A Líbia de Hisham Matar

Em Terra de Homens, nomeado para o Man Booker Prize de 2006, não é uma autobiografia, garante quem o escreveu. Mas o passado de Hisham Matar confunde-se com o de Suleiman el-Diuani, dois líbios forçados ao exílio por um regime brutal quando tinham apenas 9 anos. Uma estreia literária brilhante. (Ler mais | Read more…) 

O primeiro livro de Hisham Matar demorou cinco anos a concluir, e a “obsessão” por a escrever levou o seu autor a abandonar a profissão de arquitecto. Para sobreviver, HM fez várias tarefas, de pedreiro a encadernador. Quando a Penguin concordou assinar um contrato de publicação, ele já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à sua mulher. @TIM FRASER | National Post

O primeiro livro de Hisham Matar demorou cinco anos a concluir. O autor estava tão “obcecado” com a escrita que desistiu de ser arquitecto. Para sobreviver, fez várias tarefas. Quando assinou um contrato com a Penguin,  já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à sua mulher
© Tim Fraser | National Post

Diz-se em Teerão que o Ayatollah Khomeini nunca leu OVersículos Satânicos apesar de ter emitido uma fatwa (édito) para condenar à morte Salman Rushdie, o escritor britânico de origem indiana, acusado de “apostasia por ofensa ao Islão”. Em Trípoli, provavelmente, Muammar Kadhafi também recusou pôr os olhos no primeiro e aclamado livro de Hisham Matar (HM), Em Terra de Homens (Ed. Civilização) – um libelo contra o seu regime.

É possível que tenha sentido vontade de ordenar o assassínio do filho de um dos seus maiores opositores, mas talvez se limitasse a mandar queimar os exemplares que alguém se atreva a introduzir no país. Afinal, o coronel líbio é agora um ditador reabilitado pela “comunidade internacional”.

Fogueiras de livros proibidos eram frequentes em 1979, quando HM e o seu protagonista, Suleiman el-Diuani, deixaram a Líbia para se refugiarem no Cairo, porque os seus pais eram perseguidos por “comités revolucionários” que os consideravam “burgueses” e “traidores”.

Uma das passagens mais dramáticas e comoventes da obra com que HM entrou na lista dos nomeados ao Man Booker Prize de 2006 é quando a mãe de Suleiman, depois de ver na televisão o seu vizinho Ustad Rachid ser interrogado por “vozes sem rosto” da polícia secreta, vai buscar os livros do marido para os queimar, e coloca um gigante retrato de Kadhafi na parede da sala.

Ao contrário do que possa parecer, todavia, a história de Suleiman el-Diuani não é um romance político mas uma história de amor, que sobrevive a tudo. Demorou cinco anos a concluir, e a “obsessão” por a escrever levou o seu autor a abandonar a profissão de arquitecto. Para sobreviver, Hisham Matar fez várias tarefas, de pedreiro a encadernador.

Quando a Penguin concordou assinar um contrato de publicação, Hisham Matar já não tinha dinheiro para pagar a renda, nem sequer crédito no telemóvel para dar a boa notícia à mulher.

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Jaballa Matar, o pai de Hisham Matar, quando era um jovem oficial do Exército Real Líbio, antes de Muammar Khadafi destronar o Rei Idris I, no início dos anos 1950.
© Hisham Matar | The New Yorker

A infância de Hisham Matar e a de Suleiman têm tantas semelhanças que é difícil acreditar na repetida garantia do primeiro de que não escreveu a autobiografia, embora Hisham Matar reconheça que o seu passado omnipresente o inspirou.

Em Terra de Homens, diz-nos, em entrevista, o escritor nascido em Nova Iorque (quando o pai era diplomata na missão líbia junto da ONU) e agora a residir em Londres, é só “fruto da imaginação”.

Começou como um poema que “acabou na cena em que Suleiman apanha amoras”. Como a estrutura do poema o limitava, Matar decidiu transmudá-la em prosa.

Assim surgiu uma obra “fascinante”, “extraordinária”, “notável”, “poderosa” – os adjectivos dos críticos são inúmeros –, nomeada não só para o Man Booker Prize mas também para as listas do The Guardian First Book Award, The Index on Censorship Expression Award e The Best First Book in the Commonwealth Writers Award.

Em Terra de Homens tem como pano de fundo a Líbia de Kadhafi, o “Guia” que derrubou a monarquia de Idris I, para instaurar o seu próprio reino de terror.

Suleiman tem 9 anos quando a mãe, a bela e instável Najua, e o pai, o austero Faraje, carinhosamente tratado por Baba, o colocam num avião para que se possa refugiar no Egipto do amigo Mussa, em parte para escapar ao serviço militar obrigatório, a partir dos 14 anos, que o levaria para a guerra no vizinho Chade.

O pai de Suleiman é um homem de negócios, activista político empenhado em derrubar o regime. Não resiste à tortura e denuncia os companheiros da conjura, o que faz dele um traidor. Durante a sua ausência, em actividades clandestinas, a mãe “adoece” sempre, depois de beber um “remédio” comprado às escondidas ao padeiro.

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Outra foto de Jaballa Matar. O pai de Hisham foi incluído numa lista de “pessoas a interrogar”, primeiro apenas por ser “rico, culto e viajado”, depois por se ter tornado dissidente activo
© Hisham Matar | The New Yorker

Na sua divagação alcoólica, confidencia ao filho como foi obrigada a casar aos 14 anos com um homem o dobro da sua idade e as tentativas para abortar. Sóbria, pede a Suleiman, o seu “príncipe”, que lhe perdoe e não repita nada do que ouviu. O menino vai acumulando segredos num ambiente cada vez mais claustrofóbico – em casa, no bairro, no país.

Também Suleiman acabará por se tornar um “traidor” e um “tirano” quando humilha publicamente o melhor amigo, Karim, agride sem remorsos o indefeso mendigo Balu e tenta entregar ao espião que persegue o seu pai – julgando ingenuamente poder salvá-lo – o único livro que ele, indignado, poupara da fogueira: “Democracia Agora”.

Hisham Matar diz-nos que se sentiu “compelido pela voz” de Suleiman a escrever Em Terra de Homens. O resultado é uma narrativa brilhante, enganadoramente simples, das mais complexas situações em que o protagonista se envolve e que agarra o leitor do princípio ao fim de 272 páginas. Não é fácil pôr uma criança a relatar o absurdo e o horror, mas HM torna tudo verosímil.

Afinal, a história de Hisham Matar é muito parecida com a de Suleiman. Também o seu pai, Jaballa Matar, foi incluído numa lista de “pessoas a interrogar”, primeiro apenas por ser “rico, culto e viajado”, depois por se ter tornado num dissidente activo. Também a sua família se exilou no Cairo e o seu irmão, Ziad, fugiu à guerra no Chade.

Em 1990, os serviços secretos egípcios raptaram Jaballa e entregaram-no aos líbios. Foi ele próprio quem fez esta revelação à mulher, em duas cartas que conseguiu fazer sair da sua cela, na prisão de Abu Salim, em Trípoli – a primeira enviada em 1992 (ainda que só chegasse em 1993) e a última em 1995. Nunca mais ninguém soube nada dele.

Em 28 de Julho de 1996, as autoridades líbias mataram 1300 prisioneiros políticos em Abu Salim. O mundo apenas teve conhecimento deste massacre em 2002. Desde então, Hisham Matar vem reclamando justiça para o seu pai. “Se ele está vivo, quero falar com ele e vê-lo. Se ele violou a lei, deve ser julgado e ter oportunidade de se defender. E se ele está morto, então quero saber como, onde e quando isso aconteceu. Quero uma data, um relatório detalhado e a localização do seu corpo”, escreveu num artigo publicado pelo diário britânico The Independent.

Entrevista com o escritor a quem Khadafi roubou o pai

Hisham Matar © Diana Matar | www.writerscentrenorwich.org.uk/

Hisham Matar
© Diana Matar | http://www.writerscentrenorwich.org.uk/

O livro Em Terra de Homens é a brilhante estreia literária de Hisham Matar, líbio nascido em Nova Iorque e exilado em Londres. O escritor diz que não se sente corajoso ou “injustificadamente medroso”. O seu pai, um dissidente, desapareceu em 1990 e a família nunca mais o viu.

Suleiman não compreende por que a mãe “adoece” sempre que toma um “remédio” na ausência do pai. Não compreende por que, nos devaneios alcoólicos, ela lhe conta como foi obrigada a casar adolescente e fez tudo para abortar do seu “príncipe”. Não compreende por que os adultos sussurram à sua volta e lhe imploram que guarde segredos.

Não compreende por que são queimados livros, a casa e o bairro vigiados por “agentes revolucionários”, e na sala é colocado um gigante retrato do excêntrico coronel Muammar Kadhafi. Não compreende por que o pai, homem de negócios, se esconde no quarto, desfigurado pela tortura, depois de o melhor vizinho ter sido interrogado e executado, em directo pela televisão. Em 1979, Suleiman tem 9 anos quando deixa Trípoli para se refugiar no Cairo.

Aos 24 anos, classificado pelo regime do “Guia” como “um cão perdido”, encontra algumas respostas para o que antes não entendia. Há muito de Suleiman el-Diuani em Hisham Matar – exilados e filhos de dissidentes políticos –, mas o autor de Em Terra de Homens, nomeado para o Man Booker Prize de 2006 e outros prémios, assegura que não há nada de autobiográfico nesta “obra da imaginação”.

O escritor, líbio nascido em Nova Iorque e agora exilado em Londres, confessa-se deslumbrado, mas confiante de que terá “êxito no esforço de não ser uma celebridade”. A entrevista foi feita por e-mail.

Em Março de 2012, no regresso à Líbia, pós-Khadafi, Diana Matar e o seu marido, Hisham, fizeram uma viagem pelo país à procura da família perdida. O escritor encontrou o seu Hisham (left) with his uncle Mahmoud, a political prisoner for twenty-one years. They hadn’t seen each other since 1979. @The New Yorker

Em Março de 2012, no regresso à Líbia, pós-Khadafi, Diana Matar e o marido, Hisham, fizeram uma viagem pelo país à procura da família perdida. O escritor encontrou o seu tio Mahmoud (ambos na foto), um antigo prisioneiro político – esteve na cadeia 21 anos. Os dois homens não se viam desde 1979
© The New Yorker

Para escrever Em Terra de Homens, segundo revelou ao Guardian, o senhor desistiu de ser arquitecto, fez várias tarefas (de pedreiro a encadernador) e até enfrentou graves problemas financeiros. Pode explicar este processo de criação, que demorou cinco anos a concluir?

Sim, numa das primeiras entrevistas que dei, mencionei inadvertidamente que durante os anos que levei a escrever Em Terra de Homens enfrentei algumas das mais árduas dificuldades financeiras. Agora, lamento a minha ingenuidade. Revelar informações de carácter tão pessoal não é apenas indiscreto mas pode parecer que andei a mendigar para escrever. Em Terra de Homens não é melhor nem pior pela infelicidade ou boa sorte por que o autor tenha passado.

Insiste, frequentemente, em que Suleiman, o protagonista, não é um retrato seu. Que Em Terra de Homens não é uma autobiografia. No entanto, há tantas semelhanças: rapazes que deixaram a Líbia aos 9 anos e nunca mais regressaram, um pai que era dissidente político, uma mãe que faz tudo para salvar a família… Poderemos, pelo menos, afirmar que é ficção com notas autobiográficas?

Os romances são obras de imaginação. Lê-los com essa intenção tão literal estreita e limita o nosso compromisso com eles.

Este livro chama-se Em Terra de Homens mas os principais personagens são uma mãe e o seu filho. Porquê este título? E por que decidiu centrar a obra nesta relação particular?

O título é irónico. O livro centra-se sobretudo em duas personagens – um rapaz e uma mulher – cujas vidas são moldadas pelas acções dos homens que os rodeiam.

É verdade que a parte mais difícil de escrever foi aquela em que o pai de Suleiman regressa a casa depois de ter sido torturado? Porque evoca a situação do seu próprio pai?

Não se tem passado um dia desde o desaparecimento do meu pai que eu não pense nele. Por isso, ao descrever esta intimidade entre um pai e um filho ela volta ternamente à minha mente.

Podemos ler esta obra como um tributo ao seu pai e/ou com um libelo contra o regime de Muammar Kadhafi?

O livro é independente; não fala em nome de nada nem de ninguém.

No New York Times escreveu um artigo em que critica os Estados Unidos (e os aliados britânicos) por terem perdido a oportunidade de fazerem do julgamento e libertação de centenas de prisioneiros políticos nas cadeias líbias condições prévias ao estabelecimento de relações diplomáticas com Trípoli. É tarde de mais para pressionar a ditadura de Kadhafi?

A democracia é mais uma responsabilidade do que um luxo. Não se pode culpar um povo pelas acções do seu ditador, mas somos todos responsáveis pelas acções dos nossos dirigentes eleitos. E se esses dirigentes estão, efectivamente, a conspirar com uma ditadura contra os princípios dos direitos humanos e do estado de direito, é certo que esses dirigentes eleitos estão a trair os valores que o ou a levaram ao poder.

Se há hipocrisia nas relações entre o Ocidente e Kadhafi, também causa perplexidade o facto de o senhor não criticar o regime de Hosni Mubarak [obrigado a ceder o poder, em Fevereiro de 2011, após uma revolta popular] quando sabe que foram os serviços secretos egípcios que o raptaram e entregaram a espiões líbios. O senhor e Suleiman, o seu protagonista, falam com afeição do Cairo. Alexandria foi até escolhida como cenário da última cena de Em Terra de Homens. Porquê?

Tenho frequentemente mencionado o papel do Governo egípcio no sequestro ilegal e subsequente prisão do meu pai. Não é de todo verdade dizer que não tenho sido crítico. Quanto à natureza da relação de Suleiman com o Egipto, tudo o que sei sobre ele está no livro. Confundi-lo comigo não ilumina nada, apenas nos torna a ambos obscuros. Quanto a mim, não me lembro de alguma vez ter falado de maneira amigável ou hostil sobre qualquer país. Não podemos dizer que somos amigos ou inimigos de um país, porque só podemos ser amigos de indivíduos.

Em 2011, em edição original em inglês, Hisham Matar publicou o seu segundo livro, Anatomia de um Desaparecimento (Ed. Civilização, 2012) @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 2011, em edição original em inglês, Hisham Matar publicou o segundo livro, Anatomia de um Desaparecimento (Ed. Civilização, 2012), mais uma vez inspirado no seu drama familiar
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Alguma vez considerou a possibilidade de regressar à Líbia ou vive receoso depois de escrever esta obra, espécie de “Democracia Agora” – o livro do pai Suleiman que este poupou de ser queimado numa fogueira? Sabemos que, pelo menos no passado, Kadhafi enviava os seus agentes para matarem opositores e activistas políticos no estrangeiro. Tem medo? [Hisham Matar regressou à Líbia em 2012, à procura do seu pai, e escreveu, para a revista The New Yorker, um artigo sobre como foi reencontrar a família, pela primeira vez desde 1979.]

O que eu procurei criar não foi um argumento político. Não vejo a minha obra como “política”. Não me considero uma pessoa corajosa mas também não sou injustificadamente medroso.

Assinou um contrato com a Penguin para um segundo livro. Já o começou a escrever? A Líbia estará novamente presente?

Não falo sobre o que estou a escrever. É uma velha tradição e prefiro continuar a respeitá-la.

O que significou, para si, ter sido nomeado para o Man Booker Prize (em 2006), para The Guardian First Book Award e outros prémios?

A maioria dos prémios é uma espécie de circo, mas alguns circos podem deslumbrar até um adulto.

Até que ponto é que esta “celebridade” mudou a sua vida?

Até agora consegui evitar ser uma celebridade, e não tenho dúvidas de que continuarei a evitar sê-lo, com muito êxito.

[Em 2012, foi publicado em Portugal, também pela Editora Civilização, o livro mais recente de Hisham Matar: ‘Anatomia de um Desaparecimento’ onde a história do seu pai volta a ser parte do romance. Ainda em 2012, depois da revolução que haveria de derrubar (e matar) Khadafi, o escritor regressou à Líbia à procura do seu pai ou do que lhe teria acontecido. Numa entrevista que deu ao programa ‘Fresh Air’, da National Public Radio (NPR), dos Estados Unidos, revelou que o seu “plano” era “falar com o maior número possível de pessoas que estiveram presas e que agora estavam envolvidas com o novo regime”.

No entanto, assim que Hisham Matar chegou, “ficou explicitamente claro” que o pai já não estava vivo, porque “todas as prisões tinham sido abertas e os presos políticos libertados e ele não era um deles”. A questão passou a ser: “O que lhe aconteceu?”. Um dia, logo após a queda de Trípoli, Matar ficou a saber da existência de uma cela onde esteve “uma pessoa importante de Ajdabiya”, a terra-natal do seu pai. Um dos prisioneiros tinha precisamente em sua posse uma fotografia do pai do escritor, mas depois de tantos anos em isolamento, sem ver a luz do dia, porque não tinha janelas, este homem perdera a memória e não sabia quem era o homem na foto em seu poder. Mais tarde, “algo de extraordinário aconteceu”, salientou Matar. “Tive a sensação, enquanto estava na Líbia, de que o meu pai me exortava a parar de querer saber dele. Sentia que ele me dizia: ‘Tens de pôr fim a isto’.” ]

livro 1

livro 2

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

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