Hamid Dabashi: “A invenção do Oriente foi um projecto de domínio colonial”

Para o  professor iraniano Hamid Dabashi, amigo íntimo e colega de Edward W. Said na Universidade de Columbia, o Orientalismo, publicado há 25 anos, em 1978, é um livro que denuncia “um plano mercenário destinado a pilhar a riqueza de povos e negar-lhes a dignidade”. (Ler mais | Read more...)

The cover of Said's Orientalism contained a detail from the 19th-century Orientalist painting The Snake Charmer, @ Jean-Léon Gérôme (1824–1904).

Capa da edição original (1978) de Orientalismo, de Edward Said: detalhe de uma pintura do século XIX,  The Snake Charmer (“O Encantador de Serpentes”), de  Jean-Léon Gérôme (1824-1904),
© The New York Review of Books

Hamid Dabashi ficou desolado quando Edward Said morreu [em 25 de Setembro de 2003]. Num obituário que escreveu, o iraniano que preside ao Departamento de Cultura e Línguas da Ásia e do Médio Oriente, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, assumiu-se como um dos “raros que tiveram o privilégio de chamar amigo” ao colega palestiniano, uma figura de “grande humanidade, simplicidade e doçura”.

Dabashi conheceu Said no final dos anos 1980 quando entrou para a Universidade de Columbia. Já tinha lido o Orientalismo, a obra-prima do seu mestre, em 1978, quando era ainda estudante na Universidade da Pensilvânia.

O livro [editado em Portugal em 2004] influenciou-o para a vida. “Li-o no contexto da disciplina de Sociologia do Conhecimento, mas a imaginação, nova e ousada, redefiniu totalmente o objectivo do meu estudo”, disse-me,  numa entrevista, por e-mail devido ao seu pouco tempo disponível, antes de iniciar uma viagem.

Hoje, o próprio Dabashi, autor de numerosos livros como Authority in Islam: From the Rise of Muhammad to the Establishment of the Umayyads (1989), Theology of Discontent: The Ideological Foundation of the Islamic Revolution in Iran” (1993) ou Close Up: Iranian Cinema, Past, Present, Future” (2001),  realça o modo como “uma geração de intelectuais imigrantes” foram influenciados por Said.

“A forma do nosso carácter crítico, a voz da nossa dissidência, a textura da nossa política e a disposição da nossa coragem estão todas inscritas em cada palavra desse texto-revelação [Orientalismo]”, observou o professor que vive nos EUA desde 1976.

© Khan Academy

Como foi profundamente influenciado por Orientalismo, pode explicar por que motivo gerou este livro tanta controvérsia? Vinte e cinco anos depois da publicação da obra original, como devemos olhar para as ideias de Edward Said? Está de acordo com William B. Quandt que, na revista Foreign Affairs, atribuiu ao professor palestiniano a criação de “um novo campo de ‘Ocidentalismo’ que examina o modo como no Médio Oriente se olha para o Ocidente”?

O que Said tornou possível foi um modo inteiramente novo de olhar para o mundo. O “Orientalismo” teve um impacto revolucionário maciço a nível global. Quebrou efectivamente as barreiras disciplinares e facilitou uma nova maneira de pensar de uma forma radical e libertadora.

A noção do chamado ‘Ocidentalismo’ é uma anedota e emerge de uma fundamental ignorância da lógica do ‘Orientalismo”’, que é a relação entre conhecimento e poder.

A mera assunção de um ‘Ocidente’ é uma fabricação histórica do ‘Orientalismo’ – como é que os orientais poderiam produzir um conceito de Ocidente em quaisquer termos que não fossem os que confirmam ou negam o seu designado estatuto como orientais.

Não havia poder da parte deles para gerar a vontade de conhecimento comparável ao projecto colonial que o orientalismo serviu.

Said deixa claro que o Orientalismo não é uma tentativa de abranger uma região inteira. Ele centra a sua atenção no modo como estudiosos ingleses, franceses e americanos descreveram as sociedades árabes do Médio Oriente e Norte de África. Nem sequer discute a atitude de outros orientalistas. No entanto, muitos críticos, como George P. Landow, da Universidade de Brown, alegam que o livro “negligencia completamente a China, o Japão e o Sudeste Asiático, e diz muito pouco sobre a Índia”. Também argumenta que “ao pretender ser um estudo sobre como o Ocidente trata todo o Oriente, acaba por se centrar inteiramente no Médio Oriente. As suas generalizações sobre ‘o Oriente’ acabam por repetir o mesmo ‘Orientalismo’ que ele ataca em outros textos”. Qual o seu comentário?

Esta crítica não tem sentido. O significado e a verdade de uma descoberta ou de uma teoria não podem ser julgados pelo número de exemplos que evoca. Metodologicamente, se a amostra que um teórico discute é representativa da sua população então as suas propostas são válidas e universais.

Nada, desde a publicação do ‘Orientalismo’, de Edward Said, foi oferecido das áreas que ele não abrangeu que provem que as suas ideias originais estavam erradas. Pelo contrário, destacados académicos e intelectuais nas áreas que Said não cobriu corroboraram de facto a sua teoria.

© alephas.org

Uma outra crítica é a de que o Orientalismo assume que a projecção do ‘outro’ e suas nocivas consequências políticas são algo que só o Ocidente faz ao Oriente e não que todas sociedades façam umas às outras. Ou seja, é verdade que o que o Ocidente faz ao Oriente, como denuncia Said, o Oriente também faz ao Ocidente?

Não, não é verdade. Pela seguinte razão: Oriente e Ocidente são conceitos muito recentes – gerados e sustentados pelo projecto da modernidade colonial. Este absurdo de o Oriente fazer ao Ocidente o que o Ocidente faz ao Oriente assenta no fracasso em compreender o que Said escreveu.

E ele escreveu que a invenção do Oriente foi um projecto discursivo ao serviço do domínio colonial do mundo. Os seus exemplos provêm do mundo árabe e islâmico mas as suas conclusões são universais.

O que eu retenho da teoria de Said é mais histórico e pode assim ser explicado: a emergência da modernidade capitalista na Europa Ocidental desmantela duas classes, a aristocracia e o clero, socialmente ultrapassadas e economicamente irrelevantes.

O declínio dos pilares aristocráticos e eclesiásticos das sociedades europeias ocidentais anunciam a ascensão de uma nova classe média burguesa – que por ser turno antecipa o declínio do pensamento dinástico a História europeia.

A campanha capitalista precisava de uma economia nacional, que por sua vez gerou uma política nacional e logo de imediato uma cultura nacional.

Deste modo, os ingleses, os franceses, os alemães, os italianos, os espanhóis emergiram como sólidas identidades nacionais em detrimento de categorias subnacionais – comunidades que ficaram presas nestas metanarrativas e, embora se ressentissem e continuassem a lutar, foram forçados a ceder as suas aspirações subnacionais à supremacista lógica do capital.

O colapso do pensamento dinástico foi coincidente com o colapso do termo mais genérico da cristandade que costumava abranger as histórias dinásticas europeias.

Como categoria, a ideia de uma civilização ocidental é muito recente na sua cunhagem. O conceito de ‘Ocidente’ subsituiu a ideia de ‘Cristandade’ à medida que os emergentes Estados-nações substituíam dinastias históricas europeias.

Mas a modernidade iluminista que inventou ‘o Ocidente’ em nome da burguesia europeia tinha demasiado peso nos ombros e não acreditava seriamente na validade histórica da categoria que acabara de inventar – o seu racionalismo era demasiado brutal.

O Iluminismo burguês mobilizou um exército de mercenários orientalistas que andassem pelo mundo e inventassem ‘outras’ civilizações que corroborassem o que a civilização ocidental tinha acabado de inventar. Assim, a civilização islâmica, a chinesa, a indiana e outras foram inventadas para corroborar a nova fabricação cunhada: a civilização ocidental.

© christies.com

Said é também criticado por basear o Orientalismo em muito pouco conhecimento da história do imperialismo europeu e não-europeu, tratando o colonialismo ocidental como único. O que diz sobre isto?

O teste da verdade e significado de uma teoria não é contingente à sua compreensão mas à sua capacidade representativa. Nada que historiadores academicamente mais qualificados sobre imperialismo europeu e não-europeu ofereceram negou o mais essencial da verdade das observações de Said.

No entanto, a sua ousada imaginação libertou a paralisia epistémica de várias disciplinas – incluindo História, Antropologia, Sociologia, Teoria Literária e agora Estudos Culturais.

Há também quem diga que uma das alegações mais ofensivas de Orientalismo é a de que nenhum estudioso europeu ou americano pode “conhecer” o Oriente e de que todas as tentativas académicas de o fazerem (excepto as de Said) constituírem uma espécie de acto de pressão. O professor Landow, por exemplo, acusa Said de ter “silenciado outros impedindo-os de participar no debate”. E acrescentou: “Segundo Said, se alguém estudasse a gramática persa ou tâmil, a história do Islão ou do Hinduísmo, ou as sociedades da Arábia Saudita, Egipto ou Bangladesh, já pertencia à parte demoníaca. Estavam corrompidos pelo que Said definiu como Orientalismo”. Como reage a esta crítica?

Said não silenciou ninguém. Ele expôs a relação primorosa entre conhecimento e poder, uma teoria que pediu de empréstimo a Michel Foucault, e levou-a até ao grande mercado do significado global para além das suas limitações originais.

Ele também se mostrava impaciente com neo-orientalistas e peritos iletrados que não tinham o conhecimento fundamental do que o meu distinto amigo e colega Gayatri Spivak correctamente chama de “idiomaticidade” das línguas, literaturas e culturas.

Esses neo-orientalistas estão zangados com Said porque ele desvendou publicamente o segredo de que o conhecimento deles é elementar, prosaico e quase sempre desenquadrado do principal radar das sociedades que querem dominar conhecendo-as. Eles não as conhecem nem as dominam.

Malcolm Kerr, no International Journal of Middle Eastern Studies, comentou que, ao atribuir a toda uma tradição de estudos orientais por parte de americanos e europeus os pecados do minimalismo e da caricatura, Said comete precisamente o mesmo erro, quando exclui ou omite especialistas distintos como Goldzhiger ou Goiten,  Hourani ou Berque”. Qual a sua opinião?

A crítica do “Orientalismo” não é dirigida a orientalistas específicos. É uma crítica de um discurso de uma constituição discursiva do poder. Individualmente, os orientalistas podem ser tão competentes como Goldzihger ou ridículos como Bernard Lewis – o facto nada tem a ver com a verdade essencial da observação de Said sobre a natureza e a função do discurso orientalista.

© The New Yorker

Falando de Bernard Lewis, que critica Said por “rejeitar virtualmente todos os estudos ocidentais sobre o Médio Oriente”, como explica a profunda antipatia mútua que os separava?

Bernard Lewis é o destinatário do ‘Orientalismo’ – acabar com um queixume lamurioso. Bernard Lewis é a vingança do ‘Orientalismo sobre si próprio, a sua consciência pesada a desacreditar as suas próprias pretensões de credibilidade académica.

Bernard Lewis fez mais para evidenciar a falência constitucional do ‘Orientalismo’ do que Said alguma vez precisou de demonstrar.

Bernard Lewis é o melhor que podia acontecer à validade histórica da magistral descoberta de Said – de que o ‘Orientalismo’ foi um projecto mercenário destinado a justificar a mentira do colonialismo ao pilhar a riqueza de povos e negar-lhes a dignidade.

É óbvio que Orientalismo recebeu igualmente grandes elogios por todo o mundo, mas como explicar tantas críticas negativas que o livro provocou? Eram motivadas pela personalidade do autor ou mera inveja dos seus pares?

Foi tudo isso junto: a corajosa personalidade de Edward Said, a enorme inimizade e inveja que a sua obra gerou e, acima de tudo, por ele ter exposto a irrelevância académica, a falência histórica e o colapso dos orientalistas profissionais, excluindo-os de um mercado sério e decente. Agora essa gente está ao serviço de think-thanks igualmente desacreditados.

Que conselho daria aos leitores que têm agora à sua disposição o Orientalismo em português?

Eu invejo-os. Gostava de saber português, ter 18 anos e ainda não ter lido o “Orientalismo”. Gostaria de estar no lugar deles e não ter ainda conhecido a mente brilhante que lhes vai ser revelada.

Bem-vindos a Edward Said, é o que lhes digo. Numa voz generosa, magnífica, corajosa e libertadora acabam de encontrar um amigo para toda a vida!

“O que Edward Said (aqui numa foto em 2003) tornou possível foi um modo inteiramente novo de olhar para o mundo”, diz o amigo Hamid Dabashi. O seu livro Orientalismo teve um impacto revolucionário maciço a nível global”
© Jean-Christian Bourcart | Getty Images | Financial Times

Hamid Dabashi, discípulo fiel de Edward W. Said @ewisgropp.wordpress.com

Hamid Dabashi, discípulo fiel de Edward Said, “um amigo para toda a vida”
© ewisgropp.wordpress.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2003 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2003

Edward Said: “Não venho de lado nenhum, mas o mundo inteiro pertence-me”

O autor de Orientalismo, obra-prima editada em português 25 anos após a publicação original, nunca se sentiu bem em nenhuma cultura. Estava sempre em “minoria”: cristão numa sociedade muçulmana, árabe em escolas inglesas, palestiniano de cidadania americana. Morreu em 2003. Ganhou finalmente um lugar: na História. (Ler mais | Read more...)

Edward Said (1935-2003)
© Cortesia de | Courtesy of Icarus Films

Era com uma frase de Hugo de Saint-Victor, “Eu não venho de lado nenhum, mas o mundo inteiro pertence-me”, que Edward W. Said, o monumental intelectual palestiniano, autor de Orientalismo, gostava de se descrever.

Ou então como me disse, numa passagem por Lisboa, em Setembro de 1998, já gravemente doente com a leucemia que o haveria de matar: “Não me sinto em casa em nenhuma cultura”.

E por que motivo o admirador de António Gramsci, o teórico italiano do comunismo, nunca encontrou, como escreveu em Culture and Imperialism a sua “doce pátria” e preferiu “espalhar sempre o amor por todos os lugares? A explicação está em duas autobiografias.

A primeira em 1992 (Return to Palestine-Israel) em que relata o seu regresso à terra natal depois de 26 anos de ausência. A segunda em 2000 (Out of Place), que lhe mereceu insultos de alguns membros da comunidade judaica norte-americana, determinados em negar a veracidade da sua certidão de nascimento: Jerusalém, 1 de Novembro de 1935.

Nas primeiras memórias, ao evocar os caminhos tortuosos para localizar a residência dos seus antepassados em Talbiya, a oeste de Jerusalém, a cidade que israelitas e palestinianos reclamam como capital, Said refere que depois de a ter encontrado se recusou a entrar.

“Ali estava a casa, apercebi-me subitamente, com o seu ainda impressionante volume, a pequena praça arenosa, agora um parque elegante e bem tratado. (…) Disparei 26 fotografias naquele lugar que, ironia das ironias, tinha à porta uma placa com o nome International Christian Embassy.”

“Ter encontrado a casa da minha família, ocupada não por uma família judia israelita mas por um grupo cristão fundamentalista e pró-sionista, foi um abrupto golpe para um filho de palestinianos cristãos.”

“Ira e melancolia tomaram conta de mim, e quando uma mulher americana saiu de casa com um molho de roupa suja debaixo do braço e me perguntou se eu precisava da sua ajuda, tudo o que proferi foi um instintivo ‘Não, Obrigado!’

Para muitos palestinianos, ao relatar a sua viagem pessoal da perda à resistência, estava também a contar a viagem deles. E, por isso, muitos se reviam nas suas obras, apesar de Said se sentir um estranho entre os seus.

Edward Said e Mahmoud Darwish, considerado “o maior poeta nacional palestiniano”
© maraahmed.com

Em Out of Place, observa: “Todas as famílias inventam os seus pais e filhos, dão-lhes uma história, personalidade, destino e até uma língua. Houve sempre algo de errado na forma como eu fui inventado e predestinado a encaixar-me no mundo dos meus pais e das minhas quatro irmãs. (…) Às vezes eu era intransigente e tinha orgulho nisso.”

“Outras vezes parecia desprovido de qualquer carácter, tímido, inseguro, sem vontade. (…) Foram precisos 50 anos para me habituar ou, mais propriamente, para me sentir menos inconfortável com ‘Edward’, um tolo nome inglês imposto a uma família árabe de apelido Said. (…)”

“Durante anos, e dependendo de precisas circunstâncias, eu enfatizava o ‘Said’ em detrimento do ‘Edward’; outras vezes fazia o inverso ou ligava os dois tão rapidamente que nenhum deles se tornava claro”.

Para além do nome, havia outra angústia. “Nunca soube qual era a minha primeira língua, o árabe ou o inglês, ou qual delas era realmente minha sem margem para dúvidas.”

“O que eu sei mesmo é que as duas sempre estiveram juntas na minha vida, uma ressoando na outra, às vezes com ironia, outras com nostalgia, frequentemente corrigindo-se uma à outra ou fazendo comentários mútuos.”

Edward e Mariam Said, que dirige a Barenboim-Said Academy (BSA), criada em 2016, e também a Orquestra Divan Oriente-Ocidente (WEDO), co-fundada pelo seu marido, em 1999, com o maestro Daniel Barenboim
© Cortesia de | Courtesy of Icarus Films

As múltiplas raízes da mãe também ajudaram à confusão: nascida em Nazaré (actual Israel), era palestiniana embora a avó de Said fosse libanesa e o avô um ministro baptista originário do Texas.

“Toda a minha vida retive este sentido perturbador de muitas identidades – a maior parte delas em conflito umas com as outras – em conjunto com uma memória aguçada do sentimento de desespero que gostar de ter sido só árabe, só europeu e americano, só cristão ortodoxo, só muçulmano, só egípcio e, por aí adiante.”

Comentários como “Você não parece americano”, “Nasceu em Jerusalém e vive aqui?” ou “Que tipo de árabe é você?” deixaram Said eternamente deslocado, a ponto de confidenciar a um jornalista francês: “Parecia-me absurdo encontrar-me constantemente em minoria – árabe em escolas inglesas, palestiniano no Egipto, cristão numa sociedade muçulmana…”.

Passemos então agora em revista o percurso de Edward Wadie Said, o homem que deu palestras em mais de 150 universidades e cujos livros foram traduzidos em pelo menos 14 línguas.

Em 1947 partiu de Jerusalém, poucos meses antes da metade ocidental da cidade ter sido conquistada pelas forças judaicas na guerra que criou o Estado de Israel e levou ao êxodo de milhares de palestinianos.

Depois de passagens pelo Egipto, onde estudou, e pelo Líbano, mudou-se para os Estados Unidos, em 1951e requereu a cidadania norte-americana. Licenciou-se em Princeton e doutorou-se em Harvard e depois tornou-se professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade de Columbia. Também leccionou em Yale.

Se não tivesse feito mais nada, talvez Said fosse lembrado pelos seus pioneiros estudos culturais. Mas ele superou-se: em mais de três décadas de intervenções políticas (uma parte delas magnificamente compilada em The Politics of Dispossession – The Struggle for Palestinian Self-Determination 1969-1994) tornou-se o mais eloquente e visível advogado da causa palestiniana no Ocidente.

Abalado pela derrota árabe na Guerra de 1967, durante a qual Israel ocupou, designadamente, a Cisjordânia incluindo Jerusalém Oriental, e a Faixa de Gaza, Said empenhou-se em provar a “existência de um povo palestiniano com uma história, uma sociedade e, mais importante, o direito à independência.”

A actriz Najla Said, filha de Edward, publicou a autobiografia em 2013, Looking for Palestine: Growing Up Confused in an Arab-American Family. Escreveu: I was proud of my new green blazer with its fancy school emblem and my elegant shoes from France. But even the most elaborate uniform could not protect against my instant awareness of my differences. I was a dark-haired rat in a sea of blond perfection. I did not have a canopy bed, an uncluttered bedroom, and a perfectly decorated living room the way my classmates did. I had books piled high on shelves and tables, pipes, pens, Oriental rugs, painted walls, and strange houseguests. I was surrounded at home not only by some of the Western world’s greatest scholars and writers — Noam Chomsky, Lillian Hellman, Norman Mailer, Jacques Derrida, Susan Sontag, Joan Didion — but by the crème de la crème of the Palestinian Resistance
© Vogue

Neste seu activismo, foi-se associando cada vez mais à OLP e, em 1977, aderiu até ao Conselho Nacional Palestiniano (parlamento da organização no exílio). É desse ano uma das suas obras mais provocadoras, The Question of Palestine, onde aborda a colisão entre dois povos e as repercussões nas vidas do ocupante e do ocupado, assim com na consciência das potências ocidentais.

O livro foi posteriormente actualizado para incluir a invasão israelita do Líbano de 1982, que conduziu à dispersão de milhares de guerrilheiros da OLP por oito países árabes, a primeira Intifada (1987-2004) e a guerra do Golfo de 1991.

A filiação de Said na OLP não foi fácil. No ambiente hostil dos anos 1970 e 1980 em Nova Iorque, foi frequentemente classificado, por israelitas e palestinianos, de “cúmplice de assassinos”. Recebeu ameaças de morte mas não se deixou intimidar.

Em 1983, escreveu um artigo a defender Yasser Arafat contra uma conspiração fomentada pela Síria de Hafez al-Assad dentro da OLP, numa altura em que os seus familiares viviam, como ele sublinhou, “sob hegemonia militar de Damasco”.

Estar próximo de Arafat, no entanto, sempre o incomodou e, no final de 1991, demitiu-se do CNP. A razão do seu afastamento foi, oficialmente, a de que lhe tinha sido diagnosticada uma doença maligna.

Mas houve outros factores. Said ficou horrorizado com o apoio de Arafat a Saddam Hussein – ele abominava os ditadores árabes – após a invasão iraquiana do Kuwait, em 1990, prevendo com clarividência o efeito terrível que isso teria sobre os palestinianos residentes no Golfo Pérsico.

Também exprimiu a sua profunda desconfiança com a Conferência de Madrid que, em 1991, lançou as bases do “processo de paz” no Médio Oriente. Silenciou todas as críticas até 1993, quando decidiu denunciar publicamente os Acordos de Oslo (Peace and its Discontents, Gaza-Jericho 1993-1995) como a “Versalhes dos palestinianos.

A partir daí, não parou de atacar a incompetência e a autocracia de Arafat. Os laços entre os dois homens romperam-se definitivamente. Em Agosto de 1996, a Autoridade Palestiniana, num acto considerado de extremo rancor, proibiu os livros de Said nos territórios autónomos/ocupados.

O argentino-israelita Daniel Barenboim, o amigo com quem Edward Said formou uma orquestra de  jovens  do Egipto, Síria, Líbano, Tunísia e Israel, a Diwan Oriente-Ocidente
© universal-music.de

Remando contra a maré, o activista político e talentoso pianista (a mais importante influência musical na sua vida foi, revelou ele, Ignace Tiegerman, um judeu polaco que fugiu do seu país consciente do advento do nazismo), Said foi estabelecendo pontes com duas figuras essenciais: o palestiniano Azmi Bishara, defensor de um Estado binacional secular para judeus e árabes, e o argentino-israelita Daniel Barenboim, com quem formou uma orquestra de 80 jovens entre os 13 e os 25 anos, do Egipto, Síria, Líbano, Tunísia e Israel, a Divan Oriente-Ocidente.

Sobre Bishara, disse-nos Said quando esteve em Lisboa, no âmbito das Conferências da Arrábida: “Estamos a tentar promover a ideia de cidadania. Que não existe. Nem em Israel nem na Palestina. Isto é interessante.”

“Quer o nacionalismo judeu quer o árabe concentraram-se de tal modo no Estado e na componente militar que nunca se ocuparam da democracia. Não há tradição no sionismo ou no nacionalismo árabe do elemento democrático da luta. Nunca houve!”

“Sempre sacrificámos tudo pela nação. A primeira coisa que temos de desenvolver é o conceito de cidadania e de direitos”.

Bishara e Said representam uma corrente pouco expressiva nos territórios palestinianos, onde a maioria continua a defender dois Estados, mas a ambos é atribuída uma forte determinação.

Said clamava: “Ou se fazem compromissos com a História, ou a repensamos ou a revemos. O que eu quero é repensar a história das fronteiras e reescrevê-la de tal maneira que as fronteiras apareçam traçadas por seres humanos e susceptíveis de ser apagadas por seres humanos.”

“Aquele que diz que uma fronteira é um facto da natureza está errado. (….) É claro que o que nós devemos conquistar é a nossa identidade.”

Quanto a Barenboim, maestro titular da Orquestra Sinfónica de Chicago, nascido em Buenos Aires de pais judeus russos, cidadão israelita desde os 10 anos de idade, vale a pena reproduzir o que ele escreveu quando a sua “alma gémea” morreu: “Talvez a primeira coisa que Edward Said nos faz recordar seja a amplitude do seu interesse.”

“Ele estava à vontade não só na música, na literatura, na filosofia ou na interpretação política, mas era também uma das raras pessoas que vias as ligações e os paralelos entre diferentes disciplinas, porque tinha um entendimento pouco habitual do espírito humano e do ser humano, e reconhecia que paralelos não são contradições.”

Barenboim, que ofendeu judeus quando, em Israel, ousou tocar Wagner (o “compositor de Hitler”) e que emocionou palestinianos ao doar o seu Steinway ao Conservatório de Ramallah [que agora tem o nome de Edward Said], destruído pelo Exército israelita, tinha uma admiração profunda pelo amigo com quem partilhou concertos de Mozart, Beethoven, Schubert e Rossini.

Na carta de despedida sublinhou: “(Said) viu na música não só uma combinação de sons, mas percebeu o facto de que cada obra-prima musical é, como sempre foi, uma concepção do mundo. E a dificuldade reside no facto de que esta concepção do mundo não pode ser descrita em palavras.”

“Mas ele tinha consciência que ser indescritível não quer dizer não ter significado. Procurou sempre o que estava ‘para além’ da ideia, o que era ‘invisível’ aos olhos e o que era ‘inaudível’ aos ouvidos.”

Edward Said, a sua morte deixou o mundo mais pobre
©jsah.ucpress.edu

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO em 2003 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2003

Khalil Gibran: Um poeta entre a Terra e o Céu

Nem todos apreciarão o misticismo deste libanês-americano, que tem agora mais três livros editados em Portugal. Mas ninguém nega o seu estatuto de ícone da literatura árabe. (Ler mais | Read more..)

Khalil Gibran numa fotografia de Fred Holland Day
© Royal Photographic Society | National Media Museum | Science & Society Picture Library | The New Yorker

Gibran Khalil Gibran não é um escritor consensual. Uns não terão paciência para a espiritualidade que emana dos seus livros. Outros procuram nas obras deste libanês-americano algum conforto para a alma.

Não se pode, porém, negar a imensa influência que exerceu sobre a literatura árabe na primeira metade do século 20, até porque a ele se deve o nascimento do movimento romântico que quebrou com o neoclassicismo.

Embora os melhores livros de Khalil Gibran tenham sido escritos em prosa poética, ele foi capaz de revolucionar a linguagem da poesia, cunhando o que alguns designam de “estilo gibraniano”.

A sua obra-prima O Profeta, 26 ensaios poéticos escritos em 1923 e traduzidos para mais de 20 línguas, garantiu-lhe imortalidade entre várias gerações de leitores, sobretudo nos Estados Unidos, para onde emigrou quando deixou Bisharri, no Líbano, terra que o viu nascer a 6 de Janeiro de 1883.

Em Portugal, a editora VIDA lançou [em Setembro de 2003]  mais três livros de Khalil Gibran – Os Deuses da Terra, O Mensageiro e Areia e Espuma.

Todos eles acompanhados de uma breve biografia do autor, com pormenores interessantes, como o facto de o seu pai ter sido preso, em 1891, pelos turcos otomanos que então governavam a “Grande Síria” (Líbano, Síria e Palestina), sob a acusação de desvio dos impostos que colectava.

O exílio começou em 1894, quando Gibran, a mãe, duas irmãs e um meio-irmão, depois de confiscados os seus bens, se fixaram em Boston, onde se concentrava a segunda maior comunidade síria dos EUA, sobrevivendo com o rendimento de uma pequena loja. O pai, responsável pela pobreza familiar, permaneceu no “país do cedro”.

Retrato de Kahlil Gibran
© “Collection of the Telfair Museum of Art | Gift of Mary Haskell Minus”

Em Beirute, quando regressou para prosseguir os seus estudos, em 1897, Khalil Gibran começou a interessar-se pelos principais movimentos da Literatura contemporânea árabe. Terá sido nesta altura que descobriu a vocação para o desenho e pintura – que também acompanham as edições portuguesas das suas obras.

Em 1901, viajou para a Grécia, Itália, Espanha e França, onde desenvolveu o talento de pintor. Escreveu nessa altura Os Espíritos Rebeldes, livro que haveria de ser queimado em praça pública, na capital libanesa, considerado “herético” pelas autoridades maronitas.

Em 1908, Khalil Gibran instalou-se em Paris para frequentar a Escola de Belas Artes. Aqui trabalhou com Rodin e Debussy, por exemplo. Em 1919, voltou definitivamente aos Estados Unidos, para se dedicar à pintura e à poesia.

Depois de uma brilhante carreira, construída em grande parte como autodidacta – foi um padre que lhe ensinou os rudimentos do alfabeto, abrindo-lhe o mundo da história, da ciência e da língua –,Gibran morreu, em Nova Iorque, em 10 de Abril de 1931, no dia em que os cristãos orientais, como ele, celebram a Sexta-Feira Santa.

Duas semanas antes de Khalil Gibran sucumbir a uma dolorosa doença, descrita na autópsia como “cirrose do fígado com tuberculose incipiente num dos pulmões”, foi publicada uma das obras agora postas à venda em Portugal: Deuses da Terra.

No fim da vida, a pátria acolheu-o como um herói numa homenagem jamais dedicada a outro libanês. Afinal, também foi ele – filósofo, ensaísta, romancista, poeta místico e artista – que melhor retratou o seu país:

Infeliz a nação que está cheia de crenças e vazia de religião.

Infeliz a nação que veste a roupa que não teceu, come o pão que não amassou e bebe o vinho que não brota do seu lagar.

Infeliz a nação que aclama o novo governante com trombetas e lhe diz adeus com apupos, só para saudar outro novamente com trombetas.

Infeliz a nação cujos sábios emudeceram com os anos e cujos homens fortes ainda estão no berço.

Infeliz a nação dividida em fragmentos, cada fragmento considerando-se a si próprio uma nação”

Retrato de Khalil Gibran, da autoria de Rose Cecil O’Neill (1914), em exposição no Smithsonian American Art Museum, em Washington
© americanart.si.edu

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Setembro de 2003 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 2003

Sir Wilfred Thesiger (1910-2003): Explorador do século XX

A 24 de Agosto de 2003, “tranquilamente no hospital”, morreu o homem que, em 93 anos de vida, percorreu um total de 160 mil quilómetros (estimativas suas) pelas terras mais inacessíveis do mundo. A pé ou de camelo, de preferência, viajou de África ao Médio Oriente, em busca dos povos mais intrépidos. (Ler mais | Read more…)

Oriundo de uma família de diplomatas e militares britânicos, Sir Wilfred Thesiger pertencia a uma espécie de clã de classe alta que tinha por divisa spes et fortuna ou “esperança e sorte”. O seu pai era ministro responsável pela missão britânica na antiga Abissínia (actual Etiópia); o filho dizia que “não gostava da civilização” (Na foto, nos jardins da Fundação Cartier, em Paris, 2000)
© fondationcartier.com

A aventura começou no berço e definiu-lhe a personalidade: “o primeiro inglês a nascer na Abissínia”, actual Etiópia. Aqui, em 1917, testemunhar o dramático regresso do exército do imperador, após uma das mais sangrentas batalhas africanas, deixou-lhe marcas.

Na autobiografia escreveu: “Esse dia implantou em mim o anseio pelo esplendor bárbaro, pela crueldade e cor e pelo rufar dos tambores”.

Thesiger nunca gostou da “civilização”, mas foi em Inglaterra que a sua odisseia acabou. Primeiro com a reforma num lar de idosos, em Orford House. Depois com o internamento hospitalar, até ao óbito.

Ficará na História, e um notável contributo para esse lugar foi a proeza de atravessar Uruq al Shaiba, uma região de dunas montanhosas do Empty Quarter ou Rub’ al Khali.

O maior deserto de areia, com quase 600 mil quilómetros quadrados, foi durante séculos uma barreira inexpugnável aos que sonhavam viajar pelo centro da Península Arábica.

Musallim bin Anauf e Said bin Kabina, miúdos beduínos companheiros de Wilfred Thesiger, que, nas viagens levava consigo apenas o estritamente necessário: uma espingarda, uma máquina fotográfica (primeiro, uma velha Kodak do pai e, a seguir, uma Leica que protegia com pele de camelo), uma lupa e uma bússola
© Pitt Rivers Museum, Wilfred Thesiger Photo Collection

 Oriundo de uma família de diplomatas e militares britânicos, Thesiger pertencia a uma espécie de clã de classe alta que tinha por divisa spes et fortuna ou “esperança e sorte”.

O pai, ministro responsável pela missão britânica na região, morreu quando o jovem Wilfred, o mais velho de quatro filhos, tinha nove anos.

A família regressou então a Inglaterra e Thesiger foi estudar para Eton. Frequentou depois o Magdalen College de Oxford, onde ganhou vários prémios, incluindo o de ser o único britânico a receber um convite para assistir, em 30 de Novembro de 1930, à coroação de Ras Tafari como Imperador Hailé Selassié

Concluída a formatura, Thesiger regressou à Abissínia, onde, em 1934, resolveu o mistério do desaparecimento do rio Awash, que nasce nas montanhas a ocidente de Addis Abeba, flui para leste mas nunca chega ao mar. Essa viagem, confessou, foi “a mais perigosa de todas”.

Sir Wilfred Thesiger ficará na História, e um notável contributo para esse lugar foi a proeza de atravessar Uruq al Shaiba, região de dunas montanhosas do Empty Quarter. O maior deserto de areia, quase 600.000 Km quadrados, foi durante séculos uma barreira inexpugnável aos que sonhavam viajar pelo centro da Península Arábica
© Pitt Rivers Museum, Wilfred Thesiger Photo Collection

Ele e os seus homens penetraram em território onde duas expedições italianas e outra do exército egípcio tinham sido aniquiladas pela tribo dos Danakil, guerreiros conhecidos por coleccionarem os testículos dos inimigos.

Thesiger descobriu que o rio tinha a sua foz num lago salgado, mas mais importante do que a descoberta foi ter regressado vivo com todos os seus homens. Tinha apenas 23 anos.

A partir desse momento, Thesiger decidiu avançar para a “colorida e árdua” incursão no Empty Quarter. Para a concretizar, numa região de xeques muçulmanos desconfiados de cristãos, precisava de uma missão, e a cobertura foi-lhe dada pela Middle East Anti-Locust Unit (Unidade Anti-Gafanhotos do Médio Oriente), um ramo da organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Acompanhado dos seus beduínos, Thesiger levou apenas o estritamente necessário: uma espingarda, uma máquina fotográfica (primeiro uma velha Kodak do pai e a seguir uma Leica que ele protegia com pele de camelo), uma lupa e uma bússola.

Com os Bedu aprendeu os duros códigos de honra, paciência, generosidade e hospitalidade que punham à prova toda a coragem de um ser humano.

“Algumas pessoas insistirão em que vivem melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista – eu não acredito nisso!”, sentenciou Thesiger. “A nossa extraordinária ganância pelos bens materiais, a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância hão-de matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar” (Na foto, o grande explorador no Dubai, em Abril de 1949
© Pitt Rivers Museum, Wilfred Thesiger Photo Collection

Na despedida do Empty Quarter, em 1950, o autor de Arabian Sands – clássico da literatura de viagens que, como todos os seus livros, está recheado de preciosas fotografias a preto e branco – Thesiger ainda vagueou pelo mundo na década seguinte.

Foi para o Sul do Iraque “viver como os búfalos”, com os Madan, “árabes dos pântanos”, mas achou os verões insuportáveis e, em 1951, refugiou-se no mais ameno Curdistão (Norte).

Em 1953, podiam encontrá-lo no Paquistão e, em 1956, no Afeganistão, onde se juntou aos Nuristanis. Quando a revolução iraquiana de 1958 o constrangiu a abandonar o país, Thesiger voltou à Etiópia, em 1960, para novas explorações.

Em 1968, no Quénia, infiltrou-se entre os Samburu, uma tribo que ao ver a sua figura esguia, grandes orelhas e o nariz pontiagudo lhe deu o cognome de “grande elefante que caminha sozinho.” Nos anos 90, a saúde frágil forçou-o a instalar-se na pátria dos antepassados. Ficou amargo.

“Algumas pessoas insistirão em que vivem melhor depois de trocar a dureza e a pobreza do deserto pela segurança de um mundo materialista – eu não acredito nisso!”, sentenciou o nobre nómada Thesiger.

“A nossa extraordinária ganância pelos bens materiais, a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância hão-de matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar.”

[África fotografada por Sir Wilfred Thesiger pode ser vista aqui.]

Sir Wilfred Thesiger, o nobre nómada
© soundcloud.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Agosto de 2003 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on August 28, 2003

Ibrahim não é árabe e Moisés não é judeu

O francês Eric-Emmannuel Schmitt escreveu um livro delicioso com pouco mais de 50 páginas. A obra já passou a filme, com Omar Sharif recuperando o talento de Doutor Jivago (Ler mais | Read more…)

Eric-Emmanuel Schmitt, o autor de O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão
© Corbis

“Quando fiz onze anos parti o mealheiro e fui ver as putas”. Assim começa, na Paris dos anos 1960, a mágica aventura de Moisés, um rapaz que se torna amigo de Ibrahim, merceeiro que lhe ampara a orfandade na Rue Bleue, onde mulheres profissionais vendem amor.

O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão (Ed. Ambar – Biblioteca de Bolso), de Eric-Emmannuel Schmitt, lê-se com a mesma sofreguidão com que Moisés entrega o corpo às mulheres que se “disfarçam de Brigitte Bardot para atraírem os clientes”.

O diálogo travado entre os dois protagonistas, a amizade e cumplicidade entre ambos, resultam numa história terna e maravilhosa.

“Quando comecei a roubar o meu pai para o castigar por ter desconfiado de mim, comecei também a roubar o senhor Ibrahim”, confessa Moisés. “Sentia-me um pouco envergonhado mas, para lutar contra a minha vergonha, na altura de pagar pensava com muita força:

No fim de contas, é apenas um árabe!

(…) — Não sou árabe, Momo; venho do Crescente de Ouro.

Agarrei nas compras e saí da mercearia completamente atordoado. O senhor Ibrahim ouvia-me pensar! Portanto, se me ouvia pensar, talvez soubesse que o roubava…

No dia seguinte não roubei nenhuma lata, mas perguntei-lhe:

—         O que é o Crescente de Ouro?

—         (…) É uma região que vai da Anatólia à Pérsia, Momo.

No dia seguinte, ao pegar no porta-moedas, disse-lhe:

—         Não me chamo Momo; chamo-me Moisés.

No dia seguinte foi ele que disse:

—         Sei que te chamas Moisés; por isso te chamo Momo, pois é menos impressionante.

No dia seguinte, ao contar os meus cêntimos, perguntei:

—         Que diferença lhe faz? Moisés é um nome judeu, não é árabe.

—         Não sou árabe, Momo, sou muçulmano.”

Assim decorriam as conversas na rua que de azul só tinha o nome. “Uma frase por dia”, até que Ibrahim começou a dar lições de vida a Moisés. Ensinou-o a sorrir para ser feliz — “a arma absoluta”.

Encorajou-o a recorrer às mulheres “que conhecem bem o ofício”, porque “as amadoras” estavam reservadas para “os sentimentos”. E quando estes chegaram, mesmo não correspondidos, Ibrahim aconselhava: “O que dás, Momo, é teu para sempre: o que guardas, está perdido para sempre.”

O merceeiro arranjou a Moisés um dentista. Comprou-lhe sapatos novos. Passeou com ele pelos Campos Elíseos e pelas lojas onde “as montras dos ricos são pobres”, porque o luxo está todo no preço.

Ibrahim surpreendeu “Momo” quando saboreou um doce de anis, para logo clarificar que os sufis (corrente mística do islão) bebem álcool.

Mais tarde, seria o seu pai a baralhá-lo quando revelou que não acreditava em Deus. “Ser judeu não tem a ver com Deus?”, inquiriu Moisés. “Para mim, já não”, replicou o pai. “Ser judeu é ter simplesmente uma memória. Uma má memória”.

Perdido, “Momo” pensou pedir de empréstimo o Corão que guiava a existência de Ibrahim. Não queria ficar deprimido como o pai, que se suicidou numa linha-férrea em Marselha, talvez angustiado por não ter seguido nos comboios da morte onde os nazis cremaram a sua família.

Ser judeu “é só uma coisa que me impede de ser outra”, dizia inconformado Moisés ao sábio Ibrahim.

Quando a mãe apareceu em casa depois de o abandonar na infância, Moisés disse-lhe que se chamava Mohammed e renegou-a. Ibrahim adoptou-o como filho. Os dois compraram um carro, com um saco de notas, e partiram para o Crescente de Ouro.

Para saber o que se passou depois é melhor ler o livro, que o cineasta francês François Dupeyron transformou numa “comédia dramática, Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran. A Omar Sharif, o talentoso Doutor Jivago, foi dado o papel do doce “príncipe da mercearia”.

[Os  livros de Eric-Emmanuel Schmitt foram traduzidos para 43 línguas e as suas peças são representadas regularmente em mais de 50 países. Em Portugal essa missão coube ao Teatro Meridional: Versão Cénica e Encenação Miguel Seabra | Interpretação Miguel Seabra e Rui Rebelo. 

Em 2000, Schmitt recebera o Grande Prémio de Teatro da Academia Francesa, pelo conjunto da sua obra teatral, e em 2004 o Grande Prémio do Público, em Leipzig.]

ibrahim

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Setembro-Outubro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on July 2003 

Saddam Hussein: Auto-retrato de um ditador

O esforço foi titânico mas, ao fim de várias horas, uma robusta estátua de Saddam Hussein, em Bagdad, ruiu [em 9 de Abril de 2003] aos pés de uma multidão em delírio. Com o tronco e os pés do tirno arrancados do pedestal, caiu também, simbolicamente, o regime que há um quarto de século governava o Iraque.  (Ler mais | Read more...)

 

O sonho de Saddam Hussein, colocado na boca do protagonista de um livro cuja autoria lhe foi atribuída, era o de ser “levado em triunfo”, e ficar com o nome “gravado no mais fundo do coração” de cada um dos 26 milhões de habitantes da antiga Mesopotâmia.

Deposto o líder [em 2003], leia-se o que ele escreveu sobre si próprio em Zabiba e o Rei (Publicações Europa-América) uma espécie de conto das Mil e uma Noites que os serviços secretos norte-americanos e israelitas não hesitaram em classificar como obra de Saddam, apesar do anonimato [“Pelo seu autor”] assumido de quem o escreveu.

Não falta nada na suposta autobiografia do admirador de Saladino, o que venceu os Cruzados em Jerusalém. Zabiba pode ser o Iraque, mas também a mulher casada que ele seduziu para substituir a mãe dos seus filhos.

A “violação” de Zabiba, em 17 de Janeiro de 1991, evoca a guerra do Golfo de 1991 que expulsou o Iraque do Kuwait. O cozinheiro que é morto por querer envenenar o monarca faz lembrar o mesmo homem que o primogénito de Saddam, Uday Hussein, assassinou quando descobriu que havia uma amante na casa paterna.

São também quase proféticos os preparativos para resistir a um ataque ao palácio. E é intrigante que, no último capítulo, o rei morra sem deixar um herdeiro. Extractos do que parece um auto-retrato do tirano que deixou um país pintado e esculpido à sua imagem:

A ADULAÇÃO

 

(…) Nesse tempo, este ilustre soberano tinha conseguido impor o seu respeito a todos. Uns posternavam-se diante dele, por respeito, por admiração, por confiança ou por desejo de paz, enquanto outros o faziam por temor. Era o maior rei do seu tempo, e o seu poder estendia-se aos quatro cantos do mundo.

Os reis dos lugares mais recônditos do mundo antigo serviam-se do seu nome quando não conseguiam fazer-se obedecer ou impor-se ao seu povo, para que as pessoas se curvassem perante eles, para governarem e elevarem-se acima dos outros. (…)

O ISOLAMENTO

© David Furst | AFP | Getty Images

© David Furst | AFP | Getty Images

O rei e Zabiba seguiram por uma longa galeria, bastante sombria, que mergulhava no coração do palácio. As velas acesas a todo o comprimento permitiam apenas reconhecer o caminho para o pavilhão real.

– Não acha, Majestade – disse Zabiba -, que esta galeria, e talvez todo o palácio, parece assustadora?- É bem possível, pois aqui, como no resto do palácio não existe qualquer janela aberta para o exterior. (…)

– Por que é que se fecha dentro de um palácio?

– Eu estou fechado, Zabiba? Os guardas que viste não estão aqui para me prender mas para me proteger, e para me darem prestígio.

– Eles fecham-no… esses guardiões. Neste palácio, não vi nada a não ser portas fechadas. Não vi nenhuma vida a manifestar-se, excepto a sua alma ambiciosa. (…) Majestade, como podemos amar a liberdade e construir um palácio com tão poucas janelas, para que a luz e o ar possam penetrar? (…)

O MEDO

 

– Não te precipites, Zabiba, eu vou explicar-te… se as janelas são pouco numerosas, é por razões que se prendem com a segurança do palácio. Quantas mais janelas há, mais difícil é garantir a vigilância e a protecção de um lugar.

– Mas isso torna um palácio assustador, Majestade…O pavor não é inimigo daquele que governa? (…) Repare, Majestade, as paredes deste palácio que existe apenas para si são espessas e cegas; impedem-no de ver o que se passa no exterior. Tudo foi concebido para não ver ninguém.

– Concebido para responder às exigências do poder e da segurança.(…)

– Tal como está, o vosso palácio é um viveiro de diabos… Os diabos desenvolvem-se nos palácios desertos. O seu ar é insalubre. É um lugar onde os diabos se reproduzem e onde, com eles, as conspirações se multiplicam. Ficam com ciúmes, têm vontade de ser rei. Estas paredes abafariam a vossa voz se os conjurados o agredissem. Impedi-lo-iam de fugir, ou de receber auxílio. Não poderia lutar à sua maneira. Ainda mais: os recantos do palácio escondem punhais e flechas que o ameaçam. (…)

A CONSPIRAÇÃO

© postwarwatch.com

© postwarwatch.com

– Toda a gente, incluindo cozinheiros e criados, participavam nestas intrigas, cada um consoante os seus interesses.

– Até os cozinheiros, Majestade?

– Sim, até os cozinheiros, Zabiba. Eles entendem-se para arranjar as intrigas e as conspirações homicidas. Por exemplo, um cozinheiro pode preparar um dos pratos preferidos do rei e dá-lo a uma das mulheres deste, que fingirá tê-lo preparado pessoalmente. (…) Por vezes, um segundo cozinheiro acrescenta sal às escondidas do primeiro para arruinar o prato, ou uma substância que neutraliza o efeito de um produto mágico, ou ainda uma ratazana morta e em decomposição…

– As ratazanas em decomposição são utilizadas nas intrigas reais?

– Sim, Zabiba, são. Acontece também que serpentes sejam dissimuladas em cestas de frutas. Quando o meu pai descobria uma serpente na sua cesta, o responsável pela cozinha era condenado à morte. Por vezes a serpente não era venenosa, mas como o considerava perigoso, sentia-se visado. A situação era tão grave que o meu pai (…) já não comia nem bebia em casa das suas mulheres. (…) Estas precauções visavam, claro, prevenir qualquer eventual tentativa de envenenamento ou de bruxaria. (…)

A POLÍCIA SECRETA

 

– Que censuras aos meus polícias para que não mereçam ser qualificados de humanos?

– Não, Majestade, Deus me livre, não censuro nada aos vossos polícias. Mas os polícias do rei podem amar?

– Os polícias – respondeu o rei espontaneamente – assemelham-se ao seu rei. Amam se o seu rei ama. (…).

– Claro que é verdade, Majestade. Mas eles não se assemelham a si…

– Em que é que não se assemelham?- Os seus métodos e os seus comportamentos, Majestade, são herdados de reinados anteriores durante os quais eles tinham liberdade para tratar o povo como lhes convinha, tendo em conta que ele seria sempre degolado, pela polícia.

– E tu, Zabiba, como é que os vês?

– Eles seguem-me permanentemente. Estou bastante farta. Já não posso respirar à vontade… (…)

O PODER

© David Furst | Getty Images

© David Furst | Getty Images

– Quando ela [a coroa] está sobre a vossa cabeça, talvez seja seu prisioneiro e ela o acorrente. (…) Se todas qualidades se reunissem em si, transformar-se-ia num deus, seria mais um deus que um rei, Majestade.(…)

– Não quero ser como um deus confinado a um templo, ao qual se apresentam oferendas. Quero (…) lamentar os mortos e condenar a traição e a indiferença…(…) Quando ele anunciou ‘condenar a traição’ [Zabiba] teve algum medo. Abriu muito os olhos e murmurou:- Os reis abominam a traição, mas cultivam-na nos corredores dos seus palácios (…). É nas alcovas dos reis, daqueles que partilham o seu poder e dos príncipes que se encontram os que traem.(…) A partir desse dia [em que um primo tentou matá-lo], o rei jurou (…) residir sempre fora dos palácios. (…)

A REPRESSÃO

 

– Se permite, Majestade, pedia-lhe que desse a ordem de prender todas as pessoas que, estando ao corrente da conspiração, não o informaram ou que participarem nela…

– Mas apenas uma pessoas me atacou (…)

– Não era senão a ponta da flecha envenenada, Majestade. Devemos agora procurar o arco, a aljava e as flechas que ainda não foram atiradas, quer porque a ocasião ainda não se proporcionou, quer porque o seu objectivo não era suficientemente preciso…

– Mas o assassino serviu-se de uma espada e não de uma flecha, Zabiba.

– Era uma simpLes imagem, Majestade. (…) A flecha representa uma pessoa, as outras flechas as outras pessoas e a aljava simboliza os comanditários e os organizadores deste acto criminoso… Quanto ao arco, é o símbolo da escolha do plano e dos meios necessários para atingir os objectivos. (…)

– Seria preciso prender algumas pessoas por precaução – disse Zabiba. Pois não seria razoável deixar a pessoas desesperadas a possibilidade de nos atacarem. (…)

A SUCESSÃO

Qusay Hussein (à esquerda) e Uday Hussein, os filhos de Saddam Hussein, aspirantes à sucessão. Também eles foram mortos. © Direitos Reservados |All Rights Reserved

Qusay Hussein (à esquerda) e Uday Hussein, os filhos de Saddam Hussein, aspirantes à sucessão. Também eles foram mortos

– Agora, Majestade, suponhamos que emerge do povo uma criança com as qualidades necessárias para se tornar rei ou príncipe. Não acha trágico, infeliz e ridículo que seja preferido para suceder a um rei o seu filho ou o seu irmão unicamente porque essas pessoas existem? Por que supomos que o filho de um rei é mais distinto do que um filho do povo e por que teria ele o direito de reinar pelo simples facto de ser filho do soberano? Porquê ele, os seus irmãos e os seus tios poderiam reinar, e apenas eles, por este simples facto e não pelas suas competências? (…)

– Mas se o soberano falecesse ou fosse morto numa guerra, quem se encarregaria dos assuntos do reino?- O grupo de príncipes poderia escolher, no seu seio, aquele que se tornaria rei, livremente e segundo regras que seriam instituídas para este efeito… Uma vez que seriam todos livres e iguais, escolheriam o melhor entre eles. (…)

OS OUTROS REGIMES

 

– Sei e ouço falar de príncipes e de reis que deliberam formalmente com reis estrangeiros para dar a impressão que são seus iguais. As decisões tomadas em nome deles dão igualmente a impressão de igualdade de escolhas, mas a realidade é completamente diferente… Certos monarcas assinam decisões fundamentalmente opostas aos interesses do seu povo e da sua nação. (…) Por vezes assinam também tratados autorizando exércitos estrangeiros a violar a integridade do seu país ou a anexar partes do seu reino. (…)

– Sabes que os reis que nos rodeiam aceitaram que estrangeiros se instalem no meio deles? Será que isto denigre a imagem deles?- Evidentemente, Majestade. A influência que os estrangeiros têm numa terra que não é deles, quer estejam ali pela força ou por terem sido aceites por fraqueza, exerce-se à custa dos interesses e das tradições dos filhos do país tocado. Os reis e os governos já não podem tomar decisões independentes. (…)

– No entanto, os reis que nos rodeiam afirmam que é melhor assim…

– Em que é que é melhor, Majestade?

– Eles dizem que preferem ver os estrangeiros nas suas terras e a sua capacidade de decisão reduzida, porque isso permite reprimir as oposições! (…)

A GUERRA DE 1991

 

Zabiba, montada no seu cavalo, dirigiu-se para a sua casa, situada a pouco mais de cinco léguas da cidade… (…) Ia bater com o calcanhar no cavalo para mudar de direcção quando viu diversos cavaleiros a taparem-lhe o caminho. (…) Dois dos atacantes desviaram a sua atenção daquele que a havia agredido, ameaçando-a com as suas próprias armas. (…)

Ela tentou defender-se como pôde. Depois de se ter debatido durante muito tempo, resignou-se por fim à sorte que a esperava. O homem comportava-se como um cão enraivecido. A violência dos seus golpes tinha deixado o corpo de Zabiba ensanguentado. Perdeu a consciência e ele violou-a. O espírito daquele cão não foi atravessando pela menor piedade. O sentido de honra era-lhe desconhecido. (…)

Apesar do rosto ensanguentado e da mordaça, ela conseguiu morder um músculo do pescoço do seu agressor, deixando-lhe uma marca bem visível. (…) A necessidade de se vingar dos seus celerados apareceu aos olhos de Zabiba mais essencial do que qualquer coisa…

– A vingança cura as feridas da alma, é prioritária. Não se resolve um problema desta natureza com um acordo. (…)

– Resisti ao violador até o meu corpo estar cheio de feridas e eu ter perdido todas as minhas forças. Fiquei inerte como um cadáver…Sim, fiquei como um cadáver. Um cadáver é desonrado pela violação? Uma pátria e a história de um povo são desonrados pela violação se o povo for exterminado e não restar ninguém capaz de pegar em armas? (…)

Se trair o seu rei é duro, trair a sua pátria, a sua história e o seu povo é ainda mais penoso para o espírito. (…) O que faz o usurpador ou todo o desesperado que está na iminência de ser apinhado, Majestade… Vão dar tudo por tudo. Vão atacar pelas costas, ao estilo dos reis de Élam. Poderão atacar o palácio de Vossa Majestade..

– Tens razão, Zabiba, vou colocar o exército e a polícia em estado de alerta, para que estejam preparados para a batalha. Devem estar em posição para resistir a um eventual cerco do palácio, até à morte ou à neutralização dos conspiradores e dos invasores. Eles perderão… (…)

A RELIGIÃO

 

– Acreditas num deus diferente dos nossos deuses, Zabiba?

– Sim, Majestade. Creio num só Deus. Creio num só criador e não no que Vossa Majestade ou eu criamos.(…) Peço-lhe que diga: ‘Sem Deus e sem a Sua clemência (…) estaríamos os dois mortos’. (…)

– Sim, juro por Deus, pois sem Deus e sem o povo estaríamos mortos…Zabiba reparou com prazer que o rei tinha jurado por Deus pela primeira vez… Nunca o tinha feito antes. (…)

A ASPIRAÇÃO DE GLÓRIA

 

– Aposto que se os reis tivessem um mínimo de flexibilidade (…) o seu trono estaria consolidado e o seu povo conduzi-los-ia aos pináculos. Vivos, transportá-los-iam em triunfo e, mortos, carregariam o seu caixão aos ombros.

– O meu povo vai levar-me em triunfo se eu fizer o que pedes? E fará o mesmo quando eu morrer?- Sim, Majestade, mas após uma vida longa. O povo leva-lo-á em triunfo, gravará o vosso nome no mais fundo do coração. (…)

A MORTE

Em plena reunião alguém foi segredar alguma coisa ao ouvido do presidente da sessão. Disse-lhe que o rei acabava de morrer, no palácio.

[Saddam Hussein foi enforcado, a 30 de Dezembro de 2006, depois de condenado por crimes contra a Humanidade por um Tribunal Especial Iraquiano que o julgou pelo assassínio de 148 xiitas na cidade de Dujail em 1982. Este massacre terá sido ordenado como represália por uma tentativa de assassínio de que foi alvo.]

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 10 de Abril de 2003 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on April 10, 2003

“Erdogan não é moderno nem moderado. É um oportunista”

Depois da implosão da coligação de Bülent Ecevit, a Turquia de Atatürk coloca no poder um partido de bases religiosas. O AKP, cujo líder, Recep Tayyip Erdogan, esteve impedido de se candidatar a primeiro-ministro, afirma-se “democrático e pró-ocidental”. (Ler mais | Read more…)

Recep Tayyip Erdoğan é o 12º e actual Presidente, graças a eleições directas, em 2014, sem precedentes (depois de medidas introduzidas num referendo constitucional em 2007) , em 2014. De 1994 a 1998,foi presidente da Câmara de İstambul, e de 2003 a 2014 foi o 36ª primeiro-ministro da história do país. Foi fundador do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) in 2001,e venceu três eleições gerais three em 2002, 2007 e 2011. Durante os seus mandatos foi desmantelando grande parte da herança de "pai da nação", Mustafa Kemal Atatürk, cuja foto se vê nesta imagem com a bandeira nacional. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Recep Tayyip Erdoğan é presidente da Turquia desde 2014, graças a eleições directas sem precedentes (depois de medidas introduzidas num referendo constitucional em 2007). Durante os seus mandatos, tem sido desmantelada grande parte da herança do “pai da nação”, Atatürk, cuja foto se vê nesta imagem

Talvez ninguém tenha resumido tão bem a importância das eleições [de 2002] na Turquia como o jornal britânico Financial Times que, em título, escreveu: “Este fim-de-semana, um membro da NATO, um candidato à União Europeia e um aliado dos Estados Unidos deverá levar antigos islamistas para o governo.”

O diário financeiro de Londres também citou uma publicação turca, para sublinhar os desafios que os próximos governantes de Ancara vão enfrentar: “Os quatro cavaleiros do Apocalipse estão a galope a caminho da Turquia.”

É uma referência à eventual guerra contra o vizinho Iraque; ao não resolvido conflito de Chipre; ao braço-de-ferro com a UE para que marque negociações de adesão; e aos esforços para salvar a economia nacional da sua pior recessão desde 1945 – a dívida externa totaliza 126 mil milhões de dólares.

O escrutínio, antecipado pela ruptura da coligação de três partidos dirigida pelo primeiro-ministro Mustafa Bülent Ecevit, deixou o mundo em estado de ansiedade. A Turquia é um dos mais sólidos componentes da Aliança Atlântica.

As suas bases foram usadas na guerra do Golfo em 1991. Continuaram a ser utilizadas para patrulhar as zonas de exclusão aérea (no Norte curdo e no Sul xiita) do Iraque, e deverão servir de rampa de lançamento para novos ataques contra Saddam Hussein [1937-2006].

A luz verde para uma possível intervenção norte-americana num país muçulmano vizinho será dada pelo próximo Governo. E o próximo Governo, indicam as sondagens, deverá ser dominado pelo pró-islamista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP).

O AKP é liderado por Recep Tayyip Erdogan, ex-presidente da Câmara de Istambul, impedido de se candidatar à chefia do Executivo por causa de um alegado delito de opinião (a leitura de um poema que compara os minaretes das mesquitas a baionetas) cometido em 1999.

Enquanto o seu processo judicial aguardava conclusão, Erdogan fez campanha por todo o país, atraindo os desiludidos que atribuem a crise aos partidos tradicionais.

Apresentando-se como um muçulmano conservador pró-ocidental, favorável à manutenção da Turquia na NATO e às reformas impostas pelo FMI e pela UE, Erdogan conseguiu, aparentemente, transformar-se em alternativa de poder.

“O AKP está em ascensão porque as pessoas estão cansadas dos velhos partidos”, disse Murat Yetkin, editor no jornal Radikal [em tempos muito influente, deixou de ser publicado em 2016, invocando razões financeiras], em Ancara. “A transferência de votos para os islamistas não significa uma subida do Islão militante – é apenas um voto de protesto.”

Yetkin desconfia das roupagens de Erdogan: “Não é moderno nem moderado; é um oportunista.” No entanto o seu partido “pode vir a governar sozinho, se obtiver 267 ou mais lugares do total de 550 do Parlamento – neste caso, não precisaria sequer de uma coligação”, acrescentou Yetkin, numa breve entrevista, por correio electrónico.

Para o Financial Times, a melhor “zona-tampão” contra os militares, que já forçaram a queda de um governo islamista em 1997 [liderado por Necmetin Erbakan, 1926-2011], é uma aliança entre o AKP e o CHP (Partido Republicano do Povo), fundado por Atatürk, “o pai dos turcos”, e dirigido por Deniz Baykal.

O CHP estava em queda nos inquéritos de opinião até que, há dois meses, entrou nas suas fileiras o arquitecto do acordo com o FMI: Kemal Derviş, ex-ministro da Economia, que desfez a sua parceria com Ecevit.

Um governo AKP ou AKP-CHP terá que enviar, em primeiro lugar, um sinal aos mercados de que não se desviará do programa do FMI e que vai aprovar um orçamento de rigor para 2003. Não foi por acaso que o Fundo adiou a concessão da próxima “tranche” de 16 mil milhões de dólares para depois das eleições.

A resolução dos problemas económicos vai, porém, depender da tranquilidade nas fronteiras. Em 1991, na sequência das sanções impostas pela ONU a Bagdad e da guerra do Golfo, a Turquia sofreu prejuízos de muitos milhões de dólares – o Iraque, produtor de petróleo, representava 17 por cento do total das exportações turcas.

No caso de outra guerra, se ela for de longa duração, “o impacto será terrível”, avisou Çelik Kurtoğlu, presidente do Foreign Economic Relations Board, em Istambul. Se, pelo contrário, um novo regime mantiver unido o Iraque, a Turquia “poderá beneficiar, porque está mais próxima e muito mais avançada nas trocas comerciais bilaterais”.

Se o Iraque é um desafio, a UE é outro – e crucial. Disse-me Yetkin, o director do Radikal: “Muito vai depender da União Europeia. Mesmo com o AKP no Governo, continuará o processo de reformas.”

“Não haverá problemas, pelo menos no papel; mas se a Turquia cumprir os critérios [recomendados pelos Quinze] e ainda assim for excluída da UE, isso terá um impacto grave e negativo, que vai afectar o panorama político turco. Até mesmo a posição em relação a um ataque ao Iraque pode ser influenciada porque haverá uma mudança nos equilíbrios regionais.”

Na Turquia, mais de 80% da população é favorável à integração na União. Até mesmo os que compreendem a necessidade de melhorar a situação dos direitos humanos, como exige Bruxelas, se ressentem dos adiamentos na fixação de um calendário para negociar a adesão.

“A UE não deveria minimizar o que já fizemos”, aconselhou Haluk Şahin, professor na Universidade Bilgi, em Istambul. “Foi preciso muita coragem para abolir a pena de morte, quando quase todo o país reclamava a execução de [Abdullah] Öcalan [líder separatista curdo], responsável pela morte de 30 mil pessoas.”

Sahin considera também que a UE “será uma potência irrelevante” se não integrar a Turquia, país situado “nas grandes zonas estratégicas – Ásia Central e Médio Oriente”. E pergunta: “Quer a Europa competir com os EUA e a China, alargando as suas fronteiras até onde está o petróleo?” Ou prefere manter-se fechada como “um clube cristão?

 

Para já, um dos obstáculos à entrada na UE é o ainda não resolvido conflito de Chipre. Ancara ameaça anexar o Norte da ilha dividida se a parte grega entrar na União sem estar resolvido o estatuto da parte turca.

Até á cimeira europeia de Copenhaga, em Dezembro, a ONU, que é mediadora, espera uma solução. É também a esperança da Turquia (defensora de um sistema tipo Bélgica, com comunidades autónomas num mesmo Estado cipriota) que, nessa altura, quer já ouvir falar de uma data para negociar a adesão.

Alerta o Financial Times que isolar a Turquia, abalando o seu consenso pró-ocidental, pode despertar “as forças mais obscuras”. Ou como disse um embaixador ao jornal: “Sabemos o que acontece quando deixamos países à deriva.”

  • [O AKP venceu, em 2002, com uma maioria esmagadora que afastou da Grande Assembleia em Ancara todos os partidos que antes aqui tinham representação. O partido de Recep Tayyip Erdoğan conquistou dois terços dos lugares do Parlamento, tornando-se no primeiro partido turco a ganhar uma maioria absoluta, pela primeira vez em 11 anos.
  • Erdogan foi impedido de ser desde logo primeiro-ministro, sendo o cargo ocupado Abdullah Gül, que posteriormente seria eleito Presidente da República. Mais tarde, a proibição de Erdoğan chefiar o Governo seria levantada, com a ajuda do CHP. A porta abriu-se a Erdoğan através de ume eleição intercalar em Siirt.
  • Terminados os mandatos como  primeiro-ministro, Erdogan é desde 2014 o chefe de Estado, exercendo um poder autocrático – ainda mais absoluto desde uma tentativa de golpe de Estado em Julho de 2016 que levou a milhares de demissões na função e sectores privados, além da prisão e exílio de centenas e centenas de opositores.]

Este artigo, agora actualizado e com outro título, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO, em 3 de Novembro de 2002 |This article, now updated and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 3, 2002

Atatürk: O deus dos turcos que adoram heróis

O rosto de Atatürk está omnipresente na Turquia, embora o fundador da nação tenha deixado o mundo dos vivos em 1938. A ubiquidade expõe-se da mais singela mercearia de Esmirna ao seu imponente mausoléu em Ancara. (Ler mais | Read more…)

© Shutterstock | 360.org

 

Nas suas múltiplas representações pictóricas, de aprumado uniforme militar ou de impecável smoking, Mustafa Kemal Atatürk, “pai dos turcos” é venerado quase como um deus por um povo que adora heróis. Um exemplo é Ceyda Sonbudak, uma indefectível admirador.

Ceyda (leia-se Jeyda, porque na fonética turca do alfabeto latino, introduzido em 1928, o “c” pronuncia-se como “j” e o “ç” como “ch”), nascida numa família de diplomatas, funcionária pública de 30 anos, irrita-se com os estrangeiros que não entendem a adoração pelo seu ídolo e teimam em olhar para a Turquia como um corpo estranho à Europa.

“Nós somos europeus!”, proclama orgulhosa, “e isso só foi possível com Ataturk”.Com os seus expressivos olhos azuis – a cor do olhar de Atatürk – o rosto maquilhado como uma paleta de tintas, um casaco cor de leopardo sobre uma mini-saia castanha, Ceyda faz questão de conduzir os seus hóspedes aos lugares mais desenvolvidos da capital turca para sublinhar a identidade europeia.

Mostra-lhes gigantescos centros-comerciais, extensas auto-estradas, magníficas pontes, conglomerados industriais e até uma discoteca onde toca um saxofonista turco recém-chegado de Nova Iorque com a fama na bagagem e onde uma parede ostenta sem pudor uma figura feminina semidespida.

O frenético anseio em revelar a pujança do seu país só tem comparação com o amor platónico que Ceyda dedica a Atatürk.

“Sem ele nunca teríamos chegado aqui”, repete confessando mais adiante que não sente o menor interesse em conviver com mulheres que usam véu, porque numa sociedade muçulmana laica ela prefere inscrever-se na categoria dos sem religião.

© Hulton Archive | Getty Images

 

Suhat Gümrükcü, pintor formado na Academia de Belas Artes de Istambul, especialista em tapeçaria e caligrafia otomana (uma mistura de turco, árabe e persa) idolatra Atatürk tanto quanto Ceyda. “Ele definiu o nosso destino”, declara Suhat.

“Foi um visionário, apesar de alguns dos seus contemporâneos o terem desvalorizado e de alguns dos seus actuais críticos insistirem em diminuí-lo. Não é nenhuma divindade, mas foi um grande líder.”

Patrick Kinross, que escreveu a biografia Atatürk, The Reverse of a Nation, concorda. Mustafa Kemal, mais tarde designado Atatürk, “era diferente de outros ditadores do seu tempo [primeira metade do século XX] em dois aspectos signifcativos”, observa Kinross.

“A sua política externa não se baseava na expansão, mas na retracção de fronteiras; a sua política interna assentava na fundação de um sistema político que lhe poderia sobreviver.”

Foi, adianta Kinross, “neste espírito realista que ele regenerou o seu país, e transformou os despojos do velho Império Otomano numa homogénea nova República turca”. Para fazer o que fez, Atatürk não poderia ser um homem vulgar. “O seu corpo irradiava energia, até em repouso”, diz ainda Kinross.

“Alternadamente extrovertido e taciturno, a sua tensão interior ora se manifestava numa ríspida explosão temperamental, ora se relaxava numa expressão de charme urbano.

Vaidoso do seu aspecto físico, vestia-se fastidiosamente […] e tinha orgulho dos seus bem desenhados pés e mãos, que ele gostava de exibir aos seus convidados mais íntimos, sob o pretexto de vaguearem pela piscina que ele fizera no seu jardim.”

 

© thetimes.co.u

É como um “homem lindo”, mas também extraordinário que Ceyda vangloria Atatürk e a sua obra. O amor era correspondido. “Atatürk amava o seu país”, assegura o biógrafo Kinross.

“A sua ambição polvilhada de imaginação, movida por uma natureza dominante e uma vontade inflexível, era o poder; mas o poder de dar ao seu povo, à sua própria maneira, o que ele tinha determinado que seria o melhor para eles.”

Um inconformado, educado nos princípios da civilização ocidental que influenciaram os liberais turcos desde o século XIX, Atatürk foi refinando as ideias de outros para as adoptar como suas. “No método, era pragmático, controlando a sua impaciência natural para progredir passo a passo até ao objectivo desejado.”

Para atingir o seu obejctivo, usou por vezes meios pouco liberais, tratando implacavelmente amigos ou inimigos. Atatürk sabia qual o momento certo para persuadir, para cortejar, para ameaçar, para comandar.

Era um mestre da política. Quando morreu, uma admiradora terá afirmado: “A Turquia perdeu o seu amante e agora tem de viver com o seu marido.”

 

© imgur.com

Seria cansativo relatar todas as vitórias e derrotas de Atatürk até que ele conseguiu finalmente formar um país moderno, com um código civil suíço, um código comercial alemão e um código penal italiano.

No entanto, talvez seja interessante evocar alguns episódios da sua luta pela emancipação das mulheres para perceber a paixão de Ceyda por Mustafa Kemal.

Um dia, num congresso de professores em Ancara, as mulheres ficaram separadas dos homens. Atatürk, dirigindo-se ao presidente da associação dos professores, vociferou: “O que é que fez a esta reunião de professores? Como se atreveu? Isto é uma vergonha!”

Os que se opunham à presença das mulheres rejubilaram. Mas Atatürk prosseguiu: “Convocaram as professoras para a reunião e obrigaram-nas a sentar-se separadas dos homens? Não confiam em vós, ou não têm fé na virtude destas senhoras? Que eu nunca mais ouça falar na segregação das mulheres!”

Atatürk também reclamou mais educação para as mulheres, argumentando que elas estavam “destinadas a ser as mães de homens perfeitos”. E também se insurgiu contra o uso do véu, dizendo: “Em alguns lugares tenho visto mulheres com um pedaço de pano, uma toalha ou coisa parecida, a esconder os seus rostos e a virar as costas quando passa um homem.”

“Qual é o significado deste comportamento? Senhores, podem as mães e filhas de uma nação civilizada adoptar estes estranhos modos, esta postura bárbara? É um espectáculo que ridiculariza a nação. E deve ser remediado imediatamente.”

Não foi bem assim. Foi preciso uma década para as mulheres das cidades darem o exemplo. Mas a mudança consumou-se.

Por tudo isto e por outras reformas que Atatürk impôs, os turcos desmentem Chateaubriand, que dizia: “Pretender civilizar a Turquia não é alargar a civilização ao Oriente, é introduzir a barbárie no Ocidente.”

© hurriyetdailynews.com

 

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 13 de Outubro de 2002 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on October 13, 2002

Sete guerras do calendário israelo-palestiniano

De 1948, data da criação de Israel, até à segunda Intifada palestiniana, em 2002, esta é uma cronologia de várias batalhas pelo direito à existência. (Ler mais | Read more…)

© english.palinfo.com

 

Ano febril o de 1993. Israel reconciliava-se com a Organização de Libertação da Palestina (OLP). Retirava-lhe a etiqueta de “terrorista”. Elevava à categoria de quase-Presidente o seu líder, Yasser Arafat. 

As portas do mundo árabe e muçulmano – da Tunísia à Indonésia – abriam-se ao ostracizado Estado que exige ser classificado como judaico. A Faixa de Gaza e o pequeno enclave de Jericó, na Cisjordânia, ganhavam uma autonomia parcial, na esperança de um dia incluírem um mais vasto território soberano e viável. 

Errado dizer que tudo acabou com a voracidade com que começou. Não foi assim. Os Acordos de Oslo, assinados em 1993, por gente que se julgava visionária, previam negociações por etapas até chegar a um “estatuto final”.

A sua destruição foi também um processo por fases. Depois de um conflito de um século não se podia exigir mais uma década para “restaurar a confiança”. Este é um calendário de ódio e de esperança.

1948: Independência e exílio

Árabes da Palestina do Mandato Britânico numa reunião de protesto contra a colonização judaica do território que viria a ser o Estado de Israel
© Times of Israel (Cortesia de Ian Black, autor do livro Enemies and Neighbours: Arabs and Jews in Palestine and Israel 1917-2017)

Festejos em Telavive depois da proclamação da independência de Israel, em 14 de Maio de 1948
© Getty Images | The Jewish Chronicle

A independência de Israel foi a Nakba (tragédia) palestiniana: mais de 750 mil pessoas expulsas ou forçadas a fugir de centenas de aldeias, para nunca mais regressarem [Em 2019, o jornal Ha’aretz denunciou a existência de um departamento secreto no Ministério da Defesa em Telavive para fazer desaparecer os arquivos relativos ao primeiro êxodo de 1948)
© Ha’aretz

No dia 14 de Maio, é criado o Estado de Israel na Palestina que as autoridades do Mandato Britânico entregaram às Nações Unidas para ser dividida pelos árabes e judeus que a habitavam. Para os judeus, foi o regresso à “pátria perdida”, depois de dois milénios de errância desde a revolta de Bar Kokhba, em 135 d.C, sempre na esperança de voltar “no próximo ano a Jerusalém”.

Em 1896, Theodor Herzl, jornalista e dramaturgo nascido em Budapeste, publica O Estado dos Judeus, pedra angular do nascimento de Israel.

Um crescente anti-semitismo na Europa acelera a colonização da Palestina: os habitantes judeus passam de 24 mil em 1880 para 60 mil em 1914. Neste ano, o árabes são 570 mil muçulmanos e 75 mil cristãos.

Em 1917, Arthur Balfour, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, propõe um “Lar Nacional Judeu“. Em 1921, travam-se os primeiros confrontos sangrentos, em Jaffa. Em 1942, quando os nazis põem em marcha o plano de extermínio do povo judeu, a Yushuv (comunidade hebraica da Palestina) decide atacar directamente as forças britânicas que impediam a chegada de imigrantes fugindo desesperados da “solução final”.

Em 1946, mais de cem pessoas morrem num atentado reivindicado pelos extremistas do Irgun contra o quartel-general da potência mandatária, no hotel King David em Jerusalém.

Em Março de 1948, combates entre judeus e árabes fazem mais de 500 mortos. Extremistas judeus cometem massacres. Aterrorizados, milhares de palestinianos fogem das suas casas e terras que passam a ser ocupadas por uma população judaica que já totalizava 717 mil.

Em Maio de 1948, proclamado o Estado sonhado por Herzl, tropas egípcias conquistam Gaza e Hebron. A Legião Árabe apodera-se parcialmente de Jerusalém. Telavive é cercada. O exército iraquiano atravessa o Rio Jordão. A Transjordânia (actual Jordânia) anexa a Cisjordânia. Até Dezembro, os israelitas respondem com todo o seu poder e vencem a guerra. Conquistam ainda mais território.

Em Janeiro de 1949, Israel é admitido como membro da ONU, prometendo ser “uma luz entre as nações”. Uns 900 mil palestinianos tornam-se refugiados.

1967: Derrota em seis dias

O general Moshe Dayan, um dos comandantes militares que ajudou Israel a vencer a guerra de June 1967 1967 © Fondation Gilles Caron

O general Moshe Dayan, um dos comandantes militares que ajudou Israel a vencer a guerra de 1967, também conhecida como “Guerra dos Seis Dias” – alguns historiadores dizem que foi ganha “em seis horas”
© Fondation Gilles Caron

Depois da guerra de 1948, Israel e os vizinhos árabes não cessam acusações mútuas, ataques e represálias. Mas o pior estava para vir, em 1967. A escalada começou em 6 de Abril, com violentos combates entre Israel e a Síria. Em 6 de Maio, os palestinianos atacam Israel com morteiros, no que foram os primeiros bombardeamentos a partir do Líbano.

A espiral atinge o auge a 5 de Junho: começa a guerra. Os estrategos árabes não têm tempo para pensar: os seus aviões (cerca de 400) são destruídos nas pistas antes de levantar voo. Em seis dias – alguns dirão “seis horas” – Israel conquista a península do Sinai e a Faixa de Gaza ao Egipto; a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, à Jordânia; e os Montes Golã à Síria.

Diz-se que o chefe de Estado-Maior israelita de então, general Yitzhak Rabin, aturdido com a vitória, terá perguntado ao seu ajudante de campo: “Que faremos com estes territórios?”

O Bloco da Fé [Gush Emunim]daria a resposta no ano seguinte, quando impôs aos trabalhistas, no poder, uma colonização messiânica. O parlamento aprova a anexação do sector oriental da cidade e os árabes definem a sua política face a Israel: não à negociação, não ao reconhecimento, não à paz.

A 21 de Novembro, o Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 242, que exige a Israel a retirada “de” ou dos” – aqui reside um contencioso – territórios ocupados.

Em Julho de 1968, a OLP faz aprovar a sua Carta Nacional onde define como objectivo a destruição de Israel. No mesmo mês, a guerra chega a outros pontos do mundo, através de operações palestinianas de sequestro. Em Fevereiro de 1969, Arafat é eleito presidente da OLP.

De Junho a Setembro, sentindo o seu trono ameaçado pelos grupos palestinianos que usavam a Jordânia para atacar Israel, Hussein leva a cabo uma ofensiva que resulta em milhares de mortos e num novo êxodo.

Esta guerra ficou conhecida como “Setembro Negro” e foi com este nome que um grupo palestiniano reivindicou, em Setembro de 1972, o massacre de onze atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique. A vingança prometida por Golda Meir assume o carácter de assassínios selectivos, cometidos pelo “longo braço da Mossad”.

1973: A surpresa no Yom Kippur

A primeira ministra Golda Meir e membros do seu governo de visita ao comando sul do exército israelita, em 9 de Outubro de 1973, mês a Guerra do Yom Kippur
© Yehuda Tsion | Times of Israel

Uma nova guerra é travada, em 1973, opondo a Síria e o Egipto a Israel. Os israelitas deram-lhe o nome de “Yom Kippur” porque coincidiu com o dia mais sagrado do calendário hebraico. Escreveram historiadores que os trabalhistas no governo de Telavive ficaram tão inebriados com a vitória em 1967 que não cuidaram da segurança.

Quando as sirenes mobilizaram os reservistas para uma invasão iminente, as pessoas julgavam que o toque homenageava os mortos como era tradição.

Foi uma guerra de surpresa que devolveu aos árabes o orgulho perdido, embora mais uma vez Israel tenha virado o destino a seu favor. Em 6 de Outubro, os egípcios conseguiram atravessar o canal do Suez e os sírios penetraram nos Golã. Os israelitas sofreram pesadas baixas aéreas mas, no dia 8, ripostaram, bombardeando Damasco, o Sul do Líbano e o Egipto.

A 17, a OPEP decide usar a arma do petróleo, fazendo subir os preços. Mas de 18 a 23, Israel avança para leste dos Golã e cerca totalmente o exército egípcio. No dia 24, todos aceitam um cessar-fogo.

Em 13 de Novembro, Yasser Arafat discursa na Assembleia Geral da ONU. Com os seus inseparáveis uniforme militar e kaffiyeh (o lenço que ele usa como se fosse o mapa da “Grande Palestina”), o chefe da OLP disse ao mundo que tinha uma arma numa mão e um ramo de oliveira noutra. A opção era de Israel.

Em Janeiro de 1975, o Presidente egípcio Anwar el-Sadat deixa todos boquiabertos ao revelar que está disposto a concluir um acordo de paz com Israel. O ano de 1977 foi o das “reviravoltas”. Em 17 de Maio, pela primeira vez desde a criação de Israel, a direita ganha as eleições legislativas aos trabalhistas.

O líder do Likud, Menachem Begin, torna-se primeiro-ministro. Em Novembro, Sadat visita Jerusalém e a aproximação culminaria em 26 de Março de 1979, com a assinatura por Sadat e Begin, em Washington, de um tratado de paz – o primeiro entre um país árabe e o Estado que insiste em ser designado por judaico.

No dia seguinte, o Egipto é suspenso da Liga Árabe. Sadat viria a pagá-lo em 6 de Outubro de 1981: é assassinado no Cairo por um integrista islâmico.

1982: Invasão e massacres

Massacre nos campos refugiados palestinianos de Sabra e Shatila, em 1982: a responsabilidade foi atribuída à milícia cristão pró-israelita Falange, que assim vingou o assassínio (supostamente ordenado pela Síria) do seu líder, Bashir Gemyel. Depois de invadir Beirute, para erradicar a OLP, Israel acreditava que o Líbano seria o segundo país árabe, depois do Egipto, a assinar um tratado de paz. Em vez disso, teve de enfrentar uma Intifada na Cisjordânia e Faixa de Gaza, em 1987
© Getty Images

Em 4 de Junho, o embaixador israelita em Londres é ferido num atentado. No dia 6, começa a Operação Paz para a Galileia – a invasão do Líbano que levaria os tanques de Ariel Sharon a cercar a primeira capital árabe: Beirute.

Em 25 de Julho, Arafat reconhece “todas as resoluções da ONU sobre a questão palestiniana”. No dia 12, o número de mortos desde o início da invasão israelita do Líbano ascendia a 20 mil. Em 21 de Agosto, 14.500 guerrilheiros palestinianos deixam Beirute Ocidental, para se refugiarem em oito países árabes.

Em 1 de Setembro, o Presidente dos EUA Ronald Reagan apresenta um plano de paz e os árabes aprovam-no, numa cimeira na cidade marroquina de Fès. O sétimo dos oito pontos era o reconhecimento implícito de Israel.

A 14, o Presidente eleito do Líbano Bashir Gemayel morre num atentado atribuído à Síria. Israel conquista totalmente Beirute Ocidental. Em 16-17, para vingar a morte do seu líder, os falangistas massacram, durante 36 horas, milhares de civis palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila.

Em 21-29, o exército israelita retira-se. Em 8 de Fevereiro, uma comissão de inquérito israelita concluiu da “responsabilidade indirecta” de Sharon nos massacres de Sabra e Shatila, forçando-o a demitir-se de ministro da Defesa.

Manifestações gigantescas contra as matanças e pelo “regresso imediato” dos soldados do Líbano, a última a 11 de Junho, força Menachem Begin a sair do governo.

Em 20 de Dezembro, depois de um cerco na cidade libanesa de Tripoli onde foi atacado por dissidentes palestinianos e forças sírias, Arafat e 4000 dos seus fiéis partem para o Egipto. A 31, o comité central da OLP, em Tunes, considera o Tratado de Camp David entre o Cairo e Telavive “um facto irreversível”.

Em 3 de Maio de 1984, é a vez de Arafat se “reconciliar” com Hussein da Jordânia para, em 7 de Novembro de 1985, condenar todas as formas de terrorismo mas reafirmando o direito dos palestinianos a “resistir à ocupação israelita nos seus territórios.”

Em 8 de Abril de 1986, perante um congresso do seu Partido Trabalhista, Shimon Peres declara que “Israel reconhece os palestinianos como nação”.

1987: Intifada substitui a Thawra

- Palestine, Cisjordanie, Al Ram. Jeunes palestiniens jetant des pierres pendant une manifestation. Janvier 1988 - Palestine, West Bank, Al Ram. Young Palestinians throwing stones during riots. January 1988 @Jean-Claude Coutausse

Al Ram, na Cisjordânia: Jovens palestinianos lançam pedras durante uma manifestação contra a ocupação israelita, em Janeiro de 1988. A primeira Intifada começara no ano anterior, surpreendendo a própria OLP e Yasser Arafat
© Jean-Claude Coutausse

Em 9 de Dezembro de 1987, primeiro em Gaza e depois na Cisjordânia, começa a Intifada ou “guerra das pedras”. A palavra cuja raíz árabe trilítera é “nafada” (com o significado de “abalar”, “ver-se livre de” ou “romper com alguém”) substitui o velho lema da OLP no Líbano: Thawra, thawra, hat al-nasr ou “revolução, revolução até à vitória”.

De 12 a 16 de Novembro de 1988, numa reunião do seu parlamento no exílio, em Argel, a OLP aceita a Resolução 242 da ONU e proclama “a criação de um Estado palestiniano independente“.

Em 12 Dezembro, Arafat declara que reconhece o direito de Israel “a existir na paz e na segurança” e condena “o terrorismo sob todas as suas formas”. Depois destas palavras, os EUA aceitam dialogar com a OLP.

Em 23 de Junho de 1992, o trabalhista Yitzhak Rabin ganha as eleições em Israel e anuncia o congelamento parcial da colonização “privada” na Cisjordânia e Gaza. Organizações humanitárias fazem um balanço da Intifada desde 9 de Dezembro de 1987: 1.116 palestinianos mortos (223 dos quais com menos de 17 anos), mais de 20.000 feridos a tiro.

Do lado israelita, morreram 33 soldados e 40 civis; ficaram feridos 4.426 soldados e 1.735 civis. Nas prisões israelitas estavam 15.000 palestinianos.

Em Janeiro de 1993, começam na Noruega contactos secretos entre Israel e a OLP. Todo o jogo diplomático culminará no dia 13 de Setembro, em Washington, com o aperto de mão histórico entre Rabin e Arafat.

A paz paga-se: em 25 de Fevereiro de 1994, um médico do colonato judaico de Kyriat Arba, Baruch Goldstein, abre fogo sobre fiéis na mesquita de Abraão, em Hebron. Mata 30 palestinianos. Em 5 de Março, 30 mil pessoas manifestam-se em Telavive exigindo a retirada dos extremistas judeus dos territórios.

Os movimentos Kach (ao qual pertencia Goldstein) e Kahane são ilegalizados. O exército israelita recebe ordens para atirar sobre os colonos que, “não tendo a sua vida em perigo, disparam sobre palestinianos”. A 1 de Julho, Arafat regressa a Gaza e, no dia 12, instala-se definitivamente, dizendo adeus ao quartel-general em Tunes.

A paz paga-se, mais uma vez: em 4 de Novembro, Rabin é assassinado, em Telavive, por um extremista judeu, Yigal Amir. O rei da Hussein da Jordânia e o Presidente do Egipto (Hosni Mubarak) assistem ao seu funeral na disputada Jerusalém.

2000: Elefante numa loja de vidros

Em 28 de Setembro de 2000, acompanhado de dezenas de guarda-costas, o líder do Likud e futuro primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, visitou o complexo das mesquitas conhecido como Haram al-Sharif, onde se encontra a Cúpula do Rochedo, terceiro santuário do Islão, em Jerusalém. Com esta provocação começou a segunda Intifada
© Associated Press

Um suicida palestiniano faz-se explodir num autocarro de passageiros – alguns deles crianças a caminho das escolas – em 18 de Junho de 2002, em Jerusalém. Este atentado, que causou 18 mortos, foi um de muitos cometidos durante a segunda Intifada, iniciada em dois anos antes
© Getty Images | VOX

No ano 2000, com Ehud Barak como primeiro-ministro (eleito por uma esmagadora maioria), palestinianos e sírios retomam negociações com Israel. Barak depressa desilude. Investe no diálogo com Damasco, mas Hafez al-Assad troca-lhe as voltas e o seu plano de paz afunda-se no Lago de Tiberíades, cujo controlo o “Leão de Damasco” não queria partilhar.

No campo palestiniano, pressionado pelo Presidente Bill Clinton, Barak aceita negociar com Arafat um projecto ambicioso. Mas, ao contrário do que tem sido propagado, Barak não fez promessas escritas nem orais.

Ele e Arafat não tinham preparado as suas circunscrições para sacrifícios: os israelitas para abdicarem da soberania total de Jerusalém e trocar território anexado da Cisjordânia por outro de igual valor dentro do Estado judaico; os palestinianos para esquecerem o direito de retorno dos refugiados, satisfazendo-se com o regresso de “algumas centenas” às aldeias e vilas que hoje constituem o Estado de Israel.

Convém não esquecer que Barak nunca foi um defensor dos Acordos de Oslo, e que, durante o seu mandato, construíram-se mais colonatos na Cisjordânia do que no de Benjamin Netanyahu. O grande mérito do homem a quem chamavam “o delfim de Rabin” foi pôr fim a 17 anos de ocupação do Sul do Líbano, região que se transformara num cemitério de soldados
israelitas.

Tendo feito passar a mensagem – enganadora – de que os palestinianos desperdiçaram “a melhor oportunidade” que lhes foi oferecida em Camp David, os israelitas decidiram punir Barak e Arafat. Chamados de novo às urnas, elegeram Ariel Sharon, o invasor do Líbano sobre quem Zbigniew Brezinski disse “ajudou a criar a atmosfera de ódio que conduziu ao assassínio de Rabin”.

Antes de ser eleito, o “falcão” Sharon já tinha feito estragos. Em Setembro de 2000, com autorização de Barak, foi ao Pátio das Mesquitas, em Jerusalém Leste, protegido por dezenas de guarda-costas. “Foi como se um elefante tivesse entrada numa loja de vidros e porcelanas”, escreveu a revista The Economist. Recomeçou com ele a Intifada que todos julgavam enterrada em 1994.

2002: Lutar pela existência

Marwan Barghouti, líder da Fatah e da Segunda Intifada, uma figura tão ou mais popular e carismática que Yasser Arafat. O seu rosto está pintado por toda a Palestina, incluindo no “muro do apartheid” que separa Israel dos territórios ocupados
© Jaafar Ashtiyeh | AFP | Getty Images | Newsweek

O general “Arik” Sharon foi eleito com a promessa de oferecer “paz e segurança” aos israelitas. Formou o mais amplo governo de unidade nacional do país, mas o seu primeiro ano no poder foi o mais sangrento da história da nação.

“Para merecer segurança, Israel tem de pôr fim à ocupação”, escreveu num jornal americano Marwan Barghouti, o líder da Tanzim, a organização politico-militar da Fatah, facção de Arafat na OLP. Barghouti tornou-se num alvo a abater.

Terá sido ele que, procurando seguir o exemplo do Hezbollah libanês, criou as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, responsáveis por alguns dos mais sangrentos atentados suicidas dos últimos meses, dentro e fora de Israel.Sharon, o bulldozer, não podia ficar indiferente ao desafio lançado por Arafat. Os dois homens têm contas a ajustar desde Beirute.

Alguns analistas interrogam-se sobre se Sharon tem uma estratégia que lhes devolva a liberdade de ir a uma discoteca ou a um restaurante sem medo que um bombista se faça explodir junto deles. Outros estão convencidos que o seu plano há muito foi traçado. Ele nunca quis tréguas. Sempre que as teve, procurou pretextos para forçar represálias dos palestinianos.

O seu objectivo é reconquistar os territórios, arranjar uma liderança palestiniana dócil e expandir os colonatos, mantendo vivo o sonho da “Grande Israel”. Duas etapas já foram ultrapassadas: a reocupação das cidades autónomas (Jenin, Nablus, Ramallah…) e a destruição das infra-estruturas da Autoridade Palestiniana.

Se Arafat morrer herói, dificilmente os palestinianos aceitarão um “traidor” no seu lugar. Isso é um mal menor para Sharon, comentam os mais cínicos. Se triunfarem as milícias tanto melhor. O mundo não reconhece radicais. Portanto, acabam-se as aspirações de independência dos palestinianos.

Em 1982, no Líbano, Sharon também pensava ter aniquilado a OLP. Mas os palestinianos sobreviveram para o voltar a atormentar. Talvez, no futuro, o que Sharon mais teme – os defensores de uma resistência pacífica à ocupação – suplantem aqueles com quem Sharon partilha ideais: os extremistas.

Talvez então palestinianos e israelitas consigam finalmente coexistir. Como iguais.

Uma criança judia acende velas depois de um ataque palestiniano na Cidade Velha de Jerusalém
© Oded Balilty | AP | The Christian Science Monitor

Crianças palestinianas na Faixa de Gaza com velas para poderem estudar. Os cortes de energia impostos por Israel deixam o território sem electricidade uma média de 20 horas por dia
© Mahmoud Issa | ICRC

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 15 de Abril de 2002 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on April 15, 2002