George Habash (1926-2008): Herói palestiniano

Como é que a História vai recordar George Habash? Um “terrorista” que desviou aviões e matou civis para dar a conhecer ao mundo a sua “causa justa”? O pediatra marxista que tentou derrubar o Rei Hussein do trono da Jordânia? Ou, simplesmente, o eterno rival de Arafat? A sua morte é o fim de uma era no Médio Oriente. (Ler Mais | Read more….)

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Funeral de George Habash: Vários anos antes, em declarações à revista alemã Stern, o chefe da FPLP justificou a sua táctica da resistência: “Quando desviamos um avião, isso tem mais efeito do que matarmos cem israelitas numa batalha. Durante décadas, a opinião pública nunca foi a favor ou contra os palestinianos. Simplesmente ignorava-nos. Agora, pelo menos, o mundo fala de nós”
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George Habash morreu e foi para o Inferno. Começa assim uma velha anedota contada na Cisjordânia. À chegada, o fundador da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) tinha à sua espera três “anjos” que o conduziriam a três quartos onde poderia assistir aos castigos praticados em cada um deles, e escolher o que preferia.

No primeiro, viu o soviético Mikhail Gorbatchov imerso em água a ferver. Abanou a cabeça e seguiu para o segundo. Aqui estava o americano Ronald Reagan a arder em chamas. Não quis para si esta punição, e perguntou: “Onde está Yasser Arafat?”.

Os anjos abriram a terceira porta, e Habash viu Arafat a fazer amor com Marilyn Monroe. “Aah”, exclamou. “É este o castigo que eu quero. O mesmo de Arafat.” Um dos anjos esclareceu: “Não, este não é o castigo de Arafat. É o castigo de Marilyn Monroe.”

Para os palestinianos, habituados a troçar de si próprios, esta piada servia para ilustrar a eterna rivalidade dos mais carismáticos líderes da “velha guarda”: al-Hakim (O Doutor) Habash, da FPLP, e al-Khityar (O Velho) Arafat, da Fatah, as duas maiores facções da OLP.

O octogenário pediatra Habash morreu no sábado [26 de Janeiro de 2008], de ataque cardíaco, num hospital de Amã, quatro anos depois de o septuagenário engenheiro Arafat ter sucumbido a uma misteriosa doença, numa clínica em Paris.

Um e outro saíram de cena com a Faixa de Gaza mergulhada em profunda agonia, e o movimento nacional que criaram nos anos 1960 ainda mais dividido, já não só em linhas ideológicas, mas também religiosas e geográficas.

É ainda uma ironia do Médio Oriente, onde os inimigos de ontem são os amigos de hoje, que Habash tenha morrido na capital da Jordânia, o país onde, em 1970, ele provocou uma guerra civil, ao querer apoderar-se do trono do Rei Hussein (já havia tentado em 1957), para refazer a Palestina da sua infância. O lema que adoptou para fazer cair a monarquia era: “A estrada para Telavive passa por Amã”.

Naquele “Setembro Negro” de 1970, em que os fedayin (guerrilheiros) saíram derrotados – sofreram 4000 mortos e um novo êxodo ­–, Arafat foi quase um actor secundário. Deixou-se enredar na conspiração, incapaz de evitar a tragédia, com receio de também ele ser derrubado pelos mais radicais da sua organização.

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Dois rivais: O pediatra George Habash morreu de ataque cardíaco, num hospital de Amã, quatro anos depois de o engenheiro Yasser Arafat ter sucumbido a uma misteriosa doença, numa clínica em Paris
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Habash começou a roubar protagonismo a Arafat quando, em 23 de Julho de 1968, a sua FPLP (criada em Dezembro de 1967, seis meses após a humilhante derrota árabe na Guerra dos Seis Dias) desviou para Argel um Boeing 707 da companhia israelita El Al.

O aparelho, que efectuava a ligação Roma-Telavive, esteve parado na pista durante 40 dias (apenas mulheres e crianças foram autorizadas a sair), até serem libertados 16 palestinianos detidos em Israel.

O conflito internacionalizou-se e tornou-se mais sangrento, visando civis. Entre Dezembro de 1968 e Setembro de 1969, vários aviões e interesses israelitas foram atacados em Atenas, Zurique, Londres, Haia, Bruxelas e Bona.

À revista alemã Stern, o chefe da FPLP justificaria assim a “nova táctica da resistência” palestiniana: “Quando desviamos um avião, isso tem mais efeito do que matarmos cem israelitas numa batalha. Durante décadas, a opinião pública nunca foi a favor ou contra os palestinianos. Simplesmente ignorava-nos. Agora, pelo menos, o mundo fala de nós.”

O historiador militar Yezid Sayigh, autor de Armed Struggle and the Search for State, acha que o objectivo de Habash, ao igualar a “acção de massas com o terrorismo individual”, não era apenas desafiar Israel mas também competir com a Fatah, que na época emergia rapidamente como a principal força da Thawra (revolução).

Habash haveria de se queixar que nunca lhe foi permitido dirigir a OLP por ser cristão (de rito ortodoxo grego) e não muçulmano, como Arafat.

A pirataria aérea tornou-se na imagem de marca de Habash, tal como o kaffyeh (lenço beduíno) era uma etiqueta inseparável de Arafat. Mas não foi este o único modus operandi do médico que até ao fim dos seus dias se definiu como um “marxista-leninista com muito orgulho”.

Em 1969, a FPLP colocou uma bomba num supermercado em Jerusalém que matou dois jovens e feriu 20 outros. No mesmo ano, o grupo reivindicou a responsabilidade pela explosão do Tapline, um oleoduto da Arab-American Oil Company que transportava petróleo da Arábia Saudita para o Mediterrâneo.

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Fedayin da FPLP nas ruas de Amã, em 1970 combatendo as tropas hashemitas: é uma ironia do Médio Oriente, onde inimigos de ontem são amigos de hoje, que George Habash tenha morrido na capital da Jordânia, o país onde provocou uma guerra civil, ao querer apoderar-se do trono do rei Hussein (já havia tentado em 1957), para refazer a Palestina da sua infância
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Em 1970, já o Rei Hussein preparava as tropas para eliminar “a maior ameaça da história” do seu reino, a FPLP ainda teve a ousadia de desviar quatro aviões estrangeiros e dinamitar um deles, num aeroporto jordano, sem os passageiros a bordo mas com as televisões a gravar em directo. No mesmo ano, em mais uma operação assinada pela organização de Habash, outras 47 pessoas que seguiam num avião da Swissair tiveram menos sorte: morreram quando o aparelho explodiu em pleno voo.

Em 1972, com a participação dos japoneses do Exército Vermelho – também colaborava com o IRA e o Baader Meinhof –, a FPLP matou 26 pessoas no aeroporto de Lod, nos arredores de Telavive.

Para Habash, foi um acto simbólico. Lod é o actual nome hebraico de Lydda, a cidade palestiniana onde ele nasceu, em 1925 ou 1926, e que, durante a guerra de 1948, foi submetida a intensos bombardeamentos e esvaziada de todos os seus habitantes.

Habash, filho de um abastado comerciante de cereais, era estudante de Medicina em Beirute (licenciou-se com a melhor nota da turma em 1951) quando começou esta “limpeza étnica”. Apressou-se a regressar e foi servir como assistente num hospital.

Aqui viu as vítimas em “primeira mão”. Foi detido e espancado por soldados, e depois forçado ao exílio, como todos os seus parentes. A partir deste momento, “senti que teria de sacrificar toda a minha vida pela minha causa justa”, afirmou Habash numa posterior entrevista.

Em 1973, conscientes de que enfrentavam um inimigo implacável, foram os serviços secretos israelitas que interceptaram um avião jordano, que ligava Beirute a Bagdad. Queriam capturar ou assassinar Habash, já nesta altura com uma saúde precária, mas ele não estava a bordo.

Em 1975, a FPLP associou-se a outro mestre do terror, Carlos, O Chacal, para fazer reféns os ministros reunidos numa cimeira da OPEP, em Viena. Um ano depois, mais um desafio: um avião da Air France proveniente de Telavive foi desviado para Entebbe (Uganda).

Comandos pára-quedistas israelitas desencadearam uma operação de resgate que conseguiu libertar a maior parte dos cem reféns (judeus – os restantes foram libertados em 1 de Julho de 1976), embora tivessem morrido três numa batalha que durou 35 minutos. A Operação Trovão, que ficou na história militar israelita, foi posteriormente  designada Operação Yonatan, em homenagem ao seu comandante, coronel Yoni Netanyahu, irmão do actual primeiro-ministro, Benjamin. O salvador não se salvou. Foi morto a tiro.

Em 1978, a FPLP lançou um novo ataque, contra passageiros da transportadora israelita El Al, no aeroporto de Orly (França), de que resultou dois mortos. Em 1980, um atentado à bomba contra a sinagoga da Rua Copernic, em Paris, causou mais dois mortos e 70 feridos.

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Em 27 de Junho de1976, dois guerrilheiros da FPLP e dois do grupo alemão Baader-Meinhoff desviaram, para Entebbe, no Uganda, um avião da Air France transportando 250 passageiros com destino a Telavive. Exigiram a libertação de 53 palestinianos presos em Israel e noutros 11 países, sob a ameaça de fazerem explodir o aparelho com todos os que fossem judeus. A 4 de Julho (um dia antes de expirar o prazo pelos sequestradores), numa operação-surpresa denominada Trovão, tropas israelitas, comandadas pelo coronel Yonatan Netanyahu (que não sobreviveu), tomaram de assalto o aeroporto. Ao fim de 35 minutos de batalha, salvaram a maioria dos reféns (três foram mortos)
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Se todos estes ataques tiveram a bênção de Habash, o principal arquitecto foi o seu “braço-direito”, Wadih Haddad, também ele médico, que dirigia o Aparato Especial – espécie de milícia da FPLP. “Éramos mais do que irmãos”, dizia Habash, atribuindo a Haddad, co-fundador, em 1953, do Movimento Nacional Árabe (MNA), o mérito de o ter libertado de uma prisão na Síria. Tinha sido encarcerado, por “posse ilegal de armas”, em Março de 1968 – ainda estava na cadeia quando começaram os sequestros de aviões.

A relação de Habash com Damasco foi sempre atribulada e ambígua, mesmo quando ele optou por viver aqui, em 1982, recusando instalar-se na Tunísia, como fez Arafat, após a expulsão do Líbano de 8000 combatentes da OLP, em 1982.

Os sírios incentivaram duas cisões na FPLP, a primeira em Outubro de 1968, quando Ahmed Jibril criou a Frente Popular de Libertação da Palestina- Comando Geral (FPLP-CG), e a segunda, em Dezembro de 1969, quando Nayef Hawatmeh anunciou a formação da Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP).

Jibril, financiado pelo Governo de Hafez al-Assad, não gostava das críticas que Habash fazia aos regimes árabes. O comunista Hawatmeh admitia “os resultados do sionismo: o influxo de judeus para a Palestina”, porque os seus aliados soviéticos foram os primeiros a estabelecer laços com o Estado de Israel. Habash jamais aceitou a coexistência.

Um selo palestiniano, em homenagem a George Habash e a Leila Khaled, uma das figuras mais carismáticas da FPLP - ela foi cérebro e operacional de vários ataques terroristas @DR (D

Um selo palestiniano, em homenagem a George Habash e a Leila Khaled, uma das figuras mais carismáticas da FPLP – ela foi cérebro e operacional de vários ataques de guerrilha
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Em 1974, o discípulo do pan-arabismo de Gamal Abdel Nasser juntou-se a outros “revolucionários” numa Frente de Firmeza e Rejeição. E, após a assinatura dos Acordos de Oslo, em 1992, não hesitou em integrar uma coligação com os islamistas do Hamas, para marginalizar Arafat.

Arafat perdeu a oportunidade histórica de criar uma pátria independente, mas o autoritário Habash, arauto de uma “guerra popular” ao estilo vietnamita, também não ofereceu aos palestinianos uma alternativa. Em 2000, paralisado por duas embolias cerebrais (a primeira em 1979 e a segunda em 1992, que o obrigou a ser internado em França, gerando um escândalo diplomático), cedeu a liderança da FPLP.

Não se sabe bem quando é que Habash procurou refúgio em Amã, onde nasceu a sua mulher, Hilda, de quem teve duas filhas. Foi ela que, no sábado, ao confirmar o óbito, disse que o marido estava “em sofrimento com as dores do povo de Gaza”, a tentar sobreviver a um cerco israelita e ao fecho da fronteira com o Egipto.

Habash desapareceu deixando a FPLP órfã. O seu primeiro sucessor, Abu Ali Mustafa, foi autorizado a regressar à Cisjordânia, mas não mereceu a confiança de Israel, que o assassinou em 2001, durante a segunda Intifada.

O segundo, Ahmad Sa’adat, foi preso [mas mantém-se na liderança] depois de ter mandado matar o ministro israelita do Turismo, Rehavam Ze’evi, dirigente de um partido de extrema-direita.

Sem Habash nem Arafat, a Palestina, que antes era berço dos nacionalistas, passou a ser um campo de recrutamento dos islamistas do Hamas e da Jihad. Chegou ao fim uma era no Médio Oriente: morreram os que lutavam por um Estado laico, mesmo que não fosse ao lado de Israel.

George Habash, líder da FPLP, a segunda maior facção da OLP, e um dos grandes rivais de Yasser Arafat. @DR

George Habash, líder da Frente para a Libertação da Palestina (FPLP), a segunda maior facção da OLP, e um dos grandes rivais de Arafat
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

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