“Maomé nunca existiu”?

A tese de que “o Corão é um texto cristão, o Islão não é uma religião independente e Maomé é um título para Jesus” tem sido desenvolvida por um grupo de académicos alemães na qual se destaca Karl-Heinz Ohlig. Em entrevistas que nos deram, ele e dois dos seus críticos, Michael Marx e Daniel Birnstiel, justificam o fosso que os separa. (Ler mais | Read more…)

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A polémica terá começado em 2001, depois dos atentados atribuídos à al-Qaeda nos Estados Unidos, quando Christoph Luxenberg (pseudónimo de um professor alemão), autor da obra The Syro-Aramaic Reading of the Koran: A Contribution to the Decoding of the Language of the Koran, desfez os sonhos de potenciais bombistas suicidas: se esperam virgens no paraíso só encontrarão uvas.

Luxemberg partiu da ideia de que o Corão deveria ser estudado de um “ponto de vista histórico-linguístico”. E, como “o árabe não existia” quando o livro sagrado dos muçulmanos foi composto, pareceu-lhe claro, como explicou ao jornal Süddeutsche Zeitung, ser necessário considerar o Aramaico que era, nos séculos IV e VII d.C., “língua escrita de comunicação e língua franca” numa vasta área do antigo Médio Oriente.

É interessante perceber como ele chegou à teoria da fruta da videira. “Comecei com o termo ‘huri’ que, para estudiosos árabes, não tinha outro significado que não fosse virgens celestiais”, disse Luxenberg. “No entanto, se tivermos em mente as derivações do sírio-aramaico, essa expressão indica ‘uvas brancas’ – um dos elementos simbólicos do paraíso cristão, evocado na Última Ceia de Cristo.”

Blasfemo para alguns muçulmanos, o livro de Luxemberg (que analisa apenas cerca de 5% do texto corânico) não foi o único a causar furor, em 2000, ano da primeira edição.

Outra obra, The Hidden Origins of Islam: New Research into Its Early History (Prometheus Books 2008), de Karl-Heinz Ohlig e Gerd Rüdiger Puin, desencadeou talvez ainda mais controvérsia. Não se limita a confirmar as alegadas origens sírio-aramaicas do Corão, como advoga que o Islão foi concebido como “heresia cristã e não religião independente”, e que Maomé seria “um título para Jesus”.

Ohlig é professor de Estudos Religiosos e História do Cristianismo na Universidade do Sarre, na Alemanha.  Puin é também um académico germânico, na mesma universidade, especialista na ortografia história corânica, estudo e interpretação de manuscritos antigos e paleografia árabe. Sarre é um dos 16 estados federais da Alemanha (Bundesländer) e a sua capital é Saarbrücken.

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Inquirido sobre as suas “provas” Ohlig, que tem publicado em Portugal Religião, Tudo o que é Preciso saber (Casa das Letras), respondeu-nos por e-mail: “Muitos islamólogos no Ocidente fazem remontar as origens do Islão e da vida do profeta [Maomé] à rica literatura muçulmana dos séculos IX e X; as fontes literárias mais antigas não existem.”

“O próprio Corão é omisso sobre os primórdios da religião. É certo que há passagens por vezes citadas como prova histórica por muçulmanos e islamólogos, mas olhadas mais profundamente revelam-se muito opacas, mais compreendidas do que interpretadas na perspectiva da tradição tardia.”

Esta tradição, acrescenta Ohlig, apareceu numa altura em que “o Islão já se tornara na base religiosa de vastos impérios políticos e depois de Maomé se ter firmemente estabelecido como uma figura de referência idealizada. O Islão não é apenas uma religião mundial mas é, acima de tudo, um fenómeno histórico que deve ser investigado, com a ajuda dos métodos de crítica histórica aplicados em todas as disciplinas históricas. Ou, mais precisamente, em todas as disciplinas históricas excepto a dos ‘estudos islâmicos’, pelo menos até agora.”

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O Corão, assegura Ohlig, “reflecte a influência não só de material bíblico, canónico e apócrifo, mas também, surpreendentemente, um íntimo conhecimento da literatura religiosa da antiguidade tardia. É difícil imaginar que esta literatura fosse do conhecida pelos condutores de camelos analfabetos na povoação desértica remota de Meca de onde, segundo a tradição muçulmana, Maomé provém,”

Para Ohlig, membro do instituto de investigação INARAH, do qual também faz parte Luxenberg, “a única conclusão lógica é a de que o Corão foi escrito” numa língua fortemente influenciada pelo sírio-aramaico”, noutro lugar, por autores que possuíam o conhecimento necessário”.

Há outra “prova”, além de manuscritos, que Ohlig invoca: “Na cunhagem de moedas (depois de 641) abundam símbolos cristãos, e as primeiras moedas contendo a inscrição Muhammad (depois de 661) não foram produzidas na Arábia, mas a leste da Mesopotâmia. Estas moedas também exibem iconografia cristã. Muhammad (‘O Venerado’) não parece ser um nome próprio mas um epíteto cristão (como ‘servo de Deus’, ‘mensageiro’, ‘profeta’). E isto é visível na inscrição da Cúpula do Rochedo em Jerusalém”, construída durante o reinado (685-705) do califa Abd al-Malik.

Na Cúpula do Rochedo, acentua, “Muhammad quer dizer o ‘Servo de Deus’ (em árabe: ‘Abd-allah, o Messias Jesus, filho de Maria). (…) Segundo o Corão, o profeta foi visto pela primeira vez como uma espécie de apóstolo cuja missão era corroborar a Torah e o Evangelho. Só no século IX foi considerado o fundador de uma nova religião.”

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“Estas teorias nunca foram sequer colocadas como hipótese por respeitados investigadores (como Seyyed Hossein Nasr, Khaled Abou el Fadl ou Tariq Ramadan) e são apenas defendidas por uma franja minoritária, como o professor Ohlig e os seus companheiros de armas”, critica Daniel Birnstiel, investigador no Instituto para o Estudo da Cultura Islâmica e Religião, na Goethe Universitaet Frankfurt am Main, na Alemanha, e o primeiro research fellow do Cambridge Muslim College, no Reino Unido.

“Há uma diferença radical no modo de abordar o tema”, explica-nos, por e-mail, o também colunista do site alemão Qantara.de (“Ponte”) dedicado ao debate de questões islâmicas.

“De um lado, está a investigação científica nos estudos islâmicos, que tenta desvendar a história do Corão tendo em conta os seus múltiplos contextos religiosos e culturais (discussões e debates envolvendo judeus, cristãos de diferentes denominações e pagãos de diversos tipos), usando métodos interdisciplinares de compreensão; de outro lado, está a aplicação por parte de Ohlig de um modelo pré-concebido (a cristandade desenvolveu-se como heresia judaica, logo o Islão deve ter começado como heresia cristã), onde a prova é forçada para encaixar na teoria.”

“Esta controvérsia não vai transformar nem abrir a teologia islâmica. O contrário vai acontecer: muitos teólogos muçulmanos vão fechar-se e abandonar o diálogo com o Ocidente a cristandade. A omnipresente referência ao Iluminismo está pejada de populismo. O Iluminismo per se não é garantia de moderação: não evitou o colonialismo, as guerras mundiais, o fascismo, o nacional-socialismo ou o estalinismo.”

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Para Michael Marx, coordenador do projecto Corpus Coranicum na Universidade de Berlim-Brandemburgo, a principal falha nos estudos de Ohlig e de Muhammad Sven Kalisch tem a ver com “as provas vagas” que apresentam.

“Podemos e devemos, naturalmente, requer provas e fontes históricas sobre Maomé e sobre muitas questões ainda em aberto, mas não é justo dizer que as provas sustentam que o profeta não existiu.”

Há muitas estudos na tradição islâmica, sublinha Marx, incluindo antigos manuscritos do Corão que podem ser datados dos anos 80 e 90 do século VIII, “menos de três gerações depois de o profeta ter morrido (supostamente em 632), e temos uma comunidade islâmica que remonta ao século VII” e, por isso, “é improvável que nos séculos VIII ou IX um poder central tenha ‘criado’ Maomé.”

“Muitos muçulmanos hoje partilham a mesma visão sobre o seu profeta, mesmo quando discordem em muitas outras coisas”, afirma Marx. “Se o profeta tivesse sido criado, por que não há vestígios dessa ausência de historicidade? Se o Corão foi ‘um texto cristão’ por que é que Jesus Cristo não aparece em mais do que aproximadamente 120 versículos, já que figuras como Abraão, Moisés e Noé aparecem com mais frequência?”

“Quanto aos primórdios da história do Islão, ao Corão e às tradições do profeta ou as primeiras moedas do período omíada, temos muitas questões [em aberto], mas temos primeiro de preparar o terreno antes de pronunciar grandes teorias.”

Por que motivo o método da crítica histórica aplicado aos Estudos Islâmicos é quase sempre ressentido como um ataque à religião? Envolvido num projecto que tenta fazer a exegese corânica já consumada no Antigo e Novo Testamentos, Marx tem uma explicação: “A crítica histórica da Bíblia demorou séculos, não devíamos aceitar também que no mundo muçulmano o processo evoluirá da mesma maneira que aconteceu na Europa? Mesmo que a expressão ‘crítica histórica’ não exista no árabe clássico do século X ou XI, há uma série de estudiosos na Andaluzia, como Ad-Dani, que escreveram sobre variantes de leitura dos textos [sagrados].”

Em todo o caso, Marx reconhece que existe um fosso entre ciência e teologia. “A Ciência trabalha a possibilidade de adquirir conhecimento pela experiência, o método empírico. Isso é impossível nas humanidades e na teologia. Se alguém pensar que o único conhecimento ‘real’, a seguir ao século XIX, é conseguido através das ciências naturais, então há um conflito. Isso não desvaloriza, necessariamente, a Teologia. Há questões levantadas pela teologia que outras ‘ciências’ não abordam, como a relação entre o homem e Deus.”

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in 2008

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