O pai era da Mossad mas ela recusou o “exército da ocupação”

Omer Goldman tinha 19 anos quando voltou a uma base militar para o terceiro ciclo de 21 dias de detenção. Foi castigada por não querer servir nas Forças de Defesa de Israel. Mais um desgosto para Natalin Granot, que esperava ser promovido ao lugar atribuído a Meir Dagan. Esta é a sua história, na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…)

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O meu pai é Natalin Granot, um especialista em Irão que se demitiu de “número dois” da Mossad, em 2007, quando não o promoveram a chefe da principal agência de espionagem de Israel.

Eu, Omer Goldman, 19 anos, sou uma pacifista e, hoje [5 de Novembro de 2008], regresso à prisão nº 400, numa base militar próxima de Telavive. Recuso-me a servir num exército que comete, todos os dias, crimes de guerra nos territórios palestinianos ocupados.

Fui recrutada para o serviço militar obrigatório aos 18 anos, mas já no liceu eu decidira que não queria ir para a tropa. Assim que deixei a escola, e antes de me inscrever na faculdade, dei aulas a crianças pobres num bairro de judeus etíopes. Quando me chamaram, entreguei uma declaração aos oficiais onde afirmava: “Recuso alistar-me nas Forças de Defesa de Israel (IDF).

Não farei parte deste exército que, desnecessariamente, pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos.” No dia 23 de Setembro [de 2008], sem ter sido julgada, fui cumprir 21 dias de detenção.

Fui libertada a 10 de Outubro [do mesmo ano], mas voltei para um segundo período, desta vez apenas de 14 dias, porque fiquei doente. Saí novamente em liberdade, na sexta-feira, dia 30 de Outubro. Estes ciclos irão repetir-se até que o Exército se canse, porque eu não vou desistir.

Conheço pessoas que passam muito tempo reclusas. Um exemplo é Jonathan “Yoni” Ben-Artzi, sobrinho do líder da oposição, Benjamin Netanyahu. Esteve detido um total de 18 meses ao longo de oito anos.

Em 2007, conseguiu que o Supremo Tribunal validasse os seus argumentos para não ser soldado (ele era completamente contra qualquer forma de luta – nem quando era miúdo aceitou aulas de judo), mas fracassou no intuito de ver reconhecido o estatuto de objector de consciência em Israel.

Neste país, as IDF são um “exército do povo”, quase mitológico. Não podemos recusar-nos a servi-lo por motivos políticos. Há quem cite David Ben-Gurion, o primeiro chefe de Governo, para justificar que um exército politizado não permite a sobrevivência da nação, e que quem quer ser um dissidente político deve levar as suas causas para o terreno civil.

Mas foi Ben Gurion que permitiu a isenção do serviço militar aos ultra-ortodoxos que frequentem as yeshivot ou escolas talmúdicas. É um sistema de dois pesos e duas medidas, que favorece os religiosos porque eles têm peso político. 

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Eu soube que seria para sempre uma refusenik depois de ter participado num protesto contra a construção ilegal do muro de separação que atravessa a Cisjordânia. Eu e outras amigas estávamos na aldeia de Ni’alim e, de repente, reparei que o inimigo não eram os palestinianos sentados ao meu lado, como sempre me disseram, mas um soldado israelita que disparou contra mim uma bala de borracha.

Fiquei ferida num braço, felizmente sem gravidade, mas uma palestiniana de 17 anos foi morta. As balas de borracha matam como as munições reais.

As minhas convicções ficaram mais fortes depois da Segunda Guerra do Líbano, no Verão de 2006. Comecei a questionar a sério a ética do exército, o uso de armas não convencionais, o envio de soldados para a frente de batalha onde morriam sem objectivos definidos. Comecei a ir mais aos territórios ocupados, e vi soldados a disparar sobre civis inocentes.

Antes de ser detida, procurei apoio psicológico, todas as semanas, durante um mês. A terapia deixou-me mais calma e mais forte. Sinto que a prisão será uma experiência, para o bem ou para o mal, que me deixará mais adulta.

A última coisa que fiz antes de entrar na minha cela foi deliciar-me com um prato de hummus [pasta de grão com azeite] – a minha comida favorita. Quando me libertaram, fui para uma festa dançar e ver pessoas que me fizeram sentir bem. Perdi muitos amigos, e até familiares, por causa das minhas posições.

Aqui, em Israel, todos pensam que todos devemos ser soldados. Depois do divórcio dos meus pais, eu vivo com a minha mãe em Ramat HaSharon, localidade de gente rica, nos arredores de Telavive. Ela compreende-me, mas tem medo que me façam mal.

Tenho uma irmã mais velha, de 27 anos, que já foi militar e não vive connosco. Eu gosto muito do meu pai, mas ele nunca me foi ver à prisão, ao contrário da minha mãe. Ficou escandalizado por eu ser uma refusenik. Afinal, ele era uma espécie de general.

É claro que se opõe, veementemente, ao que eu faço, mas a relação afectiva pai-filha nunca foi abalada. Também não creio que a carreira do meu pai seja prejudicada pelas minhas acções, embora eu tenha a certeza de que o meu caso está a ter mais repercussão pública por eu ser filha de Natalin Granot. Ele já se demitira em Junho de 2007.

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Segundo o escritor e jornalista israelita Igal Sarna, o meu pai era um operacional da Mossad que os jornais identificavam apenas como N. Subiu até chegar a adjunto do “número um”, Meir Dagan, e sucessor designado. Ao contrário do que se esperava, Dagan não se reformou. Permaneceu no cargo e o meu pai preferiu demitir-se.

Não havia lugar para dois “patrões” com demasiado poder. E, para avaliar o poder do rival do meu pai, leia-se o que disse – numa sala em que a audiência explodiu de aplausos – o colunista político Emmanuel Rosen, que fez parte do painel de jurados que, em Outubro, atribuiu a Meir Dagan o prémio Man of the Year (Homem do Ano) de Israel. “Ele ganhou fama por cortar cabeças de palestinianos com uma espada japonesa. Ele nasceu com uma faca entre os dentes”.

Não chamem à minha atitude uma rebeldia de adolescente ou um acto de revolta por o meu pai ter saído de casa da minha mãe. É muito mais do que isso. Fui uma de 40 estudantes liceais que assinou a “Declaração 2008 dos Alunos do 12º ano” – altura em que somos recrutados pelo exército.

Foi em Abril de 1970 que surgiu a primeira iniciativa, com carta enviada à primeira-ministra Golda Meir. Causou imenso furor. Já era um protesto contra a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, conquistadas na guerra de 1967. Depois disso, houve mais três declarações, embora já não haja tanta polémica.

Na prisão – uma prisão para raparigas dentro de uma prisão para rapazes -, tenho sorte porque estou com mais quatro alunas signatárias da “Declaração 2008”, e duas delas são grandes amigas minhas, Tamar Katz e Mia Tamarin. É engraçado porque só enviam para aqui os “mais perigosos”. Como podem classificar-nos como perigosas se somos pacifistas?

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Somos 60 raparigas no total, entre os 19 e os 20 anos, divididas em dois grupos de 30 para duas celas. Dormimos em colchões no chão e, todas as noites, uma de nós tem de ficar acordada para vigiar as outras… envergando um uniforme do exército norte-americano! É engraçado, não é?

Acordamos às 5 da manhã e fazemos limpezas até à hora do pequeno-almoço. Retomamos as limpezas até à hora do almoço, e depois novamente até à hora do jantar. Na realidade, não há nada para limpar. Fingimos que limpamos – e nisto desperdiçamos imensa água, que Israel não tem – ou então pintamos umas pedras e tijolos.

Todos os que nos guardam são mulheres. Para mim, são elas as prisioneiras, e não nós. Questionam a nossa lealdade ao Estado e à religião. Gritam connosco a toda a hora e por razão nenhuma. Espezinham os nossos direitos, negando-nos o acesso a advogados. Só conseguimos, e nem sempre, alguns minutos por dia para falarmos com a família.

Há um telefone fixo, quase sempre ocupado. Não há autorização para usar telemóvel. Podemos ler os livros que trazemos, mas as cartas que nos enviam do exterior são abertas previamente e nem sempre chegam até nós. Eles, os comandantes, não querem ceder porque sabem que, se o fizerem, estão a reconhecer que estão errados.

Não somos sujeitas a tortura física, mas frequentemente conseguem quebrar-nos o espírito. Vamos dormir por volta das 22h00-23h00. Não somos nós que decidimos apagar a luz, nem quando podemos ir à casa de banho. São as guardas.

Não é difícil adormecer porque quando caímos na cama estamos exaustas. Eu não tenho pesadelos. Só sonhos bonitos. Sonho que sou livre e estou a viajar pelo mundo. Quando me sinto mais triste, penso em coisas boas.

Na prisão, nenhuma de nós acredita em Deus. Usamos a nossa cabeça e o nosso coração para encontrar forças. Falamos muito umas com as outras, e escrevemos cartas umas às outras durante a noite. Algumas raparigas, ainda que objectoras de consciência, nunca viram a realidade violenta e opressiva nos territórios ocupados que eu testemunhei. Começam agora a aperceber-se da necessidade de exigir mais respeito pelos direitos humanos.

Não quero ficar na prisão muito tempo. Se me propuserem a possibilidade de serviço cívico aceitarei. Quero participar e ser solidária com a sociedade onde vivo. Se quiserem que eu seja voluntária a vida toda, sê-lo-ei.

Gostava de ir para a faculdade, talvez estudar Direito, mas o meu grande amor é a representação. Acho que vai ser muito difícil o meu futuro num país onde as pessoas são mais conhecidas pela unidade do exército a que pertenceram do que pela profissão que exercem.

Talvez dentro de dez ou 20 anos as pessoas me compreendam e deixem de pensar em termos de judeu, negro, branco, cristão… Eu não acredito que a violência se combata com a violência. Esse nunca será o meu caminho, digam o que quiserem.

Ficarei muito feliz se me escreverem. A minha morada nos próximos dias é esta:

Omer Granot 
Military ID 5398532
Military Prison nº 400
Military Postal Code 02447, IDF
Israel 
 
omerrrrrrr

[Em Setembro de 2010, numa outra entrevista destinada a actualizar o seu testemunho para o “Livro-Agenda Perpétua, 52  Histórias ACEP”, Omer revelou que o exército, face às pressões, acabou por ceder. Antes de ser aceite na Seminar Hakibbutzim, onde alguns professores aderiram ao movimento de boicote ao colonato de Ariel, ela  tentou primeiro inscrever-se na prestigiada Nissan Nativ School of Acting. Exigiram-lhe que explicasse por que não cumpriu o serviço militar. No formulário, escreveu: “Fuck off!” 

Para pagar as aulas e a casa onde vive sozinha (“sempre amei a minha independência”), Omer trabalhava, quando falámos com ela, como empregada de balcão e mesa num bar que é também estação de rádio. “É preciso ganhar a vida”, justificou, lamentando que esta actividade profissional tenha reduzido a sua participação em manifestações contra a ocupação.

Às sextas-feiras à noite, ela era presença assídua nos protestos em Sheikh Jarrah, bairro de Jerusalém Oriental de onde uma família palestiniana, que já havia sido expulsa de Jerusalém Ocidental, foi despejada para dar lugar a colonos judeus ultra-ortodoxos.

Um dia, num clube de Telavive, um rapaz interpelou-a: ‘És a puta que anda a dizer mal do nosso país?’” Ela garante que não se importa com os insultos. Também circularam petições para lhe retirar a cidadania. Ela ri-se, mas lamenta: “Este já não é um país para gente livre, vivemos um dos períodos mais obscuros. As pessoas estão cada vez mais nacionalistas. Não conseguem olhar para os nossos vizinhos como seres iguais.”]

Omer Goldman @DR

Omer Goldman
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Novembro de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published by the newspaper PÚBLICO, on November 5, 2008

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