O Saddam Hussein de Oliver Stone

Já fez de pirata do ar palestiniano e de combatente do Hezbollah. Foi jihadista afegão em The Iron Man e, em “W”, incarnou o ex-ditador iraquiano. Sayed Badreya, cidadão americano nascido no Egipto, tem uma carreira cheia de papéis de terrorista. “Sou um actor”, justifica-se. “Brando foi nazi, Al Pacino criminoso e De Niro mafioso”. (Ler mais | Read more…)

Sayed Badreya como Saddam Hussein em “W”, de Oliver Stone
© sayedbadreya.com

Sayed Badreya acaba de morrer numa prisão do México como presumível serial-killer em Backyard, de Carlos Carrera. Mas, porque é bom quando faz de mau, foi convidado para dar vida ao defunto ditador Saddam Hussein em W, filme de Oliver Stone sobre George Bush.

Havia expectativas de que este papel permitiria compor o vilão mais famoso da carreira deste actor egípcio-americano cujo sonho de uma infância de miséria – ser estrela de cinema – parecia tão impossível de realizar como a paz israelo-árabe.

A história do serial killer baseada em factos verídicos e dirigida pelo mexicano que realizou El Crimen del Padre Amaro (nomeado para um Óscar em 2003 e outros 20 prémios), deixou Badreya comovido.

“Eu sou o suspeito, um egípcio que vive entre Miami e o México, e é preso aqui”, diz-nos, por telefone, recém-chegado da rodagem à sua casa em Santa Mónica, na Califórnia.

“É triste porque o personagem não consegue provar a sua inocência à agente da polícia” Blanca Bravo (a actriz Ana de la Reguera), que implacavelmente o persegue.

A comoção rapidamente dá lugar ao entusiasmo de ir para o Louisiana entrar na pele do defunto “carniceiro de Bagdad”, sob a direcção de Oliver Stone.

“Vou ser co-star e vai ser muito divertido e nada difícil, até porque Saddam é, para mim, uma figura conhecida desde miúdo”, afirma Badreya. “Talvez tenha de ver alguns vídeos só para perceber melhor os seus gestos”.

A satisfação de participar neste projecto (“bastou uma audição com Oliver Stone”) explica-se também pelo facto de Badreya – que na altura mostrava os seus dotes em Iron Man (“Homem de Ferro”), com Robert Downey Jr. – ser um opositor da guerra no Iraque. “Não gosto de Bush, que invadiu um país árabe para ficar com o petróleo”.

Badreya nasceu em Port Said no Egipto. “A minha mãe estava preocupada, porque metade dos miúdos do meu gueto vendia haxixe”, diz ele. “Ela empurrou-nos para o futebol e outras actividades, para nos afastar dos traficantes. Mas eu gostava mais de filmes”
© GQ

Não gostar de George W. Bush não quer dizer que não goste dos EUA. Pelo contrário. “Eu nasci em 1957 num bairro difícil da cidade de Port-Said, e tinha duas escolhas: ou jogava futebol ou fazia parte dos traficantes de droga”, relata.

“A minha mãe estava preocupada, porque metade dos miúdos do meu gueto vendia haxixe. Ela empurrou-nos para o futebol e outras actividades, para nos afastar dos traficantes. Mas eu gostava mais de filmes.”

“Durante as guerras [com Israel, de 1967 e 1973], ia para o cinema e foi aqui que me apaixonei pela América, a ver John Wayne, Steve McQueen e Humphrey Bogart”.

Quando Badreya tinha 9 anos, o pai morreu. “Foi muito duro. A minha mãe teve de cuidar de nove filhos – três rapazes e seis raparigas. No liceu eu era bom aluno e até fui admitido na universidade, mas a minha mãe não tinha dinheiro para me pagar as propinas.”

“Por isso, fui para o exército durante 18 meses. Era obrigatório. Fiquei infeliz, porque queria muito entrar na universidade. Foi então que decidi que tinha de ir para a América.”

Familiares e amigos troçaram de Badreya. Como conseguiria ele ir para a América se em casa passavam fome? “Bem, a minha cidade foi muito afectada pela guerra e [o Presidente Anwar] Sadat declarou-a uma zona franca”, explica.

“Eu comprava perfumes em Port-Said, onde não havia impostos, e depois ia vendê-los em contrabando no Cairo. Consegui dinheiro suficiente para comprar um bilhete de avião. Parti sozinho.”

“Tinha 21 anos quando cheguei a Boston, em 1979. Alojei-me numa pousada de juventude Comecei primeiro a lavar pratos num restaurante, cujo dono era libanês, uma pessoa adorável de quem ainda sou amigo. Depois fui estafeta e fiz várias outras tarefas.”

Quando ingressou na New York University Film, Sayed Badreya estava consciente de que lhe estariam “reservados quase sempre papéis de terrorista”
© GQ

Enquanto trabalhava, Badreya conseguiu entrar numa escola para aperfeiçoar o inglês. Em 1980 já frequentava a Universidade de Massachussetts, e não demorou muito até se mudar para Nova Iorque.

Foi aqui que conheceu Woody Harrelson, na altura também ele a dar os primeiros passos no cinema. Partilharam um apartamento e passaram muitos dias sem comer, com dificuldades financeiras.

Com um “bom ensaio” sobre os árabes-americanos (“de certo modo, a minha própria história”), Badreya ingressou na New York University Film, já consciente de que lhe estariam “reservados quase sempre papéis de terrorista”.

Teve a certeza disso quando se sentiu forçado a engordar e a deixar crescer a barba para ter emprego. “Como rapaz giro e magricela, não chegava a lado nenhum, porque havia muita concorrência”, ironiza. 

Em Nova Iorque, curiosamente, fez o papel de um jogador de futebol egípcio no seu primeiro filme, Hotshot (1987) em que o brasileiro Pelé era o protagonista, representando-se a si próprio. Woody Harrelson ganhara, entretanto, popularidade com Wild Cats, e quando este foi para Los Angeles,

Badreya seguiu-o. “Quando cheguei à Califórnia, com um tempo óptimo, suspirei: ‘Ah, este é o lugar onde quero viver’. Comecei logo a trabalhar em televisão, como assistente de produção. Primeiro com Anthony Perkins e depois com James Cameron.”

Na Califórnia, Badreya estreou-se em The Taking of Flight 847: The Uri Erickson Story (1988), realizado por Paul Wendkos, com Lindsay Wagner e Eli Dunker. “É a história do sequestro de um avião. Eu sou um palestiniano e foi o meu primeiro papel como terrorista.”

Agora, quando lhe perguntamos, por que é que terrorista é quase sempre o seu papel, Badreya irrita-se levemente: “Repare, eu sou um actor e um actor faz o seu trabalho. [Marlon] Brando fez de nazi. Al Pacino fez de criminoso. [Robert] De Niro fez de mafioso.”

“Eu não sou embaixador em Washington D.C.. Eu trabalho em Hollywood. Se o papel exige que eu seja um assassino, sou um assassino. Mas já fiz de médico e de professor.”

Para ser um terrorista convincente não bastou a Sayed Badreya “ser feio”, como ele próprio diz. “Quando eu estava a preparar o argumento de “The Assassination of the Last Pharaoh”, sobre Sadat, decidi ingressar numa mesquita de Los Angeles onde pregava Omar Abdel Rahman, um xeque cego que emitiu a fatwa [édito] para matar o presidente”, revela.

“Encontrei-me com ele antes de o expulsarem pelo ataque ao World Trade Center em 1993. Misturei-me com os seus fiéis. Deixei-me influenciar pelo modo abnegado como conduzem as suas vidas. A sua submissão a Deus. A ideologia deles não me atraiu, mas adaptei o modo de ser deles à minha agenda de trabalho.”

Em “T for Terrorist”, uma curta sobre estereótipos árabes que Sayed Badreya não só produziu como também protagonizou. Foi premiado como Best Short Film no Boston International Film Festival e também no San Francisco World Film Festival
© sayedbadreya.com

Entrar na mesquita teve também uma razão pessoal. “Nessa altura eu namorava com uma americana do Ohio e disse-lhe que queria que os nossos filhos fossem muçulmanos. Ela perguntou-me o que era ser muçulmano e eu respondi: ‘Sei lá, estou há tanto tempo afastado do Islão, tenho de ir aprender’.”

“Eu era um infiel, mais interessado em mulheres e discotecas mas também o que se podia esperar de alguém que era amigo de Woody Harrelson?”, relembra Badreya, com uma sonora gargalhada.

Na mesquita, Badreya empenhou-se como um devoto. Ajudou a criar uma biblioteca. Era tão respeitado que lhe chamavam xeque. A namorada do Ohio com quem se casou em 1990 e tem dois filhos disse ao New York Times que o marido ficou “um pouco fanático”.

E ele admite: “Sim, cheguei a usar a galabaya [túnica] e uma barba longa. E recomendei que a minha mulher usasse o hijab [lenço] quando nos encontrávamos com estranhos que vinham da Arábia Saudita ou do Kuwait.”

“Digo mais: a mesquita ajudou-me a compreender estas pessoas e o que as motiva. O empenhamento deles era intenso, e era fácil ser recrutado por eles. Agradou-me a submissão a Deus e ainda rezo todos os dias.”

Ao NYT, Badreya reconheceu que se estivesse perdido na América, provavelmente estaria hoje entre os jihadistas e salafistas de Osama bin Laden.”

“A nós, diz-nos que também poderia ter ido para o Afeganistão nos anos 1980, porque nessa altura “a CIA andava a recrutar jovens árabes para as fileiras dos MujahedIn [guerreiros], que lutavam contra os invasores soviéticos em Cabul com armas da América.”

Mas não o seduziram – “eu gostava mais das noites loucas” – e ele regozija-se: “Esses jovens foram depois abandonados pelos e tornaram-se inúteis.”

Para Sayed Badreya, 2008 foi um dos melhores anos da sua carreira, ao cativar audiências como Abu Bakaar,  vilão e traficante de armas que rapta Tony Stark (Robert Downey Jr. – ambos na foto) em Iron Man (“Homem de Ferro”)
© Sayed Badreya

George Clooney, um dos ídolos de Sayed Badreya, convidou-o para entrar em “Three Kings” /Três Reis (ambos na foto, na estreia). Neste filme, o actor egípcio-americano aparece como major do exército de Saddam Hussein, disparando indiscriminadamente sobre iraquianos indefesos
© sayedbadreya.com

Hoje, ele é um “terrorista” apenas na tela, sem complexos por ganhar a vida deste modo. Aos que acusam Hollywood de desumanizar os árabes com estereótipos racistas, Badreya responde: “Sabe qual é a diferença entre os afro-americanos e os árabes-americanos? Eles fazem a sua própria história.”

“Spike Lee fez os seus filmes e os negros que fazem filmes têm poder. Os árabes americanos preferem investir no imobiliário e em bombas de gasolina. Não agem, só reagem. Culpam os outros e choram, choram. “

“Somos uma comunidade muito dividida – há cristãos e muçulmanos, ricos e pobres, os que vieram do Egipto e os que vieram do Líbano. Cada um tem uma agenda diferente. Às vezes até se insultam uns outros.”

“A Fatah e a OLP chamam terrorista ao Hamas. Ora, se nos chamamos a nós próprios terroristas, e nos vemos como inferiores aos outros, os outros agem connosco da mesma forma.”

“Também é importante dizer que, se nos filmes americanos o homem branco chega ao mundo árabe e o xeque tenta roubar-lhe a mulher para o seu harém, nos filmes egípcios, por exemplo, são os americanos a roubar as mulheres árabes”, acrescenta Badreya.

“No cinema egípcio não há actores negros. As mulheres estrangeiras são depravadas. Os judeus roubam. Os homens brancos são bêbados. Portanto, também temos os nossos estereótipos.”

“E quando os egípcios fazem filmes sobre os fundamentalistas islâmicos representam-nos tal qual os americanos representam os fundamentalistas.”

“Eu já não sou apenas actor, mas também produtor [criou a Zoom in Focus] e tornei-me Num dos principais consultores em Hollywood sobre árabes e a língua árabe. Por exemplo, fui ouvido por James Cameron em True Lies.”

Sayed Badreya na estreia do filme “The Dictator,” (O Ditador), de Sascha Baron Cohen, onde desempenha o papel de pai do protagonista
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John Turturro, Adam Sandler, Sayed Badreya e Rob Schneider durante as filmagens de “You Don’t Mess with the Zohan”/ Não te metas com o Zohan
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“Fui conselheiro num filme sobre o 11 de Setembro. Também sou consultor para série de televisão. Ajudo a compor as personagens, o modo como falam ou rezam. Tento que me ouçam. Às vezes os realizadores dão-me ouvidos e outras não.”

E continua: “Olhe, um terrorista para uns é um combatente da liberdade para outros. Para os árabes, os soldados norte-americanos ou israelitas são terroristas, mas os que expulsam os soldados norte-americanos que ocupam os seus territórios são combatentes pela liberdade. Se julgarmos um personagem estamos perdidos.”

“Quando sou o produtor”, confessa, “tenho o poder de fazer de bonzinho. Em AmericanEast faço o papel de um imigrante árabe com família estabelecida na América. É uma pessoa amável que tenta ajudar toda a gente, apesar das adversidades.”

“Quer abrir um restaurante e precisa de um sócio, mas o único que lhe aparece é um judeu e nem todos aceitam bem.”

“A sua irmã recusa-se a casar com o seu primo, prestes a chegar. O seu filho quer ser cristão para não ser maltratado na escola por outros rapazes. A sua filha fuma haxixe. O FBI começa a investigá-lo porque ele envia dinheiro para o Egipto e suspeita que está a financiar terroristas.”.

Já em T. for Terrorist, produzido pela sua Zoom in Focus com a colaboração de Tony Shalhoub, popular protagonista da série Monk e com quem criou o Arab-American Film Award para dinamizar a intervenção da comunidade nesta indústria, Badreya faz o papel de um actor que, cansado de papéis de terrorista, força o estúdio a dar-lhe o papel do herói.

Badreya gosta de heróis. “Em rapaz, quando ia ao cinema, adorava John Wayne porque ele era bigger than life. Era um herói.”

“Eu gostava de brincar com os meus irmãos aos índios e cowboys. Eu era o cowboy. Para ser franco, os meus heróis na altura eram Muhammad Ali [o pugilista] e [o Presidente egípcio Gamal Abdel] Nasser.”

Actualmente, a sua simpatia vai para George Clooney com quem contracenou em Three Kings (“Três Reis”) – uma breve aparição como major do exército de Saddam disparando indiscriminadamene sobre iraquianos indefesos.

“Ele tem muito para dar. É como um porta-voz da humanidade.” Também gostou muito de trabalhar com Al Pacino em The Insider (“O Informador”, protagonizado por Russell Crowe, 1999), onde faz de combatente do Hezbollah.

Se tivesse de interpretar o papel de um herói egípcio, Badreya não escolheria Nasser nem Sadat, embora Sadat tivesse sido “um visionário que foi até Israel dizer-lhes que não teriam paz enquanto não devolvessem o Sinai”, e Nasser tivesse sido “um revolucionário que deu educação ao povo”. A admiração pelos anteriores líderes não a oferece a Hosni Mubarak [deposto em Fevereiro de 2011].

“Eu não sou vítima”, diz Badreya. “Os árabes-americanos não deviam sentir-se vítimas. Temos algo para oferecer a este país. Não podemos ficar sentados e a chorar. Posso estar errado ao representar certos papéis que passam uma imagem negativa. Mas não fico de braços cruzados”
© sayedbadreya.com

“Nasser tinha 32 anos quando chegou ao poder. Cometeu muitos erros e foi derrotado na guerra de 1967, Mas tinha uma agenda. Desde os tempos dos faraós que sempre tivemos uma agenda nacional, fosse construir as Pirâmides ou a barragem de Assuão.”

“Com Mubarak, o Egipto tem andado aos círculos. Ele tem 80 anos, o seu governo é composto de gente velha, enquanto 65% dos egípcios tem menos de 25 anos.”

O herói cinematográfico de Badreya será um velho cristão copta cujo filho foi esbofeteado pelo filho do emir do Egipto Omar ibn al-A’as que se recusou a aceitar a derrota numa corrida.

O velho copta foi até Medina, viajando de camelo durante meses, para denunciar o sucedido ao califa Omar al-Khatab. Este ordenou que o filho do emir fosse esbofeteado pelo rapaz que agredira.

“Quero fazer o papel desse homem que acreditou que um governante islâmico reconheceria o seu direito. É uma bela história.”

Hoje quando olha para trás, Badreya dá por si a pensar: “Tudo conspirava contra mim. Sempre tive dificuldades. Tive sempre de trepar. Tornou-se parte da minha personalidade, ter de lutar.”

Antes do telefonema acabar, sublinha: “Eu não sou vítima. Os árabes-americanos não deviam sentir-se vítimas. Temos algo para oferecer a este país. EUA] Não podemos ficar sentados e a chorar. Posso estar errado ao representar certos papéis que passam uma imagem negativa. Mas não fico de braços cruzados.”

Sayed Badreya by Alasmar
© DeviantArt

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO em 2008. | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

Em Hollywood os árabes raramente são heróis

Consultor nos filmes Três Reis e Syriana, Jack Shaheen lamenta que, na América, não haja uma frente unida contra os estereótipos racistas. (Ler mais | Read more…)

Sobre “Aladino”, uma das mais lucrativas produções da Disney em 1992, Jack Shaheen interroga-se sobre como é que um filme para crianças pode abrir com esta canção: Oh, eu venho de uma terra/ de um lugar longínquo/onde vagueiam caravanas de camelos/onde vos cortam os narizes/ se não gostam da vossa cara/ é bárbaro, sim, mas é a nossa casa

Há dias em que Jack G. Shahen talvez gostasse de ser índio, negro, judeu, gay, hispânico, irlandês ou italiano. É que pertencer a um destes grupos na América significa que já não será sempre “o mau da fita”.

O contrário dos árabes, como ele, que “continuam a ser desumanizados por Hollywood”, como “bilionários, bombistas e bellydancers”.

Nos últimos 30 anos, este professor emérito da Universidade de Southern Illinois, especialista em Media, analisou “mais de mil” filmes (começou com curtas mudas de 1896) e séries de televisão.

Viu-os na sua própria casa, na Biblioteca do Congresso em Washington e em escolas de cinema de Nova Iorque à Califórnia. Contactou argumentistas, realizadores, actores, produtores e magnatas da indústria.

Ouviu e leu historiadores e críticos. Também viajou pelo mundo árabe e muçulmano, para aferir se os estereótipos que o ofendem correspondiam à realidade.

Deste esforço resultaram dois livros Reel Bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People (2003, que também é um documentário) e Guilty, Hollywood’s Verdict on Arabs after 9/11 (2008), além de centenas de palestras em todos os 50 estados dos EUA e quatro continentes.

Em Reel Bad Arabs e Guilty, Hollywood’s Verdict on Arabs after 9/11, Jack Shaheen dá nota negativa a mais de 900 filmes e faz recair a maior infâmia sobre Delta Force (1986), com Lee Marvin e Chuck Norris (na foto)

O impacto foi tão grande que Shaheen, em tempos ignorado pelos seus patrões da CBS, é hoje consultor da DreamWorks, da Warner Brothers, da Showtime e da Hanna-Barbera Productions, além de convidado frequente de programas como Nightline, Good Morning America e The Today Show.

E se os filmes “Three Kings” (Três Reis, 1999) e “Syriana” (2005), ambos com George Clooney, apresentaram os árabes como “personagens multidimensionais”  – vilões mas também heróis –, em muito se deve à orientação deste eloquente académico, determinado a quebrar “o velho ‘cliché’ de ‘viste um [árabe] viste todos’”.

Nascido em Clairton, pequena cidade metalúrgica perto de Pittsburg, Jack Shaheen descende de libaneses cristãos que emigraram para a Pensilvânia em 1920, logo após a I Guerra Mundial.

“Desde criança que fui sempre sensível ao modo como os afro-americanos eram representados no nosso país”, conta-nos numa entrevista, por telefone. “A minha escola era integrada, mas a cidade era segregada.

Os negros viviam de um lado e os brancos do outro. A nossa família era muito aberta. Nunca julgámos ninguém pela cor da sua pele ou como rezavam – se iam à igreja, à sinagoga ou à mesquita.”

O “momento da verdade” para Shaheen aconteceu em meados dos anos 1970, quando ganhou uma bolsa Fulbright para dar aulas na Universidade Americana de Beirute. “A partir do Líbano tive oportunidade de visitar não só este país mas também de viajar pela Arábia Saudita, Jordânia, Egipto e outros países árabes”, relata.

“Descobri o que muitos já haviam descoberto: que as pessoas são amigas e hospitaleiras”, acrescentou.

“Em 1975, quando regressei aos EUA, onde ninguém fala, por exemplo, do sofrimento dos palestinianos nos campos de refugiados, escrevi um artigo chamado Arab Images from American Television, e fiquei escandalizado porque ninguém o quis publicar, o que nunca antes me acontecera.”

Houve quem justificasse a recusa, alegando que o artigo “estava demasiado bem escrito”. O agente de Shaheen confessou-lhe que jamais na sua carreira testemunhara “tanto preconceito”.

Foram precisos três anos para que o artigo fosse publicado, em 1978, pelo Center for the Study of Popular Culture da Bowling Green State University.  Em 1984, o artigo evoluiu para um primeiro livro chamado Arab TV.

Igualmente fustigada por Jack Shaeen é a série 24, com Kiefer Sutherland no papel de Jack Bauer. [Na altura desta entrevista, em 2008, estava no ar há seis anos e, em três das seis temporadas, os vilões foram árabes ou árabes-americanos muçulmanos”]

Perante as dezenas de recusas, Shaheen ainda se interrogou sobre se seria melhor desistir e escrever apenas sobre “temas seguros”.

Mas ninguém mais abordava “a imagem dos árabes na cultura popular americana” e ele não deixou que os preconceitos o impedissem de continuar a investigar. “Quanto mais aprofundava a questão, mais perturbado eu ficava, porque mais e mais estereótipos apareciam.”.

“As pessoas gostam de ver os maus a levar porrada. Vejam ‘Delta Force’. Começamos por fazer explodir toda a gente. É a vingança à boa maneira americana”

Para escrever Reel Bad Arabs (RBA), Shaheen fez buscas na Internet. “Coloquei palavras-chave como ‘árabe’ ou ‘camelo’. Esta foi uma de várias maneiras de encontrar muitos filmes”, refere Shaheen, que contou com a preciosa ajuda da sua mulher.

“Via um filme por dia, em média, e tirava notas. A seguir, revia estas notas e voltava ao filme, para ter a certeza que as notas estavam correctas. Eram cinco a seis horas para analisar cada filme.”

Em RBA e Guilty, Shaheen dá nota negativa a mais de 900 filmes e faz recair a maior infâmia sobre “Delta Force”/Força Delta (1986)”, com Lee Marvin e Chuck Norris; “Aladino” (1992), animação a que Robin Williams deu voz; e “Rules of Engagement”/Compromisso de Honra (2000), com Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones.

“Delta Force”, por exemplo, saiu dos estúdios da Cannon Films, propriedade de dois israelitas, Menachem Golan e Yoram Globus, que produziram mais de “duas dezenas de filmes anti-árabes” desde 1985.

Em Delta Force, sequestradores libaneses e palestinianos tentam desviar um avião para Beirute e uma unidade de elite americana oblitera-os. Shaheen cita o crítico Tom Hundley: “A maior parte do filme foi rodada em Israel; as cenas do aeroporto de Beirute passam-se no aeroporto [israelita] de Ben Gurion, as ruas são um bairro de judeus próximo de Telavive; os [caças] F-16 usados no combate aéreo foram fornecidos pelo Exército israelita, embora Israel não seja mencionado nos créditos.”

Na categoria dos bons filmes sem estereótipos, Jack Shahee coloca Paradise Now / “O Paraíso Agora”, a história de dois amigos de infância recrutados por extremistas para cometerem atentados bombistas em Telavive. Os produtores explicaram que apenas quiseram oferecer “uma perspectiva pessoal sobre as motivações, o factor humano, por detrás destes crimes hediondos, sem ter de tomar partido pelo campo dos palestinianos ou dos israelitas”. Desenvolvido no Sundance Screenwriting Lab, Paradise Now ganhou o Blue Angel Award do Festival de Cinema de Berlim em 2005, como melhor filme europeu. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Na categoria dos bons filmes sem estereótipos, Jack Shaheen coloca “Paradise Now” / O Paraíso Agora, a história de dois amigos de infância palestinianos recrutados  para cometerem atentados bombistas em Telavive

Shaheen também se revolta com a colaboração do Departamento de Defesa, do Exército, dos Marines, da Marinha e da Guarda Nacional dos EUA em filmes onde os árabes são sempre “terroristas incompetentes” ou uma ameaça económica. “Rules of Engagement”/Compromisso de Honra, que ele descreve como “dos mais racistas”, tem argumento do antigo secretário da Marinha James Webb.

A história desenrola-se no Iémen, um país real e não ficcional. Há manifestações violentas junto à Embaixada dos EUA e os marines (liderados por S.L. Jackson) são chamados a intervir.

Abrem fogo sobre uma multidão, incluindo mulheres e crianças. O espectador é levado a simpatizar com uma menina mutilada, só com uma perna, até chegar um advogado (Tommy Lee Jones) que prova terem sido os civis a provocar o massacre. No final, a menina não é inocente. 

Quanto a “Aladino”, uma das mais lucrativas produções da Disney, Shaheen interroga-se sobre como é que um filme para crianças pode abrir com esta canção: Oh, eu venho de uma terra/ de um lugar longínquo/onde vagueiam caravanas de camelos/onde vos cortam os narizes/ se não gostam da vossa cara/ é bárbaro, sim, mas é a nossa casa.

Foram muitos os protestos e a Disney retirou do posterior vídeo dois versos (onde vos cortam os narizes/ se não gostam da vossa cara).

Para Shaheen, isso em nada alterou a imagem transmitida para milhões de pessoas em todo o mundo: “os árabes como caricaturas brutais e incivilizadas”, com “narizes inchados e olhos sinistros”.

Quanto a séries televisivas, uma das mais criticadas por Shaheen é NCSIS (que passa em Portugal nos canais AXN , FOX e SIC – e cujo elenco, na versão Los Angeles, conta com a actriz portuguesa Daniela Ruah, na foto). Em NCSI, uma “bela agente da Mossad” é convidada a ajudar colegas -americanos a perseguir terroristas palestinianos

Quanto a séries televisivas, uma das mais criticadas por Shaheen é NCSIS (que passa no canal AXN e cujo elenco, na versão centrada em Los Angeles, passou a contar com a actriz portuguesa Daniela Ruah), onde uma “bela agente da Mossad” aparece como convidada a ajudar colegas americanos a perseguir terroristas palestinianos.

Igualmente fustigada é 24, com Kiefer Sutherland no papel de Jack Bauer. “Já está no ar há seis anos e, em três das seis temporadas, os vilões foram árabes ou árabes-americanos muçulmanos”.

[A última temporada de “24”, número 8, foi exibida, nos EUA, em Maio de 2010 e centra-se nos esforços da CTU, unidade de contra-terrorismo, para eliminar as ameaças feitas durante uma conferencia de paz entre os ficcionais Presidentes Allison Taylor, dos EUA, e Omar Hassan, de uma inventada República Islâmica do Kasmistão, IRK].

Nesta entrevista, Shaheen diz que não contesta a existência de vilões árabes nos filmes. “O problema é que Hollywood só nos selecciona como vilões. Nunca vimos a humanidade dos árabes. Vemos mafiosos italianos, mas também vemos pais e mães decentes.”

“As famílias árabes são invisíveis. As mulheres são submissas ou estão em haréns. A Arábia e o deserto são sempre lugares de medo. Também não vemos árabes-americanos cristãos”, embora sejam a maioria da comunidade nos EUA.

“Three Kings”/Três Reis (1999) e “Syriana” (2005), ambos com George Clooney (aqui, ao centro, numa cena do primeiro filme), apresentam os árabes como “personagens multidimensionais” – vilões mas também heróis, saúda Jack Shaheen, determinado a quebrar “o velho cliché de ‘viste um [árabe] viste todos’”

O professor reconhece que muitos actores árabes não podem, excepto se já forem já famosos, rejeitar papéis de terrorista porque precisam de assegurar o seu sustento. Se não aceitarem, os produtores e realizadores vão buscar “actores com fisionomia árabe” para os substituir.

Shaheen também admite que, ao contrário dos afro-americanos, por exemplo, os árabes e muçulmanos não têm apresentado uma frente unida para pôr fim aos estereótipos que perduram em Hollywood e que ele atribui a três factores: o conflito com Israel, o boicote petrolífero nos anos 1970 e a Revolução Islâmica de Khomeini no Irão.

A sua esperança para combater o que chama de novo anti-semitismo (“respeito pelos sentimentos de um grupo semita, os judeus, mas não pelos de outro, os árabes”) está agora na “co-produção israelo-palestiniana”, que permitiu filmes como “Paradise Now”/ O Paraíso Agora, do palestiniano Hanny Abu- Assad, 2005) ou “The Syrian Bride” /A Noiva Síria, do israelita Eran Riklis, 2004).

[Os produtores de Paradise Now explicaram que apenas quiseram oferecer “uma perspectiva pessoal sobre as motivações, o factor humano, por detrás de crimes hediondos, sem ter de tomar partido pelo campo dos palestinianos ou dos israelitas”. Desenvolvido no Sundance Screenwriting Lab, o filme ganhou o Blue Angel Award do Festival de Cinema de Berlim em 2005.]

Shaheen também tem fé no “bom senso” de realizadores como Steven Spielberg, e Ridley Scott, que mostram, em seu entender, “mais equilíbrio nas personagens”, respectivamente, em “Munich”/ Munique (do que em “Indiana Jones and the Last Crusade” / Indiana Jones e a Última Cruzada, 1989) e em “Kingdom of Heaven”/ Reino dos Céus, 2005) do que em “Black Hawk Down” / “Cercados”, 2001,  curiosamente, também dirigido por Ridley Scott).

Ao descrever, no diário britânico The Independent, o impacto que Reino dos Céus teve num cinema em Beirute, o jornalista Robert Fisk notou que, na derradeira cena, quando a figura de Saladino entra em Jerusalém, depois de derrotar os cruzados, e levanta um crucifixo caído do altar de uma igreja, havia lágrimas nos rostos de alguns espectadores – cristãos e muçulmanos.

O herói árabe foi aplaudido de pé pelo seu “gesto de honra”, mostrando “um Islão forte mas compassivo”.

Jack Shaheen © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Jack Shaheen, que passou a vida a documentar e a criticar os estereótipos árabes nos filmes de Holywood, morreu aos 81 anos, em 9 de Julho de 2017

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO em 2008. | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in 2008

Tzipi Livni: A “herdeira natural” de Sharon

Tzipi Livni faz hoje [8 de Julho de 2008] 50 anos e já fez quase tudo. Foi tenente no Exército, empregada de mesa, agente de espionagem, advogada, deputada e titular de vários cargos ministeriais. Poderá dirigir o Governo? Os rivais dizem-lhe que ela “não é suficientemente homem” para ocupar o lugar. As sondagens mostram o contrário. (Ler mais | Read more…)

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O Presidente Moshe Katsav demitiu-se depois de acusações de violação e assédio sexual. O primeiro-ministro, Ehud Olmert, é suspeito num escândalo de corrupção.

Em crise de liderança, Israel parece ter os olhos postos na “senhora mãos limpas”, Tzipora Malka Livni, para vir a ocupar o número 3 da Rua Kaplan em Jerusalém – sede do Governo, diminutivo por que é conhecida a ministra dos Negócios Estrangeiros e vice-primeira-ministra, completa hoje [8 de Julho] 50 anos de idade.

Foi considerada a mulher mais poderosa de Israel [um “título” que agora é atribuído a Sara Netanyahu, mulher do actual chefe do Governo]. Segundo a revista TIME, é “uma das 100 mais influentes do mundo”.

As sondagens apontam-na como a única capaz de derrotar Benjamin Netanyahu, do Likud, o favorito para as legislativas, sem data. Esta popularidade está a irritar os rivais: Shaul Mofaz (general e ministro dos Transportes), Avi Dichter (ex-chefe do Shin Bet e ministro da Segurança Interna), membros do seu partido centrista, Kadima; Ehud Barak (outro general), líder do Labour. Insinuam que ela “não é suficientemente homem” para suceder a Ehud Olmert.

A direita, por seu turno, sua antiga família política, acusa Livni de ter “traído” a memória dos pais, defuntos combatentes da resistência judaica, ao aceitar uma solução de dois Estados para o conflito com os palestinianos.

Como explicar a campanha que está em marcha para desacreditar a filha de Eitan Livni e Sarah Rosenberg? Afinal, ela tem todas as credenciais para seguir os passos de Golda Meir, que foi primeira-ministra aos 70 anos, de 1969 a 1974, desafiando o machismo da sociedade bem evidente na célebre frase do “pai da nação”, David Ben-Gurion: “Ela é o único homem do meu Governo.”

Tzipi Livni com o defunto primeiro-ministro Ariel Sharon: ela acompanhou-o quando ele deixou o Likud, depois das divisões criadas após a retirada unilateral da Faixa de Gaza, e formou o Kadima. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni com Ariel Sharon: ela acompanhou-o quando ele deixou o Likud, depois das divisões criadas após a retirada unilateral da Faixa de Gaza, e formou o Kadima

Tzipi Livni tem um invejável pedigree nacionalista. O pai, Eitan, foi comandante-chefe do Irgun, o grupo liderado por Menachem Begin que, nos anos 1940 pré-Israel, cometeu ataques terroristas contra alvos britânicos e árabes dentro e fora da Palestina histórica.

Um dos piores atentados, quase 100 mortos, foi o que destruiu o Hotel King David, em Jerusalém, em 1946. Neste ano, o polaco Eitan foi capturado após a sabotagem de uma linha férrea e condenado a 15 anos de prisão. Dois anos depois conseguiu fugir da cadeia e passou a organizar acções clandestinas na Europa.

Regressou em 1948 para participar na primeira guerra israelo-árabe e para se unir a Sarah Rosenberg, também ela combatente do Irgun, famosa por assaltar e fazer explodir comboios. O deles foi o primeiro casamento no recém-criado Estado judaico.

Fundador do movimento Herut que deu origem ao partido Likud, Eitan foi também deputado por este partido em duas legislaturas no Knesset.

Antes de morrer, em 1991, ordenou que na sua pedra tumular fossem gravados um mapa do “Grande Israel”, seguindo o lema sionista “o rio Jordão tem duas margens e as duas são nossas”, e a inscrição: “Aqui jaz o chefe de operações do Irgun Zvi Leumi” (Organização Militar Nacional).

Talvez por ser filha de dois “guerrilheiros”, Livni foi, até agora, o único membro do Governo israelita a distinguir entre ataques palestinianos a civis e a militares. “Quem luta contra o Exército é um inimigo, e nós ripostaremos, mas isto não encaixa na definição de terrorismo”, disse a uma cadeia de televisão americana.

Mais tarde, quando explicou ao jornal The New York Times por que já não lutava pela bíblica Israel dos seus pais – ela que na década de 1970 se manifestava nas ruas contra a shuttle diplomacy de Henry Kissinger, que queria fazer concessões territoriais ao Egipto e à Síria e que se opôs veementemente aos Acordos de Oslo de 1993 –, a direita bradou: “Eitan Livni dá voltas no túmulo.”

A transformação de Tzipi Livni assenta num “simples cálculo: não é possível conciliar três objectivos ideológicos – Grande Israel, um Estado judaico e uma democracia
© Tomer Neuberg | Times of Israel

Para Tzipi, cujo gabinete no MNE só tem um quadro na parede – a fotografia do pai –, a sua transformação assenta num “simples cálculo”.

Não é possível conciliar três objectivos ideológicos – Grande Israel, um Estado judaico e uma democracia. O crescimento demográfico nos territórios ocupados obriga a abdicar do “Grande Israel” para que Israel se mantenha uma democracia e um Estado judaico.

Em defesa da filha, a ultra-sionista Sarah fez uma declaração poucos meses antes da sua morte, em Outubro de 2007: “Magoa-me dizer isto, mas nós não lutámos pelo Estado de Israel para a nossa geração e sim para as gerações vindouras. Eu confio na decisão de Tzipi. Ela tem sempre razão.”

Sarah nunca ficou agarrada ao passado. Na homenagem fúnebre, Tzipi recordou como a mãe, aos 80 anos, “foi passar férias a Eilat [uma estância turística] e voltou com as orelhas cheias de piercings, como se fosse uma rapariga de 16.”

Quem também confiava em Livni era Ariel Sharon, o seu mentor. Foi ele que a introduziu na política, colocando-a num lugar elegível para deputada em 1999. Em seis anos, nomeou-a para sete cargos diferentes no Governo.

O ex-primeiro-ministro apreciava a sua “capacidade analítica”. Ela fez parte do “gabinete restrito” que preparou a retirada unilateral da Faixa de Gaza e, quando ele saiu do Likud para formar o Kadima, ela foi a primeira a segui-lo, assumindo a responsabilidade de redigir o programa político do novo partido.

Livni e Ehud Olmert, o primeiro-ministro que viu a sua imagem destruída depois da guerra do Líbano de 2006 e vários casos de corrupção pelos quais tem vindo a ser julgado
© Uriel Sinai | Getty Images

Em Janeiro de 2006, quando Sharon, herói e vilão de várias guerras, sofreu uma embolia cerebral e mergulhou em estado de coma, Livni foi apontada como a herdeira natural. Mas ela preferiu afastar-se e deixar o cargo para Ehud Olmert.

Na altura, muito poucos questionaram o facto de o antigo presidente da Câmara de Jerusalém não ter background militar.

Agora ele está sob fogo pela forma desastrosa como, há dois anos [em 2006], confrontou o Hezbollah no Líbano. E está a ser investigado por, alegadamente, ter recebido milhões de dólares, num processo de tráfico de influências.

“A principal vantagem de Tzipi Livni neste momento é a sua imagem politicamente limpa, sem manchas de corrupção nem de má conduta durante a II Guerra do Líbano”, diz-me, por telefone, o israelita Gershom Goremberg, colunista da American Prospect e do New York Times, autor de duas obras de referência para entender a colonização dos territórios palestinianos: The Unmaking of Israe e The Accidental Empire: Israel and the Birth of the Settlements, 1967-1977,

“Do ponto de vista da sociedade, ela é seguramente muito popular, mas quem domina a máquina do partido são os homens. E Mofaz, em particular, quer muito suceder a Olmert.”

Goremberg salienta o desafio. “O problema da corrupção incomoda o país, mas é relativamente secundário face à questão da segurança”.

Licni om o primeiro-ministro Benjaamin Netanyahu, em cujo Governo entrou como ministra da Justiça, depois de se mudar do Kadima para o Hatnuah (Movimento), seu actual partido. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em cujo Governo entrou como ministra da Justiça, depois de se mudar do Kadima para o Hatnuah (Movimento), seu actual partido
© Miriam Alster | TImes of Israel

Ela está consciente disso, de outro modo, acrescenta o analista, não teria chegado ao jornal britânico The Sunday Times (para contornar a censura israelita) a informação de que Livni não foi “garota de secretária” quando trabalhou para a Mossad em Paris, nos anos 1980.

Antigos colegas disseram ao mesmo diário que ela “tem um QI de 150” e ajudou antigos comandos a perseguir pela Europa várias figuras da OLP. O seu presumível papel no assassínio de Mamoun Mraish por dois agentes, em Atenas, é ainda um tabu.

Livni entrou nos serviços secretos aos 22 anos, quando saiu do Exército. Com a patente de tenente, distinguiu-se duas vezes como “a mais brilhante oficial”. A coragem com que enfrentava duros treinos impressionava os companheiros.

Foi Mirla Gal, amiga de infância, que a recrutou. “Era muito boa no que fazia e só deixou a agência [em 1984] por livre iniciativa”, revelou ao New York Times. “Poderia ter feito uma carreira de 20 anos. A sua inteligência, frieza, rapidez de análise e rectidão eram qualidades muito valiosas para a Mossad.”

Livni, que tinha sido empregada de mesa no Sinai, antes de Begin restituir a península a Anwar Sadat em 1981, aspirava a uma “vida normal”. Quando regressou a Israel, concluiu o curso de Direito Comercial, que a levou a trabalhar no sector privado, durante uma década, e a coordenar a privatização das empresas do Estado.

Tzipi Livni ajusta o nó da gravata do marido, Naftali Spitzer, was taken by Michal Fattal jdurante as cerimónias do 63º aniversário da criação de Israel, no Monte Herzl, em Jerusalém, em 2011. © Michal Fattal | Ha'aretz

Tzipi Livni ajusta o nó da gravata do marido, Naftali Spitzer, durante as cerimónias do 63º aniversário da criação de Israel, no Monte Herzl, em Jerusalém, em 2011
© Michal Fattal | Ha’aretz

Casou-se com Naftali Spitzer, proprietário de uma agência de publicidade. Tem dois filhos: Omri e Yuval. É vegetariana desde os 12 anos. Gosta de roupas simples e ténis. Não se sente confortável em tailleurs e saltos altos. Adora fazer compras em mercados de rua. Já teve o cabelo escuro e com caracóis antes de o pintar de louro.

Estes detalhes, que vão sendo expostos na imprensa norte-americana, europeia e israelita, são acompanhados de outros, enfatizando que Livni é favorável a um acordo com os palestinianos, mas não com os sírios. E que, face à ameaça do Irão [uma citação errada do ex-Presidente Ahmadinejad] de “riscar Israel do mapa”, ela será implacável: “Iremos destruí-los antes de nos destruírem.”

Gershom Goremberg diz-nos que Livni “será melhor negociadora do que Barak”, porque sabe ser, simultaneamente, flexível e intransigente (é garantido que não cederá no “direito de retorno” dos refugiados palestinianos).

“Ela pode não ser tão eloquente como Abba Eban [o primeiro chefe da diplomacia de Israel], mas é muito profissional. Gosta de ver as coisas feitas. É eficiente ainda que não carismática. E está bem colocada – no centro político.”

Naomi Chazan, ex-deputada do partido de esquerda Meretz, enviou-nos por e-mail um texto onde afirma: “Tzipi Livni não tem de suportar o peso de erros passados, como Netanyahu e Barak. E mesmo que não seja o político visionário de que Israel desesperadamente precisa neste momento, em comparação com os seus adversários, dentro e fora do partido, ela oferece um raio de esperança para um futuro diferente.

Livni e uma grande amiga, a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Livni e uma grande amiga, a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice

É por isso que ela tem sido um alvo, não pelo que ela representa mas pelo que ela é.” Se em Israel feministas como Chazan se sentiram no dever de “socorrer” Livni, mesmo não comungando a sua filosofia política, nos Estados Unidos há muito que a protegida de Sharon tem uma grande aliada: a homóloga Condoleezza Rice.

“Tzipi é mais do que colega, tornou-se minha amiga”, escreveu “Condi” no elogio encomendado pela revista TIME para a edição das 100 mulheres mais influentes do mundo.

“Sentamo-nos durante horas a debater ideias, livre, aberta e por vezes combativamente (…). Respeito-a profundamente. Gosto de tê-la por perto [falam ao telefone duas vezes por semana].”

É uma amizade que já foi posta à prova. Glenn Kessler, biógrafo de Rice, escreve em The Confidante que Tzipi tentou convencer “Condi” a não encorajar eleições palestinianas, em Janeiro de 2006, porque o Hamas iria ganhar. “Condi” não lhe deu ouvidos e arrependeu-se.

No Verão do mesmo ano, foi “Condi” a pedir a Tzipi que Israel não bombardeasse o Líbano. Livni nada podia fazer. Ela quis parar a guerra logo nos primeiros dias, sugerindo uma solução diplomática, mas Olmert recusou. Foi até ao fim, e perdeu. “A minha filha tem sempre razão”, dizia Sara Rosenberg.

[Em Novembro de 2012, Tzipi Livni fundou o Hatnuah (Movimento), para “revitalizar o processo de paz”. Levou consigo dissidentes do Kadima, que chefiou até Março de 2012.

Nas legislativas de 2013, ganhou seis lugares no Parlamento, com cerca de 5% dos votos. Netanyahu ofereceu-lhe a pasta da Justiça e a responsabilidade de negociar com os palestinianos. In the 2014, afastou-a e, no ano seguinte, ela aliou-se ao Partido Trabalhista, de Isaac Herzog, para criar a União Sionista.] 

Gershom Gorenberg

© Naomi Chazan

© Naomi Chazan

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 8 de Julho de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 8, 2008

Um “Shabbat” com filhos de “conversos” que aprendem a ser judeus

Os Bnei Anussim, descendentes dos que há 500 anos o Estado e a Inquisição forçaram a esconder ou a renunciar a sua fé e cultura, querem ser reconhecidos como judeus. O Rabi Jules Harlow e a sua mulher, Navah, vieram de Nova Iorque para os acolher na Masorti, a segunda maior comunidade do judaísmo, depois da Ortodoxia. Numa sexta-feira, celebrámos com eles o Shabbat. (Ler mais | Read more…)

Um dos novos Siddurim (livros de orações judaicas), traduzidos pelo Rabi Jules Harlow, na Sinagoga Ohel Jacob, em Lisboa, que pertence à comunidade Masorti © Pedro Cunha

Um dos novos Siddurim (livros de orações judaicas), traduzidos pelo Rabi Jules Harlow, na Sinagoga Ohel Jacob, em Lisboa, que pertence à comunidade Masorti
© Pedro Cunha

São quase 19h30 de uma sexta-feira e o sol ainda não se pôs. D. Clarinda, 80 anos, está à janela, a sua bata de flores multicoloridas a combinar com o verde das plantas que espreitam para o parapeito. Há mais de meio século que vive aqui, na Rua Filipe da Mata, em Lisboa, mas só “há pouco tempo” se deu conta que, num prédio em frente ao seu, “às vezes entram e saem uns senhores de bem com umas coisas na cabeça.”

Um carro pára em frente à sua porta e ela faz sinal: “Olhe, lá vem um deles”. E um deles é o Rabi Jules Harlow, que chega de chapéu bege, adornado com uma fita preta, ambos a condizer com o seu casaco de linho e o vestido negro da sua mulher, Navah.

Será ele, já com a “coisa” na cabeça (o kippa, yarmulke ou solidéu) que irá liderar a Kabalat Shabbat (literalmente, a recepção do sábado) no segundo e último andar do modesto edifício onde funciona a Sinagoga Ohel Jacob. É aqui, onde D. Clarinda diz ouvir “uma música alegre parecida com um bailarico”, que regularmente se juntam os Bnei Anussim, ou “filhos dos conversos” – “marranos”.

Assim se identificam os que procuram “retornar” às origens, 500 anos depois de o Estado português e a Inquisição terem forçado os antepassados a esconder ou renegar o seu judaísmo, fé e cultura.

O “bailarico” é uma dança em círculo, de mãos dadas e braços no ar, no final de quase uma hora de orações e cânticos selada com palmas, beijos e abraços – é Navah quem anima a festa. E todos proclamam Shabbat Shalom.

Esta Kehillat Beit Israel (Congregação dos Filhos de Israel) é especial. Pertence ao movimento Masorti (conservador/tradicional), a segunda maior denominação do Judaísmo, ou como os seus membros se definem, “um meio-termo entre a ‘esquerda’ religiosa representada pela Reforma e a ‘direita’ representada pela Ortodoxia [predominante].”

Dois dias antes do Shabbat, num hotel onde ele e Navah se alojam desde que, no Outono de 2005, começaram a vir a Lisboa todos os anos (este é a décima vez), para guiar os Bnei Anussim, o Rabi Jules dá-nos mais detalhes. Afinal, ele pertence à Assembleia Rabínica Masorti. É o seu chefe de liturgia, edita e traduz os novos siddurim (livros de orações judaicas). 

Desde o Outono de 2005 que o Rabi Jules e a sua mulher, Navah Harlow, vêm a Lisboa todos os anos para guiar os Bnei Anussim,. Ele pertence à Assembleia Rabínica Masorti. É o seu chefe de liturgia, edita e traduz os novos Siddurim (livros de orações judaicas © Pedro Cunha

Desde o Outono de 2005 que o Rabi Jules e a sua mulher, Navah Harlow, vêm a Lisboa todos os anos para guiar os Bnei Anussim. Ele pertence à Assembleia Rabínica Masorti. É o seu chefe de liturgia, edita e traduz os novos Siddurim (livros de orações judaicas)
© Pedro Cunha

“Queremos perpetuar a tradição mas, ao mesmo tempo, temos consciência de que já não vivemos na era da Bíblia ou do Talmude”, explica o Rabi de voz doce e sorriso luminoso. “Queremos que a tradição apoie as nossas vidas na realidade actual. Por exemplo, durante séculos, havia uma prece em que os homens diziam: ‘Graças a Deus por não ter feito de mim uma mulher’. E a mulher dizia: ‘Graças a Deus por me ter feito de acordo com Sua vontade’. No movimento Masorti mudámos isso para dizer: ‘Graças a Deus por me ter feito à Sua semelhança, homem e mulher.” A fórmula é a mesma, mas o conteúdo foi alterado para reflectir o que sentimos hoje.”

Navah, cuja vivacidade contrasta com a serenidade do marido, enfatiza as mudanças ocorridas nos últimos 15 anos: “Quando eu era pequena, havia uma oração na sinagoga que dizia: ‘Abençoado seja o presidente desta congregação, a sua mulher e os seus filhos’. Hoje, há mulheres presidentes e até rabis na comunidade Masorti. Antes, a oração colectiva só era possível se houvesse um minyam [quórum] de dez judeus homens.

Podia haver 20 mulheres e 9 homens mas não havia minyam, porque as mulheres não contavam. A Masorti e a Reforma [ao contrário da Ortodoxia] consideram que as mulheres são membros valiosos e devem ser incluídas”.

Navah mostra-se convencida de que foi este “carácter inclusivo” que atraiu os cripto-judeus da Kehillat Beit Israel. E revela como tudo se passou. “Um dia, em Nova Iorque, onde vivemos, fomos contactados pelo Departamento Central Masorti Olami em Jerusalém.”

“Disseram-nos que algumas pessoas em Lisboa tinham contactado o movimento, através de um rabi Masorti que viera a Portugal numa visita turística, e queriam recuperar a sua herança judaica.

Na Oneg Shabbat (refeição-convívio), depois da celebração do Shabbat e antes de passar à mesa, há um ritual de lavagem das mãos e depois não se fala (só linguagem gestual) até dois chalot, ou pães com sementes de sésamo e de papoila, e copos de vinho (na foto) serem abençoados pelo rabi. © Pedro Cunha

Na Oneg Shabbat (refeição-convívio), depois da celebração do Shabbat e antes de passar à mesa, há um ritual de lavagem das mãos e depois não se fala (só linguagem gestual) até dois chalot, ou pães com sementes de sésamo e de papoila, e copos de vinho (na foto) serem abençoados pelo rabi
© Pedro Cunha

O Rabi Joe Wernick, director executivo do Masorti Olami mundial, veio depois a Lisboa, achava que isto era credível, mas não tinha a certeza, e pediu-nos que assegurássemos se eles estavam seriamente empenhados em tornar-se judeus segundo a lei judaica (Halakah). Se sim, que iniciássemos com eles um curso de estudos de textos sagrados e prática religiosa, necessário a todos os que pretendem converter-se ao Judaísmo.”

Eles eram uns 12 ou 15, no princípio. Relatavam tradições familiares que são exclusivas dos judeus. “A avó de um deles, por exemplo, tinha uma faca grande em que ninguém podia tocar. Quando queria matar uma galinha, ela ia para o quintal, pegava na galinha, afastava as penas, dizia umas palavras que ninguém entendia e degolava a ave.”

“Pensamos que a avó dele era shohet [talhante], porque tinha aquela faca, sabia como matar animais com a mínima dor e dizer uma oração especial em hebraico.”

Adi Bat-Yehuda (nome adoptado confirmando que já é judia segundo a Halakha), economista reformada, também nunca questionara por que a família separava em duas gavetas distintas os talheres do peixe e da carne.

“A minha avó fazia isto, a minha mãe fazia isto”. Na tradição judaica é preciso ter dois conjuntos de cutelaria: um para os lacticínios e outro para a carne. A família de Adi manteve a tradição mas sem perceber porquê.

Na sexta-feira, foi Adi, ou Adriana, membro fundador da Kehillat Beit Israel, que nos abriu a porta do espaço comunitário e fez entrar num estreito corredor que dá acesso a uma cozinha, a uma sala de refeições, a uma varanda, a um pequeno museu e, claro está, à sinagoga – em cada umbral um mezuzah (pequeno rolo de pergaminho contendo duas passagens da Torah/Torá).

Fomos falar com ela, antes que o céu escurecesse – Navah avisara, peremptoriamente, que depois não seriam permitidas gravações, fotografias ou sequer tirar notas. O bloco e a caneta teriam de ser guardados antes de se acenderem duas velas que davam início ao Shabbat.

A exigência, cronometrada ao minuto, foi cumprida. Por volta das 20h45, começava o “dia do descanso” instituído por Deus, segundo os crentes.

Antes, porém, sentada num dos bancos de madeira da varanda, Adi partilha connosco a sua história e o desfecho feliz. “Desde miúda que sempre me insurgi contra a Igreja Católica. Em Moçambique, onde nasci, fui baptizada aos 4 anos para poder frequentar uma escola de freiras. Dei-lhes muitos problemas por causa das perguntas que fazia.”

“Nunca me satisfaziam as respostas que me davam. Acabei a instrução primária aos 9 anos e, por esta altura, emitiram uma autorização especial para que eu fizesse logo a comunhão solene e o crisma. A minha carreira de praticante acabou aqui”.

A economista Adi Bat-Yehuda (na foto), membro fundador da Kehillat Beit Israel, nunca questionara por que a família separava em duas gavetas distintas os talheres do peixe e da carne. “A minha avó fazia isto, a minha mãe fazia isto.” Na tradição judaica é preciso ter dois conjuntos de cutelaria: um para os lacticínios e outro para a carne. A família de Adi manteve a tradição mas sem perceber porquê. © Pedro Cunha

A economista Adi Bat-Yehuda (na foto), membro fundador da Kehillat Beit Israel, nunca questionara por que a família separava em duas gavetas distintas os talheres do peixe e da carne. “A minha avó fazia isto, a minha mãe fazia isto.” Na tradição judaica é preciso ter dois conjuntos de cutelaria: um para os lacticínios e outro para a carne. A família de Adi manteve a tradição mas sem perceber porquê
© Pedro Cunha

Adi nunca se interrogou sobre esta rebeldia até começar a remexer as memórias. “A minha mãe disse-me uma vez, em Lourenço Marques [actual Maputo] que, se eu viesse para Portugal, havia uma coisa que, em casa da minha avó eu nunca poderia falar. Era sobre Judaísmo. É um assunto interdito, disse-me ela, sem mais explicações.”

“Eu achei isto muito estranho. Até porque a minha mãe só viveu com a minha avó dos 18 anos 24 anos, tendo sido criada pela família do pai. Quando estudava eu ia à sinagoga. Sentia-me lá bem. Entretanto casei-me e fui ‘obrigada’ a fazê-lo pela Igreja Católica, porque o meu primeiro ex-marido era muito cumpridor. Eu ia levá-lo à missa e depois ia buscá-lo”.

Tudo mudou quando, um dia, em 1972, já com duas filhas, Adi foi visitar um tio que estava muito doente. “Ele fez um comentário, eu dei a minha opinião e ele replicou: ‘Não há dúvida nenhuma que és judia como a tua avó’! Eu fiquei espantada. ‘A minha avó é judia’? Ele observou: ‘Mas, ao fim destes anos todos, isto continua a ser um segredo’? Foi um dia muito feliz. Encontrei a explicação para tudo.”

Depois do 25 de Abril, em 1974, quando Adi veio para Lisboa, “agarrava nas filhas e ia aos sábados de manhã à Sinagoga [ortodoxa sefardita] Shaaré Tikva”, na Rua Alexandre Herculano. “Entrava, não percebia nada daquilo, mas ficava contente por lá estar.”

Chegou então o momento de provar a sua ascendência. “Fui frequentar a cátedra Alberto Benvenisti na Universidade de Letras. Tornei-me amiga de dois judeus, um de bastante idade e outro de Belmonte, que me disse para aparecer na Elias Garcia [rua onde antes funcionava a sinagoga Ohel Jacob].”

“O mais idoso ofereceu-se para falar com um amigo judeu no Porto e foi este, depois de eu expor a minha situação, que me enviou uma carta a dizer que conhecia a minha família e que, sim, eram judeus”, adiantou.

“A minha avó e o seu irmão eram livreiros alfarrabistas, e o meu tio costumava estar num recanto escondido com um kippa na cabeça. A minha avó não queria que soubessem que era judia. Tinha medo. Mais tarde vim a saber que ela era conhecida como ‘a judia da Rua da Picaria’, em todo o Porto.”

Com esta descoberta, Adi começou a frequentar os serviços religiosos e a entender por que nunca aceitara a confissão e a comunhão; o celibato dos padres e o dogma da Santíssima Trindade. A sua filha mais nova casou-se com um judeu francês.

A neta Leah, de 6 anos, “fez um serviço especial na sinagoga”; o neto, Benjamin, de 3 anos, foi submetido, logo nos primeiros oito dias de vida, como exige a Halakha, a uma brit milah (circuncisão).

“Não há descrição para o que sinto”, confessa Adi. “Encontrei justificação para a minha busca. Quando compareci perante o Beit Din [tribunal rabínico, uma das fases do processo de ‘retorno’], em Londres, disseram-me: ‘Sabe que uma vez sendo judia jamais poderá deixar de o ser’? Comovi-me e respondi: ‘Medo teria eu se isso pudesse acontecer’. Foi algo porque lutei e ninguém me pode tirar.”

Emoção sentiu Hayah Bat-Yonatan, quando chegou a Londres, em 2006, com a sua melhor amiga para prestar provas perante o Beit Din. O momento que a deixou sem palavras foi o mikveh (banho ritual): “Submergir na água e depois dizer o shemah [oração] foi… Ao fim de dez anos, fui reconhecida por aquilo que sentia que era. Andava à procura desta legitimidade.” © Pedro Cunha

Emoção sentiu Hayah Bat-Yonatan, quando chegou a Londres, em 2006, com a sua melhor amiga para prestar provas perante o Beit Din. O momento que a deixou sem palavras foi o mikveh (banho ritual): “Submergir na água e depois dizer o shemah [oração] foi… Ao fim de dez anos, fui reconhecida por aquilo que sentia que era. Andava à procura desta legitimidade”
© Pedro Cunha

Emoção foi também o que sentiu Hayah Bat-Yonatan, de 37 anos, quando chegou a Londres, em 2006, com a sua melhor amiga para prestar provas perante o Beit Din.

O momento que a deixou sem palavras foi o mikveh (banho ritual): “Submergir na água e depois dizer o shemah [oração] foi… Ao fim de dez anos, fui reconhecida por aquilo que sentia que era. Andava à procura desta legitimidade.”

E essa procura começou aos 13 anos, quando uma tia comentou, numa conversa de circunstância, que a família, muito pouco religiosa, era judia. “Na altura só pensei: ‘Olha que giro’!”, conta-nos, os seus olhos azuis confundindo-se com o turquesa da camisola.

No 11º ano, porém, Hayah foi para a Alemanha. “Achava que, talvez, vivendo lá conseguisse perceber como é que tinha sido possível um país inteiro alinhar naquilo. Tentar perceber como é que o Holocausto tinha sido possível. Continuo a não perceber.”

Chegada a hora de fazer uma tese de final de curso (Antropologia), Hayah escolheu ir para um kibbutz (comuna) em Israel. Do trabalho como voluntária na vacaria reforçou o gosto pelos animais, que a levou a estar agora a acabar outro curso, o de Veterinária. “Nunca fui especialmente religiosa”, afirma.

“Passei por fase de agnosticismo profundo. Aos 15 anos era ateia. Mas, lembro-me de estar em Jerusalém, em Janeiro de 1995, e sentir que tinha chegado a casa. Que todas as dúvidas que tinha em relação à religião não eram à religião, em geral, mas à religião católica. De repente vi-me num sítio onde havia muita gente igual a mim. Aquilo fazia sentido.”

“Quando eu era pequena, havia uma oração na sinagoga que dizia: ‘Abençoado seja o presidente desta congregação, a sua mulher e os seus filhos’”, explica Navah Harlow. “Hoje, há mulheres presidentes e até rabis na comunidade Masorti. Antes, a oração colectiva só era possível se houvesse um minyam [quórum] de dez judeus homens. Podia haver 20 mulheres e 9 homens mas não havia minyam, porque as mulheres não contavam. A Masorti e a Reforma [ao contrário da Ortodoxia] consideram que as mulheres são membros valiosos e devem ser incluídas”. (Na foto, orações matinais no na secção feminina do Kotel, ou Muro Ocidental, em Jerusalém, em 2013. © Michal Fattal

“Quando eu era pequena, havia uma oração na sinagoga que dizia: ‘Abençoado seja o presidente desta congregação, a sua mulher e os seus filhos’”, explica Navah Harlow. “Hoje, há mulheres presidentes e até rabis na comunidade Masorti. Antes, a oração colectiva só era possível se houvesse um minyam [quórum] de dez judeus homens. Podia haver 20 mulheres e 9 homens mas não havia minyam, porque as mulheres não contavam. A Masorti e a Reforma [ao contrário da Ortodoxia] consideram que as mulheres são membros valiosos e devem ser incluídas”. (Na foto, oração matinal na secção feminina do Kotel, ou Muro Ocidental, em Jerusalém)
© Michal Fattal

Plena de espiritualidade (ainda que o seu kibbutz fosse “totalmente secular”), Hayah lembra-se ainda de tentar arranjar um serviço de Sbabbat gravado. “Não sabia como rezar”, admite.

“Na altura já lia hebraico, porque na faculdade tirei um curso de hebraico bíblico. Foi uma senhora sul-africana, Rufina [Bernadetti Silva] Mausenbaum, que criou um fórum chamado ‘Saudades’, a apresentar-me ao grupo na Elias Garcia.” Agora, na congregação Masorti, Hayah sente que alguém a entende.

Passa agora ligeiramente das 9 da noite. Na sinagoga Ohel Jacob – a única ashkenaze (criada por judeus polacos e alemães fugidos da I Guerra Mundial) na Península Ibérica –, o Rabi Jules Harlow, com a sua tallit (faixa de tzitzit/franjas) ao pescoço, anuncia que vai conduzir um “serviço de estudos” porque não há minyam ou quórum (de 10 judeus) para uma completa Kabalat Shabbat (embora estivessem presentes 15 pessoas, nem todos completaram o processo de conversão).

Ohel está encostado a um bimah (púlpito) de onde cada um tira um siddur (livro de orações) bilingue. Atrás de si, está a Aaron Kodesh, arca sagrada onde se guardam os rolos da Torah.

De frente ou de costas para um grande menorah (candelabro), todos se esforçam por corresponder aos pedidos do rabi, ora rezando em português, ora em hebraico.

Para os cânticos, as vozes estão pouco afinadas, mas a concentração será total quando são chamados à amidah, oração individual de pé, composta por uma série de vénias. A cabeça balança, o corpo embala, os pés movem-se.

Para a frente, para os lados, para trás. De todos os presentes, um dos que parece mais extasiado é Bruno Obano, 28 anos, licenciado em Turismo. Ao contrário de Hayah e Adi, ele admite que não tem raízes judaicas. Está aqui para se converter, embora o Rabi Jules o tivesse tentado dissuadir (“Não fazemos proselitismo”, clarificou Navah).

Bruno justifica-se numa posterior conversa telefónica: “Apareci sem ser convidado. Senti uma necessidade espiritual que só o Judaísmo me pode dar, pela sua grande sabedoria. Eu não era crente. Não há ilusões quando se cresce, como eu, num meio pobre e miserável do Montijo”.

Há sete anos, durante um projecto de voluntariado europeu, Bruno estava em Viena, próximo do bairro judeu de onde muitos foram levados para campos de concentração durante o regime nazi. Foi na Áustria, “chocado com uma civilização europeia que desceu tão baixo”, que sentiu a vontade de “estabelecer uma aliança” com Deus.

Frequentador assíduo dos eventos da comunidade Masorti, Bruno já sabe recitar bênçãos e orações em hebraico. Tornou-se vegetariano para tentar cumprir as regras dietéticas kosher (não misturar lacticínios com carne, que nunca deve ser de porco; não comer moluscos, chocos, polvo ou marisco; no peixe, evitar o safio…).

Irá submeter-se a uma circuncisão cirúrgica (“Imagine o profundo compromisso que isto é para um homem”, vincou Navah) e completará o ritual com uma circuncisão simbólica (hataft dam brit), em que um rabi recolhe uma gota de sangue.

Bruno só será judeu quando o Beit Din determinar, mas mesmo não o sendo é bem aceite na cerimónia religiosa e na subsequente Oneg Shabbat (refeição-convívio). Antes de passar à mesa, há um ritual de lavagem das mãos e depois não se fala (só linguagem gestual) até dois chalot (pães com sementes de sésamo e de papoila) e copos de vinho serem abençoados pelo rabi.

O pão é cortado às fatias, temperado com sal e distribuído. Seguem-se os deliciosos pratos confeccionados por Adi: cuzcuz com grão, salada de pimentos encarnados, tomates no forno com óregãos, feijão-frade com atum, tarte de alho francês e pudim. Todos se apresentam – Danilo (membro mais antigo), Caetano, Lisa, Carlos, Manuela, Adriana (Adi), Eliana, Paula-João (Hayah), David, José, Bruno ­– e desvelam um pouco de si, gerando uma calorosa discussão.

Carlos, que já trabalhou nos Montes Golã e sonha morar lá, declara amor incondicional a Israel. Navah avisa-o: “Todos podemos ser sionistas, como são os cristãos fundamentalistas americanos, mas nem todos podemos ser judeus”.

Antes da sobremesa e do café, há uma última oração. É quase meia-noite. Alguns já saíram. Os que agora se vão embora dizem obrigado e adeus e prometem voltar.

No dia 26 de Abril de 2013, em Lisboa, realizou-se um acontecimento histórico: o primeiro Beit Din, ou Tribunal Rabínico, para confirmar a conversão ao Judaísmo de dois jovens brasileiros, Juliana Fernandes da Silva e Edgar Pimentel. Para se prepararem, ambos estudaram durante vários anos com o Rabi Jules e a sua mulher, Navah Harlow, da comunidade Masorti (Na foto, os quatro protagonistas) @Masorti Olami

A 26 de Abril de 2013, em Lisboa, realizou-se o primeiro Beit Din, ou Tribunal Rabínico, para confirmar a conversão de dois jovens brasileiros, Juliana Fernandes da Silva e Edgar Pimentel. Para se prepararem, ambos estudaram durante vários anos com o Rabi Jules e Navah Harlow. (Todos na foto)
© Masorti Olami

[No dia 26 de Abril de 2013, em Lisboa, realizou-se um acontecimento histórico: o primeiro Bet Din (ou Beit Din), Tribunal Rabínico, para confirmar a conversão ao Judaísmo de dois jovens brasileiros, Juliana Fernandes da Silva e Edgar Pimentel. Juliana é matemática e foi educada num lar católico;  o pai de Edgar é ateu e a mãe é católica não praticante. Para prepararem a sua conversão, ambos estudaram durante vários anos com o Rabi Jules e Navah.

Depois de o casal Harlow ter contado a sua experiência em Portugal, um grupo liderado pelo Rabi Chaim Weiner, director executivo da Masorti Europe, em Londres, organizou à descoberta da herança judaica. Assim que a viagem foi planeada, descobriram que podiam realizar um Bet Din, já que um terceiro Rabi, Reuven Hammer, também estaria presente.

A conversão de Juliana e Edgar fez parte  de uma celebração especial do Shabbat que incluiu os membros da Kehillat Bet Israel (Congregação dos Filhos e Israel) e os participantes na ‘tour’]    

O movimento Masorti (conservador/tradicional) é a segunda maior denominação do Judaísmo, ou como os seus membros se definem, “um meio-termo entre a ‘esquerda’ religiosa representada pela reforma e a ‘direita’ representada pela Ortodoxia [predominante]”
© masorti.org

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 de Julho de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 3, 2008

“Maomé nunca existiu”?

A tese de que “o Corão é um texto cristão, o Islão não é uma religião independente e o seu profeta é um título para Jesus” tem sido desenvolvida por um grupo de académicos alemães na qual se destaca Karl-Heinz Ohlig. Em entrevistas que nos deram, ele e dois dos seus críticos, Michael Marx e Daniel Birnstiel, justificam o fosso que os separa. (Ler mais | Read more…)

© Ishara S. Kodikara | AFP | dawn.com

 

A polémica terá começado em 2001, depois dos atentados atribuídos à Al-Qaeda nos Estados Unidos, quando Christoph Luxenberg (pseudónimo de um professor alemão), autor da obra The Syro-Aramaic Reading of the Koran: A Contribution to the Decoding of the Language of the Koran, desfez os sonhos de potenciais bombistas suicidas: se esperam virgens no paraíso só encontrarão uvas.

Luxemberg partiu da ideia de que o Corão deveria ser estudado de um “ponto de vista histórico-linguístico”. E, como “o árabe não existia” quando o livro sagrado dos muçulmanos foi composto, pareceu-lhe claro, como explicou ao jornal Süddeutsche Zeitung, ser necessário considerar o aramaico que era, nos séculos IV e VII d.C., “língua escrita de comunicação e língua franca” numa vasta área do antigo Médio Oriente.

É interessante perceber como ele chegou à teoria da fruta da videira. “Comecei com o termo ‘huri’ que, para estudiosos árabes, não tinha outro significado que não fosse virgens celestiais”, disse Luxenberg.

“No entanto, se tivermos em mente as derivações do sírio-aramaico, essa expressão indica ‘uvas brancas’ – um dos elementos simbólicos do paraíso cristão, evocado na Última Ceia de Cristo.”

Blasfemo para alguns muçulmanos, o livro de Luxemberg (que analisa apenas cerca de 5% do texto corânico) não foi o único a causar furor, em 2000, ano da primeira edição.

Outra obra, The Hidden Origins of Islam: New Research into Its Early History (Prometheus Books 2008), de Karl-Heinz Ohlig e Gerd Rüdiger Puin, desencadeou talvez ainda mais controvérsia. Não se limita a confirmar as alegadas origens sírio-aramaicas do Corão, como advoga que o Islão foi concebido como “heresia cristã e não religião independente”, e que Maomé seria “um título para Jesus”.

Ohlig é professor de Estudos Religiosos e História do Cristianismo na Universidade do Sarre, na Alemanha. Puin é também um académico germânico, na mesma universidade, especialista na ortografia história corânica, estudo e interpretação de manuscritos antigos e paleografia árabe. Sarre é um dos 16 estados federais da Alemanha (Bundesländer) e a sua capital é Saarbrücken.

 

Robertus Pudyanto | Getty Images | npr.org

Inquirido sobre as suas “provas” Ohlig, que tem publicado em Portugal Religião, Tudo o que é Preciso saber (Casa das Letras), respondeu-nos por e-mail: “Muitos islamólogos no Ocidente fazem remontar as origens do Islão e da vida do profeta [Maomé] à rica literatura muçulmana dos séculos IX e X; as fontes literárias mais antigas não existem.”

“O próprio Corão é omisso sobre os primórdios da religião. É certo que há passagens por vezes citadas como prova histórica por muçulmanos e islamólogos, mas olhadas mais profundamente revelam-se muito opacas, mais compreendidas do que interpretadas na perspectiva da tradição tardia.”

Esta tradição, acrescenta Ohlig, apareceu numa altura em que “o Islão já se tornara na base religiosa de vastos impérios políticos e depois de Maomé se ter firmemente estabelecido como uma figura de referência idealizada.”

“O Islão não é apenas uma religião mundial mas é, acima de tudo, um fenómeno histórico que deve ser investigado, com a ajuda dos métodos de crítica histórica aplicados em todas as disciplinas históricas. Ou, mais precisamente, em todas as disciplinas históricas excepto a dos ‘estudos islâmicos’, pelo menos até agora.”

© Bay Ismoyo | AFP | Getty Images | TIME

 

O Corão, assegura Ohlig, “reflecte a influência não só de material bíblico, canónico e apócrifo, mas também, surpreendentemente, um íntimo conhecimento da literatura religiosa da antiguidade tardia. É difícil imaginar que esta literatura fosse do conhecida pelos condutores de camelos analfabetos na povoação desértica remota de Meca de onde, segundo a tradição muçulmana, Maomé provém,”

Para Ohlig, membro do instituto de investigação INARAH, do qual também faz parte Luxenberg, “a única conclusão lógica é a de que o Corão foi escrito” numa língua fortemente influenciada pelo sírio-aramaico”, noutro lugar, por autores que possuíam o conhecimento necessário”.

Há outra “prova”, além de manuscritos, que Ohlig invoca: “Na cunhagem de moedas (depois de 641) abundam símbolos cristãos, e as primeiras moedas contendo a inscrição Muhammad (depois de 661) não foram produzidas na Arábia, mas a leste da Mesopotâmia.”

“Estas moedas também exibem iconografia cristã. Muhammad (‘O Venerado’) não parece ser um nome próprio mas um epíteto cristão (como ‘servo de Deus’, ‘mensageiro’, ‘profeta’). E isto é visível na inscrição da Cúpula do Rochedo em Jerusalém”, construída durante o reinado (685-705) do califa Abd al-Malik.

Na Cúpula do Rochedo, acentua, “Muhammad quer dizer o ‘Servo de Deus’ (em árabe: ‘Abd-allah, o Messias Jesus, filho de Maria). (…) Segundo o Corão, o profeta foi visto pela primeira vez como uma espécie de apóstolo cuja missão era corroborar a Torah e o Evangelho. Só no século IX foi considerado o fundador de uma nova religião.”

 

© AFP | straitstimes.com

“Estas teorias nunca foram sequer colocadas como hipótese por investigadores muçulmanos (como Seyyed Hossein Nasr, Khaled Abou el Fadl ou Tariq Ramadan) e são apenas defendidas por uma franja minoritária, como o professor Ohlig e os seus companheiros de armas”, critica Daniel Birnstiel, investigador no Instituto para o Estudo da Cultura Islâmica e Religião, na Goethe Universitaet Frankfurt am Main, na Alemanha, e o primeiro research fellow do Cambridge Muslim College, no Reino Unido.

“Há uma diferença radical no modo de abordar o tema”, explica-me, por e-mail, o também colunista do site alemão Qantara.de (“Ponte”) dedicado ao debate de questões islâmicas.

“De um lado, está a investigação científica nos estudos islâmicos, que tenta desvendar a história do Corão tendo em conta os seus múltiplos contextos religiosos e culturais (discussões e debates envolvendo judeus, cristãos de diferentes denominações e pagãos de diversos tipos), usando métodos interdisciplinares de compreensão”.

“Do outro lado, está a aplicação por parte de Ohlig de um modelo pré-concebido (a cristandade desenvolveu-se como heresia judaica, logo o Islão deve ter começado como heresia cristã), onde a prova é forçada para encaixar na teoria.”

“Esta controvérsia não vai transformar nem abrir a teologia islâmica. O contrário vai acontecer: muitos teólogos muçulmanos vão fechar-se e abandonar o diálogo com o Ocidente a cristandade. A omnipresente referência ao Iluminismo está pejada de populismo.”

“O Iluminismo per se não é garantia de moderação: não evitou o colonialismo, as guerras mundiais, o fascismo, o nacional-socialismo ou o estalinismo.”

 

© Lim Yaohui | straitstimes.com

Para Michael Marx, coordenador do projecto Corpus Coranicum na Universidade de Berlim-Brandemburgo, a principal falha nos estudos de Ohlig e de Muhammad Sven Kalisch tem a ver com “as provas vagas” que apresentam.

“Podemos e devemos, naturalmente, requer provas e fontes históricas sobre Maomé e sobre muitas questões ainda em aberto, mas não é justo dizer que as provas sustentam que o profeta não existiu.”

Há muitas estudos na tradição islâmica, sublinha Marx, incluindo antigos manuscritos do Corão que podem ser datados dos anos 80 e 90 do século VIII, “menos de três gerações depois de o profeta ter morrido (supostamente em 632), e temos uma comunidade islâmica que remonta ao século VII” e, por isso, “é improvável que nos séculos VIII ou IX um poder central tenha ‘criado’ Maomé.”

“Muitos muçulmanos hoje partilham a mesma visão sobre o seu profeta, mesmo quando discordem em muitas outras coisas”, afirma Marx. “Se o profeta tivesse sido criado, por que não há vestígios dessa ausência de historicidade? Se o Corão foi ‘um texto cristão’ por que é que Jesus Cristo não aparece em mais do que aproximadamente 120 versículos, já que figuras como Abraão, Moisés e Noé aparecem com mais frequência?”

“Quanto aos primórdios da história do Islão, ao Corão e às tradições do profeta ou as primeiras moedas do período omíada, temos muitas questões [em aberto], mas temos primeiro de preparar o terreno antes de pronunciar grandes teorias.”

Por que motivo o método da crítica histórica aplicado aos Estudos Islâmicos é quase sempre ressentido como um ataque à religião? Envolvido num projecto que tenta fazer a exegese corânica já consumada no Antigo e Novo Testamentos, Marx tem uma explicação:

– “A crítica histórica da Bíblia demorou séculos, não devíamos aceitar também que no mundo muçulmano o processo evoluirá da mesma maneira que aconteceu na Europa? Mesmo que a expressão ‘crítica histórica’ não exista no árabe clássico do século X ou XI, há uma série de estudiosos na Andaluzia, como Ad-Dani, que escreveram sobre variantes de leitura dos textos [sagrados].”

Em todo o caso, Marx reconhece que existe um fosso entre ciência e teologia. “A Ciência trabalha a possibilidade de adquirir conhecimento pela experiência, o método empírico. Isso é impossível nas humanidades e na teologia.”

“Se alguém pensar que o único conhecimento ‘real’, a seguir ao século XIX, é conseguido através das ciências naturais, então há um conflito. Isso não desvaloriza, necessariamente, a Teologia. Há questões levantadas pela teologia que outras ‘ciências’ não abordam, como a relação entre o homem e Deus.”

 

© AFP | straitstimes.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in 2008

Portugueses e Persas: 500 anos de fascínio

Em 1507, Portugal chegou à Pérsia quando os safávidas impunham a religião xiita que domina o actual Irão. Até 1622, competiram como ideologias rivais pelo controlo de Ormuz. Olharam-se com desconfiança e fascinação. Mudaram a Eurásia e celebram agora 500 anos de relações. (Ler mais | Read more...)

Portugueses saboreando uma refeição no Golfo Pérsico – dentro de água, devido ao calor intenso na região
© defense.info

Ao olhar para uma representação da Pérsia e de Ormuz, num atlas de Teixeira de Albernaz do século XVII, que abre a exposição dos 500 anos de relações entre Portugal e o Irão, na Torre do Tombo, em Lisboa, o embaixador Rasool Mohajer deixou-se maravilhar.

Afinal, a imagem moderna do golfo por onde hoje passa 20 a 25% do petróleo que o mundo consome deve muito a essa primeira cartografia.

Vindo de um país onde muitos documentos históricos se perderam devido a invasões, pilhagens ou desastres naturais, o diplomata recém-chegado a Lisboa ouviu atentamente a descrição empolgada que o comissário científico João Teles e Cunha ia fazendo de algumas das 42 peças expostas – mapas, cartas, crónicas, tratados, contratos, discursos.

Minutos antes, ao inaugurar a exposição (quatro vezes adiada), Mohajer já havia enaltecido a “ambição e a coragem dos portugueses que, para controlar os mares, percorreram oceanos e continentes, em barcos artesanais, descobrindo países antes desconhecidos”.

Realçou o simbolismo de “o primeiro embaixador estrangeiro na Pérsia” (em 1513) ter sido um português e de os portugueses terem chegado à região no momento em que os safávidas unificavam o país com uma religião única – o Islão xiita duodecimal (que crê em 12 imãs ou líderes espirituais).

É esse Islão xiita que impediu o embaixador de apertar a mão à secretária de Estado da Cultura e às outras mulheres (por serem estranhas e não familiares) presentes na exposição, embora os safávidas da corte do Xá Ismael I fossem muito mais liberais do que os actuais iranianos.

“Até bebiam vinho, o que escandalizou os portugueses”, quando chegaram em 1507, diz-me João Teles e Cunha.

Se causou choque, também encantou, porque João de Barros, o cronista do império marítimo lusitano, que ordenou a tradução do primeiro texto literário persa para uma língua europeia (o português), se deixou deslumbrar por uma doutrina muito mais parecida com o Cristianismo (crença numa divindade oculta) do que com o Islão sunita.

O forte português de Nossa Senhora da Conceição, na ilha de Ormuz (Irão)
© Wikimedia Commons

“O xiismo só começa verdadeiramente a ser conhecido em 1503-1504”, explica-me, numa entrevista por e-mail, Dejanirah Couto, a historiadora portuguesa que herdou, na École Pratique des Hautes Études, de Paris, a cátedra de Jean Aubin, provavelmente o maior estudioso do Golfo Pérsico, que morreu em 1998.

“Os costumes sociais não eram os mesmos [dos mais conhecidos muçulmanos do Norte de África] – os persas do Xá Ismael da altura tinha uma cultura de herança chamanista/turcomana/nómada/das estepes da Ásia Central desconhecida dos portugueses.”

Assim, quando Afonso de Albuquerque chegou com a sua armada em 1507 e depois em 1515, portugueses e persas olharam-se “com desconfiança, mas também fascinação”, acrescenta Dejanirah Couto, autora com Rui Manuel Loureiro de Revisiting Hormuz: Portuguese Interactions in the Persian Gulf Region in the Early Modern Period.

“O lado ‘belicoso’ dos portugueses era apreciado na Pérsia [sobretudo a técnica, armas e navios dos farang ou infiéis, “povo de ladrões que vivia no mar”]. O poder e a riqueza do Xá também impressionavam os portugueses.”

No entanto, as relações eram “tensas”, acrescenta. “Ormuz pagava um tributo aos persas (ao Xá Ismael desde 1504) e Albuquerque pretendeu confiscar em seu favor esse tributo. Os persas nunca apreciaram, e só não invadiram Ormuz porque havia uma longa tradição de independência do reino (e além disso o Xá estava ocupado com os otomanos).”

A aliança com os safávidas é atribuída por Teles e Cunha à necessidade de os portugueses “neutralizarem os mamelucos do Egipto, que dominavam o Norte do Iraque, Síria e Líbano (…), e bloquearem todas as rotas alternativas das especiarias”.

Dejanirah Couto acentua que os portugueses “queriam salvaguardar os domínios da Índia ameaçados pelo Sultanato de Bijapur“, xiita e aliado dos persas. “Fazendo aliança com os persas, salvaguardava-se a Índia (sobretudo Goa).”

Castelo português em Qeshm (antiga Queixume)
© pinterest.com

Teles e Cunha destacou um pacto que Albuquerque e Ismael fizeram, caso derrotassem os mamelucos: o Rei D. Manuel I ficaria com Jerusalém e o Xeque persa com Meca e Medina – ambos concretizariam “sonhos messiânicos de conquista mundial, com o objectivo de salvação e redenção, a fim de instaurar um governo justo”.

Dejanirah Couto confirma, mas ironiza: “Era um bluff de Albuquerque, apoiado nas ideias messiânicas de D. Manuel. Nem o Xá nem Albuquerque tinham forças para atacar Meca. Nesse bluff, Albuquerque até ‘vendeu’ o Gujarat ao Xá que, no entanto, não lhe pertencia. Era uma maneira de negociar politicamente.”

Mas que impacto teria uma eventual vitória? “Ah! Teria desestruturado o ‘bloco islâmico’ com consequências incalculáveis para o Império Otomano que conquista o Egipto em 1517.”

A exposição na Torre do Tombo centra-se sobretudo em objectos políticos e o seu comissário científico destaca que as relações entre um “império marítimo” (Portugal) e uma “potência terrestre orgulhosa da sua tradição cultural milenar” (Pérsia) foram sobretudo políticas.

Dejanirah Couto corrobora, dizendo que “os primeiros contactos artísticos, pelo menos para a primeira metade do século XVI, foram poucos”. Porque os portugueses “estão confinados a Ormuz, têm pouco contacto com a Pérsia continental”.

Castelo português construído no século XVI na ilha de Ormuz
© iran-daly.com

“O contencioso político, e também económico, a propósito de Ormuz, e a questão da rivalidade, a propósito da Índia, dificultaram uma maior cooperação cultural, artística, literária e linguística”, adianta.”A Índia está sempre presente em filigrana; a tensão só vai diminuindo no final do século XVI, mas acende-se de novo com o Xá Abbas I (que não renunciou a Ormuz).”

O rei que subiu ao poder aos 16 anos e se proclamava “sombra de Deus na Terra” expulsou os portugueses, em 1622.

Para Dejanirah Couto, “sem dúvida que Albuquerque e o Xá Ismael” são as figuras mais determinantes do período em que os portugueses – testemunhas da ascensão e declínio dos safávidas – permaneceram no Golfo.

“É um grande duelo de negociação diplomática, embora por intermédio de personagens da corte persa, muito importantes para a gestão do reino, como Mirza Xá Hossein Esfahani. E mais tarde, com Ruy Freire de Andrade/Xá Abbas I, o duelo é quase o mesmo a um século de distância: ou seja, também para Abbas, em 1608 e em 1613, era importante o pagamento do tributo.”

Hoje, o conhecimento mútuo é desequilibrado. Diz Dejanirah Couto: “O problema é a falta de especialistas em Portugal que dominem as línguas da região”, sobretudo o árabe, o farsi e o turco.

Ao resumir os préstimos nas respectivas línguas, o comissário Teles e Cunha lamenta: só umas 13 palavras portuguesas coexistem com o farsi/persa (língua franca que influenciou mais o português). Exemplos: tabáku (tabaco), ânânâs (ananás), miz (mesa) e talvez arghanun (órgão), que os persas desconheciam antes de Albuquerque chegar.

Outro ângulo do forte português em Ormuz
© Hamed Saber | colonialvoyage.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 20 de Junho de 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 20, 2008

A primeira judia embaixadora de um país árabe

Houda Nonoo foi escolhida pelo rei do Bahrain para chefiar a missão diplomática nos EUA; a ilha do Golfo Pérsico estará interessada em laços formais com Israel. (Ler mais | Read more…)

Houda Nonoo, a judia, escolhida pelo Rei do Bahrain para ocupar o mais importante cargo diplomático: embaixadora nos Estados Unidos. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Houda Nonoo, a judia, escolhida pelo rei do Bahrain para ocupar o mais importante cargo diplomático: embaixadora nos Estados Unidos
© monocle.com

O Bahrain, “pérola do Golfo Pérsico” que os portugueses controlaram de 1521 até 1602, tomou uma decisão histórica, ao nomear a primeira embaixadora judia de um país árabe.

Houda Ezra Ibrahim Nonoo, de 43 anos, foi escolhida pelo rei, Hamad bin Isa al-Khalifa, para chefiar a mais importante missão diplomática, nos Estados Unidos.

“É uma grande honra e estou ansiosa por enfrentar este desafio”, exultou Huda Nonoo, citada pela BBC. Desvalorizou o facto de pertencer a uma minúscula comunidade – menos de 50 dos cerca de 700 mil habitantes de um país muçulmano, onde a maioria (perseguida) é xiita (65%  da população) e a monarquia é sunita. “Acima de tudo vou servir como cidadã do Bahrain.”

Em 2005, Houda Nonoo, banqueira e presidente de uma organização de direitos humanos, já havia sido integrada pelo rei no Shura (conselho consultivo), que tem 40 membros (nenhum eleito).

Com a sua nomeação, o Bahrain, rico em petróleo e com uma classe média liberal, rara no mundo árabe, passou a ter três embaixadoras. A primeira foi  Sheikha Haya Rashed Al-Khalifa, membro da família real e advogada de profissão. Foi embaixadora em França, de 1999 a 2004, e agora é nas Nações Unidas.

Foi também representante do seu país junto da UNESCO e depois presidiu à Assembleia-Geral das Nações Unidas – a terceira mulher a exercer essa função. Bibi Sayed Sharaf Al-Alawi, licenciada em História no Cairo e com um mestrado concluído na Sorbonne, em Paris, é embaixadora na China.

Os antepassados de Huda Nonoo chegaram ao Bahrain vindos do Iraque, numa viagem que interromperam a caminho da Índia, nos anos 1880
© becauseilovesand.files.wordpress.com

O que pretende, afinal, o monarca reformador que em 1999 sucedeu a um pai autocrata que exacerbou tensões confessionais?

“Quer agradar a Washington e esta é uma operação de relações públicas”, escreveu o jornal de Washington Middle East Times. Está a enviar um sinal para “estabelecer laços com Israel”, acrescentou o diário israelita Ha’aretz.

[Em Junho de 2019, à margem de uma reunião em Manamá sobre um plano económico para a região apresentado por Jarred Kushner, genro de Donald Trump, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Bahrain, Khalid bin Ahmed Al Khalifa, disse que “Israel é um país da região e está aqui para ficar – é claro!“]

Em 2006, para assinar um acordo de comércio livre com os EUA, Hamad al-Khalifa ordenou o encerramento de um departamento que promovia o boicote árabe aos produtos israelitas.

Huda Nonoo pertence à mais influente das famílias judias no Bahrain. Os seus antepassados deixaram o Iraque a caminho da Índia, nos anos 1880, mas interromperam a viagem na ilha sem fronteiras cujo nome significa “dois mares” (devido à mistura de fontes de água doce e salgada).

Foi o avô, Abraham, que criou aqui um negócio de câmbios, que a designada embaixadora (mãe de dois rapazes) e o marido ainda hoje gerem.

Abraham David é agora o patriarca dos Nonoo. Também ele membro do Shura, foi encarregado pelo soberano de convencer outros judeus a regressarem ao país onde esta comunidade chegou a ter 1500 almas. Ficou reduzida a 200-300 após a criação de Israel, em 1948, e diminuiu mais ainda após a guerra de 1967.

Foi por esta altura que a sinagoga foi incendiada. Perante o colapso iminente do edifício, os fiéis quiseram desfazer-se dele.

O rei disse não, e Ibrahim foi quem mais contribuiu para o restauro. É a única sinagoga no Golfo Pérsico. Não é de estranhar que seja no Bahrain, onde também há templos cristãos, hindus, sikhs e de outras religiões.

Sheikha Haya Rashed Al-Khalifa, membro da casa real, foi a primeira mulher embaixadora do Bahrain: primeiro em França e depois na ONU

Os primeiros judeus a chegar ao Bahrain, no final dos anos 1880, eram comerciantes vindos do Iraque, Irão e Índia. Naquele que é hoje o mais pequeno (620 quilómetros quadrados) dos 22 países da Liga Árabe encontraram “o lugar ideal” para viver.

Enquanto os Nonoo prosperaram na banca, os Yadgar fizeram fortuna nos têxteis, tal como os Khedouri. Um outro empresário de sucesso (vende material electrónico) é Rouben Rouben, nascido em 1954 de uma família sefardita oriunda de Bagdad.

“Nos anos 1930/40, a Rua Al-Mutanabi era conhecida como a “Rua dos Judeus””, lembra Rouben, citado pela revista americana Jewish News Weekly. “Ao sábado, todos fechavam as lojas para o Shabbat.” Em 1948, com a criação de Israel, irromperam tumultos. A sinagoga foi queimada e muitos judeus emigraram para a Grã-Bretanha. A partir da guerra de 1967, “a vida em comunidade terminou”.

Rouben culpa “estrangeiros” pelos motins, e assegura que “muitos muçulmanos acolheram os judeus” perseguidos. Hoje, raramente são celebrados em conjunto a Páscoa e o Yom Kippur [feriado da “expiação dos pecados”].

Não há orações na sinagoga, ainda que já tenha paredes e telhado novos. Rouben não desanima: “Não me vou embora. Esta é a minha casa.” Meir Nonoo também diz: “Quando morrer, enterrem-me aqui. Quero descansar em paz.”

[O mandato de Houda Nonoo chegou ao fim em Novembro de 2013.]

Huda Nonoo pertence à mais influente das famílias judias no Bahrain. @DR

Huda Nonoo pertence à mais influente das famílias judias no Bahrain
© The Washington Post

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Maio de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 1, 2008

Suleiman Bakhit: O Walt Disney do mundo árabe

Os americanos apropriaram-se de Aladino, os japoneses de Sindbad e os árabes ficaram sem super-heróis. Mas, agora têm dezenas – e um deles é Naar, um menino com poderes sobrenaturais num Médio Oriente sem petróleo e sem adultos. O seu criador é um jordano que ambiciona criar uma Disneylândia árabe. E tudo começou com um ataque racista nos EUA. (Ler mais| Read more…)

© Aranim Media Factory

Numa quarta-feira à noite, três meses depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, Suleiman Bakhit regressava ao campus da Universidade do Minnesota depois de fazer algumas compras.

“Quatro tipos brancos saíram de um bar”, conta-me, numa conversa telefónica, a partir de Amã, capital da Jordânia, onde nasceu, vive e trabalha.

“Olharam para mim e reconheceram-me. Eu era presidente da Associação de Estudantes Estrangeiros e participava em muitas acções de campanha contra actos de racismo. Começaram a insultar-me: Fuck the Arabs! Bateram-me com uma garrafa e envolvemo-nos numa rixa”.

rosto e o pescoço de Bakhit tiveram de ser submetidos a operações plásticas para “disfarçar as cicatrizes”. Hoje ostenta as marcas dos quase 300 pontos das cirurgias, com a mesma vaidade com que exibe as tatuagens.

Vingou-se? “Vinguei-me à minha própria maneira”, diz, sem que a voz, num inglês fluente, denuncie azedume. “Peguei numa experiência negativa e transformei-a numa positiva. Se eu fosse espancar miúdos americanos não ganhava nada com isso.”

O que fez então Bakhit, na altura com 25 anos? “Havia um programa chamado International Classroom Connection. No primeiro aniversário do 11/9, em 2002, fui convidado a ir falar a várias escolas, com meninos e meninas, dos 6 aos 8 anos.”

“Expliquei-lhes que a minha cor de pele, a minha religião [muçulmana] e até a minha comida eram as da maioria das pessoas no Médio Oriente. Mas, tal como nem todos os brancos são do Ku Klux Klan (KKK), nem todos os árabes são da al-Qaeda.”

“Um dia, numa aula, pedi-lhes que me olhassem e perguntei-lhes se tinham medo de mim. Murmuraram uns com os outros, depois disseram-me: No. You are one of the good guys”.

Numa dessas sessões, uma menina interpelou-o: “Vocês têm uma Barbie árabe? Tem um Superman árabe? Têm heróis?”

Bakhit ficou em pânico. Sem palavras. Só pensava: “Oh, meu Deus, não temos super-heróis. Não temos cartoons árabes. Não temos as nossas histórias. Noventa por cento do que chega até nós vem do estrangeiro.”

“Foi então que tive uma ideia, que nunca mais saiu da minha cabeça: preciso de arranjar heróis que sejam fonte de inspiração e de esperança para a juventude árabe.”

“Quero ser o Walt Disney do mundo árabe, criar personagens fantásticas e uma Dinesylândia, para mudar o modo como os árabes se vêem e os outros nos vêem.”

Suleiman Bakhit
© thelavinagency.com

Havia um problema: Bakhit nunca tinha desenhado. “Nem quando eu era miúdo peguei num lápis de cor”, confessa. As interrogações eram muitas. “Como seria um herói árabe? Como seria um Batman ou um Superman árabes?”

Aquela menina desafiou a minha imaginação”, lembra-se. “Fui à Internet à procura de diferentes estilos. Não sou um excelente desenhador, mas tenho boas ideias e encontrei pessoas com muito talento, como o brasileiro Edu [Eduardo Francisco] que me ajudaram.”

“Faltavam-me dois semestres para acabar o mestrado em HRD, Human Resources Development [Desenvolvimento em Recursos Humanos], e precisava de tomar uma decisão.”

“Se ficasse na América para acabar os estudos teria de arranjar um emprego na universidade. Mas já tinha desenvolvido algumas personagens e tive medo de perder a oportunidade de concretizar o meu sonho.”

“Então, para viver esse sonho, desisti de acabar o mestrado, peguei no dinheiro que poupei (uns 50 mil dólares) e voltei para a Jordânia”.

Foi aqui, em Outubro de 2006, que nasceu a Aranim Media Factory – o nome combina as palavras “árabe” e “animação”.

E Naar foi o primeiro super-herói a emergir do storyboard de Suleiman. “O seu nome significa fogo”, explica o criador. “Há muitos personagens no mundo ocidental que têm a capacidade de manipular o fogo. Eu quis fazer diferente. Segundo a mitologia árabe, há vários tipos de fogo. Naar tem o poder das sete chamas e não voa” (risos).

A história é sobre o Apocalipse num Médio Oriente sem petróleo, em 2050. Um grupo de miúdos acorda numa cidade escondida, por baixo das ruínas de Petra, património da humanidade, na Jordânia. “Sozinhos, sem adultos, eles descobrem que têm poderes sobrenaturais”, relata Suleiman. “Vão ter de decidir o que fazer – se salvam este mundo ou não. Será que eles podem ser melhores do que nós fomos?”

A banda desenhada de Naar foi muito bem aceite pelo público. Testada em focus group, crianças ajudaram a definir o argumento.

Êxitos foram também Mansaf e Ouzi, personagens inspiradas nos pratos nacionais da Jordânia ­– o primeiro, carne de carneiro, cozinhada em molho jameed, espécie de iogurte, e servida com arroz, amêndoas e pinhões; o segundo composto de arroz e frango. “A resposta foi fenomenal”, exulta Suleiman.

@ARANIM MEDIA FACTORY

© Aranim Media Factory

Bakhit pegou então num herói jordano e fez dele um super-herói. O tenente Muwaflaq al-Salti foi protagonista de uma das mais longas batalhas da história da aviação. Morreu quando o seu obsoleto Hunter foi abatido por um sofisticado Mirage israelita na guerra de 1967.

Quase 50 mil exemplares foram impressos e distribuídos gratuitamente em jornais locais antes do lançamento oficial.

Dias depois, estes desenhos estavam no mercado negro de Amã, a um dinar. Talvez a pirataria tenha atraído ainda mais fãs, porque a tiragem posterior (e legal) foi de 2,4 milhões de cópias.

Nada mau, num país e numa região onde não há tradição (nem posses) de comprar este tipo de publicações.

“As pessoas tendem a esquecer estes heróis e os jovens nem sequer os conhecem”, realça Suleiman. “O meu objectivo é combater o extremismo, para contrariar ídolos como Al-Zarqawi [o assassinado líder da al-Qaeda no Iraque, nascido na Jordânia], introduzindo figuras contemporâneas mais moderadas.”

“Tento encorajar a juventude a tomar o seu destino nas próprias mãos. Quero encorajar valores positivos, como a tolerância, a perseverança, o trabalho árduo.”

E nesta categoria, a dos que lutam por causas nobres, inscreve-se outro super-herói: Abu Khadija, um lendário pugilista jordano que, desempregado e com os filhos doentes, se dedicou ao boxe para salvar a família. “Inspirei-ne em Rocky [de Sylvester Stalone], embora eu ache, sinceramente, que o meu trabalho é melhor”, diverte-se Suleiman.

“Queríamos que fosse uma banda desenhada, mas apresentámos a ideia a alguns produtores, que gostaram dela e sugeriram um filme de animação. Encomendaram o argumento. Acabámos de fazer o primeiro draft. Ainda precisa de alguns retoques. Talvez esteja tudo pronto no Verão, e depois vamos testar se as pessoas gostam”.

Bakhit - Photo 4

© Aranim Media Factory

Suleiman está entusiasmado com a perspectiva de vir a produzir “o primeiro filme de animação árabe”. Lamenta que “os americanos tenham maltratado Aladino – um estereótipo tão diferente da história real” – e que os japoneses tenham transformado Sindbad, o marinheiro “de uma figura comovente num tipo estúpido”.

Mas não é Aladino e Sindbad que lhe interessam. “Isso é mitologia árabe antiga e já ninguém lhes dá muita importância”, desvaloriza.

Da aventura histórica à ficção científica, o objectivo agora é usar “heróis, vilões, temas e estilos artísticos autenticamente árabes, para chamar a atenção dos jovens do mundo inteiro, com um toque médio oriental.”

Depois da banda desenhada e dos filmes de animação, as etapas seguintes serão as dos jogos de vídeo, onde haverá “muitos guerreiros árabes”, e do merchandising. A ambição é chegar aos 200 milhões de jovens do mundo árabe mas não só. “Primeiro conquistamos a Jordânia, depois o resto do Médio Oriente e a seguir o mercado internacional”, revela.

Para que todos estes sonhos se tornem realidade, Suleiman Bakhit precisa de parceiros estratégicos. Dois deles são o King Abdullah Fund for Development (KAFD) e a Aramex International, companhia de transportes e logística, com clientes em mais de 240 países. Ter como patrono uma instituição ligada à monarquia jordana não limita o processo criativo?

“Oh, não, não de maneira nenhuma!”, assevera o dono da Aranim. “Dão-nos toda a liberdade.” A isso não será alheio o facto de Suleiman garantir que não tenciona passar mensagens políticas: “No Médio Oriente tudo o que fazemos é interpretado como política, mas a minha mensagem é cultural.”

Os tempos mais difíceis já passaram. Foi quando ele regressou à pátria e ficou a saber que o seu pai, Marouf al-Bakhit, havia sido designado pelo rei primeiro-ministro.

Alguns investidores ofereceram-se para financiar uma Disneylândia árabe, mas estavam mais interessados em obter favores políticos do que em injectar capital. Surgiram conflitos de interesses e as poupanças pessoais rapidamente se esgotaram.

“Felizmente que o meu pai já não chefia o Governo, só é membro do Parlamento e mais ligado aos militares”, ri-se Suleiman. “Agora, ninguém mais interfere na minha criação. Em 2009 esperamos ser uma empresa lucrativa.”

“Somos cinco a trabalhar a tempo inteiro. Eu e a minha equipa internacional. Com o início do ano escolar, em Setembro, e o lançamento de novos produtos, 2008 será o ano to make or break [do tudo ou nada]. Ajudou muito o artigo [de quase uma página] que o Financial Times publicou sobre mim. Há mais gente interessada em investir.”

E se não der certo? “Não tenciono desistir”, jura. “Em criança, um dos meus shows de animação favoritos era japonês e chamava-se Grendizer. Divertia-me e encorajava-me a imaginar coisas que podiam realizar-se. Também gostava de histórias de trabalho em grupo, de amizade, onde ninguém desistia mesmo que houvesse dificuldades.”

[ Suleiman Bakhit, aclamado como um verdadeiro “superherói árabe” morreu em 14 de Agosto de 2019 depois de uma longa batalha contra um cancro.]

Suleiman Bakhit morreu em 14 de Agosto de 2019 depois de uma longa batalha contra um cancro
© The National

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no diário PÚBLICO em 29 de Maio de 2008| This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 29, 2008

eDuardo fRancisco é a mão direita de Suleiman

Os super-heróis criados pelo jordano a quem chamaram “Walt Disney árabe” devem muito à arte final de um brasileiro. (Ler mais | Read more…)

© edufrancisco.daportfolio.com

Não foram as raparigas nuas, de corpos tatuados, seios proeminentes, cabelos cor de carvão e de fogo desenhadas pelo brasileiro Eduardo Francisco que seduziram o jordano Suleiman Bakhit.

“Gostei da sua flexibilidade, da sua atitude, do seu espírito de equipa”, disse-nos o fundador de Aranim, explicando por que contratou o artista de São Paulo para o seu projecto. “Ambos partilhamos uma visão”.

Edu, como Suleiman carinhosamente trata o amigo que só conhece pela Internet, explica-se por e-mail: “Algumas destas pinups que eu desenho são criações para a minha galeria e outros pedidos de clientes ocidentais, que demandam estas características para as heroínas (não só nas histórias de quadrinhos, mas cinema, TV, etc). Não tem relação nenhuma com o que faço para o público do Oriente Médio, na Aranim.”

Victory, por exemplo, é uma sensualíssima guerreira, personagem central do que eDufRancisco (é assim que ele assina o seu trabalho) descreve como “a primeira HQ [história de quadradinhos] brasileira totalmente produzida no Brasil” e publicada numa míni-série em quatro partes pela Image Comics, a terceira maior editora do género nos Estados Unidos.

Aqui, Edu é também produz com o escritor norte-americano David Wohl um novo projecto chamado Executive Assistant: Iris [que a editora Aspen Comics [planeara publicar no início de 2009].

No Brasil mantém a sua “parceria de sucesso” com o argumentista Marcelo Cassaro, que participa igualmente em Aranim (juntamente com outra brasileira, a designer Gislene Matsui).

Foi há quase dois anos que eDufRancisco, 27 anos de idade e a desenhar desde os 17, recebeu um e-mail de Bakhit com uma proposta de trabalho.

Hoje, desenha a maioria dos álbuns, posters e capas de estúdio, além de rever os trabalhos dos colaboradores.

Todas as obras começam no gabinete de Suleiman em Amã. O fundador da Aranim “ escolhe ou cria um conceito baseado nas histórias épicas ou contos da mitologia árabe”, explica eDufRancisco.

“A seguir, ele entra em contacto com Marcelo Cassaro, que desenvolve o conceito em forma de história de quadrinhos. Quando o processo das letras está devidamente revisto e, em comum acordo, chega a minha etapa de trabalho: com o roteiro [argumento] em mãos, geralmente planejo a página num esboço de tamanho bem pequeno (thumbnails).”

“Eu gosto de fazer assim porque este tamanho permite visualizar todo o layout numa batida de olhos e poupa-me tempo nas correcções. Depois, eu os escaneio [digitalizo], envio para o editor e, logo que aprovado, faço o lápis e a arte final de cada página”.

A última fase é “hospedar o arquivo em alta resolução (para impressão) no folder da empresa, onde é armazenado todo o arquivo”.

© cafart.r.worldssl.net

Edu reconhece que o seu conhecimento do mundo árabe se resumia ao que via nos “noticiários sensacionalistas”. Com Suleiman, passou a identificar-se “com o conceito de super-herói do Oriente (místico e mitológico) mais do que com os heróis ocidentais”.

Porque, “no Oriente, as personagens dos contos são, na grande maioria, pessoas comuns que apresentam fraquezas humanas e que no dia-a-dia as tentam superar, alcançando grandes feitos.”

“Eu gosto de quase todos os estilos de desenhos e não me comprometo apenas com um”, salienta eDufRancisco, admitindo que o seu trabalho, também admirado no Japão e na Europa, se foi desenvolvendo sob a influência do Mangá e do Comics americano.

“Acho divertido experimentar o que cada um tem de melhor e tentar mesclar isso no papel. Alguns chamam este estilo de ‘híbrido’, derivado de vários, o mais popular do mercado”.

[Desde que deixou a Aranim, eDuardo fRancisco trabalha em Concept Art para a indústria de ‘videogames’ nos Estados Unidos, na DC Comics (“acabei de entregar uma ‘one-shot’ de ‘Adventures of Superman’) e Dark Horse Comics (“onde fiz ‘Turok: Son of Storm’, ‘Mass Effect’, ‘Two Minutes to Midnight’ e ‘Captain Midnight’”).

No seu país-natal, acabou de ilustrar com um amigo um ‘encarte’ de um álbum de “uma banda brasileira famosa”, para a Warner Music BR. Produz ainda diversas ilustrações para outras editoras (livros juvenis) e estúdios.]

© edufrancisco.artstation.com/projects/bEZlE

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no diário PÚBLICO em 29 de Maio de 2008| This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 29, 2008