolo de que todos os muros são opressivos, quando, na realidade, ele sempre foi diferente dos outros muros históricos e não pode ser considerado representativo”.

Os romanos ergueram a Muralha de Adriano contra invasões militares, mas não fecharam as portas a imigrantes, sublinha Frye. O Muro de Berlim foi erigido para conter a emigração; a maioria dos que hoje se constroem é para travar a imigração.

Muralhas da Cidade do Vaticano, em Roma. Uma grande parte foi construída no século IX pelo Papa Leão IV, como protecção contra ataques de piratas e outros malfeitores. As muralhas actuais já não rodeiam totalmente a cidade – toda a gente (como os turistas nesta fotografia) pode caminhar pela Praça de São Pedro
© Dan Kitwood | Getty Images | The New York Times

O problema de muitos acreditarem que, depois do Muro de Berlim, viria um mundo sem fronteiras é que “os cientistas políticos interpretaram como sendo uma revolução o que, em 1989, não foi bem uma revolução”, diz-me, por seu turno, a geógrafa Élisabeth Vallet.

“As fronteiras não desapareceram; o que mudou foi a sua natureza e as suas funções”, explica a coordenadora e co-autora de Borders, Fences and Walls: State of Insecurity. “O que alterou, significativamente, o modo como as fronteiras são hoje encaradas foram os ataques de 11 de setembro nos EUA em 2001. Desde então, o medo tornou-se a força motriz das relações internacionais e o cimento dos muros atuais.”

Um muro define um ‘nós versus eles’, num contexto em que a globalização dilui identidades, esbate a noção de nacionalidade e, ao mesmo tempo, reforça a necessidade de nos definirmos segundo parâmetros que possam ser compreendidos e controlados”, afirma a professora de Geografia e Geopolítica na Universidade do Quebeque em Montreal, Canadá.

Os muros não são todos iguais, concorda Élisabeth Vallet. “O muro indo-paquistanês pode ser visto como um muro de manutenção da paz, uma maneira de os dois países dizerem ‘estamos de acordo em discordar’. É um sinal de fim de diálogo sem ser o princípio de uma guerra”, explica a académica canadiana.

“É também este o espírito dos muros entre as duas Coreias e entre o Norte e o Sul de Chipre. Já o muro na fronteira da Índia com o Bangladesh faz parte da tendência que agora vemos na Europa e nos EUA. O objetivo é prevenir a imigração, a entrada de indivíduos que o discurso dominante define como indesejáveis.”

São muros que “funcionam apenas parcialmente”, porque, muitas vezes, “os números apontados pelos governos são geograficamente limitados (à área do muro) e não têm em conta as estratégias [dos migrantes] para encontrar rotas alternativas, nem o facto de, apesar das restrições, os muros continuarem a ser escalados e atravessados.”

Uma parte da Grande Muralha da China, construída e reconstruída ao longo de séculos para (em vão) travar invasores vindos do Norte
© Kevin Frayer | Getty Images | The New York Times

O problema, adianta a diretora do projeto de investigação Borders in Globalization, é que os governos que fortificam fronteiras “assumem que a migração é um luxo” e que os migrantes têm outras opções. “Isso não é verdade! Poucos correriam o risco de morrer se pudessem ficar nos seus países. Os muros são uma solução falsa.”

Élisabeth Vallet recomenda que, em vez de “muros faraónicos”, que apenas criam “mercados lucrativos para complexos industriais-militares”, se invista “na manutenção da paz e na criação de um sistema de segurança humano para enfrentar os grandes movimentos migratórios, a escassez alimentar e as mudanças climáticas” – as quais, segundo especialistas, poderão desalojar “pelo menos 200 milhões de pessoas até 2050”.

O Muro de Berlim manteve-se de pé durante 10 316 dias. Será que os novos muros estão, também, condenados a desaparecer? “A ordem mundial parece redefinir-se a cada década que passa, por isso, é difícil determinar como é que as placas tectónicas das relações internacionais se vão realinhar nos próximos anos”, responde a professora no Quebeque. “Mas é óbvio que os novos muros acabarão por cair. Quando, não sabemos. Como, também não.”

Élisabeth Vallet, co-autora de Borders, Fences and Walls: State of Insecurity
© John Mahoney | Montreal Gazette

David Frye, autor de Walls: A History of Civilization in Blood and Brick
© easternct.edu

O tempo em que “um muro era melhor do que uma guerra”

As condições para a construção do Muro de Berlim começaram a ser criadas nos últimos meses da II Guerra Mundial, ganha em 1945 por inimigos naturais que se haviam aliado para derrotar Hitler.

A guerra matou um milhão e meio de berlinenses. Assim que acabou, os soviéticos – na altura os únicos ocupantes da capital alemã – começaram a pilhar todo o equipamento industrial pesado e a enviá-lo para a URSS. A cidade não conseguia praticamente sustentar-se a si própria, e uma “Guerra Fria” começou quase de imediato.

Vários tratados já haviam determinado o futuro de Berlim: seria dividida em quatro setores cada um deles administrado por representantes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética. Segundo estes acordos, toda a cidade, incluindo os setores ocidentais, ficaria em território da Alemanha de Leste controlado pela URSS. Era um plano impossível que só podia causar atritos.

Em 1946, os russos vetaram as primeiras eleições livres após a derrota nazi. Dois anos depois, adotaram uma estratégia ainda mais extrema, tentando matar à fome os aliados em Berlim. O bloqueio que impuseram podia ter provocado uma guerra, se as potências ocidentais não estivessem cansadas de lutar.

Durante quase um ano, as áreas controladas por americanos, britânicos e franceses subsistiram como se fossem uma ilha, abastecida apenas por via aérea. Assim nasceu uma nova cidade: Berlim Ocidental, que se tornaria no “ponto mais vulnerável” entre o Leste e Oeste da Europa.

Soldados americanos em Friedrichstrasse, nas proximidades do Checkpoint Charlie, quando o muro começou a ser construído em Berlim, em Agosto de 1961
© Don McCullin | Press Images | LUZphoto | TIME

Em 1 de dezembro de 1946, ergueu-se uma “Cortina de Ferro”, feita de cimento, arame farpado, alarmes, torres de vigia e vedação elétrica, que se estendia ao longo de 1400 km entre a Alemanha de Leste e a Alemanha Ocidental, e também entre a Hungria e a Áustria.

Em maio de 1952, Estaline delimitou as fronteiras da Guerra Fria, que, em 1959, já eram controladas por dezenas de milhares de guardas. A primeira Cortina de Ferro tinha, porém, um “defeito”: em Berlim, onde havia ainda livre circulação entre os sectores oriental e ocidental, era fácil aos alemães de Leste um passaporte para a liberdade.

Em 1961, o número de pessoas que fugiam para Oeste já ultrapassava os cinco milhões. O êxodo deixou o Leste com cada vez menos trabalhadores qualificados e agravou as dificuldades económicas. Nem a venda pelos soviéticos de mais de 50 toneladas de ouro para fazer face a esta perda de capital humano abrandou a corrente migratória.

No final de 1958, um frustrado Nikita Krutchov, sucessor de Estaline na liderança da URSS, decidiu apertar “os testículos do Ocidente”, como ele descrevia Berlim. Exigiu às potências ocidentais uma retirada total, anunciando a intenção de assinar um tratado separado com a Alemanha de Leste, o que, na prática, permitiria a Moscovo controlar todos os acessos a Berlim Ocidental.

Numa era já atómica – os EUA testaram a primeira bomba em 1945, a Rússia em 1949, a Grã-Bretanha em 1952 e a França em 1960 –, as palavras de Krutchov foram entendidas como uma ameaça de guerra nuclear. Em 1961, incapaz de conter a fuga de alemães do Leste para o Oeste e com um inexperiente John F. Kennedy na Casa Branca, o irascível senhor do Kremlin decidiu dar ouvidos a Walter Ulbricht, líder da Alemanha de Leste, que tinha vários conselhos para forçar a “rendição” das potências ocidentais.

Um alemão em Berlim Ocidental espreita por uma brecha no Muro de Berlim em construção, em Novembro de 1961
© Don McCullin | Press Images | LUZphoto | TIME

Em março de 1961, Ulbricht ordenara ao seu “número de dois”, Erik Honecker, que armazenasse arame farpado e blocos de cimento armado para construir uma gigantesca barreira à volta de Berlim Ocidental. Ideólogo formado na Escola Internacional Lenine em Moscovo, Honecker já sonhava com um muro desde 1953, quando uma revolta operária levou à fuga de jovens comunistas.

As tensões agravaram-se a partir de junho de 1961, sobretudo depois de uma cimeira entre Kennedy e Krutchov ter “corrido muito mal” para o presidente dos EUA, como ele próprio confessou. O líder soviético começou a falar em “libertar” Berlim Ocidental. Ulbricht exprimiu o desejo de a “estrangular”.

Em 25 de julho, Kennedy falou ao país pela televisão: “Não podemos permitir que os comunistas nos expulsem de Berlim, seja gradualmente ou pela força.” Depois de ler a transcrição do discurso (só no ano seguinte a Telstar tornaria possível as transmissões por satélite), Krutchov teve um ataque de fúria. Ameaçou com uma resposta “termonuclear”, segundo um diplomata americano. Uma semana depois convocava uma reunião de líderes do Pacto de Varsóvia para 3-5 de agosto, em Moscovo.

No entanto, de todos os conselhos que Ulbricht lhe dera – desde cortar os acessos ao aeroporto de Berlim Ocidental com balões gigantes até bloquear os canais de comunicação usados pelos controladores aéreos –, Krutchov só aceitou um; isolar Berlim Ocidental com arame farpado.

E foi isso que começou a ser feito por polícias e soldados do Leste em 13 de agosto de 1961, um domingo, depois de um telefonema de Erich Honecker para o exército na noite anterior.

No último dia antes de a vedação ficar concluída, mais de 2500 pessoas fugiram do Leste – em 23 de agosto, a fronteira seria completamente fechada.

Junto ao sector francês do Muro de Berlim, uma família da RFA despede-se dos entes queridos na RDA, em Novembro de 1961
© Don McCullin | Press Images | LUZphoto | TIME

Em Washington, pressentindo o início do fim da crise, Kennedy comentou: A wall is a hell of a lot better than a war (“Um muro é muito melhor do que uma guerra”).

A vedação tornar-se-ia, posteriormente, um verdadeiro muro de cimento, com cerca de 155 km de comprimento e quase 4 metros de altura. Em constante renovação, sobretudo a partir de 1979, cruzava 24 km de rios, 20 km de bosques e mais de 37 km de áreas residenciais. Interrompia o trajeto de 32 linhas férreas urbanas, quatro de metro, 3 autoestradas e 192 ruas e avenidas, entre Berlim Leste e Berlim Ocidental e entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA).

O interior do Berliner Mauerweg era formado por cabos de aço para maior resistência. Acompanhava-o uma “faixa da morte”, constituída por um fosso, gradeamentos e cercas elétricas, sistemas de alarme, 302 torres de vigia, 20 bunkers e uma faixa rodoviária por onde circulavam, 24h por dia, veículos militares, cães-polícia e soldados munidos de armas automáticas com ordens para atirar a matar.

A primeira vítima, em 17 de agosto de 1962, foi Peter Fechter, um jovem alemão de 18 anos, alvejado quando tentou escalar o muro. A última, em 2 de junho de 1989, foi Chris Gueffroy, de 20 anos.

Em 28 anos de existência deste “muro da vergonha”, mais de 500 pessoas conseguiram escapar ilesas, cerca de 3200 foram presas, mais de 160 perderam a vida e outras 120 ficaram feridas.

John F. Kennedy e Nikita Krutchov numa cimeira em Viena, em Junho de 1961. No mês seguinte, o presidente americano falou ao país pela televisão: “Não podemos permitir que os comunistas nos expulsem de Berlim, seja gradualmente ou pela força.” Depois de ler a transcrição do discurso (só no ano seguinte a Telstar tornaria possível as transmissões por satélite), o líder soviético teve um ataque de fúria. Ameaçou com uma resposta “termonuclear”
© Corbis | Gerry Images | history.com

Fontes:

Walls: A History of Civilization in Blood and Brick, de David Frye; Berlin Wall Memorial

Este artigo foi publicado originalmente num edição especial da revista SÁBADO, em Novembro de 2019 | This article was originally published in a special edition of the Portuguese news magazine SÁBADO, on November 2019

 

“Há muita amargura e ressentimento no Leste da Alemanha, 30 anos após a queda do Muro de Berlim”

A única barreira erguida para conter a emigração e não a imigração, oficialmente designada “Antifaschitischer Schutzwall” ou Muralha de Proteção Antifascista, manteve-se de pé exatamente 28 anos, dois meses e 26 dias. Desde 16 de agosto de 1961 até 9 de novembro de 1989. A sua construção, ao dividir uma cidade, um país e um continente, definiu uma nova ordem mundial. O seu surpreendente colapso – “grande e glorioso acontecimento” – representou “o fim de um mundo simples e bipolar” e o início de outro “muito mais complicado”, diz-me o académico americano A. James McAdams, que é um dos maiores especialistas na Alemanha. Três décadas depois de cair a Cortina de Ferro e acabar a Guerra Fria, “o nosso desejo de voltar à simplicidade” do passado “está a alimentar o populismo da extrema-direita” – incluindo na antiga RDA – “e a criar novos muros”, ainda que muitos deles “sejam apenas mentais”. (Ler mais | Read more...)

1961: Operários da RDA erguem uma secção do Muro de Berlim, vigiados pela polícia da RFA
© Agence France-Presse | The New York Times

A. James McAdams é professor de Relações Internacionais e História Política na Universidade de Notre Dame, em Indiana (EUA), onde também dirigiu, entre 2002 e 2018, o Nanovic Institute for European Studies. Especialista em política alemã e europeia e no estudo comparativo do comunismo, é autor de vários livros considerados de referência: East Germany and Detente; Germany Divided: from the Wall to Reunification: Judging the Past in Unified Germany, Transitional Justice and Rule of Law in New Democracies; Crisis of Modern Times. A sua obra mais recente e que tem igualmente merecido críticas elogiosas, Vanguard of the Revolution: The Global Idea of the Communist Party, é o resultado de três décadas de investigação sobre “regimes ditatoriais que sempre [o] fascinaram” desde que, em 1973, fez a sua primeira “viagem existencial” a Berlim Leste, atravessando o muro que dividia a cidade. Deu-me esta entrevista por telefone.

A primeira vez que o professor atravessou a fronteira da República Federal da Alemanha (RFA) para a República Democrática da Alemanha (RDA), era um jovem de 18 anos que estudava e vivia em Berlim Ocidental. Que memórias guarda desse tempo?

Eu fui para Berlim Ocidental porque queria estudar alemão e assim poder ler filosofia. Por isso fiz cursos na Universidade Livre de Berlim, que ficava em Berlim Ocidental. O melhor desta minha experiência foi mesmo ir de Berlim Ocidental para Berlim Leste. Comecei a fazer isso numa base regular, e o impacto, para mim, foi profundo. Foi como viajar de uma cultura para outra totalmente diferente. De um modo de vida para outro completamente distinto. Viajar de uma cidade para outra é sempre um desafio. Neste caso, foi um puzzle.

Foi difícil ir de um setor da cidade para o outro?

Não foi difícil, porque eles [em Berlim Leste] tinham acabado de instaurar um novo sistema de vistos. Na altura, creio que se pagava cinco marcos da RFA, que depois nos obrigavam a trocar por marcos da RDA. Muitas vezes isso era um problema, porque aqueles cinco marcos equivaliam a uma grande quantia em Berlim Leste, e eu nunca sabia o que comprar com tanto dinheiro.

Viajava sempre sozinho?

Sim. Eu era e sou muito curioso.

Não tinha medo?

Não, embora naquela altura, até no metro houvesse muitos tipos com metralhadoras, cães-polícia, etc… Uma vez, esqueci-me que levava comigo uns ensaios em alemão, que tinha escrito para as minhas aulas e eram bastante críticos da RDA.

Quando entrei naquela terra-de-ninguém que separava o Oeste e o Leste, um dos guardas fronteiriços exigiu ler os meus ensaios. E ficou muito chateado. Colocou-me numa sala isolada com um polícia que se mostrou bastante desagradável comigo. Queria saber o que eu fazia, se estava envolvido em contrabando, se tinha literatura de dissidentes…

Ele acabou por se ir embora e foi substituído por um tipo simpático, de fato e gravata. Creio que era membro da polícia secreta, a Stasi [Ministerium für Staatssicherheit, SSD, ou Ministério da Segurança do Estado]. Na opinião dele, eu tinha escrito aqueles ensaios obrigado por capitalistas em Berlim Ocidental e não passava de um americano ingénuo.

Foi divertido como tudo acabou. Amigavelmente, ele foi recolhendo todas as informações que pretendia. Acho que foi assim que a Stasi iniciou um ficheiro sobre as minhas atividades, naquele dia e nas décadas seguintes.

Agosto de 1961: Manifestação contra a construção do Muro de Berlim
© Terry Fincher / Mirrorpix | Getty Images | The New York Times

Voltemos à atmosfera que encontrou em Berlim Leste quando lá entrou pela primeira vez, e que chegou a comparar a uma “anti-Disneylândia”.

Em 1973, Berlim Ocidental era um lugar com muita vida, onde havia tudo, lojas chiques, edifícios muito elegantes. Em Berlim Leste, pelo contrário, a maioria dos edifícios nem sequer tinham sido reconstruídos desde o fim da guerra [em 1945]. Estavam ainda esburacados pelas bombas. Porque não havia dinheiro suficiente para reparações. O dinheiro era aplicado noutras coisas. É claro que os soviéticos basicamente roubaram muitos dos recursos da RDA.

Outra coisa que me impressionou: as pessoas usavam roupas modestas, praticamente do mesmo modelo e com as mesmas cores escuras. Toda a gente parecia muito mais cansada do que em Berlim Ocidental. Porque tinham de trabalhar imenso! No entanto, não pareciam infelizes. Eram apenas diferentes.

Em 1973, não era nada habitual ver por ali americanos. Os Estados Unidos tinham acabado de estabelecer relações com a RDA e abriram uma missão diplomática em Berlim Leste. As pessoas olhavam-me com desconfiança e evitavam falar comigo. Talvez porque receavam que isso as deixasse em apuros. Gradualmente, porém, fui criando amizades, porque as minhas visitas se foram tornando regulares.

Foi assim que conseguiu quebrar o que chamou de “código de silêncio” dos académicos na RDA?

Nos Estados Unidos, conheci muitos académicos da Alemanha de Leste. Quando voltei a Berlim Ocidental em 1981 e 1982, comecei a contactá-los. Eles mostraram-se curiosos a meu respeito. Provavelmente alguns deles eram membros ou informadores da Stasi. Comecei a reunir-me com eles, e era natural que uns e outros tivessem interesse em partilhar comigo a sua narrativa.

Em 1987, vivia eu em Bona, fiz centenas de entrevistas a parlamentares e outras personalidades importantes da Alemanha Federal. Eu tinha a perspetiva deste lado, por isso, quando ia Berlim Leste, dizia: “Deem-me a vossa perspetiva”. Na primavera de 1988, a minha estadia mais longa em Berlim Leste, foram-me facilitados contactos incríveis de pessoas com quem ninguém no Ocidente jamais havia falado.

Por que é confiavam mais em si, sendo americano, do que nos alemães da RFA?

Os alemães do ocidente eram considerados “o inimigo principal”, porque, até 1989, clamavam ser os únicos representantes de toda a Alemanha. Os EUA, pelo contrário, eram apenas uma superpotência, e na Alemanha de Leste queriam ter acesso a académicos e políticos americanos para os poder influenciar.

Naquela altura, eu era professor na Universidade de Princeton e conhecia muitas pessoas na Administração americana e no Departamento de Estado que eram responsáveis pelas políticas para a RDA e o bloco soviético.

Em Berlim Leste, achavam que eu os poderia ajudar. Não os ajudei, mas ouvi-os. Tive em conta as suas narrativas, mesmo que discordasse abertamente deles em muitas questões importantes. Mas, com o tempo, fui conquistado suficiente confiança e eles convenceram-se de que não me centraria apenas nos aspetos negativos.

Tive sorte, porque fui o único cientista político ocidental que conseguiu fazer isto nos anos 1980. Não havia nenhum alemão da RFA capaz de viver em Berlim Leste naquela altura. Eu e a minha família [a mulher e dois filhos] vivemos aqui em 1988. E eu depois vivi sozinho na primavera de 1989. Isto era completamente invulgar.

Novembro de 1961: Com a Porta de Brandemburgo envolta em neblina, um homem olha para o recém-erguido muro que dividiu Berlim
© Heinrich Sanden Sr. | AP | RFL

Apesar de todas estas visitas, conversas e relacionamentos, a queda do Muro de Berlim em 1989 foi, para si, uma enorme surpresa…

… é importante reconhecer que foi uma surpresa para toda a gente! Foi uma surpresa para os Estados Unidos, para os líderes da RDA, para a União Soviética. Enquanto o muro estivesse de pé, ninguém imaginava o que aconteceria se ele fosse destruído. O Governo da Alemanha de Leste esperava que, mesmo derrubado o Muro, as pessoas não se iriam embora porque amavam demasiado o seu país. Tudo era imprevisível.

O que é que mudou?

Bem, Mikhail Gorbatchov chegou ao poder na União Soviética em 1985 e fez muitas promessas de reforma. Gorbatchov era um comunista que queria reforçar, não acabar com o comunismo! No entanto, sem querer, acabou por lançar as bases do que viria a acontecer na Alemanha.

Se Gorbatchov não tivesse iniciado reformas na URSS, o colapso da RDA teria demorado muitíssimo mais tempo. Ou, ainda mais importante: se Gorbatchov não tivesse iniciado as suas reformas, muito possivelmente qualquer manifestação popular na RDA teria sido esmagada pelas tropas soviéticas e alemãs do Leste. Teria sido uma enorme tragédia.

Trinta anos depois, já podemos responder às perguntas “como” e “porquê” aconteceu a queda do Muro?

Em retrospetiva, é sempre mais fácil perceber os vários fatores. Nos anos 1970 e 1980, era evidente que a economia da Alemanha de Leste não podia competir com a economia da Alemanha Ocidental, mesmo que os residentes da RDA vivessem melhor do que os da Polónia, por exemplo. Havia muitos problemas económicos. Toda a gente tinha consciência disso, mas ninguém imaginava possíveis os acontecimentos subsequentes.

Por outro lado, havia muitos dissidentes, corajosos e admiráveis, que desafiaram o governo. Eram, porém, um grupo muito, muito pequeno de pessoas. Não tinham qualquer possibilidade de impor mudanças. Eles protestavam e depois a reação habitual era: se fossem jovens estudantes, perdiam o lugar nas universidades; se fossem trabalhadores, perdiam os empregos. Os mais ativos acabavam na prisão ou eram expulsos do país.

A economia foi um fator importante. Os dissidentes foram outro fator. Mas a realidade é que quem realmente mudou tudo foi Gorbatchov. Porque abriu a possibilidade de reformar o socialismo. Ele apresentou ideias que pareciam atraentes, porque inicialmente pareciam apenas reformas económicas, e com isso encorajou muitas elites comunistas em todo o bloco soviético.

Muitas pessoas, naquela época, olharam para Gorbatchov como a esperança de que o comunismo poderia ser revitalizado. Não nos podemos esquecer que eram as elites quem detinha o poder. Elas controlavam tudo, e não abandonariam o poder voluntariamente, só porque as pessoas protestavam nas ruas. No entanto, Gorbatchov fez com que as elites se questionassem a si próprias.

Muita gente que eu conhecia começou a interrogar-se: será que estas mudanças [na URSS] resultarão também no nosso país? E também perguntavam: Se as pessoas continuarem a protestar, poderemos nós ripostar e correr o risco de uma guerra civil? Isto foi em 1988-1989. Ninguém tinha respostas. Nem sequer Gorbatchov.

Na RDA, algumas pessoas no regime resistiam e opunham-se a mudanças. “As reformas de Gorbatchov não se aplicam a nós”, diziam. Muitos dos que pertenciam às elites, ou eram quadros médios do partido e até agentes da polícia secreta reagiram indignados à decisão do governo de não empreender reformas. Mas o acontecimento que seria crucial foi a abertura do Muro de Berlim.

1961: Uma funcionária dos correios recolhe a correspondência em Karl-Marx-Allee. Caixas postais públicas como esta eram um dos locais favoritos da polícia secreta comunista, que furtivamente aqui tirava fotografias para controlar o que era enviado e para quem
© Gyula Nagy | Fortepan | RFL

Podemos situar isso no tempo?

Isto começou, de certa maneira, em agosto de 1989, porque algumas pessoas na RDA perceberam que, se fossem passar férias à Checoslováquia ou à Hungria, talvez pudessem encontrar meios de entrar no Ocidente. Na Hungria, onde já estavam em marcha reformas significativas, as autoridades decidiram não mais controlar a fronteira.

Porquê?

Porque as pessoas na Hungria tinham perdido a confiança no seu governo e muitos reformistas já estavam no poder, depois de eleições relativamente abertas. Esses novos líderes perguntavam: por que havemos de nos preocupar com os alemães do Leste?

Sem medirem as consequências – toda a gente ignorava as consequências! –, no verão de 1989, decidiram, pura e simplesmente, que os guardas fronteiriços deixariam de disparar sobre quem tentasse ir para o Oeste.

Na Alemanha de Leste, ansiosas por partir, milhares de pessoas começaram a passar férias em países como a Hungria. Mas, muitos milhares de outras decidiram ficar no seu país e lutar por reformas.

Em outubro de 1989, começaram manifestações na RDA. De início, a polícia fazia detenções, só que os manifestantes eram cada vez mais que se tornou impossível deter toda a gente. Todas as segundas-feiras as pessoas saíam à rua e protestavam contra o governo.

Outubro de 1989 foi quando o professor voltou a Berlim Leste…

Sim, quando aqui cheguei, havia manifestações por toda parte. Parecia que se instalara o caos. Mas, mesmo nesta altura, ninguém que eu conhecia, dentro e fora do partido, imaginava que o seu país estaria prestes a desaparecer. E muito menos ninguém imaginava que haveria reunificação das duas Alemanhas. As pessoas na RDA não tinham interesse na reunificação. Nem os alemães na RFA.

Não?

Não, porque ninguém imaginava, antes da queda do Muro, que a reunificação fosse possível. Sei isso porque entrevistei muitos alemães na RFA. Quando lhes perguntava quais as possibilidades de reunificação, eles respondiam-me: “Seria bom, mas isso vai demorar muito, muito tempo. Não temos planos para isso.” No entanto, à medida que iam chegando à Alemanha Ocidental mais e mais pessoas do Leste, os responsáveis na RFA ficaram com um problema e interrogaram-se: “O que vamos fazer com tanta gente?”.

Os alemães do Leste não pensavam ainda em reunificação. Só queriam mudar-se para o Oeste. Isso deixou o governo em Bona muito confuso. Nesta altura, já admitia a ideia de reunificação, mas a decisão foi: “Temos de abrandar este processo. Porque é demasiado complicado.”

Não nos podemos esquecer que, em outubro de 1989, ainda havia a possibilidade de uma ação militar da União Soviética na RDA. Havia pessoas em Berlim Leste e em Moscovo que queriam que os soviéticos interviessem e que as tropas da Alemanha de Leste lutassem contra o seu próprio povo.

A maior preocupação na RFA era evitar tudo o que pudesse gerar violência. Só que, em Moscovo, Gorbatchov já tinha decidido que a URSS não interviria.

Gorbatchov terá dito nessa altura aos líderes da RDA que eles tinham de escolher entre permanecer no passado ou avançar para o futuro…

…. sim, isso foi em outubro de 1989, e os líderes da Alemanha de Leste ficaram furiosos. Gorbatchov foi assistir às comemorações do 40º aniversário da fundação da RDA e disse a Erich Honecker, na altura o líder do Partido [da Unidade Socialista, SED]: “A História castigará aqueles que se atrasarem”. Ou seja, se não aceitarem reformas agora, vão ter sarilhos. Só que este aviso ainda deixou o governo em Berlim Leste mais determinado em recusar mudanças.

É claro que nada disto era importante. O episódio crucial foi a abertura do Muro de Berlim. Isso mudou tudo! A pessoa responsável pela abertura acidental do Muro foi um tipo chamado Günter Schabowski [1929-2015]. E eu conheci-o pessoalmente.

Agosto de 1961: Separadas por arame farpado, duas mulheres conversam em Berlim Leste
© Patrice Habans | Paris Match | Getty Images | The New York Times

Conte-nos como o conheceu…

No Politburo do partido, ele era um tipo com uma certa importância, embora não tanto como a de Erik Honecker. Era esperto e procurava uma chance de subir na hierarquia. Quando começaram as manifestações em Berlim Leste, em outubro de 1989, Günter Schabowski foi um dia discursar à varanda do Comité Central [de que era o porta-voz]. Prometeu que seria um grande reformador, mas os manifestantes que o ouviam basicamente riram-se dele….

No final de outubro, graças aos meus contactos na cidade, tive oportunidade de me encontrar com Schabowski. Fui ter com ele à sede do Comité Central e, misteriosamente, também apareceu por lá o embaixador dos Estados Unidos. Não sei como… Naquele encontro, Schabowski revelou-se tão orgulhoso de si mesmo, dizendo que amava Gorbatchov, que iria reformar a Alemanha de Leste e que tudo ficaria melhor. Era tudo fanfarronice.

Quando eu e o embaixador descíamos a escadas, já de saída, aproximou-se de nós o assistente pessoal de Schabowski. Abraçou-nos e murmurou: “Esta gente não faz a mínima ideia do que se está a passar lá fora.”

O governo [de Egon Krenz, que sucedeu a Honecker na liderança do partido] estava, naquela altura, a preparar legislação que facilitasse a concessão de mais vistos para entrada em Berlim Ocidental. O objetivo principal era estancar o êxodo através da Hungria. Ainda não havia bem um plano concreto. Era apenas uma ideia.

Na tarde de 9 de novembro de 1989, uma semana e meia depois do nosso encontro, Schabowski deu uma conferência de imprensa [onde estavam presentes vários media internacionais, para ler um decreto que recebera de Krenz, autorizando formalmente que os alemães do Leste se deslocassem “sem condições prévias” à RFA]. Um jornalista [Peter Brinkmann, do jornal Bild, interrompeu a leitura e] perguntou quando é que a nova lei entraria em vigor. Schabowski, todo ufano, respondeu: “Imediatamente, sem demora!”

E, imediatamente, muitos acorreram ao Muro, concentrando-se no posto fronteiriço que separava Berlim Oriental e Berlim Ocidental. Perplexos, desorientados, os guardas não sabiam como agir. “Schabowski consentiu e nós queremos ir para Berlim Ocidental”, insistiam as pessoas. Os guardas cederam: “OK, se é isto o que os líderes querem, então passem”. O que, inicialmente, era um pequeno grupo, tornou-se num ápice uma enorme multidão. E foram eles que abriram o Muro de Berlim.

[Günter Schabowski perdeu o cargo e também a casa em Waldsiedlung (Colónia do Bosque), espécie de condomínio de 23 moradias unifamiliares, onde, em 1958, Honecker mandara erguer um muro de 5 km de diâmetro e dois metros de altura, com torres de vigia operando 24h por dia.

Em 1977, Schabowski foi condenado a três anos de prisão (só cumpriu um), por ter participado numa outra conferência, a que autorizou a polícia fronteiriça a disparar sobre os cidadãos que procuravam fugir do país. Foi o único dirigente que reconheceu a sua culpa e pediu perdão aos familiares das vítimas: “Como protagonista dessa visão do mundo, sinto-me envergonhado e arrependido.”]

1962: Crianças fingindo que estão a construir um muro em Berlim Ocidental
© Raymond Depardon | Magnum Photos | The New York Times

Quando o professor ouviu a notícia da queda do Muro, qual foi a sua reação?

Fiquei totalmente em estado de choque. Um escritor famoso da Alemanha Ocidental, Peter Schneider, que na altura dava aulas nos EUA e escreveu um romance sobre o Muro de Berlim [O Saltador do Muro, Ed. Cotovia], perguntou-me: ‘Jim, o que achas disto? O que significa isto?’

E eu disse: “Não faço a mínima ideia!” [Terá sido esse também o sentimento de Peter Wyden, jornalista americano nascido em Berlim, correspondente da Newsweek, quando, no final de 1989, terminou Wall: The inside Story of Divided Berlin, uma obra de 762 páginas que já era obsoleta antes de chegar às livrarias.]

A realidade é que ninguém sabia. A única certeza, naquele momento, era a de que quem vivia em Berlim Leste podia agora entrar livremente em Berlim Ocidental. As pessoas ficaram a saber – e precisaram de saber – que não seriam castigadas se atravessassem a fronteira.

Não se pode dizer que a Alemanha de Leste mergulhou no caos, mas tornou-se num país quase sem regras. Quando voltei em 1990, para as primeiras eleições, em março, as pessoas estacionavam onde lhes apetecia. No meio da estrada. Em cima dos passeios. Não havia polícia nas ruas… Tinham ido para casa. Uma coisa é certa, antes de o Muro cair, a Stasi já havia decidido que não mais iria disparar sobre quem queria partir para o outro lado.

Porquê?

Porque muitos dos manifestantes que estavam a ser detidos eram filhos dos líderes do país. Isto tornou-se um problema grave. “Queremos ver os nossos filhos na prisão?” A resposta era fácil: “Não, não queremos, porque amamos os nossos filhos, mesmo que eles protestem contra o nosso governo.” E isto, entre setembro e outubro, foi extremamente importante.

Como é que sabe que os filhos das elites protestavam?

Pessoas do governo em Berlim Leste disseram-me que os filhos de importantes dirigentes tinham sido detidos durante a visita de Gorbatchov, em 7 de outubro de 1989, no 40º aniversário da fundação da RDA. Quando esses jovens e centenas de outros foram capturados pela polícia, os agentes não sabiam como agir – eram muitos. Colocaram-nos num armazém. Terão sido libertados, dias depois, porque os pais intervieram.

No exército, na polícia secreta, no partido, muitos se interrogaram: “Vale a pena resistir?” Porque, naquela altura, repito, havia gente no Politburo e entre os militares da RDA e da URSS que ponderava usar a força para esmagar as manifestações.

Esta é uma das razões por que pessoas como eu nunca consideraram possível a abertura do Muro de Berlim. Eu achava que os soviéticos iriam usar da força. A Administração americana e o Governo da RFA também receavam isso, porque conduziria a uma guerra civil.

Só que, em vez de guerra civil, houve reunificação.

Sim. Quando se abriu o Muro de Berlim, a primeira pergunta dos alemães do Oeste foi: “O que fazemos com todas estas pessoas? A Constituição obriga-nos a cuidar de todos, porque são alemães.” Depois veio a pergunta seguinte: “Queremos a reunificação de toda a Alemanha?” O problema é que tantas pessoas partiam para Oeste que havia o receio de a RDA perder toda a sua população.

Em novembro de 1989, Helmut Kohl apresentou um plano detalhado para a reunificação, mas esta não seria imediata. Em dezembro, quando se tornou claro que as pessoas dos dois lados do Muro se consideravam um só povo, a RFA começou a tentar controlar todo o processo, de modo a atrasá-lo.

O que se decidiu, então, foi criar um governo provisório na RDA. Em março de 1990, já eu estava de volta à Alemanha, realizaram-se eleições para esse governo. Surpreendentemente, a União Democrata-Cristã [ligada à CDU, de Kohl], que era uma espécie de “partido falso” em Berlim Leste, obteve resultados muito bons, ao contrário dos sociais-democratas.

Nada disto impediu a fuga de pessoas para a RFA e a reunificação teve de ser acelerada, em grande medida porque a moeda da Alemanha de Leste valia muito pouco, enquanto os marcos da Alemanha Ocidental eram muito valiosos na RDA.

As pessoas do Leste dificilmente poderiam comprar o que quer que fosse no Oeste, mas as da RFA podiam comprar tudo o que quisessem na RDA. Foi por isso que a Alemanha Ocidental decidiu permitir, até um certo limite, que os alemães do Leste tivessem acesso a marcos da RFA a uma taxa de 1 para 1. Não havia alternativa, e eu acho que foi uma boa decisão. Foi esta unificação económica que possibilitou a unificação política.

Havia ainda uma questão pendente que seria resolvida depois. A Alemanha, que não ganhou a guerra, continuava a ser um país ocupado. Não só nunca tinha sido assinado um tratado de paz, como quatro potências (EUA, França, Grã-Bretanha e União Soviética) permaneciam forças ocupantes em Berlim. Foi preciso chegar a um acordo entre todos para restaurar a soberania da Alemanha – um processo complicado.

1962: Homenagem, em Berlim Ocidental, a Peter Fechter, baleado por guardas fronteiriços da RDA quando tentou saltar o muro
© Wieczorek | ullstein bild | Getty Images | The New York Times

Neste processo complicado, como é que avalia o julgamento dos antigos dirigentes da RDA, um país onde a Stasi terá tido, entre 1950 e 1989, mais de 90 mil funcionários e cerca de meio milhão de “informadores” – ou seja, “um espião por casa 66 cidadãos”?

Depois da reunificação, a grande questão que se colocou na Alemanha, tal como em Portugal, em Espanha, na Grécia ou na América Latina, foi: “O que fazer com os ditadores?”

O que a RFA decidiu foi julgar seletivamente os envolvidos em atos de violência. Achei isso muito problemático. Não quiseram julgar informadores ou membros do partido, mas os que participaram nos assassínios das pessoas que tentavam escalar o muro.

Houve julgamentos de guardas fronteiriços e de alguns dirigentes do Politburo – os responsáveis pelos homicídios. Aplicou-se ao Leste a Lei Básica do Oeste. Muitos desses guardas foram punidos, apesar de estarem a apenas cumprir ordens. Quase todos os membros do Politburo também foram condenados em processos criminais, mas as suas penas não foram pesadas.

As centenas de milhares pessoas que foram informadores, altos funcionários do partido, agentes secretos tiveram um processo diferente, centrado na Função Pública. Na Alemanha, a Função Pública inclui todo o tipo de pessoas: militares, professores, cobradores de impostos, etc… Para este grupo enorme foram criadas comissões que avaliaram caso a caso se estas pessoas poderiam continuar a exercer as suas profissões. Foi uma tragédia para muitos dos despedidos.

Pior: os empregos perdidos no Leste foram depois ocupados por alemães que chegaram do Oeste e se aproveitaram da má sorte dos que foram castigados.

Não diria que tudo foi errado. Muitas coisas tinham mesmo de ser feitas. Lidar com o passado é muito complicado. A realidade é que a maneira como se procedeu na Alemanha afastou muitas pessoas.

Isso nota-se 30 anos depois. As narrativas históricas parecem estar a mudar. Enquanto Joachim Gauck, que foi presidente entre 2012 e 2017, dizia que “as massas na Alemanha de Leste [onde foi um destacado dissidente] se ergueram contra o opressor no seu desejo de liberdade”, o historiador Ilko-Sascha Kowalczuk disse agora, numa recente entrevista, que a revolução foi obra de “um pequeno grupo de ativistas” e não da maioria dos cidadãos, que “ficaram atrás das cortinas, à espera de ver o que iria acontecer”.

É mais complexo do que isso. Eu conheço bem, respeito e admiro muito Joachim Gauck. Os dissidentes desempenharam papéis heróicos. Foram muito corajosos. Mas não fizeram a revolução. E as massas nas ruas também não fizeram a revolução.

Houve um fator muito mais decisivo: as elites perderam a vontade de lutar. Desistiram de usar a força. Neste período, antes da queda do Muro e a reunificação, as elites acreditavam que ainda iriam desempenhar um papel importante na nova Alemanha.

A tragédia – e isto é importante para entender a situação atual – é que, assim que a Alemanha foi reunificada, os dissidentes perderam o interesse. A maioria desapareceu. Ainda hoje, os dissidentes não são levados a sério. Muitos deles não queriam sequer a unificação. A alguns só interessava reformar o socialismo – não abandonar o socialismo. Eram idealistas.

O novo governo alemão também não se interessou por eles. Lembro-me de, naquela altura, perguntar a razão de haver tão poucos alemães de Leste entre as mais destacadas figuras políticas do país reunificado. Alguns diziam-me: “Então, e Angela Merkel? E Joachim Gauck?” Sim eles são importantíssimos. Mas, a verdade é que são uma pequeníssima minoria. A maioria dos cargos principais eram e continuam ocupados por alemães ocidentais. Há muita amargura e ressentimento no Leste.

1963: Reencontro natalício de dois irmãos, quando, pela primeira vez desde a construção do muro, os habitantes de Berlim Ocidental foram autorizados a atravessar a fronteira para reverem familiares em Berlim Leste
© Ian Berry | Magnum Photos | The New York Times

Isso também se vê numa sondagem do Allensbach Institute divulgada em julho deste ano. Inquiridos sobre se a democracia é a melhor forma de governo, só 31% dos que vivem no Leste concordaram, contra 72% dos que vivem no Oeste. Em termos identitários, a fractura parece igualmente profunda: 71% dos alemães ocidentais descreveram-se simplesmente como “alemães; só 44% na antiga RDA se assumiu desse modo (47% dizem-se “alemães do Leste”). Será que a Alemanha continua a ser dois países, como perguntava recentemente o jornal The Washington Post?

Não iria tão longe. Acho que tudo isto é indicativo de que, quando a vida é mais dura numa parte do que noutra do país, a tendência das pessoas é identificarem-se de forma diferente. No caso do Leste, as pessoas queixam-se: “Nós somos diferentes, e estamos lixados porque vocês [do Oeste] se aproveitaram de nós”.

Nos anos 1990, o professor já havia constatado que os alemães do Leste se sentiam tratados pelos do Oeste como “cidadãos de segunda classe”. Esse sentimento persiste?

Sim, continua presente, mas por razões diferentes. Nos anos 1990, havia uma grande esperança de que a situação iria melhorar. E a vida melhorou, de certo modo, quando se pôde trocar um marco por outro marco, comprar um Mercedes ou uma boa casa…

Ao longo dos anos, porém, é cada vez mais incontestável que a Alemanha de Leste pagou o preço mais elevado pela reunificação. Hoje, é na Alemanha de Leste que se vê maior desemprego. É onde se vê os mais velhos, os que não tiveram possibilidade de se mudar para a RFA em 1989, em dificuldades porque as pensões de reforma não chegam para sobreviver. É também onde vivem os que não conseguiram educação superior e, portanto, não encontraram empregos no Oeste.

Muitos reconhecem que “a principal razão para a malaise atual” foi o êxodo de mais de 1,9 milhões de alemães de Leste. Filhos e netos, que eram os mais jovens e cultos, partiram e não voltaram. Um responsável social-democrata na Saxónia dizia recentemente ao diário Financial Times: “Quando perguntamos aos alemães no Oeste o que mudou para eles, respondem-nos: ‘Nada’; quando perguntamos aos do Leste, respondem-nos: ‘Tudo’”…

…sim, é verdade. Mas este não é um problema só da ex-RDA, mas também de outros antigos países comunistas. Por exemplo, muitos polacos emigraram para Inglaterra, Irlanda ou Escócia em busca de empregos. Deixaram para trás os que tinham menos educação.

A Polónia, por seu turno, criou imensas oportunidades para os ucranianos [que, a partir dos anos 1990, também começaram a emigrar para Portugal, onde hoje são a terceira maior comunidade estrageira – não apenas antigos camponeses e operários, mas também engenheiros, médicos, músicos, professores ou ex-militares].

Há, contudo, uma distinção importante a fazer: muitos dos que hoje protestam e apoiam a extrema-direita na Alemanha de Leste ainda não tinham nascido quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, e se deu a reunificação, em 1990. Desconhecem tudo o que aconteceu. E nada desse tempo lhes interessa.

Para as pessoas sem emprego ou educação, é gratificante, psicologicamente, acreditar no argumento de que “isto é tudo culpa da Alemanha Ocidental”. Talvez as suas vidas fossem melhores quando o Leste era comunista. Muitos dizem disso. A vida não era grande coisa na RDA, mas a comida era subsidiada, havia assistência médica…

O que hoje interessa aos líderes da extrema-direita que mobilizam manifestações não é a realidade, mas a metodologia. É muito tentador quando dizem: “Não somos alemães; somos alemães do Leste.” Ou quando dizem: “Nós somos os verdadeiros alemães, porque lutamos pela verdadeira Alemanha, e esta não é a que existe no Oeste.” É uma psicologia que atrai as pessoas que procuram um sentido para circunstâncias complexas.

1988: Um jogo de raquetes num dos principais bairros de Berlim Leste – Weissensee – no ano que precedeu a queda do muro
© Nelly Rau-Häring | Hatje Cantz | creativeboom.com

No entanto, a maior parte dos líderes da Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema-direita) são do Oeste. São eles que se aproveitam do sentimento de abandono e nostalgia no Leste, que exacerbam o medo da imigração, da globalização…

… os que estão a tentar aproveitar-se da situação fazem-no porque ambicionam o poder. Querem influenciar a política. Esta gente é extremamente egoísta. Quando olham para a Alemanha do Leste, veem uma oportunidade. No caso das pessoas na antiga RDA, não é bem ordem o que elas desejam. O que querem é um mundo sem mais mudanças. E a mudança que mais temem é a imigração.

A verdade, como se vê noutros países europeus, é que não precisamos de imigrantes para odiar os imigrantes. Há pessoas que nunca viram um refugiado, um muçulmano, mas dizem: “São eles os causadores dos meus problemas!” Ou então: “É a UE a causa dos meus problemas!”

Se somos jovens, temos um emprego mau, não temos educação e temos medo do futuro, é fácil sentirmo-nos atraídos por quem nos diz: “Não se preocupe, vamos resolver tudo e vocês ficarão bem.” As pessoas no Leste não foram, necessariamente, deixadas para trás, mas sentem-se assim.

Parece haver um sentimento de oportunidade perdida, não apenas na antiga RDA, mas também em países como a Hungria ou a Polónia que pertenceram igualmente ao bloco soviético, mas perderam o entusiasmo pela União Europeia e agora são governados por partidos de extrema-direita…

… bem, uma das razões para o que vemos hoje é que, de início, havia demasiado idealismo. As expectativas das pessoas eram elevadíssimas. E, além disso, algumas decisões que foram tomadas tiveram um custo muito elevado. Uma delas foi a privatização. Assim que vieram as pessoas do Oeste encorajar que fossem privatizadas empresas públicas, centenas de milhares de pessoas perderam os seus empregos. O Leste tornou-se, para o Oeste, uma oportunidade para ter matérias-primas e mão-de-obra baratas.

As oportunidades perdidas foram os erros cometidos no processo de democratização plena destes países. Também se calculou mal quanto tempo seria necessário para as condições de vida melhorarem.

Os Estados Unidos, por seu turno, são igualmente responsáveis pela situação atual. O seu maior erro foi a insistência na expansão da NATO. Muitos dos antigos países comunistas queriam fazer parte da Aliança Atlântica, por acreditarem que os EUA garantiriam a sua segurança. Para a Rússia, isso foi um gesto totalmente hostil. Hoje, enfrentamos um problema, porque os russos estão a manipular líderes e informação na Europa.

5 de Novembro 1989: Uma longa fila de carros da RDA na fronteira da Alemanha com a Checoslováquia, que seria aberta cinco dias depois
© Klaus Feix | EPA | euroactiv.com

A Rússia deveria ter sido incluída no “projeto europeu”?

Acho que a Rússia deveria ter tido uma maior participação. Um dos problemas do Ocidente, e não apenas dos EUA, é que na Europa Ocidental havia um sentimento de triunfalismo. Ganhámos a guerra. Democracia e capitalismo estão em marcha. Somos os vencedores e toda a gente nos deveria imitar.

Isso conduziu a um excesso de confiança e a políticas erradas. Havia também o sentimento de fim da História e de que tudo iria melhorar. Vemos agora que estavam criadas as condições para a desilusão, a frustração por promessas não cumpridas, a hostilidade e a fúria.

Isto ajuda a perceber por que é que, hoje em dia, assistimos na Europa de Leste ao crescimento do populismo. E este populismo no Leste, em particular na Hungria e na Polónia, não é bem como o do Ocidente, porque tem maiores implicações proletárias.

Como é que avalia o legado de Angela Merkel, a chanceler que veio do Leste e que se prepara para sair de cena após 25 anos como chanceler da Alemanha?

Angela Merkel é uma pessoa extraordinária! Liderou a Alemanha em tempos difíceis. Foi também muito corajosa na sua decisão de acolher um milhão de imigrantes. Muitos consideram que foi, talvez, um erro abrir as portas a tanta gente. Mas eu acho que foi uma decisão moral.

A Europa precisa destes exemplos. E a Alemanha tem sido uma grande força moral na Europa graças a Merkel. Não sei o que vai acontecer depois dela. Mas sei que tenho por ela grande estima.

Poderia Angela Merkel ter feito mais pela Alemanha de Leste ou não?

Acho que ela fez o que podia, oferecendo apoio financeiro ao Leste. Mas a verdade é que tem sido extremamente difícil reconstruir o país. É preciso ainda muito tempo. Os alemães do Oeste não podiam dizer aos do Leste para ficarem na RDA. Eu não critico Angela Merkel.

Também gosto de Joachim Gauck, com quem tive muitas conversas sobre filosofia. É um homem muito íntegro e foi um bom presidente. A Alemanha teve sorte em ter estes líderes do Leste.

Olhando para trás, vemos que, primeiro, toda a gente se surpreendeu; depois, todos eram muito idealistas; a seguir, ninguém sabia o que fazer. Hoje, a democracia liberal está em risco no Leste. Parece-me uma sequência lógica.

Novembro de 1989: Alemães de Berlim Ocidental escalam o muro para celebrar a queda da última cortina de ferro, perante o olhar impávido de soldados da RDA
© Hesse | ulstein bild | Getty Images | National Geographic

Em 1990, num ensaio que escreveu para o World Policy Journal e a que deu o título de “Um Obituário para o Muro de Berlim”, o professor perguntava: “Que epitáfio vão os historiadores escrever para o Muro de Berlim, daqui a dez ou vinte anos, quando refletirem sobre a sua queda? Será o fim do Muro (…) a prova do ponto de viragem por que todos ansiávamos desde que a cidade de Berlim foi brutalmente dividida (…) ou irão os historiadores referir-se a este período em que agora entramos como um tempo de indecisão fatídica e oportunidades perdidas?” Encontrou o epitáfio adequado?

Bem, o epitáfio acabou por ser muito mais complicado do que alguma vez podíamos imaginar. A queda do Muro expôs a nossa incapacidade de prever o que aconteceu, expôs a nossa falta de humildade e expôs os nossos limites em controlar desfechos políticos.

Gostaria de sublinhar isto, para que não haja dúvidas: a queda do Muro de Berlim foi um grande e glorioso acontecimento. Atravessei-o muitas, muitas vezes. Sei como ele era terrível.

A ordem europeia baseava-se no Muro de Berlim. Até 1989, esta ordem assentava no facto de que a última incerteza das relações Leste-Oeste seria resolvida com a construção do Muro. Porque, até então, os alemães de Leste partiam em massa para Berlim ocidental, de carro, de comboio, de avião…

Havia uma enorme tensão entre as duas superpotências no que dizia respeito a Berlim. Era uma situação muito assustadora. Por isso, quando o Muro foi erguido, tudo se estabilizou. Não era bom. Era horrível para as pessoas na Alemanha de Leste. Mas tornou-se a realidade que se julgava possível.

O Muro foi construído com base na ideia de que as duas superpotências tinham de se respeitar mutuamente. Num tempo de relativa estabilidade e imprevisibilidade, o Muro foi possível porque a Alemanha estava dividida. Não foi uma boa solução. O Muro era feio e temível, mas criou estabilidade. E não apenas estabilidade económica, política e militar, mas também uma certa estabilidade psicológica.

Uma das razões por que não foi possível prever a queda do Muro foi porque nas nossas mentes, nas mentes dos decisores políticos, o Muro de Berlim era uma realidade, era o modo em que mundo se organizou.

Quando escrevi o ‘obituário’ do Muro, pouco depois da sua queda, o meu argumento era o de que não se pode imaginar este tipo de transformação sem um impacto a longo prazo na vida das pessoas.

Em 1989, passámos de um mundo simples e bipolar, em que havia o Leste e Oeste, em que, na perspetiva ocidental, nós éramos os bons e eles os maus, para vivermos hoje num mundo muito mais complexo, que nós continuamos a tentar simplificar.

Isso é uma coisa natural, mas o problema é que a simplificação conduz a perigos extraordinários. Olhemos para o Brexit, o exemplo clássico da simplificação total do mundo. Vai causar-nos problemas enormes. Outro exemplo é o populismo, que tudo resume a “nós versus eles”; “caucasianos versus imigrantes”; “cristãos versus muçulmanos”…

Há uma tendência para simplificar tudo, mas o mundo atual é muito mais complicado. O nosso desejo pela simplicidade vai levar-nos a criar novos tipos de muros. Talvez só muros mentais… mas ainda assim muros. E um deles é o muro psicológico que nos separa da Rússia e vai ser tão difícil de desmantelar. Acho que vai ficar de pé durante muito tempo. Talvez o epitáfio para o Muro de Berlim seja este: “Um muro caiu, outros se levantam.”

E, no entanto, o soviético Mikhail Gorbatchov, que muito contribuiu para o colapso do Muro de Berlim, fez tudo para haver uma reconciliação com o Ocidente…

Sim, é uma pena. Hoje, os russos queixam-se de que Gorbatchov perdeu o seu império. Mas ele foi muito corajoso. Queria manter vivo o comunismo, mas era demasiado idealista. O que aconteceu com Gorbatchov tem sido o destino de muitos grandes homens e mulheres na História. São punidos pelas memórias e falsas memórias do passado.

Gorbatchov está a ser castigado, porque as pessoas dizem que ele deveria ter calculado melhor o que podia e não podia acontecer. Isso é ridículo, porque ninguém sabia o que iria acontecer. Foi uma surpresa total. Mas todas as revoluções são uma surpresa.

O comunismo suicidou-se e a democracia liberal corre risco de morte

© Ralph Gatti | AFP | Getty Images | boston.com

O seu livro mais recente, aclamado como “a primeira e mais profunda história política do Partido Comunista”, chama-se Vanguard of the Revolution: The Global Idea of the Communist Party. Quando é que começou a preparar esta obra e porquê?

Desde os meus tempos em Berlim Leste que comecei a interessar-me pelo comunismo. Eu que estudei filosofia e marxismo, perguntava a mim próprio: o que leva pessoas, por natureza, boas a cometer atos terríveis em nome de grande ideais? Os primeiros comunistas no século XIX, como se sabe, eram grandes idealistas. Acreditavam que a História avançaria numa direção de progresso.

Foi nos anos 1990 que comecei a interessar-me a sério pelos partidos comunistas. Por que é atraíam tantas pessoas e porque se mantinham elas fiéis? Apercebi-me de que nunca ninguém escrevera um livro sobre o partido comunista, uma organização com milhões e milhões de membros, que governou um terço do mundo e cujo principal representante era a União Soviética.

Comecei a escrever Vanguard of the Revolution há dez anos. Abrange um período de 150 anos [desde o Manifesto Comunista nos anos 1840 até à dissolução da URSS na década de 1990] e cerca de 40 países. E eu visitei a maioria deles, da Bielorrússia ao Vietname e outros. Eu falo dos partidos comunistas da Europa (infelizmente, não o de Portugal), da URSS, da Jugoslávia, da China, da Coreia do Norte, de Cuba…

Este é um livro sobre a vida e morte de um partido. É, de certo modo, uma espécie de autópsia. Respondo aqui a três perguntas: por que nasceu este partido, por que durou tanto tempo e por que morreu? O que digo aos meu alunos é que, hoje, também podemos fazer estas três perguntas sobre a democracia liberal. Porque é que formas políticas de governo não duram para sempre? Por que devemos assumir hoje que as democracias liberais existirão amanhã? É triste, mas é a realidade.

Berlim 1958: Uma estátua de Estaline, em bronze e com 5 metros de altura, nua rua que então se chamava Stalinallee (agora Karl-Marx-Allee). No âmbito de uma campanha de desestalinização soviética, a estátua foi removida e quebrada em pedaços durante uma operação furtiva pelas autoridades comunistas da RDA em 1961. Uma orelha do ditador foi escondida e agora está em exibição num café nas imediações
© Anna Gereb | Fortepan | RFL

Pode resumir as suas respostas às três perguntas que formulou sobre o partido comunista?

(Risos) Bem, eu escrevi 573 páginas… O Partido Comunista começou por ser um ideal revolucionário num contexto em que pequenos grupos de pessoas estavam dispostas a fazer sacrifícios por uma causa maior. Durou muito tempo por ser uma combinação de idealismo, força e produtividade. Ou seja, se pudermos mostrar às pessoas que as suas vidas melhoram, as pessoas mantêm-se a nosso lado. E morreu porque os líderes perderam completamente o idealismo e perderam a vontade de usar a força.

Já não há partidos comunistas idealistas, produtivos e determinados a usar a força?

Bem, a China e a Coreia do Norte há muito que deixaram de ser regimes de partidos comunistas. Há cerca de duas décadas que a Coreia do Norte mudou a sua Constituição, e já não se descreve como Estado comunista. Hoje, é um regime totalitário e brutal, dirigido por uma família carismática.

No caso da China, nos anos 1990, o partido começou a livrar-se de muitos dos seus princípios e características associados aos antigos ideais comunistas. Basicamente, o Partido Comunista Chinês converteu-se ao capitalismo. Hoje, assenta sobretudo em poder, riqueza e corrupção.

Reparem nos discursos de Xi Jinping, que eu li, e vão ver que ele não é um dirigente brilhante. Os seus discursos parecem legitimar o partido olhando para todo o lado. Ele cita Confúcio, evoca os primórdios da China, fala de comunismo – mas não muito, fala de nacionalismo, fala das ameaças do mundo exterior. Mas isto não é o que os partidos comunistas eram.

E Cuba?

Cuba é o exemplo de um país onde ainda há comunistas, mas toda a gente concorda que já não há idealismo e que a experiência falhou. Ainda existe uma atitude romântica para com Fidel Castro [1926-2016], mas isso tem a mais a ver com o passado, como é que Cuba se libertou do império colonial e, sobretudo, com a hostilidade para com os Estados Unidos.

Um dos maiores erros que os EUA continuam a cometer é não estabelecer relações diplomáticas plenas com Cuba. É um erro gigante. Porque se um governante em Cuba quiser justificar as despesas com a Defesa só tem de dizer: “Os EUA ameaçam-nos.” Se a economia está mal, a justificação é: “A culpa é dos EUA.”

Se houvesse relações entre Washington e Havana, tudo o que tem a ver com socialismo e o comunismo se desmoronaria, porque as pessoas anseiam por se juntar às suas famílias [nos EUA] – como aconteceu, de certa maneira, na Alemanha de Leste.

O que mantém a ilha de Cuba unida são os dirigentes do partido e os militares. É difícil dizer que Cuba ainda é um país comunista. Bem, Fidel Castro nunca gostou do Partido Comunista. Fidel Castro só se importava com ele mesmo. O partido apenas servia para o apoiar. Quando ele chegou ao poder, nem sequer era comunista.

O que eu digo no meu livro é: não assumam que por alguém dizer que é comunista, isso seja verdade. Olhem para a sua história, para as suas suas ações, para o que eram e o que são…

Hoje, o que eu vejo é que os partidos comunistas são apenas organizações ligadas a sindicatos, que são capazes de reivindicar melhores salários e melhores condições sociais e às vezes são suficientemente influentes para integrarem governos de coligação.

1973: Uma estátua de Lenine com 19 metros de altura adornava uma das praças de Berlim. Em 1991, o monumento, de granito rosa, foi demolido, cortado em pedaços e enterrado numa floresta.A cabeça da estátua seria desenterrada em 2015 para ser exposta num museu da cidade
© Vladimir Musaelyan | TASS | RFL

Quer dizer que o partido comunista foi morto pelo partido comunista?

Sim, o partido comunista suicidou-se. Queria permanecer no poder mas, sem querer, acabou por se matar.

Das três fases que refere para o comunismo, em qual delas está a democracia?

Creio que estamos na última fase da democracia liberal. Isto não quer dizer que a democracia irá desaparecer. Mas acho que algumas das suas características estão em perigo. Tribunais fortes, um sólido estado de direito, liberdade de imprensa, direitos humanos, tratar todas as pessoas como seres iguais… tudo isto está em risco, em particular nos Estados Unidos.

E também nos antigos Estados comunistas da Europa de Leste….

… sim, claro. E também nos países da Europa Ocidental! É muito triste. Talvez a democracia liberal recupere. Para isso é necessário haver partidos e políticos dispostos a aceitar compromissos e a falar uns com os outros.

O “pai” da democracia liberal foi [o filósofo britânico] John Stuart Mill [1806–1873]. O que ele dizia é que os partidos são complicados. Temos, por isso, de reconhecer que às vezes temos razão, outras vezes não, e outras ainda mudamos de opinião. Temos de ser capazes de discordar no que concerne a questões complicadas. O mundo não é simples, mas complicado.

Eu agora escrevo imenso sobre populismo e os intelectuais da nova direita. Os populistas não são fascistas. Surgem em democracias e querem livrar-se do liberalismo, por causa da sua associação com a igualdade de direitos e a tolerância.

Os populistas querem eleições só para chegar ao poder, mas sem valores. Acabarão provavelmente por renegar a democracia. Há outras formas misteriosas de governo que estão a emergir: as que controlam o acesso à Internet. Isto preocupa-me. Quando falo com os meus alunos sobre isto, termino sempre as aulas com uma nota de esperança. Porque temos de ser otimistas.

Eu ensino em Notre Dame, que é uma universidade católica. Acreditamos que todos os seres humanos têm dignidade. Não podemos transigir neste aspeto. O problema é que, nos EUA, há políticos que não aceitam isto. Dizem que só alguns americanos têm dignidade. Isto é assustador.

Quando aceitarmos, como quer a extrema-direita, não só na América como na Europa, que só o nosso grupo tem direitos, tudo estará perdido. E, tal como os comunistas, também nós, sem querer, estaremos a caminho do suicídio.

A. James McAdams é autor de livros de referência como East Germany and Detente; Germany Divided: from the Wall to Reunification: Judging the Past in Unified Germany, Transitional Justice and Rule of Law in New Democracies; Crisis of Modern Times. A sua obra mais recente, que tem igualmente merecido críticas elogiosas, é Vanguard of the Revolution: The Global Idea of the Communist Party
© A. James McAdams

Esta entrevista foi publicada, em versão mais reduzida, numa edição especial da revista SÁBADO, em Novembro de 2019 | A shorter version of this interview was published in a special edition of the Portuguese news magazine SÁBADO, in November 2019 

As novas (e velhas) “cortinas de ferro”

Em 1989, quando o Muro de Berlim caiu, alguns convenceram-se de que a globalização conduziria a “um mundo sem fronteiras”*. Não foi o que aconteceu. Terminada a Guerra Fria, sobreviveram 12 muros, metade dos quais para fins convencionais. Mas nos 20 anos seguintes, e sobretudo depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 e das “primaveras árabes” de 2011, mais do que triplicou o número de barreiras, vedações e fortificações. Na Europa, na América, na Ásia, no Médio Oriente e em África. Serão agora pelo menos 70. Ao contrário do que diz o velho ditado “boas cercas fazem bons vizinhos”, inspirado no poema Mending Wall, de Robert Frost, o que hoje o medo constrói parece ser cada vez mais territórios sem vizinhos. (Ler mais | Read more...)

Nicósia continua dividida por uma zona tampão vigiada pela ONU desde 1974. No interior da “Linha Verde” que se estende ao longo de 180 km, casas e lojas tornaram-se quase ruínas, onde nem os proprietários podem regressar
© Tijen Orol | bjp-online.com

CHIPRE

Não são as turísticas Muralhas Venezianas, erigidas no século XVI como defesa contra os Otomanos, que fazem de Nicósia a última capital europeia dividida por um muro desde a queda do de Berlim em 1989. A cidade está dividida desde dezembro de 1963, quando, depois de sangrentos confrontos entre cipriotas gregos e cipriotas turcos, o oficial do Exército britânico Michael Perrett-Young desenhou no mapa uma “linha verde”. O que deveria ser uma barreira de “proteção provisória” de duas comunidades acabou por se expandir por toda a ilha (independente do Reino Unido desde 1960), com 180 km de comprimento e 10 metros de largura. A partir de 1974, com a invasão da Turquia para neutralizar um golpe que visaria anexar Chipre à Grécia e com a proclamação unilateral da República Turca do Norte de Chipre (RTNC), em 1983, a linha de Perrett-Young transformou-se numa verdadeira “fronteira”. A RTCN, que ocupa um terço do território, só é reconhecida por Ancara. A República de Chipre, onde vivem 80% dos habitantes da ilha maioritariamente de origem grega, é um Estado membro da UE desde 2004. Até agora, fracassaram todas as negociações com vista a uma reunificação ou uma confederação.

Os mais famosos “murais da paz” dividem Falls e Shankil Roads, no sector ocidental de Belfast
© timetravelturtle.com

IRLANDA DO NORTE

Em janeiro de 2019, ativistas contra o Brexit ergueram um “muro” simbólico na Irlanda do Norte para lembrar três décadas de conflito e alertar para a inevitabilidade de uma fronteira física com a República da Irlanda, se o Reino Unido sair da União Europeia sem acordo. A província que os britânicos chamam Ulster votou esmagadoramente a favor de permanecer na UE. Na Irlanda do Norte, sobretudo em Belfast, mas também em Derry, Portadown e Lurgan, existem ainda 99 muros – conhecidos como Peace Lines (Linhas da Paz) – a separar comunidades católicas e protestantes. Blocos de cimento, ferro, aço e arame farpado, são estruturas que custam anualmente à economia nacional o equivalente a 1100 milhões de euros. A maioria divide o bairro de Springmartin (protestante/unionista) e o de Springfield Park (católico/nacionalista), em Belfast. Foi nesta cidade que os primeiros muros, ainda provisórios, foram construídos para prevenir a violência interconfessional: em Ballymacarrett, nos anos 1920, e em Sailortown, nos anos 1930. Os que agora existem datam de 1969, período conhecido como “The Troubles” (uma guerra civil iniciada depois de a polícia protestante ter reprimido uma manifestação de moradores do bairro católico de Derry, em 5 de Outubro de 1968, de que resultou cinco mortos e 120 feridos). Por se mostrarem barreiras eficazes, as “Linhas da Paz” foram-se multiplicando, cada vez mais sólidas, altas e permanentes. De apenas 18, no início do anos 1990, ascendem a quase uma centena desde o Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa.

Migrantes caminham ao longo do muro que agora impede o acesso à estrada circular junto ao antigo campo de Calais que ficou conhecido como “Selva”
© Philippe Huguen | AFP | Getty Images | Newsweek

FRANÇA

Em 2016, num campo do porto de Calais designado por “A Selva”, dadas as condições deploráveis em que viviam mais de 10 mil homens, mulheres e crianças fugidos das guerras e miséria no Médio Oriente, Ásia e África, começou a ser edificada uma “grande muralha”. Objectivo: travar a entrada de migrantes no Reino Unido, através do Canal da Mancha. Com 1 km de comprimento e 4 metros de altura, o muro de cimento e aço, ainda em construção, deverá custar aos contribuintes britânicos até 150 milhões de libras (mais de 165 milhões de euros – estimativas revistas em 2018), no âmbito de acordos de segurança assinados entre Paris e Londres. Os migrantes na “maior favela francesa” eram sobretudo sudaneses (45%), afegãos (30%), paquistaneses (7%), eritreus (6%) e sírios (1%), segundo um censo conduzido pela organização Help Refugees. A construção do muro surgiu numa altura em que, de Calais, chegavam a Inglaterra cerca de 200 migrantes por semana, muitos deles escondidos em camiões ou ferries. Entre 2015 e 2016, mais de 84 mil migrantes foram detidos ao tentar entrar ilegalmente em território britânico, a partir de Calais ou Dunquerque. Várias associações humanitárias condenaram a construção do muro, dizendo que não impedirá as pessoas de continuar a enfrentar a morte em busca de uma vida melhor.

Guardas letões guardam a fronteira agora murada entre a Letónia e a Rússia
© CFP | news.cgtn.com

PAÍSES BÁLTICOS – RÚSSIA

A Estónia, a Letónia e a Lituânia estão a construir muros na fronteira com a Rússia, praticamente dividindo ao meio a Europa do Norte. A Letónia, por exemplo, completou em 2019 o primeiro troço – 93 km num total de 283 – de uma vedação de arame farpado, equipada com sensores e câmaras de vigilância. A obra, iniciada em 2015 para ficar concluída em 2020, custou 21 milhões de euros. Segundo fontes oficiais, o objetivo é “combater a imigração ilegal”. Com o mesmo propósito, Riga planeia, também, construir um muro na sua fronteira com a Bielorrússia, que tem sido atravessada por pessoas em fuga do Afeganistão, Paquistão e outros países em conflito. A Estónia, por seu turno, está a erigir na fronteira com a Rússia um muro de 110km de extensão e 2,5 metros de altura, projeto avaliado em mais de 197 milhões de euros, para o qual espera financiamento da UE, porque se destina a “proteger as fronteiras externas da Europa e da NATO”. Depois de Moscovo ter anexado a Crimeia em 2014 e de continuar exercícios militares na fronteira com a Estónia, Tallin receia ser igualmente alvo de “agressão russa”. Um receio partilhado por Vilnius, que decidiu, em 2017, reforçar a sua fronteira com Kaliningrado erguendo uma barreira de 130 km de extensão e 2 metros de altura, de Vistitis até ao rio Neman, mesmo em frente à vedação de arame farpado erigida cinco anos antes por Moscovo. Um dos cenários mais temidos é que Moscovo venha a encerrar o chamado “Corredor de Suwalki”, área na fronteira entre a Lituânia e a Polónia, que separa a Bielorrússia da região russa de Kaliningrado (onde foram instalados mísseis nucleares em 2016), porque, desse modo, os bálticos ficariam separados da Europa e dos restantes membros da Aliança Atlântica.

Uma vedação separa a Ucrânia da Rússia perto da localidade de Zhuravlevka. Os planos de Kiev para construir um muro foram adiados devido a vários problemas
© politico.eu

RÚSSIA – UCRÂNIA

Em 2018, quatro anos depois de ter anexado a península da Crimeia, a Rússia completou uma vedação de alta segurança coberta de arame farpado e centenas de sensores de vibração e áudio, ao longo de mais de 60 dos 2000 km da porosa fronteira com a Ucrânia. Os serviços secretos FSB (ex-KGB) disseram que o muro, que se estende da Crimeia à região ucraniana de Kherson, serve “para impedir tentativas de infiltração de sabotadores”. Kiev, por seu turno, também tinha planos construir a “Grande Muralha da Ucrânia” ou “Muralha Europeia” – uma barreira de aço, com um sistema de controlo eletrónico, uma estrada para patrulhamento e trincheiras anti-tanque – que a desvincularia, literal e simbolicamente, da antiga URSS da qual foi uma república até 1991. Escassez de fundos e um escândalo de corrupção adiaram o projeto, avaliado em mais de 120 milhões de euros, que deveria ser concluído em 2020. Por ora, além de 83 km de vedação e 273 km de trincheiras, o que separa a Ucrânia da Rússia são florestas e campos.

Dois rapazes sírios olham em direcção à Rússia depois de entrarem na Noruega, de bicicleta, através do posto fronteiriço de Storskog, onde foi erguido “o muro mais pequeno do mundo”
© Mauricio Lima | The New York Times

NORUEGA – RÚSSIA

Em 2016, o ano em que recebeu 5500 pedidos de asilo, a Noruega construiu na sua fronteira com a Rússia o que é talvez o mais pequeno muro do mundo, supostamente para travar a entrada de contrabandistas e migrantes ilegais vindos do Médio Oriente. O muro de aço, erguido no posto fronteiriço de Storskog, tem 200 metros de comprimento (numa fronteira de 195 km) e 3,7 metros de altura. Custou cerca de 450 mil euros. Foi alvo de chacota assim que entrou em funcionamento. Alguns residentes notaram que qualquer intruso pode facilmente contornar a nova barreira, e ironizaram que a maior parte dos que, em 2016, tentaram  atravessar a fronteira do Ártico chegaram de bicicleta porque a lei não lhes permitia entrar a pé. Existe um outro muro, erigido nos tempos da União Soviética, que se estende ao longo de toda a fronteira russa com a Noruega e a Finlândia. Ali estão colocadas armas automáticas que detetam qualquer pessoa que ouse subir a vedação. Os alarmes soam à mínima infração, e os soldados de vigia atuam imediatamente. No entanto, desde a queda do Muro de Berlim, que os laços bilaterais se estreitaram, com visitas a um e outro país sem necessidade de vistos. Muitos noruegueses vão à Rússia comprar bebidas alcoólicas e combustíveis mais baratos. Muitos russos vão à Noruega comprar fraldas e café.

Forças de segurança georgianas junto à vedação que a república separatista da Ossétia do Sul e a Rússia designam por “fronteira internacional”
© axios.com

OSSÉTIA DO SUL – GEÓRGIA

Em 2009, seguindo um mapa soviético de 1984, guardas da Rússia e da Ossétia do Sul começaram a erigir uma vedação, que designaram por “fronteira internacional” com a Geórgia. Em Agosto de 2008, esta antiga república da URSS perdera não apenas a Ossétia do Sul, mas também a Abkházia, regiões separatistas que, com a ajuda de tropas russas, ganharam uma guerra de cinco dias, que causou cerca de mil mortos e obrigou 300 mil georgianos a fugir de suas casas. A Ossétia do Sul e a Abkházia proclamaram-se “Estados independentes”, mas, apenas reconhecidos por Moscovo, Venezuela, Nicarágua, Síria e Nauru, não passam de protetorados e bases militares da Rússia. Após a guerra de Agosto, emissários da União Europeia cunharam o termo borderization (“fronteirização”), para definir a construção de barreiras físicas ao livre movimento de bens e pessoas, ao longo de uma linha territorial disputada com vista a simular uma fronteira internacional. A vedação de arame farpado, com valas e postos de controlo, ao longo de 60 de um total de 391 km da contenciosa linha fronteiriça que separa a Ossétia do Sul/Região de Tskhnivali e a Abkházia do território controlado pela Geórgia, são um pesadelo para muitas famílias georgianas. Ficaram sem acesso a terras agrícolas, recursos de água, animais e mercados, lugares de culto e até cemitérios. A maioria dos ossétios e abkhazes, pelo contrário, apoia a ocupação russa.

Fronteira do Uzbequistão com o Quirguistão, na localidade de Kara-Suu
© David Trilling | eurasianet.org

UZBEQUISTÃO-AFEGANISTÃO-TURQUEMENISTÃO-TAJIQUISTÃO

Uma vedação de arame farpado electrificada, com minas terrestres e patrulhas militares fortemente armadas faz da fronteira do Uzbequistão com o Afeganistão uma das mais bem guardadas do mundo, só comparável à que divide as duas Coreias. Estende-se ao longo de 137 km até ao Turquemenistão e ao Tajiquistão. Igualmente problemática, desde os tempos da URSS (as repúblicas soviéticas da Ásia Central só se tornaram independentes em 1991), era a fronteira do Uzbequistão com o Quirguistão (um total de 1379 km, dos quais só 1055 estão demarcados). Até ao ano 2000, o ditador uzbeque Islam Karimov ergueu vedações de arame farpado, instalou minas terrestres, mobilizou soldados, demoliu pontes, extinguiu rotas rodoviárias, impôs barreiras de estrada e exigiu vistos de entrada, assim dificultando as relações entre grupos étnicos e famílias que sempre circularam livremente na região. As relações entre os dois Estados deterioraram-se e, em 2010, registaram-se pogroms contra a minoria uzbeque no Quirguistão. Em 2014, ocorreram também confrontos armados entre guardas fronteiriços. Em 2016, morreu Karimov e a situação mudou significativamente. Em Outubro de 2017, o novo presidente, Shavkat Mirziyoyev, e o homólogo quirguize, Almazbek Atambaev, assinaram um “acordo histórico” para definir cerca de 85% da fronteira comum. Falta ainda resolver o estatuto de enclaves étnicos espinhosos, como os de Sokh e Shohimardon (uzbeques, no Quirguistão), Vorukh (tajique, no Quirguistão) e Barak (quirguize, no Uzbequistão).

Soldados instalam uma vedação de arame farpado na fronteira da Eslovénia com a Croácia
© STR | AFP | Getty Images | e360.yale.edu

ÁUSTRIA – ESLOVÉNIA – CROÁCIA – ITÁLIA

Entre Novembro de 2015 e 2016, a Áustria ergueu uma série de barreiras fronteiriças e impôs rígidos controlos à imigração nas suas fronteiras com a Eslovénia e a Itália. No mesmo período e no pico da crise dos refugiados, também a Eslovénia alterou a sua lei de Defesa Nacional, para colocar soldados na fronteira com a Croácia e instalar uma vedação de arame farpado. A Itália, por seu turno, que tem acordos para patrulhas conjuntas com estes países – todos eles da Zona Schengen – ameaçou já este ano construir “impenetráveis” barreiras físicas na fronteira com a Eslovénia, se os mecanismos em vigor até agora se revelarem infrutíferos.

Uma migrante síria e o seu bebé entram na Hungria depois de atravessar a vedação erguida na fronteira com a Sérvia, em Agosto de 2015
© Bernadett Szabo | Reuters | The Christian Science Monitor

HUNGRIA – SÉRVIA

No verão de 2015, cerca de 400 mil migrantes provenientes do Afeganistão, do Irão, do Iraque e da Síria entraram na Hungria, a partir da Sérvia – a chamada “Rota Balcânica” –, em busca de segurança e prosperidade na Europa. Foram recebidos com pedras, gás lacrimogéneo, canhões de água e outros abusos físicos. Bastaram cerca de  quatro meses para soldados húngaros, ajudados por presos, erigirem a primeira vedação de arame farpado ao longo dos 170 km de fronteira com a Sérvia, com um custo de quase 90 milhões de euros. Quando o fluxo migratório se desviou da Sérvia para a Croácia, os húngaros adicionaram mais quilómetros à vedação, fechando e fortificando as fronteiras comuns. Em 2017, acrescentaram uma vedação paralela, separada das já existentes por uma estrada patrulhada por soldados. O governo em Budapeste não só ignorou os protestos e os apelos da União Europeia para demolir o muro, como enviou a Bruxelas uma fatura de 400 mil de euros que a UE se recusa a pagar. O primeiro-ministro Viktor Orbán, orgulhosamente de extrema-direita,  afirma que a “homogeneidade étnica” é fundamental para a prosperidade económica da sua nação de dez milhões de habitantes.

Cerca de 50 famílias numa propriedade na Eslováquia Oriental financiaram a construção de um muro de 2 metros de altura para as separar de um campo do povo Roma
© Attila Balázs | bjp-online.com

ESLOVÁQUIA

Em 2013, havia na Eslováquia pelo menos 14 muros para segregar as comunidades ciganas, oito das quais nos distritos de Kosice e Presov, predominantemente habitados pelo povo Roma. Em Ostrovany, por exemplo, um vilarejo rural que faz parte de Presov, a câmara gastou 13 mil euros para erguer um muro de mais de dois metros de altura e 150 de comprimento, de modo a separar os ciganos – 1200 dos 1786 residentes – do resto da população. A decisão, explicou o presidente do município foi tomada “para acabar com os roubos (de frutas e vegetais) e o vandalismo”. E a única coisa que ele lamenta foi terem sido “usados fundos públicos para proteger propriedade privada”. Organizações de direitos humanos denunciam discriminação institucional e racismo.

Um gueto do povo Roma em Baia Mare, na Roménia, onde foi erguido um muro para separar as comunidades ciganas dos restantes habitantes da cidade
© András D. Hajdú e Balázs Ivándi-Szabó | bjp-online.com

ROMÉNIA

Em 2011, a cidade de Baia Mare, no norte da Roménia, decidiu construir um muro de 1,8 metros de altura à volta da sua comunidade Roma. O presidente da câmara, Catalin Chereches, explicou que o muro visava manter as crianças seguras, porque o acampamento cigano se situava junto de uma estrada movimentada. Organizações de direitos humanos acusaram-no de criar um gueto, agravando ainda mais as condições de vida dos Roma em edifícios delapidados da era soviética, pobreza extrema, sem água nem luz. O Conselho Nacional Anti-discriminação em Bucareste multou Chereches em 6000 lei (pouco mais de 1200 euros). Ele pagou a multa, recorreu da sentença e perdeu o processo. Em 2015, reeleito para novo mandato, convidou estudantes para grafitarem o muro, impossibilitando a sua destruição por se tratar de “uma obra de arte”. Decisão contrária foi tomada na cidade checa de Ústí nad Labem. Em 1999, pouco depois da sua construção e por pressão da UE, foi demolido o muro que, nas palavras do presidente da autarquia, separava os “habitantes brancos e decentes” dos vizinhos Roma, “barulhentos e mal cheirosos”.

Soldados da Macedónia do Norte patrulham a fronteira com a Grécia, nas proximidades de Gevgelia – embora a “Rota Balcânica” tenha sido oficialmente encerrada em Março de 2016, pequenos grupos de migrantes ainda tentam entrar ilegalmente na antiga república jugoslava a caminho da Europa
© Georgi Licovsk | EPA | EFE | balkaninsight.com

MACEDÓNIA – GRÉCIA

Seguindo o modelo do muro construído pela Hungria na fronteira com a Sérvia, também a Macedónia do Norte, antiga república da Jugoslávia, ergueu duas vedações na sua fronteira com a Grécia, país que se transformara no “maior campo de refugiados da Europa”. Estas barreiras que travaram significativamente o fluxo migratório para a Europa do Norte e Central, através da Rota Balcânica, foram erigidas em 2015 e 2016. Estendem-se por 30 km, mas há planos para as prolongar até 320. Mais de um milhão de pessoas usaram esta rota a caminho da Alemanha no auge da crise na segunda metade de 2015.

Um embarcação apinhada de refugiados sírios chega à ilha grega de Lesbos. Para travar este fluxo proveniente da vizinha Turquia, Atenas construiu o “Muro do [rio] Evros, na “mais vulnerável” das fronteiras da União Europeia
© Sergei Ponomarev | The New York Times

GRÉCIA – TURQUIA

É a “nova fronteira da Europa”. O Muro de Evros, assim chamado por se situar junto ao rio com o mesmo nome, na permeável Trácia Ocidental, foi erigido por ordem do Governo de Ancara para impedir a entrada, através da Turquia, de migrantes ilegais vindos do Médio Oriente, de África, da Ásia ou do Cáucaso, com destino ao Ocidente. O muro – vedações cobertas de arame farpado, sensores térmicos e câmaras de vigilância – ficou concluído em 2012. Custou 3,2 milhões de euros. Estende-se por 10.600 metros ao longo dos 200 quilómetros da fronteira comum, descrita como “a mais vulnerável da UE”, militarizada e com campos de minas, desde a invasão turca de Chipre em 1974. Até à construção do novo muro, a área do Rio Evros, uma barreira natural, entre as aldeias de Kastanies e Nea Vyssa, era uma das rotas mais curtas, fáceis e seguras para os que procuram chegar à Europa. Só em 2011, o ano em que Síria mergulhou em guerra civil, cerca de 55 mil pessoas atravessaram esta fronteira. Assim que o muro começou a ser construído, o fluxo migratório diminuiu em 90%, segundo as autoridades locais. Aumentou, no entanto, o número dos que desapareceram ou morreram afogados no Mar Egeu. Em 2014, pelo menos 3000 migrantes morreram na travessia do Mediterrâneo, ao tentarem entrar na Europa via Grécia, Itália, Malta e Espanha. A Grécia ainda hoje acolhe mais de 70 mil migrantes.

Um guarda da Turquia vigia o muro de arame farpado erguido na fronteira com a Bulgária
© Niklai Doichinov | AFP | Getty Images | politico.eu

BULGÁRIA – TURQUIA

Até à queda do Muro de Berlim, a fronteira entre a Bulgária e a RDA (140 km) era a mais perigosa. Chamavam-lhe “zona da morte”.  Pelo menos 2000 cidadãos da Alemanha de Leste tentaram fugir por ali, muitos foram capturados e alguns assassinados. A fronteira da Bulgária com a Turquia (269 km), onde as autoridades de Sófia estão a erguer uma barreira de arame farpado que terá 166 km de comprimento e 3 metros de altura, é também uma das mais problemáticas. Está agora fechada a todos os que procuram asilo. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram numerosos casos de migrantes que foram espancados, roubados e até despidos, antes de “devolvidos” à Turquia. O governo búlgaro considera “absolutamente necessário” o muro fronteiriço, avaliado em cinco milhões de euros, para “salvaguardar a segurança nacional” e “proteger a Europa”.

Um soldado turco num veículo blindado vigia a fronteira com a Síria, perto da cidade de Kilis, no sudeste da Turquia, em Março de 2017
© Murad Sezer | Reuters

TURQUIA – SÍRIA

Dos 911 km de fronteira entre a Turquia e a Síria, 764 estão agora cobertos por um muro de três metros de altura. São blocos de cimento encimados por arame farpado, 120 torres de vigia, radares, armas de controlo remoto, drones e sensores acústicos e sísmicos, sistema de deteção por fibra ótica, uma estrada patrulhada por veículos blindados. A construção começou em 2014 e ficou concluída em 2018. O objetivo, segundo as autoridades em Ancara, é impedir a entrada de migrantes e contrabandistas. Um outro muro, de 144 km ao longo dos 499 da fronteira turca com o Irão, deverá estar pronto em 2019, também para “impedir o tráfico de pessoas e drogas”.

Vista aérea do  muro que Israel construiu em redor do campo de refugiados palestinianos de Suafat, nas imediações de Jerusalém
© Abir Sultan | European Pressphoto Agency | The New York Times

ISRAEL- CISJORDÂNIA – GAZA – LÍBANO – EGIPTO – JORDÂNIA

Foi na Faixa de Gaza, em 1994, no ano seguinte à assinatura dos Acordos de Oslo, que Israel ergueu o primeiro muro (67 km de extensão) nos territórios ocupados palestinianos. E o mais recente está também a ser construído em Gaza, de onde soldados e colonos se retiraram em 2005, mas que os israelitas continuam a dominar por terra, mar e ar. A terceira fase da edificação deste muro de aço começou em fevereiro de 2019, “para nos proteger dos terroristas”, disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Uma vez concluído, terá 65 km de extensão, abrangendo uma área que vai de Zikim, na “fronteira” norte de Gaza, onde já existe uma barreira marítima de 200 metros ao longo da costa, até ao posto de controlo de Kerem Shalom. Tal como aconteceu na Cisjordânia, onde, depois da Segunda Intifada, em 2000-2002, um muro que uns designam “de separação” e outros “de apartheid” ajudou a diminuir os ataques palestinianos, mas também confiscou terras para a construção de colonatos judaicos, a nova barreira em Gaza, território também separado do Egipto por um muro, deixa poucas alternativas ao Hamas. Sem acesso a túneis fundamentais à sua atividade paramilitar, o movimento que governa Gaza poderá enveredar por uma escalada de ações assimétricas. Ou, reconhecendo a sua impotência, poderá abandonar a luta armada, negociando tréguas de longa duração e o fim das sanções que atormentam a população civil. Ao longo dos 130 km da disputada fronteira com o Líbano, Israel está também a construir, desde 2018, um muro de cimento que se estenderá por 13 km, alegadamente, para “proteger 22 aldeias israelitas adjacentes”. As autoridades em Beirute queixaram-se à ONU do que consideram “uma violação de soberania”.  Em 2013, os israelitas já haviam completado uma barreira na fronteira com o Egito, reforçado os 56 quilómetros que o separam da Síria e feito um upgrade à fronteira com a Jordânia.

A “Grande Muralha” que a Arábia Saudita construiu na sua fronteira com o Iraque tem mais de 965 km de extensão e é composta por cinco vedações paralelas cobertas por arame farpado
© Reuters

ARÁBIA SAUDITA – IRAQUE – IÉMEN

Os planos começaram a ser elaborados em 2006, mas só em 2015, quando o autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh parecia uma força invencível, é que a Arábia Saudita decidiu construir o que designou por “Grande Muralha” na sua fronteira com o Iraque. Com mais de 965 km de extensão, é composta por cinco vedações paralelas cobertas por arame farpado. Tem valas, 40 torres de vigia equipadas com radares Airbus SPEXER 2000 e câmaras de visão noturna, outras 38 torres de comunicação, sete centros de comando e controlo (C2),  32 estações de reação militar com heliportos, sensores de movimento, uma rede de 1,4 milhões de metros de fibra ótica, que ligam os C2 ao Ministério da Administração Interna, 240 veículos de resposta rápida e outros dez de vigilância e reconhecimento, e mais de 30 mil soldados. Em 2013, dois anos antes de declararem guerra ao movimento pró-iraniano Houthi, quando o inimigo era a Al-Qaeda, os sauditas também já haviam construído uma gigantesca barreira de cimento, de 1800 km de extensão e três de altura, na sua fronteira com o Iémen.

Uma passagem fronteiriça entre Marrocos e a Argélia, perto da localidade de Oudia
© Fadel Senna | AFP

ARGÉLIA – MARROCOS – TUNÍSIA – LÍBIA

Fronteiras fechadas e fortificadas entre a Argélia e Marrocos – devido a disputas territoriais e de recursos – têm sido a norma mais do que a exceção. Só estiveram abertas um total de dez anos, desde que a Argélia se tornou independente da França em 1962. As robustas medidas de segurança em vigor não demoveram os contrabandistas, que se adaptaram e exploraram a corrupção de guardas locais. Pelo contrário, dividiram famílias e agravaram as condições económicas nas depauperadas regiões fronteiriças, incentivando jovens a dedicar-se ao tráfico de drogas e fomentando protestos populares em ambos os países. Porque na década de 1990, devido à guerra civil argelina, as autoridades passaram a concentrar esforços no combate ao terrorismo e não no contrabando, aumentou o tráfico de migrantes da África Subsariana para Marrocos, a partir da povoação fronteiriça de Maghnia. Com as “primaveras árabes” na Tunísia e na Líbia em 2011, temendo que contrabandistas de armas, traficantes de refugiados e grupos terroristas expandissem as suas rotas transnacionais, Rabat e Argel decidiram reforçar ainda mais os controlos na fronteira comum, aumentando o número de postos de observação, patrulhas móveis regulares e sistemas de vigilância, que exigiram um elevado investimento financeiro em novas tecnologias. Para travar a entrada de contrabandistas e terroristas do Daesh, a Argélia tenciona igualmente erguer um muro de 120 km de extensão e três metros de altura na sua fronteira (de mais de 965 km) com a Líbia. A Tunísia, que em 2015 sofreu dois brutais atentados cometidos pelo “estado islâmico” começou também a erigir um muro de 168 km ao longo dos 500 que constituem a sua fronteira com a Líbia, onde o  Daesh tem campos de treino.

Uma mulher saraui nas proximidades de um posto militar marroquino situado junto ao muro que separa Marrocos do Sara Ocidental controlado pela Frente Polisário
© Ryad Kramdi | AFP

MARROCOS-SARA OCIDENTAL

A mais antiga e longa “barreira de segurança” em funcionamento – um muro de areia e pedra, com rolos de arame farpado, bunkers e campos de minas – separa o Reino de Marrocos do Sara Ocidental (o outrora Sara Espanhol) – a “última colónia em África”. Neste território, que também faz fronteira com a Argélia e a Mauritânia, perdura um conflito iniciado em 1973, quando a Frente Polisário iniciou a resistência ao domínio de Madrid. Em 1975, antes de morrer, o ditador Franco firmou um acordo secreto, dividindo a sua antiga possessão entre Rabat e Nouakchott. Pressionado pela “Marcha Verde” de 35 mil “voluntários” mobilizada pelo rei Hassan II para ocupar o que, em 1976, seria proclamada como República Árabe Saraui Democrática (RASD), o generalíssimo preferiu ignorar um apelo da ONU a um referendo sobre a autodeterminação. Com menos homens e armas, a Polisário, apoiada por Argel, forçou a retirada das tropas mauritanas em 1979 e destruiu várias unidades militares marroquinas em arrojadas operações de guerrilha. Perante repetidos reveses, Rabat mudou de estratégia com a ajuda da França, de Israel (que forneceu a tecnologia) e dos EUA: a cada conquista na sua frente oriental ia erguendo muros com minas terrestres, para assegurar o controlo. Em 1991, quando as Nações Unidas negociaram um cessar-fogo e enviaram uma força de paz (MINURSO) para a região, já haviam sido erguidos seis muros, numa extensão de quase 6500 km. A guerra, sobretudo no seu pico na década de 1980, gerou milhares de refugiados. Muitos continuam a viver em tendas em Tindouf, na Argélia.

Migrantes e refugiados da África Subsariana tentam atravessar as vedações de arame farpado que separam Marrocos do enclave espanhol de Melilla, para poderem entrar na Europa
© Jose Palazon | GlobalPost

CEUTA – MELILLA

Europa e África estão separadas em Ceuta e Melilla, dois enclaves espanhóis na costa marroquina, por muros paralelos com 6 metros de altura, cobertos de lâminas de arame farpado, com torres de vigia, caminhos para veículos militares, sensores subterrâneos de ruído e movimento, luzes de grande potência, câmaras de video-vigilância e equipamento de visão noturna. O muro de Ceuta estende-se por  8 km e o de Melilla por 11. Foram construídos em 1998 e custaram milhões de euros. Embora tenham contribuído para diminuir o número de migrantes, a realidade é que centenas continuam a chegar aqui para tentar entrar na UE. Estatísticas oficiais indicam que 3344 menores não acompanhados chegaram a Ceuta em 2018, a maioria proveniente das cidades vizinhas de Tetouan e Tânger, no norte de Marrocos. Porque muitos ficam gravemente feridos ao tentar escalar os muros, o Governo espanhol anunciou este ano que vai elevar as vedações para 10 metros de altura e substituir o arame farpado por “material menos perigoso”. E, entre outras alterações, as câmaras de vigilância serão substituídas por sistemas de reconhecimento facial.

Migrantes do Zimbabwe tentam entrar ilegalmente no Botswana através de uma vedação erguida originalmente para impedir a propagação da febre aftosa
© Guy Oliver | IRIN

BOTSWANA-ZIMBABWE

O muro electrificado de 500 km de extensão e 2 metros de altura que separa o Botswana e o Zimbabwe tem sido comparado ao que Israel ergueu na Cisjordânia ocupada. No entanto, se este se destina a prevenir ataques terroristas, o outro foi construído, em 2003, para  impedir uma epidemia de febre aftosa que afeta o gado bovino, a segunda maior fonte de rendimento do Botswana depois da extração mineira. O muro, embora não seja intransponível, porque é atravessado por vários rios transitáveis, tem sido fonte de tensão. As autoridades em Harare alegam que o principal objetivo desta barreira física é impedir a entrada de zimbabweanos no pais vizinho, um dos mais ricos de África.

Equipas de segurança inspeccionam o muro que separa o Quénia da Somália
© Nation Media Group

QUÉNIA – SOMÁLIA

Em 2015, o Governo do Quénia começou a construir um muro ao longo dos 708 km de fronteira com a Somália, sobretudo para impedir a infiltração de combatentes jihadistas do movimento al-Shabab que têm assassinado centenas de civis. O projecto incluía barreiras de cimento, vedações, valas e postos de controlo equipados com câmaras de vigilância. O muro estender-se-ia do Oceano Índico até à região de Mandera, onde terroristas do al-Shabab cometeram um massacre em 2014 e onde o Quénia e a Somália se juntam à Etiópia. Em março de 2019, a obra foi interrompida por ordem do Parlamento queniano, que exigiu uma investigação para perceber como é que ainda só foram construídos 10 km e já foram gastos 35 milhões de dólares.

Soldado paquistanês vigia uma zona murada da fronteira com o Afeganistão, no posto de Kitton Orchard, no Waziristão Norte
© Aamir Qureshi | AFP | pakistantoday.com.pk

PAQUISTÃO-AFEGANISTÃO

Na longa, montanhosa, remota e porosa fronteira do Paquistão com o Afeganistão – uma das mais perigosas do mundo –, está a ser construído um muro de 2400 km de extensão com 235 checkpoints. O objetivo, segundo as autoridades em Islamabad, é monitorizar os movimentos de quem entra e sai, sobretudo terroristas e traficantes de droga. Este muro, que deverá ficar concluído em 2020, custará mais de 500 milhões de dólares e é guardado por dezenas de milhares de soldados, divide tribos pashtu que há séculos coexistem, partilhando a mesma língua, religião, cultura e tradições. E não agrada a Cabul. Em parte, porque os afegãos nunca reconheceram a chamada “Linha Durand”, traçada pelo diplomata britânico Sir Mortimer Durand em 1896, e o muro legitima essa “fronteira internacional”. Ainda hoje o Afeganistão reclama territórios que foram incluídos no Paquistão após a divisão da Índia.

A fronteira entre a Índia e o Paquistão estende-se ao longo dos 3323 km da Linha de Controlo (LoC, sigla inglesa), que separa os setores de Jammu e Caxemira controlados por Nova Deli e Islamabad, no norte, até ao chamado Ponto Zero, entre o estado indiano de Gujarat e a província paquistanesa de Sindh, no sul
© Mukesh Gupt | Reuters

ÍNDIA –PAQUISTÃO

A fronteira internacional entre a Índia e o Paquistão – duas potências nucleares – é uma das mais complexas, militarizadas e perigosas do mundo, patrulhada por milhares de tropas de ambos os países. Estende-se ao longo dos 3323 km da Linha de Controlo (LoC, sigla inglesa), que separa os setores de Jammu e Caxemira controlados por Nova Deli e Islamabad, no norte, até ao chamado Ponto Zero, entre o estado indiano de Gujarat e a província paquistanesa de Sindh, no sul. Baseia-se na Linha Radcliffe, traçada por Sir Cyril Radcliffe, um visconde galês que nunca visitou a Ásia, mas a quem foi conferida a tarefa de dividir a índia Britânica em 1947, segundo critérios religiosos: a maioria de hindus e sikhs ficaria na Índia, a maioria de muçulmanos no Paquistão. Os seus planos originaram confrontos sectários que causaram entre 500 mil e um milhão de mortos. O seu legado ainda hoje desestabiliza uma fronteira que é frequentemente encerrada (devido a atentados terroristas) e que já foi cenário de três guerras. Duas delas por causa de Caxemira, onde o conflito se agrava desde que, em agosto de 2019, o governo ultranacionalista hindu em Nova Deli decidiu anexar este território dos Himalaias, onde 60% dos habitantes são muçulmanos que aspiram à independência ou à união com o Paquistão.

O muro que divide a Índia e o Bangladesh abrange cerca de 70% daquela que é a quinta maior fronteira terrestre do mundo
© Diptendu Dutta | AFP

ÍNDIA-BANGLADESH

A quinta maior fronteira terrestre do mundo (mais de 4156 km) liga a Índia e o Bangladesh por florestas, montes, arrozais e zonas ribeirinhas. O muro que divide estes dois países – blocos de cimento cobertos de arame farpado, parcialmente electrificado, com quase 2,5 metros de altura – abrange cerca de 70% da fronteira. A primeira fase, aprovada em 1989, quando o estado indiano de Assam se revoltou contra os migrantes bangladeshis que estariam a “desequilibrar a demografia e o mapa político” local, barricou 854 km de território. A segunda bloqueará mais 2502 km. Esta é uma fronteira funesta. Quando a tentam atravessar, para trabalhar, visitar familiares, apascentar animais, fazer compras ou negócios, centenas de bangladeshis (a maioria muçulmanos, encarados como “potencial ameaça terrorista”, ao contrário dos hindus, protegidos como “refugiados religiosos”) têm sido mortos por agentes da temível força indiana BSF. Apesar dos fundos para reforçar a segurança, o muro não contém os criminosos, que subornam os guardas fronteiriços. Em 2018, para limitar as transgressões, as autoridades indianas adicionaram 383 checkpoints aos 802 já existentes, e reforçaram os contingentes de militares nas áreas mais vulneráveis. Em agosto de 2019, no distrito de Goalpara, estado de Assam, numa área equivalente a sete campos de futebol, a Índia iniciou a construção do primeiro de uma série de campos detenção em massa, depois de quase dois milhões de migrantes bangladeshis terem sido avisados que irão perder o direito à cidadania se não apresentarem documentos de identificação e títulos de propriedade provando que vivem na região desde há décadas. Este primeiro campo, com capacidade para 3000 pessoas, será rodeado por um muro e terá um quartel para forças de segurança, mas também uma escola e um hospital.

Um guarda no estado de Rakhine, na Birmânia/Myanmar, patrulha uma “terra de ninguém” na fronteira com o Bangladesh
© Hein Kyaw | AFP | Getty Images |

MYANMAR – BANGLADESH

A Birmânia/Myanmar está a fortificar a sua fronteira com o Bangladesh, com novas vedações, bunkers, minas terrestres e postos militares, supostamente para dificultar o regresso mais de 700 mil muçulmanos Rohingya expulsos numa campanha que a ONU classificou de “limpeza étnica” no estado de Rakine. O Bangladesh quer repatriar muitos destes refugiados – Myanmar aceitou receber apenas 3000 –, mas estes não são voluntários para retornar às suas aldeias, por não terem garantias de que viverão em segurança e terão direito a cidadania. Duas fracassadas tentativas de repatriamento em 2019 surgem depois de um relatório da Nações Unidas ter denunciado que os militares birmaneses, conhecidos com Tatmadaw, recorreram sistematicamente a abusos sexuais, incluindo violações em grupo de homens e mulheres, como parte de uma estratégia para intimidar os Rohingya durante as operações que, em 2016 e 2017, os forçaram a fugir para o Bangladesh.

Um soldado norte-coreano (em cima, nas escadas) olha para militares sul-coreaos de vigia na aldeia fronteiriça de Panmunjom, que separa os dois países desde o fim da Guerra da Coreia em 1953
© Associated Press

COREIAS

Em 2018, quando Kim Jong-un e Moon Jae-in anunciaram um tratado para, oficialmente, pôr fim à Guerra da Coreia (1950—1953), depois de um encontro histórico na Zona Desmilitarizada (DMZ, sigla inglesa) que divide os seus dois países, o académico brasileiro Alexandre Uehara não hesitou em comparar a importância deste acontecimento à queda do Muro de Berlim. Nada mais restaria, segundo ele, da “herança da Guerra Fria”. Mas foi um optimismo exagerado, porque, apesar de alguns progressos significativos, o regime em Pyongyang já deixou claro que não haverá maior reaproximação nem cessará o seu programa nuclear enquanto se mantiver sob sanções internacionais. Em 1948, quando a República Democrática da Coreia (Norte) e a República da Coreia (Sul) foram criadas, a divisão geográfica entre ambas resultou numa fronteira internacional de facto. A DMZ, zona-tampão de 284 km de comprimento e 4 km de largura, foi criada em 1952 por um Acordo de Armistício e permanece um dos territórios mais vigiados do mundo.

Alphaville é uma comunidade rodeada de muros numa extensão total de 64 quilómetros, que existe desde 1978 – o projecto foi concebido para elites urbanas cansadas da criminalidade na cidade que é o centro financeiro do Brasil
© fernandes.arq.br

BRASIL

Um conjunto de 16 condomínios fechados localizados em Barueri, na Grande São Paulo, com cerca de 60 mil moradores, Alphaville é uma comunidade rodeada de muros numa extensão total de 64 quilómetros, que existe desde 1978. O projecto foi concebido para elites urbanas cansadas da criminalidade na cidade que é o centro financeiro do Brasil. Em “Alphaville 3”, por exemplo, onde, em 2013, viviam cerca de 4000 pessoas protegidas por 60 guardas privados e apoiadas por unidades da polícia militar estacionadas nas redondezas, o muro estende-se por quatro km e tem 2,5 metros de altura. A vida nestes condomínios é tão segregada que, em 2015, uma reportagem do diário espanhol El País citava uma mãe confusa por a sua filha de 4 anos se ter surpreendido ao ver pessoas negras numa visita da família a Paris. “Onde é que elas dormem?”, perguntou a criança. Porque, segundo o jornal, a rotina da menina era esta: “Do condomínio vai de carro para a escola privada. Da escola privada volta para casa. No fim-de-semana fica no seu condomínio ou vai para outros condomínios cercados por grades ou muros, com guaritas e porteiros [que, à entrada e à saída, sujeitam os trabalhadores a um rigoroso escrutínio semelhante ao dos aeroportos]. Desloca-se apenas de carro, protegida atrás de janelas fechadas com vidros escurecidos. De muro em muro, não pisa a rua a não ser por breves instantes. O lado de fora é uma ameaça.”

Construção de uma secção do muro na fronteira dos Estados Unidos com o México
© Mauricio Lima | The New York Times

ESTADOS UNIDOS – MÉXICO

Não existiam praticamente barreiras físicas ao longo da fronteira de 3200 quilómetros que se estende do Golfo do México, no Texas, ao Oceano Pacífico, na Califórnia, quando Bill Clinton começou, em 1994, a fechar algumas zonas de passagem nos EUA. Para travar a entrada de drogas e de migrantes. Primeiro entre El Paso e Ciudad Juaréz, com a Operação Hold the Line. Depois, entre San Diego e Tijuana, com a Operação Gatekeeper, e no Arizona, com a Operação Safeguard. Após os atentados de 11 de Setembro de 2001, veio o receio de que terroristas se pudessem infiltrar através das regiões mais remotas usadas por migrantes económicos. Em outubro de 2016, George W. Bush assinou uma lei autorizando a construção de mais de mil quilómetros de barreiras, com vedações reforçadas, câmaras, projetores e sensores. Houve quem duvidasse da viabilidade do projeto, em parte porque os custos por quilómetro (entre 1 e 2 milhões de dólares) eram proibitivos. Donald Trump chegou à Casa Branca em 2016 com a promessa de construir um muro e obrigar o México a pagá-lo. Inicialmente, queria que ele cobrisse toda a fronteira, mas depois esclareceu que seria apenas metade, confiando a segurança da restante à natureza (montanhas, rios, etc). Até Maio de 2019, tentando impor ao Congresso de maioria democrata a sua xenófoba agenda anti-imigração, o republicano Trump garantiu fundos no valor de 6100 milhões de dólares, para edificar e renovar mais de 540 km de barreiras. As primeiras construções arrancaram no Vale do Rio Grande, Texas. Ninguém sabe bem qual será o custo final do muro ambicionado por Trump descrito pelo arquitecto americano Ronald Rael, professor na Universidade da Califórnia, como “um território de paradoxo, horror, transformação e fluxo, numa escala maior do que a do Muro de Berlim”. As estimativas variam entre 12 mil milhões e 70 mil milhões de dólares. Uma sondagem do Pew Research Center revelou, entretanto, que uma maioria de americanos (58%) se opõe à expansão do que Bush iniciou.

* Um deles, o teórico japonês Kenichi Ohmae, autor de The Borderless World: Power and Strategy in the Interlinked Economy (HarperBusiness, 1999), um livro em defesa da globalização.

FONTES:
Agence France-Presse, Al Jazeera, Amnistia Internacional, Balkan Insight, BBC, Business Insider, Carnegie Endowment for International Peace, CBS News, Center for Immigration Studies, dailysabah.com, dhakatribune.com, DW, Eurasia Daily, El País, eursasianet.org, Gatestone Institute, GlobalSecurity.org, helprefugees.org, Human Rights Watch, International Security, Vol. 40, nº 1, 2015, Hurriyet Daily News, Inter Press Service, militaryhistories.co.uk, moroccoworldnews.com, National Geographic, Politico, pri.org, Radio Free Europe, South China Morning Post, The Atlantic, The Conversation, The Daily Mail, The Diplomat, The Economist, The Guardian, The Independent, The Moscow Times, The New Yorker, Total Croatia News, Times of Israel, USA Today, The Times of India, The New York Times, The Washington Post, UN News, Wall Street Journal

Polícias da RDA lançam água sobre alemães da RFA quando estes quebram o Muro de Berlim na Porta de Brandenburgo, em 11 de Novembro de 1989
© Anthoni Suau | The New York Times

Este artigo foi originalmente publicado numa edição especial da revista SÁBADO, em Novembro de 2019 | This article was originally published in a special edition of the Portuguese news magazine SÁBADO, in November 2019