Tzipi Livni: A “herdeira natural” de Sharon

Tzipi Livni faz hoje [8 de Julho de 2008] 50 anos e já fez quase tudo. Foi tenente no Exército, empregada de mesa, agente de espionagem, advogada, deputada e titular de vários cargos ministeriais. Poderá dirigir o Governo? Os rivais dizem-lhe que ela “não é suficientemente homem” para ocupar o lugar. As sondagens mostram o contrário. (Ler mais | Read more…)

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

O Presidente Moshe Katsav demitiu-se depois de acusações de violação e assédio sexual. O primeiro-ministro, Ehud Olmert, é suspeito num escândalo de corrupção. Em crise de liderança, Israel parece ter os olhos postos na “senhora mãos limpas”, Tzipora Malka Livni, para vir a ocupar o número 3 da Rua Kaplan em Jerusalém – sede do Governo, diminutivo por que é conhecida a [antiga] ministra dos Negócios Estrangeiros e vice-primeira-ministra, completa hoje [8 de Julho de 2008] 50 anos de idade.

Foi considerada a mulher mais poderosa de Israel [um “título” que agora é atribuído a Sara Netanyahu, mulher do actual chefe do Governo]. Segundo a revista TIME, é “uma das 100 mais influentes do mundo”.

As sondagens (por agora) apontam-na como a única capaz de derrotar Benjamin Netanyahu, do Likud, o favorito para as legislativas, sem data. Esta popularidade está a irritar os rivais: Shaul Mofaz (general e ministro dos Transportes), Avi Dichter (ex-chefe do Shin Bet e ministro da Segurança Interna), membros do seu partido centrista, Kadima; Ehud Barak (outro general), líder do Labour. Insinuam que ela “não é suficientemente homem” para suceder a Ehud Olmert.

A direita, por seu turno, sua antiga família política, acusa Livni de ter “traído” a memória dos pais, defuntos combatentes da resistência judaica, ao aceitar uma solução de dois Estados para o conflito com os palestinianos.

Como explicar a campanha que está em marcha para desacreditar a filha de Eitan Livni e Sarah Rosenberg? Afinal, ela tem todas as credenciais para seguir os passos de Golda Meir, que foi primeira-ministra aos 70 anos, de 1969 a 1974, desafiando o machismo da sociedade bem evidente na célebre frase do “pai da nação”, David Ben-Gurion: “Ela é o único homem do meu Governo.”

Tzipi Livni com o defunto primeiro-ministro Ariel Sharon: ela acompanhou-o quando ele deixou o Likud, depois das divisões criadas após a retirada unilateral da Faixa de Gaza, e formou o Kadima. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni com o defunto primeiro-ministro Ariel Sharon: ela acompanhou-o quando ele deixou o Likud, depois das divisões criadas após a retirada unilateral da Faixa de Gaza, e formou o Kadima
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni tem um invejável pedigree nacionalista. O pai, Eitan, foi comandante-chefe do Irgun, o grupo liderado por Menachem Begin que, nos anos 1940 pré-Israel, cometeu ataques terroristas contra alvos britânicos e árabes dentro e fora da Palestina histórica.

Um dos piores atentados, quase 100 mortos, foi o que destruiu o Hotel King David, em Jerusalém, em 1946. Neste ano, o polaco Eitan foi capturado após a sabotagem de uma linha férrea e condenado a 15 anos de prisão. Dois anos depois conseguiu fugir da cadeia e passou a organizar acções clandestinas na Europa.

Regressou em 1948 para participar na primeira guerra israelo-árabe e para se unir a Sarah Rosenberg, também ela combatente do Irgun, famosa por assaltar e fazer explodir comboios. O deles foi o primeiro casamento no recém-criado Estado judaico. Fundador do movimento Herut que deu origem ao partido Likud, Eitan foi também deputado por este partido em duas legislaturas no Knesset.

Antes de morrer, em 1991, ordenou que na sua pedra tumular fossem gravados um mapa do “Grande Israel”, seguindo o lema sionista “o rio Jordão tem duas margens e as duas são nossas”, e a inscrição: “Aqui jaz o chefe de operações do Irgun Zvi Leumi” (Organização Militar Nacional).

Talvez por ser filha de dois “guerrilheiros”, Livni foi, até agora, o único membro do Governo israelita a distinguir entre ataques palestinianos a civis e a militares. “Quem luta contra o Exército é um inimigo, e nós ripostaremos, mas isto não encaixa na definição de terrorismo”, disse a uma cadeia de televisão americana.

Mais tarde, quando explicou ao jornal The New York Times por que já não lutava pela bíblica Israel dos seus pais – ela que na década de 1970 se manifestava nas ruas contra a shuttle diplomacy de Henry Kissinger, que queria fazer concessões territoriais ao Egipto e à Síria e que se opôs veementemente aos Acordos de Oslo de 1993 –, a direita bradou: “Eitan Livni dá voltas no túmulo.”

Israeli Foreign Minister Tzipi Livni in her car on her way to visit a few villages in North Israel as part of her campaign, Aug 08, 2008. Livni is running against Israeli Deputy Prime Minister Shaul Mofaz for the leadership of Kadima party to be decided upon in September 2008. Livni won the the support of a minister close to Prime Minister Ehud Olmert on Thursday, boosting her bid to lead the ruling Kadima party and possibly become premier. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni, na altura ministra dos Negócios Estrangeiros, em 8 de Agosto de 2008, no seu carro, a caminho de povoações no Norte de Israel, durante a campanha eleitoral para suceder a Shaul Mofaz como líder do partido Kadima
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Para Tzipi, cujo gabinete no MNE só tem um quadro na parede – a fotografia do pai –, a sua transformação assenta num “simples cálculo”. Não é possível conciliar três objectivos ideológicos – Grande Israel, um Estado judaico e uma democracia. O crescimento demográfico nos territórios ocupados obriga a abdicar do “Grande Israel” para que Israel se mantenha uma democracia e um Estado judaico.

Em defesa da filha, a ultra-sionista Sarah fez uma declaração poucos meses antes da sua morte, em Outubro de 2007: “Magoa-me dizer isto, mas nós não lutámos pelo Estado de Israel para a nossa geração e sim para as gerações vindouras. Eu confio na decisão de Tzipi. Ela tem sempre razão.”

Sarah nunca ficou agarrada ao passado. Na homenagem fúnebre, Tzipi recordou como a mãe, aos 80 anos, “foi passar férias a Eilat [uma estância turística] e voltou com as orelhas cheias de piercings, como se fosse uma rapariga de 16.”

Quem também confiava em Livni era Ariel Sharon, o seu mentor. Foi ele que a introduziu na política, colocando-a num lugar elegível para deputada em 1999. Em seis anos, nomeou-a para sete cargos diferentes no Governo.

O ex-primeiro-ministro apreciava a sua “capacidade analítica”. Ela fez parte do “gabinete restrito” que preparou a retirada unilateral da Faixa de Gaza e, quando ele saiu do Likud para formar o Kadima, ela foi a primeira a segui-lo, assumindo a responsabilidade de redigir o programa político do novo partido.

Livni com Ehud Olmert. o primeiro-ministro que viu a sua imagem destruída depois da guerra do Líbano de 2006 e vários casos de corrupção pelos quais tem vindo a ser julgado. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Livni e Ehud Olmert. o primeiro-ministro que viu a sua imagem destruída depois da guerra do Líbano de 2006 e vários casos de corrupção pelos quais tem vindo a ser julgado
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Em Janeiro de 2006, quando Sharon, herói e vilão de várias guerras, sofreu uma embolia cerebral e mergulhou em estado de coma [morreu em Janeiro de 2013], Livni foi apontada como a herdeira natural. Mas ela preferiu afastar-se e deixar o cargo para Ehud Olmert.

Na altura, muito poucos questionaram o facto de o antigo presidente da Câmara de Jerusalém não ter background militar. Agora ele está sob fogo pela forma desastrosa como, há dois anos [em 2006], confrontou o Hezbollah no Líbano. E está a ser investigado por, alegadamente, ter recebido milhões de dólares, num processo de tráfico de influências.

“A principal vantagem de Tzipi Livni neste momento é a sua imagem politicamente limpa, sem manchas de corrupção nem de má conduta durante a II Guerra do Líbano”, diz-nos, por telefone, o israelita Gershom Goremberg, colunista da American Prospect e do New York Times, autor de duas obras de referência para entender a colonização dos territórios palestinianos: The Unmaking of Israe e The Accidental Empire: Israel and the Birth of the Settlements, 1967-1977,

“Do ponto de vista da sociedade, ela é seguramente muito popular, mas quem domina a máquina do partido são os homens. E Mofaz, em particular, quer muito suceder a Olmert.” Goremberg salienta o desafio. “O problema da corrupção incomoda o país, mas é relativamente secundário face à questão da segurança”.

Licni om o primeiro-ministro Benjaamin Netanyahu, em cujo Governo entrou como ministra da Justiça, depois de se mudar do Kadima para o Hatnuah (Movimento), seu actual partido. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Tzipi Livni com o primeiro-ministro, Benjaamin Netanyahu, em cujo Governo entrou como ministra da Justiça, depois de se mudar do Kadima para o Hatnuah (Movimento), seu actual partido
© Miriam Alster | FLAHSH90

Ela está consciente disso, de outro modo, acrescenta o analista, não teria chegado ao jornal britânico The Sunday Times (para contornar a censura israelita) a informação de que Livni não foi “garota de secretária” quando trabalhou para a Mossad em Paris, nos anos 1980.

Antigos colegas disseram ao mesmo diário que ela “tem um QI de 150” e ajudou antigos comandos a perseguir pela Europa várias figuras da OLP. O seu presumível papel no assassínio de Mamoun Mraish por dois agentes, em Atenas, é ainda um tabu.

Livni entrou nos serviços secretos aos 22 anos, quando saiu do Exército. Com a patente de tenente, distinguiu-se duas vezes como “a mais brilhante oficial”. A coragem com que enfrentava duros treinos impressionava os companheiros.

Foi Mirla Gal, amiga de infância, que a recrutou. “Era muito boa no que fazia e só deixou a agência [em 1984] por livre iniciativa”, revelou ao New York Times. “Poderia ter feito uma carreira de 20 anos. A sua inteligência, frieza, rapidez de análise e rectidão eram qualidades muito valiosas para a Mossad.”

Livni, que tinha sido empregada de mesa no Sinai, antes de Begin restituir a península a Anwar Sadat em 1981, aspirava a uma “vida normal”. Quando regressou a Israel, concluiu o curso de Direito Comercial, que a levou a trabalhar no sector privado, durante uma década, e a coordenar a privatização das empresas do Estado.

Tzipi Livni ajusta o nó da gravata do marido, Naftali Spitzer, was taken by Michal Fattal jdurante as cerimónias do 63º aniversário da criação de Israel, no Monte Herzl, em Jerusalém, em 2011. © Michal Fattal | Ha'aretz

Tzipi Livni ajusta o nó da gravata do marido, Naftali Spitzer, durante as cerimónias do 63º aniversário da criação de Israel, no Monte Herzl, em Jerusalém, em 2011
© Michal Fattal | Ha’aretz

Casou-se com Naftali Spitzer, proprietário de uma agência de publicidade. Tem dois filhos: Omri e Yuval. É vegetariana desde os 12 anos. Gosta de roupas simples e ténis. Não se sente confortável em tailleurs e saltos altos. Adora fazer compras em mercados de rua. Já teve o cabelo escuro e com caracóis antes de o pintar de louro.

Estes detalhes, que vão sendo expostos na imprensa norte-americana, europeia e israelita, são acompanhados de outros, enfatizando que Livni é favorável a um acordo com os palestinianos, mas não com os sírios. E que, face à ameaça do Irão [uma citação errada do ex-Presidente Ahmadinejad] de “riscar Israel do mapa”, ela será implacável: “Iremos destruí-los antes de nos destruírem.”

Gershom Goremberg diz-nos que Livni “será melhor negociadora do que Barak”, porque sabe ser, simultaneamente, flexível e intransigente (é garantido que não cederá no “direito de retorno” dos refugiados palestinianos). “Ela pode não ser tão eloquente como Abba Eban [o primeiro chefe da diplomacia de Israel], mas é muito profissional. Gosta de ver as coisas feitas. É eficiente ainda que não carismática. E está bem colocada – no centro político.”

Naomi Chazan, ex-deputada do partido de esquerda Meretz, enviou-nos por e-mail um texto onde afirma: “Tzipi Livni não tem de suportar o peso de erros passados, como Netanyahu e Barak. E mesmo que não seja o político visionário de que Israel desesperadamente precisa neste momento, em comparação com os seus adversários, dentro e fora do partido, ela oferece um raio de esperança para um futuro diferente.

Livni e uma grande amiga, a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Livni e uma grande amiga, a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

É por isso que ela tem sido um alvo, não pelo que ela representa mas pelo que ela é.” Se em Israel feministas como Chazan se sentiram no dever de “socorrer” Livni, mesmo não comungando a sua filosofia política, nos Estados Unidos há muito que a protegida de Sharon tem uma grande aliada: a homóloga Condoleezza Rice.

“Tzipi é mais do que colega, tornou-se minha amiga”, escreveu “Condi” no elogio encomendado pela revista TIME para a edição das 100 mulheres mais influentes do mundo. “Sentamo-nos durante horas a debater ideias, livre, aberta e por vezes combativamente (…). Respeito-a profundamente. Gosto de tê-la por perto [falam ao telefone duas vezes por semana].”

É uma amizade que já foi posta à prova. Glenn Kessler, biógrafo de Rice, escreve em The Confidante que Tzipi tentou convencer “Condi” a não encorajar eleições palestinianas, em Janeiro de 2006, porque o Hamas iria ganhar. “Condi” não lhe deu ouvidos e arrependeu-se.

No Verão do mesmo ano, foi “Condi” a pedir a Tzipi que Israel não bombardeasse o Líbano. Livni nada podia fazer. Ela quis parar a guerra logo nos primeiros dias, sugerindo uma solução diplomática, mas Olmert recusou. Foi até ao fim, e perdeu. “A minha filha tem sempre razão”, dizia Sara Rosenberg.

[Em Novembro de 2012, Tzipi Livni fundou o Hatnuah (Movimento), para “revitalizar o processo de paz”. Levou consigo dissidentes do Kadima, que chefiou até Março de 2012. Nas legislativas de 2013, ganhou seis lugares no Parlamento, com cerca de 5% dos votos. Netanyahu ofereceu-lhe a pasta da Justiça e a responsabilidade de negociar com os palestinianos. In the 2014, afastou-a e, no ano seguinte, ela aliou-se ao Partido Trabalhista, de Isaac Herzog, para criar a União Sionista.] 

© Gershom Gorenberg

© Gershom Gorenberg

© Naomi Chazan

© Naomi Chazan

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 8 de Julho de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 8, 2008

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s