O pai era da Mossad, mas ela recusou o “exército da ocupação”

Omer Goldman tinha 19 anos quando voltou a uma base militar para o terceiro ciclo de 21 dias de detenção. Foi castigada por não querer servir nas Forças de Defesa de Israel. Mais um desgosto para Natalin Granot, que esperava ser promovido ao lugar atribuído a Meir Dagan. Esta é a sua história, na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…)

 

O meu pai é Natalin Granot, um especialista em Irão que se demitiu de “número dois” da Mossad, em 2007, quando não o promoveram a chefe da principal agência de espionagem de Israel.

Eu, Omer Goldman, 19 anos, sou uma pacifista e, hoje [5 de Novembro de 2008], regresso à prisão nº 400, numa base militar próxima de Telavive. Recuso-me a servir num exército que comete, todos os dias, crimes de guerra nos territórios palestinianos ocupados.

Fui recrutada para o serviço militar obrigatório aos 18 anos, mas já no liceu eu decidira que não queria ir para a tropa.

Assim que deixei a escola, e antes de me inscrever na faculdade, dei aulas a crianças pobres num bairro de judeus etíopes. Quando me chamaram, entreguei uma declaração aos oficiais onde afirmava: “Recuso alistar-me nas Forças de Defesa de Israel (IDF).

Não farei parte deste exército que, desnecessariamente, pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos.” No dia 23 de Setembro [de 2008], sem ter sido julgada, fui cumprir 21 dias de detenção.

Fui libertada a 10 de Outubro [do mesmo ano], mas voltei para um segundo período, desta vez apenas de 14 dias, porque fiquei doente. Saí novamente em liberdade, na sexta-feira, dia 30 de Outubro. Estes ciclos irão repetir-se até que o Exército se canse, porque eu não vou desistir.

Conheço pessoas que passam muito tempo reclusas. Um exemplo é Jonathan “Yoni” Ben-Artzi, sobrinho do líder da oposição, Benjamin Netanyahu. Esteve detido um total de 18 meses ao longo de oito anos.

Em 2007, conseguiu que o Supremo Tribunal validasse os seus argumentos para não ser soldado (ele era completamente contra qualquer forma de luta – nem quando era miúdo aceitou aulas de judo), mas fracassou no intuito de ver reconhecido o estatuto de objector de consciência em Israel.

Neste país, as IDF são um “exército do povo”, quase mitológico. Não podemos recusar-nos a servi-lo por motivos políticos. Há quem cite David Ben-Gurion, o primeiro chefe de Governo, para justificar que um exército politizado não permite a sobrevivência da nação, e que quem quer ser um dissidente político deve levar as suas causas para o terreno civil.

Mas foi Ben Gurion que permitiu a isenção do serviço militar aos ultra-ortodoxos que frequentem as yeshivot ou escolas talmúdicas. É um sistema de dois pesos e duas medidas, que favorece os religiosos porque eles têm peso político. 

© The National

 

Eu soube que seria para sempre uma refusenik depois de ter participado num protesto contra a construção ilegal do muro de separação que atravessa a Cisjordânia.

Eu e outras amigas estávamos na aldeia de Ni’alim e, de repente, reparei que o inimigo não eram os palestinianos sentados ao meu lado, como sempre me disseram, mas um soldado israelita que disparou contra mim uma bala de borracha.

Fiquei ferida num braço, felizmente sem gravidade, mas uma palestiniana de 17 anos foi morta. As balas de borracha matam como as munições reais.

As minhas convicções ficaram mais fortes depois da Segunda Guerra do Líbano, no Verão de 2006. Comecei a questionar a sério a ética do exército, o uso de armas não convencionais, o envio de soldados para a frente de batalha onde morriam sem objectivos definidos. Comecei a ir mais aos territórios ocupados, e vi soldados a disparar sobre civis inocentes.

Antes de ser detida, procurei apoio psicológico, todas as semanas, durante um mês. A terapia deixou-me mais calma e mais forte. Sinto que a prisão será uma experiência, para o bem ou para o mal, que me deixará mais adulta.

A última coisa que fiz antes de entrar na minha cela foi deliciar-me com um prato de hummus [pasta de grão com azeite] – a minha comida favorita. Quando me libertaram, fui para uma festa dançar e ver pessoas que me fizeram sentir bem. Perdi muitos amigos, e até familiares, por causa das minhas posições.

Aqui, em Israel, todos pensam que todos devemos ser soldados. Depois do divórcio dos meus pais, eu vivo com a minha mãe em Ramat HaSharon, localidade de gente rica, nos arredores de Telavive. Ela compreende-me, mas tem medo que me façam mal.

Tenho uma irmã mais velha, de 27 anos, que já foi militar e não vive connosco. Eu gosto muito do meu pai, mas ele nunca me foi ver à prisão, ao contrário da minha mãe. Ficou escandalizado por eu ser uma refusenik. Afinal, ele era uma espécie de general.

É claro que se opõe, veementemente, ao que eu faço, mas a relação afectiva pai-filha nunca foi abalada. Também não creio que a carreira do meu pai seja prejudicada pelas minhas acções, embora eu tenha a certeza de que o meu caso está a ter mais repercussão pública por eu ser filha de Natalin Granot. Ele já se demitira em Junho de 2007.

© Nasser Shiyoukhi | AP

 

Segundo o escritor e jornalista israelita Igal Sarna, o meu pai era um operacional da Mossad que os jornais identificavam apenas como N. Subiu até chegar a adjunto do “número um”, Meir Dagan, e sucessor designado. Ao contrário do que se esperava, Dagan não se reformou. Permaneceu no cargo e o meu pai preferiu demitir-se.

Não havia lugar para dois “patrões” com demasiado poder. E, para avaliar o poder do rival do meu pai, leia-se o que disse – numa sala em que a audiência explodiu de aplausos – o colunista político Emmanuel Rosen, que fez parte do painel de jurados que, em Outubro, atribuiu a Meir Dagan o prémio Man of the Year (Homem do Ano) de Israel.

“Ele ganhou fama por cortar cabeças de palestinianos com uma espada japonesa. Ele nasceu com uma faca entre os dentes”.

Não chamem à minha atitude uma rebeldia de adolescente ou um acto de revolta por o meu pai ter saído de casa da minha mãe. É muito mais do que isso. Fui uma de 40 estudantes liceais que assinou a “Declaração 2008 dos Alunos do 12º ano” – altura em que somos recrutados pelo exército.

Foi em Abril de 1970 que surgiu a primeira iniciativa, com carta enviada à primeira-ministra Golda Meir. Causou imenso furor. Já era um protesto contra a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, conquistadas na guerra de 1967. Depois disso, houve mais três declarações, embora já não haja tanta polémica.

Na prisão – uma prisão para raparigas dentro de uma prisão para rapazes -, tenho sorte porque estou com mais quatro alunas signatárias da “Declaração 2008”, e duas delas são grandes amigas minhas, Tamar Katz e Mia Tamarin. É engraçado porque só enviam para aqui os “mais perigosos”. Como podem classificar-nos como perigosas se somos pacifistas?

© Tsafrir Abayov | AP

 

Somos 60 raparigas no total, entre os 19 e os 20 anos, divididas em dois grupos de 30 para duas celas. Dormimos em colchões no chão e, todas as noites, uma de nós tem de ficar acordada para vigiar as outras… envergando um uniforme do exército norte-americano! É engraçado, não é?

Acordamos às 5 da manhã e fazemos limpezas até à hora do pequeno-almoço. Retomamos as limpezas até à hora do almoço, e depois novamente até à hora do jantar. Na realidade, não há nada para limpar. Fingimos que limpamos – e nisto desperdiçamos imensa água, que Israel não tem – ou então pintamos umas pedras e tijolos.

Todos os que nos guardam são mulheres. Para mim, são elas as prisioneiras, e não nós. Questionam a nossa lealdade ao Estado e à religião.

Gritam connosco a toda a hora e por razão nenhuma. Espezinham os nossos direitos, negando-nos o acesso a advogados. Só conseguimos, e nem sempre, alguns minutos por dia para falarmos com a família.

Há um telefone fixo, quase sempre ocupado. Não há autorização para usar telemóvel. Podemos ler os livros que trazemos, mas as cartas que nos enviam do exterior são abertas previamente e nem sempre chegam até nós.

Eles, os comandantes, não querem ceder porque sabem que, se o fizerem, estão a reconhecer que estão errados.

Não somos sujeitas a tortura física, mas frequentemente conseguem quebrar-nos o espírito. Vamos dormir por volta das 22h00-23h00. Não somos nós que decidimos apagar a luz, nem quando podemos ir à casa de banho. São as guardas.

Não é difícil adormecer porque quando caímos na cama estamos exaustas. Eu não tenho pesadelos. Só sonhos bonitos. Sonho que sou livre e estou a viajar pelo mundo. Quando me sinto mais triste, penso em coisas boas.

Na prisão, nenhuma de nós acredita em Deus. Usamos a nossa cabeça e o nosso coração para encontrar forças. Falamos muito umas com as outras, e escrevemos cartas umas às outras durante a noite.

Algumas raparigas, ainda que objectoras de consciência, nunca viram a realidade violenta e opressiva nos territórios ocupados que eu testemunhei. Começam agora a aperceber-se da necessidade de exigir mais respeito pelos direitos humanos.

Não quero ficar na prisão muito tempo. Se me propuserem a possibilidade de serviço cívico aceitarei. Quero participar e ser solidária com a sociedade onde vivo. Se quiserem que eu seja voluntária a vida toda, sê-lo-ei.

Gostava de ir para a faculdade, talvez estudar Direito, mas o meu grande amor é a representação. Acho que vai ser muito difícil o meu futuro num país onde as pessoas são mais conhecidas pela unidade do exército a que pertenceram do que pela profissão que exercem.

Talvez dentro de dez ou 20 anos as pessoas me compreendam e deixem de pensar em termos de judeu, negro, branco, cristão… Eu não acredito que a violência se combata com a violência. Esse nunca será o meu caminho, digam o que quiserem.

Ficarei muito feliz se me escreverem. A minha morada nos próximos dias é esta:

Omer Granot 
Military ID 5398532
Military Prison nº 400
Military Postal Code 02447, IDF
Israel 

Omer Goldman (à dir.) com Tamar Katz e Miya Tamarin, três refuseniks, em 2008
© ActiveStills | BBC

[Em Setembro de 2010, numa outra entrevista destinada a actualizar o seu testemunho para o “Livro-Agenda Perpétua, 52  Histórias ACEP”, Omer revelou-me que o exército, face às pressões, acabou por ceder.

Antes de ser aceite na Seminar Hakibbutzim, onde alguns professores aderiram ao movimento de boicote ao colonato de Ariel, ela  tentou primeiro inscrever-se na prestigiada Nissan Nativ School of Acting. Exigiram-lhe que explicasse por que não cumpriu o serviço militar. No formulário, escreveu: “Fuck off!” 

Para pagar as aulas e a casa onde vive sozinha (“sempre amei a minha independência”), Omer trabalhava, quando falámos com ela, como empregada de balcão e mesa num bar que é também estação de rádio. “É preciso ganhar a vida”, justificou, lamentando que esta actividade profissional tenha reduzido a sua participação em manifestações contra a ocupação.

Às sextas-feiras à noite, ela era presença assídua nos protestos em Sheikh Jarrah, bairro de Jerusalém Oriental de onde uma família palestiniana, que já havia sido expulsa de Jerusalém Ocidental, foi despejada para dar lugar a colonos judeus ultra-ortodoxos.

Um dia, num clube de Telavive, um rapaz interpelou-a: ‘És a puta que anda a dizer mal do nosso país?’” Ela garante que não se importa com os insultos. Também circularam petições para lhe retirar a cidadania.

Ela ri-se, mas lamenta: “Este já não é um país para gente livre, vivemos um dos períodos mais obscuros. As pessoas estão cada vez mais nacionalistas. Não conseguem olhar para os nossos vizinhos como seres iguais.”]

Omer Goldman em 2018, numa produção de moda
© dorsharon.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Novembro de 2008 | This article, now revised and updated, and under a different headline, was originally published in the newspaper PÚBLICO, on November 5, 2008

George Habash (1926-2008): Herói palestiniano

Como é que a História vai recordar George Habash? Um “terrorista” que desviou aviões e matou civis para dar a conhecer ao mundo a sua “causa justa”? O pediatra marxista que tentou derrubar o Rei Hussein do trono da Jordânia? Ou, simplesmente, o eterno rival de Arafat? A sua morte é o fim de uma era no Médio Oriente. (Ler Mais | Read more….)

Yasser Arafat perdeu a oportunidade histórica de criar uma pátria independente, mas o autoritário George Habash, arauto de uma “guerra popular” ao estilo vietnamita, também não ofereceu aos palestinianos uma alternativa
© media.moddb.com

George Habash morreu e foi para o Inferno. Começa assim uma velha anedota contada na Cisjordânia. À chegada, o fundador da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) tinha à sua espera três “anjos” que o conduziriam a três quartos onde poderia assistir aos castigos praticados em cada um deles, e escolher o que preferia.

No primeiro, viu o soviético Mikhail Gorbatchov imerso em água a ferver. Abanou a cabeça e seguiu para o segundo. Aqui estava o americano Ronald Reagan a arder em chamas. Não quis para si esta punição, e perguntou: “Onde está Yasser Arafat?”.

Os anjos abriram a terceira porta, e Habash viu Arafat a fazer amor com Marilyn Monroe. “Aah”, exclamou. “É este o castigo que eu quero. O mesmo de Arafat.” Um dos anjos esclareceu: “Não, este não é o castigo de Arafat. É o castigo de Marilyn Monroe.”

Para os palestinianos, habituados a troçar de si próprios, esta piada servia para ilustrar a eterna rivalidade dos mais carismáticos líderes da “velha guarda”: al-Hakim (O Doutor) Habash, da FPLP, e al-Khityar (O Velho) Arafat, da Fatah, as duas maiores facções da OLP.

O octogenário pediatra Habash morreu no sábado [26 de Janeiro de 2008], de ataque cardíaco, num hospital de Amã, quatro anos depois de o septuagenário engenheiro Arafat ter sucumbido a uma misteriosa doença, numa clínica em Paris.

Um e outro saíram de cena com a Faixa de Gaza mergulhada em profunda agonia, e o movimento nacional que criaram nos anos 1960 ainda mais dividido, já não só em linhas ideológicas, mas também religiosas e geográficas.

É ainda uma ironia do Médio Oriente, onde os inimigos de ontem são os amigos de hoje, que Habash tenha morrido na capital da Jordânia, o país onde, em 1970, ele provocou uma guerra civil, ao querer apoderar-se do trono do Rei Hussein (já havia tentado em 1957), para refazer a Palestina da sua infância. O lema que adoptou para fazer cair a monarquia era: “A estrada para Telavive passa por Amã”.

Naquele “Setembro Negro” de 1970, em que os fedayin (guerrilheiros) saíram derrotados – sofreram 4000 mortos e um novo êxodo ­–, Arafat foi quase um actor secundário. Deixou-se enredar na conspiração, incapaz de evitar a tragédia, com receio de também ele ser derrubado pelos mais radicais da sua organização.

Dois rivais: O pediatra George Habash morreu de ataque cardíaco, num hospital de Amã, quatro anos depois de o engenheiro Yasser Arafat ter sucumbido a uma misteriosa doença, numa clínica em Paris
© jacobinmag.com

Habash começou a roubar protagonismo a Arafat quando, em 23 de Julho de 1968, a sua FPLP (criada em Dezembro de 1967, seis meses após a humilhante derrota árabe na Guerra dos Seis Dias) desviou para Argel um Boeing 707 da companhia israelita El Al.

O aparelho, que efectuava a ligação Roma-Telavive, esteve parado na pista durante 40 dias (apenas mulheres e crianças foram autorizadas a sair), até serem libertados 16 palestinianos detidos em Israel.

O conflito internacionalizou-se e tornou-se mais sangrento, visando civis. Entre Dezembro de 1968 e Setembro de 1969, vários aviões e interesses israelitas foram atacados em Atenas, Zurique, Londres, Haia, Bruxelas e Bona.

À revista alemã Stern, o chefe da FPLP justificaria assim a “nova táctica da resistência” palestiniana: “Quando desviamos um avião, isso tem mais efeito do que matarmos cem israelitas numa batalha. Durante décadas, a opinião pública nunca foi a favor ou contra os palestinianos. Simplesmente ignorava-nos. Agora, pelo menos, o mundo fala de nós.”

O historiador militar Yezid Sayigh, autor de Armed Struggle and the Search for State, acha que o objectivo de Habash, ao igualar a “acção de massas com o terrorismo individual”, não era apenas desafiar Israel mas também competir com a Fatah, que na época emergia rapidamente como a principal força da Thawra (revolução).

Habash haveria de se queixar que nunca lhe foi permitido dirigir a OLP por ser cristão (de rito ortodoxo grego) e não muçulmano, como Arafat.

A pirataria aérea tornou-se na imagem de marca de Habash, tal como o kaffyeh (lenço beduíno) era uma etiqueta inseparável de Arafat. Mas não foi este o único modus operandi do médico que até ao fim dos seus dias se definiu como um “marxista-leninista com muito orgulho”.

Em 1969, a FPLP colocou uma bomba num supermercado em Jerusalém que matou dois jovens e feriu 20 outros. No mesmo ano, o grupo reivindicou a responsabilidade pela explosão do Tapline, um oleoduto da Arab-American Oil Company que transportava petróleo da Arábia Saudita para o Mediterrâneo.

Fedayin da FPLP nas ruas de Amã, em 1970 combatendo as tropas hashemitas: é uma ironia do Médio Oriente, onde inimigos de ontem são amigos de hoje, que George Habash tenha morrido na capital da Jordânia, o país onde provocou uma guerra civil, ao querer apoderar-se do trono do rei Hussein (já havia tentado em 1957), para refazer a Palestina da sua infância
© adst.org

Em 1970, já o Rei Hussein preparava as tropas para eliminar “a maior ameaça da história” do seu reino, a FPLP ainda teve a ousadia de desviar quatro aviões estrangeiros e dinamitar um deles, num aeroporto jordano, sem os passageiros a bordo mas com as televisões a gravar em directo.

No mesmo ano, em mais uma operação assinada pela organização de Habash, outras 47 pessoas que seguiam num avião da Swissair tiveram menos sorte: morreram quando o aparelho explodiu em pleno voo.

Em 1972, com a participação dos japoneses do Exército Vermelho – também colaborava com o IRA e o Baader Meinhof –, a FPLP matou 26 pessoas no aeroporto de Lod, nos arredores de Telavive.

Para Habash, foi um acto simbólico. Lod é o actual nome hebraico de Lydda, a cidade palestiniana onde ele nasceu, em 1925 ou 1926, e que, durante a guerra de 1948, foi submetida a intensos bombardeamentos e esvaziada de todos os seus habitantes.

Habash, filho de um abastado comerciante de cereais, era estudante de Medicina em Beirute (licenciou-se com a melhor nota da turma em 1951) quando começou esta “limpeza étnica”. Apressou-se a regressar e foi servir como assistente num hospital.

Aqui viu as vítimas em “primeira mão”. Foi detido e espancado por soldados, e depois forçado ao exílio, como todos os seus parentes. A partir deste momento, “senti que teria de sacrificar toda a minha vida pela minha causa justa”, afirmou Habash numa posterior entrevista.

Em 1973, conscientes de que enfrentavam um inimigo implacável, foram os serviços secretos israelitas que interceptaram um avião jordano, que ligava Beirute a Bagdad. Queriam capturar ou assassinar Habash, já nesta altura com uma saúde precária, mas ele não estava a bordo.

“Quando desviamos um avião, isso tem mais efeito do que matarmos cem israelitas numa batalha”, disse George Habash. “Durante décadas, a opinião pública nunca foi a favor ou contra os palestinianos. Simplesmente ignorava-nos. Agora, pelo menos, o mundo fala de nós”
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George Habash em 1974. Atrás de si, uma foto de Ghassan Kanafani, escritor palestiniano nascido em Acre em 1936, destacado membro da FPLL, que a Mossad israelita assassinou em beirute em 1972, como vingança pelo massacre no aeroporto de Lod, de que resultaram 26 mortos e 80 feridos
© Nik Wheeler | Sygma via Getty Images

Um selo palestiniano, em homenagem a George Habash e a Leila Khaled, uma das figuras mais carismáticas da FPLP – ela foi cérebro e operacional de vários ataques de guerrilha

Em 1975, a FPLP associou-se a outro mestre do terror, Carlos, O Chacal, para fazer reféns os ministros reunidos numa cimeira da OPEP, em Viena. Um ano depois, mais um desafio: um avião da Air France proveniente de Telavive foi desviado para Entebbe (Uganda).

Comandos pára-quedistas israelitas desencadearam uma operação de resgate que conseguiu libertar a maior parte dos cem reféns (judeus – os restantes foram libertados em 1 de Julho de 1976), embora tivessem morrido três numa batalha que durou 35 minutos.

A Operação Trovão, que ficou na história militar israelita, foi posteriormente  designada Operação Yonatan, em homenagem ao seu comandante, coronel Yoni Netanyahu, irmão do actual primeiro-ministro, Benjamin. O salvador não se salvou. Foi morto a tiro.

Em 1978, a FPLP lançou um novo ataque, contra passageiros da transportadora israelita El Al, no aeroporto de Orly (França), de que resultou dois mortos. Em 1980, um atentado à bomba contra a sinagoga da Rua Copernic, em Paris, causou mais dois mortos e 70 feridos.

Se todos estes ataques tiveram a bênção de Habash, o principal arquitecto foi o seu “braço-direito”, Wadih Haddad, também ele médico, que dirigia o Aparato Especial – espécie de milícia da FPLP. “Éramos mais do que irmãos”, dizia Habash, atribuindo a Haddad, co-fundador, em 1953, do Movimento Nacional Árabe (MNA), o mérito de o ter libertado de uma prisão na Síria.

Tinha sido encarcerado, por “posse ilegal de armas”, em Março de 1968 – ainda estava na cadeia quando começaram os sequestros de aviões.

A relação de Habash com Damasco foi sempre atribulada e ambígua, mesmo quando ele optou por viver aqui, em 1982, recusando instalar-se na Tunísia, como fez Arafat, após a expulsão do Líbano de 8000 combatentes da OLP, em 1982.

Os sírios incentivaram duas cisões na FPLP, a primeira em Outubro de 1968, quando Ahmed Jibril criou a Frente Popular de Libertação da Palestina- Comando Geral (FPLP-CG), e a segunda, em Dezembro de 1969, quando Nayef Hawatmeh anunciou a formação da Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP).

Jibril, financiado pelo Governo de Hafez al-Assad, não gostava das críticas que Habash fazia aos regimes árabes. O comunista Hawatmeh admitia “os resultados do sionismo: o influxo de judeus para a Palestina”, porque os seus aliados soviéticos foram os primeiros a estabelecer laços com o Estado de Israel. Habash jamais aceitou a coexistência.

George Habash, o homem que Israel nunca deixou de considerar inimigo

Em 1974, o discípulo do pan-arabismo de Gamal Abdel Nasser juntou-se a outros “revolucionários” numa Frente de Firmeza e Rejeição. E, após a assinatura dos Acordos de Oslo, em 1992, não hesitou em integrar uma coligação com os islamistas do Hamas, para marginalizar Arafat.

Arafat perdeu a oportunidade histórica de criar uma pátria independente, mas o autoritário Habash, arauto de uma “guerra popular” ao estilo vietnamita, também não ofereceu aos palestinianos uma alternativa.

Em 2000, paralisado por duas embolias cerebrais (a primeira em 1979 e a segunda em 1992, que o obrigou a ser internado em França, gerando um escândalo diplomático), cedeu a liderança da FPLP.

Não se sabe bem quando é que Habash procurou refúgio em Amã, onde nasceu a sua mulher, Hilda, de quem teve duas filhas. Foi ela que, no sábado, ao confirmar o óbito, disse que o marido estava “em sofrimento com as dores do povo de Gaza”, a tentar sobreviver a um cerco israelita e ao fecho da fronteira com o Egipto.

Habash desapareceu deixando a FPLP órfã. O seu primeiro sucessor, Abu Ali Mustafa, foi autorizado a regressar à Cisjordânia, mas não mereceu a confiança de Israel, que o assassinou em 2001, durante a segunda Intifada.

O segundo, Ahmad Sa’adat, foi preso [mas mantém-se na liderança] depois de ter mandado matar o ministro israelita do Turismo, Rehavam Ze’evi, dirigente de um partido de extrema-direita.

Sem Habash nem Arafat, a Palestina, que antes era berço dos nacionalistas, passou a ser um campo de recrutamento dos islamistas do Hamas e da Jihad. Chegou ao fim uma era no Médio Oriente: morreram os que lutavam por um Estado laico, mesmo que não fosse ao lado de Israel.

Amigos e familiares confortam Hilda Habash, a viúva do fundador da FPLP, no funeral do marido em 28 de Janeiro de 2008, em Amã, Jordânia
© Salah Malkawi | Getty Images | zimbio.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

Farah Pahlavi: Os EUA retiveram o Xá nos Açores para o entregar a Khomeini

 Aos 70 anos de vida e quase 30 de exílio, a última Imperatriz da Pérsia recorda a angústia que passou na base das Lajes, numa noite de Março de 1980. Quatro meses depois, Reza Pahlavi morria no Cairo. Agora, ela confia que o regime islâmico de Teerão tem os dias contados. (Ler mais | Read more…)

Mohammad Reza e Farah Diba Pahlavi observam os seus próprios retratos, expostos na Galeria Real, em Outubro de 1967. Estes eram os tempos em que o casal vivia em palácios opulentos  no Irão, antes do exílio forçado
© Associated Press

Há quase três décadas no exílio e Farah (Diba) Pahlavi, que este mês [14 Outubro 2008] completou 70 anos de vida, ainda não consegue esquecer-se da noite de 23 de Março de 1980 quando um DC9 das Evergreen Air Lines em que viajava fez escala nos Açores.

O avião aterrara, oficialmente, para reabastecimento, mas ficou retido várias horas na pista sem autorização para descolar. “Foi um momento de angústia”, conta a última imperatriz da Pérsia, numa rara entrevista por e-mail.

Para perceber o que se passou na Base das Lajes – e que poderia ter mudado o curso da História –, é preciso recuar no tempo. Farah Diba e o seu marido, o Xá Mohammad Reza Pahlavi, tinham sido forçados a abandonar o Panamá e deveriam seguir para o Cairo, onde o Presidente Anwar Sadat lhes renovara a oferta de refúgio.

Andavam em fuga há mais de um ano. Várias portas se haviam fechado depois de a monarquia ter sido derrubada pelo Ayatollah Khomeini.

O Egipto tinha sido a primeira paragem do exílio, em 16 de Janeiro de 1979, quando o casal imperial chegou a Assuão. No dia 22, Farah Diba e o “rei dos reis”, agonizante com um linfoma terminal – “segredo bem guardado desde 1974” -, já estavam a caminho de Marrocos, a convite do Rei Hassan II.

Foi numa luxuosa villa em Marraquexe, a 11 de Fevereiro, que a Rádio de Teerão deu a notícia mais temida pelo Xá: “A revolução venceu, o bastião da ditadura capitulou.”

Nas suas Memórias (Ed. Bertrand), a Xabanu (imperatriz) confessa: “Durante alguns segundos, pensei que tínhamos ganho. Para mim, nós éramos os bons e eles, seguramente, o bastião do horror. Infelizmente, eram eles que ganhavam, acabavam de derrubar o último governo [de Chapour Bakhtiar] nomeado pelo meu marido.”

O Xá, que recusara os pedidos de oficiais do seu séquito para abater o avião que transportou Khomeini de Paris para a futura República Islâmica, “fechou-se num longo silêncio”.

A permanência em Marrocos, onde se juntaram os filhos que estavam na América, ficou ameaçada quando as massas iranianas começaram a exigir o regresso do imperador, para o julgar e, talvez, executar sumariamente, como aconteceu a centenas de oficiais do regime deposto.

A 14 de Fevereiro, a Embaixada dos Estados Unidos em Teerão foi, temporariamente, ocupada por Guardas da Revolução. Ao palácio de Hassan, em Rabat, chegou um emissário dos serviços secretos franceses para o avisar de que Khomeini ordenara o rapto de membros da sua família para os trocar pelos seus hóspedes.

Ainda que o anfitrião se mostrasse solidário, Farah Diba entendeu a gravidade da situação. “Era urgente encontrar outro asilo”, afirma na autobiografia, mas “todos viraram as costas”. A França recusou, alegando que não podia garantir a segurança dos imperadores caídos em desgraça.

O mesmo aconteceu com a Suíça e o Mónaco. O México e o Canadá não responderam. “Talvez mais tarde”, foi a resposta dos EUA. Margaret Thatcher, que prometera ajudar se ganhasse as eleições, mudou de ideias quando se tornou primeira-ministra, porque “seria nocivo para os interesses da Grã-Bretanha”.

 In this Jan. 16, 1979 file picture, Shah Mohammad Reza Pahlavi and Empress Farah walk on the tarmac at Mehrabad Airport in Tehran to board a plane to leave Iran. The popular revolt against the shah raised alarm bells in the West, which saw the shah as a trusted ally and counterweight to hard-line Arab regimes and Palestinian radicals. The face of the revolution was Ayatollah Ruhollah Khomeini, whose demeanor, vehemently anti-American rhetoric and stern interpretation of Islam challenged not only Western interests but also Western values. @AP Photo)

A 16 de Janeiro de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi e a imperatriz Farah pisam pela última vez a pista do Aeroporto de Mehrabad em Teerão, a caminho de um exílio permanente. Ela vive entre os EUA e a Europa; ele morreu no Cairo (Egipto), onde ficou sepultado
© Associated Press

Hassan II colocou à disposição dos Pahlavi o seu avião particular, e foi neste que o Xá, a Xabanu e os filhos (Reza, Farahnaz, Ali-Reza, Leila) – e também uma pediatra, uma governante, vários coronéis e o “criado de quarto” do imperador – partiram a 30 de Março de 1979, para Nassau, capital das Bahamas.

O arquipélago não tinha relações diplomáticas com o Irão, mas a oferta de asilo, conseguida graças a Henry Kissinger, David Rockefeller e Jimmy Carter, tinha um prazo: três meses.

Três semanas antes de os vistos expirarem, as autoridades das Baamas informaram que não os renovariam. Mais uma vez a pedido de Kissinger, o México de José López Portillo aceitou receber a família indesejada. Em 10 de Junho de 1979, Farah Diba, Mohammad Reza e acompanhantes instalaram-se em Cuernavaca, no Sul, numa casa com jardim tropical e escorpiões nas paredes. Era o quarto exílio em menos de seis meses.

A saúde do imperador foi-se deteriorando e, como o México não oferecia condições em hematologia e oncologia modernas, os médicos que o seguiam determinaram que ele deveria ser hospitalizado no EUA.

A Xabanu ficou desgostosa: “Havia algo de vexante no facto de sermos admitidos nos Estados Unidos depois de eles nos terem recusado hospitalidade.”

Também receava manifestações de hostilidade, mas os familiares de Mohammad Reza, em particular a sua irmã gémea, Ashraf, impuseram a decisão de ele se mudar para Nova Iorque, onde ela residia. Chegaram a 23 de Outubro de 1979.

Antes do desembarque, no dia 19, o Presidente Carter reunira na Casa Branca o seu gabinete restrito: Walter Mondale, Cyrus Vance, Zbigniew Brzezinski, Harold Brown e Hamilton Jordan.

A recomendação foi unânime: deixar o Xá entrar porque se tratava de “um caso de urgência médica”. Carter convenceu-se, mas deixou uma pergunta: “O que me aconselham quando eles [iranianos] ocuparem a nossa embaixada e fizerem reféns os nossos funcionários?”

PO destino da monaquia iraniana ficou selado quando a CIA ajudou a derrubar o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (aqui aos ombors de apoiantes, em 27 de Setembro de 1951 - um ano antes da sua queda). Mossadegh irritara Washinhton e Londres a nacionalizar o petróleo do país, cuja exploração e receitas eram controladas pelo Reino Unido. Em 1953, Mossadegh foi condenado a três anos de prisão e transferido para a sua residência em Ahmad Abad. Morreu aqui sem nunca ter sido autorizado a receber visitas, nem sequer dos familiares. O Xá nunca perdoou o seu maior rival a humilhação do seu primeiro exílio. @Associated Press (AP)

O destino da monarquia iraniana ficou selado quando a CIA ajudou a derrubar o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh (aqui aos ombros de apoiantes, em 27 de Setembro de 1951 – um ano antes da sua queda). Mossadegh irritara Washington e Londres a nacionalizar a indústria do petróleo, cuja exploração e receitas eram controladas pelo Reino Unido. Em 1953, Mossadegh foi condenado a três anos de prisão e transferido para a sua residência em Ahmad Abad. Morreu aqui, sem nunca ter sido autorizado a receber visitas, nem sequer de familiares. O Xá jamais perdoou ao rival a humilhação do seu primeiro exílio
© Associated Press

O temor, ou presságio, tinha justificação. A 4 de Novembro de 1979, estudantes islâmicos tomaram de assalto o que chamavam de “ninho de espiões” dos EUA em Teerão e sequestraram 60 diplomatas durante 144 dias.

A República Islâmica recusou acreditar que o Xá estivesse realmente doente. Suspeitava que Washington se preparava para o fazer regressar ao poder, como fizera em 1953 quando a CIA derrubou o governo de Mohammed Mossadegh e recolocou Mohammad Reza no Trono do Pavão.

A queda de Mossadegh, por ter ousado nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company, o que muito irritou Winston Churchill, e porque americanos e ingleses temiam que ele se aliasse à URSS, abriu caminho à ascensão de Khomeini, concordam hoje muitos analistas, incluindo a própria CIA [que entretanto reconheceu o seu envolvimento].

Logo no dia seguinte à chegada a Nova Iorque, 24 de Outubro de 1979, Mohammad Reza Pahlavi foi submetido a uma intervenção cirúrgica que não terá sido bem efectuada. A notícia do seu internamento rapidamente se espalhou. Da janela do hospital onde lutava pela vida, ele podia ouvir os gritos de manifestantes: “Morte ao Xá!”

A 20 de Novembro, depois da libertação de alguns reféns (só os negros) da Embaixada dos EUA em Teerão, Carter ameaçou intervir militarmente. A 28, assegurou que não cederia à chantagem dos que lhe exigiam a extradição do imperador. Ele deixaria os EUA só quando estivesse recuperado.

Um cartaz gigante do Ayatollah Khomeini é erguido durante uma manifestação contra o Xá, junto a um antigo monumento que assinalava os 25 anos de poder do poder do segundo imperador Pahlavi. Foi no dia 10 de Dezembro de 1978 - no ano seguinte, o teólogo exilado em França regressava à pátria para instaurar a primeira República Islâmica. @Michel Lipchitz | Associated Press (AP)

Um cartaz gigante do Ayatollah Khomeini é erguido durante uma manifestação contra o Xá, junto a um antigo monumento que assinalava os 25 anos de poder do poder do segundo imperador Pahlavi. Foi no dia 10 de Dezembro de 1978 – no ano seguinte, o teólogo exilado em França regressava à pátria para instaurar a primeira República Islâmica
© Michel Lipchitz | AP

Quando os médicos acharam que o paciente poderia deixar o hospital, a viagem de regresso a Cuernavaca foi marcada para 2 de Dezembro. A 30 de Novembro, porém, o Presidente Portillo recusou o asilo. Segundo Farah Diba, o preço para esta reviravolta teria sido uma promessa de Fidel Castro de que Cuba votaria a favor da entrada do México no Conselho de Segurança da ONU se não acolhesse o Xá.

A Administração Carter não teve outra saída senão enviar discretamente os soberanos persas para a base de Lackland, no Texas. Foi uma estadia temporária que o Departamento de Estado não queria prolongar. Até a África do Sul, onde vigorava o apartheid, se mostrou indisponível para receber o casal. “Sentíamo-nos párias”, queixou-se Farah Diba.

A 12 de Dezembro de 1979, o general Omar Torrijos, “supremo comandante do governo”, aceitou receber os Pahlavi no Panamá.

Alojou-os numa villa de quatro quartos na ilha de Contadora. Três meses depois, Torrijos terá sido persuadido por Sadegh Ghotbzadeh, “que conspirava para ser Presidente” iraniano, de que a detenção domiciliária do imperador bastaria para os estudantes em Teerão libertarem os reféns norte-americanos.

A par da situação, a imperatriz ganhou coragem e telefonou a Jehane, mulher de Anwar el- Sadat, pedindo ajuda. “Venham”, disse a amiga. “Estamos à vossa espera no Egipto.”

Carter ficou preocupado quando soube, e tentou demover Farah Diba: “A vossa presença no Cairo arrisca-se a complicar ainda mais a já débil posição de Sadat e prejudicar os esforços de paz [com Israel] no Médio Oriente.” A 22 de Março, Carter telefonou a Sadat para o persuadir a não receber os Pahlavi. O egípcio terá reagido indignado: Jimmy, I want the Shah here and alive!

O Xá e a Xabanu partiram para o Cairo, às 14h00 locais, no domingo 23 de Março. À noite, o DC9 das Evergreen Air Lines, usado para voos fretados, fez escala nas Lajes, nos Açores, para reabastecimento.

Ao fim de uma hora de espera, Farah Diba começou a temer o pior: “Não seria uma tentativa de nos impedir de chegar ao Egipto? Estávamos numa base americana, num avião americano, portanto, tudo era possível.” Inquiridos os responsáveis, a explicação foi a de que o aparelho “precisava de autorização para sobrevoar determinados territórios”.

“Pedi que me deixassem usar um telefone para contactar um amigo em Paris”, recorda Farah Diba na entrevista. “Informei-o da nossa situação: que Sua Majestade sofria de febre alta, que estava muito frio no avião e que ele notificasse toda a gente se não mais o contactasse. Muitos anos depois, terá sido na década de 1990, encontrei um ministro português dos Negócios Estrangeiros, o senhor André Gonçalves Pereira.”

“Disse-me que a Embaixada dos EUA [em Lisboa] havia sido questionada sobre a nossa retenção na pista, durante mais de quatro horas, e que a resposta foi ‘não podemos dizer-vos’ [mais adiante o ex-ministro dará a sua diferente versão].”

“No dia seguinte [a 24 de Março de 1980], o embaixador português em Washington fez a mesma pergunta ao Departamento de Estado e, mais uma vez, a resposta foi ‘não podemos dar-lhe nenhuma justificação’.”

Iranianos armados revistam funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, depois de ocuparem a missão diplomática, em 14 de Fevereiro de 1979. O cerco durou 444 dias e envenenou até agora os laços entre os dois países. @Associated Press (AP)

Iranianos armados revistam funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, depois de ocuparem a missão diplomática, em 14 de Fevereiro de 1979. O cerco durou 444 dias e envenenou até agora os laços entre os dois países
© Associated Press

Posteriormente, Farah Diba encontrou a explicação para a interminável escala. Quando estava prestes a depositar um pedido de extradição, um dos advogados enviados por Teerão ao Panamá pediu aos EUA que interceptassem o avião em que seguia o casal imperial, porque Sadegh Ghotbzadeh se declarara convicto de conseguir a libertação dos reféns americanos assim que fosse anunciada a detenção do monarca.

A decisão de bloquear o avião nas Lajes terá sido de Hamilton Jordan, chefe de gabinete da Casa Branca e confidente de Carter, embora este não tenha sido avisado.

Como não chegava de Teerão qualquer notícia encorajadora, o aparelho foi autorizado a descolar, após quatro horas imobilizado. A 24 de Março, quando o pedido de extradição foi entregue, os Pahlavi chegavam ao Cairo.

Torrijos “não teria hesitado em colocar o Xá em residência vigiada”, convenceu-se Farah Diba. Mas chegaria isso para aplacar a ira dos iranianos? Seja como for, Mohammad Reza Pahlavi não viveria muito mais tempo para restaurar o seu reino.

Morreu a 27 de Julho. Sadat, que o instalara no Palácio Koubbeh, ofereceu-lhe um imponente funeral de Estado. O corpo jaz na Mesquita de Al Rifa’i, onde Farah Diba vai todos os anos prestar homenagem.

“Sim fui eu”, confirma André Gonçalves Pereira. “Fiquei curioso com o que se passara em 1980 e, no ano seguinte, já ministro, procurei averiguar o que se tinha passado nas Lajes. O avião chegou à meia-noite e partiu às oito da manhã. Tenho a certeza de que não foram apenas quatro horas [como disse Farah Diba]. Era estranho. A paragem só deveria ser de meia hora. A tripulação do aparelho alegara falha técnica.”

No entanto, confrontadas com um pedido oficial de esclarecimento, responsáveis americanos apenas retorquiram que “não sabiam”. Não podiam, acrescenta Gonçalves Perreira, ter respondido a um Estado soberano “não podemos dizer-vos”, como alega a imperatriz na entrevista.

O ex-chefe da diplomacia foi remexer nos diários onde vai “anotando umas coisas”, e lá estava registado o momento em que deu conta à Xabanu do seu interesse pelo episódio nos Açores. “Ela veio jantar a minha casa no Algarve, em Julho de 1996, e foi então que conversámos sobre este assunto.”

A informação que ele tinha era a de que os norte-americanos estavam a negociar com os iranianos, através da Argélia, a entrega do Xá aos mullahs, em troca da libertação dos seus reféns em Teerão.

Supostamente, a exigência da República Islâmica era a de que o avião que transportava o soberano deveria deixá-lo na capital iraniana. Os EUA só aceitavam depositá-lo em Argel. E as negociações falharam.”

De aliado estratégico a persona non grata: Mohammad Reza Phlavi foi abandonado pela Administração de Jimmy Carter, e apenas acolhido pelo Egipto, de Anwar el-Sadat, depois de recusado asilo em vários países por onde passou
© US Library of Congress

A versão que Farah Diba relata em Memórias identifica o Panamá e não a Argélia. O antigo ministro salienta: “Nestas coisas de diplomacia ultra-secreta nunca podemos ter certezas”, excepto a de que “não houve razões técnicas mas razões políticas” para o avião ficar retido e a de que Washington “estava mesmo a negociar a extradição do Xá”.

“Farah Diba escreveu-me depois uma carta a agradecer. Ela é uma mulher muito inteligente e bem informada. Tem um porte imperial. Ainda mantemos contactos esporádicos. Lembro-me de um jantar em Paris. Pedi ao embaixador português que a convidasse.”

Sobre o que se passou nas Lajes, Gonçalves Pereira destaca “o contraste” no tratamento que o Xá teve por parte dos Estados Unidos e do Egipto. “A Administração Carter, que até era relativamente séria, estava disposta a entregar o Xá, que foi aliado fundamental dos Estados Unidos no Médio Oriente, enquanto o Presidente Sadat, numa atitude quase quixotesca, aceitou recebê-lo, ainda que ameaçadíssimo pelo fundamentalismo islâmico, que no ano seguinte viria a assassiná-lo. Era um homem notável.”

Hoje, quase 30 anos depois de uma viagem que tinha esperança de ser um “momentâneo abandono do país”, Farah Diba mostra-se uma mulher áspera, o que contrasta com o significado em farsi do seu apelido de solteira: “seda”.

Continua a defender as acções do Xá e atribui a uma conspiração o derrube do marido que venera como um líder visionário, mas que muitos, incluindo antigos colaboradores, descrevem como fraco e indeciso.

Um deles é o sociólogo iraniano Ehsan Naraghi, que foi crítico (a polícia secreta SAVAK obrigou-o a deixar o país em 1969) e depois consultor da corte. No livro Des Palais du Chah aux Prisons de la Révolution, Naraghi recorda uma das últimas audiências que teve com Mohammad Reza, a 23 de Setembro de 1978, em que o imperador da dinastia que sucedeu aos Qajar lhe pergunta:

-“De onde provém esta rebelião? Quem é o instigador? Quem desencadeou este movimento religioso?” A resposta foi: “Mas fostes vós, Majestade.” O rei dos reis retorquiu: “Porquê eu?”

“Há 15 anos, em 1962”, explicou Naraghi, “quando visitastes o santuário de Qom [onde Khomeini era teólogo], atacastes abertamente os chefes religiosos e, no Parlamento, apresentastes as críticas deles à reforma agrária e à igualdade das mulheres como uma posição reaccionária. Fostes tão violento, até mesmo injurioso, que o responsável pela radiotelevisão teve de censurar as vossas palavras. (…)”

“A partir daí, os religiosos foram forçados, para rejeitar a acusação de conservadorismo, a entrar em cena e a provar que não estavam agarrados a uma ordem social arcaica. Apoiando-se nos vastos recursos do xiismo, eles quiseram mostrar que poderiam ser mais revolucionários que Vossa Majestade com a Revolução Branca.”

During the celebrations to mark the 2,500 anniversary of the founding of the Persian Empire, The Shah of Iran, second right, Crown Prince Riza, right, and Empress Farah, third right, watch the laying of a wreath laying ceremony at Pasargadae, Iran, Oct. 12, 1971. (AP Photo) # Farah Diba disse sim ao Xá no dia em que completou 21 anos, a 14 de Outubro de 1959. O noivado foi oficialmente anunciado a 21 de Novembro. O casamento celebrou-se a 21 de Dezembro. Yves Saint-Laurent, da casa Dior, desenhou-lhe o vestido bordado com fios de prata. O diadema para a cabeça era jóia do Estado. Concebido pelo americano Harry Winston, pesava dois quilos. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Celebrações dos 2500 anos da fundação do Império Persa. Na linha da frente, da esquerda para a direita: Farah, Mohammad Reza Pahlavi e o príncipe herdeiro, Reza, em Pasargadae, 12 de Outubro de 1971. Estas festividades foram muito criticadas pelo luxo e ostentação, com estrangeiros convidados de honra e os iranianos marginalizados
© Associated Press

Farah Diba desvaloriza: “Não posso confirmar se a conversa [de Naraghi] com o defunto Xá ocorreu, porque eu não estava presente. Sobre todas essas obras, vem-me à cabeça um ditado francês: Il faut en prendre et en lasser. Também se dizia no velho Império Romano que, quando uma guerra é ganha, todos nela participaram, mas quando uma guerra é perdida, só há um culpado”, lamenta.

“O Irão ocupa, geoestrategicamente, uma posição muito importante. Estava a tornar-se demasiado poderoso. Alguns interesses estrangeiros sentiram-se ameaçados e começaram uma campanha de difamação contra a monarquia nos media. Também cortejaram a encorajaram a oposição dentro do país.”

“Li uma entrevista de Ebrahim Yazdi [opositor da monarquia e ministro no primeiro ano da Revolução Islâmica] onde ele fala da sua relação com o Departamento de Estado e de como passou a mensagem de que o Ayatollah Khomeini valorizava os direitos humanos e a liberdade das mulheres.”

Lord [David] Owen, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros na época [da Revolução Islâmica], afirmou: ‘Se soubéssemos que o Xá estava doente, nada disto teria acontecido.’ O que quis ele dizer? William H. Sullivan, que foi embaixador dos EUA no Irão, de 1977 a 1979, escreveu sobre os seus encontros e contactos com a oposição iraniana.”

“Não nos podemos esquecer de que estávamos num período da guerra fria, e que a União Soviética, com um forte desejo de controlar as águas quentes do Golfo Pérsico, patrocinava o Tudeh, Partido Comunista iraniano.”

“Havia ainda outros grupos organizados, como os Fedayin do Povo (maoístas) e os Mujahedin do Povo (marxistas islâmicos), muitos dos quais foram treinados em campos de guerrilha cubanos e palestinianos. Membros desses grupos, que ajudaram a levar Khomeini ao poder, foram depois mortos aos milhares.”

 In this undated 1942 file photo, Shah Muhammed Riza Pahlevi, his wife, Queen Fawzia and Princess Shahnaz on the grounds of their palace near Tehran, Iran. @AP Photo, File

Nesta foto data de 1942, vê-se o Xá  Mohammad Reza Pahlavi e a sua primeira mulher, Fawzia bint Fouad (irmã do Rei Farouk do Egipto), e a princesa Shahnaz, filha do casal, nos jardins de um dos seus palácios em Teerão. Foi ela que pediu o divórcio
© Associated Press

The Shah of Iran and Queen Soraya chat over a cup of Mocca with Adolf Schoenfelder, right, president of Hamburg's citizens, at a reception in Hamburg's city hall, in honour of the royal couple, February 24, 1955. The Shah and his wife arrived yesterday for a four-day stay on their first official visit to West Germany. @AP Photo/Brueggemann)

Mohammad Reza Pahlavi e a segunda mulher, Soraya, que o Xá repudiou, por ela ser estéril e não lhe dar um herdeiro, durante uma visita oficial a Hamburgo, em 24 de Fevereiro de 1955
© Associated Press

De nada se arrepende Farah Diba Pahlavi? A resposta é longa: “Se estivéssemos mais bem organizados politicamente; se a abertura política tivesse acontecido antes de 1977; se a Administração americana fosse outra; se fosse outro primeiro-ministro britânico.

“Se fosse outro o Presidente da França; se a União Soviética fosse a Rússia, se Khomeini não tivesse sido autorizado a entrar em Paris [proveniente do Iraque onde o Xá o exilou]; se alguns intelectuais iranianos não tivessem visto o rosto de Khomeini na Lua.

“Se as pessoas tivessem ouvido o Xá quando ele disse que havia remédio para todos os males; se a imprensa ocidental não tivesse maliciosamente atacado o Xá e comparado Khomeini a um salvador espiritual, esta tragédia não teria acontecido.”

O sociólogo Naraghi diz que tentou várias vezes explicar aos tecnocratas que rodeavam o Xá que “a grande civilização” desejada por este iria conduzir a uma “sublevação caótica”.

A política do imperador “dividia a nação, uma minoria modernista, de um lado, e uma maioria tradicionalista, do outro – o que minava os sentimentos de solidariedade nacional e expunha [os iranianos] a um conflito cultural totalmente novo” para eles.

Farah Diba reconhece que alguns responsáveis ocultavam do rei o descontentamento da sociedade, mas nega a divisão. Isso significaria, justifica, “que a maioria dos iranianos está actualmente satisfeita, o que, como todos sabem, não é verdade.”

“Não considero que mentiras, corrupção material e moral, flagelações, apedrejamentos e desmembramento de pessoas sejam atributos dos nossos preciosos valores iranianos. A maioria dos iranianos queria muito o que a ‘vida moderna oferecia, como escolas, universidades, hospitais, estádios, bibliotecas, centros culturais, indústrias, comunicações e participação no desenvolvimento do país”.

A explicação que a Xabanu encontra para a revolta dos iranianos contra o Xá é outra: “No Irão, depois de 1973, o aumento dos preços do petróleo não agradou a interesses estrangeiros. Havia um boom de desenvolvimento e o Governo não conseguia corresponder às expectativas populares. Isto criou insatisfação e terreno fértil para a oposição, que estava muito bem organizada, ao contrário de nós.”

“O Ayatollah Khomeini e os seus discípulos prometeram paraíso, transportes, combustíveis e outros bens gratuitos. Muitos acreditaram, mas abriram as portas do inferno. Hoje, muitos lamentam ter participado nas manifestações. Os mais jovens culpam os pais pela actual situação no Irão.”

Reza Khan (ao centro), o primeiro Xá da dinastia Pahlavi, com os seus dois filhos gémeos: Mohammad (o sucessor) e a princesa Ashraf
©AFP | Getty Images

Para a viúva de Mohammad Reza, a Revolução Branca, a reforma agrária e a emancipação das mulheres não eram questões fracturantes. “A maioria da população apoiava-as”, assevera. “Obviamente, não os proprietários de terras e os fanáticos religiosos.”

“O bom resultado é que o Irão de hoje não tem um sistema feudal, apesar das pressões dos extremistas, e a República Islâmica não conseguiu alterar o direito das mulheres a votar e a ser eleitas.”

Quanto à afirmação de alguns iranianos de que o Xá “errou ao tentar fazer o país passar da era da bicicleta para a do avião a jacto sem experimentar o automóvel”, a imperatriz é peremptória: “Não acredito nisso.”

“Como se pode dizer às pessoas para esperar 20 anos [pelo progresso] quando se tem todos os recursos naturais e riqueza humana disponíveis? Quando viajava pelo país, as pessoas pediam mais e melhores escolas, estradas, clínicas, água, electricidade.”

Mas não é a essa modernidade que muitos se referem, mas sim à ostentação e provocação evidenciadas, por exemplo, no Festival de Artes de Shiraz, projecto pessoal de Farah Diba, inaugurado em 1967, e nas celebrações dos 2500 anos de Persépolis, em 1971.

Em Shiraz, o maior escândalo ocorreu em 1978 quando um grupo de dança do Brasil levou ao palco uma peça de carácter sexual explícito. “O programa do Festival de Shiraz consistia em 90% de músicas tradicionais, danças e teatro, e talvez uns 10 por cento de avant-garde, o que não significa que fosse imoral”, disse-nos a Xabanu.

Em Persépolis, primeira cidade real do Império Aqueménida, onde subsistem os vestígios do palácio de Dario I, sucessor de Ciro, só os ricos e poderosos foram convidados.

O povo foi excluído. As despesas foram avaliadas em 200 a 300 milhões de dólares. Elizabeth Arden criou uma nova linha de cosméticos e chamou-lhe Farah. Lanvin desenhou os uniformes dos empregados. O Maxim’s de Paris forneceu os chefs e o catering. Excepto o caviar iraniano, toda a comida foi encomendada de França.

A imperatriz queixou-se do “exagero dos jornalistas”, notou que as infra-estruturas perdurariam e justificou os gastos como “um maravilhoso exercício de relações públicas” que ajudou muita gente a “localizar o Irão no mapa”.

A família Pahlavi em Outubro de 1967, quando Mohammad Reza deu a si próprio o título de Shahansh (Imperador), numa extravagante cerimónia em Teerão. Da esq. para a dir.: as princesas Ashraf e Shahnaz, o monarca e Farah Diba; em baixo: a princesa Farahnaz e o príncipe herdeiro Reza Pahlavi
© Keystone-France | The Telegraph

A única filha do coronel Sohrab Diba e de Farideh Ghotbi, uma plebeia que o Xá escolheu para assegurar a sucessão depois de dois matrimónios falhados, vive actualmente entre Washington, Nova Iorque e Paris.

Embora tenha aberto uma janela de oportunidade para Khomeini lançar a sua revolução e tenha fechado a porta de entrada a Mohammad Reza quando ele procurou asilo, a França é ainda um país onde Farah Pahlavi se sente bem.

“Familiarizei-me com a cultura europeia durante os meus estudos [de Arquitectura] numa escola francesa”, diz-nos a imperatriz. “A minha história de vida tem sido seguida por muitos em França e os franceses têm sido muito simpáticos onde quer que eu vá.”

Paris foi também a cidade onde, em 1959, Farah Diba conheceu pessoalmente o seu futuro marido, duas vezes divorciado, em 1946 e em 1958. Primeiro de Fawzia bint Fuad, irmã do Rei Farouk do Egipto com quem se casou em 1939, ainda era príncipe herdeiro, e que lhe deu uma filha, Shahnaz.

E depois de Soraya Esfandiari-Bakhtiari, a “princesa dos olhos tristes”, que conheceu em 1948 e que desposou em 1951. Ela sofria de infertilidade, mas recusou que o Xá tivesse uma segunda esposa, como permite o islão, e a união foi anulada.

Mohammad Reza tinha 39 anos quando foi apresentado a Farah Diba, de 20, numa recepção na Embaixada do Irão, após um encontro com Charles de Gaulle. A jovem causou boa impressão e foi o bastante para o genro do imperador, Ardeshir Zahedi, marido de Shahnaz, tratar de tudo para ela ser a noiva que o Xá procurava.

Uma tentativa de casar o soberano muçulmano com a princesa católica Maria Gabriella de Sabóia foi desaconselhada pelo Vaticano como “uma grave ameaça”.

Farah Diba disse sim ao pedido de matrimónio no dia em que fez 21 anos, a 14 de Outubro. O noivado foi oficialmente anunciado a 21 de Novembro. O casamento, duas cerimónias, celebrou-se a 21 de Dezembro.

Yves Saint-Laurent, da casa Dior, desenhou-lhe o vestido bordado com fios de prata. As irmãs Carita inventaram para ela o penteado com o risco ao meio e as têmporas cobertas que se tornaria moda no mundo inteiro. O diadema para a cabeça era jóia do Estado. Concebido nos anos 50 pelo americano Harry Winston, pesava dois quilos.

Como Xabanu (título que ganhou no dia do casamento e que os Mullahs aboliram, Farah Pahlavi teve uma vida de sonho, até ao advento da revolução de Khomeini.

Não que ela enfrente problemas financeiros (apesar de ter sofrido um desfalque de vários milhões de dólares). Mas, depois da morte do marido, teve de enfrentar o suicídio da filha Leila, que chegou a ser modelo de Valentino.

A sofrer de “depressão crónica, baixa autoestima, anorexia nervosa e bulimia”, Leila ingeriu uma dose fatal de “barbitúricos e cocaína”, segundo a autópsia. Foi encontrada sem vida no seu apartamento em Londres, em Junho de 2001. Tinha 31 anos.

“A perda de um filho é sempre uma ferida aberta no coração de uma mãe”, lastima-se Farah Diba [que haveria de perder outro filho, Ali-Reza, aos 44 anos, em 2011 – disparou um tiro na cabeça].

“Leila era uma menina muito inteligente, com boas ideias, mas profundamente traumatizada pelos dramáticos acontecimentos nas nossas vidas.”

“Era muito sociável e gostava da companhia dos que lhe eram mais próximos. Quando estava deprimida, desabafava: ‘Eu consigo ajudar todos os meus amigos, mas sou incapaz de me ajudar a mim própria.”

O ex-Presidente dos EUA Richard Nixon (ao centro) acompanha o féretro do Xá, nas cerimónias fúnebres de Mohammad Reza Pahlavi, no Cairo, em 29 de Julho de 1980. À direita, vê-se o então Presidente egípcio, Anwar el-Sadat; à esquerda, está Farah. @AP Photo

O presidente dos EUA Richard Nixon (ao centro) acompanha o féretro do Xá, nas cerimónias fúnebres de Mohammad Reza Pahlavi, no Cairo, em 29 de Julho de 1980. À direita, vê-se o então Presidente egípcio, Anwar el-Sadat; à esquerda, está Farah
© Associated Press

Sem Leila, a viúva do Xá continua a dedicar-se à restante família, em particular ao filho mais velho, Reza, que se proclamou imperador após a morte do pai, no Cairo. “Nos últimos 29 anos, o herdeiro da coroa tem estado activamente em contacto com muitos compatriotas de diferentes ideologias, dentro e fora do Irão”, conta Farah Diba.

“Ele luta por um regime livre, democrático e secular. E acredita que, uma vez livre, o povo poderá optar pela melhor forma de governo. Tradicionalmente, o rei sempre foi um factor de unificação dos diferentes grupos étnicos e minorias religiosas, porque está acima dos partidos políticos”.

Também ela, “abençoada pelo afecto de muitos americanos”, garante que se mantém ligada ao povo, “seja por correspondência, e-mail, telefonemas e encontros. Tento ajudar como posso”.

Com azedume, acrescenta: “As consequências [da queda do Xá] foram dramáticas para o Irão e para a região em geral. Muitos deveriam fazer um exame de consciência aos actos que praticaram. O Irão estava a estabelecer centrais de energia atómica, criando uma corrida mundial para lhe venderem equipamento.”

“O mundo tinha confiança na sabedoria do Xá, ao ponto de o Irão deter dez por cento das acções da francesa Eurodif.”

Hoje, prossegue, “o regime sobrevive criando crises e inimigos externos, para reviver sentimentos de nacionalismo. Não se pode admitir que este regime obtenha armas nucleares”. Não faz, porém, qualquer apelo a uma intervenção militar para travar o suspeito programa iraniano de enriquecimento de urânio.

“O actual regime está historicamente condenado a desaparecer”, conclui aquela que foi em tempos considerada a mulher mais poderosa do Médio Oriente. “Espero que o mundo dê o seu apoio aos que amam a liberdade. Estou confiante que a luz vencerá as trevas e que o Irão renascerá das cinzas como a Fénix.”

Quando a família Pahlavi era feliz. Da esq. para a dir.: Farahnaz, o Xá Mohammad Reza, príncipe herdeiro, Reza, Leila, Farah Diba e o filho mais novo, Alireza 
© iranpoliticsclub.net

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 19 de Outubro de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 19, 2008

Farah Pahlavi: The United States attempted to hand over the Shah to Khomeini in the Azores

 The last Empress of Persia is now 70 years old and has spent the last 30 in exile. In this interview, by e-mail, she tells of her anguish at Lajes Air Base one night in March 1980. Four months later, Reza Pahlavi died in Cairo. Today she hopes that Tehran’s Islamic regime has its days numbered. (Read more…)

The Shah and the Shahbanu, from opulent palaces to exile. “For a few moments I thought we had won", Farah Diba Pahlavi said. "In my view we were the good ones whilst they were the bastions of horror. Unfortunately it was they [Khomeini and the Mullahs] who had won". @ All Rights Reserved

The Shah and the Shahbanu: From opulent palaces to exile. “For a few moments I thought we had won”, Farah Pahlavi said. “In my view we were the good ones whilst they were the bastions of horror. Unfortunately it was they [Khomeini and the mullahs] who had won”

Farah Diba Pahlavi has spent almost thirty years in exile but she cannot forget the night of 23rd March 1980 when an Evergreen Airlines DC9 in which she was travelling stopped over in the Azores.

Officially it was a refuelling stop but the aircraft was held up for several hours on the tarmac without permission to take off. ‘It was an anxious moment,’ the last Empress of Persia tells me during a rare interview by e-mail.

We have to go back in time to understand what actually happened at Lajes Air Force Base, and which could have changed the course of history.

Farah Diba and her husband, Shah Mohammad Reza Pahlavi, had been forced to leave Panama and they should have gone on to Cairo where President Anwar el-Sadat had renewed his offer of refuge. They had been fleeing for over a year. Several doors had been closed to them after Ayatollah Khomeini had overthrown the monarchy.

Egypt had been the first stop in their exile on 16th January 1979 when the imperial couple arrived in Aswan. But on the 22nd, Farah Pahlavi and the “king of kings”, who was suffering from terminal lymphoma, “a well-guarded secret since 1974,” were already on their way to Morocco at the invitation of King Hassan II.

It was whilst they were staying at a luxury villa in Marrakech that on 11th February Radio Tehran broadcast the news most dreaded by the Shah: that “the Revolution had won and the bastion of the dictatorship had capitulated.”

In the autobiography An Enduring Love: My Life with the Shah: A Memoir, the Shahbanu (empress) confesses: “For a few moments I thought we had won. In my view we were the good ones whilst they were the bastions of horror.”

“Unfortunately it was they who had won and who had overthrown the last government (of Shapour Bakhtiar) nominated by my husband.” the Shah, who had refused the requests of the officers of his personal staff to shoot down the plane carrying Khomeini from Paris to the future Islamic Republic, “remained silent for some time.”

Their stay in Morocco, where their children who had joined them from the United States, became threatened when the Iranian masses began to demand the return of the Emperor to be tried, and perhaps to be summarily executed. This had already happened to hundreds of Army officers of the previous regime.

On 14th February, the U.S. Embassy in Tehran was temporarily occupied by Revolutionary Guards. A French secret service emissary arrived at King Hassan’s Palace in Rabat to warn that Khomeini had ordered the kidnapping of members of the Moroccan royal family in exchange for his guests.

Although King Hassan maintained his solidarity, Farah Diba understood the seriousness of the situation. “It was urgent to find another place of exile,” she states in her autobiography, but “everybody turned their backs on us”.

France had refused, stating that it could not guarantee the safety of the emperors who had fallen on hard times. The same happened with Switzerland and Monaco. Mexico and Canada didn’t reply. The US said, “later, perhaps.”

Margaret Thatcher, who had promised support if she won the elections, changed her mind when she became prime minister because, “it would be bad for British interests.”

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King Hassan II put his private plane at the Pahlavi’s disposal. It was in this aircraft that the Shah, the Shahbanu and the children (Reza, Fahranaz, Ali-Reza and Leila) as well as a paediatrician, a governess, several colonels and the Emperor’s “personal man-servant” left on 30th March 1979 for Nassau, capital of the Bahamas.

The archipelago did not have diplomatic relations with Iran but the offer of asylum, obtained thanks to Henry Kissinger, David Rockefeller and Jimmy Carter, had a time limit: three months.

Three weeks before the visas expired, the Bahamian authorities said they would not renew the visas. But at the request of Henry Kissinger, Mexico, under José López Portillo, agreed to accept the unwanted family.

On 10th June 1979, Farah Diba, Mohammed Reza and the accompanying party settled into Cuernavaca in the south, in a house with a tropical garden and boasting scorpions on the walls. This was the fourth site of exile in less than six months.

The Emperor’s health was worsening and since Mexico did not possess modern medical facilities for cancer treatment and haematology, his doctors decided that he should go into hospital in the United States.

The Shahbanu was saddened: “There was something rather vexing about being allowed into the United States after it had refused us hospitality.” She also feared hostile demonstrations but Mohammed Reza’s family and particularly his twin sister, Ashraf, decided that he should be moved to New York where she lived.

They arrived there on 23rd October 1979 but before they landed, President Carter called a meeting on the 19th of his inner cabinet. Those present were: Walter Mondale, Cyrus Vance, Zbigniew Brzezinski, Harold Brown and Hamilton Jordan.

The unanimous opinion was to allow the Shah to enter, as it was a case of “medical urgency.” Carter was convinced but he did leave a question: “What will they advise us to do when they (the Iranians) occupy our Embassy and turn our staff into hostages?”

This fear, or presentiment, was justified. On 4th November 1979 Islamic students attacked and occupied what they called the U.S. ”nest of spies” in Teheran and held 60 Embassy staff hostage – 52 of them during 444 days.

The Iranian Republic refused to believe that the Shah was really ill. They suspected that Washington was preparing to help him back into power as it had done in 1953 when the CIA overthrew Mohammed Mossadegh’s government and put Mohammed Reza back on the Peacock Throne.

Mossadegh’s fall was due to the fact that he had dared to nationalise the Anglo-Iranian Oil Company and this action had greatly annoyed Winston Churchill. Today many political analysts, including the CIA, agree that because British and Americans feared he might become an ally of the U.S.S.R., this situation later opened the path for the rise of Khomeini.

“The Pahlavi Crown was commissioned and first used for the coronation of Reza Shah on 25 April 1926. It was used for the last time during the coronation of his son and successor Mohammad Reza Shah Pahlavi on 26 October 1967. (…) The frame of the crown is made of gold, silver and red velvet. It has a maximum height of 29.8 cm, a width of 19.8 cm and weighs nearly 2,080 grams. A staggering 3,380 diamonds, (1,144 carats), are set into the object. The largest of these is a 60-carat (12 g) yellow brilliant, which is centrally placed in a sunburst of white diamonds. Found in three rows are 369 nearly identical natural white pearls. The crown also contains five emeralds (totalling 200 carats), the largest of which is approximately 100 carats and located on the apex of the crown.” © All Rights Reserved

“The Pahlavi Crown was commissioned and first used for the coronation of Reza Shah on 25 April 1926. It was used for the last time during the coronation of his son and successor Mohammad Reza Shah Pahlavi on 26 October 1967

On the day following his arrival in New York, on 24th October 1979, Mohammed Reza Pahlavi underwent surgery that did not work out well. The news of his internment spread quickly. He was able to hear through the window of the hospital, where he was fighting for his life, the shouts of the demonstrators crying, “Death to the Shah!”.

On 20th November, after some of the hostages had been released, (only the Afro-Americans) from the US Embassy in Tehran, Carter threatened to intervene militarily.

On 28th he stated he would not give in to blackmail to those who demanded the extradition of the Emperor. He would only leave the U.S. when he had recovered.

When the doctors decided the patient was ready to leave hospital, the return trip to Cuernavaca was booked for 2nd December.

On the 30th November, however, President Portillo refused him asylum. According to Farah Pahlavi the price for this turnaround was Fidel Castro’s promise that Cuba would vote in favour of Mexico’s entry onto the UN Security Council if it did not allow the Shah to enter the country.

The Carter Administration had no other solution than to discreetly send the Persian Royal Family to Lackland Air Force Base in Texas.

It was a temporary stay that the State Department had no desire in prolonging. Even South Africa, where apartheid still governed, refused asylum. ‘We felt we were outcasts,’ complained Farah Pahlavi.

On 12th December 1979, General Omar Torrijos, “Supreme Commander of the Government” agreed to allow the Pahlavis into Panama. He installed them in a four-room villa on the Island of Contadora.

Three months later, Torrijos it appears, was persuaded by Sadegh Ghotbzadeh, “that he conspired to be Iranian President” and that his house arrest would be sufficient for the Iranian students to release the US hostages.

On being informed of the situation, the Empress gathered up courage and phoned Jehan, Anwar Sadat’s wife to ask for help. “Come”, said her friend, “We are waiting for you in Egypt.”

Carter became concerned when he knew of this and tried to change Farah Diba’s mind: “Your presence in Cairo threatens to undermine the already weak position of President Sadat and threatens the peace efforts with Israel in the Middle East.” On 22nd March, Carter phoned Sadat to try to persuade him not to receive the Pahlavis. Sadat reacted angrily: “Jimmy, I want the Shah here and alive!”

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The Shah and the Shahbanu left for Cairo at 2 p.m. local time on Sunday, 23rd March. That night the Evergreen Air Lines charter company DC9 made a fuel stop at Lajes in the Azores.

After waiting for one hour Farah Diba began to fear the worst: “Was it an attempt to stop us reaching Cairo? We were at an American airbase in an American plane, therefore everything was possible.” On asking what the problem was, the reply came back that the plane “required authorization to fly over certain territories”.

“I asked the authorities to be allowed to use a phone to contact a friend in Paris,” recalls Farah Diba in the interview that she gave me. “I informed this person of our situation: that His Majesty was suffering from a very high fever, that it was very cold inside the aircraft, of my concern over the uncertainty of the situation and that everyone should be notified of the situation should there be no further contact from us.”

“Many years later, sometime in the 1990’s, I met the Portuguese Foreign Minister, Mr André Gonçalves Pereira. He told me that the U.S. Embassy [in Lisbon] had been questioned about our detention on the tarmac for over four hours and that the reply had been that ‘we cannot give you any reason’ [later the former minister would give his own version].”

“On the following day [24th March 1980], the Portuguese Ambassador in Washington asked the State Department the same question and, once again, the answer was “we cannot give you any reason.”

Later, Farah Diba found the reason for the interminable delay. When one of the lawyers sent by Tehran to Panama was preparing to deliver an extradition request he asked the U.S. to intercept the Imperial couple’s aircraft as Saedegh Ghotbzadeh said he was convinced he could manage to free the American hostages once the announcement had been made of the detention of the royal couple.

The decision to hold the aircraft at Lajes was made by Hamilton Jordan, chief of staff at the White House and a Carter confidant, although Carter himself had not been advised of it. As no encouraging news had arrived from Tehran, the aircraft was authorised to take off after a 4 hour holdup. On 24th March, when the extradition request was delivered, the Pahlavis arrived in Cairo.

"On the day of her coronation in Teheran, the Empress Farah Pahlavi wore a sumptuous bejeweled crown and emerald necklace created by Van Cleef & Arpels. The Maison also crafted the jewelry sets of the Shah Reza Palhavi’s sisters and daughters. This event marked one of the most prestigious special orders in the Maison’s history. The crown was adorned with 1541 stones in total, including 1469 diamonds, 36 emeralds, 34 rubies, 2 spinels, 105 pearls among other stones, but most importantly, a spectacular 150-carat emerald set at the center. It weighed 4.3 pounds." © All Rights Reserved

“On the day of her coronation in Tehran, the Empress Farah Pahlavi wore a sumptuous bejeweled crown and emerald necklace created by Van Cleef & Arpels. The Maison also crafted the jewelry sets of the Shah Reza Pahlavi’s sisters and daughters. The crown was adorned with 1541 stones in total, including 1469 diamonds, 36 emeralds, 34 rubies, 2 spinels, 105 pearls among other stones, but most importantly, a spectacular 150-carat emerald set at the center. It weighed 4.3 pounds”

Farah Pahlavi was convinced that Torrijos “would not have hesitated to place the Shah under house surveillance.” But would that have satisfied the Iranians?

Whatever the case, Mohammed Reza Pahlavi did not live for very much longer as he died on 27th July. Sadat, who had installed him in the Koubbeh Palace, gave him an imposing State funeral. The body lies in the Al Rifa’i Mosque where Farah Diba goes every year to pay tribute.

“Yes, it was me”, confirmed us André Gonçalves Pereira. “I became curious as to what had taken place in 1980 and, the following year, as minister, I sought to find out what had happened at Lajes. The aircraft had arrived at midnight and left at 8.00 a.m. [as stated by Farah Diba]. This was strange. The stopover should have only taken half an hour. The crew alleged a technical fault.”

On being asked officially, the American officials merely replied, “they didn’t know.” They couldn’t have replied to a sovereign state “we cannot give you any justification”, added Gonçalves Pereira, as stated by the Empress in this interview.

The former head of the Foreign Ministry checked his diaries and found the moment when he had explained to the Shahbanu of his interest in the Azores episode. “She came to dinner at my house in the Algarve in July 1996 and it was then that we spoke about this matter.”

The information that he had was that the Americans were negotiating with the Iranians, through Algiers, the handover of the Shah to the mullahs in exchange for the release of the hostages in Tehran. Supposedly, the Islamic Republic’s demand was that the aircraft carrying the Shah should deliver him to the Iranian capital. The U.S. only agreed to leave him in Algiers. So the negotiations failed”.

Farah Diba’s version in her Memoir states it was Panama and not Algeria. The former minister states: “In matters of ultra-secret diplomacy we can never be sure”, except that “there weren’t any technical reasons, rather political ones’ for the aircraft to be held back and that Washington “really was negotiating the Shah’s extradition.

Farah Diba later wrote a letter to thank me. She is a very intelligent woman and well informed. She has a regal bearing. We still keep in touch occasionally. I remember a dinner in Paris when I asked the Portuguese Ambassador to invite her.’

Over what had taken place at Lajes, Gonçalves Pereira highlights “the contrast” in the treatment given to the Shah by the U.S. and that by Egypt.

“The Carter Administration that was relatively straight forward and honest, was ready to hand over the Shah, a fundamental ally of the U.S. in the Middle East, whilst President Sadat, in an almost quixotic attitude, agreed to receive him despite being threatened by Islamic fundamentalism, that eventually assassinated him the following year. He was a notable man.”

There has long been confusion about the origins of the Peacock (or Naderi) Throne that now sits in the National Jewels Museum. The real story is this: In 1798 Fath Ali Shah ordered a new throne to be built. His artists made quite a job of it, encrusting the vast throne that looks more like a bed with 26,733 gems. Set into its top was a carved sun, studded with precious stones, so the throne became known as the Sun Throne. Later Fath Ali married Tavous Tajodoleh, nicknamed Tavous Khanoum or Lady Peacock, and the throne became known as the Peacock Throne in her honour. Fath Ali certainly had a taste for gems, but one of his predecessors, Nader Shah, liked the finer things too. So much so, in fact, that he invaded India in order to recover the Kuh-e Nur diamond. During the expedition he also bagged the Moghuls' famous Peacock Throne. But during the haul back to Persia, this piece of booty fell into the hands of rebellious soldiers, who hacked it up to spread the wealth among themselves. In the intervening years the stories of the Peacock Thrones have become muddled, so you might still hear people say (erroneously) that this Peacock Throne originally came from India. @Lonely Planet

“There has long been confusion about the origins of the Peacock (or Naderi) Throne that now sits in the National Jewels Museum, in Tehran. The real story is this: In 1798 Fath Ali Shah ordered a new throne to be built. His artists made quite a job of it, encrusting the vast throne that looks more like a bed with 26,733 gems.vSet into its top was a carved sun, studded with precious stones, so the throne became known as the Sun Throne. Later Fath Ali married Tavous Tajodoleh, nicknamed Tavous Khanoum or Lady Peacock, and the throne became known as the Peacock Throne in her honour. Fath Ali certainly had a taste for gems, but one of his predecessors, Nader Shah, liked the finer things too. So much so, in fact, that he invaded India in order to recover the Kuh-e Nur diamond. During the expedition he also bagged the Moghuls’ famous Peacock Throne. But during the haul back to Persia, this piece of booty fell into the hands of rebellious soldiers, who hacked it up to spread the wealth among themselves. In the intervening years the stories of the Peacock Thrones have become muddled, so you might still hear people say (erroneously) that this Peacock Throne originally came from India”
© Lonely Planet

Almost 30 years after a trip that she had hoped would have been “a temporary departure from the country,” Farah Diba is a harsh woman, in sharp contrast with the meaning of her maiden name in Farsi that means “silk”. She continues to defend the Shah’s actions and attributes his overthrow to a conspiracy. She venerates him as a visionary leader, but many however, including some of his staff, describe as being weak and indecisive.

One of them is the Iranian sociologist, Ehsan Naraghi who was a critic (SAVAK, the secret police, forced him to leave the country in 1969) and later a court adviser.

In the book Des Palais du Chah aux Prisons de la Révolution, Naraghi recalls one of the last audiences he had with Mohammed Reza on 23rd September 1978 where the emperor who had succeeded the Qajar Dynasty, asked him: “What is the source of this rebellion? Who has instigated it? Who started this religious movement?” The reply was: “But it was you, Your Majesty” The king of kings replied: “Why me?”

“15 years ago in 1962”, explained Naraghi, “when you visited the Qom sanctuary [where Khomeini was a theologian], you openly attacked the religious leaders and, in Parliament, you said that their criticisms to land reform and to the emancipation of women were reactionary. You were so violent, even insulting, that the person responsible for the television broadcast had to censure your words. (…)”

“From then onwards, the religious leaders were forced, in order to reject the accusation of being conservative, to take action and to prove that they weren’t attached to an archaic social order. Supported by the vast Shiite resources, they wished to show that they could be even more revolutionary than Your Majesty with the White Revolution.”

Farah Pahlavi plays this down: “I can’t confirm if the conversation [with Naraghi] and the Shah took place since I wasn’t present. In relation to all the work he did, a French phrase comes to mind: ‘Il faut en prendre et en laisser’. During the days of the Roman Empire it was said that if a battle is won everyone participated but if a battle is lost, there is only one to blame”, she complains.

“Iran occupies, in geo-strategic terms, a very important position. It was becoming too powerful. Some foreign interests began to feel threatened and they started a programme of defamation against the monarchy in the media. They also courted and encouraged the opposition within the country.”

“I read an interview by Ibrahim Yazdi [opponent of the monarchy and minister in the first year of the Islamic Revolution] where he speaks of his relationship with the U.S. State Department and of how he passed on the message that Ayatollah Khomeini valued human rights and the emancipation of women.”

“Lord [David] Owen, who was Foreign Minister at the time [of the Islamic Revolution] stated: ‘If we had known that the Shah was ill, this would not have happened.’ What does this mean? William H. Sullivan, who was ambassador in Iran from 1977 to 1979, wrote about his meetings and contacts with the Iranian opposition.”

“Let us not forget that it was the Cold War era and that the Soviet Union who had a strong desire to reach the warm waters of the Persian Gulf, was also a sponsor to and played a role in the Iranian Communist Party, the Tudeh.”

There were still other organised groups, such as the People’s Fedayeen (Maoists) and the People’s Mujahedeen (Islamic Marxists), many of who were trained in Cuban and Palestinian guerrilla camps. Members of these groups who helped take Khomeini to power were later killed by the thousands.”

The Iranian Shah with Farah and Reza Pahlavi, the eldest son and heir prince. @ALL Rights Reserved

The last  Shah with Farah and Reza Pahlavi, the eldest son and heir prince

Does Farah Pahlavi regret anything? She replies at length: ‘If we had been better organised politically; if the political participation had opened up before 1977; if the American Administration had been different; if the British prime minister and French president had also been different.”

“If the Soviet Union had been Russia, if Khomeini had not been allowed to come to Paris [from Iraq where the Shah had exiled him]; if some Iranian intellectuals had not seen Khomeini’s face on the moon.”

“If people had listened to the Shah who said there we will remedy the shortcomings and dissatisfactions; if the Western media had not maliciously attacked the Shah and compared Khomeini to a spiritual saviour, this tragedy would not have happened.”

Naraghi, the sociologist, said that, on several occasions, he had tried on several occasions to explain to the technocrats surrounding the Shah that “the great civilization” desired by the Shah would lead to “a chaotic uprising”.

The emperor’s policy “divided a nation, a progressive minority on the one hand and a traditionalist majority on the other – which undermined the feelings of national solidarity and exposed [the Iranians] to a completely new cultural conflict”.

Farah Diba acknowledges that some of those responsible hid the people’s discontent from the Shah, but she denies the existence of the division. This would mean, she justifies, “that the majority of the Iranians is now happy which, as everyone knows, is not true.”

She does not believe that lies, material and moral corruption, flogging, stoning and dismemberment of people are part of the valuable Iranian traditions. The majority of Iranians very much wanted what ‘modern life’ offered such as schools, universities, hospitals, stadiums, libraries, cultural centres, industries, communications and their participation in the development of the nation”.

The explanation found by the Shahbanu for the revolt of the Iranians against the Shah is different: “In Iran, after 1973, the increase in the price of oil did not please foreign interests. There was a boom in development and the government could not meet the people’s expectations. This created dissatisfaction and fertile ground for the opposition, since it was well organised, unlike us.”

“Ayatollah Khomeini and his disciples promised paradise, free vehicles, free transport, free utilities, free gasoline and other free goods. Many believed in this but they opened the doors to hell. Today, many regret having taken part in the street demonstrations. The younger generation blame their parents for the current situation in Iran.”

The White Revolution’s land reform and emancipation of women were not, in Mohammad Reza’s widow’s opinion, litigious: ‘The majority of the population supported them,” she states.

“Obviously big landowners and some religious fanatics didn’t agree with them. The good result out of all this is that today’s Iran does not have a feudal system, despite the pressures of the extremists, and the Islamic Republic did not manage to change the rights of women to vote and to be elected.”

As for the statement by some Iranians that the Shah “made a mistake in trying to change from the bicycle stage to the jet plane without passing through the stage of the motor car”, she is vehement:  “I don’t believe it. How can you tell people to wait 20 years [for progress] when you have all the natural resources and human wealth available? When I travelled through the country people asked for more and better schools, roads, clinics, water, electricity, etc.”

But this isn’t the progress that many refer to, but rather the ostentation and the provocation shown, for example, at the Shiraz Arts Festival, Farah Diba’s personal project, inaugurated in 1967 and during the celebrations of the 2,500 years of Persepolis in 1971. In Shiraz the biggest scandal took place in 1978 when a Brazilian dance group performed explicit sexual dances.

Niavaran palace in Tehran had been in the core of attention at the end of Qajar era; however, its main application dates back to the second Pahlavi period.The complex consists of a multitude of sections, the most important of which is a palace that has been built under the order of Mohammad-Reza Shah Pahlavi. From 1968 to 1979 –before the Islamic revolution- this palace has been the residential place for Shah’s family and for reception of foreign guests”
© gravity.ir/galleries/architecture/niavaran-palace

“90% of the Shiraz Festival programme consisted of traditional music, dances and theatre and perhaps some 10% of avant-garde, which doesn’t mean it was immoral,’ said the Shahbanu during this interview.

In Persepolis, the first royal city of the Achaemenid Empire where vestiges of the palace of Darius I, successor of Cyrus the Great, still survive, only the rich and powerful were invited. The people were excluded.

The costs were calculated at between 200 and 300 million dollars. Elizabeth Arden created a new line of cosmetics and named it Farah. Lanvin designed the servant’s attire, Maxim’s of Paris supplied the chefs and the catering.

Except for the Iranian caviar, all the food was supplied from France. The Empress complained of “the exaggeration of the journalists”; she pointed out that the infrastructures would last and justified the expense as “a magnificent exercise in public relations” which helped many people to “situate Iran on the map”.

The only daughter of Colonel Sohrab Diba and Farideh Ghotbi, a plebeian whom the Shah chose to guarantee his succession after two failed marriages, she presently lives between Washington, New York and Paris. Despite having opened a window of opportunity for Khomeini to launch his revolution and closed the door to Mohammad Reza when he sought asylum, France is still a country where Farah Pahlavi feels comfortable.

“I became familiar with European culture due to my studies [architecture] in a French school,’ the Empress tells us. “My life story has been followed by many in France and the French have been very kind wherever I go.”

Paris was also the city where, in 1959, Farah Diba personally met her future husband, twice divorced, in 1946 and in 1958. First from Fawsia bint Fuad, sister of King Farouk of Egypt whom he married in 1939 when he was still heir to the throne and who bore him a daughter, Shahnaz.

And then from Soraya Esfandiari-Bakhtiari, “the princess with the sad eyes”, whom he met in 1948 and married in 1951. She suffered from infertility, but refused the Shah permission to have a second wife as permitted by Islam so the union was annulled.

Mohammad Reza was 39 years old when he was introduced to Farah Diba, 20, at a reception in the Iranian Embassy after a meeting with Charles de Gaulle. She caused a good impression and this was enough for the Emperor’s son-in-law, Ardeshir Zahedi, Shahnaz’s husband to go ahead and deal with the details for Farah Diba to become the fiancée the Shah was seeking.

An attempt to marry the king to the Catholic princess, Maria Gabriella of Savoy, was found to be ill advised by the Vatican as “a serious threat”.

Farah Diba accepted the Shah’s marriage proposal on the day she celebrated her 21st birthday on 14th October. The betrothal was officially announced on 21st November. The marriage that included two ceremonies, took place on 21st December.

Yves Saint-Laurent, of the House of Dior designed the wedding dress, embroidered with silver threads. The Carita sisters created a hairstyle that featured a parting in the middle and with the temples covered.

This style became fashionable the world over. The diadem was a Crown jewel. It was designed in the 50’s by the American Harry Winston, and weighed two kilos.

As Shahbanu, a title she received on her wedding day and which the Mullahs abolished, Farah Pahlavi led a dream life until the advent of Khomeini’s revolution.

Not that she faces financial problems (although she suffered a situation of embezzlement of several million dollars). But following the death of her husband she had to face the suicide of her daughter Leila who had become a Valentino model.

Suffering from a “chronic depression, low self-esteem, nervous anorexia and bulimia”, Leila took a fatal dose of “barbiturates and cocaine”, according to the autopsy. She was found dead in her London apartment in June 2001. She was 31 years old.

“One of the oldest historic monuments in the city of Tehran, and of world heritage status, the Golestan Palace belongs to a group of royal buildings that were once enclosed within the mud-thatched walls of Tehran’s arg (“citadel”). It consists of gardens, royal buildings, and collections of Iranian crafts and European presents from the 18th and 19th centuries”
© ioi2017.org/tehran/golestan-palace

‘The loss of a child is always an open wound in the heart of a parent,’ Farah Diba laments. ‘Leila was a very intelligent girl, with good ideas, but profoundly traumatised by the dramatic events in our lives. She was very sociable and loved the company of those closest to her. When she was depressed, she would open up: ‘I can help all my friends, but I’m unable to help myself”.’

Deprived of Leila, the Shah’s widow continued to dedicate herself to the rest of the family, particularly to the oldest son, Reza, who proclaimed himself emperor after his father’s death in Cairo. “Over the last 29 years the heir to the throne has been very active in his contacts with many of his compatriots of different ideologies both inside and outside Iran”, says Farah Pahlavi.

“He fights for a free, democratic and secular regime. And he believes that, once free, the people will be able to choose the best form of government.

Traditionally, the king was always a factor for unification amongst the different ethnic groups and religious minorities, because he is above the political parties”. She also feels “blessed by the affection of many Americans”, guarantees: “I have kept in touch with my people, whether by correspondence, e-mail, telephone calls or interviews. I try to help as much as I can.”

Somewhat bitterly she adds: “The consequences [of the Shah’s fall from power] were dramatic for Iran and for the region in general. Many should do some soul-searching about their actions.”

“Iran was setting up nuclear power stations, and nations around the world were beating a path to its door to sell it equipment. The world had confidence in the Shah’s wisdom so much so that Iran was a 10 per cent shareholder of Eurodif [company] in France.’

She continues: “The regime survives by creating crises and seeking foreign enemies, to revive sentiments of nationalism. This regime must not be allowed to obtain nuclear weapons,’ She makes no appeal, however for military intervention to stop the suspected Iranian uranium enrichment programme.

“The present regime is historically condemned to disappear”,  she, who was once considered to be the most powerful woman in the Middle East, concludes: “I hope that the world will help those who value freedom. I’m confident that the light will overcome darkness and that Iran, like the Phoenix, will soon rise from her ashes.”

[On January 4, 2011, Farah Pahlavi suffered another blow: her younger son, Ali- Reza Pahlavi, committed suicide  in his South End Boston apartment after a long period of depression. Local police said that he died from a self-inflicted gunshot wound. He could not overcome the sorrow of losing his father, his sister, his homeland – “his identity”-, according to the official site of the former Imperial House. ] 

Al-Rifa’i Mosque – Tomb of Mohammad Reza Pahlavi
© Gerhard Huber | global-geography.org

 

This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 18, 2008 

UNESCO premeia o “coração árabe” de Adalberto Alves

O escritor, poeta, jurista, ensaísta e historiador português foi elogiado por ter “inspirado muitos escritores portugueses e espanhóis  a divulgar a história da cultura árabe do Gharb al-Andalus”. (Ler Mais | Read more…)

Adalberto Alves é autor de dezenas de livros
© Arandis Editora

Adalberto Alves, um opositor à ditadura de Salazar que viu negado o acesso à função pública, até à Revolução de 25 de Abril de 1974, por ser advogado de presos políticos, consegue precisar o momento em que se apaixonou pela cultura árabe.

Foi aos cinco anos, quando viu o filme Ladrão de Bagdad, “não a versão muda” mas a que foi realizada em 1940 por Ludwig Berger, Michael Powell e Tim Whelan. [A 7 de Outubro de 2008], a UNESCO recompensou esse amor, mas também a sua “busca interior”, que o levou a escrever “uns 30 e tal livros”, como me disse, numa entrevista, por telefone.

Autor de O Meu Coração é Árabe, provavelmente uma das suas obras mais conhecidas — “os leitores sentiram-se tocados como se tivessem reencontrado um parente perdido” — o poeta, ensaísta e tradutor português vai receber cerca de 22 mil euros, o valor do Prémio Sharjah para a Cultura Árabe, criado pela UNESCO em 1998.

A mesma quantia será atribuída ao académico egípcio Gabel Asfour, director da Fundação de Tradução Nacional no Cairo.

A Asfour foi reconhecido o seu “importante papel na divulgação da cultura árabe pelo mundo” – é professor em universidades dos EUA, Europa e Médio Oriente.

No caso de Adalberto Alves, director do Celas (Centro de Estudos Luso-Árabe de Silves), a UNESCO enalteceu-o por ter “inspirado muitos escritores portugueses e espanhóis [um deles o romancista Pedro Plasencia, autor de El Tiempo de los Cerezos] a divulgar a história da cultura árabe do Gharb al-Andalus”.

O autor e investigador Adalberto Alves recebeu ontem, em Paris, na sede da UNESCO, o "Prémio Sharjah para a Cultura Árabe 2008". © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Adalberto Alves (dir.) ao receber, em Paris,  sede da UNESCO, o Prémio Sharjah para a Cultura Árabe 2008

[Quando foi notificado de que ganhara o prémio], o advogado que de dia trabalhava no gabinete jurídico de um banco e de noite “dormia pouco” para ir além do “romantismo e exotismo” do filme Ladrão de Bagdad, [estava] a preparar um Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa (toponímia, antroponímia, léxico corrente e empréstimos semânticos), que seria publicado em 2013.

Já havia um, de José Pedro Machado (Influência Arábica no Vocabulário Português) mas o de Adalberto Alves tem mais elementos, “ainda que não pretenda ser exaustivo, porque todos os dias a língua portuguesa recebe contribuições árabes, como al-Qaeda/A Base).

Assim, se já sabíamos que “Oxalá” derivava de Insh’Allah (Deus queira), ficamos a saber também que os árabes nos deram a “bochecha” (mashash), o “jorro” (jara), o “açaime” (al-zimân), a “febra” (habra) ou o “tamarindo” (tamr al-hindi, tâmara do Índico).

Como chegou ele aqui? “Consultando muitos dicionários e fontes árabes”, língua que aprendeu na Universidade Nova, nos anos 1980.

Para fazer a necessária pesquisa e escrever este dicionário, o arabista bateu às portas de “várias embaixadas e instituições culturais”.

Nenhuma se abriu, lamenta, e agora parte do prémio será usado para pagar despesas como a compra da imprescindível Enciclopédia do Islão, “com 12 volumes e cada um a 150 contos”.

O Prémio Sharjah deve o seu nome e fundos a um emirado do Golfo Pérsico. Curiosamente, Sharjah é um dos raros territórios árabes que Adalberto Alves, [nascido em Lisboa, em 1939], ainda não [visitara em 2008]. A

sua atenção vira-se agora para o Sufismo, o misticismo islâmico. “Se perguntarem se sou muçulmano digo que sim, mas também digo que sou hindu, porque acredito na unidade de todas as religiões.”

Bibliografia recomendada

Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa; 2013; Ed. INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda

Portugal e o Islão : Novos Escritos do Crescente; 2009; Ed. Teorema

As Sandálias do Mestre2009; EdÉsquilo

Portugal e o Islão Iniciático; 2007; Ed. Ésquilo

Al-Mu‘tamid: Poeta do Destino; 2004; Ed. Assírio & Alvim

Ibn ‘Ammâr Al-Andalusî – O drama de um poeta; 2000Co-autor: Hamdane Hadjadji; Ed. Assírio & Alvim

Arabesco; 1989; Ed. Assírio & Alvim

O Meu Coração é Árabe; 1998; Ed. Assírio & Alvim

Adalberto Alves, poeta, ensaísta e tradutor
© julio-pego.blogspot.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 8 de Outubro de 2998 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 8, 2008

Jonathan Ben Efrat nos “cantos escuros” de Israel

Na Cisjordânia e em Gaza as pessoas estão agora mais preocupadas com a pobreza do que com a criação de um Estado, diz o realizador de Six Floors to Hell, que passou no DocLisboa.  (Ler mais | Read more…)

Uma cena de Six Floors to Hell, o documentário de Ben Efrat. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Uma cena de Six Floors to Hell, o documentário de Ben Efrat

Jonathan Ben Efrat fez um filme centrado em Jalal Hamdan, um de mais de 400 trabalhadores ilegais que passam as noites escondidos num centro comercial inacabado, em Telavive, para poderem trabalhar de dia.

“Pela primeira vez desde a Intifada, os israelitas tiveram oportunidade de olhar para os palestinianos como seres humanos que têm sonhos, desejos e afecto”, diz-nos o realizador, depois de ter assistido às exibições na Culturgest e no (antigo) Cinema Londres.

A partir de The Mall, a curta-metragem com que ganhou uma menção honrosa no DocLisboa em 2007, Efrat desenvolveu a história para Six Floors to Hell, onde destaca a figura de Jalal, que não se esquiva a nenhum sacrifício para poder oferecer a casa que Nisrin, a namorada de “um ano e quatro meses”, lhe pediu.

Na escuridão, a única coisa que nos resta é o amor.

Estes trabalhadores escondem-se seis pisos abaixo do solo, deslizando por ferros que o cimento não tapou para dormir sobre colchões que transportam às costas e assentam num chão fétido.

No Mall não há água corrente e electricidade. Velas e cigarros iluminam as paredes pestilentas. “Estar na prisão seria melhor”, diz um. “Pelo menos teríamos luz.”

Privados de uma economia viável nos territórios ocupados – política deliberada após a guerra de 1967 – estes homens tornaram-se mão-de-obra barata em Israel.

Depois de repetidos atentados suicidas e da construção da “barreira de separação”, começaram a ser substituídos por Filipinos e outros asiáticos. Sem meios de subsistir, arriscam a vida para se infiltrar em Telavive, eclipsando-se no Mall até poderem regressar às suas casas no Shabbat judaico.

“A primeira vez que vim para aqui pensei: é o inferno”, descreve Jalal. “Não conseguia dormir nem por um minuto. O fedor, os mosquitos, a escuridão. Não se via nada. Uma semana depois habituei-me ao cheiro, a dormir, a tudo.”

“Todos os meus problemas e medos passam quando ouço a voz da minha noiva. Se ela está feliz, eu fico bem. Apaixonámos à primeira vista. Como nas histórias. Mas a minha história é especial.”

“A ligação a Jalal foi tão forte desde o início que lhe perguntei se era possível, fazer uma versão mais longa [do The Mall], e ele disse que sim”, explica Efrat, que com a sua equipa da Video-48, entrou num sítio onde, salienta, “nenhum outro israelita, excepto polícias, havia entrado antes”. 

O cineasta quis seguir o sonho do palestiniano até ao dia do seu casamento, e essa visão foi premiada, este ano, no DocAviv (melhor montagem) e em Turim, com o RAI Prize CMCA.

Em Israel, o júri considerou que o filme “imprime luz aos cantos mais escuros de Israel, tendo comovido como nenhum outro graças à sua força emocional.”

Jalal representa, para Efrat, “o verdadeiro palestiniano, mais do que o presidente Abu Mazen [ou Mahmoud Abbas]. Porque hoje, o maior problema na Cisjordânia e na Faixa de Gaza é a pobreza e o desemprego. Já ninguém fala de um Estado independente, de Jerusalém ou [do direito de retorno] dos refugiados. Eles falam de pão e de arroz.”

Essa preocupação em comer é evidente quando um dos colegas de Jalal diz ao patrão que está a dormir em Pardes Katz, um bairro judaico. “Mentimos, mas temos de dizer estas mentirinhas para sobreviver. Se eu disser que não tenho licença, nunca trabalharei.”

Jalal, que desde os 12 anos dorme no Mall – “metade da minha vida” – está determinado a mudar-se deste lugar onde também foram parar o pai e um irmão mais novo. “Quando me casar deixo isto. Deixo Israel.”

A situação está cada vez mais complicada. Numa noite, um colega ficou retido no posto de controlo militar de Anata. E a conversa gira, inevitavelmente, à volta desse incidente. Se não conseguir entrar não poderá sustentar a família.

“Para ir de Nablus a Ramallah demorávamos cinco minutos. Agora são cinco horas. Por causa do checkpoint de Huwwara. Antigamente, custava cinco shekels vir de Nablus até aqui. Agora custa 200 shekels [50 dólares]”.

“Eles [os trabalhadores no documentário] não recriminam ninguém”, admite Ben Efrat. “Nem o Governo israelita nem as acções da Fatah e do Hamas. É triste, mas isso é porque não têm líderes. Eles são combatentes pela sobrevivênci1a.” @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

“Eles [os trabalhadores no documentário] não recriminam ninguém”, admite Jonathan Ben Efrat. “Nem o Governo israelita nem as acções da Fatah e do Hamas. É triste, mas isso é porque não têm líderes. Eles são combatentes pela sobrevivência”
© Jonathan Ben Efrat

Um dos aspectos mais surpreendentes do filme de Efrat é que Jalal e os seus companheiros, não se mostram como vítimas. “Eles não recriminam ninguém”, admite o realizador.

“Nem o Governo israelita nem as acções da Fatah e do Hamas pelas terríveis condições a que estão sujeitos. É triste, mas isso é porque sentem que não têm líderes. Eles são combatentes pela sobrevivência como muitos outros ‘trabalhadores ilegais’ espalhados pelo mundo.”

Percebe-se por que fala Efrat assim. O seu grupo Vídeo-48 está muito atento a problemas laborais. “É importante, para nós, mostrar como o trabalho oferece dignidade e esperança, seja qual for o lugar onde se dorme.” Embora essa dignidade nem sempre seja respeitada pelo patrão.

Diz um colega de Jalal: “Trabalhas com um empreiteiro israelita durante uma semana. Ele trata-te bem. Quando acabas, ele finge que não te conhece. Odeia os árabes.”

“Na escuridão, a única coisa que nos resta é o amor”, diz um dos trabalhadores palestinianos (na foto, cena do documentário). Escondidos seis pisos abaixo do solo, no Mall, não têm água corrente e electricidade.“Estar na prisão seria melhor. Pelo menos teríamos luz.” @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

“Na escuridão, a única coisa que nos resta é o amor”, diz um dos trabalhadores no documentário

No dia em que Amer, um dos trabalhadores do Mall, celebra pela primeira vez o seu aniversário, e logo neste sórdido abrigo, Jalal sujeita-o a um questionário:

Amas a tua mulher?

Amo.

Amas a tua vida?

Graças a Deus.

E os teus amigos?

Sou louco por eles.

Amas Israel?

Amo.

E a Palestina?

Amo.

E o teu trabalho?

Adoro.

Amas Amer?

(Pausa longa)

Amo.

Porquê?

Porque construiu uma vida para si próprio. Ninguém o ajudou.

E o futuro?

Tenho medo do futuro.

Infelizmente, todos andam à procura de estereótipos. Um filme sobre um bombista suicida venderá mais do que um sobre um trabalhador palestiniano.” dr

Jonathan Ben Efrat (na foto, durante uma manifestação contra a guerra na Síria): “Um filme sobre um bombista suicida venderia mais do que um sobre um trabalhador palestiniano”, mas Six Floors to Hell “ajudou a quebrar estereótipos de “que todos andam à procura
© Jonathan Ben Efrat

Se a miséria na Cisjordânia e a Faixa de Gaza podem a qualquer momento resvalar para uma terceira Intifada, o ambiente nas cidades mistas de Israel também é de alta tensão, sobretudo desde os recentes motins em Acre durante o feriado hebraico do Yom Kippur.

“Acre é uma pequena cidade com muitos pobres”, explica Jonathan Efrat. “Vai haver eleições para vereadores e o problema está nos dirigentes e não nos cidadãos que apenas querem ir em frente com as suas vidas.”

“A população judaica está a seguir um caminho decadente. Não se importa com nada. Os árabes, por seu lado, têm uma agenda nacionalista.”

“Quando o Partido Comunista [formado após a criação de Israel, em 1948, e o único que tem militantes da maioria e da minoria do Estado] está dividido – um grupo de judeus em Telavive e outro em Jaffa – o que podemos dizer?”, lamenta Efrat.

É por isso que este activista dos direitos humanos [membro do partido Daam, liderado por uma palestiniana de cidadania israelita, Asma Aghbaria-Zahalka], se sente realizado com Six Floors to Hell: “É um bom exemplo de como quebrar estereótipos. Infelizmente, todos andam à procura de estereótipos. Um filme sobre um bombista suicida venderá mais do que um sobre um trabalhador palestiniano.”

Trabalhador palestiniano num colonato da Cisjordânia ocupada: pobreza e humilhação
© Ahmad Gharabli| AFP | Getty Images | The Independent

Este artigo, agora com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article, now under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

Anti-semita, não. Realista, sim

Com The Israeli Lobby and the US Foreign Policy, John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt forçaram um debate necessário, ainda que doloroso, sobre as relações entre os Estados Unidos e Israel. (Ler mais | Read More…)

Lior Mizrahi | Getty Images | Jewish Telegraph Agency

Nunca um ensaio académico “explodiu com tanta força” como The Israeli Lobby and the US Foreign Policy desde que a revista Foreign Affairs publicou The Clash of Civilizations [“O Choque das Civilizações”], de Samuel P. Huntington, em 1993.

Esta certeira avaliação foi feita por Michael Massing na New York Review of Books, em Junho de 2006, três meses depois de a obra de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt (M&W) ter aparecido, primeiro na forma de artigo, na London Review of Books (LRB).

Não deixa de ser irónico que, em 2007, quando o artigo (simultaneamente colocado como working paper no website da J. F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard) se tenha expandido em livro, Mearsheimer e Walt o tenham dedicado a Huntington, amigo de ambos no último quarto de século.

“Não podemos imaginar figura mais exemplar. Sam sempre abordou grandes e importantes questões e respondeu a essas questões de um modo que o resto do mundo não poderia ignorar”, escreveram os autores, no prefácio.

“Embora cada um de nós tenha discordado dele em numerosas ocasiões ao longo dos anos – às vezes pública e veementemente –, ele nunca usou essas divergências contra nós, e foi sempre um apoiante do nosso trabalho.”

O recado ficou dado aos que, no mundo académico e fora dele, caluniaram Mearsheimer e Walt como “anti-semitas” e descreveram as 484 páginas do livro, incluindo as 106 de notas e referências (muito mais do que as 80 do artigo no site de Harvard), designadamente, como o fruto de uma investigação “medíocre”, “desonesta”, “conspirativa” ou “inspirada em fóruns neo-nazis e islamistas”.

Por que causaram tanta irritação estes dois professores, Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Walt, antigo reitor em Harvard, ambos seguidores da tradição “realista” em Relações Internacionais, segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país?

[Walt pode ser seguido no seu blogue onde ele cita William Arthur Ward: ‘The pessimist complains about the wind; the optimist expects it to change; the realist adjusts the sails’].

Os argumentos são perturbadores, e talvez isso ajude a explicar por que a Atlantic Monthly, que encomendou o artigo, no Outono de 2002, o rejeitou em 2005. Depois da Guerra Fria, afiançam Mearsheimer e Walt, deixou de haver “bases estratégicas e morais” para o incomparável apoio, material (ajuda anual de 3000 milhões de dólares) e diplomático (32 vetos no Conselho de Segurança da ONU a resoluções críticas do Estado judaico), que os Estados Unidos oferecem a Israel.

E a razão por que os EUA põem “em risco” a sua segurança (com o crescimento do anti-americanismo) e a do resto do mundo deve-se “ao poder político do lobby de Israel, uma ampla coligação de indivíduos e grupos que tenta influenciar a política externa americana de modo a beneficiar Israel”.

“Além de encorajarem os EUA a apoiarem, mais ou menos incondicionalmente, grupos e indivíduos no lobby desempenharam papéis-chave que moldaram a política norte-americana em relação ao conflito israelo-palestiniano, a fatídica invasão do Iraque, em 2003, e as confrontações em curso com a Síria e o Irão”, acrescentam M&W, concluindo: “Estas políticas não são do interesse nacional dos Estados Unidos e, de facto, são também prejudiciais aos interesses a longo prazo de Israel.”

De nada valeu aos dois académicos professarem o seu inequívoco apoio ao direito de Israel existir e ser socorrido se essa existência estiver ameaçada.

John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt (esq.) foram acusados de “anti-semitas” por críticos, alguns dos quais descreveram o seu livro como o fruto de uma investigação “medíocre”, “desonesta”, “conspirativa” ou “inspirada em fóruns neo-nazis e islamistas”
© Greg Martin

“O lobby”, ainda que a sua legitimidade não tenha sido posta em causa (“é a antítese de uma cabala”), reagiu muito mal ao retrato que M&W fizeram dele, de organização infiltrada e/ou dirigida pela direita israelita (Likud), por neo-conservadores e cristãos evangélicos fundamentalistas, que se opõem ao processo de paz (pp 111-150).

Jornais, revistas e blogues foram inundados com textos injuriosos. Palestras com Mearsheimer e Walt foram inexplicavelmente canceladas.

E os que ousaram tecer elogios – mais à coragem de ambos de quebrarem tabus do que à própria obra –, como o respeitado historiador Tony Judt (um judeu que, nos últimos dias de vida – morreu em 6 de Agosto de 2010 – também gerou controvérsia, ao defender a “alternativa de um Estado binacional israelo-palestiniano”), foram vilipendiados.

Com esta campanha, “o lobby” (em particular, os poderosos American Israel Policy Action Committee/AIPAC, Conferência de Presidentes e Anti-Defamation League/ADL) acabou por dar razão aos que denunciam tácticas de silenciamento dos críticos, banalizando a expressão “anti-semita”.

M&W tentam não deixar perguntas sem resposta. Aos que se interrogarem por que é Israel, que se proclama “única democracia no Médio Oriente”, é tão duramente avaliado enquanto a ditadura síria e o regime teocrático iraniano são descritos como parceiros quase mais valiosos para Washington (na luta contra a Al-Qaeda, por exemplo), os dois professores clarificam:

– “Não haverá tentativas de comparar [Israel] com as acções de outros Estados na região ou outras partes do mundo.”

“Não estamos a centrar-nos na conduta de Israel porque temos uma animosidade contra o Estado judaico, ou porque achamos que o seu comportamento é particularmente merecedor de censura. “

“(…) Centramo-nos nas acções de Israel porque os EUA lhe fornecem um nível de apoio material e diplomático que é substancialmente maior do que dá a outros Estados, e o fazem em detrimento dos seus próprios interesses.” (pp.80-81)

© Nicholas Kamm | AFP | Getty Images | tabletmag.com

Influenciados pelos “novos historiadores” de Israel, os que destroem velhos mitos, como Avi Shlaim ou Benny Morris (que depois os renegou, justificando a mudança de posições com a “ameaça existencial” que o Irão, alegadamente, representa), M&W caem na tentação de fazer um juízo moral.

Deveriam ter evitado este terreno perigoso. E, ao contrário do que alegam, fazem comparações. Não, dizem, não é por Israel ser uma democracia que merece tratamento especial, porque no passado, os EUA “derrubaram governos democráticos e apoiaram alguns ditadores se isso fosse do seu interesse”.

Não, Israel “não é um país fraco e rodeado de inimigos”, mas um Estado moderno, próspero e com um arsenal nuclear, cuja sobrevivência não está ameaçada. O seu comportamento “não é superior” ao dos adversários, sobretudo ao das suas “vítimas palestinianas”, que imitam os sionistas na luta por uma pátria independente.

“Foram terroristas judeus do infame Irgun, um grupo militante sionista, que no final de 1937 introduziu na Palestina a prática agora familiar de colocar bombas em autocarros e no meio de multidões”(pp.78-110).

Ao insistirem na necessidade de os EUA defenderem os seus interesses, mesmo quando estes colidem com os de Israel, M&W são bem “realistas” no caso que citam: em 1995, quando o AIPAC convenceu o Congresso a aprovar legislação que proibia as companhias norte-americanas de explorar o petróleo do Irão (a Conoco tinha sido escolhida por Teerão para desenvolver as jazidas de Sirri), “Israel não aprovou qualquer lei que impedisse o comércio iraniano-israelita, e os israelitas continuaram a adquirir bens iranianos através de terceiras partes” (p.288).

Ainda em relação ao Irão, Mearsheimer e Walt responsabilizam Israel e “o lobby” por, “nos últimos 15 anos, empurrarem os EUA a seguir uma política estrategicamente insensata”. E se não fossem essas “forças centrais”, a América “certamente que seguiria uma política diferente e mais eficaz”.

E uma política “mais consistente com os interesses norte-americanos”, segundo M&W, seria “tentar normalizar relações com Teerão e retirar da mesa a ameaça de uma guerra preventiva, porque a ameaça de uma mudança de regime apenas dá aos líderes iranianos mais razão para ter um poder de dissuasão nuclear”.

© Fortune

Teremos oportunidade de medir o poder do lobby agora [em 2008, quando este artigo foi publicado] que o “Grande Satã” entreabriu a porta à república dos mullahs, com a participação, pela primeira vez, de um responsável norte-americano [o antigo “número três” do Departamento de Estado, William Burns] nas negociações sobre o nuclear iraniano.

E com o anúncio de que haverá em breve uma “secção de interesses” americana em Teerão – a primeira representação diplomática desde o corte de laços bilaterais em 1979.

A responsabilidade por esta inversão na política de isolamento do “inimigo” foi atribuída a Condoleezza Rice [antiga chefe da diplomacia de Washington], cuja ambição seria a de sobreviver ao legado de George W. Bush, e forçou este a seguir um rumo contrário ao do [anterior] vice-presidente Dick Cheney.

O simbolismo da participação de Burns num encontro, em Genebra, [em Outubro de 2009] ficou patente na imediata reacção do ex-embaixador dos EUA na ONU.

“É uma completa capitulação de toda a ideia de [forçar o Irão a] suspender o enriquecimento [de urânio]”, vociferou John Bolton, um neo-conservador, com fortes ligações ao AIPAC, como Cheney.

No seu livro, Mearsheimer e Walt já haviam detectado que a “estratégia de engagement” tem “apoio substancial na CIA, no Departamento de Estado e até entre os militares americanos, pouco entusiasmados em bombardear as instalações nucleares iranianas.”

Se M&W apresentam bases sólidas para realçar a pressão do lobby e de Israel para atacar o Irão, é mais frágil a sua argumentação quanto à influência exercida sobre W. Bush para invadir o Iraque, em 2003.

O derrube de Saddam Hussein era um desígnio que os neo-conservadores jamais esconderam desde a Guerra do Golfo de 1991, e a ideia que ressalta é a de que foram estes (judeus e não judeus) a servir-se do lobby, para convencer a Administração de W. Bush a avançar para uma mudança de regime após os ataques terroristas da al-Qaeda, em 11 de Setembro de 2001.

As acções do lobby nem sempre são coincidentes com a opinião da maioria dos judeus americanos – estes opuseram-se esmagadoramente à guerra, e distanciaram-se (temendo ser responsabilizados por um fiasco) dos que a justificavam como “necessária para garantir a segurança de Israel”. E “o lobby” também não esteve, nem está, sempre em sintonia com o Governo israelita.

Agora, por exemplo, [o primeiro-ministro de Israel] Ehud Olmert está envolvido em negociações indirectas com a Síria de Bashar al-Assad.

Este era um líder que os neo-conservadores e “o lobby” também queriam derrubar, no âmbito de um plano de “democratização” do Médio Oriente [mas que agora defendem que se mantenha no poder, desde que uma guerra civil, que eclodiu em 2011 e está a ser dominada por grupos armados islamistas ameaça o regime].

Em 1995, já o AIPAC tentara sabotar os Acordos de Oslo, assinados dois anos antes, entre Israel e a OLP, ao fazer aprovar legislação no Congresso exigindo que os EUA mudassem a sua embaixada de Telavive para Jerusalém – um embaraço para Yitzhak Rabin e para Bill Clinton,  o Presidente que jamais aplicou o que foi votado.

Nem sempre “o lobby” conseguiu, portanto, os seus intentos (Ronald Reagan, um presidente republicano e pró-israelita, não deixou de vender aviões à Arábia Saudita apesar das pressões do AIPAC), mas M&W, ainda que reconheçam isso, optam por transmitir a imagem de um grupo omnipotente, não apenas poderoso.

Isso é enganador, ainda que muitos judeus israelitas (e judeus norte-americanos) concordem que uma “advocacia agressiva” tem sido por vezes mais contraproducente do que benéfica.

© AFP | TIME

No diário The Jerusalem Post, M. J. Rosenberg, director do Israel Policy Forum, deixou esta pergunta ao lobby: “Foi ser pró-Israel pressionar a Administração Nixon em 1971 a rejeitar a oferta de paz de Anwar el-Sadat [defunto Presidente egípcio] em troca de uma retirada [israelita] de três milhas das margens do Canal do Suez?

Richard Nixon cedeu à pressão e recuou, deixando Israel livre para recusar a proposta de Sadat. Dois anos depois, Sadat atacou e Israel perdeu 3000 soldados numa guerra [do Yom Kippur ou de Outubro] que poderia ter sido evitada se Israel tivesse aceitado a iniciativa de Sadat.”

“Israel não ganhou nada nessa guerra e acabou por devolver a Sadat todo o território que queria reter em 1971, e muito mais [toda a península do Sinai].”

Outra pergunta: “Foi ser pró-Israel impedir que as administrações de Ronald Reagan, [George H. W.] Bush  [Bill] Clinton e [George W.] Bush insistissem num congelamento dos colonatos ou, no mínimo, no desmantelamento imediato dos colonatos ilegais?”

“Não teria sido infinitamente melhor se os EUA tivessem usado a sua persuasão amiga para pôr fim à colonização logo desde o início? Afinal, uma maioria de israelitas considera os colonatos obstáculos à paz, e o mesmo pensam todos os presidentes [dos EUA] desde que o primeiro colonato foi erguido.”

Num comentário publicado pelo jornal britânico The Independent, Rupert Cornwell diz que para recensear a obra dos professores de Chicago e Harvard (que alguns catalogaram de “tempestade política” e de tsunami) foi às prateleiras da sua biblioteca à procura de inspiração. Encontrou-a em The Lobby: Jewish Political Power and American Foreign Policy.

Aqui, Edward Tivnan, o autor (também citado por M&W), declara que o grupo de pressão pró-israelita cala o debate no Capitólio e tornou-se num obstáculo à paz no Médio Oriente.

“Parece familiar? O livro é de 1987”, sublinha Cornwell. “Francamente, os argumentos não mudaram nada. (…) E creio que os argumentos muito semelhantes de Walt e Mearsheimer também farão pouca diferença.”

© YouTube

Não é isso que pensa Uri Avnery, ex-deputado no Knesset, em Jerusalém, que foi, nos anos 1970, o primeiro a propor o que era, na altura, a herética solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano. Fundador do Movimento Gush Shalom, Avnery continua a ser um activista pela paz.

Escreveu ele, citado pelo Middle East Online: “Há livros que mudam a consciência das pessoas e mudam a História. Alguns contam uma história, como A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, que deu grande ímpeto à campanha para a abolição da escravatura. Outros tomam a forma de um tratado político, como Der Judenstaat [“O Estado dos Judeus”], de Theodor Herzl, que deu à luz o movimento sionista.”

“Ou são de natureza científica, como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, que mudam o modo como a humanidade se vê a si própria. E, talvez, também a sátira política possa abanar o mundo, como 1984, de George Orwell.”

“O impacto desses livros foi amplificado pelo tempo. Apareceram no momento certo, quando uma maioria de pessoas estava apta a absorver a mensagem. (…) The Israel Lobby and the US Foreign Policy poderá vir a ser um desses livros.”

“Se este livro pudesse ser ignorado, já o teria sido – como aconteceu com outros que foram enterrados vivos”, constatou Avnery.

“Há alguns anos, apareceu na Rússia um volumoso tomo de Alexandre Soljenitsin, mundialmente famoso Prémio Nobel da Literatura, sobre a Rússia e os judeus.”

“Tanto quanto sei, não foi traduzido para qualquer outra língua e, seguramente, não para hebraico. Inquiri vários intelectuais influentes de Israel e nenhum ouviu jamais falar do livro. Nem sequer aparece na lista da Amazon.com, que inclui todas as outras obras do mesmo autor.”

The Israeli Lobby esteve várias semanas na lista de livros mais vendidos da Amazon.com, antes (e depois) da publicação primeira edição, em 2007.

A mais recente, sem qualquer alteração à versão original, apesar da torrente de críticas, foi lançada em Setembro [de 2008]. E, dois anos depois de a LRB ter aproveitado o que a Atlantic Monthly rejeitou, uma das recomendações de M&W, no capítulo final, a de encorajar a evolução de um lobby “mais razoável” (p. 354), foi aceite por uma parte da comunidade judaica nos Estados Unidos que não se sente representada pelo AIPAC.

Em Abril [de 2008] nasceu J Street, que se define como “braço político do movimento pró-paz e pró-Israel”. Em apenas três meses, emergindo das fileiras de outras três organizações já existentes (Americans for Peace Now, Britz Tzedek v’Shalom e Israel Policy Forum), conseguiu a adesão online de 40 mil pessoas – a Internet é a sua principal base de operações.

Não é certamente coincidência que a capa da mais nova edição do livro de Mearsheimer e Walt tenha como frase promocional um extracto da recensão feita no Ha’aretz por Daniel Levy, membro do conselho consultivo de J Street e considerado o “ideólogo” da nova organização: This is an important book that deserves to be keenly debated.

Para o investigador Levy, assumido liberal, que não deve ser confundido com o anti-sionista Noam Chomsky ou com o neo-conservador Bernard Lewis, “não é Israel per se que se tornou num passivo, mas Israel como ocupante. Se o conflito for resolvido, Israel poderá voltar a ser um trunfo estratégico”.

É uma distinção clara, que muitos judeus israelitas há vários anos vêm fazendo mas que, só há relativamente pouco tempo, alguns judeus americanos ousam estabelecer, sem medo de serem ostracizados como self-hating Jews. Ainda que sob fogo intenso, Mearsheimer e Walt abriram, de certo modo, a porta a um debate mais racional e menos emotivo.

© Debbie Hill | UPI

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente na edição de Setembro de 2008 da revista “Relações Internacionais (R:I)” | This article, now revised and updated, was originally published in the September 2008 edition of the Portuguese journal Relações Internacionais (R:I)

Kylie Minogue: A garotinha do show

Na língua dos aborígenes, o nome dela significa boomerang, e a pequena australiana tem sabido regressar no momento em que menos se espera. Depois de uma luta contra um cancro da mama, showgirl KM regressou com nova digressão. Completou 40 anos de vida. De carreira, são 20. (Ler mais | Read more…)

Kylie Minogue, a diva que se autodefine como “um diamante que brilha hoje e brilhará sempre”
© naturaskinclinic.co.uk

A lista de títulos e prémios é extensa e aqui está uma ínfima amostra. Ela é “princesa da pop” e “ícone gay”. “Melhor cantora” e “Melhor actriz”. “Mulher da década” e “Mulher do ano”, “Mulher mais adorada” e “Mulher mais desejada”. “O sorriso mais luminoso” e “O corpo mais bonito do mundo”. “Os 152 centímetros mais sexy da música” e “aquela com quem todos gostariam de passar uma noite”.

Ela é Kylie Minogue (KM), a loura de olhos verdes sobre quem os fãs dizem Can’t get you out of my head. De poses eróticas (quem não se lembra dela em cima de um touro mecânico a promover, num vídeo só permitido em cinemas, a lingerie Agent Provocateur?).

De fatos ora minúsculos (como os míticos calções dourados que rodopiavam em Spinning around) ora exuberantes – espartilhos, plumas, lantejoulas, brilhantes (que atraem um fiel público gay) – e sempre muito glamour.

E ela está de volta, a sensualidade recuperada depois de um cancro de mama, com o décimo disco de estúdio (X) e uma nova digressão para o promover, que inclui vários países mas não chega (ainda) a Portugal. [Seria em 2019.]

A Austrália, onde nasceu em 1968 – sim, KM completa 40 anos de vida (já tem 20 de carreira) em 28 de Maio – fez dela uma espécie de tesouro nacional.

O primeiro-ministro mobilizou a polícia para a proteger do assédio dos jornalistas quando o tumor lhe foi diagnosticado, em 2005.

Kylie tornou-se um exemplo para as mulheres australianas, encorajando-as a fazerem mamografias e outros testes de rotina, o que, atestam os médicos, “ajudou a salvar muitas vidas”.

Também a Inglaterra, “pátria adoptiva” reclamou: “Párem de lhe chamar aussie, porque ela já é nossa!” A rainha Isabel II ouviu o clamor, e em 2007 condecorou KM com uma OBE, medalha da Ordem do Império Britânico.

O Reino Unido atribuiu-lhe ainda o prestigiado Music Industry Trust’s Award – Kylie foi a primeira mulher nos 16 anos de história deste evento a ser galardoada.

E nos BritAwards, de Fevereiro de 2008, não só teve direito a entregar o prémio de carreira a Sir Paul McCartney como foi coroada “melhor artista internacional”.

O “regresso triunfal” desta baixinha que não larga os saltos altos (a sua estatura impediu que desempenhasse o papel, atribuído a Cate Blanchett, de Galadriel em Senhor dos Anéis – era muito pequena para ser um Elfo”) é uma brilhante operação de marketing.

E esta é uma parte da história da diva que se autodefine como “um diamante que brilha hoje e brilhará sempre”.

Em 2000, Kylie Minogue voltou ao top graças a Spinning Around – à música electrificante mas também aos seus icónicos calções dourados, concebidos pelo director artístico (ou “marido gay”) William Baker, antigo vendedor da estilista Vivienne Westwood.
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Kylie Minogue é famosa pela exuberância dos seus fatos em palco
© dailyrecord.co.uk

Kylie Ann Minogue, que os amigos tratam carinhosamente por Min, era uma actriz secundária em telenovelas na sua Melbourne natal – andava nesta vida desde os 12 anos – quando cantou publicamente, pela primeira vez, no programa musical Young Talent Time.

Por esta altura, em 1993, a estrela era a sua irmã, Danni, mas três anos depois, KM já era a celebridade maior, graças à incarnação de Charlene Mitchell, uma mecânica sem grandes ambições, na série Neighbours.

O romance com o colega Jason Donovan, na ficção (o episódio do casamento parou o país) e na vida real, ajudou a aumentar a popularidade da filha do contabilista Ron e da antiga dançarina Carol que conseguiu a proeza de ganhar quatro Logie Awards – espécie de Grammy australiano – e um Logie de ouro como “a mais popular artista televisiva”.

Em 1987, durante um concerto de beneficiência com outros actores de Neighbours, Kylie cantou The Loco-Motion, cover da versão original de 1962, de Little Eva, e considerada pela revista Rollling Stone uma das 500 melhores canções de todos os tempos.

Os agentes da Mushroom Records ficaram extasiados e convidaram KM para gravar um single re-intitulado Locomotion.

Não só esteve sete semanas no “top mais” da Austrália (e cinco no britânico – ultrapassando o recorde de Madonna) como foi o disco mais vendido no país nos anos 1980.

Foi então que Kylie passou a ser “a marioneta” de Stock, Aitken e Waterman (SAW), compositores e produtores de artistas como Elton John e Bananarama.

Várias biografias dizem que eles se esqueceram do primeiro encontro marcado com ela, e que escreveram à pressa I should be so lucky enquanto KM esperava por eles nos corredores do estúdio.

Valeu a pena: foi mais uma vez número um na Austrália e no Reino Unido, e quando integrou o álbum de estreia, Kylie, este vendeu mais de sete milhões de exemplares em todo o mundo.

Em 1990, tentando chegar a uma audiência mais adulta, KM começou a distanciar-se do trio SAW, e é ela já quem dirige o vídeo Better the devil you know.

O namoro com o escandaloso Michael Hutchence, defunto vocalista dos INSX, consolida a nova imagem de uma mulher sexualmente apelativa, tanto mais que ele se vangloriava de ter “corrompido” Kylie e de se ter inspirado nela para escrever Suicide Blonde.

Os anos 1990 não foram tão bem sucedidos e KM decidiu não renovar o contrato com SAW, alegando que estes só queriam que ela “decorasse os textos, cantasse, não fizesse perguntas e promovesse o produto”.

Em 1992, este vínculo chegou ao fim, com o álbum Greatest Hits, e Kylie mudou-se para a Deconstruction Records.

Apesar da mudança, os elogios aos novos trabalhos não foram unânimes, pelo menos até aparecer Nick Cave, que se confessou fascinado quando ouviu Better the devil you know, em seu entender, “uma das letras mais violentas da pop”, em que “a inocência de Kylie” tornava “o horror ainda mais perturbador”.

Em 1995, os compatriotas Nick Cave e KM gravaram juntos Where the wild roses grow , balada que narra um crime em que ele é o assassino e ela a vítima. Choveram prémios, como Song of the Year, e ambos esgotaram concertos.

De repente, foi como se tivesse havido uma metamorfose de Kylie de dance-pop artist em indie, uma nova estrela da música alternativa.

Não foi bem assim, mas KM agradeceu os conselhos do respeitável amigo: “Ele ensinou-me a nunca me desviar para muito longe do que sou, mas a ir mais longe, tentar coisas diferentes, sem nunca me perder.”

Em 1997, Kylie enveredou por uma fase rocky, inspirada em Shirley Manson, Garbage, Björk, Tricky e U2. Fez parcerias com os Manic Street Preachers e com os Pet Shop Boys.

Mas, a seguir, mergulhou nas influências disco sound de Donna Summer e dos Village People., colaborando com o bem-humorado Robbie Williams (juntos gravaram Kids).

Depois de dez anos sem chegar a número um, eis que, em 2000, ligada a outra editora, a Parlophone, KM voltou ao top graças a Spinning Around – à música electrificante e aos seus icónicos calções dourados, concebidos pelo director artístico (ou “marido gay”) William Baker, antigo vendedor da estilista Vivienne Westwood.

Foi também em 2000 que Kylie foi escolhida para o espectáculo de encerramento dos Jogos Olímpicos de Sydney.

A sua (On a) night like this foi escutada por mais de 2000 milhões de pessoas em 220 países, e deu título a uma tour que atraiu multidões maravilhadas com o grandioso estilo Broadway das actuações.

Em 2001, com o álbum Fever e o principal single, Can’t get out of my head (com o refrão lá-lá-lá, foi o maior sucesso da carreira de KM, oito milhões de copas vendidas) o disco sound fundiu-se com a electropop, como se fosse uma co-produção dos Kraftwerk e de Stanley Kubrick.

Na etapa seguinte, em 2003, os sons dos Human League e de Prince influenciaram o álbum Body Language e o single Slow, a que Kylie adicionou também os ritmos do hip-hop. A All Music atreveu-se a enaltecer “um disco de pop quase perfeito”.

Em 2004, os Scissor Sisters compuseram I Believe in You para Ultimate Kylie, que compila os maiores êxitos da cantora, que no, mesmo ano, foi nomeada, pela quarta vez consecutiva, para um Grammy pelo “melhor disco de dança”.

Em Maio de 2005, a Showgirl Kylie Minogue interrompeu abruptamente The Greatest Hits Tour depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro de mama. Submeteu-se a uma mastectomia parcial e a tratamentos de quimioterapia. “Foi como sofrer os efeitos de uma bomba atómica. (…) O meu corpo tornou-se campo de batalha”
© Olivier Martinez | AP

Arena de Wembley, Londres, 7 de Janeiro de 2007, Kylie Minogue e a sua Showgirl Homecoming Tour que assinalou o  regresso depois do cancro
© Peter Still | Getty Images | marieclaire.co.uk

Em Maio de 2005, quando tudo parecia correr maravilhosamente, a Showgirl teve de interromper abruptamente a sua The Greatest Hits Tour (700 mil espectadores) precisamente quando chegava a Melbourne para os derradeiros concertos.

“Kylie Minogue tem cancro de mama, de um tipo muito agressivo e vai suspender a sua digressão para se tratar”, noticiou a BBC.

Primeiro, KM retirou-se para o refúgio da família na Austrália – os Minogue são como um inseparável clã, o pai é o seu tesoureiro, a mãe cuida do guarda-roupa, o irmão é operador de câmara. Depois, seguiu para um hospital de Paris, onde se submeteu a uma mastectomia parcial e a tratamentos de quimioterapia.

“Foi como sofrer os efeitos de uma bomba atómica” (SKY News). “Emagreci até já só ter a pele sobre os ossos, depois inchei como um balão” (revista Glamour). “Fui privada de tudo, tive de deixar crescer as sobrancelhas, deixar crescer o cabelo. Foi incrível” (revista Hello). “O meu corpo tornou-se campo de batalha” (DVD-documentário White Diamond).

Não se pense, porém, que Kylie, apesar dos dias em que se “estendia no chão, lavada em lágrimas”, não lutou para sobreviver.

Agarrou todas as mãos estendidas – fossem as do namorado Olivier Martinez ou as das crianças de institutos oncológicos que lhe escreviam cartas de amor. Na língua aborígene, o seu nome significa boomerang, e ela agiu como tal, regressando quando que menos a esperavam.

As primeiras fotografias de lenço – elegantemente – amarrado à cabeça rapada, surgiram porque KM assim determinou. Eram imagens de uma pessoa fragilizada, mas confiante. Vieram depois as fotos que o “querido Olie” lhe tirou, com o cabelo muito curtinho, a despontar, sinal de esperança na recuperação. E quando os médicos a declararam fora de perigo, não mais parou.

Ainda em convalescença, escreveu um livro para crianças, Kylie: The Showgirl Princess, publicado em Outubro de 2006.

Em Novembro, lançou um primeiro perfume, Darling (cuja fragrância pulveriza todos os dias a sua figura de cera no Museu Madame Tussaud – já teve quatro, e só a rainha Isabel II teve mais que ela), e depois um segundo, Sweet Darling. O terceiro, Showgirl, seria vendido em Abril.

Em 2008, a australiana Kylie recebeu do príncipe Carlos a Medalha do Império Britânico (OBE) – quebrou o protocolo ao apertar a mão ao herdeiro do trono britânico. A França também a condecorou “Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras”, e a Anglia Ruskin University, no Reino Unido, atribuiu-lhe o grau doutor honoris causa em Ciências da Saúde, pelo seu trabalho de alerta para o cancro da mama
© dailymail.co.uk

Lentamente, Kylie foi aparecendo em desfiles de Karl Laggerfeld e dos Dolce & Gabbana, amigos pessoais. “Eu adoro trajes a rigor e moda desde pequena”, confessa. “Ia com a minha avó ao mercado e, por cinco dólares, voltava para casa com muitos tecidos.”

Stacey Duguid, directora executiva da Elle, sublinha: “Quando se trata de moda, Kylie nunca dá passos em falso. Ela está sempre on-trend [na onda], e ela trabalha realmente o look. Também ajuda estar bem relacionada com estilistas que lhe oferecem roupas muito antes de elas chegarem às lojas. E fazem isso porque Kylie não tem medo da moda, e isso também a distingue das outras cantoras.”

Após a recuperação, multiplicaram-se as capas de revistas com fabulosas produções fotográficas em que KM evidencia a sua faceta de mulher-camaleão, sempre em constante mudança de visual – num dia é Jean Seberg e noutro é Marylin Monroe.

Para provar que sua beleza não foi afectada pelo cancro nem pela alegada depressão causada pela ruptura de dois anos de namoro com Martinez, fez uma campanha publicitária em fato de banho para a H&M e aceitou ser o rosto da marca de jóias TOUS.

Kylie garante que não tem medo dos 40 anos que se aproximam. Porque sabe cuidar de si. Come alimentos saudáveis, não fuma e raramente bebe socialmente. Dança para se manter em forma e cuida bem da pele luminosa que a faz parecer uma “Barbie da Mattel”.

Diz ela: “Sempre considerei as injecções [de botox] como um gesto banal, como pôr creme no rosto. E agora ainda mais penso assim [entretanto, anunciou que abandonou este tratamento de rejuvesnecimento].”

Em homenagem a KM, o Victoria & Albert Museum de Londres dedicou-lhe, em 2007, uma inédita exposição de 300 dos seus fatos e acessórios (incluindo 26 pares de sapatos e mais de 20 chapéus), da autoria de 44 criadores, de John Galiano a Manolo Blahnik. A primeira semana acolheu 8000 visitantes.

“Quando se trata de moda, Kylie Minogue nunca dá passos em falso”, disse Stacey Duguid, directora executiva da revista Elle. “Ela está sempre on-trend  e trabalha realmente o look. Também ajuda estar bem relacionada com estilistas que lhe oferecem roupas muito antes de elas chegarem às lojas”
© heyreilly.com

Entre o diagnóstico do cancro, em Maio de 2005, e o lançamento do seu novo disco X, em Setembro de 2007, Kylie ainda arranjou forças para concluir a Showgirl Tour interrompida. Chamou-lhe Homecoming (Regresso a casa). “Senti que não houve uma conclusão”, justificou. “Mesmo nos momentos mais difíceis, só pensava: ‘Quero fazer isto’. Mesmo sem saber se conseguiria.”

Homecoming foi importante por duas razões – foi o regresso à Austrália e o regresso ao palco, o meu outro lar”, diz KM. “Podemos pensar que é só um espectáculo, mas não é só isso. É o meu trabalho. É a minha paixão e dá tanto a tanta gente. Não estava disposta a desistir depois de tudo o que passei. Significa muito, para mim.”

O jornal Sydney Morning Herald foi generoso na apreciação do espectáculo, que incluiu um dueto com Bono: “Foi uma extravaganza e nada menos do que um triunfo”.

Também X e o single 2 Hearts têm merecido elogios, e este chegou a liderar algumas tabelas de vendas. “Quando pus os pés em estúdio pela primeira vez [desde a doença], parecia louca, submersa de emoções”, diz Kylie. “Foi preciso tempo para pôr ordem nisto tudo.”

O resultado são 13 canções, sendo a mais intimista No more rain, escrita no final dos tratamentos; Got a second-hand dance, gonna do it again/Got rainbow colours and no more rain.

2019: Minogue, 51 anos, lança uma paleta de sombras para os olhos da sua já famosa linha de beleza Kylie Cosmetics e prepara nova digressão de espectáculos
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Em Maio [de 2008], começou a KylieX2008 Tour – com “fatos modestos”, paradoxalmente, encomendados a Jean-Paul Gaultier, o mesmo que fez o lendário corpete de Madonna para sua Blonde Ambition Tour.

Os médicos [estavam] apreensivos, porque cada espectáculo a deixa extenuada, mas ela assegura que está mais calma. “Deixei de trabalhar como um animal. Acabaram-se os dias das seis da manhã até à meia-noite. Agora, por exemplo, faço jardinagem. E posso sonhar em ter uma família, mesmo que ter filhos seja mais complicado [depois do cancro]”.

“Sim considero-me uma artista”, vinca Kylie. “Levei uma série de anos até me considerar uma artista, e não é fácil dizer que não sou quando todos os aspectos de tudo o que faço implicam arte. Não estou aqui, 20 anos depois, por sorte ou só por muito trabalho, porque nenhuma dessas coisas nos dá longevidade.”

[Em Julho de 2010, depois de ‘X’, em 2007 e uma digressão por mais de 20 países, no ano seguinte, a ‘pop star’ regressou com novo álbum, ‘Aphrodite’, cujo primeiro single, ‘All the Lovers’ (lançado em 28 de Junho), desde logo conquistou os críticos;

Em Junho de 2013, surgiram especulações de que Kylie iria abandonar a carreira musical, depois de 70 milhões de discos vendidos num quarto de século, e ser apenas actriz. Em Julho, confirmou-se que ela assinou um contrato com a editora Roc Nation, de Jay Z. Foi o 12ª álbum em estúdio e o primeiro single, ‘Skiirt’;

Em 4 de Julho de 2009, pela primeira vez em 20 anos de carreira, Kylie Minogue  veio a Portugal para actuar no antigo Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Não encheu a sala, mas cativou a audiência. Em quase duas horas de concerto, cantou os seus maiores êxitos (excepto ‘Locomotion’):  ‘Can’t get you out of my head’, ‘In your eyes’,’Slow’, ‘On a night like this’, ‘Kids’, ‘In my arms’ e ‘I should be so lucky’ .]

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

Natacha Atlas entre o passado e o presente

Ana Hina que dizer, em árabe, “Estou aqui”. E aqui o (talvez) mais perfeito álbum da carreira de uma grande artista. São 12 canções que nos fazem entrar no universo musical dos míticos irmãos Rahbani, de Fairouz e Abdel Halim Hafez. Mas também no Diário, de Frida Kahlo. (Ler mais | Read more…)

© Natacha Atlas

É meio-dia em Paris quando Natacha Atlas atende o telefone. Não podemos ver os seus olhos verdes emoldurados por pestanas postiças. Nem as várias camadas de maquilhagem que tornam mais exótico um rosto de boneca insuflável.

Mas a sua voz soa tão melodiosa como quando (en)cantou em 2006 num concerto único na Casa da Música, no Porto. Parece distraída, mas diz que ainda se lembra da “atmosfera acolhedora” daquela noite de 8 de Novembro.

“Foi a primeira vez que toquei com o meu grupo acústico [Mazeeka Ensemble] e acho que correu muito bem”, disse-nos, num Brit English muito peculiar. “Seria bom voltar de novo, porque gostámos imenso”.

E gostou tanto que uma parte do repertório daquele memorável concerto foi agora incluída no seu novo e nono álbum, Ana Hina – provavelmente o mais perfeito de uma carreira iniciada em 1991 como vocalista e bailarina do grupo electro-étnico Transglobal Underground.

Natacha Atlas, verdadeiro nome de uma convertida ao Islão, filha de um judeu egípcio e de uma católica inglesa, há muito que sonhava gravar um disco com canções dos seus “ídolos de infância”.

E eles aí estão: Fairouz, venerada como “tesouro nacional do Líbano”, e Abdel Halim Hafez (1929-1977), santificado como “o maior astro do Nilo”.

A ideia foi transmitida ao director musical Harvey Brough, pianista e guitarrista, que “fez um trabalho excelente” a partir de velhas e quase indecifráveis gravações.

O maestro Harvey apresentou um projecto com sofisticados arranjos, para Natacha poder reviver as décadas de ouro da música árabe (‘50, ‘60 e ‘70).

As batidas electrónicas que têm sido uma das suas marcas registadas ficaram de fora, mas continua a haver espaço para a raqs sharki, genuína dança do ventre com que começou a ganhar a vida, aos 17 anos, no bairro marroquino de Marolle, em Bruxelas, onde nasceu em 1974, antes de se mudar para Northampton.

O tema de abertura, Ya Laure Habouki (Oh Laure, o meu amor por ti), celebrizado por Fairouz, é desde logo uma homenagem aos irmãos Rahbani (Assi e Mansour), evocados em mais duas faixas: La Shou El Haki (Qual a necessidade de falar?) e La Teetab Alayi (Não me culpem).

““Foram eles os primeiros a mostrar ao mundo que era possível a fusão entre música árabe e música ocidental”, vinca Natacha Atlas. “O que se faz agora, misturar isto com aquilo, não é nada de novo. Já há 50 anos os irmãos Rahbani o faziam.”

O tributo é merecido. No Médio Oriente, e sobretudo no Levante (Líbano e Síria), há um antes e um depois dos irmãos Rahbani. Assi (1923-1986), que haveria de casar com Fairouz, compunha as músicas.

Mansour, agora octogenário, escrevia as letras. Fairouz (ou Turquesa – nome artístico de Nouhad Haddad) imortalizou a obra de ambos, graças à sua voz comparada a uma pedra preciosa.

Natacha, a quem chamam “Rouxinol do Cairo” (cidade que “é o sítio mais parecido com uma casa”, diz ela), tem consciência de que Fairouz permanece inimitável, aos 73 anos.

Achou, porém, que conseguia acompanhar o seu timbre vocal, o que já não aconteceria com Umm Kulthum, a diva egípcia que morreu em 1975 e ainda continua a cativar milhões de árabes, do Mashreq ao Magreb.

“Um Kulthum é de uma geração mais velha [nasceu em 1908] e eu não me sinto equipada para a interpretar”, confessa Natacha.

“Não digo que não venha a estar preparada, mas de momento não estou. E se eu fizer alguma coisa no futuro, quero fazê-la bem para não ficar embaraçada, como ficaria agora se tentasse.”

Ao Egipto, Natacha foi então buscar outra lenda: Abdel Halim Hafez. Uma vida pessoal tão trágica quanto as das telenovela árabes em que foi protagonista. Viveu um amor proibido. Quando finalmente o aceitaram, ela morreu antes do casamento.

Ele não voltou a casar-.se. Morreu antes de completar 48 anos, de uma doença grava causada por um parasita. No dia do seu funeral, quatro mulheres não resistiram ao desgosto e suicidaram-se.

Entre as 260 canções que Abdel Halim gravou, duas foram incluídas em Ana Hina. A primeira, Beny Ou Benak Eih (O que há entre tu e eu? Gostaria que me dissesses), é como se Natacha o convidasse para um tango.

O acordeão de Gamal Al Kordy confere ainda mais autenticidade a este corpo-a-corpo”, ou não tivesse ele, desde os seus 14 anos, acompanhado o próprio Abdel Halim. Na América, seria como ter tocado com Elvis Presley.

O talento de Gamal Al Kordy volta a evidenciar-se em El Assil (Pôr-do-Sol), outro clássico romântico de Abdel Halim em que Harvey Brough faz sobressair o Oriente no riq (pandeiro) de Aly El Minyawi, primo de Natacha, e o Ocidente no chimbau de Roy Dodds.

Será novamente o acordeão de Al Kordy (mas também a ney/flauta de Louai Alhenawi) a imprimir vida a Lammebada, uma das mais tradicionais cantigas árabes, que se estima remontar a 1492.

E, em Hayati Hinta, é uma vez mais Al Korty quem nos balança harmonicamente até ao Norte de África, numa canção de estilo núbio/berbere que Natacha Atlas escreveu para o seu anterior álbum, Mish Maoul.

O acordeonista de Abdel Halim só está ausente da faixa 7, proposta de Clara Sanabras, uma nativa de Barcelona e distinta executante de guitarra barroca, alaúde e ukelele.

Com este “violão” que tem origem no machete e no rajão da ilha da Madeira, comprado por 25 libras no eBay, ela faz um dueto quase operático com Natacha Atlas em La Vida Callada.

Como surgiu esta parceria árabe-latina? É Clara, que participa em quase todo o álbum, nos instrumentos e coros, quem nos explica, por e-mail: “Quando nos conhecemos, por intermédio de amigos comuns, Natacha mostrou-se interessada na música que eu interpretava (medieval, renascentista e barroca).”

“Um dia, decidimos, em conjunto com Harvey Brough, dar um concerto de Natal no nosso clube de jazz, chamado The Vortex. Incluímos aqui canções como Lammebada e outras. Terá sido a primeira versão do ‘grupo acústico’ que depois originou o Mazeeka Ensemble e Ana Hina.”

Foi nesse show natalício que Clara teve “uma conversa sobre mulheres e esperança” com Natacha. “Lembrei-me de um excerto de o Diário, de Frida Kahlo, em que um poema é ilustrado com um dos seus quadros, Árbol de la Esperanza, manténte firme.”

“Ela emocionou-se e eu compus para ela esta canção”, relata. “Pensei que funcionaria bem como dueto, inspirada num outro quadro, As duas Fridas”.

Natacha decidiu mesmo incluir La Vida Callada em Ana Hina, um álbum inteiramente gravado em Londres durante dois dias. A catalã, que tem o seu próprio grupo, Clara Sanabras & The Real Lowdown (nome do primeiro disco), ficou extasiada.

“Trabalhei como melhores músicos e as melhores pessoas que jamais encontrei. Foi um desafio e uma experiência fantásticos.”

Ao telefone, Natacha confirma que o mérito é de Clara, até porque, admite, conhece mal a história da revolucionária pintora mexicana.

“Há muitas artistas que se identificam com Frida Kahlo, porque ela é muito combativa”, diz a cantora cujos projectos futuros passam por criar, no Egipto, um refúgio para “mulheres abandonadas pelos maridos e sujeitas a muitas injustiças.”

Neste álbum, Natacha inseriu ainda um cover de Black is the colour, onde a sua voz e o piano de Harvey quase emulam a famosa versão da americana Nina Simone. Ana Hina, a canção que dá título ao disco, é também uma joint-venture, lírica dela e pautas dele.

Inquirida sobre qual a favorita das 12 faixas, Natacha não vacila (ao contrário do soldado de He Hesitate, o seu manifesto antiguerra, anti-Bush e anti-Blair).

“A que está mais próxima do meu coração é El Nowm [O sono]. É a expressão de mim própria. Tem algo sobre a noite. Fala da relação entre insónia e amor. É suavemente estranha. É a fusão. Um passo no passado e outro no presente. Também gosto muito de Ana Hina, mas El Nowm é como uma bossa-nova árabe. É diferente. É única, acho eu.”

© Natacha Atlas

© Natacha Atlas

Este artigo, agora revisto e com outro título, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article, now revised and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008