O Walt Disney do mundo árabe

Os americanos apropriaram-se de Aladino, os japoneses de Sindbad e os árabes ficaram sem super-heróis. Mas, agora têm dezenas – e um deles é Naar, um menino com poderes sobrenaturais num Médio Oriente sem petróleo e sem adultos. O seu criador, Suleiman Bakhit, é um jordano que ambiciona criar uma Disneylândia árabe. E tudo começou com um ataque racista nos EUA. (Ler mais| Read more…)

© Aranim Media Factory

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Numa quarta-feira à noite, três meses depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, Suleiman Bakhit regressava ao campus da Universidade do Minnesota depois de fazer algumas compras. “Quatro tipos brancos saíram de um bar”, conta-me, numa conversa telefónica, a partir de Amã, capital da Jordânia, onde nasceu, vive e trabalha.

“Olharam para mim e reconheceram-me. Eu era presidente da Associação de Estudantes Estrangeiros e participava em muitas acções de campanha contra actos de racismo. Começaram a insultar-me: Fuck the Arabs! Bateram-me com uma garrafa e envolvemo-nos numa rixa”.

rosto e o pescoço de Bakhit tiveram de ser submetidos a operações plásticas para “disfarçar as cicatrizes”. Hoje ostenta as marcas dos quase 300 pontos das cirurgias, com a mesma vaidade com que exibe as tatuagens.

Vingou-se? “Vinguei-me à minha própria maneira”, diz, sem que a voz, num inglês fluente, denuncie azedume. “Peguei numa experiência negativa e transformei-a numa positiva. Se eu fosse espancar miúdos americanos não ganhava nada com isso.”

O que fez então Bakhit, na altura com 25 anos? “Havia um programa chamado International Classroom Connection. No primeiro aniversário do 11/9, em 2002, fui convidado a ir falar a várias escolas, com meninos e meninas, dos 6 aos 8 anos.”

“Expliquei-lhes que a minha cor de pele, a minha religião [muçulmana] e até a minha comida eram as da maioria das pessoas no Médio Oriente. Mas, tal como nem todos os brancos são do Ku Klux Klan (KKK), nem todos os árabes são da al-Qaeda. Um dia, numa aula, pedi-lhes que me olhassem e perguntei-lhes se tinham medo de mim. Murmuraram uns com os outros, depois disseram-me: No. You are one of the good guys”.

Numa dessas sessões, uma menina interpelou-o: “Vocês têm uma Barbie árabe? Tem um Superman árabe? Têm heróis?” Bakhit ficou em pânico. Sem palavras. Só pensava: “Oh, meu Deus, não temos super-heróis. Não temos cartoons árabes. Não temos as nossas histórias. Noventa por cento do que chega até nós vem do estrangeiro.”

“Foi então que tive uma ideia, que nunca mais saiu da minha cabeça: preciso de arranjar heróis que sejam fonte de inspiração e de esperança para a juventude árabe. Quero ser o Walt Disney do mundo árabe, criar personagens fantásticas e uma Dinesylândia, para mudar o modo como os árabes se vêem e os outros nos vêem.”

Bakhit - Photo 2

© Direitos Reservados| All Rights Reserved

Havia um problema: Bakhit nunca tinha desenhado. “Nem quando eu era miúdo peguei num lápis de cor”, confessa. As interrogações eram muitas. “Como seria um herói árabe? Como seria um Batman ou um Superman árabes?”

Aquela menina desafiou a minha imaginação”, lembra-se. “Fui à Internet à procura de diferentes estilos. Não sou um excelente desenhador, mas tenho boas ideias e encontrei pessoas com muito talento, como o brasileiro Edu [Eduardo Francisco] que me ajudaram. Faltavam-me dois semestres para acabar o mestrado em HRD, Human Resources Development [Desenvolvimento em Recursos Humanos], e precisava de tomar uma decisão.”

“Se ficasse na América para acabar os estudos teria de arranjar um emprego na universidade. Mas já tinha desenvolvido algumas personagens e tive medo de perder a oportunidade de concretizar o meu sonho. Então, para viver esse sonho, desisti de acabar o mestrado, peguei no dinheiro que poupei (uns 50 mil dólares) e voltei para a Jordânia”.

Foi aqui, em Outubro de 2006, que nasceu a Aranim Media Factory – o nome combina as palavras “árabe” e “animação”. E Naar foi o primeiro super-herói a emergir do storyboard de Suleiman. “O seu nome significa fogo”, explica o criador. “Há muitos personagens no mundo ocidental que têm a capacidade de manipular o fogo. Eu quis fazer diferente. Segundo a mitologia árabe, há vários tipos de fogo. Naar tem o poder das sete chamas e não voa” (risos).

A história é sobre o Apocalipse num Médio Oriente sem petróleo, em 2050. Um grupo de miúdos acorda numa cidade escondida, por baixo das ruínas de Petra, património da humanidade, na Jordânia. “Sozinhos, sem adultos, eles descobrem que têm poderes sobrenaturais”, relata Suleiman. “Vão ter de decidir o que fazer – se salvam este mundo ou não. Será que eles podem ser melhores do que nós fomos?”

A banda desenhada de Naar foi muito bem aceite pelo público. Testada em focus group, crianças ajudaram a definir o argumento. Êxitos foram também Mansaf e Ouzi, personagens inspiradas nos pratos nacionais da Jordânia ­– o primeiro, carne de carneiro, cozinhada em molho jameed, espécie de iogurte, e servida com arroz, amêndoas e pinhões; o segundo composto de arroz e frango. “A resposta foi fenomenal”, exulta Suleiman.

@ARANIM MEDIA FACTORY

@Aranim Media Factory

Bakhit pegou então num herói jordano e fez dele um super-herói. O tenente Muwaflaq al-Salti foi protagonista de uma das mais longas batalhas da história da aviação. Morreu quando o seu obsoleto Hunter foi abatido por um sofisticado Mirage israelita na guerra de 1967. Quase 50 mil exemplares foram impressos e distribuídos gratuitamente em jornais locais antes do lançamento oficial. Dias depois, estes desenhos estavam no mercado negro de Amã, a um dinar. Talvez a pirataria tenha atraído ainda mais fãs, porque a tiragem posterior (e legal) foi de 2,4 milhões de cópias.

Nada mau, num país e numa região onde não há tradição (nem posses) de comprar este tipo de publicações.

“As pessoas tendem a esquecer estes heróis e os jovens nem sequer os conhecem”, realça Suleiman. “O meu objectivo é combater o extremismo, para contrariar ídolos como Al-Zarqawi [o assassinado líder da al-Qaeda no Iraque, nascido na Jordânia], introduzindo figuras contemporâneas mais moderadas. Tento encorajar a juventude a tomar o seu destino nas próprias mãos. Quero encorajar valores positivos, como a tolerância, a perseverança, o trabalho árduo.”

E nesta categoria, a dos que lutam por causas nobres, inscreve-se outro super-herói: Abu Khadija, um lendário pugilista jordano que, desempregado e com os filhos doentes, se dedicou ao boxe para salvar a família. “Inspirei-ne em Rocky [de Sylvester Stalone], embora eu ache, sinceramente, que o meu trabalho é melhor”, diverte-se Suleiman.

“Queríamos que fosse uma banda desenhada, mas apresentámos a ideia a alguns produtores, que gostaram dela e sugeriram um filme de animação. Encomendaram o argumento. Acabámos de fazer o primeiro draft. Ainda precisa de alguns retoques. Talvez esteja tudo pronto no Verão, e depois vamos testar se as pessoas gostam”.

Bakhit - Photo 4

@Aranim Media Factory

Suleiman está entusiasmado com a perspectiva de vir a produzir “o primeiro filme de animação árabe”. Lamenta que “os americanos tenham maltratado Aladino – um estereótipo tão diferente da história real” – e que os japoneses tenham transformado Sindbad, o marinheiro “de uma figura comovente num tipo estúpido”.

Mas não é Aladino e Sindbad que lhe interessam. “Isso é mitologia árabe antiga e já ninguém lhes dá muita importância”, desvaloriza.

Da aventura histórica à ficção científica, o objectivo agora é usar “heróis, vilões, temas e estilos artísticos autenticamente árabes, para chamar a atenção dos jovens do mundo inteiro, com um toque médio oriental.”

Depois da banda desenhada e dos filmes de animação, as etapas seguintes serão as dos jogos de vídeo, onde haverá “muitos guerreiros árabes”, e do merchandising. A ambição é chegar aos 200 milhões de jovens do mundo árabe mas não só. “Primeiro conquistamos a Jordânia, depois o resto do Médio Oriente e a seguir o mercado internacional”, revela.

Para que todos estes sonhos se tornem realidade, Suleiman Bakhit precisa de parceiros estratégicos. Dois deles são o King Abdullah Fund for Development (KAFD) e a Aramex International, companhia de transportes e logística, com clientes em mais de 240 países. Ter como patrono uma instituição ligada à monarquia jordana não limita o processo criativo?

“Oh, não, não de maneira nenhuma!”, assevera o dono da Aranim. “Dão-nos toda a liberdade.” A isso não será alheio o facto de Suleiman garantir que não tenciona passar mensagens políticas: “No Médio Oriente tudo o que fazemos é interpretado como política, mas a minha mensagem é cultural.”

Os tempos mais difíceis já passaram. Foi quando ele regressou à pátria e ficou a saber que o seu pai, Marouf al-Bakhit, havia sido designado pelo rei primeiro-ministro. Alguns investidores ofereceram-se para financiar uma Disneylândia árabe, mas estavam mais interessados em obter favores políticos do que em injectar capital. Surgiram conflitos de interesses e as poupanças pessoais rapidamente se esgotaram.

“Felizmente que o meu pai já não chefia o Governo, só é membro do Parlamento e mais ligado aos militares”, ri-se Suleiman. “Agora, ninguém mais interfere na minha criação. Em 2009 esperamos ser uma empresa lucrativa.”

“Somos cinco a trabalhar a tempo inteiro. Eu e a minha equipa internacional. Com o início do ano escolar, em Setembro, e o lançamento de novos produtos, 2008 será o ano to make or break [do tudo ou nada]. Ajudou muito o artigo [de quase uma página] que o Financial Times publicou sobre mim. Há mais gente interessada em investir.”

E se não der certo? “Não tenciono desistir”, jura. “Em criança, um dos meus shows de animação favoritos era japonês e chamava-se Grendizer. Divertia-me e encorajava-me a imaginar coisas que podiam realizar-se. Também gostava de histórias de trabalho em grupo, de amizade, onde ninguém desistia mesmo que houvesse dificuldades.”

Suleiman Bakhit, speaking at the TEDGlobal 2011 TED Fellows Talks, Monday, July 11, 2011, in Edinburgh, Scotland. @James Duncan Davidson / TED

Suleiman Bakhi, discursa na TEDGlobal 2011 TED Fellows Talks (seus parceiros), em 11 de Julho de 2011, em Edimburgo, na Escócia
© James Duncan Davidson  | TED

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no diário PÚBLICO em 29 de Maio de 2008| This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 29, 2008

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