Como mudar o mundo poupando cinco cêntimos

A partir de uma poupança diária de alguns cêntimos em mealheiros de bambu, a monja budista Cheng Yen fundou, em Taiwan, uma rede de assistência internacional de cinco milhões de membros e voluntários. Já foi nomeada para o Nobel da Paz e proclamada uma das “50 estrelas da Ásia”. (Ler mais | Read more…)

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Cheng Yen, que à nascença recebeu o nome de Wang Chin-yun, é a “alma” de uma fundação com 5 milhões de voluntários e 30 mil membros em 62 países. Os seus “anjos da guarda”socorrem diversos países, como São Tomé e Príncipe, por exemplo
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O tempo de vida de uma pessoa é medido pelas coisas boas que fez

(Cheng Yen)

Wu Chi Chung caminha em passos rápidos, quase aos saltinhos, de uniforme azul-cinzento e um saco atado a um dos pulsos onde guarda os sapatos. No templo Tzu Chi, na ídilica cidade de Hualien, em Taiwan, é obrigatório andar de meias ou pés descalços, e ela cumpre escrupulosamente as regras. Há 14 anos que trabalha para uma mulher muito especial e, no seu inglês rudimentar, irá contar aos visitantes uma história fabulosa.

É a história de Cheng Yen, 70 anos festejados este mês [Maio de 2007], monja budista cuja saúde débil nunca permitiu que deixasse a ilha onde nasceu mas que, actualmente, dirige uma fundação com cinco milhões de voluntários e 30 mil membros espalhados por 62 países.

Os seus “anjos da guarda”, a maioria pagando despesas do próprio bolso, chegam a todo o lado. Tanto socorrem vítimas de sida na África do Sul como desalojados por um furacão em Nova Orleães.

Deste esforço de ajuda internacional resultou a construção de casas, escolas, clínicas, e até a criação do maior banco de dadores (300 mil inscritos em 2006) de medula óssea da Ásia e o terceiro maior do mundo.

Olhando para um retrato na parede do museu, adjacente ao Hospital Tzu Chi, em Hualien, Wu aponta para os rostos sorridentes de uma jovem e de um menino. Ela é taiwanesa e ele é norte-americano.

Uma transfusão de sangue salvou-o de morrer de leucemia, e ambos celebram a vida. “Isto prova que somos todos iguais mesmo que continentes nos separem”, exulta Wu.

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Em Taipé, capital de Taiwan, Yin Chu, um dos mais respeitados mestre Dharma (na foto) abençoou e orientou a sua discípula até morrer, com 102 anos. Foi ele que lhe deu um novo nome: Cheng Yen.
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Cheng Yen, a “Mestre Dharma” que Wu tanto venera, era uma simples rapariga de Ching-shui, pequena localidade no centro de Taiwan. À nascença chamaram-lhe Wang Chin-yun.

Quando o pai morreu, de hemorragia cerebral, ela culpou-se por não ter sabido cuidar dele. Incapaz de superar a perda, deixou a casa materna e, em 1961, foi procurar refúgio num templo abandonado na costa oriental, que naquele tempo era uma região remota e pouco desenvolvida.

Uma monja budista, Hsiu Tao, acompanhou Wang, e ambas decidiram não aceitar donativos da comunidade local, vivendo das plantas, frutos e batata-doce que colhiam.

Mais tarde, conheceram um monge, Hsu Tsung-ming, e os três tornaram-se grandes amigos. Em 1962, Wang decidiu tornar-se monja e, num gesto muito pouco tradicional, salienta a biografia oficial, rapou ela própria o seu cabelo, sem ter antes encontrado um mentor, como estipulam os preceitos do Budismo.

Em Fevereiro de 1963, Wang deslocou-se a Taipé, para um “noviciado” de 32 dias, de modo a ser aceite formalmente como monja. Na capital taiwanesa recebeu a bênção de um dos mais respeitados mestres de Dharma, Yin Shu, que fez dela discípula, orientando-a até à sua morte recente, com 102 anos. Foi ele que lhe deu um novo nome: Cheng Yen.

Quando Cheng regressou a Hualien, o monge Hsu tinha construído uma pequena cabana de madeira nas traseiras do templo de Pu Ming. As condições mantinham-se, porém, adversas.

Passavam frio e fome, mas continuavam a recusar esmolas dos aldeões porque viam que também eles eram pobres. O lema que seguiam era: “Se não trabalhas não comes”. Ainda hoje permanece válido.

Para sobreviverem, Cheng e o seu grupo plantavam vegetais e dedicavam-se à costura de camisolas, sacos para rações e botas de lã para crianças. Com o dinheiro do que vendiam conseguiam satisfazer as necessidades básicas de “manter o corpo quente e o estômago cheio”

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Membros norte-americanos da Tzu Chi fazem uma oração colectiva, em Nova Orleães (EUA), de homenagem aos voluntários da fundação
© Angela Chu

Cheng tornou-se numa especialista em escrituras budistas, mas achava que tanto saber espiritual de nada serviria se não o conseguisse pôr em prática. Explica Wu Chi Chung: “A mestre seguiu vários passos. Viu que havia pobreza e dedicou-se à caridade. Depois viu que as doenças alimentavam a pobreza e decidiu formar médicos e enfermeiros. Depois olhou à sua volta e viu que o sofrimento estava em toda a parte e então dedicou-se à assistência humanitária”.

As quatro missões a que Wu se refere – “caridade, medicina, educação e cultura” – começaram a ganhar forma, em 1966, depois de uma visita de Cheng Yen a um hospital na localidade de Fenglin. A monja impressionou-se com uma mulher a esvair-se em sangue  por quem muitos passavam e ninguém parava para ajudar.

Disseram-lhe que era uma aborígene e que sofrera um aborto. Sem posses descera as montanhas onde vivia, durante oito horas, a pé, apoiada em familiares. O hospital recusou-se a interná-la por ela não ter dinheiro para pagar uma caução.

Cheng ficou chocada sem saber o que fazer, mas rapidamente concluiu que não era suficiente rezar a Buda dia e noite. Em 1966, a mestre tinha cerca de 30 seguidores, a maioria donas de casa.

Lembrou-se, um dia, de lhes pedir que poupassem o equivalente a 50 cêntimos taiwaneses (20 cêntimos de dólar dos EUA) que depositariam em mealheiros de bambu, feitos e distribuídos por ela, antes de cada ida ao mercado.

As mulheres interrogaram-se da utilidade de poupar 50 cêntimos/dia em vez de 15 dólares taiwaneses por mês. “Não é o mesmo”, terá dito Cheng Yen. “Se só pouparem uma vez por mês só demonstram compaixão uma vez por mês. Mesmo que os 50 cêntimos poupados diariamente não sejam de grande valor, com eles estarão a acumular o espírito de ajuda e de amor aos outros todos os dias” (Ten Thousands Lotus Blossoms of the Heart, Dharma Master Cheng Yen and the Tzu Chi World).

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Em 1962, Wang Chin-yun (mais tarde Wang Cheng Yen) decidiu tornar-se monja. Num gesto pouco tradicional, rapou ela própria o cabelo, sem ter antes encontrado um mentor, como estipulam os preceitos do Budismo
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A palavra de ordem “50 cêntimos salvam pessoas” rapidamente se espalhou por Hualien, e mais gente ia aderindo ao projecto. No dia 24 de Março de 1966, foi oficialmente inaugurada a Fundação Budista de Compaixão e Auxílio Tzu Chi. Em 1969 já eram inúmeros os dadores e os receptores de ajuda.

O templo de Pu Ming tornou-se pequeno para acomodar todos. A mãe de Cheng Yen contribuiu financeiramente para comprar um lote de terreno onde foi construída a Residência do Pensamento Tranquilo (Abode of Still Thoughts). O custo total da obra excedeu o orçamento original e foi preciso um empréstimo bancário.

Para pagar a hipoteca, as monjas do novo templo dedicaram-se a múltiplas tarefas, como a produção e comercialização de velas. Nem um só tostão dos donativos foi usado para liquidar as dívidas. “As pessoas confiam na mestra, sabem que lhe podem dar o seu dinheiro porque ele não será mal gasto”, sublinha Wu Chi Chung.

Com contribuintes generosos, a Fundação Tzu Chi tornou-se quase um estado dentro do Estado. Tem hospitais em várias regiões de Taiwan – revolucionou por completo o sistema de saúde da ilha, acolhendo pacientes de vários países, para cuidados paliativos ou complicadas cirurgias.

Tem uma faculdade de Medicina e escolas de Enfermagem. Possui até emissoras de rádio e redes de televisão por satélite, sendo um dos maiores accionistas da maior estação de TV na Tailândia.

Templo e Hospital de Tzu Chi, na idílica cidade taiwanesa de Hualien: um projecto que começou com uma poupança diária equivalente a 50 cêntimos @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Templo e Hospital de Tzu Chi, na cidade taiwanesa de Hualien: um projecto que começou com uma poupança diária de 50 cêntimos
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A partir da Residência do Pensamento Tranquilo, que se transformou em lar espiritual para membros e voluntários, é coordenada, todas as manhãs, a assistência a mais de um milhão de pessoas pelo mundo fora. Cheng Yen mantém a sua vida austera, apesar dos problemas cardíacos que a impedem de viajar. Dá palestras a que acorrem centenas de ouvintes mas continua a cultivar o que come.

Além da assistência financeira aos mais pobres e aos doentes, a fundação participa também em operações de auxílio em zonas de desastre, da Malásia a El Salvador, do Irão à antiga colónia portuguesa de São Tomé e Princípe – único país do mundo que trocou o reconhecimento diplomático por parte da República. Popular da China pelo da República China (ROC, sigla inglesa), mais conhecida por Taiwan.

Outra área de acção é a preservação do ambiente. Os fiéis de Cheng Yen foram ensinados a privilegiar o consumo de bens de agricultura biológica e a usar materiais recicláveis – eles levam os seus copos, pratos e talheres para os restaurantes, evitando o que é descartável. E são muitos os que participam em campanhas de limpeza para “transformar o lixo em ouro”.

Em 1995 bateram um recorde com a recolha de 18,3 milhões de quilos de papel, o que significou preservar 366 mil árvores.

Wu Chi Chung assegura que, apesar desta ajuda “directa, sem intermediários, olhos nos olhos” nada é feito para forçar a conversão ao Budismo. Ela própria só há pouco tempo aderiu à religião da mestre. Não porque fosse obrigada, mas porque sentiu “um vazio” depois de perder o seu segundo filho.

O reitor de uma escola Tzu Chi pode ser um cristão, exemplifica. O responsável pelo centro de voluntariado na Turquia é um muçulmano, adianta Wu, frisando: “À mestre só interessa que eles sejam competentes e compassivos”.

Por ser como uma luz que ilumina na escuridão, Cheng Yen já foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, em 1996. E, em 2000, a revista Business Week classificou-a como uma das “50 estrelas da Ásia”.

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A jornalista viajou a convite do Centro Económico e Cultural de Taipé em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007  | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007
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