O jardim de Suu Kyi como metáfora da Birmânia

Os generais da Birmânia recusaram libertar a filha do “herói da independência” e líder da Liga Nacional para a Democracia. “Têm muito medo dela”, diz uma amiga. (Ler Mais | Read more...)

Em 24 de Outubro de 2013, numa entrevista que deu, ao programa

Em 24 de Outubro de 2013,  inquirida sobre a sua indiferença perante o drama da minoria Rohingya na Birmânia, a Nobel da Paa Suu Kyi disse, ao programa Today, da BBC: “O mundo precisa de entender que não há apenas medo no campo dos muçulmanos, mas também no dos budistas. (…) Creio que devem aceitar que há uma grande percepção de um poder islâmico mundial.”
© christinalund.com

Prestes a completar 62 anos, no dia 19 de Junho [de 2007], Aung San Suu Kyi já quase não [tinha] forças para cuidar do jardim da sua casa, em Rangun, onde segundo um relato da Vanity Fair brotavam lírios, gardénias, jasmim e até uma flor da América do Sul chamada “ontem, hoje e amanhã”. No entanto, apesar do estado de saúde cada vez mais debilitado, a sua amiga Debbie Stothard diz que ela ainda “aterroriza a junta militar” birmanesa.

Foi por isso que, numa avaliação que faz(ia) em cada 12 meses, ao abrigo de um obscuro decreto de segurança, o regime que se auto-intitula Conselho para a Paz e Desenvolvimento do Estado decidiu que a líder da Liga Nacional para a Democracia (NLD, sigla em inglês) se mantém a “mais famosa prisioneira política do mundo”.

[Esta situação mudou em 13 de Novembro de 2010, quando Suu Kyi foi finalmente libertada da condição de detenção domiciliária,  autorizada a movimentar-se sem restrições. Num discurso que fez, perante milhares de seguidores e simpatizantes, a activista defendeu “democracia e reconciliação nacional”, assegurando: “Não guardo ressentimentos em relação a ninguém”.  Em 15 de Agosto de 2011, foi recebida, em audiência, pelo Presidente Thein Sein e exprimiu o seu apoio ao “processo de abertura política” iniciado pelo Governo, que inclui a libertação de numerosos presos políticos. Em 1 de Abril de 2012, foi eleita para o Pyithu Hluttaw,  câmara baixa do Parlamento birmanês. Em 2015, o seu partido conquistou mais de 65% dos votos em eleições gerais. Proibida pela Constituição de ser Presidente, assumiu um cargo criado exclusivamente para si -Conselheira de Estado -, equivalente a primeira-ministra.]

[Em 2007, quando este artigo foi publicado], tinham sido, mais uma vez, ignorados os apelos internacionais para a libertação da mulher a quem chamam “a Nelson Mandela da Ásia”, feitos pela ONU, EUA e UE. Nem uma carta de 60 antigos presidentes e primeiros-ministros sensibilizou o ditador Than Shwe.

Aung San Suu Kyi, no jardim da sua casa em Yangon (antiga Rangun) em1996. © James Whitlow Delano

Aung San Suu Kyi, no jardim da sua casa em Yangon (antiga Rangun) em 1996
© James Whitlow Delano

O jardim de Suu Kyi [era] como uma metáfora da Birmânia: um terreno onde crescem as ervas daninhas e onde as cobras são dos raros seres vivos autorizados a entrar. Diz-nos, por e-mail, Debbie Stothard, coordenadora da ALTSEAN, rede de apoio à democracia birmanesa que integra activistas, ONG, académicos e políticos do Sueste asiático: “As condições de detenção de Aung San Suu Kyi na sua casa são piores do que numa prisão. Pelo menos na prisão, ela tinha direito a visitas e telefonemas, de amigos, familiares, médicos e advogados.”

Agora, o médico aparece cada vez menos, e “o contacto com o mundo exterior é tão restrito que é como se ela estivesse na solitária”, adianta Stothard. “O regime tenta quebrar-lhe o ânimo, afastando-a da família, mas, apesar da perseguição e do isolamento dos que mais ama, ela mantém o espírito forte.”

Há informações que circulam entre os apoiantes de Suu Kyi de que nem sequer os dois filhos, Alexander e Kim, a residirem em Londres, lhe podem telefonar.

O mesmo acontecera com o seu marido, Michael Aris, que morreu de cancro da próstata, em 1999. Na altura, o regime permitiu que ela fosse ao funeral, mas deixou claro que não a deixaria voltar. Ela preferiu não viajar, guardando para si a dor de uma ausência que já era prolongada.

A relativa tranquilidade da vida de Suu Kyi foi abalada quando, em 31 de Março de 1988, teve de apanhar um avião de urgência para Rangun, onde a sua mãe sofrera um ataque cardíaco.

A capital birmanesa vivia um período de convulsão. A 23 de Julho, o general Ne Win, autocrata xenófobo que tomara o poder pelas armas em 1962, demitira-se na sequência de protestos.

Em 1991, a líder birmanesa foi a premiada com o Nobel da Paz, em recompensa pela sua luta a favor da democracia, mas só o recebeu em Junho de 2012. © Vogue, Março 2011

Em 1991, a líder birmanesa foi a premiada com o Nobel da Paz, em recompensa pela sua luta a favor da democracia, mas só o recebeu em Junho de 2012
© Vogue, Março 2011

A 15 de Agosto, na sua primeira acção política, Suu Kyi enviou uma carta aberta ao Governo, pedindo eleições multipartidárias. A 24 de Setembro, fundou a NLD, seguindo a filosofia de não violência de Mahatma Gandhi – ironicamente a Índia é hoje um dos raros aliados da junta birmanesa, a par da Rússia (que fornece tecnologia nuclear) e da China, ansiosos por explorar recursos naturais, como petróleo, gás e urânio.

Em 27 de Dezembro, no enterro da mãe, Suu Kyi prometeu honrar a memória do pai, Aung San, herói da luta pela independência, assassinado em 1947, em plena reunião do governo, antes de cumprir o sonho de formar um Estado federal com as suas várias minorias étnicas.

Ser filha de um herói não tem sido fácil para Suu Kyi. A primeira detenção domiciliária começou em 20 de Julho de 1989. Em 27 de Maio de 1990, a sua NLD conquistou 81%  dos 485 lugares da Assembleia Nacional, nas primeiras eleições em quase três décadas. O Partido de Unidade Nacional, pró-governamental, ficou reduzido a 2%. [Em 1991, a activista da oposição viu a sua luta pela democracia ser premiada com o Nobel da Paz.]

O escrutínio foi anulado. E Suu Kyi, que deveria ter sido primeira-ministra, voltou a ficar sob detenção domiciliária. Foi libertada em Julho de 1995, mas, sempre vista como ameaça, voltou à residência vigiada em Setembro de 2000. Dois anos depois, a junta sentiu-se confiante para a pôr em liberdade, e até a autorizou a viajar pelo país.

Recorda Debbie Stothard: “Em 2002, [os militares] pensavam que, não a vendo há 13 anos, o povo a tinha esquecido, mas dezenas de milhares de pessoas assistiam aos seus comícios, não obstante as ameaças de violência do regime, e o regime ficou extremamente nervoso e perturbado.”

Em 30 de Maio de 2003, um bando de arruaceiros atacou a caravana de Suu Kyi, numa aldeia do Norte. Alguns militantes da NLD foram mortos e feridos. Suu Kyi fugiu do local com a ajuda do motorista, mas foi detida ao chegar à localidade de Ye-U. Mandaram-na para a penitenciária de Insein, em Rangun.

Em Setembro, depois de ela ter sido submetida a uma histerectomia (remoção do útero), o Governo colocou-a de novo sob detenção domiciliária. E assim tem passado 11 dos últimos 17 anos.

Aung San Suu Kyi, posando junto a uma foto de Aung San,  o seu pai e da independência da Birmânia.  @EPA

Aung San, o pai de Suu  Kyi, foi o arquitecto da independência da Birmânia, agora oficialmente designada Myanmar
© EPA

Com o marido, Michael Aris, no dia do casamento. Ele morreu de cancro, em Londres: ela não foi ao funeral. Sabia que os militares não a deixariam regressar se saísse do país. @DR (Direitos Reservados | All ights Reserved)

Com o marido, Michael Aris, no dia do casamento, a 1 de Janeiro de 1972, em Londres. Ele tinha 26 anos e ela 25. Académico em Oxford, especialista em Estudos do Tibete e dos Himalaias, Michael morreu de cancro, em Londres, em 1999. Ela não foi ao funeral. Sabia que os militares não a deixariam regressar se saísse do país
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Com os dois filhos, Alexander (à esquerda) e Kim. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Suu Kyi com os seus dois filhos, Alexander (à esquerda) e Kim, em Inglaterra, em 1988. Nem um nem outro têm nacionalidade birmanesa
© Getty Images

“A confiança que as pessoas depositam em Suu Kyi não diminuiu, apesar dos anos de detenção, e há cada vez mais activistas a fazer ouvir a sua voz”, assegura Stothard.

A extrema magreza de Suu Kyi impressionou um enviado da ONU que a visitou em 2006, mas é “o regime que está muito mais fraco”, garante a coordenadora da ALTSEAN. “Até os seus próprios oficiais e soldados se ressentem da liderança. Civis e militares fogem do país devido à opressão e ao caos económico.”

Para realçar como a junta “está em apuros”, e citando a Janes Defence Weekly, Debbie Stothard adianta que, entre Junho e Setembro de 2006, desertaram um total de “9497 soldados – mais 8% do que no mesmo período de 2005”.

A NLD ofereceu-se, o ano passado, para reconhecer a junta, se o Parlamento se pudesse reunir, abrindo caminho a uma “genuína transição”, recorda Stothart. “Infelizmente, o medo e a ganância do regime não os deixa ver a situação com racionalidade.”

Ou como diz Suu Kyi num dos seus mais eloquentes discursos: “Não é o poder que corrompe, é o medo. O medo de perder o poder corrompe os que se agarram a ele, e o medo do castigo do poder corrompe os que se submetem.”

[Em Outubro de 2013, Aung San Suu Kyi  foi, finalmente, a Estrasburgo receber o Prémio Sakharov, que lhe havia sido atribuído pela União Europeia em 1990. A líder birmanesa tem sido, porém, muito criticada, por não ter aproveitado a ocasião para denunciar os crimes que têm vindo a ser cometidos contra a comunidade muçulmana Rohingya na Birmânia. A candidata favorita a ser Presidente tem mantido o silêncio, apesar de “uma das minorias mais perseguidas do mundo”, segundo a ONU, estar a sofrer uma campanha sangrenta de expulsões.

Violentos confrontos eclodiram em 2012, no estado de Rakhine, envolvendo budistas e muçulmanos – 4% da população de um país 90% budista. Cerca de 140.000 Rohingya  foram segregados à força e colocados, como apátridas, em campos de detenção, a que as agências de auxílio não têm acesso. 

Em 24 de Outubro de 2013, numa entrevista que deu, ao programa “Today”, da BBC, a Nobel da Paz defendeu-se assim: ‘O mundo precisa de entender que não há apenas medo no campo dos muçulmanos, mas também no dos budistas. (…)   Creio que devem aceitar que há uma grande percepção de um poder islâmico mundial, não só na Birmânia como no resto do mundo.’] 

A Rohingya Muslim man who fled Myanmar to Bangladesh to escape religious violence, cries as he pleads from a boat after being intercepted by Bangladesh border authorities in Taknaf, Bangladesh, Wednesday, June 13, 2012. Bangladesh has turned back more than 1,500 refugees in recent days, officials said and a global human rights group on Wednesday urged Bangladesh to keep its border open to people seeking refuge from sectarian violence in western Myanmar. © Anurup Titu | AP

Um muçulmano da minoria Rohingya, em fuga da violência religiosa na Birmânia, implora auxílio quando o barco que transporta a família é interceptado pelas autoridades fronteiriças, em Taknaf, no Bangladesh
© Anurup Titu | AP

 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 27 de Maio de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 27, 2007

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