Akhenaton, segundo Mahfouz

O egípcio Naguib Mahfouz escreveu um romance fascinante sobre o faraó Akhenaton. A edição portuguesa merecia maior consideração por parte de quem traduziu e de quem desenhou a capa. (Ler mais | Read more…)

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Akhenaton: Faraó da XVIII dinastia egípcia.
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É discutível que Akhenaton tenha sido um “rei herege”, mas é quase uma heresia o que fizeram com Al-A’ish fi-L-Haqiqa,  um belíssimo livro que o escritor egípcio Naguib Mahfouz publicou em 1985 e que foi editado pela Quinto Selo. Um Nobel da Literatura, único árabe que até agora recebeu este prémio, merecia certamente maior consideração.

Numa mistura de ficção com o (pouco) que a Ciência já provou, Mahfouz dá a oportunidade ao leitor de avaliar, positiva ou negativamente, um faraó que protagonizou, segundo o historiador José das Candeias Sales, “o episódio religioso-político mais controverso da História do Egipto” – o confronto com o clero de Amon (divindade preponderante na época) e o culto a Aton (disco visível do Sol) como “líder de todos os deuses, o único deus, em detrimento de todos os outros”.

O título em português faz, porém, um juízo de valor que o autor da obra evitou e que o próprio tradutor, Adel A. Jabbar Mohammed Daroga, confessou-nos não corresponder à versão original, de 1985. Al-A’ish fi-L-Haqiqa quer dizer, em árabe, Vivo na verdade ou A, expressão mais próxima do título em inglês Dweller in Truth.

Então, porquê a escolha de Akhenaton, O Rei Herege, muito mais interpretativa – mais até do que a versão francesa, Akhénaton le renégat (Gallimard)? “Foi opção da editora, não foi assim que eu traduzi”, disse-nos o iraquiano Daroga.

É certo que a palavra “Herege” irrompe logo no primeiro capítulo, mas Mahfouz não nos quer presos a este veredicto, e conduz-nos, através de Miriamon, o narrador que é quase um detective, até junto daqueles que conviveram com o faraó, para que cada um conte a sua versão dos acontecimentos.

Para uns, foi um visionário, que rompeu com tradições políticas, religiosas e artísticas; para outros foi um fanático religioso que “devastou o Egipto e todo o seu império”.

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Nefertiti: Rainha e mulher de Akhenaton.
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Se o título em português é abusivo, como justificar também a nomenclatura usada? Ay em vez de Ai; Mut-Najmat em vez de Mutnedjemet; Miri-Rá em vez de Meriré; Ámon em vez de Amon e Áton em vez de Aton; grão-sacerdote em vez de sumo-sacerdote, por exemplo. “Escolhi os termos em consultas na Internet”, referiu Daroga, confessando que desconhecia existir um Dicionário do Antigo Egipto (Ed. Caminho), uma obra colectiva de referência, dirigida pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, onde se podem dissipar todas as dúvidas nas suas mais de 900 páginas.

É certo que Al-A’ish fi-L-Haqiqa é um romance dirigido ao grande público e não um manual escolar, um ensaio ou uma tese vocacionados para um grupo restrito, mas um autor nobre como Naguib Mahfouz não teria merecido o conselho de especialistas que poderiam ter contribuído, designadamente, com notas complementares?

Entre várias informações úteis, teria sido interessante acrescentar, em rodapé, que Akhetaton (O Horizonte de Aton), a cidade para onde Akhenaton (Aquele que é agradável a Aton) se mudou, foi posteriormente designada de Tell el-Amarna ou Amarna, e que Tebas, que ele abandonou quando virou as costas ao clero de Amon, se chamava Uaset (A Poderosa).

E porquê, ainda, uma capa com as pirâmides se nada têm a ver com o período a que se refere o livro? A versão árabe, que Daroga traduziu, tem a imagem de Nefertiti (mulher de Akhenaton, a quem é dedicado o último capítulo), a inglesa exibe o busto do próprio faraó. A francesa tem um desenho quase infantil do rei egípcio numa pose contemplativa.

Explica-nos Marta Teixeira, a designer responsável: “Quisemos que o leitor identificasse logo que se tratava do Egipto. Isto não é um pedaço da História, é um produto comercial, que tem de vender. Procurámos uma imagem actual e apelativa, que fosse de percepção rápida. Não queríamos nas prateleiras [de livrarias e hipermercados] uma capa que ninguém entendesse, porque o conteúdo já fala por si.”

É pena que as opções tivessem sido estas, porque em Al- A’ish fi-L-Haqiqa Mahfouz não maltrata a História, “imparcial e aberta a qualquer testemunho”, como ele próprio escreve. Todas as personagens que o “investigador” Miriamon vai ouvir, para apurar “a verdade, livre de ideias feitas para aqueles que desejem contemplá-la”, existiram na XVIII dinastia do faraó cujo nome pessoal era Neferkeperuré Uanré Amen-hotep IV.

Do templo de Amon ao palácio de Nefertiti vamos assistindo ao que o defunto académico palestiniano Edward W. Said escreveu um dia no jornal Al-Ahram, do Cairo: “A preocupação especial de Mahfouz com o poder, com o conflito entre a verdade absolutamente pessoal e a ortodoxia religiosa, o contraponto entre perspectivas estranhamente compatíveis e altamente contraditórias que derivam de uma figura misteriosa e inescrutável.”

É quase uma triste ironia que Naguib Mahfouz, que morreu em 2006, tenha sido tratado pela sua editora portuguesa como alguns seguiram Akhenaton: mero oportunismo.

Naguib Mahfouz @Nader Shenouda

Naguib Mahfouz
© Nader Shenouda

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article was originally published in thePortuguese newspaper PÚBLICO in 2007

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