Elas querem licença para guiar e não tencionam parar

No reino da segregação, quatro mulheres puseram em marcha um movimento pelo direito a conduzirem nas estradas – nos céus já podem pilotar aviões. Uma das fundadoras deu-nos uma entrevista e mostrou-se confiante.  (Ler mais | Read more…)

Wajeha al-Huwaider foi incluída pela revista Arabian Business na sua lista das “100 mulheres árabes mais poderosas”
© acelebrationofwomen.org

Wajeha al-Huwaider e outras três amigas pegaram nos telemóveis e nos computadores e enviaram incontáveis SMS e e-mails “para todos os cantos” da Arábia Saudita. Percorreram “vários centros comerciais, health clubs e salões de cabeleireiro”. Ao fim de alguns meses recolheram mais de 1000 assinaturas e enviaram uma petição ao rei Abdullah.

As mulheres querem ver “restituído o direito de conduzir” no único país do mundo onde estão proibidas de o fazer –até recentemente, não podiam sequer guiar bicicletas –, mas onde são proprietárias de 40% dos veículos que diariamente matam uma média de 13 pessoas nas estradas nacionais.

“Chegou a hora de dar às mulheres (…) um direito negado por motivos puramente sociais e injustificados”, refere a petição, entregue a 23 de Setembro [de 2007].

E a realidade é que a proibição de conduzir não é estipulada por nenhuma lei e sim por uma fatwa (édito) do Conselho dos Grande Ulama, a mais alta autoridade religiosa do país. Foram estes “sábios” que impuseram a restrição em 1990, depois de 47 mulheres terem circulado ao volante de 15 veículos pelas ruas de Riad, a capital, num “protesto cultural”.

[Em 2011 Wajeha al-Huwaider e outra activista pelos direitos humanos, Fawzia Al-Oyouni, foram “acusadas de rapto e tentativa de ajudar Nathalie Morin a fugir do marido que a violentava, para se poder refugiar na Embaixada do Canadá em Riad.

As acusações foram retiradas após a ‘intercessão de um político influente’, não identificado. Um ano depois, Wajeha e Fawzia voltaram a ser acusadas do crime de takhbib – incitar à separação de um casal. A 15 de Junho de 2013, foram ambas condenadas a 10 meses de prisão. Foram também proibidas de saírem da Arábia Saudita durante dois anos.” ]

Em 1990, o ano em que o Iraque invadiu o Kuwait e tropas dos Estados Unidos entraram na Arábia Saudita, as mulheres do reino sentiram que não podiam ser menos do que as jovens americanas que passeavam de jipe (para não falar de calções) pelas bases no deserto do Sudeste da Ásia.

Pagaram um preço elevado pela ousadia. O Comité para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício (a temível polícia de costumes) puniu-as severamente.

© Human Rights Watch

Para os teólogos wahhabitas, tão extremistas quanto os Taliban afegãos, uma mulher ao volante contribuirá para a “corrupção moral” e a “erosão dos valores tradicionais”. Porque, alegam, “irão contactar com homens estranhos, como polícias de trânsito ou mecânicos”.

A estes argumentos, as peticionárias contrapõem que as mulheres já são forçadas a conviver com estranhos ao terem de contratar motoristas (geralmente filipinos, indianos e paquistaneses), se não têm boleia de familiares.

Isso não está isento de “riscos de assédio sexual”, afirmam, além de que o pagamento de um salário de cerca de 500 dólares mensais a um chauffeur particular é um luxo que as menos abastadas não podem suportar.

Wajeha al-Huwaider assume que está cansada de lutar contra o que considera “gente ignorante”, mas é com voz sorridente que atende o telefone na sua casa em Dhahran, na costa oriental da Arábia Saudita.

“Esta campanha está a correr muito bem”, diz-me. “Depois que entregámos a petição, mais pessoas se juntaram a nós, e já somos umas 15 mil, a maioria mulheres, talvez 80% – mas também homens. Há uma década que tentávamos organizar-nos e finalmente conseguimos”.

Além de Wajeha al-Huwaider, 45 anos, divorciada e mãe de dois adolescentes, o “núcleo duro” da nova Associação para a Protecção e Defesa dos Direitos das Mulheres na Arábia Saudita é composto por Fawzia al-Ayouni, Ebithal Mubarak e Haifa Usra, provenientes das duas cidades mais “liberais” da Casa de Saud: Dhahran e Jidá.

Aqui, notam visitantes, as mulheres já deixam deslizar o hijab (lenço) pela cabeça, usam roupas mais justas, com os distintos padrões da Burberry ou da Gucci, não desviam o olhar e estendem a mão a homens fora do seu círculo familiar.

© Human Rights Watch

No “grupo das quatro” todas têm formação universitária, três delas nos Estados Unidos. Inquirida sobre se não se arriscam a ser vistas menos como vanguarda e mais como movimento de uma elite ocidentalizada sem ligação às menos cultas e resignadas, Wajeha responde:

– “Não se trata de um capricho, porque a nossa petição também foi assinada por donas de casa, operárias e desempregadas. Além disso, nas zonas e aldeias mais remotas as mulheres já conduzem, desafiando a proibição, porque sabem que não são perseguidas como as mulheres nas cidades”.

Fluentes em inglês, Wajeha e Fawzia têm sido os principais rostos desta iniciativa, que media e blogues, do Egipto ao Golfo Pérsico, não hesitaram em qualificar de “corajosa”. Dão entrevistas e aceitam ser fotografadas sem a obrigatória abaya, a longa túnica negra que as tapa, da cabeça aos pés.

A primeira é escritora (galardoada em 2004 com o prémio PEN de livre expressão), jornalista (banida pelas autoridades dos diários Al Watan e Arab News onde colaborava) e quadro superior da Aramco, a maior companhia petrolífera do mundo (com capitais sauditas e norte-americanos). A segunda foi directora de uma escola, e é casada com o poeta e activista pró-democracia Ali Domaini.

“Podemos ser presas, perder os nossos empregos, ser impedidas de viajar [e renegadas por familiares, como aconteceu em 1990], mas se conseguirmos o direito de conduzir terá valido a pena”, afirmou Fawzia ao jornal The Washington Post.

“É uma necessidade, um direito básico”, sublinhou, recordando o dia em o seu bebé adoeceu, o marido estava na cadeia, e ela teve de ir para à rua, às duas horas da madrugada, à procura de alguém que a levasse ao hospital. Por acaso, um cunhado apareceu e a criança salvou-se.

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Wajeha sabe o que é ser detida. Foi o que lhe aconteceu no Verão de 2006, em plena guerra do Líbano, quando foi para a ponte que liga o Bahrain à Arábia Saudita erguer uma faixa com uma mensagem dirigida ao rei Abdullah [1924-2015]: “Dê às sauditas os seus direitos!”

Interrogada pela Polícia e forçada a assinar um documento em que se comprometia a não participar em mais manifestações, “a parte mais humilhante” aconteceu quando teve de esperar que o seu irmão, “muitos anos mais novo”, chegasse para que fosse libertada.

Numa sociedade patriarcal como a Arábia Saudita, as mulheres “precisam” de um mahram (Guardião), seja ele pai, marido, filho ou outro parente masculino, sem a licença do qual não podem fazer rigorosamente nada. Se quiser voltar a casar, por exemplo, Wajeha diz que precisa da “autorização dos filhos”, que têm 17 e 15 anos.

Apesar do incidente de 2006, Wajeha está confiante de que Abdullah, com reputação de reformador (quando só era herdeiro do trono organizou a primeira conferência sobre direitos das mulheres – e recentemente mandou erguer uma universidade com o seu nome onde não há segregação de sexos), não vai ignorar a petição.

“Ele é um rei moderado e quer deixar a sua marca na história saudita, como o irmão Faisal, que abriu as primeiras escolas para mulheres [em 1956] “apesar da oposição interna”.

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Para sermos justos, o mérito é de Iffat al-Thunayan, a terceira e favorita mulher de Faisal que o encorajou a desafiar tribos e imãs para introduzir no país uma educação secular, da primária à universidade. Em 1963, o monarca chegou a mobilizar as forças de segurança para reprimir uma revolta de beduínos que recusavam enviar as suas filhas para a escola.

Hoje, segundo estatísticas da UNESCO, são mulheres 70% dos alunos inscritos nas universidades sauditas, 56% dos licenciados e 40%  dos que concluem o doutoramento. No mercado de trabalho, porém, elas representam apenas 5% da força activa – a maioria continua confinada ao lar –, ainda que cerca de 20 mil empresas privadas pertençam a mulheres.

A diferença entre Faisal e Abdullah é que este tem um reino dividido e a sua margem de manobra, constatam diplomatas estrangeiros, é limitada. Por exemplo, o antigo ministro do Interior príncipe Nayef [que morreu em Junho de 2012] era um ultraconservador com grande base de apoio entre o establishment religioso.

Valorizava sobretudo “a honra” das mulheres, porque “conduzir é uma questão secundária e não prioritária” com que os sauditas se devem preocupar. [Nayef foi o segundo príncipe herdeiro de Abdullah a morrer de doença. Foi substituído, como herdeiro aparente do rei, pelo príncipe Salman, ministro da Defesa, considerado “um reformista cauteloso”.]

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Durante a entrevista, Wajeha sublinhou que não perde a esperança. “A nossa situação, única no mundo árabe e muçulmano, embaraça as autoridades. O rei prometeu que iria reflectir e admite que este é um problema social. Nada no Corão ou nos hadith [tradições do tempo de Maomé, o profeta do Islão] nos priva da liberdade.”

“Creio que será apenas uma questão de tempo até haver uma decisão, talvez um ano, ou menos. Os religiosos aqui sempre foram um obstáculo. Também não aceitavam a educação das mulheres, nem a rádio, nem a televisão, nem os telemóveis. E tiveram de ceder. E nós não podemos recuar.”

Depois de se instalar de novo em Dhahran – antes vivia no Bahrain, deslocando-se todas as noites da sede da Aramco até casa – Wajeha nota que algumas mudanças vêm sendo introduzidas. Sobretudo desde que o país, em choque ao descobrir que eram sauditas 15 dos 19 terroristas dos ataques de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, teve de repensar a interpretação wahabita da doutrina islâmica.

Exemplos: as mulheres já têm bilhete de identidade. Antes só existiam nos documentos do pai ou do marido. Os casamentos forçados são agora um crime. Em 2005, uma mulher recebeu pela primeira vez o brevet de piloto de aviação – até então reservado exclusivamente aos homens. Em 2006, duas mulheres entraram para a administração da Câmara de Comércio, um reduto masculino.

A temível polícia religiosa também viu limitados alguns dos seus poderes, depois uma tragédia em Março de 2002: um incêndio numa escola em Meca resultou na morte de 15 meninas, porque o “Comité da Virtude” impediu que os bombeiros entrassem no edifício.

Seria “um pecado” se vissem os rostos das alunas e professoras sem o hijab. As críticas foram tantas, dentro e fora do país, que os agentes não mais poderão interferir no trabalho das equipas de socorro.

© Human Rights Watch

É certo que, em 2005, as mulheres foram impedidas de votar e de se candidatarem às eleições municipais – as primeiras desde a fundação do Estado em 1932 – mas isso não desencorajou Wajeha, alvo de “várias ameaças, de pessoas fracas e fanáticas”, e cujos filhos “vivem aterrorizados” por terem uma mãe militante.

“Depois da petição para conduzir, vamos levantar outras questões, como a violência doméstica”, assevera Wajeha. “Não vamos parar. Só abrimos uma porta”.

E há muitas injustiças para reparar. Como o testemunho de uma mulher em tribunal valer metade do que vale o de um homem. Ou as mulheres terem de viajar sempre nos bancos traseiros dos autocarros, mesmo que estejam vazios.

“Quando não temos nada, nada temos a perder”, frisa Wajeha, já no final da entrevista. “As mulheres neste país não têm nada. A nossa campanha chegou a muita gente através da Internet.”

“As autoridades não podem negar ou distorcer a realidade. Hoje sabe-se tudo o que se passa, mesmo nos lugares mais distantes. Olhem para as imagens do que está a acontecer na Birmânia. O mundo tornou-se uma aldeia”.

[Em 24 de Junho de 2018, entrou finalmente em vigor na Arábia Saudita uma lei que permite às mulheres conduzirem. No dia 5, foram simbolicamente entregues cartas de condução a dez mulheres. As celebrações ficaram manchadas pela detenção de várias activistas que muito lutaram por este direito, entre elas Loujain al-Hathloul, Eman Al Nafjan, Aziza al-Yousef, Aisha Almane e Hatoon al-Fassi, acusadas de “traição”.

Em 2019, foi reconhecido às mulheres sauditas o direito de requerer passaportes, viajar e registar casamentos e divórcios, sem permissão de um guardião masculino – pais, marido ou filho.

São reformas da iniciativa de Mohammed Bin Salman (MBS), o príncipe herdeiro do novo rei que sucedeu a Abdullah (falecido em 2005) que impede as activistas sauditas de reivindicarem vitória pelas liberdades devolvidas.]

Wajeha al-Huwaider
© rasheedsworld.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

Formosa: Eles dizem que não querem ser chineses

Durante 50 anos um regime nacionalista incluiu Taiwan numa Grande China, “usurpada” pelos “rebeldes” de Mao Zedong. Agora, uma década após o advento da democracia, a maioria dos habitantes da ilha classifica-se como taiwaneses e não chineses. É uma nova identidade da Ásia. (Ler mais | Read more…)

Mais de 85%  entre os 20 e os 30 anos de idade identificam-se como taiwaneses”, garante o director do Departamento de Assuntos Chineses. E “mais de 60%” da população em geral apoia uma mudança de nome do país, de República da China (ROC) para Taiwan
© Tyrone Siu | Reuters

Perguntem a I-Chung Lai como se define e ele dirá, orgulho indisfarçável e sem hesitações, que a sua “identidade nacional” é taiwanesa.

Já Kuang Chung realça a sua origem chinesa e, com sorriso trocista num rosto sério, critica os que tentam “exacerbar tensões étnicas” na ilha que os portugueses chamaram Formosa.

Um é a favor da independência. O outro é um ardente defensor do statu quo: nem membro pleno da comunidade internacional nem província submissa de Pequim.

Estilo descontraído, pólo e calças de sarja, I-Chung representa uma nova geração. A dos que nasceram em Taiwan e se sentem cidadãos de uma nação independente com a sua própria história e cultura, mistura de influências japonesa, chinesa e ocidental.

Já Kuang, austero no seu fato e gravata, é como se fosse símbolo da “velha guarda”. Os que imigraram da mainland ou China Continental e, bem no fundo, apesar de retórica em contrário, ainda não abandonaram os sonhos de reunificação.

No exíguo escritório de um prédio de Taipé onde, em vários andares, funciona a modesta sede do seu Partido Democrático Progressista (DPP, sigla em inglês), I-Chung cita de cor sondagens que mostram a evolução de opinião entre os 23 milhões de habitantes.

“Mais de 85%  entre os 20 e os 30 anos de idade assumem-se como taiwaneses”, garante o director do Departamento de Assuntos Chineses.

E “mais de 60%” da população em geral apoia uma mudança de nome do país, de República da China (ROC) para Taiwan, de modo a “não haver confusão” com a República Popular da China (RPC).

No mais solene quartel-general do Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang ou KMT), que governou sem rivais durante 50 anos, Kuang apresentou estatísticas ligeiramente diferentes: uma maioria de taiwaneses (57% ) não quer mudar o estatuto nem o nome desta “terra de fantasia”, como alguém a designou, preferindo adiar uma definição para mais tarde.

Não há interesse em afrontar a China e os Estados Unidos, hostis a uma alteração do statu quo (“nem guerra, nem independência”), explica.

No entanto, até as sondagens do Kuomintang mostram que só 6% da população se sente “chinesa”, contra 45% que se afirma “taiwanesa” e 44% que se considera “taiwanesa-chinesa”. É uma significativa mudança de mentalidades, em uma década de democracia.

30 de Março de 2014: Centenas de milhares de manifestantes gritam slogans em frente do palácio presidencial em Taipé, num protesto em defesa da democracia e contra um controverso acordo comercial assinado com a China Continental
© Toby Chang | Reuters | Financial Times

Já nenhum professor ensina que Taiwan faz parte da China continental. Das salas de aula desapareceram as fotos do defunto líder nacionalista Chiang Kai-shek que, em 1949, transferiu o governo da ROC para Taiwan quando o “rebelde” Mao Zedong criou a comunista RPC do outro lado do Estreito da Formosa.

O memorial de Chiang ainda é lugar de culto e atracção turística em Taipé, tal como o Grand Hotel, um palácio vermelho de 490 quartos, cada um dos seus oito andares uma reprodução arquitectónica das nove dinastias chinesas, que a sua mulher, Soong May-ling, mandou construir em 1952.

No entanto, a cidade também ergueu um monumento em homenagem às cerca de 20 mil pessoas mortas em 28 de Fevereiro de 1947. Um massacre levado a cabo pelas forças do Kuomintang depois de uma sublevação popular gerada pelo espancamento, por soldados, de uma idosa que vendia tabaco no mercado negro.

Como muitos dos familiares das vítimas do chamado “Incidente de 2/28”, um tabu em extinção mas que ainda divide os taiwaneses, I-Chung guarda mágoas profundas do tempo em que o KMT era o partido único.

“É certo que eles já admitiram os seus erros e até pediram desculpas, mas continuam a recusar abrir registos históricos essenciais à reconciliação”, disse, face crispada.

“Precisamos de saber o que aconteceu. As vítimas querem saber o que aconteceu e quem são os responsáveis. Quem é culpado e quem está inocente no Kuomintang? Saber a verdade é fundamental”.

O KMT, insiste I-Chung, também devia devolver os fundos que adquiriu ilegalmente. “Muitas pessoas viram os seus bens e propriedades confiscados, sem qualquer explicação. Os meus avós e os seus amigos foram expulsos das suas casas e nunca foram compensados.”

16 de Janeiro de 2016: Apoiantes do Partido Democrático Progressista festejam o discurso de vitória da presidente, Tsai Ing-wen
© Ulet Ifansasti | Getty Images

De 1947 a 1997, o Kuomitang, de Chiang Kai-shek, construiu um império, estimado entre 2000 milhões e 10.000 milhões de dólares, que englobava desde bancos a companhias petroquímicas. Chegou a ser considerado o partido político mais rico do mundo.

Kuang Chung defende-se dos ataques do DPP. “Já fizemos a nossa autocrítica e reconhecemos os nossos erros; não vamos estar sempre a pedir desculpas, até porque fomos nós que abrimos o caminho à democracia e ao milagre económico”, frisou este académico e dirigente do KMT, numa ampla sala da nova sede. Um edifício muito menos imponente do que o anterior, entretanto vendido a investidores privados, depois de críticas à riqueza ostensiva e “imoral” do partido.

A questão identitária está no centro da campanha para as presidenciais de 2008, descritas por alguns editorialistas regionais como “as mais importantes eleições da história da ilha”.

Talvez porque assinalam o fim de mandato do chefe de Estado Chen Shui-bian – “uma pedra no sapato” de Pequim pelas suas ideias soberanistas.

Para atrair o maior número de votos, o DPP moderou o seu discurso “pró-independentista” e o KMT, ainda que se tenha aproximado da mainland, deixou de ser considerar “pró-reunificacionista”.

Já nenhum professor ensina que Taiwan faz parte da China Continental. Das salas de aula desapareceram as fotos do defunto líder nacionalista Chiang Kai-shek que, em 1949, transferiu o governo da ROC para Taiwan quando o “rebelde” Mao Zedong criou a comunista RPC do outro lado do Estreito da Formosa.
© EPA

Há prioridades comuns aos dois partidos, como a necessidade de o país aderir à Organização Mundial de Saúde (OMS) e a outras instituições internacionais onde Pequim veta a sua entrada, obrigando a uma ginástica semântica.

Para entrar na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2002, a ilha apresentou-se como “Território Aduaneiro Separado de Taiwan, Penghu [Pescadores], Kinmen e Matsu”.

[Desde 2009, Taiwan é “observador” da OMS, com a designação “Chinese Taipei.]

Para participarem em eventos desportivos internacionais, como os Jogos Olímpicos de Pequim [de 2008], as equipas taiwanesas adoptam o nome “Chinese Taipei” (Taipé Chinesa).

E quando um Estado se prepara para estabelecer laços diplomáticos com Taiwan, corre o risco de ser ameaçado pela China comunista com o corte de relações bilaterais e suspensão da ajuda financeira. [Esta hostilidade diminuiu com a chegada ao poder do Presidente Ma.]

Não obstante estas tensões no Estreito de Taiwan –, agravadas desde que Pequim instalou “mais de mil mísseis” apontados a Taipé –, calcula-se que um milhão de investidores taiwaneses vivam em part-time com as suas famílias na China continental onde montaram mais de 30 mil empresas e criaram mais de três milhões de empregos.

Para alguns analistas a melhoria da situação económica na ilha depende muito da aproximação ao poderoso vizinho, ainda que corra o risco de uma perda de competitividade.

Taiwan permanece o maior fabricante mundial de circuitos integrados. Os seus computadores, televisores, telemóveis e respectivos componentes têm elevada reputação nos mercados internacionais. Em 2007, porém, a marca Made in Taiwan já enfrenta a concorrência da Made in China.

Scott Huang, investigador no Parque de Ciência e Indústria de Hsinchu, também conhecido como “Silicon Valey de Taiwan”, com serviços desde a biotecnologia a programas espaciais, não mostra inquietação, por enquanto.

“Eles [na China continental] têm mão-de-obra barata e uma grande capacidade de produção mas, por enquanto, nós temos os cérebros”, comentou, durante uma visita às instalações do parque, construído em terrenos onde antes se plantava chá.

Hoje, aqui coexistem duas universidades e dezenas de companhias (como os gigantes TSMC e UMC) que competem em bolsa, numa área que se confunde com a da própria cidade de Hsinchu, nos arredores da capital.

É a vontade de ver o seu país recuperar a posição que “perdeu para a Coreia do Sul e Singapura” que leva Lin Tsu Cheng a votar no KMT. “Mais importante do que a independência é o desenvolvimento económico”, diz Lin, 37 anos, um taiwanês a completar em Lisboa o doutoramento em Linguística Aplicada.

Foi um governo do Kuomintang que, em 1999, lhe ofereceu uma bolsa de estudos para “aperfeiçoar o português” e ele mostra-se agradecido. De nada vale evocar a corrupção e opressão que caracterizaram o regime do KMT.

“Já ninguém se imagina a regressar ao passado”, afirma. “A cultura democrática ganhou raízes. É certo que ainda há segredos por revelar, mas as mágoas que possam existir estão a ser manipuladas pelos políticos. O povo só quer olhar em frente. Para o futuro”.

Tsai Ing-wen, do partido independentista DPP, foi eleita Presidente em Janeiro de 2016: a primeira mulher a assumir este cargo em Taiwan. Descreveram-na como “uma das mais poderosas da Ásia” – porque é um espinho no coração de Pequim
© Ashley Pon | Forbes

Lin, que nasceu em Taiwan tal como os pais, não tem dúvidas sobre a sua identidade: “Politicamente, sou taiwanês mas, culturalmente, sou chinês. A cultura chinesa é a nossa base, embora tenhamos desenvolvido uma cultura local, taiwanesa.”

Ou como dizia Kuan Chung, em Taipé, “o DPP tem tentado dividir-nos em diferentes categorias [ilhéus e continentais], mas somos todos imigrantes”.

Uma referência aos que começaram a instalar-se em Taiwan nos séculos XV-XVI-XVII, provenientes da China, e ao fluxo pós-1945, com Chang Kai-shek, que se juntaram às tribos aborígenes (oriundas da Polinésia) há mais de 10 mil anos a viver nesta região.

“Tudo seria diferente se a comunidade internacional nos aceitasse como Estado, mas nem sequer fazemos parte da ONU”, lastima-se Lin.

“Em todo o caso, somos um país independente. O Governo tem o direito de governar, sem pedir autorização à China, aos Estados Unidos ou ao Japão. Somos uma ‘entidade especial’”.

Um país estratégico da Ásia-Pacífico, que venceu o subdesenvolvimento e a dependência agrícola para se tornar num dos mais industrializados (16º no ranking mundial) e que, por se sentir sob constante ameaça, se tornou num dos maiores compradores de armas, sobretudo aos EUA, seu principal fornecedor.

Uma “entidade especial” onde há cerca de 100 partidos políticos (embora só quatro estejam representados na assembleia legislativa), mais de 100 estações de televisão, quase 6000 emissoras de rádio e 2500 jornais, aproximadamente 5000 revistas e 1080 agências noticiosas.

A liberdade de expressão é tão vasta que os deputados, da [anterior] coligação “pan-verde” liderada pelo DPP e da aliança “pan-azul” chefiada pelo KMT, se tornaram conhecidos pelas suas sessões de pancadaria quando querem travar a aprovação de leis. Alguns vão parar ao hospital mas ninguém tem ido para a prisão.

Em Taipé é difícil imaginar a sujeição a uma ditadura comunista como a de Pequim. “Não aceitamos ser subalternizados, não sacrificaremos a democracia, a liberdade de expressão, os direitos humanos”, sublinha Chen-Yuan Tung, vice-presidente do Conselho para os Assuntos Continentais.

“Uma confederação só seria viável se a China se tornasse democrática. (…) Para nós, a concepção de ‘um país, dois sistemas’ é inaceitável”.

Em 2016, num gesto sem precedentes, a recém-eleita presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen (à esq.), pediu desculpa aos povos indígenas do país por “séculos de dor e maus tratos”, e prometeu melhorar as suas vidas
© culturalsurvival.org

A liberdade e criatividade não têm limites. As primeiras páginas dos jornais detalham suspeitas de vários crimes que pairam sobre membros do governo e da oposição, animando a discussão nas ruas, lojas e cafés.

Mais de 70% dos lares estão ligados à Internet [em 2009, dados mais recentes, o número de utilizadores ultrapassava os 16,1 milhões, numa população de 23,3 milhões de habitantes] – uma janela, sem restrições, para o mundo exterior. E o modo como centenas de jovens se vestem ou cortam o cabelo é quase uma declaração política.

Os seus valores de referência não parecem ser os da “China comunista”. Talvez mais próximos do Ocidente, [mas sobretudo reflexo da significativa herança japonesa e de um passado de desenvolvimento político e económico que tem mais a ver com outros países asiáticos, como a Coreia do Sul e, naturalmente, o Japão.]

Em gigantescas artérias, com centenas e centenas de estabelecimentos a funcionar 12 horas ou mais por dia, só o plafond do cartão de crédito poderá limitar uma transacção. Nada falta. Os acessórios da moda europeia e americana mais caros.

Os  objectos do design japonês mais distintos. A tecnologia nacional mais moderna. Qualquer sonho pode ser comprado, porque há preços para todas as bolsas, seja de produtos genuínos ou contrafeitos.

Ao contrário do que acontece na China continental, o culto ao consumo nesta sociedade ultra-capitalista, onde abundam os milionários, alguns deles antigos camponeses convertidos em grandes accionistas, não esmorece o debate político nem a espiritualidade.

Em maio de 2019, o Parlamento de Taiwan tornou-se o primeiro na Ásia a legalizar os casamentos gay, depois de, em 2017, o Tribunal Constitucional da ilha ter reconhecido este direito. os deputados debateram três propostas e aprovaram a mais progressista apresentada pelo governo do Partido Progressista Democrático
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No coração de Taipé, decorado por uma imensidão de néons em caracteres chineses, lá está o templo de Longshan, imperturbável oásis de tranquilidade apesar dos cinco milhões de carros particulares e 12 milhões de lambretas que aceleram à sua volta, formando nuvens de fumo de que os condutores se protegem usando pequenas máscaras de papel ou tecido.

As máscaras são reminiscência do surto de SARS (síndroma da imunodeficiência respiratória) ou pneumonia atípica que, em 2003, matou dezenas de pessoas em Taiwan.

O vírus atravessou a fronteira, proveniente do Sul da China, onde apareceu em 2002 sem que as autoridades locais emitissem qualquer aviso para prevenir o contágio.

Talvez seja esta vulnerabilidade que leva muitos taiwaneses, de todas as idades, géneros e classes sociais, a colorir o templo de Longshan. Aqui pratica-se, simultaneamente, o taoísmo o confucionismo e o budismo.

Os crentes pedem ou agradecem a sorte – na saúde, no amor, na fertilidade, nos estudos, no emprego. Lançam pedras, lêem oráculos, acendem pauzinhos de incenso e peregrinam por vários altares.

Murmuram preces, fazem vénias e deixam lembranças. Cestos de frutas e vegetais. Caixas de bolos e chocolates. Objectos pessoais.

Em Longshan, como noutros lugares da ilha, onde coexistem 600 mil cristãos com as suas próprias igrejas, o que os taiwaneses querem é que a sua voz seja ouvida. Por enquanto, só 24 países reconhecem a sua voz.

  • [O KMT voltou ao poder em 2008, com a eleição do Presidente Ma Ying-jeou, que derrotou o candidato do DPP, Frank Hsieh. e levou a cabo uma política de aproximação a Pequim. 
  • Em 2009, Chen foi condenado por corrupção (desvio de fundos diplomáticos) a uma multa superior a 10 milhões de dólares e a uma pena de prisão perpétua, posteriormente reduzida a 20 anos.
  • Em 2010, Chen perdeu todos os privilégios concedidos a um presidente, desde um salário anual até à protecção por guarda-costas. Em 2013, tentou suicidar-se. Os seus partidários consideram-no vítima de uma campanha política sem bases jurídicas que justifiquem ao castigo.
  • Em 2016, o independentista DPP retirou ao Kuomintang a maioria no Parlamento em Taipé, e a sua candidata a presidente, Tsai Ing-wen, ganhou com uma esmagadora maioria de votos. É a primeira mulher a ocupar o cargo no país, tornando-se numa das mais poderosas da Ásia.]

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Dezembro de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2007

A longa marcha do “processo de paz”

Quase 60 anos (a 29 de Novembro de 2007) depois que a Assembleia Geral das Nações Unidas recomendou a divisão da Palestina do mandato britânico em dois Estados, judeus e árabes reúnem-se, em Annapolis (EUA), na esperança de fazer avançar o chamado “processo de paz”. Em seis décadas, são incontáveis os contactos secretos e/ou os encontros públicos para solucionar o conflito. Eis algumas histórias. (Ler mais | Read more…)

Faisal e Weizmann

Encontro entre o Emir Feisal I (à direita) e Chaim Weizmann (que envergou trajes árabes "em sinal de amizade"), na Síria, onde o líder iraquiano se encontrava a viver. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Encontro entre o Emir Feisal I  do Iraque (dir.) e Chaim Weizmann (que envergou trajes árabes “em sinal de amizade”), na Síria, onde o filho do rei de Hejaz se encontrava a viver

Em 3 de Janeiro de 1919, numa conferência em Paris, o Emir (príncipe) Feisal I do Iraque, filho do Rei de Hejaz (actual Arábia Saudita), fez um pacto com o presidente da Organização Sionista Mundial, Chaim Weizmann.

Era um acordo que previa um “enclave para os judeus” na Palestina, a mais pobre das antigas províncias do defunto Império Otomano, e uma grande nação árabe no Médio Oriente, mas foi de curta duração. Feisal recusou aceitar a soberania com que Weizmann sonhava.

Golda e Abdullah I

Golda Meir

Golda Meir

Rei Abdullah I da Jordânia

Rei Abdullah I da Jordânia

A 17 de Novembro de 1947, a chefe do Departamento Político da Agência Judaica, Golda Meir, foi ao encontro do Rei Abdullah I para lhe fazer uma proposta que o historiador Avi Shlaim descreveu assim: “A Transjordânia não invadiria o futuro Estado de Israel e, como recompensa, poderia anexar o território que a ONU planeava conceder aos palestinianos.”

Os outros países árabes desconfiavam das ambições do monarca hashemita e forçaram-no a entrar na guerra de 15 de Maio de 1948. Num segundo rendez-vous secreto com Golda, cinco dias antes, o soberano justificara-se: “Eu pensava que controlava o meu destino e podia fazer o que estava certo, mas descobri que não.”

Em 7 de Janeiro de 1949, após um cessar-fogo imposto pela ONU, 780 mil dos 1,4 milhões de árabes palestinianos tinham sido expulsos ou fugido das suas casas. Os que permaneceram tornaram-se numa minoria do “Estado dos judeus”, que passou a controlar cerca de 77% da Palestina do mandato britânico.

Dayan e Shehadeh

Moshe Dayan

Moshe Dayan

Em 16 de Abril de 1968, um ano depois da Guerra dos Seis Dias, que conduziu à ocupação da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, da Faixa de Gaza, da península do Sinai e dos Montes Golã, o ministro israelita da Defesa, Moshe Dayan, recebeu dois emissários palestinianos.

Um deles, o advogado cristão Aziz Shehadeh, de Ramallah, disse-lhe: “Procuramos uma paz verdadeira. Se Israel deseja negociações directas, empreenderemos a tarefa de formar uma delegação para representar os palestinianos da Cisjordânia.

Se chegarmos a acordo, tentaremos obter a bênção dos palestinianos da diáspora e de alguns países árabes. Somos os mais interessados num acordo porque somos os mais afectados pela ocupação israelita.”

Shehadeh apresentou então quatro propostas, para que Dayan escolhesse uma: 1) a formação de um governo palestiniano; 2) o regresso dos palestinianos à Jordânia; 3) uma confederação com a Jordânia ou com Israel, ou com ambos; 4) a anexação da Cisjordânia.

O líder israelita respondeu que, “a título pessoal”, preferia uma confederação. Recusou, todavia, comprometer-se, alegando “divergências entre os membros” do seu governo.

Husseini e Avnery

Faisal al-Husseini

Faisal al-Husseini

Uri Avnery

Uri Avnery

Em 1 de Fevereiro de 1969, o Conselho Nacional Palestiniano (CNP, parlamento no exílio) reuniu-se no Cairo, para eleger Yasser Arafat líder da OLP.

À margem desta reunião, dois homens que se identificaram apenas como Richard e Gadi, agentes do Shin Bet, serviço de segurança interna israelita, entregaram a Faisal al-Husseini, filho do herói palestiniano Abdel Kader al-Husseini, a seguinte mensagem: “Diga a Arafat que estamos dispostos a negociar quando ele quiser, excepto num país do Leste [da Europa] ou num país árabe.”

Se o chefe da guerrilha tinha intenção de aceitar, Husseini logo o dissuadiu: “Creio que é preciso recuar. Os israelitas querem abrir negociações mas, assim que elas começarem, haverá fugas [de informação] e tornar-se-ão públicas. Se aceitarmos, não estaremos a dar um tiro nos pés, mas na cabeça!”

Husseini terá ficado impressionado com um artigo do israelita Uri Avnery publicado na imprensa hebraica no qual descrevia o cenário de uma ofensiva árabe contra o movimento palestiniano.

Arafat concordou: “Tens razão, seria um suicídio político.” De regresso a Jerusalém, Husseini recebeu dos agentes do Shin Bet um convite para se encontrar com um membro do Governo de Israel. Perguntou a razão. Responderam-lhe: “Não aceitaria um Estado palestiniano?”

Husseini retorquiu: “Não quero falar de um Estado israelita e de um Estado palestiniano, mas de um só Estado palestiniano, secular e democrático.” Os interlocutores corrigiram-no: “Não! Um Estado palestiniano secular ao lado de Israel.” Husseini ripostou: “Não! Um só Estado. Adeus!” Até 1987, não mais teria contactos com os israelitas.

Shaath e Machovere

Nabil Shaath

Nabil Shaath

Moshé Machover

Moshé Machover

Em 1969, quando o Egipto de Nasser e a Jordânia de Hussein discutiam um plano do secretário de Estado norte-americano William P. Rogers, que previa a aceitação da resolução 242 da ONU (território em troca de paz, solução de dois Estados), Yasser Arafat decidiu encetar os seus próprios contactos secretos com Israel.

Enviou um conselheiro, Nabil Shaath, para conversações com o professor de Matemática Moshé Machover e com a secretária-geral do Partido Trabalhista, Lola Eliav, conhecidos pelas suas “posições moderadas”. Shaath terá dito: “Se deixarem de pensar em vingança e começarem a falar num país para todos nós, logicamente irão querer ver como é que os judeus vão responder a esta ideia.”

Não havia, porém, hipótese de esta iniciativa ter qualquer impacto em Israel, já que os ataques palestinianos contra civis continuavam. E na Fatah, a maior facção da OLP, havia muitos opositores a um compromisso.

Abu Sharif e George Shultz

Bassam Abu Sharif

George Shultz

Em 1988, no ano em que a aviação israelita foi a Tunes assassinar Abu Jihad, o cérebro da primeira Intifada, e apesar dos clamores de vingança, audíveis desde que Ariel Sharon invadira o Líbano em 1982 e dispersara 8000 fedayin (combatentes) pelo mundo árabe, Yasser Arafat voltou a “testar as águas”.

Serviu-se de um intermediário, Bassam Abu Sharif que, num artigo no jornal The Washington Post, propôs eleições na Cisjordânia e Faixa de Gaza, sob supervisão de observadores estrangeiros, com vista à criação de um Estado palestiniano. A OLP aceitaria os resultados mesmo que os seus candidatos não vencessem. Haveria um período de transição em que os territórios seriam administrados por uma força de paz multinacional.

A OLP reconheceria o direito de Israel existir e aceitaria as resoluções 242 e 338 da ONU como base para negociações directas numa conferência internacional. Em Washington, George Shultz, chefe da diplomacia de Ronald Reagan, deixou uma porta entreaberta: “Se a OLP reconhecer Israel pode pedir a independência, e os Estados Unidos apoiarão o seu direito de pedir isso.” Em 15 de Novembro de 1988, num congresso em Argel, Arafat proclamou um Estado.

Baker e Rabin

James Baker

James Baker

Yitzhak Rabin

Yitzhak Rabin

Em 1991, a pagar um preço elevado pelo seu apoio a Saddam Hussein após a invasão iraquiana do Kuwait, Arafat foi obrigado por James Baker, secretário de Estado de George Bush, a aceitar uma conferência internacional de paz, em Madrid, sem a sua presença. Isso não o impediu de dar instruções à delegação chefiada por Haidar Abdel Shafi.

Nas dez rondas de negociações que se seguiram, os israelitas, sob o governo nacionalista de Yitzhak Shamir, não ofereciam aos palestinianos mais do que autonomia, ao mesmo tempo que continuavam a expropriar terras e a construir colonatos. Em 1992, Shamir foi derrotado pelo trabalhista Yitzhak Rabin.

Em 1993, depois de uma série de contactos secretos com mediação norueguesa, Rabin e Arafat assinaram os Acordos de Oslo. Não era um tratado de paz, apenas o reconhecimento mútuo.

Abbas e Olmert

Mahmoud Abbas (Abu Mazen) e Ehud Olmert

Mahmoud Abbas (Abu Mazen) e Ehud Olmert

Em 1994, Arafat deixou o exílio em Tunes e regressou a Gaza. Outros acordos foram assinados (em Taba, no Cairo, em Sharm el-Sheikh…), mas nem a violência palestiniana nem a colonização judaica cessavam, e o conflito foi-se agudizando. Em 1995, um extremista judeu assassinou Rabin, e o seu sucessor, Shimon Peres, incapaz de travar uma vaga de atentados suicidas do Hamas, foi afastado do poder por Benjamin Netanyahu.

Em 2000, fracassou a cimeira de Camp David entre Arafat, Ehud Barak e Bill Clinton – o “Velho do kaffiyeh” recusou uma “oferta generosa” de Israel e não fez uma contraproposta. A Intifada militarizou-se. Ariel Sharon, o novo homem forte, reocupou a Cisjordânia, em 2002, e retirou-se unilateralmente de Gaza, em 2004, o ano em que Arafat morreu.

O herdeiro deste, Mahmoud Abbas, estará hoje [27 de Novembro de 2007] ao lado de Ehud Olmert, o delfim de Arik, para mais uma tentativa de encontrar a solução para um conflito com 60 anos.

[Novos “parceiros”, Tzipi Livni e Benjamin Netanyahu, por parte de Israel, e novamente o palestiniano Mahmoud Abbas, sob mediação de John Kerry, secretário de Estado norte-americano, voltaram a fracassar na “longa marcha” para uma paz que não prevê justiça. A única progressão visível é a dos colonatos judaicos nos territórios ocupados. ]

© Peter Schrank | The Economist

© Peter Schrank | The Economist

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Novembro de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 27, 2007

Hand in Hand: Onde a guerra de 1948 tem duas narrativas

Israelitas e palestinianos reúnem-se em Annapolis, nos EUA, para discutir a paz. Os prognósticos talvez não fossem tão pessimistas se todos tivessem feito estágio numa escola de judeus e árabes Hand in Hand, onde se pode coexistir e discordar. (Ler mais | Read more…)

@Hand in Hand

© Hand in Hand

Durante a segunda Intifada, em 2000, depois de um ataque palestiniano na cidade israelita de Netanya, o economista David Mingelgreen foi mobilizado como reservista para ir com a sua unidade reocupar Belém, cidade da Cisjordânia onde trabalhava o pai da melhor amiga da sua filha, Shira.

A amiga, uma menina palestiniana, ficou assustada e perguntou à família se David “era um homem mau”. Responderam-lhe que “em Israel há judeus bons e judeus maus, e que é importante bons judeus, como o pai de Shira, servirem no exército para não fazerem mal aos árabes”.

O próprio David lembra-se que Shira, na altura com sete anos, lhe disse que, “em Belém, há árabes bons e árabes maus” e que, “em circunstância alguma, ele deveria disparar contra os árabes bons”.

Esta história é contada por Miriam, mãe de Shira Mingelgreen, num pequeno livro, Jews and Arab Families in Israel, publicado pela associação Hand in Hand: Center for Jewish-Arab Education in Israel (Yad B’Yad) – galardoada em Julho [de 2007] com o primeiro prémio internacional da Fundação Calouste Gulbenkian, no valor de 100 mil euros.

Objectivo: mostrar como a escola da sua filha se tornou num dos mais bem sucedidos projectos de “coexistência e multiculturalismo”, capaz de mudar mentalidades.

A escola que Shira frequenta e tem o nome do filantropo britânico Max Rayne situa-se em Jerusalém, entre o bairro judeu de Pat, no sector ocidental, e o bairro árabe de Beit Safafa, no oriental, ocupado e anexado após a guerra israelo-árabe de 1967.

Hand in Hand é, também, conhecida como “escola bilingue”, e é a única com estas características na cidade, embora tenha mais três estabelecimentos de “duas línguas e três religiões” (judeus, cristãos e muçulmanos) em Israel.

Na Galileia (a primeira a ser criada, em 1997, tem 230 crianças das regiões de Misgav, Sha’ab e Sakhnin), em Wadi Hara (existe há três anos e conta com 200 alunos). e em Beersheba (60 meninos distribuídos por dois jardins de infância).

Aberta a mais de 400 alunos, a escola Max Rayne ganhou, em Outubro [de 2007], um novo edifício, com uma área total de mais de 10 mil metros quadrados, num projecto avaliado em 11 milhões de dólares e financiado por vários contribuintes, em Israel e no estrangeiro.

Apesar das modernas instalações, “continua a haver uma longa lista de espera, porque tentamos contratar os melhores profissionais e os pais procuram a excelência para os seus filhos”, diz-me, por telefone, Benjamin Oron, avô de Shira, membro do conselho de administração e antigo embaixador em Lisboa.

@Hand in Hand

© Hand in Hand

O sistema educativo Hand in Hand, reconhecido pelo Ministério da Educação (que paga os salários de metade dos professores), é único. Nasceu em 1997, numa iniciativa do judeu Lee Gordon e do árabe Amin Khalaf.

As escolas têm dois directores, um árabe e um judeu. Em Jerusalém eles são Ala Khatib, um biólogo da aldeia de Tira, a Norte de Telavive, e Dalia Peretz, de Sderot, irmã do ex-líder trabalhista e antigo ministro da Defesa israelita Amir Peretz – ambos têm os filhos a estudar no lugar onde trabalham.

Cada turma nas escolas mistas está dividida equitativamente: 50% de crianças judias e 50% árabes. Em todas as aulas há dois professores, um árabe e um judeu. As aulas começam em hebraico, que “a maioria das crianças árabes fala fluentemente”, reconhece Oron, e depois passa para o árabe, língua em que “os meninos judeus se sentem menos à vontade”.

Tudo começou com um jardim infantil e agora já vai no oitavo ano do ensino básico. A próxima etapa, para a qual ainda não há autorização – “mas está praticamente garantida”, confia o administrador e diplomata – é prosseguir os estudos até ao liceu.

“O que é bom nestas escolas”, exultou o co-director Khatib numa entrevista, “é que nós não temos de concordar”. E isso é tanto mais evidente quando chega a hora de assinalar, por exemplo, a guerra de 1948.

Para os judeus, é a festa da “independência”. Para os árabes, é a Naqba, ou “Catástrofe”, o ano em que Israel ganhou um Estado e os palestinianos perderam o seu.

“Cada um festeja ou chora a data, geralmente separadamente, embora todos aprendam que há duas narrativas diferentes – o que não acontece nas escolas só para judeus ou só para árabes.

Às vezes, há visitas de estudo em conjunto para perceber melhor “o outro”, e há também uma efeméride unanimemente respeitada: a evocação dos mortos da Shoah.

“Lembro-me da minha primeira experiência do Dia da Nakba”, relata, no livrinho do Hand in Hand, o judeu israelita Bar-Giora, pai de Nimrod, um dos alunos da escola de Jerusalém.

“Foi a primeira vez que ouvi falar em tal conceito. Nesse dia fomos visitar Walajeh, uma aldeia que foi abandonada em 1948. Foi um ponto de viragem na minha vida. (…) Não tenho sentimentos de culpa ou de remorso. “

“Fico feliz por o Estado de Israel ter sido criado. A minha mãe é uma sobrevivente do Holocausto, e temos de lutar para preservar a existência de Israel. No entanto, hoje, eu entendo que há uma nação que pagou um preço de elevado sofrimento, e temos de fazer tudo para encontrar um compromisso honroso que arranje lugar para todos.”

@Hand in Hand

© Hand in Hand

O palestiniano de cidadania israelita Hatem Matar, nascido em 1964 em Aylabun, escolheu uma escola bilingue para as duas filhas, Amal e Malak, porque lhes quer ensinar “a harmonia entre judeus e árabes”, e pretende “mudar as posições racistas entre alguns judeus que não conhecem os árabes”.

Confia ainda em que elas “exijam os seus direitos e andem sempre de cabeça erguida”, sem estarem sujeitas à discriminação que ele sente, em particular nos empregos que tem exercido ou lhe têm sido recusados.

Voltemos a Shira Mingelgreen, agora com 13 anos. Quando lhe perguntam se não gostaria mais de frequentar outro tipo de escola, ela responde:

– “Se eu andasse numa escola só com judeus, será que só ouviria falar das vítimas judias? E isso seria mais fácil para mim? Rapidamente, chego à conclusão de que é melhor andar numa escola onde tomamos conhecimento do sofrimento dos dois lados.”

Benjamin Oron, o avô de Shira, faz questão de sublinhar que as melhores amigas da sua neta são “as coleguinhas árabes” Hanim e Suhara.

“Elas vão a casa umas das outras, para brincar ou fazer os deveres da escola, passam férias juntas. E não são só elas, mas também os seus pais. Há um grande convívio social. Nada disso impede, é claro, que ela tenha a visão da sua história judaica, ao mesmo tempo que compreende a outra parte”.

O ex-embaixador, que se exprime num perfeito português do Brasil, brinca quando caracteriza os “conflitos” infantis: “É mais de género que de nacionalidade – meninos contra meninas e vice-versa; não se trata de judeus contra árabes ou de árabes contra judeus, isso não!”

© Hand in Hand

E por que motivo é que Miriam, a sua filha mais velha, química numa companhia de alta tecnologia ligada à Universidade Hebraica de Jerusalém, inscreveu Shira numa escola mista?

“Creio que foi uma questão ideológica, de activismo político, porque este é mais do que um projecto bilingue, é quase binacional”, justifica Oron.

“Shira já vinha do YMCA, um jardim infantil com judeus e árabes, num prédio muito lindo em Jerusalém. Foi natural, ela continuar numa escolinha semelhante.”

Miriam, por seu lado, está orgulhosa da opção que fez: “Quando chegamos à escola, num dia em que houve um assassínio selectivo nos territórios [palestinianos ocupados] ou um ataque calamitoso em Israel, e vemos as crianças árabes e judias a brincarem juntas da maneira mais inocente, isso deixa-nos uma sensação muito boa. É uma verdadeira terapia!”

Em jeito de conclusão, o pai de Miriam define assim o projecto Hand in Hand: “Queremos fomentar uma integração em que cada um mantenha a sua identidade. Não é preciso estar de acordo, mas sim respeitar a posição do outro”.

É um bom conselho para os israelitas, palestinianos, sauditas, sírios e outros, que amanhã  [27 de Novembro de 2007] se encontram na Academia Naval de Annapolis, no estado americano de Maryland, para discutir a melhor maneira de pôr fim a seis décadas de ódio e guerras.

Se fracassarem, em vez de recorrerem à violência, que tal passarem pela escolas Hand in Hand?

Dalia Peretz (L) the Israeli Jewish principal and Alla Khatib, the Israeli Arab principal of the Max Rayne School - A Hand in Hand School for Bilingual Education in Jerusalem during an interview with Sascha Zastiral of Der Spiegel at their school’s office, Sep. 04, 2006. @ photo: Amit Shabi

A israelita Dalia Peretz  e o palestiniano Ala Khatib, antigos directores da Escola Hand in Hand (2006) 
© Amit Shabi | Der Spiegel

 
Este artigo, com novo título, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 26 de Novembro de 2007 | This article, under a new title, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 26, 2007

Como mudar o mundo poupando cinco cêntimos

A partir de uma poupança diária de alguns cêntimos em mealheiros de bambu, a monja budista Cheng Yen fundou, em Taiwan, uma rede de assistência internacional de cinco milhões de membros e voluntários. Já foi nomeada para o Nobel da Paz e proclamada uma das “50 estrelas da Ásia”. (Ler mais | Read more…)

Footo 1

Cheng Yen, que à nascença recebeu o nome de Wang Chin-yun, é a “alma” de uma fundação com 5 milhões de voluntários e 30 mil membros em 62 países. Os seus “anjos da guarda”socorrem diversos países, como São Tomé e Príncipe, por exemplo
© thextraordinary.com

O tempo de vida de uma pessoa é medido pelas coisas boas que fez

(Cheng Yen)

Wu Chi Chung caminha em passos rápidos, quase aos saltinhos, de uniforme azul-cinzento e um saco atado a um dos pulsos onde guarda os sapatos. No templo Tzu Chi, na ídilica cidade de Hualien, em Taiwan, é obrigatório andar de meias ou pés descalços, e ela cumpre escrupulosamente as regras.

Há 14 anos que trabalha para uma mulher muito especial e, no seu inglês rudimentar, irá contar aos visitantes uma história fabulosa.

É a história de Cheng Yen, 70 anos festejados este mês [Maio de 2007], monja budista cuja saúde débil nunca permitiu que deixasse a ilha onde nasceu mas que, actualmente, dirige uma fundação com cinco milhões de voluntários e 30 mil membros espalhados por 62 países.

Os seus “anjos da guarda”, a maioria pagando despesas do próprio bolso, chegam a todo o lado. Tanto socorrem vítimas de sida na África do Sul como desalojados por um furacão em Nova Orleães.

Deste esforço de ajuda internacional resultou a construção de casas, escolas, clínicas, e até a criação do maior banco de dadores (300 mil inscritos em 2006) de medula óssea da Ásia e o terceiro maior do mundo.

Olhando para um retrato na parede do museu, adjacente ao Hospital Tzu Chi, em Hualien, Wu aponta para os rostos sorridentes de uma jovem e de um menino. Ela é taiwanesa e ele é americano. Uma transfusão de sangue salvou-o de morrer de leucemia, e ambos celebram a vida. “Isto prova que somos todos iguais mesmo que continentes nos separem”, exulta Wu.

Em Taipé,  Yin Shun, venerável mestre Dharma, abençoou e orientou a sua discípula até morrer, com 102 anos. Foi ele que lhe deu um novo nome: Cheng Yen (ambos na foto)
© tzuchi.org.sg

Cheng Yen, a “Mestre Dharma” que Wu tanto venera, era uma simples rapariga de Ching-shui, pequena localidade no centro de Taiwan. À nascença chamaram-lhe Wang Chin-yun.

Quando o pai morreu, de hemorragia cerebral, ela culpou-se por não ter sabido cuidar dele. Incapaz de superar a perda, deixou a casa materna e, em 1961, foi procurar refúgio num templo abandonado na costa oriental, que naquele tempo era uma região remota e pouco desenvolvida.

Uma monja budista, Hsiu Tao, acompanhou Wang, e ambas decidiram não aceitar donativos da comunidade local, vivendo das plantas, frutos e batata-doce que colhiam.

Mais tarde, conheceram um monge, Hsu Tsung-ming, e os três tornaram-se grandes amigos. Em 1962, Wang decidiu tornar-se monja e, num gesto muito pouco tradicional, salienta a biografia oficial, rapou ela própria o seu cabelo, sem ter antes encontrado um mentor, como estipulam os preceitos do Budismo.

Em Fevereiro de 1963, Wang deslocou-se a Taipé, para um “noviciado” de 32 dias, de modo a ser aceite formalmente como monja.

Na capital taiwanesa recebeu a bênção de um dos mais respeitados mestres de Dharma, Yin Shun, que fez dela discípula, orientando-a até à sua morte recente, com 102 anos. Foi ele que lhe deu um novo nome: Cheng Yen.

Quando Cheng regressou a Hualien, o monge Hsu tinha construído uma pequena cabana de madeira nas traseiras do templo de Pu Ming. As condições mantinham-se, porém, adversas.

Passavam frio e fome, mas continuavam a recusar esmolas dos aldeões porque viam que também eles eram pobres. O lema que seguiam era: “Se não trabalhas não comes”. Ainda hoje permanece válido.

Para sobreviverem, Cheng e o seu grupo plantavam vegetais e dedicavam-se à costura de camisolas, sacos para rações e botas de lã para crianças. Com o dinheiro do que vendiam conseguiam satisfazer as necessidades básicas de “manter o corpo quente e o estômago cheio”

A Fundação Tzu Chi tornou-se quase um estado dentro do Estado. Tem hospitais em várias regiões de Taiwan – revolucionou por completo o sistema de saúde da ilha, acolhendo pacientes de vários países, para cuidados paliativos ou complicadas cirurgias
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Cheng tornou-se numa especialista em escrituras budistas, mas achava que tanto saber espiritual de nada serviria se não o conseguisse pôr em prática. Explica Wu Chi Chung: “A mestre seguiu vários passos. Viu que havia pobreza e dedicou-se à caridade.

Depois viu que as doenças alimentavam a pobreza e decidiu formar médicos e enfermeiros. Depois olhou à sua volta e viu que o sofrimento estava em toda a parte e então dedicou-se à assistência humanitária”.

As quatro missões a que Wu se refere – “caridade, medicina, educação e cultura” – começaram a ganhar forma, em 1966, depois de uma visita de Cheng Yen a um hospital na localidade de Fenglin. A monja impressionou-se com uma mulher a esvair-se em sangue  por quem muitos passavam e ninguém parava para ajudar.

Disseram-lhe que era uma aborígene e que sofrera um aborto. Sem posses descera as montanhas onde vivia, durante oito horas, a pé, apoiada em familiares. O hospital recusou-se a interná-la por ela não ter dinheiro para pagar uma caução.

Cheng ficou chocada sem saber o que fazer, mas rapidamente concluiu que não era suficiente rezar a Buda dia e noite. Em 1966, a mestre tinha cerca de 30 seguidores, a maioria donas de casa.

Lembrou-se, um dia, de lhes pedir que poupassem o equivalente a 50 cêntimos taiwaneses (20 cêntimos de dólar dos EUA) que depositariam em mealheiros de bambu, feitos e distribuídos por ela, antes de cada ida ao mercado.

As mulheres interrogaram-se da utilidade de poupar 50 cêntimos/dia em vez de 15 dólares taiwaneses por mês.

“Não é o mesmo”, terá dito Cheng Yen. “Se só pouparem uma vez por mês só demonstram compaixão uma vez por mês. Mesmo que os 50 cêntimos poupados diariamente não sejam de grande valor, com eles estarão a acumular o espírito de ajuda e de amor aos outros todos os dias” (Ten Thousands Lotus Blossoms of the Heart, Dharma Master Cheng Yen and the Tzu Chi World).

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A palavra de ordem “50 cêntimos salvam pessoas” rapidamente se espalhou por Hualien, e mais gente ia aderindo ao projecto.

No dia 24 de Março de 1966, foi oficialmente inaugurada a Fundação Budista de Compaixão e Auxílio Tzu Chi. Em 1969 já eram inúmeros os dadores e os receptores de ajuda.

O templo de Pu Ming tornou-se pequeno para acomodar todos. A mãe de Cheng Yen contribuiu financeiramente para comprar um lote de terreno onde foi construída a Residência do Pensamento Tranquilo (Abode of Still Thoughts). O custo total da obra excedeu o orçamento original e foi preciso um empréstimo bancário.

Para pagar a hipoteca, as monjas do novo templo dedicaram-se a múltiplas tarefas, como a produção e comercialização de velas. Nem um só tostão dos donativos foi usado para liquidar as dívidas.

“As pessoas confiam na mestra, sabem que lhe podem dar o seu dinheiro porque ele não será mal gasto”, sublinha Wu Chi Chung.

Com contribuintes generosos, a Fundação Tzu Chi tornou-se quase um estado dentro do Estado. Tem hospitais em várias regiões de Taiwan – revolucionou por completo o sistema de saúde da ilha, acolhendo pacientes de vários países, para cuidados paliativos ou complicadas cirurgias.

Tem uma faculdade de Medicina e escolas de Enfermagem. Possui até emissoras de rádio e redes de televisão por satélite, sendo um dos maiores accionistas da maior estação de TV na Tailândia.

Voluntário da Fundação Tzu Chi distribui arroz a famílias carenciadas em Phnom Penh, no Camboja, no âmbito da sua missão budista. Esta campanha, lançada em 2017, beneficiou mais de 4000 famílias 
© taiwantoday.tw

A partir da Residência do Pensamento Tranquilo, que se transformou em lar espiritual para membros e voluntários, é coordenada, todas as manhãs, a assistência a mais de um milhão de pessoas pelo mundo fora. Cheng Yen mantém a sua vida austera, apesar dos problemas cardíacos que a impedem de viajar. Dá palestras a que acorrem centenas de ouvintes mas continua a cultivar o que come.

Além da assistência financeira aos mais pobres e aos doentes, a fundação participa também em operações de auxílio em zonas de desastre, da Malásia a El Salvador, do Irão à antiga colónia portuguesa de São Tomé e Princípe – único país do mundo que trocou o reconhecimento diplomático por parte da República. Popular da China pelo da República China (ROC, sigla inglesa), mais conhecida por Taiwan.

Outra área de acção é a preservação do ambiente. Os fiéis de Cheng Yen foram ensinados a privilegiar o consumo de bens de agricultura biológica e a usar materiais recicláveis – eles levam os seus copos, pratos e talheres para os restaurantes, evitando o que é descartável. E são muitos os que participam em campanhas de limpeza para “transformar o lixo em ouro”.

Em 1995 bateram um recorde com a recolha de 18,3 milhões de quilos de papel, o que significou preservar 366 mil árvores.

Wu Chi Chung assegura que, apesar desta ajuda “directa, sem intermediários, olhos nos olhos” nada é feito para forçar a conversão ao Budismo. Ela própria só há pouco tempo aderiu à religião da mestre. Não porque fosse obrigada, mas porque sentiu “um vazio” depois de perder o seu segundo filho.

O reitor de uma escola Tzu Chi pode ser um cristão, exemplifica. O responsável pelo centro de voluntariado na Turquia é um muçulmano, adianta Wu, frisando: “À mestre só interessa que eles sejam competentes e compassivos”.

Por ser como uma luz que ilumina na escuridão, Cheng Yen já foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, em 1996. E, em 2000, a revista Business Week classificou-a como uma das “50 estrelas da Ásia”.

@DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

© TIME

A jornalista viajou a convite do Centro Económico e Cultural de Taipé em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007  | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

Play it again, Sami!

Desde a egípcia Umm Kulthum que o mundo islâmico não “idolatrava” um artista como Sami Yusuf. As baladas religiosas e políticas deste muçulmano britânico atraem fãs em delírio, inebriados com a fusão entre “Ocidente e Oriente”, tradição e modernidade. Os seus discos, de louvor a Deus e condenação dos que matam invocando-O, são vendidos às dezenas de milhões. (Ler mais | Read more…)

© The National

A revista TIME não hesitou em chamar-lhe “a maior estrela rock do Islão”, capaz de provocar nas multidões que acorrem aos seus concertos êxtase do tipo Beatlemania.

Sami Yusuf, 27 anos, cantor e compositor de uma singular boy’s band, aceita a etiqueta de artista pop, adoraria fazer duetos com Bono ou Sting, e até aspira a ganhar um prémio MTV ou um Grammy. O que o distingue, no firmamento do show business, é a música e lírica impregnadas de amor a Deus e de mensagens políticas.

Ao mesmo tempo que glorifica Alá, Sami Yusuf insurge-se contra os rebeldes islamistas tchetchenos que mataram crianças em Beslan; condena os suicidas que se fizeram explodir em Londres; angaria fundos para o Darfur, região do Sudão, onde um regime árabe é acusado do genocídio de populações africanas.

E também critica o Governo francês por proibir nas escolas o uso do hijab, lenço que cobre a cabeça da sua mulher, Maryam, alemã da cristã Baviera que se converteu ao Islão muito antes de ambos se casarem, em 2006.

Sami Yusuf, um “orgulhoso muçulmano britânico”, nasceu em Teerão, em Julho de 1980, de uma família de origem azeri, que o levou para o Reino Unido tinha ele três anos. Reside agora em Stockport.

Os avós haviam deixado Baku para o império qajar-turco na Pérsia, quando a República Democrática do Azerbaijão se rendeu aos bolcheviques soviéticos nos anos 1920.

Habituado a um lar onde se toca alaúde após o jantar, Sami aprendeu as primeiras notas com o pai, poeta e músico, que via nele “um talento especial”.

Em 2003, quando lançou o seu primeiro disco, Al-Mu’allim (“O Professor” – homenagem a Maomé, profeta do Islão), o jovem estava longe de imaginar que iria vender milhões de exemplares, na Europa, Ásia e Médio Oriente. E, em reinos da pirataria, como o Egipto ou o Paquistão, quando se diz milhões, diz-se dezenas de milhões de cópias.

Uma das canções do segundo álbum, Hasbi Rabbi (“O meu Deus é suficiente”), tornou-se no toque de telemóvel mais ouvido da Bósnia-Herzegovina ao Golfo Pérsico. O vídeo deste single é também o mais pedido nos programas musicais televisivos do mundo árabe e islâmico.

Uma entrevista do artista à Al Jazeera foi vista por milhões de admiradores que inundaram a estação com telefonemas e e-mails. São igualmente milhões os que acedem ao site oficial.

O estrondoso êxito surpreendeu Sami Yusuf, cujo objectivo original, ao criar com alguns amigos que o dissuadiram de seguir Direito a editora Awakening, era ser uma “fonte de inspiração” apenas para a comunidade muçulmana britânica.

A modéstia impedia-o de sonhar mais do que tentar encorajar, através da música, os irmãos de fé compatriotas a serem tolerantes e a renegarem os extremistas que “sequestraram a religião”.

Em Istambul, por exemplo, Sami estava à espera que umas 50 mil pessoas assistissem ao seu concerto.

Apareceram cerca de 200 mil, jovens e idosos, e a isso talvez não seja estranho o facto de ele cantar em turco. E em farsi, e em árabe, e em urdu, além do inglês. Também deve contar a mistura de instrumentos, ocidentais e orientais – ele sabe tocar nove: violino, piano, daff, dutoof, kattar, santoo, taab, tabla, tombak.

As pessoas confessam-se maravilhadas com a fusão das baladas nashid, canções místicas, com o hip-hop e a música clássica – Sami adora Beethoven e Chopin, e chegou a frequentar a Royal Academy of Music, de Londres.

Tinha 18 anos e uma bolsa de estudos. Desistiu ao fim de oito meses, segundo explicou, por não se adaptar a uma “escola muito virada para uma elite branca”.

A imagem cool que Sami passa de si próprio também contribui para o seu enorme sucesso. Ele usa barba como “é dever” dos devotos muçulmanos, mas bem aparada e a fazer realçar um sorriso luminoso.

O cabelo tem uma crista de gel, e o corpo elegante despe-se da galabeya (túnica) para envergar fatos sem gravata ou jeans e blusão de cabedal.

À sua vasta audiência ele prova que é possível combinar tradição e modernidade. Que é possível aderir à última moda e rezar cinco vezes por dia.

© magpie.ae

Deixemos então falar Sami Yusuf, que não quer ser classificado de pregador ou famoso sex symbol:

Precisamos de mudar e começar a integrar-nos. Quando vivemos num país, digamos a Grã-Bretanha, beneficiamos dos direitos que aqui existem. Se não gostamos disso, devemos ir embora. Trata-se de ser construtivo e não destrutivo. (The Irish Times)

A razão por que amo tanto a Inglaterra, além de ser a minha casa, é pelos valores universais da diversidade e respeito pelos outros, independentemente da raça ou da fé.

Sou livre de pensar, algo que muitos muçulmanos a viver nos países muçulmanos não se permitem fazer. Um dos problemas que temos no mundo muçulmano é que os jovens têm medo de pensar, medo que o pensamento os leve a duvidar da religião. (Egypt Today)

Meca e Medina são lugares sagrados para os muçulmanos. A Arábia Saudita não é. Eles [sauditas] não representam os muçulmanos. Quanto aos Abu Hamza [um extremista islâmico que o Reino Unido expulsou] deste mundo também não nos representam. Eles podem ir para onde vieram, muito francamente.

Estou farto desses tipos feios – e eles são mesmo feios, tenho medo desse tipo do gancho –, quem é ele, afinal? Raramente me encontro com gente como essa. Com franqueza, eles assustam-me. (The Guardian)

Não temos suficientes celebridades islâmicas que deixem orgulhosa a minoria de muçulmanos no Ocidente. No tempo do meu pai havia Cat Stevens [que se tornou Yusuf Islam após a conversão], Malcom X e Muhammad Ali. Agora, a maior parte das pessoas pensa: Islão, Ah, Osama bin Laden. Há jovens que se sentem confusos e podem ficar desiludidos. (Reuters)

Uma coisa é certa, até Sami Yusuf aparecer, e desde que a grande diva egípcia Umm Kulthum morreu em 1975 (ao seu funeral assistiram mais de quatro milhões de pessoas, segundo estimativas oficiais – mais do que às exéquias do “pai” do pan-arabismo, o presidente Gamal Abdel Nasser), que o mundo islâmico não “idolatrava” assim um artista.

O fenómeno irrita muito os teólogos radicais que defendem a interdição da música como haram (pecaminosa).

Indiferentes à controvérsia, e no final dos espectáculos, os fãs aplaudem e imploram: Play it again, Sami!

© samiyusufofficial.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 20 de Novembro de 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 20, 2007

Chegou a obra-prima do único árabe Nobel da Literatura

Mais de 50 anos após a edição original, Portugal recebe Entre os Dois Palácios, primeiro volume da Trilogia do Cairo, que deu aos árabes o seu único Nobel da Literatura.  (Ler mais | Read More…)

© en.qantara.de

Entre os Dois Palácios, o primeiro volume da Trilogia do Cairo, apresentada como obra-prima e a preferida de Naguib Mahfouz, chegou finalmente a Portugal [em Outubro de 2007, Editora Civilização] – mais de cinco décadas depois de ter começado a ser escrita pelo egípcio que (ainda) permanece o único árabe Prémio Nobel da Literatura.

Mahfouz, que morreu em 2006, tinha 45 anos em 1956, quando deu vida a Sayyed (senhor ou patrão) Ahmed Abdel Gawwad, à mulher submissa, Amina, e aos cinco filhos: o idealista Fahmi, o libertino Yassin (fruto de casamento que acabou em divórcio), o miúdo Kamal, a feia mas prendada Khadiga, a bela e sonhadora Aisha.

Bain el-Qasrain (literalmente, Entre os Dois Palácios, segundo informa, em preciosas notas de rodapé, o tradutor Badr Hassanein) é a história de uma família tradicional muçulmana, prisioneira de tradições sociais e religiosas, na grande metrópole do Cairo, nos tempos conturbados da ocupação britânica, após a I Guerra Mundial.

(“Peço-lhe também que os ingleses e os seus lacaios sofram uma derrota tão vergonhosa que dela não mais se ergam! Que Deus os varra a todos! (…) Que Deus os rechace! Que Deus os destrua a todos”. p. 47)

Em mais de 500 páginas (a Trilogia original, incluindo o segundo volume, Qasr al-Shoq, e o terceiro, Sukkariyah, tem cerca de 1600), o leitor pode acompanhar, entre o deleite e a revolta, os dias e as noites do próspero comerciante Gawwad e daqueles sobre quem ele exerce um poder que inspira medo e respeito.

Em particular à sua mulher e às duas filhas, “encerradas” atrás de uma machrabiyya, varanda de madeira com gradeamento por cujos “orifícios circulares” podiam ver sem ser vistas.

Personagens memoráveis: Amina, que foi viver com Gawwad aos 14 anos, “jamais lamentara a escolha que para si fizera de uma existência calma e passiva”, reclusa ao lado de um marido aventureiro e frequentemente ébrio.

A “loira e fulgurante” Aisha, que às vezes arriscava abrir a janela lateral do salão para se deixar seduzir por um jovem oficial.

Khadiga, “tom de pele escuro e traços desconformes”, que nem sequer aspirava a arranjar marido. Fahmi, “cópia perfeita do pai, tirando a magreza”, que é apanhado em manifestações contra os ocupantes – o seu destino, no final, irá marcar a narrativa do segundo volume da Trilogia. Kamal, que estabelece perigosas relações de amizade com os soldados estrangeiros.

Yassin, que apenas procura o divertimento, ficará surpreendido quando souber que o pai é visita assídua de um lugar que nunca recomendaria aos filhos (pp. 253-257).

Quanto ao austero Sayyed, não vê qualquer contradição entre os seus prazeres nocturnos – “onde jorravam as bebidas, os risos, o canto e a paixão” – e o zelo corânico das suas preces e repressão familiar.

Leitor ávido de Dostoiévski, Dickens, Balzac e Zola, o homem de quem se diz “inventou o romance árabe” detalha, em Entre os Dois Palácios, os mais ínfimos pormenores mundanos e grandiosos acontecimentos históricos.

Algumas coisas mudam; outras continuarão imutáveis neste belíssimo livro, aclamado em todo o mundo quando começou a ser traduzido em várias línguas depois de Naguib Mahfouz Abd El-Aziz Ibrahim Ahmed El-Basha ter ganho o Nobel, em 1988.

O confronto de gerações 

© lithub.com

Em O Palácio do Desejo, segundo volume da Trilogia do Cairo, a tradição já não é o que era na casa de Sayyed Ahmad Abdel Gawwad. Vale a pena bisbilhotar os seus segredos. (Ler mais | Read more…)

Que se faça a transição Entre os Dois Palácios antes de visitar O Palácio do Desejo, o segundo volume da Trilogia do Cairo, [Editora Civilização, Abril 2008] aclamada como a obra-prima do escritor egípcio Naguib Mahfouz, o único Prémio Nobel árabe da Literatura (1988).

Será difícil entender as vidas do Sayyed (senhor) Ahmad Abdel Gawwad, da sua família e amigos, no Cairo dos anos ’20, se a primeira paragem não foi na machrabiyya (varanda gradeada) de Amina, a mulher reclusa e submissa.

Em Palácio do Desejo voltamos a casa do temido patriarca, mas muita coisa mudou desde o último capítulo de Entre os Dois Palácios, e essa transformação – que reflecte igualmente uma metamorfose no Egipto – não pode passar despercebida ao leitor.

O ritmo é mais lento, mas algumas personagens ganham intensidade, ainda que outras quase se apaguem (como as filhas Khadiga e Aisha – nem damos conta que já estão casadas e com filhos), e que o boémio Sayyed tenha perdido algum do seu vigor físico quase tocando a mortalidade.

Mahfouz é um exímio narrador, bisbilhotando para nós os segredos da alma e os que se escondem por detrás das portas, nos salões e nas alcovas. Num país onde as tradições – sociais, políticas e religiosas – são postas à prova, o lar de Sayyed é também ele um lugar onde se confrontam nova e velha gerações.

Há uma passagem comovente, quando Kamal, o filho mais novo, informa o pai que tenciona seguir a carreira de professor.

Ahmad Abdel Gawwad, habituado a controlar tudo e todos, reage furiosamente quando sente que a sua vontade não será cumprida: “É uma profissão miserável que não goza de qualquer respeito. (…) Conheci notáveis e funcionários respeitáveis que recusaram, de forma categórica, casar as filhas com um professor, independentemente de quão alta fosse a sua posição.”

Não será pela escolha profissional que Kamal irá ser rejeitado por Aida, a “rapariga dos sonhos” de todos os jovens, “majestosa na sua aparência deslumbrante”.

Desgostoso, o “filósofo” Kamal deixar-se-á influenciar pelo libertino meio-irmão Yassin, tão diferente de Fahmi – uma patriótica e inesquecível figura-chave de Entre os Dois Palácios.

Entre copos, Yassin, o rebelde que desafiou as convenções com um casamento inconveniente (uniu-se a Zannouba, a “tocadora de alaúde” e… amante do seu pai), revelará a um incrédulo Kamal a essência de Sayyed Gawwad, “o corifeu da delicadeza e da volúpia. (…) O líder dos folgazões, dos lascivos e dos amantes”.

Somos tentados a detestar o velho Ahmad, mas a sua complexidade não permite que o julguemos como mau (quando humilha a família) ou bom (quando confraterniza com os amigos e as prostitutas que o idolatram).

Quando um artigo de Kamal sobre Darwin, publicado no semanário al-Balagh (órgão do Partido Wafd – como bem informa o tradutor, Badr Hassanien, em úteis notas de rodapé), vai parar às mãos do pai, Mahfouz é brilhante no confronto de ideias.

“Se nos teus estudos te deparares com coisas incompatíveis com a religião, mas que tens de estudar para passar nos exames, não acredites nelas! (…) Diante da ciência deves manter a mesma atitude que assumimos em relação à ocupação inglesa: contestar a sua legitimidade mesmo quando nos é imposta à força!”, recomenda Ahmad Abdel Gawwad.

Antes de ser silenciada pelo marido, Amina, a mãe devota, acrescenta: “E dedica a tua vida a desmascarar mentiras desta ciência e a espalhar a luz de Alá”. O respeito filial mantém-se mas já não a obediência.

© The National

Tal como Fahmi, que arriscou a vida, e Yassin, que “se abeirava cada vez mais do abismo”, também Kamal segue o seu próprio caminho.

É Mahfouz, o porta-voz do seu interior, que nos diz: “Se doravante quisesse escrever, bastar-lhe-ia voltar para a revista O Semanário Político [dos liberais constitucionalistas], que nunca cairia nas mãos do pai, conhecido wafdista. Libertado da religião, estaria mais próximo de Allah do que se estivesse subjugado por esta.”

É extraordinário o modo como o homem que “inventou o romance árabe” nos faz imergir num tempo que ele próprio viveu e que ainda não desapareceu totalmente. Notável, por exemplo, a evocação de Umm Kulthum, a grande diva que os egípcios imortalizaram acorrendo aos milhões ao seu funeral quando morreu, em 1975. Aqui, ela dá os seus primeiros passos.

“A sua voz… Allah é minha testemunha!… é linda. (…) Alguns dizem que substituirá Munira al-Mahdiyya, e há quem afirme que a sua voz é ainda mais espectacular do que a da própria Munira! (…) Na sua voz há alguma coisa que faz lembrar os recitadores do Alcorão! (…)”

A apreciação de Umm Kulthum é feita por Muhammad Iffat mas não é partilhada por Sayyed Ahmad, o que gera uma discussão elucidativa da nova era que o Egipto atravessa – muito graças ao “líder de todo um povo” que deve merecer a nossa atenção: Saad Zaghloul.

“És um reaccionário”, critica Iffat. “Estás sempre preso ao passado! Será que ainda continuas a governar a tua família a ferro e fogo em pleno século da democracia e do Parlamento?”. O Sayyed responde: “A democracia é boa para o povo, não para a família!”

Pensará ele do mesmo modo no terceiro e último volume da Trilogia do Cairo? Uma coisa é certa: a morte paira no ar.

Morte no Cairo

Em O Açucareiro, terceiro e último volume da obra-prima de Naguib Mahfouz, o Egipto é irmão muçulmano, é comunista, é homossexual. É imperdível. (Ler mais | Read more…)

Fomos apresentados a Sayyed Ahmad Abdel Gawwad, Amina, Fahmi, Kamal, Yasin, Aisha e Kadhija Entre os Dois Palácios. Arrastámos as suas dores e amores, segredos e conflitos para O Palácio do Desejo. Agora, em O Açucareiro [Editora Civilização, Agosto 2008] despedimo-nos de uma parte da família.

Uns morrem e outros anseiam morrer. Uns são presos e outros teimam a não se deixar aprisionar. No terceiro e último volume da Trilogia do Cairo, considerada a obra-prima de Naguib Mahfouz, o Egipto entrou na modernidade sem deixar a tradição.

A vida já não gira em torno do austero Sayyed Gawwad e da submissa Amina, os pais, mas voltamos a centrar as nossas atenções nos seus filhos Aisha, Kadhija, Yasin e Kamal (Fahmi já nos deixara no primeiro volume), e sobretudo nos seus netos Ahmad, Abdel Munim e Ridwan.

Através deles, o único Nobel Árabe da Literatura mostra bem como as mudanças, políticas, sociais e religiosas, num país que se libertou do peso colonial inglês entraram quase sem aviso numa casa “pejada de infortúnio e dos indícios percursores do fim.”

Profundo conhecedor da cidade que fez dele “o inventor do romance árabe”, Mahfouz esculpe e pinta na perfeição o filósofo Kamal, que se mantém agarrado ao amor platónico pela inacessível Aida, apenas oferecendo temporariamente o corpo à cortesã Atteya para logo o reaver e mergulhar nos seus livros.

Se Kamal é um personagem marcante (há nele muito de Mahfouz – rejeita todos os totalitarismos e ama a arte), que dizer de Ahmad e Abdel Munim, filhos de Khadija e Ibrahim Shawkat?

O primeiro, um fervoroso comunista que, num ultraje às regras, se casa sem a bênção da mãe com uma rapariga de fraca beleza mas fortes convicções, que trabalha fora de casa e ganha um salário duplamente superior ao do marido.

O segundo, um barbudo militante da Irmandade Muçulmana, que se une à prima Karima (filha de Yasin) depois de ficar viúvo da prima Naima (filha de Aisha) – tudo conforme a família e a religião determinavam.

Os dois, “o crente e o renegado”, como o próprio pai os designa, acabam na prisão. Aqui, Mahfouz oferece ao leitor um dos mais bem-humorados diálogos:

Abdel Munim suspirou de modo a só se fazer ouvir por Ahmad.

– Atiraram-me para um sítio destes por uma única razão: porque adoro Alá!…
E Ahmad, sorrindo, murmurou ao seu ouvido:

– E que culpa tenho eu então, que não O adoro?

A este duo há que juntar Ridwan, filho do boémio e mulherengo Yasin. Só um visionário como Mahfouz teria a ousadia de escrever sobre uma relação homossexual numa sociedade conservadora como o Egipto (outro tabu que ele não hesita em tocar é o da marginalização dos cristãos coptas, mais próximos dos comunistas de Ahmad, para sobreviverem, do que da fraternidade islâmica de Abdel Munim).

O belo Yasin, que confessa olhar para as mulheres como “um ser asqueroso”, chegará aos altos escalões do Estado graças ao afecto que por ele sente o excêntrico Abder Rahim Paxá Isa.

Será um amor correspondido ou interesseiro? Abder Rahim Paxá avisa-o: “O homem pode viver sem uma mulher… mas este é que é o problema. Ainda que não te importes com o que as pessoas pensem… como farás para vencer o que pensas de ti?”

Mahfouz compreendeu bem a sociedade do seu tempo. Exemplo disso são as histórias e a História que nos dá a conhecer nas mais de 1200 páginas da sua Trilogia.

De louvar, nos três volumes”, a tradução competente (a partir da língua árabe) e as valiosas notas de rodapé de Badr Hassanien, da Editora Civilização.

© Barry Iverson | Getty Images | Expresso

Estes artigos foram publicados em 2007 e 2008 no jornal PÚBLICO | These articles were published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007 and 2008

A Líbia de Hisham Matar

Em Terra de Homens, nomeado para o Man Booker Prize de 2006, não é uma autobiografia, garante quem o escreveu. Mas o passado do autor confunde-se com o de Suleiman el-Diuani, dois líbios forçados ao exílio por um regime brutal quando tinham apenas 9 anos. Uma estreia literária brilhante. (Ler mais | Read more…) 

O primeiro livro de Hisham Matar demorou cinco anos a concluir, e a “obsessão” por a escrever levou o seu autor a abandonar a profissão de arquitecto. Para sobreviver, HM fez várias tarefas, de pedreiro a encadernador. Quando a Penguin concordou assinar um contrato de publicação, ele já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à sua mulher. @TIM FRASER | National Post

O primeiro livro de Hisham Matar demorou cinco anos a concluir. O autor estava tão “obcecado” com a escrita que desistiu de ser arquitecto. Para sobreviver, fez várias tarefas. Quando assinou um contrato com a Penguin,  já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à sua mulher
© Tim Fraser | National Post

Diz-se em Teerão que o Ayatollah Khomeini nunca leu OVersículos Satânicos apesar de ter emitido uma fatwa (édito) para condenar à morte Salman Rushdie, o escritor britânico de origem indiana, acusado de “apostasia por ofensa ao Islão”.

Em Trípoli, provavelmente, Muammar Kadhafi também recusou pôr os olhos no primeiro e aclamado livro de Hisham Matar (HM), Em Terra de Homens (Ed. Civilização) – um libelo contra o seu regime.

É possível que tenha sentido vontade de ordenar o assassínio do filho de um dos seus maiores opositores, mas talvez se limitasse a mandar queimar os exemplares que alguém se atreva a introduzir no país. Afinal, o coronel líbio é agora um ditador reabilitado pela “comunidade internacional”.

Fogueiras de livros proibidos eram frequentes em 1979, quando HM e o seu protagonista, Suleiman el-Diuani, deixaram a Líbia para se refugiarem no Cairo, porque os seus pais eram perseguidos por “comités revolucionários” que os consideravam “burgueses” e “traidores”.

Uma das passagens mais dramáticas e comoventes da obra com que HM entrou na lista dos nomeados ao Man Booker Prize de 2006 é quando a mãe de Suleiman, depois de ver na televisão o seu vizinho Ustad Rachid ser interrogado por “vozes sem rosto” da polícia secreta, vai buscar os livros do marido para os queimar, e coloca um gigante retrato de Kadhafi na parede da sala.

Ao contrário do que possa parecer, todavia, a história de Suleiman el-Diuani não é um romance político mas uma história de amor, que sobrevive a tudo.

Demorou cinco anos a concluir, e a “obsessão” por a escrever levou o seu autor a abandonar a profissão de arquitecto. Para sobreviver, Hisham Matar fez várias tarefas, de pedreiro a encadernador.

Quando a Penguin concordou assinar um contrato de publicação, Hisham Matar já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à mulher.

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Jaballa Matar, o pai de Hisham Matar, quando era um jovem oficial do Exército Real Líbio, antes de Muammar Khadafi destronar o Rei Idris I, no início dos anos 1950.
© Hisham Matar | The New Yorker

A infância de Hisham Matar e a de Suleiman têm tantas semelhanças que é difícil acreditar na repetida garantia do primeiro de que não escreveu a autobiografia, embora Hisham Matar reconheça que o seu passado omnipresente o inspirou.

Em Terra de Homens, diz-nos, em entrevista, o escritor nascido em Nova Iorque (quando o pai era diplomata na missão líbia junto da ONU) e agora a residir em Londres, é só “fruto da imaginação”.

Começou como um poema que “acabou na cena em que Suleiman apanha amoras”. Como a estrutura do poema o limitava, Matar decidiu transmudá-la em prosa.

Assim surgiu uma obra “fascinante”, “extraordinária”, “notável”, “poderosa” – os adjectivos dos críticos são inúmeros –, nomeada não só para o Man Booker Prize mas também para as listas do The Guardian First Book Award, The Index on Censorship Expression Award e The Best First Book in the Commonwealth Writers Award.

Em Terra de Homens tem como pano de fundo a Líbia de Kadhafi, o “Guia” que derrubou a monarquia de Idris I, para instaurar o seu próprio reino de terror.

Suleiman tem 9 anos quando a mãe, a bela e instável Najua, e o pai, o austero Faraje, carinhosamente tratado por Baba, o colocam num avião para que se possa refugiar no Egipto do amigo Mussa, em parte para escapar ao serviço militar obrigatório, a partir dos 14 anos, que o levaria para a guerra no vizinho Chade.

O pai de Suleiman é um homem de negócios, activista político empenhado em derrubar o regime. Não resiste à tortura e denuncia os companheiros da conjura, o que faz dele um traidor. Durante a sua ausência, em actividades clandestinas, a mãe “adoece” sempre, depois de beber um “remédio” comprado às escondidas ao padeiro.

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Outra foto de Jaballa Matar. O pai de Hisham foi incluído numa lista de “pessoas a interrogar”, primeiro por ser “rico, culto e viajado”, depois por se ter tornado dissidente activo
© Hisham Matar | The New Yorker

Na sua divagação alcoólica, confidencia ao filho como foi obrigada a casar aos 14 anos com um homem o dobro da sua idade e as tentativas para abortar. Sóbria, pede a Suleiman, o seu “príncipe”, que lhe perdoe e não repita nada do que ouviu. O menino vai acumulando segredos num ambiente cada vez mais claustrofóbico – em casa, no bairro, no país.

Também Suleiman acabará por se tornar um “traidor” e um “tirano” quando humilha publicamente o melhor amigo, Karim, agride sem remorsos o indefeso mendigo Balu e tenta entregar ao espião que persegue o seu pai – julgando ingenuamente poder salvá-lo – o único livro que ele, indignado, poupara da fogueira: “Democracia Agora”.

Hisham Matar diz-nos que se sentiu “compelido pela voz” de Suleiman a escrever Em Terra de Homens.

O resultado é uma narrativa brilhante, enganadoramente simples, das mais complexas situações em que o protagonista se envolve e que agarra o leitor do princípio ao fim de 272 páginas. Não é fácil pôr uma criança a relatar o absurdo e o horror, mas HM torna tudo verosímil.

Afinal, a história de Hisham Matar é muito parecida com a de Suleiman. Também o seu pai, Jaballa Matar, foi incluído numa lista de “pessoas a interrogar”, primeiro apenas por ser “rico, culto e viajado”, depois por se ter tornado num dissidente activo. Também a sua família se exilou no Cairo e o seu irmão, Ziad, fugiu à guerra no Chade.

Em 1990, os serviços secretos egípcios raptaram Jaballa e entregaram-no aos líbios. Foi ele próprio quem fez esta revelação à mulher, em duas cartas que conseguiu fazer sair da sua cela, na prisão de Abu Salim, em Trípoli – a primeira enviada em 1992 (ainda que só chegasse em 1993) e a última em 1995. Nunca mais ninguém soube nada dele.

Em 28 de Julho de 1996, as autoridades líbias mataram 1300 prisioneiros políticos em Abu Salim. O mundo apenas teve conhecimento deste massacre em 2002. Desde então, Hisham Matar vem reclamando justiça para o seu pai. “Se ele está vivo, quero falar com ele e vê-lo. Se ele violou a lei, deve ser julgado e ter oportunidade de se defender. E se ele está morto, então quero saber como, onde e quando isso aconteceu. Quero uma data, um relatório detalhado e a localização do seu corpo”, escreveu num artigo publicado pelo diário britânico The Independent.

Entrevista com o escritor a quem Khadafi roubou o pai

Hisham Matar © Diana Matar | www.writerscentrenorwich.org.uk/

Hisham Matar
© Diana Matar | writerscentrenorwich.org.uk

O livro Em Terra de Homens é a brilhante estreia literária de Hisham Matar, líbio nascido em Nova Iorque e exilado em Londres. O escritor diz que não se sente corajoso ou “injustificadamente medroso”. O seu pai, um dissidente, desapareceu em 1990 e a família nunca mais o viu.

Suleiman não compreende por que a mãe “adoece” sempre que toma um “remédio” na ausência do pai. Não compreende por que, nos devaneios alcoólicos, ela lhe conta como foi obrigada a casar adolescente e fez tudo para abortar do seu “príncipe”. Não compreende por que os adultos sussurram à sua volta e lhe imploram que guarde segredos.

Não compreende por que são queimados livros, a casa e o bairro vigiados por “agentes revolucionários”, e na sala é colocado um gigante retrato do excêntrico coronel Muammar Kadhafi.

Não compreende por que o pai, homem de negócios, se esconde no quarto, desfigurado pela tortura, depois de o melhor vizinho ter sido interrogado e executado, em directo pela televisão. Em 1979, Suleiman tem 9 anos quando deixa Trípoli para se refugiar no Cairo.

Aos 24 anos, classificado pelo regime do “Guia” como “um cão perdido”, encontra algumas respostas para o que antes não entendia.

Há muito de Suleiman el-Diuani em Hisham Matar – exilados e filhos de dissidentes políticos –, mas o autor de Em Terra de Homens, nomeado para o Man Booker Prize de 2006 e outros prémios, assegura que não há nada de autobiográfico nesta “obra da imaginação”.

O escritor, líbio nascido em Nova Iorque e agora exilado em Londres, confessa-se deslumbrado, mas confiante de que terá “êxito no esforço de não ser uma celebridade”. A entrevista foi feita por e-mail.

Em Março de 2012, no regresso à Líbia, pós-Khadafi, Diana Matar e o seu marido, Hisham, fizeram uma viagem pelo país à procura da família perdida. O escritor encontrou o seu Hisham (left) with his uncle Mahmoud, a political prisoner for twenty-one years. They hadn’t seen each other since 1979. @The New Yorker

Em Março de 2012, no regresso à Líbia, pós-Khadafi, Diana Matar e o marido, Hisham, fizeram uma viagem pelo país à procura da família perdida. O escritor encontrou o seu tio Mahmoud (ambos na foto), um antigo prisioneiro político – esteve na cadeia 21 anos. Os dois homens não se viam desde 1979
© The New Yorker

Para escrever Em Terra de Homens, segundo revelou ao Guardian, o senhor desistiu de ser arquitecto, fez várias tarefas (de pedreiro a encadernador) e até enfrentou graves problemas financeiros. Pode explicar este processo de criação, que demorou cinco anos a concluir?

Sim, numa das primeiras entrevistas que dei, mencionei inadvertidamente que durante os anos que levei a escrever Em Terra de Homens enfrentei algumas das mais árduas dificuldades financeiras. Agora, lamento a minha ingenuidade.

Revelar informações de carácter tão pessoal não é apenas indiscreto mas pode parecer que andei a mendigar para escrever. Em Terra de Homens não é melhor nem pior pela infelicidade ou boa sorte por que o autor tenha passado.

Insiste, frequentemente, em que Suleiman, o protagonista, não é um retrato seu. Que Em Terra de Homens não é uma autobiografia. No entanto, há tantas semelhanças: rapazes que deixaram a Líbia aos 9 anos e nunca mais regressaram, um pai que era dissidente político, uma mãe que faz tudo para salvar a família… Poderemos, pelo menos, afirmar que é ficção com notas autobiográficas?

Os romances são obras de imaginação. Lê-los com essa intenção tão literal estreita e limita o nosso compromisso com eles.

Este livro chama-se Em Terra de Homens mas os principais personagens são uma mãe e o seu filho. Porquê este título? E por que decidiu centrar a obra nesta relação particular?

O título é irónico. O livro centra-se sobretudo em duas personagens – um rapaz e uma mulher – cujas vidas são moldadas pelas acções dos homens que os rodeiam.

É verdade que a parte mais difícil de escrever foi aquela em que o pai de Suleiman regressa a casa depois de ter sido torturado? Porque evoca a situação do seu próprio pai?

Não se tem passado um dia desde o desaparecimento do meu pai que eu não pense nele. Por isso, ao descrever esta intimidade entre um pai e um filho ela volta ternamente à minha mente.

Podemos ler esta obra como um tributo ao seu pai e/ou com um libelo contra o regime de Muammar Kadhafi?

O livro é independente; não fala em nome de nada nem de ninguém.

No New York Times escreveu um artigo em que critica os Estados Unidos (e os aliados britânicos) por terem perdido a oportunidade de fazerem do julgamento e libertação de centenas de prisioneiros políticos nas cadeias líbias condições prévias ao estabelecimento de relações diplomáticas com Trípoli. É tarde de mais para pressionar a ditadura de Kadhafi?

A democracia é mais uma responsabilidade do que um luxo. Não se pode culpar um povo pelas acções do seu ditador, mas somos todos responsáveis pelas acções dos nossos dirigentes eleitos.

E se esses dirigentes estão, efectivamente, a conspirar com uma ditadura contra os princípios dos direitos humanos e do estado de direito, é certo que esses dirigentes eleitos estão a trair os valores que o ou a levaram ao poder.

Se há hipocrisia nas relações entre o Ocidente e Kadhafi, também causa perplexidade o facto de o senhor não criticar o regime de Hosni Mubarak [obrigado a ceder o poder, em Fevereiro de 2011, após uma revolta popular] quando sabe que foram os serviços secretos egípcios que o raptaram e entregaram a espiões líbios. O senhor e Suleiman, o seu protagonista, falam com afeição do Cairo. Alexandria foi até escolhida como cenário da última cena de Em Terra de Homens. Porquê?

Tenho frequentemente mencionado o papel do Governo egípcio no sequestro ilegal e subsequente prisão do meu pai.

Não é de todo verdade dizer que não tenho sido crítico. Quanto à natureza da relação de Suleiman com o Egipto, tudo o que sei sobre ele está no livro.

Confundi-lo comigo não ilumina nada, apenas nos torna a ambos obscuros. Quanto a mim, não me lembro de alguma vez ter falado de maneira amigável ou hostil sobre qualquer país.

Não podemos dizer que somos amigos ou inimigos de um país, porque só podemos ser amigos de indivíduos.

Em 2011, em edição original em inglês, Hisham Matar publicou o segundo livro, Anatomia de um Desaparecimento (Ed. Civilização, 2012), mais uma vez inspirado no seu drama familiar
© newstatesman.com

Alguma vez considerou a possibilidade de regressar à Líbia ou vive receoso depois de escrever esta obra, espécie de “Democracia Agora” – o livro do pai Suleiman que este poupou de ser queimado numa fogueira? Sabemos que, pelo menos no passado, Kadhafi enviava os seus agentes para matarem opositores e activistas políticos no estrangeiro. Tem medo?

O que eu procurei criar não foi um argumento político. Não vejo a minha obra como “política”. Não me considero uma pessoa corajosa mas também não sou injustificadamente medroso.

Assinou um contrato com a Penguin para um segundo livro. Já o começou a escrever? A Líbia estará novamente presente?

Não falo sobre o que estou a escrever. É uma velha tradição e prefiro continuar a respeitá-la.

O que significou, para si, ter sido nomeado para o Man Booker Prize (em 2006), para The Guardian First Book Award e outros prémios?

A maioria dos prémios é uma espécie de circo, mas alguns circos podem deslumbrar até um adulto.

Até que ponto é que esta “celebridade” mudou a sua vida?

Até agora consegui evitar ser uma celebridade, e não tenho dúvidas de que continuarei a evitar sê-lo, com muito êxito.

[Em 2012, foi publicado em Portugal, também pela Editora Civilização, o livro de Hisham Matar: ‘Anatomia de um Desaparecimento’ onde a história do seu pai volta a ser parte do romance.

Ainda em 2012, depois da revolução que haveria de derrubar (e matar) Khadafi, o escritor regressou à Líbia à procura do seu pai ou do que lhe teria acontecido, e escreveu, para a revista The New Yorker, um artigo sobre como foi reencontrar a família, pela primeira vez desde 1979.]

Numa entrevista que deu ao programa ‘Fresh Air’, da National Public Radio (NPR), dos Estados Unidos, revelou que o seu “plano” era “falar com o maior número possível de pessoas que estiveram presas e que agora estavam envolvidas com o novo regime”.

No entanto, assim que Hisham Matar chegou, “ficou explicitamente claro” que o pai já não estava vivo, porque “todas as prisões tinham sido abertas e os presos políticos libertados e ele não era um deles”.

A questão passou a ser: “O que lhe aconteceu?”. Um dia, logo após a queda de Trípoli, Matar ficou a saber da existência de uma cela onde esteve “uma pessoa importante de Ajdabiya”, a terra-natal do seu pai.

Um dos prisioneiros tinha precisamente em sua posse uma fotografia do pai do escritor, mas depois de tantos anos em isolamento, sem ver a luz do dia, porque não tinha janelas, este homem perdera a memória e não sabia quem era o homem na foto em seu poder. 

Mais tarde, “algo de extraordinário aconteceu”, salientou Matar. “Tive a sensação, enquanto estava na Líbia, de que o meu pai me exortava a parar de querer saber dele. Sentia que ele me dizia: ‘Tens de pôr fim a isto’.”

Em 2017, Hisham Matar ganhou o prémio Pulitzer pela autobiografia ‘O Regresso: A terra entre mim e o meu pai, publicada em português em 2018 pela Ed. Presença, aclamada como “um dos mais notáveis livro de memórias”.]

Hisham Matar
© telegraph.co.uk

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

E “Condi” sobreviveu a George W.

Ao contrário de Rumsfeld, Rove e Gonzales, a poderosa secretária de Estado americana não sucumbiu aos críticos nem saiu de cena antes de 2009. Condoleezza Rice ficou até ao fim do mandato. Era essa a sua determinação mesmo que só restasse ela e o cão Barney. (Ler mais | Read more…)

Sobre Condoleezza Rice, escreveu Glenn Kessler, um dos seus jornalistas favoritos e que a acompanhou em muitas viagens como secretária de Estado: “É uma pessoa inteligente e sofisticada, com muito charme, graça e nervos de aço. Mas não é reflectiva, e raramente questiona se o seu juízo de valor ou o caminho por que enveredou são correctos” @Albert Watson | Fortune-CNN

Sobre Condoleezza Rice, escreveu o jornalista Glenn Kessler: “É uma pessoa inteligente e sofisticada, com muito charme, graça e nervos de aço. Mas não é reflectiva, e raramente questiona se o seu juízo de valor ou o caminho por que enveredou são correctos”
© Albert Watson | CNN

Dos tempos de segregação racial nos subúrbios do Alabama, onde nasceu, Condoleezza Rice guardou um ensinamento dos pais: “Poderás não conseguir comer um hambúrguer no Woolworth’s, mas podes vir a ser Presidente dos Estados Unidos” (Newsweek).

Há relativamente pouco tempo, essa era uma possibilidade que entusiasmava admiradores e adversários. Seria a chefe da diplomacia de Washington capaz de derrotar a senadora Hillary Clinton em eleições, e tornar-se na primeira mulher e primeira negra a exercer um cargo que sempre foi de homens e brancos?

A filha única do reverendo/reitor John Wesley e da professora de música Angelena continua a ser uma figura poderosa em Washington e no resto do mundo, mas uma biografia publicada este mês [Setembro de 2007], The Confidante – Condoleezza Rice and the Creation of Bush Legacy, de Glenn Kessler, jornalista do Washington Post, desfere um duro golpe à sua carreira e ambições políticas.

“Ela foi uma das mais fracas conselheiras de segurança nacional na história dos Estados Unidos”, diz o livro, curiosamente escrito com a ajuda de Condi, que inclui Kessler entre os seus repórteres favoritos com quem percorreu o globo.

“A sua inexperiência e os seus erros no cargo moldaram o mundo e mancharam as opções que ela tinha de fazer como secretária de Estado (…) A invasão do Iraque, a oportunidade perdida com o Irão, a fissura nas relações com a Europa, a fúria dos árabes perante o que entendiam como parcialidade [a favor de Israel] face aos palestinianos – todos estes problemas foram resultado directo das decisões que ela ajudou a tomar na Casa Branca”.

Condi- Photo 2

Com a mãe, Angelena Rice, que morreu de cancro de mama, em Agosto de 1985, aos 61 anos. Em Julho de 1989, o pai, John Wesley Rice, casou-se com Clara Bailey e a união manteve-se até ele morrer, em 2000

Numa conversa por e-mail, Kessler reconhece que Rice “tentou resolver os problemas que criou” durante o primeiro mandato de Bush, e que “tem os atributos para ser uma boa secretária de Estado, sobretudo o facto de estar próxima do Presidente”.

No entanto, acrescenta, “as suas escolhas e oportunidades continuaram limitadas pela performance como conselheira de segurança nacional.”

Quanto à expectativa de que a republicana Condoleezza Rice poderia disputar as presidenciais de 2008 com a democrata Hillary Clinton, Kessler desvalorizou-a: “Essa conversa não passou de uma criação dos conselheiros de media [da secretária de Estado], num esforço de a tentarem mostrar como uma líder forte”.

Para Kessler a estrelinha da sorte de Rice começou a empalidecer quando, na Cisjordânia e Faixa de Gaza, em 2006 o Hamas ganhou as eleições que ela insistiu em que fossem realizadas contrariando todas as advertências de que os islamistas poderiam sair vitoriosos sobre os nacionalistas da Fatah.

“Esse foi o ponto de viragem, e depois foi a guerra do Líbano [de Israel contra o Hebollah, no Verão de 2006], quando ficou claro que os acontecimentos se viravam contra os Estados Unidos.”

Condoleeza Rice stands in front of the White House as a girl.

Condoleezza Rice, em frente à Casa Branca, durante uma visita da família a Washington. Dos tempos de segregação racial no Alabama, onde nasceu, guardou um ensinamento dos pais: “Poderás não conseguir comer um hambúrguer no Woolworth’s, mas podes vir a ser Presidente dos Estados Unidos” (Newsweek).
© NPR

Outros reveses, segundo Kessler, foram o teste atómico norte-coreano, o programa de enriquecimento de urânio do Irão, o fracasso na criação de um Estado palestiniano e, “obviamente, o Iraque”.

Dos raros êxitos, o jornalista do WPost, premiado com dois Pulitzer colectivos, cita a gradual “melhoria dos laços com a Europa e o acordo nuclear com a Índia”, ainda que não consolidados.

O legado de Rice “vai demorar décadas a ser definido”, crê o biógrafo. “Ela não vai conseguir a paz, mas se os passos dados [ainda em funções] forem mais tarde considerados cruciais para o estabelecimento de um Estado palestiniano, então ela ficará melhor nos livros de História, apear de o Iraque ser sempre um borrão.”

Em todo o caso, Kessler não via [e acertou no prognóstico] Rice a deixar a Administração Bush, como fizeram o chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, o principal estratega político, Karl Rove, e o attorney-general (equivalente a ministro da Justiça), Alberto Gonzales. “Ela ficará até ao fim”, assegurou. “Será só ela e Barney (o cão)!”

A sombra de Condoleezza Rice na Sala Oval da Casa Branca enquanto George W. Bush fala ao telefone com outro líder mundial
© Christopher Morris VII

Sobre o futuro, a partir de 2009, Kessler convenceu-se de que Rice, sempre elegante nos seus tailleurs e sapatos italianos, iria regressar à Universidade de Stanford onde esteve quase duas décadas e foi provost (espécie de directora).

Não seria um retorno pacífico. O jornal dos alunos, Stanford Daily, recebia, no seu site, inúmeras mensagens a recomendar-lhe outro emprego.

“Condoleezza Rice serviu um governo que maltratou os valores académicos básicos: a razão, a ciência, o talento e a honestidade, e Stanford não a devia acolher de volta”, escreveu Don Ormstein, professor emérito de Matemática numa carta citada pelo New York Times. Outro internauta, identificado apenas como Jon Wu, sentenciou: “Não queremos ninguém a ensinar na nossa escola que seja responsável pelo massacre de uma nação”.

Embora a sua previsão fosse a do regresso da “princesa guerreira” a Stanford, Kessler admitiu que não seria permanente.

“Ela pode concorrer a governador da Califórnia ou então entrar na gestão desportiva, dirigindo uma grande equipa, tal como Bush fez antes de ser governador do Texas.”

Condi “é uma pessoa inteligente e sofisticada, com muito charme, graça e nervos de aço, mas não é reflectiva, e raramente questiona se o seu juízo de valor ou o caminho por que enveredou são correctos”, diz o seu biógrafo
© panorama.am

Em várias entrevistas, a própria secretária de Estado confessou que o futebol americano é a sua obsessão. Os domingos à tarde, “único momento de descanso”, continuam a ser ocupados a “ver jogos, depois de ir à missa”. Desde os 3 anos que se habituou a torcer pela sua equipa favorita, os Cleveland Browns.

Na festa de Acção de Graças, ela e o seu pai (falecido em 2004) também costumavam jogar no jardim da residência familiar o que ambos chamavam de Rice Bowl. Uma referência à Superbowl, a que ela assiste sempre desde a primeira, em 1967 – mesmo que isso implique acordar de madrugada ou ter de reprogramar encontros, quando está em visita ao estrangeiro.

Se o futebol é obsessão, herança de um pai que foi treinador de liceu, a ambição, confirma a própria Rice, é ser comissária (cargo de topo) da National Football League (NFL), a mais poderosa liga desportiva nos EUA, onde os clubes são como membros de uma cadeia de franchising.

“Se por alguma razão vou perder um jogo da NFL na televisão, tento gravá-lo”, contou à NBC a antiga patinadora artística e bailarina.

“Não me importo de os ver depois, mesmo conhecendo o resultado. Gosto de analisar os jogos da perspectiva da estratégia. Adoro, e realmente adoro, uma batalha defensiva, provavelmente mais do que jogos com muita pontuação”.

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Tal como o pai, que foi durante a sua vida treinador de basquetebol e futebol americano, Condi é uma adepta deste desporto e de outro. Em  2012, tornou-se a primeira de duas mulheres (a outra é a financeira Darla Moore) a ser admitida como membro do até então exclusivamente masculino Augusta National Golf Club
© Golf Magazine

O futebol (americano, não o europeu [soccer], que ela “não entende”) acaba por ser um “quebra-gelo” nas relações com os colegas de trabalho, apesar de o Presidente [George W. Bush] preferir o basebol.

Rice também se interessa por golfe. Começou a praticar e já reatou o contacto com um antigo aluno de Stanford, Tiger Woods.

De resto, à medida que se aproximava dos 53 anos de idade (a 14 de Novembro de 2007), todas as manhãs passa-as a fazer exercício físico, 40-45 minutos, no ginásio do Departamento de Estado, com um personal trainer que foi marine, ou em casa, onde tem uma bicicleta elíptica.

Sobre este ser prodigioso, a quem os pais deram, aos 15 anos, um piano Steinway quando ingressou na Universidade de Denver, onde concluiu, aos 19, uma licenciatura em Ciência Política, para mais tarde se tornar “reputada sovietóloga”, sem falar russo, diz-nos o biógrafo Kessler:

-“É uma pessoa inteligente e sofisticada, com muito charme, graça e nervos de aço. Mas não é reflectiva, e raramente questiona se o seu juízo de valor ou o caminho por que enveredou são correctos”.

Glenn Kessler, jornalista do jornal The Washington Post e autor da biografia The Confidante : Condoleezza Rice and the Creations of Bush © Legacybrownalumnimagazine.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Setembro de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 2007