Play it again Sami!

Desde a egípcia Umm Kulthum que o mundo islâmico não “idolatrava” um artista como Sami Yusuf. As baladas religiosas e políticas deste muçulmano britânico atraem fãs em delírio, inebriados com a fusão entre “Ocidente e Oriente”, tradição e modernidade. Os seus discos, de louvor a Deus e condenação dos que matam invocando-O, são vendidos às dezenas de milhões. (Ler mais | Read more…)

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A revista TIME não hesitou em chamar-lhe “a maior estrela rock do Islão”, capaz de provocar nas multidões que acorrem aos seus concertos êxtase do tipo Beatlemania. Sami Yusuf, 27 anos, cantor e compositor de uma singular boy’s band, aceita a etiqueta de artista pop, adoraria fazer duetos com Bono ou Sting, e até aspira a ganhar um prémio MTV ou um Grammy. O que o distingue, no firmamento do show business, é a música e lírica impregnadas de amor a Deus e de mensagens políticas.

Ao mesmo tempo que glorifica Alá, Sami Yusuf insurge-se contra os rebeldes islamistas tchetchenos que mataram crianças em Beslan; condena os suicidas que se fizeram explodir em Londres; angaria fundos para o Darfur, região do Sudão, onde um regime árabe é acusado do genocídio de populações africanas.

E também critica o Governo francês por proibir nas escolas o uso do hijab, lenço que cobre a cabeça da sua mulher, Maryam, alemã da cristã Baviera que se converteu ao Islão muito antes de ambos se casarem, em 2006.

Sami Yusuf, um “orgulhoso muçulmano britânico”, nasceu em Teerão, em Julho de 1980, de uma família de origem azeri, que o levou para o Reino Unido tinha ele três anos. Reside agora em Stockport.

Os avós haviam deixado Baku para o império qajar-turco na Pérsia, quando a República Democrática do Azerbaijão se rendeu aos bolcheviques soviéticos nos anos 1920.

Habituado a um lar onde se toca alaúde após o jantar, Sami aprendeu as primeiras notas com o pai, poeta e músico, que via nele “um talento especial”.

Em 2003, quando lançou o seu primeiro disco, Al-Mu’allim (“O Professor” – homenagem a Maomé, profeta do Islão), o jovem estava longe de imaginar que iria vender milhões de exemplares, na Europa, Ásia e Médio Oriente. E, em reinos da pirataria, como o Egipto ou o Paquistão, quando se diz milhões, diz-se dezenas de milhões de cópias.

Uma das canções do segundo álbum, Hasbi Rabbi (“O meu Deus é suficiente”), tornou-se no toque de telemóvel mais ouvido da Bósnia-Herzegovina ao Golfo Pérsico. O vídeo deste single é também o mais pedido nos programas musicais televisivos do mundo árabe e islâmico.

Uma entrevista do artista à Al Jazeera foi vista por milhões de admiradores que inundaram a estação com telefonemas e e-mails. São igualmente milhões os que acedem ao site oficial.

O estrondoso êxito surpreendeu Sami Yusuf, cujo objectivo original, ao criar com alguns amigos que o dissuadiram de seguir Direito a editora Awakening, era ser uma “fonte de inspiração” apenas para a comunidade muçulmana britânica.

A modéstia impedia-o de sonhar mais do que tentar encorajar, através da música, os irmãos de fé compatriotas a serem tolerantes e a renegarem os extremistas que “sequestraram a religião”.

Em Istambul, por exemplo, Sami estava à espera que umas 50 mil pessoas assistissem ao seu concerto.

Apareceram cerca de 200 mil, jovens e idosos, e a isso talvez não seja estranho o facto de ele cantar em turco. E em farsi, e em árabe, e em urdu, além do inglês. Também deve contar a mistura de instrumentos, ocidentais e orientais – ele sabe tocar nove: violino, piano, daff, dutoof, kattar, santoo, taab, tabla, tombak.

As pessoas confessam-se maravilhadas com a fusão das baladas nashid, canções místicas, com o hip-hop e a música clássica – Sami adora Beethoven e Chopin, e chegou a frequentar a Royal Academy of Music, de Londres.

Tinha 18 anos e uma bolsa de estudos. Desistiu ao fim de oito meses, segundo explicou, por não se adaptar a uma “escola muito virada para uma elite branca”.

A imagem cool que Sami passa de si próprio também contribui para o seu enorme sucesso. Ele usa barba como “é dever” dos devotos muçulmanos, mas bem aparada e a fazer realçar um sorriso luminoso.

O cabelo tem uma crista de gel, e o corpo elegante despe-se da galabeya (túnica) para envergar fatos sem gravata ou jeans e blusão de cabedal.

À sua vasta audiência ele prova que é possível combinar tradição e modernidade. Que é possível aderir à última moda e rezar cinco vezes por dia.

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Deixemos então falar Sami Yusuf, que não quer ser classificado de pregador ou famoso sex symbol:

Precisamos de mudar e começar a integrar-nos. Quando vivemos num país, digamos a Grã-Bretanha, beneficiamos dos direitos que aqui existem. Se não gostamos disso, devemos ir embora. Trata-se de ser construtivo e não destrutivo. (The Irish Times)

A razão por que amo tanto a Inglaterra, além de ser a minha casa, é pelos valores universais da diversidade e respeito pelos outros, independentemente da raça ou da fé. Sou livre de pensar, algo que muitos muçulmanos a viver nos países muçulmanos não se permitem fazer. Um dos problemas que temos no mundo muçulmano é que os jovens têm medo de pensar, medo que o pensamento os leve a duvidar da religião. (Egypt Today)

Meca e Medina são lugares sagrados para os muçulmanos. A Arábia Saudita não é. Eles [sauditas] não representam os muçulmanos. Quanto aos Abu Hamza [um extremista islâmico que o Reino Unido expulsou] deste mundo também não nos representam. Eles podem ir para onde vieram, muito francamente. Estou farto desses tipos feios – e eles são mesmo feios, tenho medo desse tipo do gancho –, quem é ele, afinal? Raramente me encontro com gente como essa. Com franqueza, eles assustam-me. (The Guardian)

Não temos suficientes celebridades islâmicas que deixem orgulhosa a minoria de muçulmanos no Ocidente. No tempo do meu pai havia Cat Stevens [que se tornou Yusuf Islam após a conversão], Malcom X e Muhammad Ali. Agora, a maior parte das pessoas pensa: Islão, Ah, Osama bin Laden. Há jovens que se sentem confusos e podem ficar desiludidos. (Reuters)

Uma coisa é certa, até Sami Yusuf aparecer, e desde que a grande diva egípcia Umm Kulthum morreu em 1975 (ao seu funeral assistiram mais de quatro milhões de pessoas, segundo estimativas oficiais – mais do que às exéquias do “pai” do pan-arabismo, o Presidente Gamal Abdel Nasser), que o mundo islâmico não “idolatrava” assim um artista. O fenómeno irrita muito os teólogos radicais que defendem a interdição da música como haram (pecaminosa).

Indiferentes à controvérsia, e no final dos espectáculos, os fãs aplaudem e imploram: Play it again, Sami!

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 20 de Novembro de 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 20, 2007

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