1989: Quando o impensável se tornou imparável

Como é que a República Democrática da Alemanha, um país que “tinha planos quinquenais para tudo, da produção de carrinhos de linhas a ginastas e espiões”*, não conseguiu antever nem controlar os acontecimentos que haveriam de ditar não apenas o seu fim e a queda do verdammte Mauer (maldito Muro) de Berlim, mas também o colapso de todos os regimes comunistas da Europa de Leste e da URSS? Cronologia de um ano extraordinário que para sempre mudou o mundo. (Ler mais | Read more…)

Alemães de Berlim Ocidental oferecem café a forças fronteiriças da RDA, em 11 de Novembro de 1989, depois da queda do muro que dividia a cidade
© DPA | AP Images | TIME

  • 7 de janeiro: Aos 87 anos, morre Hirohito, o último imperador “divino” do Japão, depois de um longo reinado de 63 anos durante o qual é acusado de “criminoso de guerra”, mas que termina, no dia do funeral, com elogios de 160 nações à sua “contribuição para a paz”;
  • 20 de janeiro: George H. W. Bush entra na Casa Branca, sucedendo a Ronald Reagan, o presidente que, de visita a Berlim, pede: “Senhor [Mikhail] Gorbatchov, derrube este muro”;
  • 3 de fevereiro: Um golpe militar acaba com 35 anos de ditadura de Alfred Stroessner no Paraguai, durante muito tempo um aliado dos EUA. Forçado ao exílio, vive 18 anos em Brasília, onde morre, em 2006, proibido de regressar à pátria;
  • 14 de fevereiro: O fundador da República Islâmica do Irão, Ayatollah Khomeini, indignado com o livro Versículos Satânicos (que nunca terá lido), emite uma fatwa condenando à morte o autor, Salman Rushdie. No mesmo dia, é colocado em órbita o primeiro de 24 satélites de GPS. Um sistema de posicionamento global, desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos EUA, permite determinar a posição, a velocidade e o fuso horário dos utilizadores em terra, mar e ar, 24 horas por dia, em todas as condições climatéricas e em qualquer parte do mundo;
  • 15 de fevereiro: A União Soviética anuncia a retirada total das suas tropas do Afeganistão que invadira dez anos antes. Os mujahedin que, apoiados pelos EUA, forçam esta rendição criam depois a Al-Qaeda, a rede terrorista de Osama in Laden, responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque;
  • 15 de março: Cerca de cem mil manifestantes em Budapeste manifestam-se apelando à democracia na Hungria;
  • 29 de março: Após uma revisão constitucional e no âmbito da Perestroika de Gorbatchov, milhões de eleitores votam para o Congresso dos Deputados do Povo da União Soviética (CCCP), que inclui, pela primeira vez, candidatos não membros do Partido Comunista. O Congresso é dissolvido em setembro de 1991, um mês depois de um golpe de Estado;
  • 9 de abril: Uma manifestação pacífica na república soviética da Geórgia é brutalmente reprimida por soldados do Exército Vermelho, que causam 20 mortos e muitos mais feridos, uma ação que fica conhecida como “Massacre de Tbilisi”;
  • 21 de abril: A Nintendo, que em setembro celebraria 100 anos de existência, lança a pequena consola portátil “Game Boy”, construída pelo inventor Gunpei Yokoi, que se tornaria num dos símbolos mais conhecidos da empresa japonesa e um fascinante objeto de cultura popular;
  • 25 de abril: A companhia americana Motorola apresenta o MicroTAC, o mais pequeno telemóvel do mundo (para os padrões da época), em versão analógica e design flip (o bocal dobra o seu teclado). As primeiras versões têm até 23 cm de comprimento e pesam 350 gr;

Telemóvel MicroTAC
© Motorola

  • 26 de abril: A URSS inicia uma retirada por fases das suas tropas estacionadas na Hungria;
  • 2 de maio: A “Cortina de Ferro” começa a ruir, quando a Hungria inicia o desmantelamento de vedações de arame farpado na sua fronteira com a Áustria;
  • 4 de maio: Na Praça Tiananmen, na capital chinesa, um grupo de estudantes de Pequim, Xangai, Xi’an e Nanjing iniciam um movimento a que chamam “Grande Revolução para a Democracia contra a Ditadura”;
  • 14 de maio: Mikhail Gorbatchov vai à China – a primeira visita de um líder soviético desde a de Nikita Krutchov em 1954. Termina assim, oficialmente, a “Ruptura Sino-Soviética” (1956-1966), o período em que Moscovo e Pequim se mantêm de relações cortadas, devido a divergências doutrinais quanto à aplicação do Marxismo-Leninismo;
  • 29 de maio: A NATO aceita negociar coma URSS a redução de armas nucleares de curto alcance na Europa;

O Ayatollah Khomeini morre no Irão, dez anos depois de derrubar a monarquia e fundar uma república islâmica, sucedendo-lhe Ali Khamenei (à esq.) como Supremo Líder
© wikimedia.org

  • 3 de junho: No Irão, Khomeini morre de ataque cardíaco, dez anos depois de derrubar 2500 anos de monarquia persa, deixando no seu lugar, como Supremo Líder, Ali Khamenei, que hoje tudo controla – da guerra na Síria ao programa nuclear;
  • 4 de junho: O exército chinês toma de assalto a Praça Tiananmen, para esmagar os protestos pró-democracia, num massacre que causa entre 300 e 5000 mortos (as estimativas são diversas). No dia 24, Jiang Zemin ascende à liderança comunista em Pequim, depois de o antecessor, Zhao Ziyang, ter sido afastado por apoiar o movimento estudantil e advogar uma separação de partido e Estado;

Estudantes chineses pró-democracia face a face com agentes da polícia durante as cerimónias fúnebres do reformista Hu Yaobang, em Abril de 1989 – os seus protestos seriam esmagados seis semanas depois no massacre de Tiananmen
© Catherine Henriette | AFP | Getty Images | axios.com

  • 5 de junho: Membros da central sindical Solidariedade, liderada por Lech Walesa, são autorizados a candidatar-se a eleições legislativas na Polónia governada pelo Partido Operário de Unidade Socialista (POUS), do general Wojciech Jaruzelski;
  • 16 de junho: Cerca de 250 mil pessoas juntam-se na Praça dos Heróis, em Budapeste, para homenagear o reformador Imre Nagy, enforcado em 1958, dois anos depois de ter abolido o regime de partido único e denunciado o Pacto de Varsóvia, na “primeira revolução antitotalitária” que precede a Primavera de Praga e que, tal como esta, é esmagada por tanques soviéticos;
  • 30 de junho: Em Cartum, Omar al-Bashir derruba o governo democraticamente eleito de Sadiq al-Mahdi que negoceia a paz com os rebeldes do futuro Sudão do Sul (em 2011). O brigadeiro depois promovido a general e três vezes eleito presidente inaugura uma ditadura que chega ao fim, 30 anos depois, em 11 de abril de 2019, também num golpe de Estado militar, após persistentes manifestações populares;
  • 5 de julho: Seinfeld estreia-se nos Estados Unidos, apesar da relutância dos executivos da estação de televisão NBC e mantém-se no ar até 1998, após nove temporadas e 180 episódios. Os críticos que inicialmente arrasam esta “série sobre o nada” hão de aclamá-la como “a melhor sitcom de todos os tempos”, seguida por dezenas de milhões de fãs;

Série televisiva Seinfeld
© wtop.com

  • 17 de julho: O Vaticano e a Polónia restabelecem laços diplomáticos cortados há 50 anos;
  • 20 de julho: Na Birmânia/Myanmar, a junta militar no poder “pede” a Aung San Suu Kyi, líder da Liga Nacional para a Democracia, na oposição, que deixe o país. Ela recusa e é colocada em prisão domiciliária, até 2010. Torna-se uma das mais destacadas prisioneiras políticas em todo o mundo. Ganha vários prémios, incluindo o Nobel da Paz. Perde todo o prestígio após vencer as eleições de 2015 e assumir o cargo de Conselheira de Estado, perante o seu silêncio cúmplice na perseguição à minoria muçulmana Rohingya;
  • 18 de agosto: Conhecidos os resultados das eleições de junho, termina oficialmente o regime de partido único na Polónia. Toma posse o governo de Tadeusz Mazowiecki, um dos líderes do movimento Solidariedade;
  • 19 de agosto: Milhares de húngaros e austríacos organizam um “piquenique pan-europeu” em Sopron, junto à fronteira que divide o Leste e o Ocidente, apelando à “demolição das barreiras físicas e culturais”. Parece um simples convívio, com churrasco e cervejas, mas ao fim deste dia chuvoso aparecem também uns 700 cidadãos da RDA (homens, mulheres e crianças), de férias na zona do Lago Balaton, na Hungria. Aproveitando a festa apadrinhada por Otto van Habsburg, filho do último Kaiser austro-húngaro, os alemães quebram o frágil portão de madeira na fronteira e entram em liberdade em Sankt Margarethen im Burgenland, na Áustria. Atrás deles vêm outros milhares. Trinta anos depois, permanece um mistério quem organiza este evento. A recém-formada oposição húngara? O filho do Kaiser, representado no piquenique pela filha, Walburga? Os serviços secretos? Ou, talvez, todos eles? Três meses depois, cai o Muro de Berlim;

Cerca de dois milhões de pessoas, da Estónia, Lituânia e Letónia, formaram uma enorme corrente humana ligando Riga a Vilnius numa extensão de 675 km, num protesto pacífico contra a ocupação soviética dos países bálticos
© estonianworld.com

  • 23 de agosto: Cerca de dois milhões de habitantes da Estónia, da Letónia e da Lituânia formam uma corrente humana de 675 km, ao longo destas três repúblicas, reivindicando a independência que chegaria em 1991, após o colapso da URSS. Em 23 de agosto de 2019, três décadas depois da célebre “Cadeia Báltica”, cerca de 200 mil manifestantes em Hong Kong dão também as mãos, exigindo liberdade e democracia, em protestos contra o governo pró-Pequim;
  • 20 de setembro: Frederick de Klerk toma posse como presidente da África do Sul, iniciando um processo que, no ano seguinte, conduz à libertação de Nelson Mandela, depois de 27 anos de prisão, e ao desmantelamento do regime de apartheid;
  • 26 de setembro: As últimas tropas vietnamitas retiram-se do Camboja, antigo Kampuchea Democrático, invadido em 1979 com o apoio da União Soviética para derrubar o regime dos Khmer Vermelho e de Pol Pot, responsáveis pelo genocídio de cerca de dois milhões de pessoas;

O Dalai Lama, líder espiritual dos tibetanos recebe o Prémio Nobel da Paz
© dalailama80.org

  • 5 de outubro: O Prémio Nobel da Paz é atribuído ao Dalai Lama, em reconhecimento pela sua campanha não-violenta para pôr fim à ocupação chinesa do Tibete, onde é reverenciado como líder político e espiritual;
  • 9 de outubro: Milhares de manifestantes em Leipzig, na RDA, exigem reformas e a legalização de partidos políticos;
  • 18 de outubro: Erich Honecker demite-se de secretário-geral do Partido da Unidade Socialista da RDA e sucede-lhe Egon Krenz. Nas ruas, milhares de manifestantes clamam por reformas democráticas. Em 1991, na sequência da reunificação alemã, Honecker pede asilo político na Embaixada do Chile em Moscovo, mas é extraditado no ano seguinte e julgado pelos crimes do regime. O processo é interrompido, porque a sua saúde é frágil, e ele regressa ao exílio chileno, onde morre de cancro, em 1994;

Egon Krenz (em baixo, ao centro) sucede a Erich Honecker (em baixo, à direita) como secretário-geral do Partido da Unidade Socialista da RDA
© Elke Bruhn-Hoffmann | AFP

  • 23 de outubro: A República Popular da Hungria torna-se República da Hungria, exatamente 33 anos após a Revolução Húngara de 1956, e o antigo Partido Comunista passa a chamar-se Partido Socialista, abrindo caminho às primeiras eleições multipartidárias, em 1990; .
  • 28 de outubro: Milhares de pessoas na Checoslováquia exigem nas ruas liberdade e democracia. Forças de segurança reprimem os manifestantes e prendem vários dissidentes, entre eles Vaclav Havel, o futuro presidente. Gorbatchov apela ao regime em Praga que responda aos anseios de mudança;
  • 7 de novembro: Demite-se na RDA o governo de Egon Krenz, o último líder comunista, que seria preso em 1990 e apenas libertado em 2003;
  • 9 de novembro: A RDA abre os checkpoints no Muro de Berlim, permitindo a entrada na RFA sem vistos;
  • 10 de novembro: Alemães em júbilo derrubam o muro que se tornara obsoleto. No mesmo dia, após 35 anos no poder, demite-se o presidente e líder comunista da Bulgária, Todor I. Zhivkov. Sucede-lhe o ministro dos Negócios Estrangeiros, Petar T. Mladenov, consciente de que são inevitáveis reformas políticas e económicas;

Celebração da Revolução de Veludo que pôs fim ao regime comunista, dividiu pacificamente a Checoslováquia em dois países (República Checa e Eslováquia) e abriu caminho à eleição presidencial do dissidente Vaclav Havel
© Lubomir Kotek | AFP | getty Images | The Independent

17 de novembro: Começa na Checoslováquia a “Revolução de Veludo”, uma série de protestos de dezenas de milhares de manifestantes, frequentemente reprimidos pela polícia de choque apesar do seu carácter pacífico, exigindo o fim de 41 anos de partido único;

24 de novembro: Ao oitavo dia de gigantescas manifestações, demite-se o chefe do Partido Comunista da Checoslováquia, Milous Jakes. Aos 97 anos (nasceu em 1922), continua a viver em Praga, como reformado da política, presença assídua em comícios comunistas;

25 de novembro: Cerca de 500 mil pessoas desfilam em frente à sede do Partido Comunista em Praga e milhões de outras aderem a uma greve geral durante duas horas, reclamando eleições livres;

1 de dezembro: Depois de mais de sete décadas de profunda rivalidade ideológica, o líder da URSS, Mikhail Gorbatchov, e o chefe de 850 milhões de católicos romanos, João Paulo II, encontram-se pela primeira vez, no Vaticano. É um acontecimento que o primeiro descreve como “extraordinariamente importante”. Anunciam o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Kremlin e a Santa Sé, e registam a promessa de Gorby de respeitar “as necessidades espirituais e a liberdade de consciência” de todos os soviéticos.

Mikhail Gorbatchov e o Papa João Paulo II, num encontro histórico no Vaticano, anunciam o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Kremlin e a Santa Sé
© americamagazine.org

  • 3 de Dezembro: Mikhail Gorbatchov e George H. W. Bush encontram-se em Malta, anunciando o óbito iminente da Guerra Fria entre os EUA e a URSS;
  • 10 de dezembro: Cerca de 50 mil pessoas em Sófia exigem uma revisão constitucional e o fim do monopólio do poder do Partido Comunista da Bulgária;
  • 11 de dezembro: O processo de democratização acelera-se na Checoslováquia: 11 dos 21 membros do novo Governo não são comunistas;

Patricio Aylwin fez a transição da ditadura de Pinochet para a democracia no Chile
© AFP | STR

  • 14 de Dezembro: O democrata-cristão Patricio Aylwin chega à Presidência do Chile – o primeiro eleito democraticamente após 17 anos de ditadura. Profundo defensor da Comissão da Verdade e Reconciliação, que expõe os crimes de Pinochet, o advogado, escritor, professor e senador Aylwin morre em 2016;
  • 17 de dezembro: No dia em que nos EUA, a cadeia de televisão FOX emite o primeiro episódio de Os Simpsons – uma série que se tornou de culto –, Fernando Collor de Mello derrota Luiz Inácio Lula da Silva na segunda volta das presidenciais no Brasil e torna-se o primeiro chefe de Estado eleito por voto popular após 29 anos de regime militar. O fracasso do seu plano económico (extinção de 920 mil postos de trabalho, taxa de inflação anual de 1200%) e denúncias de corrupção forçam a sua impugnação em 1992;

Julgados e condenados por “genocídio e sabotagem económica”, o ditador romeno Nicolae Ceausescu e a mulher, Elena, foram executados em 25 de Dezembro
© The Independent

21 de dezembro: Em Bucareste, intensificam-se os protestos antigovernamentais, iniciados na cidade de Timisoara no dia 17 e sanguinariamente reprimidos por ordem de Nicolae Ceausescu, secretário-geral do Partido Comunista. Com as forças de segurança a aliarem-se aos manifestantes, o ditador e a mulher, Elena, tentam fugir do país num helicóptero. São capturados por soldados. Julgados e condenados por “genocídio e sabotagem económica”, são executados por um pelotão de fuzilamento no dia 25;

  • 29 de Dezembro: O escritor e filósofo Vaclav Havel é eleito presidente da República pelo Parlamento da Checoslováquia, o país que em 1993 se divide, pacificamente, em dois: República Checa e Eslováquia.
  • 31 de dezembro: Entra em vigor o Plano Balcerowicz, que deve o nome ao ministro das Finanças Leszek Balcerowicz, uma “terapia de choque” (1,1 milhões de pessoas ficam sem emprego quando empresas públicas perdem subsídios ou são privatizadas) que transforma a Polónia de uma economia estatizada numa sociedade capitalista.

* Anne McElvoy, “It Happened One Night”, TIME, 18 junho 2009

Este artigo foi publicado originalmente numa edição especial da revista SÁBADO, em Novembro de 2019 | This article was originally published in a special edition of the Portuguese news magazine SÁBADO, in November 2019

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