“Os árabes ainda não sabem por que Nasser fez a guerra em 1967”

Ao contrário dos vitoriosos israelitas que puderam construir a sua narrativa sobre a “Guerra dos Seis Dias”, os derrotados árabes não têm arquivos para consultar, diz o historiador palestiniano Yezid Sayigh. Resta a memória popular, mas é demasiado subjectiva para entender o conflito em que perderam a Cisjordânia, Jerusalém Leste, a Faixa de Gaza, o Sinai e os Golã. (Ler mais | Read more…)

Sobre Gamal Abdel Nasser (na foto, de binóculos, a observar o Canal do Suez), diz o historiador Yezid Sayigh: “Creio que ele não queria, nem esperava, entrar em guerra, em 1967. Era um manipulador por várias razões, sobretudo por questões de política interna árabe. Avaliou mal a situação. Os israelitas, que tinham as suas próprias razões, decidiram agir e não ficar passivos." @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Sobre Gamal Abdel Nasser (na foto, de binóculos, a observar o Canal do Suez), diz o historiador Yezid Sayigh: “Creio que ele não queria, nem esperava, entrar em guerra, em 1967. Era um manipulador por várias razões, sobretudo por questões de política interna árabe. Avaliou mal a situação. Os israelitas, que tinham as suas próprias razões, decidiram agir e não ficar passivos”

Yezid Sayigh é professor de Estudos do Médio Oriente no King’s College em Londres. Nascido nos Estados Unidos, é filho de um dos mais prestigiados economistas e académicos palestinianos (leccionou em Princeton, Harvard e Oxford) e de uma antropóloga inglesa. Formou-se primeiro em Química, em Beirute, antes de se dedicar à História Militar.

É autor de vários livros, dos quais se destaca a monumental e muito aclamada obra Armed Struggle and the Search for State – The Palestinian National Movement, 1949-1993. Esta entrevista foi feita por telefone, a partir da sua residência na capital britânica, uma das etapas da diáspora familiar.

Nos últimos 40 anos, desde a Guerra dos Seis Dias de 1967, houve “muitas oportunidades perdidas” de chegar à paz, reconhece Sayigh. O maior erro dos palestinianos foi “militarizarem a Intifada” em 2000.

O maior erro dos israelitas foi “expandirem a colonização” judaica dos territórios ocupados. O impasse vai continuar no Médio Oriente talvez por mais dez anos. Ninguém quer pagar o “preço político” de uma solução para o conflito.

Quais são as suas memórias da guerra de 1967?

Bem, eu tinha 12 anos, por isso não guardo muitas memórias. Eu vivia em Beirute. Não assisti a nada directamente. Sabia que estava a ser travada uma guerra porque não podíamos ter as luzes acesas em casa. Tínhamos de colocar cortinas a tapar as janelas.

De resto havia uma sensação generalizada de excitação, porque algo estava a acontecer. Para mim, o mais importante era que, na escola, não tinha de fazer os exames finais, o que me deixou bastante feliz.

No último dia da guerra, quando o Presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, reconheceu a derrota num discurso na televisão pública, assumiu a sua responsabilidade e anunciou a sua demissão, lembro-me de o meu pai me levar a mim e às minhas irmãs à casa de uns vizinhos. Estavam todos com os olhos fixos na televisão, muito afectados e muito tristes.

Pelo ar deles, percebi que algo de terrível se tinha passado, mas na altura não compreendi muito bem o que era. Quando voltámos à nossa casa, o meu pai disse, a mim e às minhas irmãs, que devíamos todos recordar aquele dia. Não podíamos esquecer aquela noite do discurso de Nasser.

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Prisioneiros de guerra egípcios no Sinai – uma das conquistas territoriais israelitas na “Guerra dos Seis Dias” em 1967. A península seria restituída em 1981, depois de um tratado de paz assinado entre o primeiro-ministro Menachem Begin e o Presidente Anwar el-Sadat (assassinado em 1981 por esta “traição”)
© Henri Bureau | Sygma | Corbis

Como é que essas memórias de infância influenciaram a forma como hoje olha para o conflito?

Não tenho bem a certeza se me influenciaram. Nunca pensei bem nisso. Para mim, 1967 sempre foi um momento importante, embora o meu conhecimento tenha sido aprofundado à medida que fui fazendo as minhas investigações, escrevendo a história do movimento nacional palestiniano, tentando explicar a constelação de políticas externas árabes… É claro que para tudo isso 1967 foi uma data importante.

Como historiador, tem sido fácil recolher informação sobre esta guerra? Tem tido acesso aos arquivos árabes para perceber o que passou em 1967?

Não tenho a certeza se existe aquilo a que se chama “arquivos árabes”. A impressão que tenho é a de que não existem verdadeiros arquivos nos países árabes. Não há documentos dos ministérios dos Negócios Estrangeiros ou da Defesa, ou dos serviços de espionagem…

Assim torna-se difícil perceber a posição árabe, já que predomina a narrativa israelita.

Sim, os israelitas estão muito mais bem documentados, a nível do Governo, do Parlamento, do Ministério da Defesa, dos Serviços Secretos. Têm registos de reuniões ministeriais, têm memorandos, relatórios, muitos dos quais foram preservados e ficaram posteriormente acessíveis aos investigadores.

Do lado árabe, e falando da minha experiência, há uma muito pobre memória institucional. Não falo da narrativa popular, que existe, mas do que diziam os políticos, do que está realmente documentado. Isso é muito fraco.

Os investigadores não têm um acesso automático a esse material. Tudo depende de contactos pessoais, se um rei ou um presidente quer ajudar alguém [na pesquisa], o que é muito, muito raro. Os jordanos, de uma maneira geral, são os que têm os melhores registos, mas não são sistemáticos.

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Soldados israelitas celebram, junto à Cúpula do Rochedo, relicário considerado um dos santuários do Islão, ao entrarem vitoriosos em Jerusalém Leste, depois de retirarem o controlo da Cidade Velha, predominantemente árabe, às tropas jordanas, em 11 de Junho de 1967
© Bettmann | Corbis

Como explicar, então, o lado árabe da guerra? O que passou pela cabeça de Nasser, por exemplo?

Isso continua a ser um mistério do conflito, precisamente por não termos acesso a documentos e também por não sabermos se esses documentos realmente existiram.

Por que é que Nasser agiu como agiu, em Maio de 1967 [quando enviou forças para a península do Sinai, colocou o exército em estado de alerta, exigiu a retirada das forças da ONU de Sharm el-Sheikh e encerrou o Estreito de Tiran aos navios israelitas, bloqueando o porto de Eilat]?

Até hoje só temos provas circunstanciais indirectas, porque de facto não há memorandos ou minutas de reuniões em que Nasser tenha falado claramente dos seus planos, expectativas, objectivos.

O que temos são memórias das pessoas que o rodeavam nesses dias. É claro que as memórias são úteis, interessantes e fontes primárias, mas temos de ser muito cautelosos na maneira como as usamos, porque são posteriores, vulneráveis ao ego e altamente politizadas. No que diz respeito a Nasser, temos alguns relatos por parte de quem o rodeava, mas ele não deixou nada.

Outra figura-chave, que era o comandante-chefe do exército egípcio, Abdel Hakim Amer, também não deixou qualquer registo.

Suicidou-se [na sua cela, em 14 de Setembro de 1967] no fim da guerra. Portanto, só podemos recorrer a pessoas que não estavam no círculo dos decisores políticos, que mais tarde se tornaram importantes mas que não eram tão importantes na altura da guerra.

É o caso de embaixadores, como o soviético, que conhecem parte da história mas não a história toda. Não sabem ao certo o que Nasser pensava. E como não temos diários nem outro tipo de fontes, acabamos por interpretar o seu comportamento comparando com outras coisas que sabemos a respeito dele. O que temos são provas indirectas e não directas.

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Carros de combate israelitas nos Montes Golã, uma perda estratégica sofrida pela Síria em 1967, quando Hafez al-Assad, pai do actual Presidente, Bashar, era ministro da Defesa; deste território só a cidade de Quneitra foi devolvida na sequência de uma outra guerra, em Outubro de 1973
© AFP | Getty

Em entrevistas que deu, depois da publicação de mais um livro [1967: Israel, the War and the Year that transformed the Middle East], o historiador israelita Tom Segev assume: “Não sabemos bem o que se passava na cabeça dos árabes”. Também diz que Israel foi para esta guerra mais por “fraqueza psicológica” do que por “genuína ameaça estratégica”. Concorda? A guerra podia ter sido evitada?

Estritamente falando, sim! Acredito que Nasser não queria nem esperava entrar em guerra. Ele era um manipulador por várias razões, sobretudo por questões de política interna árabe. Ele avaliou mal a situação.

Os israelitas, que tinham as suas próprias razões, decidiram agir e não ficar passivos. Se Israel não tivesse ido para a guerra, Nasser não teria ido para a guerra. Não naquela altura, pelo menos. Não parecia ser essa a sua intenção. Esta é a minha interpretação…

…mas foi Nasser que provocou a guerra.

Sim, é certo que ele criou as condições. Se ele não tivesse feito nada na Primavera de 1967 não creio que Israel tivesse tido a oportunidade ou o incentivo directo. Sim, concordo com isso. O que quero dizer é que as provocações de Nasser eram mais manobras políticas do que manobras militares.

Nesta guerra, qual foi o papel dos palestinianos?

Levavam a cabo pequenos raides, principalmente a partir do Líbano e da Jordânia. Nasser opunha-se a esses raides, mas os sírios serviam-se deles para embaraçar Nasser, tentando demonstrar que outros estavam a ser mais activos [do que o Egipto] contra Israel, e com isso deixavam Nasser numa situação de embaraço.

Em termos de impacto, de ameaça militar, os raides palestinianos eram irrelevantes. Mas Israel tem por hábito reagir sempre desproporcionadamente, com muito mais força, com um objectivo dissuasor.

Os israelitas reagiam às acções palestinianas a uma escala maior, não porque os danos infligidos pelos palestinianos fossem significativos mas porque não queriam que os governos árabes pensassem que Israel não era suficientemente forte e não estava apto a enfrentar qualquer ameaça.

Os israelitas não estavam preocupados com os palestinianos mas sim em garantir que os egípcios, os sírios, os jordanos não avaliassem mal a situação. E por isso reagiam exageradamente. Os palestinianos eram olhados apenas como uma extensão das políticas dos Estados árabes.

Assim, embora a Fatah e Yasser Arafat tivessem tentado deliberadamente arrastar os países árabes para uma guerra com Israel, e de certo modo contribuíram para isso, não eram figuras importantes. Teve maior impacto a rivalidade que separava os sírios, jordanos e sauditas de Nasser.

Na Cisjordânia, que se mantém ocupada desde 1967, combatentes palestinianos rendem-se às tropas israelitas, triunfantes numa guerra que os árabes perderam em seis dias – ou em “seis horas” @Pierre Guillaud |AFP | Getty Images

Na Cisjordânia, que se mantém ocupada desde 1967, combatentes palestinianos rendem-se às tropas israelitas, triunfantes numa guerra que os árabes perderam em seis dias – ou em “seis horas”
© Pierre Guillaud | AFP | Getty Images

Quarenta anos depois quais são as lições desta guerra? Não se perderam muitas oportunidades de paz?

Sim, houve oportunidades perdidas, mas também há muitas responsabilidades que têm de ser partilhadas pelos protagonistas. Os palestinianos cometeram erros muito graves, em diferentes ocasiões, particularmente no ano 2000, quando militarizaram a Intifada.

Podemos argumentar que em 1978 perderam a oportunidade de se juntarem ao processo de Camp David [que conduziu ao tratado de paz entre Israel e o Egipto], mas não creio que os israelitas sob o governo de [Menachem] Begin se tivessem retirado [dos territórios ocupados – o acordo com Anwar el-Sadat só previa autonomia].

Foi uma oportunidade perdida mas não especificamente por culpa dos palestinianos. No entanto, também os israelitas fizeram tudo para destruir o processo de Oslo [assinado em Setembro de 1993 com a OLP], acelerando a colonização, usando castigos colectivos e pressões económicas em vez de negociarem com a Autoridade Palestiniana.

Eles fizeram muito para prejudicar este processo a partir de 1994. E a comunidade internacional, em particular os americanos e a União Europeia, não foram capazes de enfrentar os desafios políticos. Isto criou uma situação de crise humanitária.

Os EUA e a UE deveriam ter garantido negociações numa base razoavelmente equilibrada, entre uma parte forte e uma parte fraca, mas como não quiseram contrariar os israelitas acabaram por se transformar apenas em fornecedores de dinheiro, esperando que o crescimento económico resolvesse os problemas. Abdicaram do seu papel político, e isso ainda acontece agora. Limitam-se a dar ajuda financeira.

Uma criança palestiniana brinca num campo de refugiados na Jordânia; depois da guerra de 1948, que se seguiu à criação de Israel, a de 1967 causou um novo êxodo, não apenas de habitantes da Cisjordânia mas também da Faixa de Gaza. @AFP | Getty Images

Uma criança palestiniana brinca num campo de refugiados na Jordânia; depois da guerra de 1948, que se seguiu à criação de Israel, a de 1967 causou um novo êxodo, não apenas de habitantes da Cisjordânia mas também da Faixa de Gaza
© AFP | Getty

Parece muito pessimista. A equação “território em troca de paz”, que ganhou forma depois da guerra de 1967, ainda continua válida?

Teoricamente, sim, mas os israelitas expandiram a tal ponto a colonização da Cisjordânia e de Jerusalém Leste que vai ser preciso muita determinação, da parte da Administração norte-americana, do Governo israelita e da UE, para levar a cabo uma substancial redução do número de colonatos nos territórios ocupados. E para delimitar fronteiras que sejam razoáveis.

Creio que o preço para conseguir isto se torna, dia a dia, mais elevado, e ultrapassa o que americanos, europeus e israelitas parecem dispostos a pagar.

Enfrentamos uma situação de Estado falhado, de colapso de Estado – e a Autoridade Palestiniana ainda nem sequer é um Estado –, e vamos continuar a ver a Cisjordânia e a Faixa de Gaza sem uma solução à vista, porque não há quem queira pagar o preço político.

O problema também não passará pelo facto de, no lado israelita e no lado palestiniano, não haver líderes fortes empenhados em encontrar uma solução?

Creio que ambos os lados enfrentam diferentes problemas internos. Do lado palestiniano, há um problema muito grande, que é o da Fatah estar mais interessada em combater o Hamas e em voltar ao poder. Ao mesmo tempo, o Hamas quer evitar lidar abertamente com os desafios políticos, que são os de ter de negociar com Israel e reconhecer Israel.

A realidade é que todos querem atingir os mesmos objectivos mas por meios diferentes. Até o Hamas aceita uma solução de dois Estados com base nas fronteiras de 1967 e com o que chama de ‘solução justa’ do problema dos refugiados palestinianos. A sua posição é muito próxima da da Fatah. Não são assim tão diferentes.

As duas principais forças políticas palestinianas aceitam, de uma maneira geral, o compromisso e a coexistência com Israel.

Pelo contrário, o lado israelita ainda não aceitou o facto de, mais cedo ou mais parte, se quiser uma paz genuína, ter de desmantelar muitos colonatos, ter de abdicar de Jerusalém Leste e ter de aceitar um Estado palestiniano independente, com soberania total nas suas fronteiras. Até agora os partidos tradicionais israelitas ainda não aceitaram isso.

"Se Israel não tivesse ido para a guerra [em 1967], Nasser [na foto] não teria ido para a guerra; não naquela altura, pelo menos", disse Yezid Sayigh. "Não parecia ser essa a sua intenção.” @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

“Se Israel não tivesse ido para a guerra [em 1967], Nasser não teria ido para a guerra; não naquela altura, pelo menos”, está convencido Yezid Sayigh

Como avalia o boicote internacional ao Hamas?

Não se trata de um boicote passivo, do género “não vos damos dinheiro porque não gostamos da vossa política”. Da parte dos americanos, o boicote é muito agressivo. Impede o Hamas de obter qualquer apoio de outras partes.

 O boicote é contraproducente?

A economia, a política e a sociedade palestinianas já estão muito fragilizadas devido a sete anos de cerco por parte de Israel [desde a segunda Intifada em 2000].

Ao impor um boicote financeiro adicional, os americanos estão a deixar uma estrutura frágil à beira da ruptura. E porque os americanos não estão apenas determinados a forçar o Hamas a reconhecer Israel mas porque querem o seu fracasso, promovem políticas bastante agressivas como a de treinar e fornecer armas aos polícias leais à Fatah, criando uma situação de disputa ou confronto militar.

O que os americanos procuram é, basicamente, uma mudança de regime. Tentam isso por meios políticos, diplomáticos, financeiros e militares. Isso só contribui para destruir o que resta de lei e ordem e de um governo constitucional na Palestina. Neste momento, nem o Hamas nem a Fatah conseguem controlar a situação em Gaza.

Isso tem muito a ver com a natureza da política americana dos últimos 15 meses. Os EUA e a UE têm dito que o boicote será levantado se o Hamas reconhecer Israel e renunciar à violência. As exigências são um pouco desonestas.

Porquê?

Israel também reconhece o Hamas? Eles [israelitas] dizem: “Não gostamos do Hamas, não queremos saber do Hamas”. Eles têm de pôr as ideias no lugar. O Hamas, com alguma justificação, pergunta: “Muito bem, se nós vos reconhecermos, o que vai acontecer a seguir?

Vai haver um processo de paz? Vão deixar de construir colonatos? Vão discutir o estatuto final dos territórios?” Será que os EUA estão a pressionar Israel a cumprir a sua parte do Roteiro da Paz? Não!

Israel tem mais de 100 colonatos ilegais, tem prometido evacuá-los desde 2001, prometeu isso, vezes sem conta, pessoalmente e por escrito, ao Presidente [George W.] Bush, mas continua a construir, e com fundos do governo.

Por que é que o Hamas ou a Fatah devem reconhecer Israel se o que vão ter em troca é apenas conversa sobre o Roteiro e nenhuma aplicação?

Como vai ser ultrapassado este impasse? Não pode continuar eternamente assim.

Eternamente não, mas pode durar por três, cinco, dez anos.

“Embora tivessem tentado, deliberadamente, arrastar os países árabes para uma guerra com Israel, e de certo modo contribuíram para isso, a Fatah e Yasser Arafat não eram figuras importantes. Teve maior impacto a rivalidade que separava sírios, jordanos e sauditas de Nasser“, diz Yezid Sayigh

No seu livro Armed Struggle and the Search for State diz que a guerra de 1967 assinalou a morte do pan-arabismo e a emergência do Islão como força política. É a isso que estamos a assistir agora, não?

Bem, forças islâmicas têm aparecido em diferentes sociedades, em particular desde 1967, embora as suas raízes sejam anteriores. Elas não são invulgares, sempre andaram por ali [como a Irmandade Muçulmana egípcia].

A guerra de 1967 deu-lhes ímpeto, é certo, mas a emergência de forças islâmicas está mais directamente relacionada com questões de poder político e estatuto sócio-económico. Como é que aparecem, se movimentam e como lidam com elas varia de país para país.

Na Turquia, um partido islamista [AKP] chegou ao poder legalmente. Na Jordânia, os islamistas sempre mantiveram uma aliança com o trono, embora seja uma relação frágil.

Como analisa, por exemplo, o aparecimento de grupos como a Fatah al-Islam no Líbano?

Bem, é possível que haja uma ligação a um ou outro serviço secreto. Nenhum destes grupos aparece sem ter o apoio de algum país. Também haverá ligações com os conflitos no Iraque ou no Afeganistão, onde alguns [elementos do grupo} terão combatido. É ainda uma consequência do declínio de sistemas políticos.

No Líbano, no Iraque e na Palestina os governos estão a falhar. O extremismo aproveita-se da ausência de Estado. A Fatah al-Islam é um fenómeno local. Também em Gaza aparecem grupos como este, porque as condições são semelhantes. A Autoridade Palestiniana é incapaz de governar.

O Hamas e a Fatah não podem pôr em prática os seus projectos políticos porque os americanos e os israelitas os bloqueiam. Isso faz com que as pessoas percam a esperança e tentem encontrar alternativas.

Uma mudança de governo nos Estados Unidos pode mudar a situação no Médio Oriente?

Não creio que uma nova Administração, democrata ou republicana, vá adoptar uma política fundamentalmente diferente da que tem sido seguida até aqui.

Então vamos ficar assim, como disse, durante mais dez anos?

Por que não? É preciso que haja uma combinação de factores locais, regionais e internacionais, como aconteceu com o processo de Oslo – o fim da Guerra Fria, a Guerra do Golfo de 1991, o enfraquecimento da OLP face ao Hamas e a determinação de uma Administração norte-americana em realizar a Conferência de Paz de Madrid [em 1991] apesar da relutância do governo israelita de [Yitzhak] Shamir.

Não basta haver líderes locais fortes, é preciso estarem criadas as condições [para a paz], e neste momento não estão. O que temos agora é uma guerra ao terrorismo [durante a Presidência de George W. Bush], a América atolada no Iraque e a confrontar o Irão, o colapso da parte palestiniana e a fragmentação da política israelita. Nada disto muda de um dia para o outro.

Yezid Sayigh é professor de Estudos do Médio Oriente no King’s College em Londres. Nascido nos EUA, é filho de um dos mais prestigiados economistas e académicos palestinianos (leccionou em Princeton, Harvard e Oxford) e de uma antropóloga inglesa. É autor de obra de referência da História Militar: Armed Struggle and the Search for State – The Palestinian National Movement, 1949-1993. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Yezid Sayigh é professor de Estudos do Médio Oriente no King’s College em Londres. Nascido nos EUA, é filho de Yusif A. Sayigh, um dos mais prestigiados economistas e académicos palestinianos (leccionou em Princeton, Harvard e Oxford) e de uma antropóloga inglesa, Rosemary Sayigh. É autor de obra de referência da história militar: Armed Struggle and the Search for State – The Palestinian National Movement, 1949-1993

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007, no 40º aniversário da Guerra Israelo-Árabe de Junho de 1967 | This article, now revised and updated,  was originally published in the newspaper PÚBLICO on 2007, the 40th anniversary of the June 1967 Israeli-Arab War

Gaza: Os clãs da “Sopranolândia”

Serão mais de cem tribos e terão exércitos privados de milhares de homens armados. Famílias palestinianas misturam as técnicas da Mafia com a ideologia da al-Qaeda. São ricas, poderosas e influentes. Nem a Fatah nem o Hamas conseguiam dominá-las. Quando matam um dos seus, o lema é: “Sangue por sangue”. (Ler mais | Read more…)

Abu Ashur é um dos chefes do clã Dogmush (também conhecido como Daghmash, Doqmosh ou Durmush). Quando ele entra, acompanhado de estrangeiros, no bairro de Sabra, na Faixa de Gaza, o seu telefone toca e alguém pergunta se corre perigo.

É que alguns minutos seriam suficientes para os seus “cerca de 8000” familiares desencadearem uma guerra para o libertar.

Entre os estrangeiros que acompanharam Ashur, como “convidados”, estava um repórter do jornal francês Le Figaro que pôde confirmar como os Dogmush se transformaram num dos mais poderosos e temíveis hamulla, ou tribos, do território que o World Peace Herald descreveu, por seu turno, como “uma espécie de Sopranolândia palestiniana”.

Gaza não se tornou apenas num campo de batalha entre laicos e islamistas, ou num bastião exclusivo do Hamas.

Foi sobretudo desde a morte de Yasser Arafat, em 2004 – o velho do kaffiyeh restaurou o poder das famílias mas não hesitava em destruir-lhes as casas com morteiros quando o desafiavam –, que a pequena faixa enclausurada entre Israel e o Egipto se tornou um centro de implacáveis mafiosos.

Os negócios são vários: contrabando de armas e droga, furto organizado de viaturas, raptos como forma de pressão ou para extorsão de dinheiro.

Suspeita-se que seja o clã Dogmush, sob a capa de Exército do Islão, que mantém sequestrado desde há três meses o correspondente da BBC Alan Johnston. [O jornalista seria libertado em Julho de 2007 após 114 dias de cativeiro].

 

A combinação de Máfia com al-Qaeda faz com que os clãs de Gaza não só se dediquem à acumular riqueza e influência mas também a abomináveis práticas sociais e religiosas. Entre os seus alvos preferenciais estão os cibercafés, frequentemente assaltados e incendiados por serem “impurezas do Ocidente”.

Mais cruéis ainda são os chamados “crimes de sangue”. Avi Issacharoff alertou, no diário hebraico Há’aretz, que várias mulheres têm sido executadas, os seus cadáveres despejados nas ruas ou enterradas em segredo, para “lavar a honra da família”.

É que em Gaza a honra só se lava com sangue. Kevin Peraino, da revista americana Newsweek, que também entrou na fortaleza de Sabra, alegadamente vigiada em permanência por três equipas de 170 homens cada, foi testemunha da revolta de Taman, inconformada por ainda não ter conseguido vingar-se dos que, o ano passado, mataram Mahmoud, um dos seus filhos.

“Sessenta e três balas!”, vincou a mãe, culpando 18 membros do Hamas pelo tiroteio. “Primeiro mataremos o líder e depois mataremos os outros 17”, asseverou.

A morte de Mahmoud e de Ashraf Dogmush, em Dezembro de 2006, não abalou apenas a família. Abalou também as lealdades partidárias do clã. Ricos comerciantes de Gaza, os Dogmush começaram por ser aliados da Fatah, na primeira Intifada de 1987, pondo ao serviço dos nacionalistas de Yasser Arafat o seu arsenal de armas traficadas.

Após o processo de Oslo de 1993, vários elementos da tribo integraram as forças de segurança da Autoridade Palestiniana, mas com a segunda Intifada, a partir de 2001, outros aderiram às Brigadas Ezzedin al-Qassam, “braço armado” do Hamas.

Mumtaz Dogmush fazia parte desta milícia quando numa noite eclodiu um violento confronto entre o Hamas e a Fatah, à entrada de Sabra. Avisado, deixou claro que os primos Mahmoud e Ashraf , embora do grupo rival, estavam sob a sua protecção.

A advertência foi vã. “Dispararam balas sobre as cabeças deles já depois de mortos”, contou Abu Ashur ao Figaro. “A família Dogmush foi humilhada e não temos escolha a não ser lavar a nossa honra.”

 

Os mais altos dirigentes do Hamas assumiram responsabilidade e propuseram “pagar o preço do sangue”, seis quilos de ouro por cada vítima de uma morte premeditada.

O clã, que não tem falta de verbas, interpretou a proposta como mais uma ofensa e exigiu, segundo o jornal francês, a aplicação do princípio “olho por olho, dente por dente”.

As Brigadas Qassam propuseram posteriormente executar três envolvidos na matança, mas a direcção política do Hamas vetou essa sugestão.

Os Dogmush têm vindo gradualmente a eliminar alguns dos nomes que incluíram numa “lista negra”. “Às vezes matamos inocentes”, reconhece Abu Ashur. “Mas avisámos todos para se distanciarem dos criminosos que nós perseguimos.”

Um dos “inocentes” terá sido Hassan Abu-Sharah, raptado e executado, “por engano”, pelos homems de Mumtaz Dogmush, o actual comandante do Exército do Islão. O clã Sharah também não desiste de “lavar o sangue com sangue”. O mesmo se passa com a tribo dos al-Dire.

Em Janeiro, três familiares morreram numa batalha de rua com os Dogmush. “Sabemos os nomes deles”, disse Munther al-Dire à Newsweek. Se os encontrarmos na rua, matamo-los. (…) Depois de nos vingarmos podemos voltar a ser amigos.”

Com nomes como Dogmush, al-Dire, al-Masri, Kafameh ou Abu Karash, serão mais de cem os clãs “justiceiros” que preenchem o vazio político e de segurança em Gaza agravado pela destruição das forças de segurança dominadas pela Fatah em 2002 e pela retirada unilateral do exército israelita em 2005.

 

Ali al-Sartawi, responsável do Hamas e antigo ministro palestiniano da Justiça, admitia em declarações ao Daily Telegraph, em Abril, a impotência do governo. “Devido ao poder dessas famílias, e sobretudo devido à força e elevado número da família Dogmush, agir contra eles deixaria o ministro do Interior numa situação muito difícil. (…) O resultado seria catastrófico.”

Numa entrevista telefónica, a partir da sua base em Amã, Mouin Rabbani, analista do International Crisis Group, atribui a proliferação das tribos à “desintegração da autoridade formal”. Apareceram em Gaza ”uma série de redes informais, incluindo famílias, o que tem aspectos positivos e negativos”, refere.

“O lado positivo é que estas estruturas garantem um mínimo de bem-estar e de segurança aos seus próprios membros. O lado negativo é que há uma resistência a qualquer tentativa da autoridade formal de impor a sua lei.”

Inquirido sobre se o Hamas, agora que escorraçou a Fatah do poder, vai ousar enfrentar os clãs, Rabbani responde: “Por um lado, terá de mobilizar estas estruturas para conseguir apoio, por outro tentará limitar a sua influência, já que essas estruturas acabam por ser uma alternativa. Era assim que a Fatah lidava com os clãs e creio que vai ser assim que o Hamas vai agir.”

Rabbani não acredita que as famílias tenham grandes exércitos. “Essa impressão é errada”, sublinha. “Trata-se de famílias com armas mas não com exércitos. Algumas dessas redes familiares são muito numerosas e a sua lealdade principal é a própria rede familiar e não a qualquer facção.”

O barbudo Abu Mansur, outra figura dos Dogmush a quem chamam “Tora Bora” pelas semelhanças físicas com os Taliban afegãos, garantiu ao Figaro: “Vamos prosseguir a nossa vendetta mesmo que isso provoque uma guerra civil”.  E ela aconteceu.

© UPI Photo | Ismael Mohamad

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO

Akhenaton, segundo Mahfouz

O egípcio Naguib Mahfouz escreveu um romance fascinante sobre o faraó Akhenaton. A edição portuguesa merecia maior consideração por parte de quem traduziu e de quem desenhou a capa. (Ler mais | Read more…)

Akhenaton: Para uns, foi um visionário, que rompeu com tradições políticas, religiosas e artísticas; para outros, um fanático religioso que “devastou o Egipto e todo o seu império”
© Ethan Miller | Getty Images North America | AFP

É discutível que Akhenaton tenha sido um “rei herege”, mas é quase uma heresia o que fizeram com Al-A’ish fi-L-Haqiqa,  um belíssimo livro que o escritor egípcio Naguib Mahfouz publicou em 1985 e que foi editado pela Quinto Selo. Um Nobel da Literatura, único árabe que até agora recebeu este prémio, merecia certamente maior consideração.

Numa mistura de ficção com o (pouco) que a Ciência já provou, Mahfouz dá a oportunidade ao leitor de avaliar, positiva ou negativamente, um faraó que protagonizou, segundo o historiador José das Candeias Sales, “o episódio religioso-político mais controverso da História do Egipto” – o confronto com o clero de Amon (divindade preponderante na época) e o culto a Aton (disco visível do Sol) como “líder de todos os deuses, o único deus, em detrimento de todos os outros”.

O título em português faz, porém, um juízo de valor que o autor da obra evitou e que o próprio tradutor, Adel A. Jabbar Mohammed Daroga, me diz não corresponder à versão original, de 1985. Al-A’ish fi-L-Haqiqa quer dizer, em árabe, Vivo na verdade ou A, expressão mais próxima do título em inglês Dweller in Truth.

Então, porquê a escolha de Akhenaton, O Rei Herege, muito mais interpretativa – mais até do que a versão francesa, Akhénaton le renégat (Gallimard)? “Foi opção da editora, não foi assim que eu traduzi”, disse-nos o iraquiano Daroga.

É certo que a palavra “Herege” irrompe logo no primeiro capítulo, mas Mahfouz não nos quer presos a este veredicto, e conduz-nos, através de Miriamon, o narrador que é quase um detective, até junto daqueles que conviveram com o faraó, para que cada um conte a sua versão dos acontecimentos.

Para uns, foi um visionário, que rompeu com tradições políticas, religiosas e artísticas; para outros, um fanático religioso que “devastou o Egipto e todo o seu império”.

Akhenaton, Nefertiti e três das suas seis filhas
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Se o título em português é abusivo, como justificar também a nomenclatura usada? Ay em vez de Ai; Mut-Najmat em vez de Mutnedjemet; Miri-Rá em vez de Meriré; Ámon em vez de Amon e Áton em vez de Aton; grão-sacerdote em vez de sumo-sacerdote, por exemplo.

“Escolhi os termos em consultas na Internet”, referiu Daroga, confessando que desconhecia existir um Dicionário do Antigo Egipto (Ed. Caminho), uma obra colectiva de referência, dirigida pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, onde se podem dissipar todas as dúvidas nas suas mais de 900 páginas.

É certo que Al-A’ish fi-L-Haqiqa é um romance dirigido ao grande público e não um manual escolar, um ensaio ou uma tese vocacionados para um grupo restrito, mas um autor nobre como Naguib Mahfouz não teria merecido o conselho de especialistas que poderiam ter contribuído, designadamente, com notas complementares?

Entre várias informações úteis, teria sido interessante acrescentar, em rodapé, que Akhetaton (O Horizonte de Aton), a cidade para onde Akhenaton (Aquele que é agradável a Aton) se mudou, foi posteriormente designada de Tell el-Amarna ou Amarna, e que Tebas, que ele abandonou quando virou as costas ao clero de Amon, se chamava Uaset (A Poderosa).

E porquê, ainda, uma capa com as pirâmides se nada têm a ver com o período a que se refere o livro? A versão árabe, que Daroga traduziu, tem a imagem de Nefertiti (mulher de Akhenaton, a quem é dedicado o último capítulo), a inglesa exibe o busto do próprio faraó. A francesa tem um desenho quase infantil do rei egípcio numa pose contemplativa.

Explica-nos Marta Teixeira, a designer responsável: “Quisemos que o leitor identificasse logo que se tratava do Egipto. Isto não é um pedaço da História, é um produto comercial, que tem de vender.”

“Procurámos uma imagem actual e apelativa, que fosse de percepção rápida. Não queríamos nas prateleiras [de livrarias e hipermercados] uma capa que ninguém entendesse, porque o conteúdo já fala por si.”

É pena que as opções tivessem sido estas, porque em Al- A’ish fi-L-Haqiqa Mahfouz não maltrata a História, “imparcial e aberta a qualquer testemunho”, como ele próprio escreve.

Todas as personagens que o “investigador” Miriamon vai ouvir, para apurar “a verdade, livre de ideias feitas para aqueles que desejem contemplá-la”, existiram na XVIII dinastia do faraó cujo nome pessoal era Neferkeperuré Uanré Amen-hotep IV.

Do templo de Amon ao palácio de Nefertiti vamos assistindo ao que o defunto académico palestiniano Edward W. Said escreveu um dia no jornal Al-Ahram, do Cairo: “A preocupação especial de Mahfouz é com o poder, com o conflito entre a verdade absolutamente pessoal e a ortodoxia religiosa, o contraponto entre perspectivas estranhamente compatíveis e altamente contraditórias que derivam de uma figura misteriosa e inescrutável.”

É quase uma triste ironia que Naguib Mahfouz, que morreu em 2006, tenha sido tratado pela sua editora portuguesa como alguns seguiram Akhenaton: mero oportunismo.

Naguib Mahfouz
© The Guardian

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

O jardim de Suu Kyi como metáfora da Birmânia

Os generais da Birmânia recusaram libertar a filha do “herói da independência” e líder da Liga Nacional para a Democracia. “Têm muito medo dela”, diz uma amiga. (Ler Mais | Read more...)

© christinalund.com

Prestes a completar 62 anos, no dia 19 de Junho [de 2007], Aung San Suu Kyi já quase não [tinha] forças para cuidar do jardim da sua casa, em Rangun, onde segundo um relato da Vanity Fair brotavam lírios, gardénias, jasmim e até uma flor da América do Sul chamada “ontem, hoje e amanhã”.

No entanto, apesar do estado de saúde cada vez mais debilitado, a sua amiga Debbie Stothard diz que ela ainda “aterroriza a junta militar” birmanesa.

Foi por isso que, numa avaliação que faz(ia) em cada 12 meses, ao abrigo de um obscuro decreto de segurança, o regime que se auto-intitula Conselho para a Paz e Desenvolvimento do Estado decidiu que a líder da Liga Nacional para a Democracia (NLD, sigla em inglês) se mantém a “mais famosa prisioneira política do mundo”. *

Foram mais uma vez ignorados os apelos internacionais para a libertação da mulher a quem chamam “a Nelson Mandela da Ásia”, feitos pela ONU, EUA e UE. Nem uma carta de 60 antigos presidentes e primeiros-ministros sensibilizou o ditador Than Shwe.

Aung San Suu Kyi, no jardim da sua casa em Yangon (antiga Rangun) em1996. © James Whitlow Delano

© James Whitlow Delano

O jardim de Suu Kyi [era] como uma metáfora da Birmânia: um terreno onde crescem as ervas daninhas e onde as cobras são dos raros seres vivos autorizados a entrar. Diz-nos, por e-mail, Debbie Stothard, coordenadora da ALTSEAN, rede de apoio à democracia birmanesa que integra activistas, ONG, académicos e políticos do Sueste asiático: “As condições de detenção de Aung San Suu Kyi na sua casa são piores do que numa prisão. Pelo menos na prisão, ela tinha direito a visitas e telefonemas, de amigos, familiares, médicos e advogados.”

Agora, o médico aparece cada vez menos, e “o contacto com o mundo exterior é tão restrito que é como se ela estivesse na solitária”, adianta Stothard. “O regime tenta quebrar-lhe o ânimo, afastando-a da família, mas, apesar da perseguição e do isolamento dos que mais ama, ela mantém o espírito forte.”

Há informações que circulam entre os apoiantes de Suu Kyi de que nem sequer os dois filhos, Alexander e Kim, a residirem em Londres, lhe podem telefonar.

O mesmo acontecera com o seu marido, Michael Aris, que morreu de cancro da próstata, em 1999. Na altura, o regime permitiu que ela fosse ao funeral, mas deixou claro que não a deixaria voltar. Ela preferiu não viajar, guardando para si a dor de uma ausência que já era prolongada.

A relativa tranquilidade da vida de Suu Kyi foi abalada quando, em 31 de Março de 1988, teve de apanhar um avião de urgência para Rangun, onde a sua mãe sofrera um ataque cardíaco.

A capital birmanesa vivia um período de convulsão. A 23 de Julho, o general Ne Win, autocrata xenófobo que tomara o poder pelas armas em 1962, demitira-se na sequência de protestos.

Em 1991, a líder birmanesa foi a premiada com o Nobel da Paz, em recompensa pela sua luta a favor da democracia, mas só o recebeu em Junho de 2012. © Vogue, Março 2011

© Vogue, Março 2011

A 15 de Agosto, na sua primeira acção política, Suu Kyi enviou uma carta aberta ao Governo, pedindo eleições multipartidárias. A 24 de Setembro, fundou a NLD, seguindo a filosofia de não violência de Mahatma Gandhi – ironicamente a Índia é hoje um dos raros aliados da junta birmanesa, a par da Rússia (que fornece tecnologia nuclear) e da China, ansiosos por explorar recursos naturais, como petróleo, gás e urânio.

Em 27 de Dezembro, no enterro da mãe, Suu Kyi prometeu honrar a memória do pai, Aung San, herói da luta pela independência, assassinado em 1947, em plena reunião do governo, antes de cumprir o sonho de formar um Estado federal com as suas várias minorias étnicas.

Ser filha de um herói não tem sido fácil para Suu Kyi. A primeira detenção domiciliária começou em 20 de Julho de 1989. Em 27 de Maio de 1990, a sua NLD conquistou 81%  dos 485 lugares da Assembleia Nacional, nas primeiras eleições em quase três décadas.

O Partido de Unidade Nacional, pró-governamental, ficou reduzido a 2%. [Em 1991, a activista da oposição viu a sua luta pela democracia ser premiada com o Nobel da Paz.]

O escrutínio foi anulado. E Suu Kyi, que deveria ter sido primeira-ministra, voltou a ficar sob detenção domiciliária. Foi libertada em Julho de 1995, mas, sempre vista como ameaça, voltou à residência vigiada em Setembro de 2000. Dois anos depois, a junta sentiu-se confiante para a pôr em liberdade, e até a autorizou a viajar pelo país.

Recorda Debbie Stothard: “Em 2002, [os militares] pensavam que, não a vendo há 13 anos, o povo a tinha esquecido, mas dezenas de milhares de pessoas assistiam aos seus comícios, não obstante as ameaças de violência do regime, e o regime ficou extremamente nervoso e perturbado.”

Em 30 de Maio de 2003, um bando de arruaceiros atacou a caravana de Suu Kyi, numa aldeia do Norte. Alguns militantes da NLD foram mortos e feridos. Suu Kyi fugiu do local com a ajuda do motorista, mas foi detida ao chegar à localidade de Ye-U. Mandaram-na para a penitenciária de Insein, em Rangun.

Em Setembro, depois de ela ter sido submetida a uma histerectomia (remoção do útero), o Governo colocou-a de novo sob detenção domiciliária. E assim tem passado 11 dos últimos 17 anos.

Aung San Suu Kyi, posando junto a uma foto de Aung San, o seu pai e da independência da Birmânia. @EPA

Aung San, o pai de Suu  Kyi, foi o arquitecto da independência da Birmânia
© EPA

Com o marido, Michael Aris, no dia do casamento. Ele morreu de cancro, em Londres: ela não foi ao funeral. Sabia que os militares não a deixariam regressar se saísse do país. @DR (Direitos Reservados | All ights Reserved)

Com o marido, Michael Aris, no dia do casamento, a 1 de Janeiro de 1972, em Londres. Ele morreu de cancro, em Londres, em 1999. Ela não foi ao funeral – sabia que os militares não a deixariam regressar se saísse do país
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Com os dois filhos, Alexander (à esquerda) e Kim. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Suu Kyi com os seus dois filhos, Alexander (à esq.) e Kim, em Inglaterra, em 1988. Nem um nem outro têm nacionalidade birmanesa
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“A confiança que as pessoas depositam em Suu Kyi não diminuiu, apesar dos anos de detenção, e há cada vez mais activistas a fazer ouvir a sua voz”, assegura Stothard.

A extrema magreza de Suu Kyi impressionou um enviado da ONU que a visitou em 2006, mas é “o regime que está muito mais fraco”, garante a coordenadora da ALTSEAN. “Até os seus próprios oficiais e soldados se ressentem da liderança. Civis e militares fogem do país devido à opressão e ao caos económico.”

Para realçar como a junta “está em apuros”, e citando a Janes Defence Weekly, Debbie Stothard adianta que, entre Junho e Setembro de 2006, desertaram um total de “9497 soldados – mais 8% do que no mesmo período de 2005”.

A NLD ofereceu-se, o ano passado, para reconhecer a junta, se o Parlamento se pudesse reunir, abrindo caminho a uma “genuína transição”, recorda Stothart. “Infelizmente, o medo e a ganância do regime não os deixa ver a situação com racionalidade.”

Ou como diz Suu Kyi num dos seus mais eloquentes discursos: “Não é o poder que corrompe, é o medo. O medo de perder o poder corrompe os que se agarram a ele, e o medo do castigo do poder corrompe os que se submetem.”

  • [Em 13 de Novembro de 2010, Suu Kyi foi finalmente libertada da condição de detenção domiciliária,  autorizada a movimentar-se sem restrições. Num discurso que fez, perante milhares de seguidores e simpatizantes, a activista defendeu “democracia e reconciliação nacional”, assegurando: “Não guardo ressentimentos em relação a ninguém”.
  • Em 1 de Abril de 2012, foi eleita para o Pyithu Hluttaw,  câmara baixa do Parlamento birmanês.
  • Em Outubro de 2013, Aung San Suu Kyi  foi, finalmente, a Estrasburgo receber o Prémio Sakharov, que lhe havia sido atribuído pela União Europeia em 1990. 
  • Em 2015, o partido de Suu Kyi conquistou mais de 65% dos votos em eleições gerais. Proibida pela Constituição de ser Presidente, assumiu um cargo criado exclusivamente para si -Conselheira de Estado -, equivalente a primeira-ministra.
  • Em 2018, a Amnistia Internacional retirou-lhe o Prémio de Embaixadora da Consciência, criticando a sua “vergonhosa” indiferença para com o drama dos mais de 6000 muçulmanos Rohingya expulsos da Birmânia, numa campanha de “limpeza étnica” que a ONU suspeita ter “intenções genocidas”. Antes, já havia perdido outros prémios que lhe foram conferidos pelo Holocaust Memorial Museum, nos Estados, pelas cidades de Dublin e Oxford e pelo Parlamento do Canadá (que retirou a cidadania honorária).]
A Rohingya Muslim man who fled Myanmar to Bangladesh to escape religious violence, cries as he pleads from a boat after being intercepted by Bangladesh border authorities in Taknaf, Bangladesh, Wednesday, June 13, 2012. Bangladesh has turned back more than 1,500 refugees in recent days, officials said and a global human rights group on Wednesday urged Bangladesh to keep its border open to people seeking refuge from sectarian violence in western Myanmar. © Anurup Titu | AP

Um muçulmano Rohingya, em fuga da violência na Birmânia, implora auxílio quando o barco que transporta a sua família é interceptado pelas autoridades fronteiriças, em Taknaf, no Bangladesh
© Anurup Titu | AP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 27 de Maio de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 27, 2007

É o medo que constrói muros

Do Iraque à Malásia, de Ceuta à Cisjordânia, do Botswana ao México, proliferam “barreiras de separação” e “vedações de segurança”. Delimitam fronteiras e afugentam imigrantes, contrabandistas, terroristas, pandemias. São uma “brutal arquitectura da vergonha”. (Ler mais | Read more…)

© spiegel.de

O Muro de Berlim começou a ser construído, pelas autoridades da antiga República Democrática da Alemanha (RDA) em 13 de Agosto de 1961. O objectivo principal era evitar a deserção para o sector ocidental da cidade, capital da República Federal da Alemanha (RFA). O muro foi derrubado em 1990 quando a URSS ruiu
© Luís Veiga | Getty Images

Em Junho de 1987, junto à Porta de Brandenburgo, em Berlim, o Presidente norte-americano Ronald Reagan lançou um desafio ao seu homólogo soviético: “Se procura a paz, a prosperidade e a liberalização, senhor Gorbatchov abra esta porta! Senhor Gorbatchov derrube este muro.”

Para os que o ergueram, em 1961, era o antifaschistischer Schutzwall ou “muro de protecção anti-fascista”. Para os críticos, era o Schandmauer ou “muro da vergonha”. Vinte anos depois do discurso de Reagan, os Estados Unidos tornaram-se, aparentemente, nos maiores construtores de muros.

Desde a sua fronteira com o México, onde querem impedir a entrada de imigrantes ilegais, até Adhamiya, distrito de Bagdad, onde procuraram travar uma guerra civil. Mas os EUA não estão sozinhos.

Há cada vez mais muros, embora as designações politicamente correctas sejam agora “barreira de separação” ou “vedação de segurança”. Também os que saltam os muros deixaram de ser, como os de Berlim, “heróis da liberdade”, para se tornarem em “potencial ameaça”.

“A proliferação de muros aumentou à medida que o mundo se tornou mais interligado”, reconhece, numa entrevista que me deu, por e-mail, Donald Steinberg, vice-presidente do International Crisis Group (ICG).

“As nações tomaram consciência dos efeitos desestabilizadores – de fluxos de refugiados, tráfico de drogas, armas e pessoas até doenças pandémicas – que os conflitos podem transmitir através de fronteiras e através de regiões.”

Na capital iraquiana, o exército norte-americano ergueu, a partir de 2007, blocos de cimento armado, de quase cinco metros de altura, oficialmente para impedir que combatentes xiitas e sunitas ataquem os civis das duas comunidades. As duas comunidades protestaram, alegando que a construção apenas reforça o isolamento e as tensões entre ambas.

Para Charles Crain, jornalista da revista TIME, nem xiitas nem sunitas aceitam o muro porque uns e outros “não querem pôr fim à guerra civil mas ganhá-la”, e isso já é um indicador de como a estratégia militar dos EUA está a falhar.

As críticas foram tantas, do Governo e da população do Iraque, que a construção da “barreira de separação” teve de ser abrandada, ainda que não tenha sido suspensa.

Disse Crain que os habitantes sunitas de Adhamiiya “já são prisioneiros” neste seu reduto. Poucos se arriscam a deixar os bairros que habitam, frequentemente alvo de ataques de morteiros, porque têm de atravessar território xiita.

Além disso, acrescenta o enviado da TIME, “um muro só é efectivo quando os guardas protegem os seus portões, e os sunitas têm todas as razões para desconfiar dos homens [xiitas] que têm as chaves dos seus bairros”.

Os EUA insistem em que o muro de Adhamiiya é temporário, mas os iraquianos temem que se torne permanente.

É um receio partilhado pelos palestinianos em relação ao muro que separa Jerusalém da Cisjordânia – uma rede de barreiras, vedações e fossos que duplica a extensão das fronteiras internacionalmente reconhecidas de Israel, ao incluir, no Estado judaico, colonatos construídos em território ocupado.

Bagdad, Maio de 2015: Karim Wasfi, ex-director da Orquestra Sinfónica Nacional do Iraque toca o seu violoncelo junto aos destroços de um edifício atacado no bairro de Adhamiya, onde foi erguido, em 2007, um muro a separar comunidades sunita e xiita, o que agravou ainda mais as tensões interconfessionais e o isolamento
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Tal como em Bagdad, também o muro da Cisjordânia, em algumas zonas atingindo oito metros de altura, para uma extensão final de 703 quilómetros (58% já construídos), tem sido muito criticado. Para os palestinianos, é um “muro racista”, obra ilegal que transforma povoações em guetos, anexa áreas populacionais e de cultivo sob pretexto de segurança e cria factos consumados que invalidam uma solução negociada do conflito.

Para uma maioria de israelitas, aquilo a que eles chamam de “vedação pela vida” tem servido para diminuir a infiltração de terroristas no seu Estado e reduzir drasticamente o número de atentados suicidas. O Supremo Tribunal de Israel, embora justificando a legalidade do muro “por questões de segurança”, já obrigou o Governo a modificar o traçado por “motivos humanitários”.

A ONU também alertou para o facto de esta “barreira de separação” limitar a liberdade de movimentos de cerca de 50 mil palestinianos de 38 aldeias e vilas nas regiões mais férteis da Cisjordânia, onde têm sido confiscados vários hectares de terras e arrancadas centenas de oliveiras e árvores de fruto.

Entre os poucos israelitas que se opõem ao muro, Eyal Weizman, director do Goldsmiths College’s Centre for Research Architecture, em Londres, qualifica-o de “contraproducente, a curto e longo prazo”, propício a fomentar as actividades subversivas que, pretensamente, quer evitar. E dá um exemplo: o muro construído na Faixa de Gaza, em 1994, “não impediu que os palestinianos escavassem túneis para contrabando de armas e raptar soldados.

“Os muros são impotentes”, frisa Weizman, autor de Hollow Land, Israel’s Architecture of Occupation (Verso Press), numa entrevista que nos deu, por telefone, a partir de Londres.

“O medo que existe [dos atentados em Israel] não é proporcional à angústia, sofrimento e destruição que são impostos aos palestinianos. Os governos querem mostrar ao povo que estão a fazer algo, mas os muros apenas são úteis por motivos psicológicos.”

Para Weizman, o velho ditado americano de que “bons muros fazem bons vizinhos” não se aplica a Israel, porque a “barreira” da Cisjordânia está a ser erguida em território ocupado.

“Por que não se construiu um muro em redor de Telavive? Nas fronteiras internacionais do Estado [israelita]? Que sentido faz eu querer proteger-me do meu vizinho construindo um muro no quintal dele? É a isso que chamam segurança?”

O que os israelitas designam por “barreira de segurança” e os palestinianos por “muro do apartheid” separa Jerusalém da Cisjordânia ocupada na guerra de 1967. No final da construção, ocupará um total de 703 Km (58% já construídos). Muitas terras foram expropriadas para que as obras contemplassem esta “divisória” mas também a expansão de colonatos judaicos
© Musa Al Shaher | AFP | Getty Images

“Não há nada de errado nos muros”, acentua o arquitecto israelita. “O problema está na política e na estratégia por detrás dos muros. O Muro de Berlim era uma cortina de ferro para aprisionar as pessoas que queriam fugir para o Ocidente.”

“Os muros actuais são uma nova e brutal arquitectura da vergonha. Os muros tornaram-se símbolos do medo. Medo do terrorista. Medo do imigrante. Medo de tudo.”

Donald Steinberg, do ICG, concorda com Weizman: “As barreiras físicas têm sido pouco eficazes, e a sua construção é geralmente motivada por uma decisão política de modo a responder ao generalizado ressentimento popular contra a infiltração de grupos armados.”

“Os muros são construídos para mostrar ao povo que os governos estão preocupados em fazer alguma coisa.”

Quanto ao ditado dos bons muros fazerem bons vizinhos, também Steinberg o considera mais do que nunca obsoleto. “Ao separar pessoas de aldeias vizinhas, de empregos ou de mercados, os muros estão, no fundo, a exacerbar tensões”, disse.

Para Steinberg, a gigantesca vedação – ocupa mais de mil de um total de 3300 quilómetros – que os EUA estão a construir na fronteira com o México “serve menos para excluir imigrantes ilegais e mais para reagir aos instintos xenófobos de alguns, que acusam os imigrantes ilegais de ficarem com os empregos dos norte-americanos e de sobrecarregarem serviços públicos, como escolas, hospitais e o sistema de segurança social”.

A barreira inclui áreas urbanas de San Diego (Califórnia) e El Paso (Texas), desviando os indesejáveis clandestinos para zonas inóspitas do deserto do Arizona, onde muitos acabam por morrer na travessia – calcula-se que uma média de nove por semana.

Os defensores desta fortificação alegam que o velho “Muro da Tortilha”, em Tijuana, conseguiu diminuir o fluxo de indocumentados nos EUA, de meio milhão por ano para 130 mil em 2006. Não impediu, porém, um próspero negócio de túneis subterrâneos para traficar pessoas e falsificar identificações.

Na fronteira com o México, os EUA construíram uma gigantesca vedação – ocupa mais de mil de um total de 3300 quilómetros -, para excluir, principalmente, imigrantes ilegais. A barreira inclui áreas urbanas de San Diego (Califórnia) e El Paso (Texas), desviando clandestinos para zonas inóspitas do deserto do Arizona, onde muitos acabam por morrer na travessia
© The Boston Globe

O arquitecto israelita Eyal Weizman nota que também este muro é “uma obra unilateral”. Porque “é fácil a quem vem dos Estados Unidos entrar no México mas é muito mais difícil a quem vem do México entrar nos EUA”. É, na sua opinião, o que acontece na Cisjordânia: “Os colonos e soldados israelitas podem atravessar o muro mas os palestinianos não.”

Para trancar a porta a imigrantes e contrabandistas no Norte de África, os espanhóis também construíram muros a separar Ceuta e Melilla de Marrocos, que reclama soberania sobre aqueles enclaves autónomos. Como acontece nos EUA, os que procuram emprego e vida digna são obrigados a encontrar vias alternativas, como o Estreito de Gibraltar, onde muitos perdem a vida.

O muro de Ceuta custou 30 milhões de euros e foi financiado pela União Europeia. Consiste em vedações de arame farpado de 3 metros de altura, com torres de vigia, sensores de ruído e movimento e câmaras de vídeo.

O muro de Melilla, também munido de todo este equipamento de detecção, é constituído por três vedações ao longo de uma montanhosa zona-tampão na fronteira hispano-marroquina. A terceira vedação foi mandada erguer, em 2005. Com 11 quilómetros de comprimento e três metros de altura, custou 33 milhões de euros.

Para trancar a porta a imigrantes e contrabandistas no Norte de África, os espanhóis construíram muros – com sensores de movimento, câmaras de infra-vermelhos e torres de vigia – a separar Ceuta e Melilla de Marrocos, país que reclama soberania sobre aqueles enclaves autónomos. O de Ceuta custou 30 milhões de euros e foi financiado pela União Europeia; o de Melilla foi avaliado em 33 milhões
© José Palazon | Reuters

Marrocos, por seu turno, embora critique os muros espanhóis, também construiu, nos anos 1980, uma das mais longas barreiras fronteiriças – blocos de terra, areia e pedra com cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura -, para travar os ataques da Frente Polisário, movimento que luta pela independência do Sara Ocidental.

O muro do Sara, composto por vedações, bunkers, arame farpado e minas terrestres, é defendido por “200 mil a vários milhões” de soldados marroquinos, estimativas que variam consoante as fontes. A posição crítica de Marrocos em relação a Espanha assemelha-se à de vários países árabes em relação a Israel.

O muro da Cisjordânia, por muitos repudiado como “muro do apartheid“, tal como outras barreiras instaladas pelos israelitas, em Gaza, e nas fronteiras com o Egipto, o Líbano e a Síria, têm servido de modelo a responsáveis na Arábia Saudita e no Kuwait.

No caso dos sauditas, estes não só tencionam concluir uma longa barreira de tubos e sacos de areia (interrompida há três anos) para definir a contenciosa fronteira com o instável Iémen, como continuam a investir milhões de dólares no sentido de reforçar uma vedação de 880 quilómetros de comprimento que os separa do turbulento Iraque.

Este muro fortificado está a ser apetrechado com sensores, câmaras de visão nocturna e software para reconhecimento de rostos.

O Kuwait, que em 1990 sofreu uma invasão das tropas de Saddam Hussein, também selou os 217 quilómetros da sua fronteira com o Iraque colocando ferro electrificado e abrindo um fosso de dois metros de profundidade. Tudo sob constante vigilância de centenas de soldados, vários navios de patrulha e helicópteros. A obra foi avaliada em 29 milhões de dólares.

É de 550 km a barreira de duplo arama farpado, electrificado, com sensores e alarmes, que divide a Caxemira em zonas controladas pelo Paquistão, que denuncia violação das resoluções da ONU, e pela Índia, que alega ter reduzido em 80% os ataques terroristas, alguns deles suicidas
© Reuters

Igualmente inspirado nas barreiras de separação israelita é o muro de 550 quilómetros que divide a Caxemira em zonas controladas pela Índia e pelo Paquistão.

O objectivo é impedir não só o contrabando de armas mas também a infiltração de activistas que lutam por um estado islâmico. É mais um muro de duplo arame farpado, electrificado, com sensores e alarmes.

Os paquistaneses alegam que se trata de uma violação das resoluções da ONU. Os indianos, autores do projecto, garantem que deste modo conseguiram reduzir em 80% os ataques terroristas, alguns deles suicidas.

Travar a passagem de contrabandistas e extremistas religiosos é também a razão que levou a Tailândia a propor à Malásia a construção de uma barreira de 640 quilómetros na fronteira comum.

O mesmo objectivo, o de cortar o acesso aos insurrectos Taliban e seus aliados, foi invocado pelo Paquistão, quando começou a erguer um muro ao longo dos 2500 quilómetros de fronteira com o Afeganistão. A iniciativa gerou críticas por parte de Cabul, e já deu origem a incidentes fronteiriços com os militares de ambos os países.

Na Ásia Central, as antigas repúblicas soviéticas do Uzbequistão e do Quirguistão estão separadas por um muro de arame farpado desde 1999. Foi uma decisão unilateral dos uzbeques, quando Tashkent, a sua capital, foi alvo de ataques à bomba por parte de rebeldes islamistas quirguizes.

A medida causou graves transtornos económicos, já que separou muitas famílias numa região que era antes integrada.

Junho de 2018: Soldados da Força de Manutenção da Paz das Nações Unidas em Chipre (UNFICYP) patrulham o interior da zona tampão que separa o Norte e o Sul da ilha, em Nicosia – a última cidade dividida da Europa
© Agence France-Presse

Os exemplos de muros, activos ou desactivados, são muitos. Em África, um dos mais simbólicos continua a ser a vedação electrificada de 120 quilómetros na fronteira da África do Sul com Moçambique, erguida em 1975, para impedir que a guerra na ex-colónia portuguesa afectasse o Parque Nacional de Kruger.

A vedação era conhecida localmente como Cobra de Fogo. As suas descargas de 3300 volts matavam sobretudo mulheres e crianças que fugiam aos combates entre os guerrilheiros da Frelimo, no poder, e os da Renamo, agora principal partido da oposição.

Líderes religiosos regionais calculam que 200 moçambicanos morriam por ano ao tentar saltar o muro.Até 1989, estima-se que cerca de 3000 perderam a vida – ou seja, mais do que o total de mortos no Muro de Berlim (80 em 28 anos).

Em 2002, Moçambique, a África do Sul e o Zimbabwe concordaram em derrubar o muro, para reabrir uma antiga rota de migração de elefantes, mas três anos depois surgiram notícias de que só uma parte tinha sido demolida, por persistirem receios de imigração ilegal e contrabando de armas.

Em 2003, também o vizinho Botswana ergueu uma vedação eléctrica de 480 quilómetros na fronteira com o Zimbabwe, justificando que só assim poderia “manter afastado gado com febre aftosa e garantir que os visitantes desinfectavam o calçado à entrada”.

Para Donald Steinberg, vice-presidente do ICG, o objectivo do muro era “afastar centenas de milhares de zimbabweanos desesperados”, mas não conseguiu e “permanece um sinal visível da intransigência do Governo do Botswana”.

As chamadas Linhas da Paz de Belfast - cerca de 40 barreiras de ferro, tijolo e aço, de mais sete metros de altura, erguidas no início dos anos 1990 para minimizar a violência sectária entre católicos e protestantes - são agora atracções turísticas. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

As chamadas Linhas da Paz de Belfast – cerca de 40 barreiras de ferro, tijolo e aço, de mais sete metros de altura, erguidas no início dos anos 1990 para minimizar a violência sectária entre católicos e protestantes – são agora atracções turísticas
© Antonio Olmos | The Guardian

Na Europa, depois da queda do Muro de Berlim, permanece desde 1974 uma linha divisória de 300 quilómetros entre o Norte e o Sul de Chipre. Recentemente, o muro de Nicósia/Lefkosa foi derrubado e substituído por placas de alumínio, facilitando a comunicação entre os sectores de maioria grega e turca. Mas uma reunificação como na Alemanha, em 1990, ainda parece longínqua. Mais perto da reconciliação está a Irlanda do Norte.

As chamadas Linhas da Paz de Belfast – 99 barreiras de ferro, tijolo e aço, algumas até 6 metros de altura – começaram a ser erguidas em 1969, para minimizar a violência sectária entre católicos e protestantes. Muitas são agora atracções turísticas.

Steinberg admite que as linhas de Belfast conseguiram poupar algumas vidas. Mas está cada vez mais convencido de que “um muro é principalmente um exercício simbólico, já que a verdadeira garantia de paz e não ingerência é o diálogo, o equilíbrio militar e relações amigáveis”.

© healingpenn.wordpress.com

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 4 de Maio de 2007 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 4, 2007

Os meninos de rua da Índia são donos de um banco

Funciona desde 2001 e é uma história de sucesso. O Child Development Bank, ou Bal Vikas Bank, começou em Nova Deli e já tem sucursais no Afeganistão, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka. Vai chegar também ao Quirguistão e ao Malawi. Um pequeno depósito ajuda a mudar – e a salvar – milhões de vidas. (Ler mais | Read more…)

FOTO B

Ao fim de um dia a recolher lixo nas ruas ou a vender flores nos semáforos, os cerca de 120 milhões de meninos sem abrigo na Índia (cálculos da UNICEF) raramente ficavam com algum dinheiro ganho nessas e noutras tarefas.

Gastavam-no todo em comida e em filmes. Ou ficavam sem ele em confrontos com parentes e rufias mais velhos.

Para subsistirem, alguns confiavam os magros salários a donos ou empregados de lojas. Até que criaram um projecto único no mundo: o seu próprio banco.

Aqui, no Child Development Bank (CDB) ou Bal Vikas Bank, em Nova Deli, miúdos dos 8 aos 18 anos não se limitam a ser clientes. São os próprios administradores – treinados nos princípios e terminologia bancários por técnicos de grandes instituições financeiras internacionais, como o HSBC.

Foram eles que ditaram as taxas de juro e os seus prazos. Quando lhes propuseram depósitos remunerados a 11 meses, regatearam para três, até concordarem que fossem fixados a seis.

“Onze meses era um período demasiado longo e irrealista”, explica-me, apor e-mail, Suman Sachdeva, a coordenadora do projecto lançado pela organização não governamental Butterflies: “As crianças disseram-nos que não sabiam se ficariam na mesma cidade tanto tempo ou se chegariam sequer a viver 11 meses.”

Os activistas da Butterflies, que amparam meninos nas ruas desde 1989 (têm actualmente 11 “pontos de contacto” e três abrigos nocturnos na capital indiana), começaram a discutir a necessidade poupança depois de se aperceberem de situações dramáticas.

“Quando um rapaz precisava desesperadamente de dinheiro e pedia emprestado a um irmão ou irmã, há frequentemente lutas corporais na hora de cobrar o pagamento”, exemplifica Suman Sachdeva. “Também é um problema quando as crianças ficam doentes e não podem trabalhar para se sustentar.”

O CDK é gerido por Sonu, de 13 anos (à esquerda). Está neste banco desde que fugiu de casa. @Arkaprava Ghosh | Barcroft India | The Daily Mail

O CDK é gerido por Sonu, um menino de rua, de 13 anos. Está neste banco. aberto sete dias por semana, desde que fugiu de casa da família.
@Arkaprava Ghosh | Barcroft India 

“Em Julho de 1995, convidámos um perito em bancos mutualistas para nos ajudar a compreender como é que este conceito poderia reforçar os garotos economicamente. Começámos a trabalhar e a ideia pegou”, regozija-se Suman. “No espaço de um mês, em Agosto de 1995, as crianças do ponto de contacto do Terminal de Autocarros Inter-Estadual decidiram abrir uma União de Crédito.”

“Cada membro contribuía com duas rupias [o,03421 euros] por dia para o seu capital accionista (dez rupias/o,17103 euros, o custo de uma acção). O objectivo era fornecer vários serviços, como educação, formação profissional, assistência médica e empréstimos para iniciar pequenos negócios.”

Foi a partir do esquema de poupança da União de Crédito que o CDB nasceu, em Abril de 2001, com impulso de “doadores privados do Reino Unido”.

O perfil dos membros do banco, precisa Suman, varia de cidade para cidade. “Em Deli [onde serão 400 mil os que vivem e trabalham na rua], a maior parte são crianças que fugiram de outros estados indianos. Vieram para a capital por duas razões: são vítimas de abusos físicos em casa e são pobres.”

No primeiro ano de existência, o CDB já tinha 800 “sócios”. Actualmente, estes já ultrapassam os 8000. O direito de admissão é reservado: não são permitidos os que roubam carteiras por esticão nem os toxicodependentes.

Os balcões do banco funcionam nos “pontos de contacto” e nos abrigos da Butterflies. Com o apoio de “mediadores adultos”, as crianças eleitas em assembleia-geral para um conselho designado Volunteer Managers (Gestores Voluntários) controlam tudo, desde a emissão de cheques até à aplicação dos fundos.

A child makes a deposit. Some members have saved up as much as £50-£60 through the bank @Arkaprava Ghosh | Barcroft India | The Daily Mail

Alguns meninos chegam a depositar o equivalente a 60 ou mais de 70 euros no banco de Sonu
@Arkaprava Ghosh | Barcroft India

Para abrir uma conta basta preencher à mão um formulário, com a ajuda de um “educador de rua”, e investir uma rupia (0,01710 euros, à data da publicação deste artigo).

Há dois tipos de contas, correntes (jamma khaata) e a prazo (bachat khaat). Das contas correntes, é permitido levantar, se houver provisão, qualquer quantia pretendida; as contas a prazo só podem ser movimentadas após seis meses, ou “em caso de emergência e quando os depositantes tencionam regressar às suas casas”, especifica Suman.

O CDB oferece uma taxa de juro de 3,5% ao ano, calculada em cada três meses, e adicionada aos depósitos. Os empréstimos ganham aqui a forma de “adiantamentos” em duas formas.

A primeira é o development advance a todas as crianças que queiram “adquirir coisas para as suas necessidades básicas, ou comprar um bilhete de volta a casa, ou para estudar, ou para obter uma formação laboral específica”.

Deste modo, realça Suman, evita-se que sejam levantadas as poupanças. A segunda é o welfare advance, para iniciar um projecto económico. Destina-se só a quem tem mais de 15 anos.

Mohammed Akbar, que dormia em estações de comboios, tinha 13 anos quando pediu um welfare advance – 500 rupias ou 8,5 euros (cálculo de 2008) – para vender chá que ele próprio confeccionava, conta a revista Civil Society News, de Nova Deli.

Para ele, não havia izzat (honra) a remexer as lixeiras onde passava os dias. Comprou uma chaleira, um pequeno fogão a querosene, plantas para chá e copos de plástico para se lançar no negócio.

Akbar tentou vender cada copo de chá a duas rupias, mas os clientes achavam caro, e o chá esfriava e entornava-se em cada caminhada. Os colegas aconselharam-nos a adoçar mais a bebida e a montar uma barraquinha num passeio.

Assim fez, e o seu negócio continua, às escondidas da polícia (que cobra uma “comissão”), embora seja mais lucrativo no Inverno que no calor abrasador da grande metrópole.

Four members show their pass books - which are needed to make a deposit @Arkaprava Ghosh | Barcroft India | The Daily Mail

Quatro clientes do banco mostram as cadernetas para efectuarem os depósitos
© Arkaprava Ghosh | Barcroft India 

A ONG Butterflies também oferece às crianças educação, abrigos e alimentos. @Arkaprava Ghosh | Barcroft India | The Daily Mail

A ONG Butterflies também oferece às crianças educação, abrigos e alimentos.
© Arkaprava Ghosh | Barcroft India

Hoje, com membros como Akbar, o CDB é uma multinacional. Tem 24 filiais principais e 44 secundárias no Sul da Ásia – em Deli, Bihar, Kolkata, Chennai e Jammu e Caxemira, na Índia; em Chitwan e Pokhara, no Nepal; e também no Afeganistão, no Bangladesh e no Sri Lanka.

A professora Suman Sachdeva está confiante na expansão para outras regiões indianas (Odisha/Orissa, Jaipur e Uttar Pradesh) e ainda para o Quirguistão, antiga república soviética na Ásia Central, e para o Malawi, em África.

Inquirida sobre as críticas de a Butterflies estar a perpetuar o trabalho infantil, Suman responde: “Como organização, lutamos para garantir os direitos de todas as crianças, e acreditamos que nenhuma criança deve trabalhar.”

“Na realidade, muitas delas trabalham porque não têm outra opção”, acrescenta. “Se vemos crianças em ocupações perigosas, tentamos afastá-las e reabilitá-las. O problema do trabalho infantil é tão grave que não o podemos eliminar subitamente.”

“A Butterflies tem uma série de actividades com as crianças de rua e as crianças que trabalham, e estas actividades estão todas integradas”, adianta Suman.

“A mais importante consiste num centro de educação. Outras são uma cooperativa de saúde, uma linha telefónica para ajudar meninos e meninas em risco, um clube de direitos infantis, uma cozinha comunitária, programas de noites culturais e saídas nocturnas.”

De todas estas iniciativas, uma das que mais terá contribuído para o bem-estar das crianças de rua foi a criação dos abrigos.

São uma protecção contra assaltantes e um lugar de higiene pessoal, mas também um meio de elas aumentarem as suas poupanças para o CDB: a comida é mais barata, porque subsidiada, e já não precisam de gastar dinheiro com o seu passatempo favorito: o cinema. Há televisões e leitores de DVD colectivos e, por isso, os filmes de Bollywood são grátis.

[Para mais informações, ler aqui.]

 As mulheres foram pioneiras

@mckaysavage | Flickr

© mckaysavage | Flickr

Em 1995, quando crianças sem abrigo lançaram as primeiras estruturas do seu próprio banco em Nova Deli, já 4000 mulheres trabalhadoras por conta própria haviam criado, em 1974, o Shri Mahila SEWA Sahakari Bank, a partir de um sindicato, na região indiana de Ahmedabad.

Esta instituição pioneira, dirigida por e para mulheres, tem sido financeiramente viável desde que abriu as portas, e funciona como lobby ou grupo de pressão junto do Governo para que os mais pobres possam ter acesso a crédito barato nos bancos estatais.

A partir de 1976, o SEWA começou a conceder os seus próprios empréstimos às depositantes, para serem aplicados em negócios, aquisição de materiais de trabalho ou compra de casa e terras.

O SEWA, registado como uma cooperativa bancária urbana, conseguiu também a proeza de alargar a sua acção a zonas rurais, ajudando muitas mulheres nas actividades agrícolas. Mais importante, possibilitando que os seus nomes fossem inscritos em títulos de propriedade.

Com a ajuda do SEWA, milhares de mulheres assumiram o controlo sobre os seus rendimentos e aumentaram o poder de compra, elevando ao mesmo tempo o nível das condições de trabalho.

Por exemplo, vendedoras ambulantes, que transportavam os seus produtos em cestos à cabeça, têm agora quiosques, com licença municipal, muito graças ao microcrédito.

Este tipo de financiamento é atribuído por outros bancos indianos entretanto criados e também vocacionados para mulheres, alguns dos quais chegam a oferecer empréstimos ao dia, para que elas possam comprar bens essenciais, como fruta e vegetais.

Se, para os detractores, o microcrédito “é um mito neo-liberal” (Alexander Cockburn, The Nation), para os defensores, é um método eficaz de combater a pobreza extrema. Que o diga Muhammad Yunus, o economista do Bangladesh que, com o seu Banco Grameen, venceram em 2006 o Prémio Nobel da Paz.

Em várias entrevistas, Yunus tem garantido que é seguro emprestar dinheiro aos mais desfavorecidos, sobretudo às mulheres (94% dos seus clientes), a uma simbólica taxa de juro, porque esse dinheiro será reembolsado sem qualquer risco.

Os pobres são bons pagadores.

Ela Bhatt Sewa, a fundadora do Mahila SEWA Sahakari Bank
© thebetterindia.com

Estes dois artigos, agora revistos e actualizados, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO  em 2006 | These two articles, now revised and updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2006

Do zarb ao taiko: As harmonias de Fès

Kevian Chemirani, filho de iranianos, já nasceu no exílio, em Paris. Yungchen Lllamo, do Tibete, fugiu à perseguição chinesa e agora vive em Nova Iorque. Enrico Macias, judeu argelino, procurou asilo em França. Salif Keita, do Mali, ostracizado por ser albino, deambulou pela Europa e América. Os Za Ondekoza, do Japão calculam ter dado a volta ao mundo três vezes, para escapar ao “vazio urbano”. No festival de músicas sagradas na mais antiga cidade de Marrocos, mostraram como se transforma maldição em bênção. (Ler mais | Read more…)

Hassan Haffar , cantor sirio no festival de musicas sagradas de fes . Fes , 03 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Hassan Haffar, cantor sufi sirio (3 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

O Museu Batha, em Fès, estava já apinhado de gente numa tarde de sábado aquecida por mais de 40 graus, quando Farah Diba, a antiga imperatriz da Pérsia chegou, discreta e imponente.

Vestes longas e sóbrias, colar e brincos tradicionais iranianos, rugas ocultas por uma espessa maquilhagem, cabelo alourado preso com um laço, a viúva do Xá Reza Mohammad Phalavi procurou um lugar, e no meio da multidão se sentou.

A sua presença ilustra bem como o festival de músicas sagradas do mundo, na mais antiga cidade e “capital espiritual” de Marrocos, vai conseguindo o propósito de “dar uma alma à globalização”.

Antes de a Revolução Islâmica do Ayatollah Khomeini ter derrubado a monarquia em 1979, nunca Farah Diba-Pahlavi compreendera a essência do povo.

Em 1971, por exemplo, as celebrações dos 2500 anos de Persépolis, nas quais gastou cerca de 300 milhões de dólares, só acolheram ilustres convidados estrangeiros e um número reduzido da elite iraniana.

Em 1978, o ultraje foi ainda maior para uma nação profundamente religiosa: no Festival Shiraz Arts, de que Farah Diba-Pahlavi era mecenas, um grupo brasileiro de dança fez uma “performance” de sexo explícito em palco.

Em Fès, porém, no antigo palácio mourisco de Dar el-Batha, construído entre 1873 e 1897, ali estava a mulher que acumulou quase tanto poder como o “o rei dos reis”, vinda dos Estados Unidos onde procurou refúgio, para ouvir dois grupos oriundos de um país que se tornou num dos principais aliados do regime dos mullahs: a Síria.

De frente para uma frondosa árvore com uma “orquestra residente” de pássaros irrequietos, Farah Diba aplaudiu sem complexos o filho de um xeque, Omar Sermini, e um muezzin (o que chama os fiéis à oração nos minaretes das mesquitas), Hassan Haffar.

Ambos de Alepo, a cidade onde o talento dos cantores árabes é posto à prova, Sermini e Haffar conseguiram com as suas poderosas vozes eliminar, mesmo que momentaneamente, as diferenças de todos – pobres e ricos, religiosos e agnósticos, brancos e pretos, nacionais e estrangeiros –,  que enchiam um belíssimo pátio de azulejos coloridos e jardins andaluzes.

Também a antiga imperatriz se deixou, aparentemente, extasiar quando um dervixe desceu do palco e começou a rodopiar em dois andamentos, primeiro lento e depois veloz, com um volumoso vestido branco.

O coro de Sermini exaltava Allah, Allah e o místico sufi ora cruzava os braços sobre o peito ora os abria em leque, uma mão que toca o coração ou se ergue ao céu., lábios apertados e olhos fechados, num exercício de “purificação do ego”.

No Museu Batha, tão discreta quanto entrou, assim saiu Farah Diba. À noite, estaria em Bab Makina, palco principal, nas filas da frente, ainda mais elegante num traje festivo. Foi aclamar três dos mais queridos artistas iranianos. Como ela, vivem longe da pátria.

Kevyan Chemirani : Irão

A nossa filosofia é escutar os outros e construir pontes. Tentamos respeitar cada uma das identidades, mostrando as nossas diferenças.

Keyvan Chemirani , musico de origem iraniano no Festival de Musicas Sagradas de Fes . Fes , 03 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Kevyan Chemirani, Irão (3 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

Sábado à noite. A estrela do espectáculo é Kevyan Chemirani, nascido em Paris, em 1968, que se fez acompanhar pelo pai, Djamchid, e pelo irmão, Bijan, num projecto que funde a música persa com a tâmil, do Sul da Índia, e a bambara, do Mali.

Horas antes, em conversa num hotel, o jovem de sorriso tímido contou-nos como, há três anos, decidiu juntar três grandes cantores para acompanhar o zarb, que ele toca magistralmente desde a adolescência, e outros instrumentos de percussão (udu, bendir e riqq).

Quem primeiro o inspirou, diz com orgulho, é “o grande mestre Djamchid”, que em 1961 deixou o Irão da dinastia Pahlavi para se instalar em França.

Os olhos melancólicos por detrás dos óculos ganham brilho especial quando Kevyan fala do seu mais recente trabalho, Le rythme de la parole, que mais tarde faria vibrar uma plateia de milhares de pessoas em Bab Makina.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

“É um disco que vai buscar a poesia mística do século XVII, mas onde a ligação entre a métrica dos versos e o ritmo deixa uma grande liberdade de improvisação”, observou.

– “É importante partilhar a filosofia de Fès, que é a de escutar os outros, o de construir pontes. Neste disco tentamos respeitar cada uma das identidades, mostrando as nossas diferenças, e isso é muito importante”.

Em palco, sentados sobre almofadas, todos os 12 elementos do grupo de Kevyan exibem os seus dotes, com realce para as vozes extraordinárias de Ali Reza Ghorbani (Irão), de Sudha Ragunathan (Karnataka, Sul da Índia) e de Nahawa Doumbia (Wassonlon, Mali).

A fusão entre os ritmos vocais e instrumentais, tradicionais e modernos, cada um representando uma estética que não se sobrepõe, é tão perfeita que combina bem com o tema deste ano do festival das músicas sagradas de Fès: Harmonias.

Antes de terminar a actuação, Kevyan daria mais um exemplo da multiplicidade de sons que tem influenciado o seu território musical desde que, aos 13 anos, aprendeu a técnica paterna de dominar o zarb. Com Esperanza Hernandez, uma cigana de Sevilha que maravilhara a audiência na primeira parte, deixou evidente como a buleria do flamenco é compatível com o kereshmeh iraniano.

Em todo o caso, se grande parte do mundo já reconhece a arte de Chemirani, em Teerão, o regime teocrático não lhe dá, ao que parece, liberdade de voltar.

Aos 38 anos, só foi uma vez à terra dos antepassados. “Gostaria de voltar, mas infelizmente é muito, muito complicado”, diz-nos sem esconder a tristeza, mas ocultando pormenores.

Yungchen Llamo : Tibete

Às vezes perguntam-me se odeio os chineses. Eu respondo: ‘há dois tipos de chineses, os do passado e os do presente’. Não os odeio’ Somos todos parte da humanidade.

Yungchen Lhamo , cantora tibetana no festival de musicas sagradas . Fes , 05 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Yungchen Lhamo, Tibete (5 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

Quem jamais voltou foi Yungchen Llamo, que deixou o Tibete aos 25 anos, em 1989, numa perigosa fuga pelos Himalaias até chegar à Índia, onde se encontrou com o seu líder espiritual, Dalai Lama.

Cabelos negros que deslizam até aos joelhos, tiara de brilhantes a combinar com os brincos, e um singelo vestido de seda branco, Yungchen significa “Divindade do Canto”. O nome foi-lhe dado por um monge de Lhasa, a capital do território ocupado pela China desde 1959, por achar que a sua “inimitável voz” era “instrumento de cura como a medicina tradicional ou a filosofia antiga”.

Aos 5 anos, Yungchen tecia tapetes num campo de trabalhos forçados nos arredores de Llasa. A revolução cultural de Mao Zedong interditava a música tibetana, mas a avó ensinou-lhe cânticos religiosos que ela hoje partilha com o mundo.

“Quando deixei o Tibete, perdi tudo, excepto a minha voz”, afirmou no palco do Museu Batha, perante uma audiência totalmente rendida.

Numa conversa posterior, quando a inquirimos sobre a situação da sua família, se é perseguida agora que ela se tornou activista pelos direitos dos tibetanos (criou a sua própria fundação e apoia muitas outras), diz-nos:

-“Quero deixar o sofrimento para trás e olhar para o futuro. Às vezes perguntam-me se odeio os chineses. Eu respondo: ‘há dois tipos de chineses, os do passado e os do presente’. Não os odeio. Somos todos parte da humanidade’”.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Yungchen, que habitualmente canta a cappella, trouxe a Fès três músicos que imprimiram uma nova e retumbante sonoridade às suas baladas. Para ela, “os sons podem ser diferentes mas a mensagem é sempre a mesma: os seres humanos são únicos”.

Antes de cada canto, Yungchen olha para o céu, e os lábios mexem-se em surdina, como se murmurasse uma oração. “Não nos tornamos mágicos por meditarmos. Nascemos com inveja e ódio, mas há maneiras de controlar a nossa mente e os nossos impulsos.”

“Não quero converter ninguém ao budismo, porque cada um tem a sua espiritualidade. O problema não está na religião. A religião ordena: ‘Não matem’, e nós fazemos o contrário!”

Um dos acontecimentos que mais marcou Yungchen, e que é evocado no seu repertório, foi o 11 de Setembro de 2001. Ela, que vive actualmente em Nova Iorque, estava em digressão por Espanha quando os ataques terroristas foram cometidos. “ Naquele dia, todos nós nos tornámos números”, proclama.

Depois dos campos de refugiados na Índia, sua primeira paragem quando fugiu do Tibete, Yungchen chegou à Austrália, onde aprendeu o seu inglês, ainda não fluente. “Fiquei espantada; nunca tinha visto um país tão livre e tolerante. Depois, fui percebendo que, felizmente, havia mais”.

O primeiro CD de Yungchen, Tibetan Prayer, é uma recolha de orações durante sessões de meditação no Centro Dharma em Sydney. Em 1995 ganhou o prémio da indústria discográfica australiana para o melhor álbum de música do mundo.

Em 1996, Peter Gabriel descobriu-a e ela gravou, para a editora Real World, Tibet Tibet, talvez o seu maior êxito. Já cantou com Philip Glass, Annie Lennox, Michael Stipe e Sheryl Crow. Trechos seus fazem parte da banda sonora do filme Sete anos no Tibete, protagonizado por Brad Pitt.

As biografias de Yungchen referem que ela prefere actuar em templos e igrejas, “onde a atmosfera é mais intensa”, mas já cantou em pubs e num concerto de rock. Que importa o lugar se as suas canções, de amor incondicional, são uma constante peregrinação?

Za Ondekoza : Japão

Viajamos em busca do conhecimento dos outros. Queremos ter a certeza que o lugar onde tocamos não é um campo de batalha. (Seizan Matsuda, director artístico)

Za Ondekoza no festival de musicas sagradas de Fes . Fes , 04 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Za Ondekoza, Japão (4 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

Ao contrário da “deusa” do Tibete, os “demónios” do Japão Za Ondekoza não precisaram de ser perseguidos para pôr em prática a sua filosofia: “Correr, tocar e dançar na terra”. O princípio é o do Sagokuron, ou seja, “a crença de que a corrida e a música são unas e que ambas são uma reflexão do drama e da energia da vida”.

O grupo foi formado em 1969 na Ilha de Sado, por Tagayasu Den, mas mudou-se entretanto para o Monte Fuji. Os seus nove membros, exímios tocadores de taiko, tambores tradicionais japoneses, querem escapar ao “vazio urbano” e para tal sujeitam-se a uma rígida mas espontânea disciplina, física e alimentar.

Diariamente correm cerca de 15 quilómetros. Três meses por ano viajam pelo mundo; durante quatro vivem juntos, 24 horas por dia, e o resto do tempo é passado em digressão pelo Japão.

“É difícil”, reconhece Seizan Matsuda, o actual director artístico, quando lhe perguntamos sobre esta vivência comunitária.

“Alguns membros ficam só um ano; outros permanecem desde há 20. Enfrentamos muitos problemas, mas pelo diálogo tudo de resolve”. E a primeira condição para não haver conflitos? Matsuda ironiza: “É preciso cozinhar bem, mais até do que tocar bem”.

Aos 49 anos de idade, flautista de formação clássica desde 1969, Matsuda juntou-se aos Za Ondekoza em 1992. “Adoro esta vida. Corro por gosto”.

A sua alimentação privilegia os vegetais e o sushi, mas a carne não é proibida, esclarece. Sobre o facto de haver apenas uma mulher no grupo, o chefe, fato escuro, cabelo comprido atado com elástico e óculos desportivos de aros vermelhos, esboça um sorriso matreiro e assegura: “Não há nenhuma razão especial, as que quiserem fazer parte serão bem-vindas”.

Para o concerto dominical em Bab Makina, os Za Ondekoza tinham corrido de manhã “apenas cinco quilómetros”. No entanto, desde que entraram em Marrocos, já haviam percorrido uma grande parte do deserto e dunas do Sara. Foi assim que eles se tornaram famosos.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Em 1975, depois de participarem na Maratona de Boston, saíram directamente do estádio para o palco, deixando abismados os espectadores.

Em 1993, numa evocação daquela proeza, actuaram em Carnegie Hall (Nova Iorque) depois de terem dado 355 concertos em várias cidades dos Estados Unidos, durante 71 dias e percorrendo um total de 14.910 quilómetros.

Começaram nova tour nos Paralímpicos de Nagano, em 1998, que deverá terminar nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, após 12.500 quilómetros de corrida.

“Já devemos ter dado três vezes a volta ao mundo”, disse-nos Matsuda, especificando que a música dos Za Ondekoza é profundamente marcada “pelos sons da natureza”. Os próprios instrumentos são feitos a partir de materiais naturais. “A nossa filosofia é estarmos em harmonia com o planeta.”

“Viajamos em busca do conhecimento dos outros, porque é muito importante obter a paz. Queremos ter a certeza que o lugar onde tocamos não é um campo de batalha.” Porque, diz o ditado, “o verdadeiro guerreiro é aquele que não combate”.

E, contudo, o taiko, que existirá no Japão desde há 2000 anos, começou por ser um instrumento de guerra antes de se associar quase exclusivamente aos templos budistas e shintoístas.

Segundo a tradição, as fronteiras do Estado terão sido delimitadas pelo taiko: a linha divisória de cada localidade seria traçada quando o rufar do tambor já não se ouvia.

Em combate, o taiko servia para intimidar o inimigo. Escrituras e elementos pictóricos antigos mostram soldados transportando o taiko às costas, cada um dos lados tocado por outros dois militares.

Embora, actualmente, várias crenças no Japão se tenham apropriado do taiko, os Za Ondekoza recusam a definição de grupo religioso. “Cada um dos membros tem a sua fé”, sublinha o director Seizan Matsuda na nossa breve entrevista. “O que conta é a espiritualidade e não a religião”.

No palco, de kimonos ou com tangas (só os homens) que exibem corpos musculados, os membros do grupo e a artista convidada, Mieko Miyazaki, exprimem toda a sua vitalidade.

Entre números de humor e circo, sons imitando cascatas de água ou o piar das aves, os tambores ribombavam, sem abalar a serenidade soprada pela flauta de Matsuda.

Enrico Macías : França-Argélia

Marrocos tornou-se “a nova Andaluzia”, lugar onde judeus e muçulmanos “podem coexistir desde que foram expulsos por Isabel, a Católica, de Espanha.

Enrico Macias , musico argelino no festival de musicas sacras . Fes , 08 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Enrico Macias, Argélia-França (8 de Junho de 2006(
© Enric Vives-Rubio

A harmonia entre culturas é também o que Enrico Macías diz procurar. Quando entrou em cena no gigantesco auditório de Bab Makina, dois casais, um de marroquinos e outro de israelitas, lado a lado, levantaram-se, bateram palmas, repetiram a lírica e dançaram freneticamente como velhos conhecidos.

A música tem este poder: ali estava um judeu fugido da Argélia, cujos álbuns são comprados no mercado negro nos países onde a sua música é interdita, unindo dois mundos que a política geralmente divide.

Milhares de pessoas sabiam de cor todos os êxitos do artista que nasceu Gaston Ghrenassia, em 11 de Dezembro de 1939, na cidade argelina de Constantine.

Com Adieu mon pays, o hino dos Pied-noirs, franceses que deixaram a Argélia depois da guerra da independência, o sentimento transbordou: Já’ai quité mon pays, j’ai quité ma maison, j’ai quité ma famille (….) sans vraie raison.

Protegido por numerosos guarda-costas, cabelo grisalho e um sorriso radiante, a vedeta da noite homenageou repetidamente o Xxeque Raymond Leyris, o professor de Maalouf, música árabe-andaluz, em cuja orquestra aprendeu aos 15 anos a dedilhar agilmente a guitarra. Em 1961, o xeque foi assassinado, e o jovem Gaston empreendeu o caminho do exílio com a sua mulher, Suzy, filha do seu mentor.

Para sobreviver, cantou em cafés e cabarets de Paris. Rapidamente Adieu mon pays, composto na viagem de barco até França, se tornou um sucesso em disco. Seguiu-se outro, Enfants de tous pays, em 1963, ano em que adoptou o nome artístico de Enrico Macías.

Em 1964, começou uma grande carreira francesa e internacional, que levou Enrico Macías do Líbano ao Japão, da Turquia aos Estados Unidos. Temas como Melissa ou Zingarella, com ritmos de salsa, flamenco ou raï, foram entoados em uníssono por fiéis e infiéis em Bab Makina.

Conhecedor deste magnetismo, Anwar el-Sadat convidou o pied-noir para um concerto junto às Pirâmides do Cairo em 1978. Em 1981, quando o Presidente egípcio foi assassinado por integristas islâmicos depois de um tratado de amizade com Israel, Macías prestou-lhe tributo com Un berger vient de tomber.

Em 1980, a ONU, promoveu-o a “cantor da paz” e, em 1997, designou-o “embaixador para a fraternidade e ajuda às crianças de todo o mundo”.

Em 2000, Macías alimentou a esperança de poder voltar à Argélia mas o seu projecto gerou controvérsia num país que ainda não cicatrizou as feridas de uma mortífera guerra entre o exército e milícias islamistas.

Por “motivos de segurança” os concertos planeados foram anulados. O cantor desabafou as mágoas num livro editado em 2001, Mon Algérie.

“Tenho uma frustração enorme de não poder regressar ao meu pais”, admite Enrico Macías, para quem Marrocos se tornou “a nova Andaluzia, lugar onde judeus e muçulmanos podem coexistir” desde que foram expulsos de Espanha em 1492.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

A tolerância tem, no entanto, limites. Numa conferência de imprensa, um jornalista tentou perguntar ao cançonetista o que sentia com a gradual diminuição do número de judeus no reino de Mohammed VI, mas ele não o deixou sequer completar a frase.

“Isso é uma não verdade histórica!”, gritou, indiferente ao facto de terem sido os próprios dirigentes da comunidade existente desde a Antiguidade que, no dia anterior, lamentaram ter passado de “milhares para uns 200”.

Não porque o Governo de Rabat os hostilize, mas porque muitos vão estudar e trabalhar em Israel e noutros países e já não voltam.

Macías também se irritou quando o inquiriram sobre declarações contraditórias conforme o público a que se dirige. Em Jerusalém, diz que quer viver em Israel e elogia o Tsahal (Exército) como “o escudo da estrela de David”. Em Paris, diz que quer terminar os seus dias em Marrocos. Em Fès, denuncia a “ditadura americana” no Iraque.

Justificando o polémico convite a um cantor mais pop do que de música sacra para participar no festival, o director do evento, Mohamed Kabbaj, esclareceu: “Mesmo que não cante o sagrado Enrico Macías canta a paz. Ele é rejeitado num país muçulmano e nós quisemos acolhê-lo aqui”.

Salif Keita : Mali

Deixemos de ter pena de nós próprios. África simboliza a alegria de viver, o optimismo, a beleza, a graça, a poesia, a gentileza, o sol e a natureza.

Salif Keita , musico de Mali no festival de musicas sagradas de Fes . Fes , 10 de Junho de 2006 @Enric Vives-Rubio

Salif Keita, Mali (10 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

A rejeição também acompanhou Salif Keita desde a nascença, em 25 de Agosto de 1949 em Djoliba, no Mali. Ele veio ao mundo, segundo a biografia oficial, simultaneamente “maldito e abençoado”. O pai deserdou-o por ser albino, negro de pele branca, o que em África é sinónimo de azar.

Nobre mandinga, descendente directo de Sundiata Keita, rei guerreiro que fundou o império maliano no século XIII, a música é também domínio proibido à sua casta.

Solitário na infância, Salif refugiou-se nos estudos e aprendeu a cantar com os Griots, feiticeiros e poetas que recitam epopeias familiares de geração em geração. Filho de agricultores, foi nos campos que apurou a voz singular, a gritar com os pássaros que destruíam as colheitas.

Em 1968, Salif abandonou a casa em Djoliba e partiu para Bamako, capital do Mali, para actuar em cafés e mercados. Um saxofonista, Tidiane Koné, reparou nele e convidou-o a integrar a Rail Band, que animava um hotel-restaurante da cidade.

Rapidamente se tornou numa estrela. Em 1973, juntou-se a outra orquestra, os Ambassadeurs, dirigida pelo guitarrista Kanté Manlifa. A música combina sons africanos, anglo-saxónicos, franceses e cubanos.

O agravamento da situação política no Mali, em meados dos anos 1970, levou Salif Keita e Kanté Manulife a refugiarem-se em Abidjan, Costa do Marfim.

Em 1978, com a designação de Ambassadeurs Internationaux, gravaram o disco Mandjou, enorme sucesso que, em 1980, lhes abriu as portas dos Estados Unidos onde produziram mais dois álbuns.

O sonho de Salif Keita era trabalhar em França e foi aqui, em 1981, que obteve o primeiro êxito internacional, com Soro, um blues-rock cantando em Malinké. Em 1987, enveredando por outros cominhos como o jazz, já era um pilar da World Music.

Com a fama consolidada, Salif Keita mudou-se de Montreuil, onde vivem os seus 11 filhos, para Bamako onde abriu o seu próprio estúdio. Admirador de Nelson Mandela, tem encorajado jovens artistas locais e incentivado os emigrantes a voltar, para “fazerem renascer o continente africano”.

Em 1999, quatro anos depois da morte do progenitor, Salif reconciliou-se com a família, com o álbum Papa. Em 2001, abriu na capital maliana o clube Moffou, nome de uma espécie de flauta que usava quando criança, e que será também o nome de um álbum gravado, no ano seguinte, na qual participa a cabo-verdiana Cesária Évora.

Em 2004, Salif Keita é já um activista convicto, na luta contra a pobreza, a sida e o racismo. Fundou também uma associação de assistência aos albinos.

“Não nos deixemos esmagar pela violência, egoísmo e desespero. Não nos deixemos sacrificar no altar do pessimismo. (…) Deixemos de ter pena de nós próprios. África simboliza a alegria de viver, o optimismo, a beleza, a graça, a poesia, a gentileza, o sol e a natureza”. As Nações Unidas designaram-no embaixador para o Deporto e para a Música.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Em 2005, Salif Keita prestou homenagem ao Mali e às suas origens com o mais recente disco, M’Bemba. Foi com ele que encerrou o festival de Fès.

Numa actuação electrizante, sobretudo graças aos percussionistas e às vozes femininas do coro, Bab Makina levantou-se em peso para dançar obedecendo ao apelo do homem que, de joelhos, mandou beijos à multidão.

Como um rei que submete os súbditos, um passivo Salif Keita vagueou pelo palco, sorrindo aos músicos suados, mas pouco cantou.

Quase no final, desapareceu subitamente. Voltou, a pedido insistente do público, apenas para um minuto a solo.

Horas antes, no seu camarim, explodira de fúria quando nos recebeu: “Se eu soubesse que eram portugueses não estariam aqui. Portugal é o país mais racista da Europa. Não dá valor à música africana”. Tentamos saber o que conhece da música de origem africana em Portugal, só se lembra de Bonga.

A sua ira vira-se para a editora Universal, porque “não apoia os artistas africanos, não promove os [seus] discos, não envia representantes aos concertos”. Ficou desiludido com a recepção no seu espectáculo em Lisboa, no casino do Auditório dos Oceanos: “Foi decepcionante!”

Paulo Ochoa, da Universal em Lisboa, explicou que não esteve presente no concerto de Salif Keita, devido a outros compromissos profissionais (“não posso estar em toda a parte”).

Garante que avisou os delegados da editora em França que se fizeram representar, e referiu que enviou ao cantor discos de música portuguesa em sinal de boas-vindas.

“É bizarro, no mínimo, que não conhecendo Portugal nem os portugueses tenha feito a acusação de racismo”, lamentou Ochoa.

“A Universal tem artistas americanos, asiáticos, europeus e africanos. O único critério que nos interessa é a música”. M’Bemba, o último disco do maliano, vendeu em Portugal cerca de 1000 exemplares. “Não é mau!”, comentou.

Em Fès, perguntámos a Salif Keita se não era uma contradição o seu ataque pessoal, insensível a qualquer argumento que o fizesse mudar de opinião, num festival dedicado à tolerância. “Eu digo a verdade! Vocês são racistas!”

Um dervixe rodopiante da ordem de Rumi, dança no concerto de Omar Sermini (3 de Junho de 2006) @Enric Vives-Rubio

Um sufi da Ordem dos Dervixes Rodopiantes, fundada por Rumi, no concerto de Omar Sermini (3 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 2006 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in 2006   

Marrocos pelos olhos de Kamal e Otman

Um é “pobre” e está disposto a morrer no estreito de Gibraltar para trabalhar em Espanha. Outro é “rico” e aspira a ser estrela rap no seu país. Retratos de jovens num reino onde, desde 1999, Mohammed VI vem devolvendo ao povo a palavra silenciada pelo regime paterno de Hassan II. (Ler mais | Read more…)

Kamal @Enric Vives-Rubio

Kamal: O menino pobre
© Enric Vives-Rubio

Kamal el-Hamidi tem 20 anos e um sonho: estudar e trabalhar em Espanha, país com “uma língua muito bonita, que quase parece cantada”.

Órfão de pai, é o único sustento da mãe, analfabeta e doméstica, e de duas irmãs, mais novas. Aluno universitário, só tem arranjado empregos temporários, e o máximo que leva para casa, ao fim de um dia de 13 horas de trabalho, é o equivalente a dez euros.

“Prefiro ser um empregado de mesa em Madrid do que ministro em Marrocos”, assegura um ressentido Kamal, estudante de 1º ano de Literatura Espanhola. “Aqui, se nascemos pobres, morremos pobres. Os ricos são racistas. Não há classe média. Não há oportunidades”.

Um estudo do jornal marroquino L’Economist indica que 95% dos jovens (num país de mais de 30 milhões de habitantes, 52% têm menos de 25 anos e 31% menos de 15) não acredita na política, fragmentada por uns 20 partidos.

Kamal diz não ter medo de criticar o governo, e essa liberdade de expressão, reconhece, é “das poucas coisas boas que têm acontecido” desde que Mohammed VI subiu ao trono, em 1999. “Marrocos já não esconde a face”, admite a Afrique Magazine num dossier dedicado aos 50 anos de independência do país.

“Durante a maior parte do reinado de Hassan II, as elites praticaram a política da avestruz. Não, não há problemas de prisioneiros políticos, nem [o centro de tortura] de Tazmamart. (…) Não, não há uma classe feudal que despreza os aroubis, campónios das zonas rurais e das cidades. (…) Esse olhar aristocrático que se desvia começa a mudar.”

Kamal também elogia “a coragem” de Mohammed VI de “dar voz às vítimas” do pai, ao criar a Instância de Equidade e Reconciliação [deixou de existir em 2005], dirigida por “uma boa pessoa” como Driss Benzekri [que morreru de cancro, em 2007], antigo marxista que passou 17 anos na prisão [entrou tinha 24 de idade e foi condenado a 30 de pena].

Destaca ainda “a ousadia” de mudar o Código de Família, para que as mulheres, que hoje já exercem muitos cargos de chefia, “tenham mais direitos”. As críticas são dirigidas sobretudo ao Executivo, que “estagnou a política social e económica”.

“Sabe, quantos arriscam a vida para fugir do país, através do estreito [de Gibraltar]?”, pergunta Kamal. “Por enquanto”, ele não pensa na fuga. Concentra-se nos exames que estão para breve. Mas avisa: “Se tiver oportunidade, vou-me embora, nem que isso signifique morrer no mar”.

Levando à letra a definição de que “pobre é o que não tem o supérfluo e miserável o que não tem o essencial”, Kamal encaixa na primeira categoria. A sua casa, na medina (centro histórico) de Fès, foi comprada com o contributo financeiro de familiares após a morte do pai. São eles que continuam a ajudar. Dez euros por dia, quando os há, dá para (sobre)viver.

Apesar das agruras, Kamal não se refugia na religião: “Acredito em Deus mas raramente faço as orações”. Nunca, assevera, se deixaria recrutar pelos jihadistas que incentivaram os atentados de Casablanca, em 2003. “Aquilo foi terrível, tanta gente inocente que morreu!”.

Otman: O menino rico @Enric Vives-Rubio

Otman: O menino rico
© Enric Vives-Rubio

A realidade, constatada pelos media marroquinos e franceses, é que a rápida islamização dos mais carenciados limita a vontade de mudança do novo rei. Mohammed VI estará a encorajar o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD) a concorrer às legislativas de 2007 em todas as circunscrições, aumentando a sua possibilidade de vitória.

O objectivo é apoiar um “Islão moderado” para cortar caminho aos integristas. Os EUA abençoam esta estratégia. As elites temem uma repetição do que se passou na vizinha Argélia.

Indiferente a estas manobras, no Complexo juvenil al-Qods de Fès, Otman (que não deu o apelido), 15 anos, estudante de liceu, faz sensação numa exibição de rap. O seu grupo chama-se Vampirs (Vampiros) e existe há três anos.

De boné, jardineiras de ganga e T-shirt larguíssimas, o vivaço Otman faz questão de vincar, num francês quase fluente, que frequenta o ensino privado, o pai é dono de um restaurante e pode comprar o que quiser.

Isso faz dele “um rico”, concorda. No entanto, o seu hip-hop gingão evoca pobreza, miséria e desemprego. “Não é uma contradição”, ri-se. “Também cantamos amor e amizade”.

As letras são denúncia da “horrível situação nos bairros de lata”, acrescenta, mas não é a política que move Otman e os seus amigos. Eles apenas imitam ídolos: Eminem, 50 Cent ou Assassin.

“O que nós queremos é ser stars’”, proclama o pequeno rapper. “Há uma centena de grupos como nós. Como amadores já somos bem conhecidos, mas queremos ser ainda mais famosos. Aqui em Marrocos. Não nos interessa sair do país”.

As aulas encaram-nas apenas com “uma obrigação” imposta pelos pais. A única “profissão” a que aspiram, insistem, é a de “estrelas”.

A mesquita que foi centro do mundo

Karaouine , a primera universidade do mundo , actualmente funciona como mesquita . Fes , 07 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Karaouine, a primera universidade do mundo, agora mesquita (Fès, 7 de Junho de 2006)
© Enric Vives-Rubio

Na Medina (centro histórico) de Fès existe uma mesquita-universidade, al-Qarawiyyin ou Karaouin, que desde há 1200 anos tem sido um dos principais centros espirituais e educacionais do mundo muçulmano.

Fechada para obras de restauro, só por uma fresta das suas 14 portas se [podia] contemplar a beleza interior. Permanece símbolo de convivência entre Ocidente e Oriente. [Em 2016, foi reaberta ao público, graças ao trabalho de ume equipa liderada pela arquitecta canadiana-marroquina Aziza Chaouni.]

A história de al-Qarawiyyin começa com uma mulher, Fatima al-Fihri, que emigrou de Kairouan, na Tunísia, para Fès com o pai, Mohammed, e a irmã Mariam. A família juntou-se a uma comunidade de outros imigrantes, os Qairawaniyyns.

Muito cultas e religiosas, as duas irmãs herdaram uma grande parte da fortuna do pai, abastado comerciante. Com o dinheiro, cada uma construiu o seu templo: em 859, Fátima fundou a Mesquita de al-Qarawiyyin; e Mariam mandou erguer a Mesquita Andaluza.

Originalmente, com cerca de 30 metros de comprimento e quatro naves transversais, al-Qarawiyyin tinha fins religiosos mas servia também para o ensino das ciências islâmicas tradicionais – hadith (palavras e actos do profeta Maomé) ou fiqh (jurisrudência).

O aspecto actual evoluiu em várias fases consoante as necessidades de acomodar os fiéis. Foi aumentada pela primeira vez em 956, graças à generosidade do califa omíada Abdul-Rahman III, de Córdova.

O muezzin de Al-Qarawiyyin terá sido o primeiro, em Fès, a subir ao cimo do minarete, semelhante a uma torre de vigia, para chamar os crentes à oração. Tornou-se tradição outras mesquitas da cidade só fazarem o apelo à prece depois do de Al-Qarawiyyin.

As obras prosseguiram com os Almorávidas. Em 1135, o Emir Ali ibn Yusuf ordenou a extensão da mesquita de 18 para 21 naves, aumentando a área para mais de 3500 metros quadrados – tornou-se na maior do Norte de África (até Hassan II construir a de Casablanca).

A decoração, com arcos em ferradura e um sistema ornamental de padrões geométricos, caligrafia típica de Kufa (Iraque), motivos florais e azulejos vidrados (zellij), serviam de ponte entre a Andaluzia e o Magreb.

Outra prova de intercâmbio é o minbar (púlpito do pregador), trazido de Córdova em 1144. Andaluz é também o candelabro feito a partir do bronze de um sino que os Almoádas conquistaram numa batalha em Gibraltar e que doaram à mesquita em 1203.

No século XVI, os governantes Sádidas restauraram al-Qarawiyyin e acrescentaram dois pátios nos extremos norte e sul, aumentando a capacidade para 20 mil fiéis. O telhado ficou sustentado por 270 pilares. Foram erguidas também três fontes de mármore , evocando Alhambra (Granada).

Se era imponente como mesquita, al-Qarawiyyin também se tornou num famoso centro de instrução religiosa e debate político. Havia cursos de gramática, retórica, lógica, medicina, matemática, astronomia, química, história, geografia e música.

A variedade e a qualidade do ensino atraíram estudantes e académicos de todo o mundo. O sociólogo Ibn Khaldoun foi apenas uma das ilustres personalidades que passaram por al-Qarawiyyin. Outros foram o místico e metafísico Ibn Arabi, o médico, teólogo e filósofo judeu Maimónides, e Gerbert d’Aurillac, Papa (Silvestre II) de 999 a 1003, cujos estudos em Fès lhe terão permitido introduzir na Europa a numeração árabe.

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Estes dois artigos, agora revistos e actualizados, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO em Junho de 2006 | These two articles, now revised and updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in June 2006

De Bab Makina a Bab Boujloud: Espíritos em festa

 – Viste a madrassa?

– Não

– E Dar Batha onde estão os tesouros de arte antiga?…

– Também não.

– E os túmulos dos sultões merínidas?…

– Ainda menos.

– Mas como foram os teus dias?…

– A passear… A sonhar… A perguntar-me se o que vi era real ou se estava a alucinar… A respirar os perfumes do Islão … a inebriar-me com o ritmo perpétuo do Magreb.

(E. Gomez Carrillo, Fès ou les nostalgies andalouses)

Concerto de

Concerto de Les Arts Florissants sob a direcção do maestro William Christie, em Bab Makina, Fès, 2 de Junho, 2006
© Enric Vives-Rubio

Quando a voz possante de Lofti Bouchnak se deixou de ouvir, devido a um corte de electricidade, em Bab Boujloud, nem um assobio de protesto entre os milhares de pessoas que enchiam a monumental praça encerrada por altas muralhas. Depois, a chuva caiu, e a multidão também não esmoreceu.

Provavelmente sensibilizado com o fervor quase religioso com que a cidade de Fès o acolheu, o artista continuou a cantar e a tocar alaúde, mesmo que imperceptível. E o povo aplaudiu.

A actuação deste intérprete e compositor tunisino, oriundo de uma família turca da Bósnia, reflecte o êxito do “festival na cidade”, concertos gratuitos para os que não podem pagar os bilhetes de ingresso nos grandes espectáculos em Bab Makina, palco central do “festival de músicas sagradas do mundo”.

Seja jornada de trabalho ou de descanso, Bab Boujloud, uma das portas fortificadas de entrada em Fez, construída em 1913 no estilo mourisco, enche-se de gente diversa.

Vêm de todo o lado. De Fès el-Bali (medina histórica), de Fès el-Jedid (antigo kasbah) ou da Ville Nouvelle (cidade nova).

Chegam a pé, em autocarros ou em “petit taxi”, cuja corrida não custará mais de 10 dirhams (1 euro). Saem em torrente dos labirínticos souks (bazares), de mãos vazias ou com sacos cheios.

Antes ou depois das preces nas madrassas (escolas religiosas) ou no mausoléu do Moulay Idriss, o fundador desta “capital espiritual”.

Ahwach Tissint , grupo de danca berber no Bab Boujloud , no festival de musicas sagradas de fes . Fes , 09 de Junho de 2006 . @Enric Vives-Rubio

Ahwach Tissint, grupo de dança berbere, em Bab Boujloud, no festival de músicas sagradas de Fès, em 9 de Junho de 2006
© Enric Vives-Rubio

Um dia de compras pode incluir paragens no souk El-Attarine, que vende especiarias; no souk dos chinelos, que expõe calçado novo e usado; no souk das sedas, brocados, kafkans e joalharia; no chouara, bairro dos curtidores, onde as alcaçarias, vistas a partir de terraços, constituem lugar grotesco.

Não só devido ao odor insuportável das peles secas ao sol, mas também porque o trabalho dos homens, sob temperaturas escaldantes, mergulhados em tinas de tinta química até aos joelhos parece obra de escravos.

Em Bab Boujloud, em dia de concerto, há garotas descobrindo as pernas de mini-saia e mulheres que se tapam de negro da cabeça aos pés.

Há rapazes que se modernizam com falsos jeans Dolce & Gabana e homens que conservam túnica e barbas longas.

Há meninas escoltadas pelos pais e grupinhos de adolescentes em jogos de sedução. Há famílias inteiras, amigos em excursão e solitários.

Durante dez dias, em Junho, o “espírito de Fès” está presente de Bab em Bab (porta em porta). Nas músicas em Bab Makina e Bab Boujloud; no Museu Batha, onde decorre o Fórum Dar uma alma à globalização, nas actividades para jovens, nos cafés literários, nas exposições, nos filmes, nas noites sufis.

Trata-se de uma iniciativa do antropólogo Fauzi Skali, um filho da cidade, empenhado em mostrar que o inevitável é o diálogo e não o choque de civilizações.

O festival de músicas sagradas realiza-se desde 1994, tendo como principal patrono o Rei de Marrocos. Várias instituições e empresas associam-se como mecenas. O Fórum e os seus colóquios surgiram há cinco anos, com o apoio do Banco Mundial, que a partir de 2006 “encerra um capítulo” na sua colaboração.

“Lançámos a sementes, mas agora que o festival já fortificou raízes o nosso contributo, na forma de financiamento directo, vai mudar”, diz-me Katherine Marshall, conselheira do Banco Mundial [e agora ligada à Georgetown University]. “Ainda estamos num processo de avaliação. Não prevejo um corte definitivo”.

Com mais ou menos fundos, o diálogo está em marcha e o “espírito de Fès”, este ano sob o tema Harmonias, é perceptível nos mais pequenos gestos. Na emoção com que se confortam uma mãe israelita que perdeu a filha num atentado suicida palestiniano e uma mulher palestiniana que perdeu o pai e o irmão num ataque israelita.

Na generosidade dos coloridos membros do grupo de danças berberes de Cheikhi Ali, que nos convidam para suas casas na província de Tata, de modo a perceber a maravilhosa “dança da adaga” e os cânticos em língua tamazight que acabaram de executar em Bab Boujloud.

Georges Bruchez, arquitecto de Genebra que, todos os anos, vem ao festival “para ser uma pessoa melhor”, conta-nos como se apaixonou por Fès.

“Cheguei nem sei quando, depois de uma viagem pelas montanhas de Ifrane, olhei para a cidade e disse: ‘Isto é a Jerusalém do Magreb’. Pedi ao meu guia que me arranjasse uma casa e, na manhã seguinte, lá estava ele com uma proposta.”

“Ao meio-dia, eu assinava o contrato. Comprei um belo palácio andaluz, escondido numa ruela, com jardins e uma fonte. Aqui me inspiro e recebo os meus amigos.”

Quanto custou? “Isso não se pergunta a um suíço! Nunca ouviu falar do segredo bancário?”, brincou. O seu cartão de visita comprova o endereço: Al-Qarawiiyyne, Fès Medina.

À entrada de Bab Makina, Fès (Marrocos), Junho 2006 @Enric Vives-Rubio

À entrada de Bab Makina, Fès (Marrocos), Junho 2006
© Enric Vives-Rubio

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Junho de 2006 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in June 2006