O Irão sabe que, em persa, Obama significa “ele está connosco”

Se a nova Administração norte-americana iniciar negociações com o a República Islâmica, antes das eleições de Junho [de 2009], será um sinal de que não pretende mudar o regime. Entrevistas com a académica iraniana Sanam Vakil e Trita Parsi, presidente do National Iranian American Council. (Ler mais | Read more…)

Ghazaleh Miramini (à esquerda) pratica guitarra com o seu professor de música, Amir Salami numa escola em Teerão (Novembro de 2011). Nos anos 1980, a música quase desapareceu da República Islâmica. Lembra a NBC que "agentes da polícia e de milícias mandavam parar carros para se certificarem que os condutores e passageiros não estavam a ouvir cantores pré-revolucionários; por vezes quebravam as cassetes. Uma década depois, a vida social ganhou um novo dinamismo, sobretudo após a vitória do reformista Khatami. Quando Ahmadinejad chegou ao poder toda a expressão cultural e artística voltou a ser censurada. @AP |NBC

Ghazaleh Miramini (à esquerda) pratica guitarra com o seu professor de música, Amir Salami numa escola em Teerão (Novembro de 2011). Nos anos 1980, a música quase desapareceu da República Islâmica. Lembra a NBC que “agentes da polícia e de milícias mandavam parar carros para se certificarem que os condutores e passageiros não estavam a ouvir cantores pré-revolucionários; por vezes quebravam as cassetes. Uma década depois, a vida social ganhou um novo dinamismo, sobretudo após a vitória do reformista Mohammad Khatami. Quando Mahmoud Ahmadinejad chegou ao poder toda a expressão cultural e artística voltou a ser censurada
© AP | NBC

O Irão não parou para ver a tomada de posse de Barack Obama. A televisão estatal não mostrou uma só imagem da cerimónia e não apareceram fotos do sucessor de George W. Bush nas primeiras páginas dos jornais. No entanto, a sua oferta de “estender a mão aos que têm o punho fechado” não foi ignorada.

O Presidente Mahmoud Ahmadinejad disse ao Daily Telegraph, de Londres, que vai ser “paciente” para ver se há mudança. Se sim, “será uma nova era entre nós”, frisou.

Para analisar o impacto de uma reaproximação dos EUA ao Irão, três décadas depois da queda do Xá Pahlavi e da instauração pelo Ayatollah Khomeini da primeira República Islâmica, falámos separadamente, por telefone, com dois analistas iranianos.

Trita Parsi, que não perdeu a esperança de vir a ser consultor de Obama, é presidente do National Iranian American Council (NIAC), a maior organização de apoio ao cerca de um milhão de iranianos a viver na América. Escreveu uma obra de referência, Treacherous Alliance – The Secret Dealings of Iran, Israel and the United States, a partir da sua tese de doutoramento, orientada por Francis Fukuyama, na John Hopkins University.

Sanam Vakil, que também nasceu no Irão e se doutorou na mesma universidade, onde leccionou Estudos do Médio Oriente [agora é professora Associate Fellow do Programa de Médio Oriente e Norte de África da Chatham House/The Royal Institute of International Affairs], foi investigadora no Council on Foreign Relations e é autora de Through the Looking Glass: An Analysis of US-Iranian Relations. Se o processo de reconciliação EUA-Irão tiver êxito, “mudará profundamente o Médio Oriente”, reconheceram ambos.

Ahmadinejad, que enviou uma carta inédita a felicitar Obama pela sua eleição, em Novembro de 2008, estará ansioso pelo diálogo com o homólogo cujo nome do meio (Hussein) é o de uma figura venerada pelos xiitas, e cujo último nome (Obama) significa, em farsi, “Ele está connosco”.

Na Rua Ferdowsi (nome de um poeta nacional), em Teerão, um homem coloca notas de dólares dos EUA num saco plástico. O seu negócio é o câmbio, mas em Dezembro de 2011, quando esta fotografia foi tirada, o valor do rial, a moeda iraniana, sofrera uma queda bruta: 1 dólar = 16,50 riais. Ainda assim, nada que se compare a 1979, o ano da Revolução Islâmica, a taxa equivalia a 1 dólar = 70 riais. @Vahid Salemi |AP |NBC

Na Rua Ferdowsi (nome do poeta nacional, autor do épico Livro dos Reis), em Teerão, um homem coloca notas de dólares dos EUA num saco plástico. O seu negócio é o câmbio, mas em Dezembro de 2011, quando esta fotografia foi tirada, o valor do rial, a moeda iraniana, sofrera uma queda bruta: 1 dólar = 16,50 riais. Ainda assim, nada que se compare a 1979, o ano da Revolução Islâmica, a taxa equivalia a 1 dólar = 70 riais
© Vahid Salemi | AP | NBC

Já é oficial que Barack Obama vai mudar a política dos EUA em relação ao Irão. Qual será a resposta da República Islâmica?

SANAM VAKIL É difícil especular, porque não sabemos os objectivos da nova política norte-americana. Até agora, os iranianos têm enviado mensagens receptivas. Têm sido bastante mais moderados na sua linguagem e até nas reacções à guerra em Gaza.

Sim, o Irão tem uma boa relação com o Hamas, mas de modo algum é comparável aos laços que mantém com o Hezbollah no Líbano, uma aliança estratégica para salvaguardar os seus interesses em países árabes com minorias xiitas.

Os iranianos têm sido muito prudentes, e podemos ler essa prudência como uma oportunidade para a mudança. O Irão precisa de duas coisas: de segurança, porque quer sentir que depois de 30 anos [desde a Revolução Islâmica] é aceite pelos EUA e que o seu regime não estará constantemente sob ameaça; e do levantamento das sanções que estão a asfixiar a sua economia.

Em troca, o Irão pode oferecer menos beligerância, quer em relação à política externa norte-americana no Golfo Pérsico quer ao conflito Israel-Palestina.

TRITA PARSI Há um consenso no Irão de que negociar com os EUA, nas circunstâncias certas, será benéfico para o país. Mas é imperativo que os EUA revelem o que querem do Irão. Querem apenas uma redução de tensões ou a resolução dos problemas?

Se a mudança de regime continuar a ser um objectivo estratégico, então o Irão não irá ajudar em nada. O Irão quer uma solução global dos contenciosos com os EUA. Isso inclui o seu programa nuclear e o reconhecimento de que é uma potência regional. O erro dos iranianos é não terem ainda clarificado o que pretendem quando reclamam ser potência regional.

 Iranian Jewish men carry the Torah scroll out from a cupboard to be read during morning prayers at Yusef Abad synagogue in Tehran on Monday. Present for more than 2,500 years in Persia, Iranian Jews have lost more than 70 per cent of their 80,000 to 100,00 population who lived in Iran before the 1979 Islamic revolution. Today Iran is home to about 8,750 Jews, according to a 2011 census. They are scattered across the country, but are mostly in the capital Tehran, Isfahan in the centre and Shiraz in the south. @Behrouz Mehri/AFP

Judeus iranianos retiram os Rolos da Torah de um armário, para sem lidos nas orações matinais na Sinagoga de Yusef Abad, em Teerão (2014]. Com uma presença na Pérsia que remonta há mais de 2500 anos, a comunidade judaica perdeu mais de 70% dos seus membros (de 80.000 para os actuais 8.750 crentes) desde a Revolução Islâmica de 1979, segundo um censo de 2011. Os judeus iranianos vivem por todo o país, mas sobretudo na capital, em Isfahan (Centro) e em Shiraz (Sul)
© Behrouz Mehri | AFP | Financial Times

Quem detém o poder no Irão?

SANAM VAKIL – Os EUA já compreenderam que quem toma as decisões finais no Irão é o Guia Supremo, Ayatollah Ali Khamenei. Não sabemos se os americanos irão ter contactos directos com o seu gabinete, mas é certo que qualquer negociação será supervisionada por ele e terá de ser aprovada por ele. O [anterior] Presidente Mahmoud Ahmadinejad é apenas uma voz.

Pode ser a que mais se ouve, mas não tem poder para agir sem a aprovação do Guia Supremo. E é este que tem a autoridade total sobre questões de segurança nacional – não Ahmadinejad! No Irão, há uma luta de facções que dura há vários anos, mas quem controla realmente o país tem uma grande abertura face à ideia de negociações com os EUA.

Esta é uma questão discutida abertamente pelas elites e pelos círculos de poder. Já ninguém diz ‘se’, mas ‘quando’. Todos os candidatos às eleições iranianas estão ansiosos por anunciar que foram eles que permitiram a reconciliação com os EUA, sejam os pragmáticos, como Ali Larijani, ou os da linha dura, como Ahmadinejad.

TRITA PARSI – Há muitas pessoas a decidir, mas a decisão final é a de Ali Khamenei. E, se olharmos para ele atentamente, isso é bem claro.

Tem alguns problemas de saúde, mas nada que o impeça de desempenhar o seu papel. Isso não quer dizer que todo o processo [de aproximação aos EUA] dependa de um só homem, mas ele é a pessoa com mais peso e poder.

Mahnaz Mollaei, (à direita) ensina patinagem a crianças, no Clube Pardis, na cidade de Isfahan, a sul de Teerão, a capital iraniana. Foto de 1 de Janeiro de 2012 @Vahid Salemi | AP | NBC

Mahnaz Mollaei, (à direita) ensina patinagem a crianças, no Clube Pardis, na cidade de Isfahan, a sul de Teerão, a capital iraniana. Foto de 1 de Janeiro de 2012
© Vahid Salemi | AP | NBC

Obama vai tentar aproximar-se antes das eleições presidenciais iranianas, em Junho [de 2009]?

SANAM VAKIL – Se os EUA optarem por se aproximar só depois das eleições, estarão a sinalizar que o acto eleitoral é crucial para as relações bilaterais. Se esperarem, estarão a enviar a mensagem de que ainda procuram uma mudança de regime, e essa mensagem só exacerbou tensões.

Se avançarem já, poderão influenciar as eleições, porque as relações com os EUA serão um dos temas da campanha. E se as negociações forem frutíferas, Ahmadinejad, ou outro candidato, vai usar esse sucesso para reforçar a sua posição.

A política dos últimos anos de procurar mudar o regime apoiando movimentos democráticos no Irão foi muito negativa, não só para as relações EUA-Irão como também para os activistas da sociedade civil iraniana.

TRITA PARSI – Barack Obama disse que iria seguir uma abordagem global. Isso indica que ele não procura apenas uma gestão do conflito, mas vai procurar resolver o conflito. Precisamente porque ele manifestou interesse nessa abordagem global, não creio que será exequível esperar até depois de Junho para estabelecer contactos com o Irão.

Os primeiros contactos deverão ser a nível de base, não necessariamente uma grande abertura, porque a realidade é que os EUA sabem muito pouco sobre o Irão e sobre as intenções iranianas, e vice-versa, porque os contactos têm sido mínimos.

Creio que haverá primeiro um período de recolha de informações, de forma a entender o que melhor fazer. Há um grande risco em esperar. Não há garantias de que esperar possa prejudicar Ahmadinejad [nas eleições]. Até pode ajudá-lo. Depois, até mesmo os reformistas têm dito que será mais fácil ao próximo Presidente iraniano, seja ele qual for, falar com os EUA se as conversações forem iniciadas ainda durante o mandato de Ahmadinejad.

Estudantes universitários iranianos partilham chapéus de chuva, num dia de tempestade de neve (8 de Novembro de 2010), em Teerão. A inesperada neve de Outono obrigou ao encerramento de escolas e estradas na maior parte do Norte do país. @Caren Firouz | Reuters | NBC

Estudantes universitários iranianos partilham chapéus de chuva, num dia de tempestade de neve (8 de Novembro de 2010), em Teerão. A inesperada neve de Outono obrigou ao encerramento de escolas e estradas na maior parte do Norte do país.
© Caren Firouz | Reuters | NBC

É possível negociar com Ahmadinejad, o presidente que quer “apagar Israel das páginas da história” e negar o Holocausto?

SANAM VAKIL – Com toda a certeza! Ahmadinejad é um animal político muito pragmático. Todos os seus discursos e acções têm sido tácticos, no sentido de aumentar o seu poder e popularidade. Se Ahmadinejad mostrou alguma coisa é de que ele não hesitará em seguir todos os meios para conseguir o que nenhum Presidente no Irão foi capaz de obter.

Poderá não viajar até Jerusalém, como fez Anwar Sadat em 1977, mas reconhecerá que o conflito israelo–palestiniano tem de ser resolvido pelos israelitas e palestinianos, não necessariamente pelo Irão. É difícil acreditar nisto, mas também era difícil acreditar que os EUA se iriam aproximar da China, em 1969.

E, no entanto, mantiveram dois anos de negociações [até à visita de Richard Nixon a Pequim em 1972], porque isso era do interesse dos dois países. O regime em Teerão age mais por interesse nacional do que ideológico.

TRITA PARSI – Ahmadinejad tornará tudo muito mais difícil, politicamente, para que a aproximação aos EUA tenha êxito. Mas até as diatribes ideológicas de Ahmadinejad contra Israel têm um objectivo estratégico. Israel é visto como obstáculo à reconciliação entre os EUA e o Irão.

A retórica anti-Israel ajuda a eliminar o fosso persa-árabe e xiita-sunita; mobiliza as massas árabes para impedirem que os seus regimes se aliem a Telavive contra Teerão. Se Benjamin Netanyahu ganhar as eleições em Israel, em Fevereiro [de 2009], a situação ficará mais complicada.

Será [e foi] um pesadelo para Obama ter Netanyahu e Ahmadinejad ao mesmo tempo no poder. Mas creio também que Netanyahu não quer afectar negativamente as relações EUA- Israel.

Um teólogo iraniano espera pelo início de uma conferência, em Teerão, intitulada "Gaza, Um símbolo de Resistência", em 18 de Janeiro de 2012. Teerão manteve, sob a presidência de Ahmadinejad, laços estreitos com o movimento palestiniano Hamas, ao qual fornecia, supostamente, armas e munições. @Caren Firouz / Reuters

Um teólogo iraniano espera pelo início de uma conferência, em Teerão, intitulada “Gaza, Um símbolo de Resistência”, em 2012. Teerão manteve, sob a presidência de Ahmadinejad, laços estreitos com o movimento palestiniano Hamas
© Caren Firouz | Reuters

O programa nuclear iraniano estará desde logo na mesa?

SANAM VAKIL – Não sei se os EUA vão envolver imediatamente o Irão de forma tão directa. Creio que começarão por abordar questões regionais, como o Iraque e o Afeganistão. Tentarão estabelecer a confiança mútua em áreas onde há potencial de cooperação, antes de discutir a questão nuclear.

TRITA PARSI – Não abordar desde o início a questão nuclear seria um erro, porque o Irão não irá colaborar no Iraque ou no Afeganistão se não houver uma indicação de qual o objectivo dos EUA. Por que haveria de ajudar os americanos sem saber o que vai receber em troca?

Em Teerão, uma menina aprende a tocar flauta na Escola Pishtaz - o primeiro estabelecimento de ensino pré-primário, equipado com computadores para crianças sobredotadas. Aqui, informou a NBC "usa-se a inovação tecnológica para melhorar o sistema de educação. Os pais podem seguir as actividades diárias dos seus filhos através de câmaras de TV instaladas nas salas de aulas, corredores, ginásios e pátios." @Raheb Homavandi | Reuters | NBC

Em Teerão, uma menina aprende a tocar flauta na Escola Pishtaz – o primeiro estabelecimento de ensino pré-primário, equipado com computadores para crianças sobredotadas. Aqui, informou a NBC “usa-se a inovação tecnológica para melhorar o sistema de educação. Os pais podem seguir as actividades diárias dos seus filhos através de câmaras de TV instaladas nas salas de aulas, corredores, ginásios e pátios”
© Raheb Homavandi | Reuters | NBC

As linhas vermelhas em relação ao programa nuclear vão manter-se?

SANAM VAKIL – As linhas vermelhas estão a mudar. Obviamente que a Europa e os EUA, a Rússia e a China vão tentar limitar a evolução do programa atómico iraniano, tentando restringi-lo à energia nuclear civil. Creio que esse é o objectivo do Conselho de Segurança da ONU, da Alemanha, do Japão e de outros países.

Haverá um compromisso com o regime iraniano, mas o programa nuclear será sujeito a um rigoroso controlo e supervisão, de modo a garantir que é fiável depois de tanta opacidade. Se o Irão está pronto para este compromisso, é difícil de dizer porque muito depende do que lhe irá ser oferecido.

Os iranianos querem garantias de que não haverá tentativas de mudança de regime, ingerência na sua soberania nacional e, claro está, o restabelecimento de laços diplomáticos com os EUA. Os europeus serão muito importantes neste processo.

Devem continuar unidos no Conselho de Segurança da ONU, cooperando com os EUA nos incentivos e nas restrições ao Irão para forçar o regime a fazer concessões.

TRITA PARSI – Vai ser muito interessante ver qual a coordenação entre americanos e europeus quando forem redigidas novas resoluções do Conselho de Segurança (CS) da ONU. A promessa de Obama é a de negociar sem condições prévias, o que obrigará o CS a algumas mudanças.

O ponto crítico é saber exactamente se os EUA vão mudar a linha vermelha, se estão dispostos a levantar sanções em troca de melhor comportamento do Irão. Bush queria obter algo e não oferecer nada. Isso não é negociar. É uma ameaça e um ultimato.

Não será a imposição de mais sanções que vai mudar o comportamento iraniano mas a proposta de levantar sanções. A não ser que o Ocidente redefina o jogo e modifique a pressão sobre o Irão – em vez de exigir o fim do enriquecimento de urânio (exigência que falhou), exigir o não fabrico da bomba, criando desincentivos para o Irão não ter a arma nuclear -, o tempo continuará a estar do lado do Irão.

Uma cristã iraniana procura decorações de Natal numa loja no centro de Teerão. Fotografia tirada a 13 de Dezembro de 2011. Actualmente, calcula-se que haja 600 igrejas para 250 mil cristãos, de vários ritos. @Morteza Nikoubazl / Reuters

Uma cristã iraniana procura decorações de Natal numa loja no centro de Teerão. Fotografia tirada a 13 de Dezembro de 2011. Actualmente, calcula-se que haja 600 igrejas para 250 mil cristãos, de vários ritos
© Morteza Nikoubazl | Reuters

Em 2003, o Irão do reformista Mohammad Khatami propôs à Administração de George W. Bush suspender o enriquecimento de urânio, deixar de armar o Hamas e o Hezbollah e apoiar o plano de paz da Liga Árabe, em troca da garantia de que os EUA não ameaçariam a sua segurança no Golfo Pérsico. Saddam tinha sido derrubado em Bagdad, e Bush recusou. A oferta ainda é viável?

SANAM VAKIL – Neste momento, o Irão considera que está numa posição de força, sobretudo desde que a maioria xiita governa o Iraque. [Em 1984, Khomeini recusou-se a ajudar os xiitas libaneses e a entrar em guerra com os invasores israelitas, emitindo um édito onde dizia que “a estrada para Jerusalém passa por Kerbala”].

Em 2003 estava numa posição de fraqueza [temia o mesmo destino de Saddam]. Para obter o que foi proposto a Bush, Obama terá de fazer agora muito mais concessões. 

TRITA PARSI – A proposta [de 2003] ainda está na mesa, mas os Estados Unidos vão ter de pagar um preço muito mais elevado do que naquela altura.

Em 23 de Novembro de 2013, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry (à esq. – na foto com o chefe da diplomacia de Teerão, Mohammad Javad Zarif), anunciou um acordo entre o Irão e os países P5+1 (Alemanha, China, Estados Unidos França, Reino Unido e Rússia) que prevê o levantamento parcial de sanções económicas em troca do compromisso, por parte do Presidente, Hassan Rouhani, de limitar o enriquecimento de urânio do Irão
© The Washington Post

Que impacto terá no Médio Oriente, uma aproximação EUA-Irão?

SANAM VAKIL – Poderá haver mais estabilidade. O Irão já apoia o governo de [Nuri al-]Maliki no Iraque e o de [Hamid] Karzai no Afeganistão. Aqui, também interessa aos iranianos e a americanos travar a ascensão de inimigos comuns, como os salafistas da al-Qaeda e os extremistas sunitas taliban [em 1988, a República Islâmica quase travou uma guerra contra os estudantes de teologia que governavam Cabul].

Ambos estão determinados a combater o tráfico de droga na fronteira afegã. Há também interesses económicos e comerciais mútuos, designadamente na área da energia [com as maiores reservas naturais de gás natural em todo o mundo, embora exportando apenas 2 por cento do total global, o Irão pode servir de alternativa aos russos].

TRITA PARSI – Haverá uma mudança total e profunda no Médio Oriente. E será muito positivo. Não podemos ter uma paz duradoura se um dos países mais poderosos na região for excluído. Como seria hoje a Europa se a Alemanha estivesse de fora?

A relação EUA-Israel vai continuar forte, mas vai mudar porque o pilar dessa relação deixará de ser a oposição ao Irão. Consequentemente, o Irão também vai ter de mudar a sua posição face a Israel. Deixará de criar problemas a Israel, porque será reconhecido como potência legítima. É a exclusão do Irão que lhe dá incentivos para desestabilizar a região.

E qual o impacto da abertura aos EUA sobre o regime iraniano?

SANAM VAKIL – Neste momento, as autoridades têm vindo a reprimir activistas como a Prémio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, e a impedir que ‘think tanks’ europeus organizem seminários no Irão. São sinais claros com dois destinatários. O primeiro é os EUA e a Europa, que têm financiado métodos de mudança do regime.

A mensagem é: “Não interfiram nos nossos assuntos internos, não hesitaremos em reprimir essas forças.” O segundo destinatário é a sociedade civil – jornalistas, estudantes, mulheres, religiosos, intelectuais, académicos americanos de origem iraniana. O regime quer provar que não tem medo de usar todos os meios para travar a dissidência.

Os EUA deram o pretexto para essa repressão ao financiarem uma via de confronto para derrubar o regime, e este reagiu como autodefesa. Se houver uma aproximação aos EUA, talvez haja mais liberdade para florescerem os vários grupos da sociedade civil, que é vibrante e criativa. Será um processo difícil, longo e frustrante.

Haverá muitos desmancha-prazeres: russos e chineses, que têm aproveitado o isolamento do Irão para reforçar laços económicos; os países árabes sunitas que temem o ressurgimento de um vizinho xiita ainda mais poderoso.

Quanto a Israel, vai estar atento ao tipo de concessões que americanos e iranianos farão. No futuro, todos compreenderão, porém, que sempre foi mais produtivo ter relações com o Irão do que marginalizá-lo.

TRITA PARSI – À medida que o Irão deixar de estar isolado, vai ser mais difícil ao regime aguentar-se e reprimir a sociedade civil. Vai haver mais espaço para activistas pró-democracia. O Governo deixará de ter o argumento de que, por motivos de segurança, precisa de reprimir os dissidentes.

Sanam Vakil

Trita Parsi

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente o jornal PÚBLICO, em 22 de Janeiro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 22, 2009

“Ponham-se no lugar daqueles a quem chamam vilões”

Este artigo foi planeado depois de ler centenas de comentários às notícias sobre a guerra na Faixa de Gaza. Quisemos perceber a razão de tanto ódio aos israelitas e/ou aos palestinianos. A muçulmana Raquel Evita Saraswati e o judeu Roi Ben-Yehuda deixam aqui um conselho: “Escolham o campo dos que defendem a paz, seja qual for o lado da ‘fronteira’ em que vivem”. (Ler mais | Read more…)

© AFP

Um leitor identificado como “Fantasma Vermelho, Leninegrado”, escreveu: Quanto mais rápido o sionismo assinar todas as suas sentenças e certidões de óbito, quanto melhor! Massacre puro e duro. Do mais fiel nazismo que por aí habita. Holocausto aplicado pelos descendentes das suas vítimas. A ironia da História? […] Morte ao Sionismo! Viva a Palestina!!!.

Um outro leitor, Alexandre Pinto, Lisboa” deixou esta quase prece: Israel, que Deus te ilumine, não te falhe a pontaria e a mão pesada. Acaba de vez com a peçonha que habita as tuas fronteiras. Não tenhas dó nem piedade. Avança com botas cardadas e não te preocupes com os chamados alvos civis porque é onde se escondem os terroristas cobardes do Hamas.

Porquê tanto ódio? Por que temos de escolher um dos lados?

Para encontrar respostas, batemos à porta de um judeu, Roi Ben-Yehuda, e de uma muçulmana, Raquel Evita Saraswati, dois amigos que vivem nos Estados Unidos, reconhecidos como “agentes de coragem moral”, porta-vozes de uma nova geração, que não olha para “o outro” como fonte de todo o mal.

Licenciada em Relações Internacionais, Raquel Evita Saraswati, em Boston, define-se como “uma académica e activista muçulmana reformista, cujos principais interesses são a religião e os direitos humanos, a resolução de conflitos e a reconciliação da cultura com a soberania individual”.

Nos EUA ou no Canadá, na Academia Naval norte-americana ou na ONU, ela tem discursado sobre vários temas – crimes de honra, mulheres e o Islão, a situação no Darfur (Sudão) ou o tráfico de crianças no Centro e Sudeste da Ásia. Escreve para jornais como o israelita Ha’aretz, tem sido entrevistada pela CNN e foi capa da revista finlandesa The Freethinker.

Apesar das “ameaças de morte e mutilação física”, ela insiste em que “o Islão obriga todos os crentes a agir com justiça” e em que “a liberdade oferecida pela democracia onde vivemos não deve ser desperdiçada”. Em 2007, recebeu o prestigiado Courage Award da fundação norte-americana Colin Higgins.

Roi Ben-Yehuda é um jornalista freelance licenciado em Artes na New School University e com um mestrado em História Judaica no Jewish Theological Seminary. Vive em Nova Iorque. Prepara um doutoramento em resolução de conflitos.

Os seus artigos, traduzidos para várias línguas, incluindo espanhol, francês, indonésio e urdu, aparecem regularmente no Ha’aretz, Jewcy.com, France 24, The Turkish Daily Times, Al Jazeera, Middle East Times, Middle-East Online, entre outros.

Apresentados que estão os dois, aqui está o que eles pensam, depois de uma troca de e-mails:

ESCOLHER UM CAMPO?

© Brian Hendler | Getty Images | VOX

Roi: “Ao contrário de alguns ideais românticos, o sofrimento não enobrece. Todas as guerras e violência deixaram cicatrizes no nosso povo.

Os nossos corações, como ovos em água a ferver, endureceram. Não é que a israelitas e palestinianos falte, intrinsecamente, compaixão; é apenas a realidade no terreno que impossibilita o reconhecimento da humanidade de um e de outro.

A minha amizade com Raquel, e com muitos outros muçulmanos, continua a renovar a minha fé na possibilidade de reconciliação e coexistência.

Se a experiência cria inimizade, também cria possibilidade. Quanto mais positivo for o contacto que israelitas/palestinianos e judeus/muçulmanos tiverem uns com os outros, mais próximos ficaremos da paz.

Quanto à ideia de que temos de adoptar ou a perspectiva palestiniana ou a perspectiva israelita, considero que isso é uma razoável mas infeliz resposta ao conflito.

Em tempos de crise, quando as vidas e identidades das pessoas estão sob ameaça, é compreensível que a sua cosmopolita visão mundial (se alguma vez existiu) desabe sobre si própria.

Mas temos de reconhecer que ao criar dicotomias positivas e negativas estamos frequentemente a contribuir para o problema. Se escolherem campos, escolham entre os que são a favor da paz, seja qual for o lado da ‘fronteira’ em que eles vivam.

Yousef Masoud | SOPA Image | LightRocket via Getty Images | New York Review of Books

Raquel Evita: Creio que, por vezes, o ódio é a única maneira que as pessoas têm de canalizar a sua dor, a única maneira em que os seres humanos processam o sofrimento.

Não acredito que as pessoas queiram odiar – no entanto, quando um jovem palestiniano não conhece nada mais que um território sem Estado, nada mais a não ser a vergonha de um checkpoint, nada mais a não ser a visão de corpos ensanguentados.

E quando um jovem israelita vê numa viagem de autocarro a morte iminente, vê uma criança da sua idade enrolar munições à cintura para assassinar e destruir em nome de Deus – a razão está perdida.

A razão, que deveria levar um coração humano à compaixão e à reconciliação, à misericórdia e à justiça, não existe.

Nas palavras do escritor Salman Rushdie: ‘O mundo é incompatível, nunca se esqueçam… fantasmas, nazis, santos, todos vivem ao mesmo tempo; num só lugar, felicidade venturosa, enquanto ao fundo da rua é o inferno’.

Nenhum povo sabe melhor isto do que os povos de Israel-Palestina. Lutam pela paz, pela simples decência – e, no entanto, o mal da destruição está sempre presente.

A minha amizade com Roi é uma das mais importantes relações da minha vida. Nele eu vejo esperança para a humanidade: um homem cuja vida não tem sido poupada ao horror da violência mas cujo coração tem recusado a toxicidade do ódio.

Tantos de nós sabemos que pessoas assim existem no ‘outro lado’ – falamos de anónimos ‘cidadãos palestinianos’ e ‘cidadãos israelitas’, contudo, este conhecimento abstracto não é suficiente.

Os nossos media e políticos demonizam os nossos congéneres, e nós seguimos, demasiadas vezes, esta óbvia manipulação de mentes e espíritos. O que nós, a nova geração de muçulmanos e judeus que apela a paz, devemos fazer é isto: dialogar uns com os outros.

As nossas mentes não devem ser campos de batalha calcados por velhos pensamentos e um ódio persistente. Devemos rejeitar a ideia simplista de que a identidade religiosa ou a etnicidade determina o nosso ‘campo’.

Podemos encontrar-nos uns com os outros – até virtualmente – e reinventar esta região. Para além do desejo de reconciliação, podemos e devemos, agir pela paz.

VICIADOS EM VIOLÊNCA?

© thestar.com

Roi: Lamento desapontar alguns dos seus leitores, mas israelitas e palestinianos, líderes incluídos, não acordam de manhã e dizem: ‘Preciso da minha dose de violência’. Isso faria deles monstros e não humanos.

A maioria de israelitas e palestinianos envolve-se na violência devido à percepção de que estão sob ameaça e na convicção de que agem em autodefesa e pela causa da justiça. Não é, portanto, um impulso sádico para provocar derramamento de sangue.

Ao mesmo tempo, é óbvio que inúmeros palestinianos e israelitas têm uma doentia confiança na eficácia da violência.

Temos depositado demasiada fé no que chamamos de algoritmo da violência: a noção de que a força é o método opcional de resolver conflitos. Esta fé fez com que muitos, tragicamente, rejeitassem formas pacíficas de solucionar o conflito.

Embora a violência em Gaza possa, a curto prazo, resultar numa trégua temporária, nunca acabará com este conflito. Como constatou o músico norte-americano Michael Franti, ‘podem bombardear o mundo e deixá-lo em pedaços, mas não podem bombardeá-lo e conseguir a paz’.

O verdadeiro desafio que Israel-Palestina enfrentam hoje é como transformar a fé das pessoas, do algoritmo da violência para o algoritmo da paz. A minha missão, ao escrever, é encontrar meios criativos para levar a cabo esta transformação.

© Wissam Nassar | The Washington Post

Raquel Evita: Não tenho a certeza se os líderes israelitas e palestinianos estão viciados na violência, mas creio que são incapazes de olhar para além da violência como forma de solucionar o conflito.

Quando as partes se sentem atacadas – como ambas legitimamente se sentem – a violência parece, frequentemente, a única resposta viável. Tem sido esse o caso desde o aparecimento da Humanidade – e as pessoas de todas as ideologias têm, de uma maneira ou de outra, usado a violência quando têm a percepção de estar em risco.

Nestas circunstâncias, a diplomacia não tem sido mais do que um interregno entre actos de violência. Mesmo as negociações supostamente sérias têm sido teatrais na sua apresentação.

As pessoas que vivem no terreno – por vezes literalmente! – não conseguem olhar de novo para inimigos que apertam as mãos do outro lado do mundo e, instantaneamente, acreditarem que o seu vizinho não os vai matar.

O que precisamos é de uma mudança de ideologia: ambas as partes se apresentam como vítimas e, de facto, ambas as partes são vítimas, até certo ponto.

É injusto dizer que a Palestina ‘quer’ ser vista como vítima, quando é o argumento de que é uma vítima que levou Israel a atacar Gaza. Ambas as partes são lar de vítimas e de vitimizados; de poderosos e de impotentes.

O QUE FAZER?

© Ahmad Gharabli | AFP | Times of Israel

Roi: O meu conselho a todos é reforçar as capacidades de empatia. O Presidente [Barack] Obama estava certo quando, numa visita a Israel, afirmou: ‘Se alguém lançasse rockets sobre a minha casa onde as minhas filhas dormem à noite eu faria tudo ao meu alcance para impedir isso. E espero que os israelitas façam o mesmo’.

Isto é o que o mundo precisa de fazer antes de chamar a Israel ‘um cancro entre as nações’. Desafio os leitores do seu jornal a interrogarem-se sobre quão contidos seriam se uma organização político-militar em Espanha bombardeasse as suas cidades com mísseis numa base diária. Quão tolerantes seriam se as suas povoações ficassem paralisadas com medo?

Ao mesmo tempo, também desafio os israelitas a fazer o mesmo [raciocínio] com os palestinianos. Imaginar o que é estar sob ocupação ou viver sitiado.

Olharem para as imagens dos mortos e feridos, fixar os rostos dos oprimidos e imaginarem as suas próprias famílias. Imaginarem que essas pessoas, tal como eles, têm planos, que também querem viver e ser livres. Faria desse exercício mental parte do currículo escolar em Israel.

O meu conselho a todos é que se ponham no lugar daqueles a quem chamam vilões. Fazê-lo poderá não causar o mesmo tipo de legítima indignação mas dificultará muito mais que se desumanize e se destrua, física e culturalmente, o outro. A batalha para Israel-Palestina não é o cenário do bem versus mal, e tratá-la assim não ajuda ninguém.

Tenho vivido em Israel metade da minha vida e aqui regresso frequentemente. A minha posição política amadureceu e solidificou-se em Israel e não creio que o facto de hoje viver aqui [em Nova Iorque] mudou alguma coisa a esse respeito.

Se eu fosse um palestiniano a viver na Palestina, gostaria de pensar que seria parte da resposta não violenta à ocupação. Sei que é mais fácil dizer do que fazer, mas é assim que eu gostaria de me ver a mim próprio como palestiniano.

© aqsapedia.net

Raquel Evita: O bem-estar da humanidade depende da nossa capacidade de comunicar através de barreiras auto-impostas de identidade religiosa, por isso, tenho de rejeitar a ideia de falar apenas para um ‘campo’. Esta falsa dicotomia é a essência do conflito.

Sou uma muçulmana americana que nunca esteve em Israel-Palestina. No entanto, as vidas em Israel-Palestina estão ligadas à minha – não apenas porque a minha linhagem tem o mesmo sangue deles – mas também porque o bem-estar de palestinianos, israelitas e dos seres humanos em todo o mundo – tem impacto no que acontece naquela região. É nossa responsabilidade colectiva fazer a mudança positiva”.

Como mulher, tenho sofrido o tipo de violência que só o mais vil e cruel dos homens pode perpetrar – e, no entanto, não odeio os homens. Tenho visto morte. Tenho visto doenças e desespero – e, no entanto, não culpo Deus.

Não posso dizer que conheço a vida dos palestinianos e dos israelitas, mas sei que somos maiores do que a soma da nossa ira e as marcas da nossa dor.

O mundo faria bem em intervir de forma material – economia, segurança, diplomacia – mas também devemos fazer ouvir as vozes dos palestinianos e dos israelitas que sinceramente apelam à paz.

Imagens de ódio só servem os nossos objectivos mais destrutivos – um apaziguamento masoquista do pior de nós próprios.

É muito mais desconfortável ver a verdadeira humanidade do inimigo. Apelo a todos que assumam a sua responsabilidade pessoal em impulsionar a nova geração de pacifistas. Que não sejamos apenas ouvidos mas que nos levem a sério.

Depende de nós porque a velha guarda tem sido inútil. As vidas dos nossos filhos valem muito mais do que aquilo que hoje estamos a fazer uns aos outros.

Raquel Evita Saraswati

Roi Ben-Yehuda

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 6 de Janeiro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 6, 2009

“Step into the shoes of whomever we cast as villains”

This interview was made after I noticed a high number of hate comments whenever news stories about Israelis and Palestinians were published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, where I was an editor. Roi Ben-Yehuda, a Jew, and his friend Raquel Evita Saraswati, a Muslim, both living in the United States, agreed to answer a few questions I emailed them. (Read more…)

Israeli Arabs next to Israeli Jews holding national flags, Jerusalem, May 15, 2010 @Reuters

Israeli Palestinians next to Israeli Jews holding national flags (Jerusalem, May 15, 2010)
© Reuters

Can you, Raquel Evita and Roi – a young Muslim and a young Israeli who are friends – explain why there is so much hatred, and why we must choose a camp – Israeli or Palestinian – and not both?

BEN-YEHUDA: Suffering, contrary to some romantic ideals, is not ennobling. All the wars and violence have left scars on our people. Our hearts, like eggs in boiling water, have become hardened. It’s not that Israelis and Palestinian are intrinsically lacking in compassion; it’s just that the reality on the ground has made it all but impossible to recognise each other’s humanity.

Yet my friendship with Raquel Evita, along with many other Muslims, continually reboots my faith in the possibility of reconciliation and coexistence. As experience creates enmity, it also creates possibility. The more positive contact Israelis and Palestinians, Jews and Muslims have with one another, the closer we will get to peace from the ground up.

As for the idea that we must be polarised into either pro-Palestinian or Israeli perspectives, I see that as an unfortunate but reasonable response to conflict. In times of crises, when people’s lives and identities are under threat, it is understandable that their cosmopolitan worldview (if it ever existed) collapses upon itself.

But we must recognise that creating positive and negative dichotomies often contributes to the problem. I say that if you have to choose camps, choose to be with the peacemakers, no matter which side of the “border” they live behind.

alestinian teenager Muhammad al-Salaymeh is mourned during his funeral in the West Bank city of Hebron, 13 December. Israeli border police occupying Hebron shot the teen dead at a checkpoint on his birthday. @Issam Rimawi / APA images)

Palestinian teenager Muhammad al-Salaymeh is mourned during his funeral in the West Bank city of Hebron. Israeli border police occupying Hebron shot the boy dead at a checkpoint on his birthday
© Issam Rimawi |APA

SARASWATI: I believe that sometimes hate is the only way people know how to channel their pain, the only way humans process their suffering.

I don’t believe that people want to hate. Yet when a young Palestinian knows nothing but statelessness, nothing but the shame of a checkpoint, and nothing but the sight of bodies bloodied; and when a young Israeli sees a bus trip as imminent death, watches a child his own age strap ammunition to himself to murder and destroy in the name of God—then reason is lost.

Reason, which would drive a human heart to compassion, to reconciliation, to mercy and justice, cannot be.  In the words of writer Salman Rushdie: “The world is incompatible, just never forget it… ghosts, Nazis, saints, all live at the same time; in one spot, blissful happiness, while down the road, the inferno.” No people know this better than the people of Israel/Palestine. They grasp for peace, for simple decency, and yet the evil of destruction is ever-present.

My friendship with Roi is one of the most important relationships of my life. In him, I see a person whose life has not been spared the ugliness of violence but whose heart has refused the toxicity of hate. So many of us talk about the “other side”—we speak of the nameless “Palestinian” and “Israeli”, yet this abstract knowing is not enough.

Our media and our politicians demonise our counterparts, and we all too often follow even this most obvious manipulation of our minds and hearts. What we, the new generation of Muslims and Jews calling for peace, must do is this: we must make the conversation our own. Our minds must not be battlefields trampled by old thinking and simmering hate.

We must reject the very idea that our religious identity or ethnicity determines our “camp.” We can meet one another – virtually, even personally – and re-imagine this region. Beyond the desire for reconciliation, we can and must take action for peace.

Are Israeli and Palestinian leaders addicted to violence?

BEN-YEHUDA: I hate to disappoint some of your readers, but Israelis and Palestinians, leaders included, don’t get up in the morning and say, “I need my fix of violence.” That would make them monsters, not human.

Most Israelis and Palestinians engage in violence due to a perception that they are under threat, and the belief that they are acting in self-defence and for the cause of justice. It is not, therefore, a sadistic impulse to cause bloodshed. At the same time, it is clear that far too many Palestinians and Israelis have an unhealthy confidence in the efficacy of violence.

We have both placed too much faith in what I call the algorithm of violence: the notion that force is the optimal method for resolving conflict. This faith has led many to tragically dismiss peaceful forms of conflict resolution. While the violence seen in Gaza may in the short-run produce a temporary calm, it will never bring an end to this conflict.

As American musician Michael Franti put it: “You can bomb the world to pieces, but you can’t bomb into peace.” The real challenge facing Israel/Palestine today is how to transform people’s faith from the algorithm of violence to the algorithm of peace. I see my job as a writer to find creative and thought-provoking ways to produce this transformation.

The son of the Jewish settler Eviatar Borovsky touches the body of his father during his funeral at the village of Kfar Hasidim, near Haifa, Israel, 30 April 2013. Borovsky was allegedly stabbed to death by a Palestinian Fatah operative from a village near Tulkarem earlier on 30 April at the Tapauch Junction in the northern West Bank. @EPA/ABIR SULTAN

The son of the Jewish settler Eviatar Borovsky touches the body of his father during his funeral at the village of Kfar Hasidim, near Haifa, Israel. Borovsky was allegedly stabbed to death by a Palestinian Fatah operative from a village near Tulkarem, in the northern West Bank
© Abir Sultan | EPA

SARASWATI: I’m not sure that Israeli and Palestinian leaders are addicted to violence as much as they are unable to see beyond violence as a means to solve the conflict. When parties feel attacked – as both legitimately do – violence often seems to be the only viable response.

This has been the case since the dawn of mankind, and people of every ideology have, at some point or another, used violence when they perceive themselves to be at risk. In this case, diplomacy has been nothing more than a placeholder between acts of violence.

Even the most supposedly meaningful negotiations have been almost theatrical in their presentation. People living on the ground – often literally! – can’t really look, once again, at foes shaking hands a world away and instantly believe that their neighbour will not kill them. What we need is a shift in ideology. Both sides paint themselves as victims, and in fact both sides are victims to a degree.

It is unjust to say that Palestine “wants” to be seen as the victim, when it is this very claim of victimhood that has driven Israel to target Gaza. Both sides are home to victims and the victimised, the powerful and the powerless.

Rockets and suicide attacks are not offering a state to Palestinians, but negotiations have also been a fiasco. Israel is demanding security and peace, but is expanding settlements into the West Bank and is repressing every attempt to peacefully demonstrate against the occupation. What advice will you, Raquel Evita, give to Palestinians (and other Arabs and Muslims)? And what advice will you, Roi, give to Israel? And what advice will you, both, give to us – the rest of the world?

BEN-YEHUDA: My advice to everyone is to increase their capabilities for empathy. President [Barack] Obama got it right when on a visit to Israel he said, “If somebody was sending rockets into my house where my two daughters sleep at night, I am going to do everything in my power to stop that. And I would expect Israelis to do the same.”

This is what the world needs to do before it calls Israel a “cancer among the nations”. I challenge your paper’s readership to ask themselves how much restraint they would show if a political/military organization would bombard their cities with missiles on a daily basis. How much tolerance would they have as their towns and cities become paralyzed with fear?

At the same time, I would also challenge Israelis to do the same with the Palestinians. To imagine what it is like be under occupation, or to live under siege. To look at the pictures of the dead and wounded, to stare into the faces of the oppressed, and imagine their own families. Imagine that these people, just like them, had plans; that they too wanted to live and be free.

I would make this mental exercise part of the education curriculum in Israel. So my advice to everybody is to step into the shoes of whomever they cast as villains. Doing so may not provide the same high of righteous indignation, but it will make it much harder to dehumanize and physically/culturally destroy the other. The battle for Israel/Palestine is not a good vs. evil scenario, and treating it as such is doing no one a favour.

Palestinians in the West Bank city of Ramallah protest against the Palestinian Authority’s negotiations with Israel and coordination with its military and police forces on 28 August, days after Israeli forces shot dead three young men in nearby Qalandiya refugee camp. @Ahmad Al-Bazz / ActiveStills)

Palestinians in the West Bank city of Ramallah protest against the Palestinian Authority’s negotiations with Israel and coordination with its military and police forces, days after Israeli forces shot dead 3 young men in nearby Qalandiya refugee camp
© Ahmad Al-Bazz | ActiveStills

SARASWATI: The welfare of man is reliant on our ability to communicate across the self-imposed boundaries of religious identity, so therefore I must reject the idea of speaking only to the “camp” this question would have me address.

This false dichotomy is the essence of conflict in every case. I am an American Muslim who has never stepped foot on the soil of Israel/Palestine. However, the lives in Israel/Palestine are connected to my own – not just because my lineage shares blood with theirs – but also because the welfare of Palestinians, of Israelis and of human beings the world over – is impacted by what happens in that region. Therefore it is our collective responsibility to make positive change.

As a woman, I have experienced the kind of violence only the worst and most vile of men can perpetrate, yet I do not hate men. I have seen death, I have seen disease and desperation – yet I do not resent God. I cannot claim to know the life of a Palestinian or an Israeli, but I do know that we are greater than the sum of our anger and the scars of our pain.

The world would be wise to intervene in material ways – economy, security, diplomacy – but we must also highlight the voices of those Palestinians and Israelis who sincerely call for peace. Images of hate serve only our most destructive aims – a masochistic appeasement of the worst of ourselves. It is far more uncomfortable to see the enemy’s real humanity.

I call for us all to take personal responsibility in bringing a new generation of peacemakers forward. May we be not just heard, but may we be taken seriously. It is up to us because the old guard has proven itself useless. The lives of our children are worth far more than what we are doing to one another today.

If you were living in Palestine or in Israel, not in New York (Roi) and in Boston (Raquel), would your opinions on the conflict be different?

BEN-YEHUDA: I have lived in Israel for half of my life, and I return there frequently. My political outlook matured and solidified in Israel, and I don’t think that living there today would change anything in that respect. If I were a Palestinian living in Palestine, I would like to think that I would be part of a some kind of non-violent response to the occupation. I know that this is easier said than done, but that is how I would like to envision myself as a Palestinian.

SARASWATI: I think most of us would like to think of our values as timeless – stronger than circumstance and greater than our surroundings. However, honesty demands the recognition that our values – and the opinions resulting from them – are very much connected to what we’ve lived.

That having been said, I’d like to believe that I’d be a lover of freedom, of peace, of reason and justice – regardless of my birthplace. I know that many Palestinians, and indeed many Muslims – love these values as I do. Unfortunately, many cannot express their views in the way that I do. Whether by blatant, ruthless restriction by their superiors – or as a result of utter devastation from the outside – many Muslims simply do not have the freedoms we enjoy in the United States and in the West.

I must also acknowledge that I, as a Muslim woman, benefit even more significantly from these liberties. While prejudice in the U.S. is real and even vitriolic at times, my citizenship entitles me to certain freedoms I’d never have under Sharia law or in most Muslim countries.

It becomes not just my privilege, but also my responsibility to use those freedoms for the betterment of humanity. I sincerely believe that if I, as someone with enormous privilege, do not use that very privilege for the benefit of those without it – I am worth less than the air in my lungs.

Israeli settlers protest against the Palestinian bid for statehood, outside the Jewish settlement of Kiryat Arba, near the West Bank city of Hebron, September 20, 2011. Palestinian President Mahmoud Abbas will address the United Nations on Friday, September 23, 2011, in a bid for Palestine to attain the status of a full member state in the UN. @UPI/Debbie Hill

Israeli settlers protest against the Palestinian bid for statehood, outside the Jewish settlement of Kiryat Arba, near the West Bank city of Hebron, September 20, 2011. Palestinian President Mahmoud Abbas will address the United Nations on September 23, 2011, in a bid for Palestine to attain the status of a full member state in the UN
© Debbie Hill | UPI

Roi Ben-Yehuda is an Israeli writer based in New York, and a regular contributor to Ha’aretz, Jewcy and France 24. He is an expert in the field of communication under pressure, conflict resolution, and negotiation. He has taught at Columbia University, Princeton University, and John Jay College.

Raquel Evita Saraswati is a Muslim, activist and scholar, whose main interests lie in religion and human rights, conflict resolution, and the reconciliation of culture with modernity.

© Roi Ben-Yehuda and Raquel Evita Saraswati

This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on 6 January 2009, and reprinted under license by Common Ground Service on January 8, 2009 and on January 15, 2009

Criar empregos: O maior desafio árabe

Do Cairo ao Qatar, ninguém escapa aos efeitos da crise mundial”, diz o investigador americano Marcus Noland. Mas, “por estranho que pareça”, reinos e emirados parecem mais preparados para adoptar reformas – económicas e políticas – do que as repúblicas. (Ler mais | Read more…)

Asmaa Megahed, carpinteira egípcia de 31 anos, no seu atelier em Abdeen, no centro do Cairo, em 26 de Fevereiro de 2018
© Khaled Desouki | AFP | Getty Images | Financial Times

Director de estudos e senior fellow no Peterson Institute for International Economics , em Washington, Marcus Noland fez parte do Council of Economic Advisers in the Executive Office of the President of the United States. Doutorado pela John Hopkins University, o seu campo de investigação é vasto: estende-se da Ásia e África, onde viveu, até ao Médio Oriente.

Uma das suas obras, escrita em parceria com Howard Pack, é Arab Economies in a Changing World. Na entrevista, que nos deu por e-mail [em 2009] analisa o impacto da actual crise financeira global, do Norte de África ao Golfo Pérsico.

Que economias no mundo árabe considera mais vulneráveis à crise?

De momento, os principais exportadores de petróleo e de gás do Golfo [Pérsico] e outros grandes produtores, como a Argélia e a Líbia, são os mais expostos à crise devido ao declínio dos preços da energia.

Em alguns desses países, a desvalorização dos mercados financeiros está a afectá-los directamente, uma vez que o sector financeiro era uma das suas vias e diversificação.

Em todo o caso, embora sejam os mais expostos, o anterior boom [nos preços do petróleo] deixou-lhes consideráveis fundos nos bancos.

Por outro lado, o declínio nos preços da energia também será sentido em países como o Egipto e a Síria que, não sendo grandes produtores em termos mundiais, têm nos produtos energéticos fatia significativa das exportações. 

O abrandamento no Golfo também será sentido nas economias com menores recursos, porque os emigrantes que aqui trabalham vão diminuir as suas remessas, e porque haverá uma baixa de investimentos nos países ricos em petróleo.

As economias mais pobres não beneficiaram do boom e não têm amortecedores agora que a crise financeira está a empurrá-los para baixo. Em resumo, todos os países da região vão sofrer, embora o grau seja variável de país para país.

Muitos analistas têm afirmado que os Estados do Golfo ricos em petróleo ainda são santuários de investimento. Partilha esta opinião?

Muitos dos reinos e emirados do Golfo, numa tentativa de diversificar as suas economias, investiram em sectores como a educação, a saúde e, predominantemente, na área financeira. É improvável que todas estas iniciativas sobrevivam à actual crise se ela perdurar.

Várias instituições educativas são marginais – terão de consolidar-se ou simplesmente fechar as portas. E isso já está a acontecer.

O Bahrein desenvolveu um avançado sistema de cuidados de saúde e o Dubai tem obtido muitas vantagens em actividades relacionadas com finanças e turismo. No entanto, quem tem o dinheiro é o Qatar, o Abu Dhabi e, sobretudo, a Arábia Saudita. Ainda não é claro qual será o impacto no sector financeiro.

Talvez aconteça, por exemplo, que um país se especialize na banca islâmica e outro privilegie o commodities trading ou equities trading com reconhecimento internacional.

Se a Arábia Saudita alguma vez decidir que quer estabelecer um verdadeiro sector financeiro de classe mundial, a sua dimensão e riqueza poderão ameaçar outros [na região].

A Bolsa de Valores da Arábia Saudita, também conhecida como Tadawul All Share Index, em Riade, a capital do reino
© Simon Dawson | Bloomberg | Getty Images

Alguns analistas dizem que o maior problema do Médio Oriente é a riqueza ser investida em sectores que não criam empregos. Quais as consequências para uma região onde se prevê que, na próxima década, haja um aumento de 150 milhões de habitantes – o equivalente ao aparecimento de dois Egiptos?

A questão crítica, na próxima década, será a capacidade de estas economias gerarem empregos e de elevarem os níveis de vida de milhões de jovens que deveriam entrar no mercado de trabalho. Actualmente, a região tem a mais baixa taxa de emprego formal no mundo.

O desemprego jovem é de cerca de 25 por cento, ou seja, quase duas vezes mais do que a média mundial.

Em alguns países, há dez vezes mais possibilidade de os recém-licenciados ficarem desempregados do que os que concluem apenas o liceu.

Tendo em conta o obscurantismo dos regimes políticos locais, as massas de jovens diplomados desempregados representam uma ameaça à estabilidade política.

Entre os jovens, as mulheres são as que têm mais dificuldade em entrar no mercado de trabalho. Uma questão-chave é saber até que ponto a recente aceleração do crescimento económico – gerada em parte pelo boom nos mercados de fundos e de commodities – é permanente ou transitória. Será que o futuro se vai parecer mais com os últimos cinco anos ou com os últimos 50?

Qual será o impacto nos países árabes se os preços do petróleo continuarem a descer e começarem a ser procuradas alternativas?

Vamos presumir que o pico de 150 dólares por barril e os actuais 40 dólares são excepções, e que, a médio prazo, os preços vão estabilizar algures entre um e outro valor.

A longo prazo, a ameaça às economias petrolíferas é a reacção política ao aquecimento global nos países industrializados, que vão investir em programas comercialmente viáveis de combustível à base de hidrogénio e outras tecnologias que reduzam imenso o consumo de petróleo.

No entanto, por muito desejável que seja esta via, ainda há quem tenha dúvidas sobre a concretização deste cenário.

Jovens desempregados na Tunísia, o país do Norte de África onde começaram as revoltas da “primavera árabe” em 2011
© Zohra Bensemra | Reuters

A descida dos preços do petróleo contribuiu para o colapso da União Soviética nos anos 1990 e para o derrube do Xá Mohammad Reza Pahlavi, no Irão, em 1979. Há risco de mudança de regimes ou assistiremos apenas a uma radicalização das sociedades?

Este é um mundo único onde se combinam autoritarismo político e estabilidade económica. Tem havido muitas tentativas para explicar este autoritarismo permanente. Um exemplo: alguns governos estão assentes em pequenas circunscrições étnicas, tribais ou religiosas e, em consequência disso, temem diminuir o controlo e a democratização.

Outro exemplo: a existência de riqueza petrolífera dá a estes governos recursos para comprar lealdades ou reprimir dissidentes. O resultado é que muitos destes governos fecharam vias para uma oposição liberal secular e empurram os dissidentes para as mesquitas. Sim, há riscos de uma mudança abrupta de regimes.

[Uma profecia acertada: o primeiro regime a cair foi o do Presidente Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, em 2011. Seguiu-se o de Hosni Mubarak, no Egipto.]

A actual crise financeira vai aumentar o descontentamento das massas e reforçar a instabilidade política.

Mais: a criação de meios de comunicação social genuinamente pan-árabes, como as estações de televisão Al Jazeera e Al Arabiya, poderá fazer com que os acontecimentos num determinado país tenham maior impacto no desenvolvimento de outros.

Será que a actual crise vai aumentar a urgência de reformas políticas e económicas?

A actual crise deveria aumentar o interesse em reformas, mas isso não significa que serão mais ou menos prováveis. Uma fraca performance económica poderá fortificar o descontentamento e deixar os governos ainda mais hostis a reformas.

Uma boa liderança política poderia usar a crise – sobretudo se não for responsável por ela – como oportunidade para mobilizar apoio a mudanças que, em tempos normais, seriam mais difíceis de empreender. A legitimidade política tem aqui um grande peso. 

Que país está mais preparado para adoptar reformas?

Por muito estranho que pareça, algumas monarquias que têm seguido estratégias económicas menos intervencionistas do que repúblicas seculares talvez tenham mais facilidade em enfrentar estes desafios. Mais do que a Jordânia, a Síria, Marrocos ou a Argélia.

Se vão ou não estar à altura destes desafios é uma dúvida: nenhum desses países navega presentemente em águas calmas.

Nesta entrevista, conduzida em 2009, Marcus Noland já previa “riscos de uma mudança abrupta de regimes” – como aconteceria na Tunísia e no Egipto dois anos depois. Porque “muitos governos fecharam vias para uma oposição liberal secular e empurram os dissidentes para as mesquitas”
© Peterson Institute for International Economics

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Janeiro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 2, 2009 

Asma al-Assad: De ícone de moda a símbolo da guerra

Se quiserem perceber o rumo que a Síria vai seguir, olhem para a beleza e elegância de al-akilatu al-raïs (a mulher do Presidente), dizia-se no Médio Oriente. A revista francesa Elle olhou, e Asma Fawaz al-Akhras foi classificada, em 2008, “a primeira-dama mais bem vestida do mundo”, relegando para 2º lugar Carla Bruni-Sarkozy e para 3º Michelle Obama. [O brilho que a dourava tornou-se escarlate, vermelho como o sangue dos mártires, depois da guerra civil de 2011. O  marido revelou-se um ditador e não um reformador.] Entrevista (agora actualizada) com Joshua e Manar Qash’our Landis. (Ler mais | Read more…)

Last week, as Bashar al-Assad’s forces continued their bombardment of the city of Homs, The Times’s Martin Fletcher asked whether Asma al-Assad, Bashar’s wife, whose family hails from the besieged city, would remain silent. “Has Syria's Princess Diana become its Marie Antoinette?” he asked. On Tuesday he received an answer. In an email to The Times, Asma—or her office—said her husband "is the President of Syria, not a faction of Syrians, and the First Lady supports him in that role." The email continued: "The First Lady's very busy agenda is still focused on supporting the various charities she has long been involved with,” but that “she listens to and comforts the families of the victims of the violence." © The Daily Beast

“Em Julho de 2012, enquanto as forças de Bashar al-Assad continuavam a bombardear Homs, Martin Fletcher, jornalista do diário londrino The Times, interrogou-se sobre se Asma, a primeira-dama, cuja família é oriunda da cidade mártir, permaneceria em silêncio e deixou-lhe uma pergunta:, ‘Será que ‘a princesa Diana da Síria’ se tornou Maria Antonieta?’  Ela – ou o seu gabinete – enviou um email de resposta, dizendo que o marido ‘é o presidente da Síria, não uma facção dos sírios’ e que o está a apoiar ‘nesse papel’, mantendo também ‘uma agenda ocupada, apoiando várias associações de caridade, ouvindo e confortando as famílias vítimas da violência'”
© The Daily Beast

Os regimes autoritários “têm de se modernizar para sobreviver, e a bonita, culta e secular” Asma é um veículo para neutralizar críticas, sobretudo as externas”, diz-me, numa entrevista, por telefone, Joshua Landis, co-director do Center for Middle East Studies da Universidade de Oklahoma e autor do influente blogue Syria Comment. Bashar al-Assad sabe o valor mediático que a sua mulher tem

“Há milhares de pedidos de cadeias de televisão americanas para a entrevistar. Os tipos do programa 60 Minutes da CBS  estão sempre a telefonar. E até Oprah Winfrey fez saber que gostaria de a ver no seu talk-show.”

“Essas entrevistas foram adiadas porque o presidente quer que Asma seja acolhida em Washington com o respeito e a dignidade com que o palácio do Eliseu recebeu ambos [em Julho deste 2008]”, acrescenta Landis.

Em Damasco, ainda é uma ferida aberta a humilhação a que George W. Bush sujeitou Bashar al-Assad ao dar-lhe um visto para ir à sede da ONU em Nova Iorque apenas dois dias antes de proferir o seu discurso. “Ele não quis parecer que estava a implorar e cancelou a viagem.”

Bashar procura o timing certo, e espera que este chegue após a tomada de posse de Barack Obama, em Janeiro de 2009. “Assim que os Estados Unidos fizerem regressar o seu embaixador [as relações estão reduzidas ao nível de encarregado de negócios desde 2005], a Síria vai fazer tudo para se aproximar – incluindo retirar o peso estratégico aos laços bilaterais com o Irão”.

Muitos sírios “estão eufóricos” com o prémio Elle atribuído a Asma. Milhares de expatriados, que “deliraram quando a viram ofuscar Carla Bruni nos Campos Elísios”, mas sobretudo as elites do país que “raramente vão à mesquita e têm uma fixação na cultura ocidental”, sublinha Landis, 50 anos, casado com Manar Qash’our, de 37, filha de um antigo almirante de Latakia, cidade onde conheceu o presidente, em 1999.

“Não é estranho”, esclarece o analista, que um país politicamente fechado [sentisse] orgulho em exibir a sua primeira-dama, porque a minoria alauita (uma subseita do Islão xiita) no poder sempre se manteve próxima de alguns valores europeus.

“Bashar frequentou uma escola católica francesa em Damasco e doutorou-se em oftalmologia em Londres. Em Latakia, ele andava de jet ski ou de iate, e frequentava os cafés e restaurantes da moda.”

Crianças refugiadas sírias em Istambul: a guerra de Assad provocou um dos maiores desastres humanos da história
© Gurcan Ozturk | AFP | Getty Images | CBS News

Manar e as duas irmãs, Maha e Dima, chegaram a ir à praia e a festas com Bashar, acompanhados de amigos comuns. Dessa convivência em Latakia, a mulher de Landis, com licenciatura mas sem prática em Medicina, guardou a imagem de um jovem “muito simpático e respeitador, responsável e de espírito aberto”.

Mais tarde, em 2002, quando trabalhava para Unicef em Damasco, Manar também se cruzou com Asma, já envolvida em projectos de carácter social. Diz que, nessa altura, ficou “impressionada com a sua forte personalidade, inteligência, humildade e profissionalismo”.

Não é, porém, consensual a opinião que o casal Landis tem do par presidencial, ela de 33 anos e ele de 43 [idades em 2008]. Joshua acha que é “história de amor”, embora reconheça que foi também “uma aliança política”.

Quando teve de suceder ao pai, Hafez al-Assad, que morreu em 2000, Bashar, “escolheu a mulher que seria a melhor para ele e para o país; ele era alauita e ela sunita”, a maioria que, na década de 1980, tentou derrubar o regime pela força.

“Não foi do agrado de todos nas duas comunidades, mas foi a vontade dele que prevaleceu. E ele incentivou-a a cultivar a imagem de sofisticação que ela agora exibe. Reparem nas fotos dela antes do casamento – era bonita, sim, mas não tinha o glamour de hoje. Deve ter, certamente, alguém a cuidar-lhe do cabelo, da maquilhagem e do guarda-roupa”.

Manar, por seu turno, não acredita que eles tivessem sequer namorado. “Já se conheciam, é certo, mas se tivesse havido romance, quando ambos estudavam em Londres, a imprensa tablóide inglesa teria noticiado isso”, diz-nos.

“Não se amavam, mas ele percebeu que podia ter tudo o que precisava num só ‘pacote’: uma mulher linda, jovem, poliglota [fala árabe, inglês, francês e espanhol] e familiarizada com o sistema financeiro internacional [muito útil, se ele tivesse aplicado as reformas de liberalização económica que prometeu ao povo]”.

Bashar e Asma: um casal sem escrúpulos, disposto a sacrificar o seu povo para manter a dinastia Assad no poder
© AFP | voanews.com

A versão que Asma al-Assad deu ao semanário The Observer não é muito diferente: “Eu visitava a Síria todos os anos, conhecemo-nos através de familiares, e desde a infância que éramos amigos. [Em Londres] raramente nos víamos. Era tudo na base da amizade”. Inquirida sobre quando soube que iria casar-se, respondeu com uma gargalhada: “Na véspera”.

Asma, que os colegas da sua escola anglicana em Acton tratavam por “Emma”, nasceu na capital britânica. No King’s College, concluiu um bacharelato (com first degree honours a Economia e Matemática) em Ciências da Computação, e uma licenciatura em Literatura Francesa. Posteriormente, ingressou como analista de fusões e aquisições no Deutsche Bank e na JP Morgan, em Paris e Nova Iorque.

Como é que uma mulher “ambiciosa e no auge da carreira”, prestes a entrar em Harvard para um MBA, aceita ficar em segundo plano? Manar Landis tem uma explicação:

– “Era muito atractiva a ideia de ser primeira-dama”, mesmo para a filha de um prestigiado cardiologista com consultório de cirurgia na chique Harley Street, e de uma diplomata, que foi primeira secretária na embaixada síria em Londres, habituada a uma vida de luxo. “Diz-se que mãe dela sempre se vangloriou de que casar com o Presidente seria o futuro da filha”, ironiza.

Provavelmente, o facto de ter sido ensinada a falar sempre árabe em casa, e de só aos 7 anos se ter apercebido que o pai, natural de Homs, e a mãe, oriunda de Aleppo, se exprimiam também em inglês, já fazia parte dos alegados planos para que Asma integrasse o clã Assad – a “primeira dinastia republicana árabe”. Certo é que ela descobriu o lugar que melhor a serviria.

A Presidência síria partilha fotos na sua conta no Instagram, mostrando Asma al-Assad a distribuir alimentos “aos mais necessitados” – ao mesmo tempo que controla as suas calorias graças a um aparelho de fitness que custa mais de 130 dólares, segundo o Huffington Post

Poucos meses depois da cerimónia privada (só com familiares próximos) em que se uniu a Bashar, no dia de Ano Novo de 2001, desapareceu de cena. Não ficou reclusa ou invisível como a sogra, Anisa Makhlouf. Vestiu-se de jeans e T-shirt e viajou incógnita, de carro ou de bicicleta, pelas áreas rurais da Síria.

“Eu queria conhecer os sírios antes de eles me conhecerem – antes de o mundo me conhecer”, explicou Asma ao Observer. “E porque as pessoas não faziam a mínima ideia de quem eu era, foi possível encontrá-las honestamente. Tomei nota dos problemas, das queixas, das aspirações. Tratava-se apenas de ver quem eram e o que faziam. Não andava a espiá-los.”

Quem não gostou, aparentemente, foram os espiões. O principal projecto resultante desta incursão por aldeias remotas foi o FIRDOS (Fund for Integrated Rural Development of Syria). Esta “organização não governamental” tem como objectivo melhorar as comunidades rurais e evitar um êxodo para as cidades, através da concessão de microcrédito a mulheres, bolsas de estudos a alunos aplicados e formação profissional.

“Os serviços secretos não apreciam este tipo de ONG, porque tendem a ser muito independentes e, por isso, são difíceis de controlar”, constata Joshua Landis.

Em todo o caso, Asma al-Assad ter-se-á imposto, e criou outras ONG, sobretudo de apoio a mulheres mas também crianças (organizou em 2002 a primeira Feira Nacional do Livro Infantil) ou a deficientes. Quando alguém tem dificuldade em actuar no terreno, “ela não [hesitava] em servir de intermediária”.

Por exemplo, “a pedido de diplomatas estrangeiros”, segundo Joshua Landis, colocou nas escolas sírias cerca de 33 mil filhos de refugiados vindos do Iraque. A generosidade foi muito elogiada numa altura em que o regime estava a ser acusado de encorajar a infiltração de insurrectos neste país vizinho, e a desestabilizar outro, o Líbano.

Em 27 de Agosto de 2008, o Arab Women Studies Center, ligado à Liga Árabe, atribuiu-lhe o Arab First Lady Award – Asma foi a mais votada primeira-dama, com 94% dos votos (ainda assim, menos dos que os 97,62% com que o marido foi reeleito pelo Parlamento, em 2007, para um novo mandato de sete anos).

Em 2012, com Bashar al-Assad a bombardear o seu próprio povo, a União Europeia proibiu Asma de entrar em qualquer dos países membros – excepto o Reino Unido, porque ela tem cidadania britânica. A mesma proibição foi imposta à sogra e cunhados
© baladi-news.com

[Em 2012, com Assad a bombardear o seu próprio povo, a União Europeia proibiu Asma de entrar em qualquer dos países membros – excepto o Reino Unido, porque ela tem cidadania britânica. A mesma proibição foi imposta à sogra e cunhados.]

Mãe de dois rapazes (Hafez, 7 anos, e Karim, 3 anos) e de uma rapariga (Zein, 5 anos), a primeira-dama síria recusou viver num palácio, que ficou reservado a actos oficiais, e escolheu uma casa no centro de Damasco.

Joshua Landis confirma que Asma e Bashar “levam uma vida normal” e que é frequente vê-los, com “muito poucos guarda-costas”, em parques de diversão com os filhos, a jantar fora ou no teatro.

Está o regime assim tão confiante, que o Presidente não tem medo de ser assassinado? Afinal, o pai de Bashar foi alvo de vários atentados por parte da Irmandade Muçulmana. “Há tensões permanentes, mas já não tantas fracturas religiosas, como no passado”, esclarece Landis.

“O fosso maior é entre as classes altas com privilégios e os mais pobres.” O rendimento per capita na Síria, a sofrer de corrupção endémica e de um grave problema demográfico – 60% dos 20 milhões de habitantes têm menos de 25 anos e 45% menos de 15 –, é de 1900 dólares/ano.

Apesar dos problemas sociais e económicos, um grande orgulho patriótico dissipa o que divide os sírios, acrescenta o académico norte-americano.

Em 2005, perante a suspeita de que o regime (em particular, o general Assef Shawkat chefe dos serviços secretos e cunhado de Assad que seria morto num atentado em Julho de 2012) ordenou o assassínio do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, “inúmeros manifestantes, de forma mais espontânea do que organizada”, acorreram à casa de Bashar e Asma. E ambos “vieram à varanda acenar à multidão, a uma tão curta distância que seria fácil alvejá-los.”

No ia 26 de Abril de 2016, as Nações Unidas a a Liga Árabe estimavam que 400 mil pessoas tinham sido mortas na guerra de Bashar al-Assad – ou seja 2% dos 20,8 milhões de habitantes registados em 2011
© Financial Times

A morte do milionário Hariri foi um dos grandes testes à liderança do inexperiente Bashar, forçado a retirar [em 2005],  todos os cerca de 40 mil soldados e mukhabarat (espiões) que desde a guerra civil libanesa (1976-1990) Hafez al-Assad enviara para um estado cuja soberania jamais reconhecera. Só este ano o filho-sucessor estabeleceu relações diplomáticas entre Damasco e Beirute.

A confiança de Bashar é tão grande, acentuou Joshua Landis, que quando Nancy Pelosi, speaker da Câmara dos Representantes americana foi a Damasco, ele fez questão de dispensar o motorista e de conduzir o carro em que mostrou a cidade à visitante.

Manar Landis, por seu turno, desmente alegações de que a sogra de Asma, uma conformada dona de casa, não gosta da nora por esta ser demasiado interventiva. “É Anisa quem toma conta dos três netos, que não têm amas”, assegura.

“Bashar é uma pessoa simples”, continua o professor de Oklahoma, “muito diferente do irmão Basel”, que era o herdeiro designado do pai e morreu num acidente de viação, aos 31 anos, em 1994. O seu funeral foi o único dia em que viram chorar a “Esfinge de Damasco” [expressão cunhada por Henry Kissinger].

Enquanto Basel, formado desde miúdo para ser comandante das Forças Armadas e líder supremo, “gostava de atrair atenções, de óculos escuros, sempre a acelerar num Mercedes negro, Bashar optava por passear num discreto Audi, e de preferência sem fato e gravata”.

Quanto a Asma, embora tenha dito ao Sunday Times que gosta mais de roupas confortáveis do que da alta-costura que lhe afina e realça a silhueta, não é raro vê-la em saltos vertiginosamente altos. Os favoritos são Christian Louboutin, com a sua inconfundível cor escarlate.

Mais do que um ícone de moda, porém, Asma al-Assad assume-se “porta-voz da diversidade síria, muito diferente”, desdenhou ela, “do multiculturalismo à flor da pele no Ocidente”.

Asma al-Assad apareceu, em 11 de Janeiro de 2012, num evento público de apoio ao marido - durante a guerra que causou até 2015 mais de 100 mil mortes - na companhia de um dos seus dois filhos, Karim, de 7 anos, e da filha, Zein, de 9. © Wael Hmedan | Reuters | Presidential Palace

Asma al-Assad apareceu, em 11 de Janeiro de 2012, num evento público de apoio ao marido, na companhia de um dos seus dois filhos, Karim, de 7 anos, e da filha, Zein, de 9
© Wael Hmedan | Reuters | Presidential Palace

Na entrevista ao Sunday Times, desabafou: “Eu vivi no Reino Unido, e vi como as pessoas são tolerantes e sabem coexistir, mas na Síria encontramos uma nova e diferente perspectiva.”

Em Damasco, a mais antiga cidade do mundo continuamente habitada, “a Rua Direita [construída pelos romanos e onde se situa a Capela de São Ananias] é parte de mim.”

“São Paulo, que ajudámos a chegar salvo a Roma e a propagar o Cristianismo, é parte de mim. A Grande Mesquita dos Omíadas [que, construída entre os séculos VIII e XIII preservava no interior os restos mortais de João Baptista e, num anexo, o mausoléu de Saladino (agora em ruínas, incluindo seu esplêndido minarete9) é parte de mim.”

“O aramaico [língua de Jesus ainda falada em povoações como Ma’loula, construída literalmente na montanha e onde se situam o Mosteiro de São Sérgio e o Convento de Santa Tecla] é parte de mim. Esta unidade e harmonia não existem em mais lado nenhum no mundo”.

Tão zelosa é Asma do património religioso sírio que, quando o diário italiano La Repubblica lhe colocou a questão: “A senhora é muçulmana, mas foi educada numa escola anglicana e, em Damasco, chegou a frequentar um convento de freiras salesianas. Mantém boas relações com os cristãos?”

A reacção foi célere. “Desculpe!”, corrigiu quem a entrevistava. “Eu não tenho ‘boas relações’ com os cristãos, porque não posso ter ‘boas relações’ comigo, com as minhas pernas e os meus braços. Nós, sírios, somos um só corpo. A nossa história não começou ontem; tem milhares de anos.”

A “gratidão” a Asma [antes da guerra civil começar] era expressa de forma singela num país onde os retratos de Bashar, Hafez e Basel [eram] omnipresentes, até em Hama, bastião de fundamentalistas sunitas onde predominam homens de barba e mulheres de véu, pouco habituados ao novo influxo de turistas, de calções ou mini-saia.

Em Agosto de 2019, Asma al-Assad anunciou que está livre do cancro, diagnosticado no ano anterior. A sua recuperação disse ela prova “a qualidade” do serviço de saúde sírio, apesar das sanções internacionais. Não mencionou, porém, como os hospitais do país (pelo menos 25, desde Abril, segundo a ONU) têm sido sistematicamente bombardeados pelo regime
© Página de Facebook da Presidência Síria | AP

Em Hama foram massacradas entre 20 mil e 30 mil pessoas, segundo a Amnistia Internacional, antes de a cidade ser arrasada, em 1982.

A imediata reconstrução não impediu que em algumas paredes ainda se vejam buracos de balas disparadas pelos tanques enviados pelo anterior Presidente, Hafez al-Assad. Fora da Síria, só alguns, e muito mais tarde, se deram conta deste “ajuste de contas” com os “irmãos” muçulmanos.

Quem visite a Síria pode ver o rosto sorridente de Asma sobretudo em alguns restaurantes – em fotos ao lado do marido e dos proprietários. É o caso do belíssimo Sissi, em Aleppo, abrigado numa rua estreita, junto ao souk (bazar) onde, ao pôr-do-sol, dervishes sufis rodopiam e os cantores da cidade competem para provar ser “os melhores do mundo árabe”.

O Sissi ou o Beit Jabri, este no coração da capital, com os seus ciber-cafés e galerias de antiguidades, pátios que cheiram a jasmim e músicos que tocam alaúde enquanto saboreamos fattoush, hummus e deliciosos rolinhos de queijo em massa de pizza, tornaram-se símbolos de uma prometida, mas adiada, “Primavera de Damasco”.

De momento, observa Joshua Landis, os sírios “vivem um momento de transição”. Ou como o artista Khalid Khalifa definiu para a BBC, “uma zona cinzenta – ninguém sabe se a liberdade está a chegar ou em retirada.”

O professor de Oklahoma descreve assim a situação: “É verdade que Bashar fechou a temível penitenciária de Mezzeh, mas abriu outras, que continuam cheias. A diferença é que antigamente, os dissidentes iam imediatamente presos e, agora, avisam-nos primeiro, uma ou duas vezes, antes de os prendem.”

[A evolução dos acontecimentos, desde 2011, mostrou que a liberdade bateu em retirada. Bashar e Asma – a quem a revista “Vogue” ofereceu uma reportagem sob o título “Rosa do Deserto” e, por isso, foi alvo de condenação unânime revelaram as suas verdadeiras identidades: um casal sem escrúpulos, disposto a sacrificar o seu povo para manter a dinastia Assad no poder.]

Joshua Landis, co-director do Center for Middle East Studies da Universidade de Oklahoma e autor do blogue Syria Comment, e Manar Qash’our 
© Steve Sisney | The Oklahoman

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Dezembro de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 21, 2008

Salónica: A cidade onde tudo foi possível

Um dos maiores historiadores dos Balcãs, Mark Mazower, escreveu a “história da história” dos judeus, cristãos e muçulmanos num lugar único. O seu livro é uma obra-prima. (Ler mais | Read more…)

La Rotonde de Galère / Saint-Georges, transformée en mosquée, à Thessalonique. @DR (D

A Rotunda de São Jorge, transformada em mesquita, em Salónica

Foi há mais de 20 anos que Mark Mazower visitou pela primeira vez Salónica, um lugar que alguém designou de “único na história da Europa e da humanidade”. Chegou de comboio, de mochila às costas e saiu da estação em busca do centro da cidade. Rapidamente se apercebeu que “fora transportado para outro mundo”.

Foi dessa viagem e de posteriores visitas que resultou Salónica, Cidade de Fantasmas – Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950 (Ed. Pedra da Lua, 2008), um livro de 574 páginas, onde um dos maiores historiadores dos Balcãs nos apresenta “uma narrativa não apenas de suaves transições e adaptações, mas também de violentos desfechos e novos começos”.

Descodifiquemos primeiro o significado etimológico de Salónica – que Mazower ironiza ser um “pesadelo para os organizadores de índices e um deleite para os linguistas”.

A cidade tem o mesmo nome de Tessalónica (Thessaloniki, em grego), filha de Filipe da Macedónia, que assim celebrou o seu triunfo (niki) sobre a Tessália quando expandia o seu domínio pela Grécia.

Para nos oferecer a “história da história” de Salónica, Mazower mergulhou em inesgotáveis fontes e é com notável erudição que nos guia desde 1430, quando a cidade que “já gozara 1700 anos de vida como metrópole helénica, romana e bizantina” caiu em poder do sultão otomano Murad II, até 1950.

Depois de décadas de singular coexistência multiétnica, multiconfessional e multilinguística (mas não “multicultural” – um “conceito moderno” que envolve política de massas no sentido convencional, como Mazower tem frisado em entrevistas), os muçulmanos tornaram-se turcos e os cristãos passaram a gregos, devido a transferências forçadas de populações.

Os judeus, para quem Salónica tinha sido refúgio e libertação, que rezavam em sinagogas com nomes como Lizbon, Evora ou Portukal, que comiam “pastel de kweso” e “fijones kon karne”, não voltaram para Sefarad (Península Ibérica), de onde muitos haviam sido expulsos no século XV.

Deportados pelos alemães (45 mil em menos de seis semanas), a maioria foi exterminada nas câmaras de gás de Auschwitz, durante o Holocausto.

etail, from Vlatadon Monastery). Thessaloniki , with a history dating back to 315 BC @

Vista do Mosteiro de Vlatadon, em Salónica – a sua história remonta a 315 a.C.

Professor na Universidade de Columbia, nos EUA, o britânico Mazower é brilhante no modo como relata o passado de Salónica recorrendo a uma multiplicidade de citações contemporâneas.

O seu estilo “é seco, por vezes académico mas nunca sem compaixão”, notou Robert Kaplan, no jornal The New York Times: “Ele faz-nos ver coisas pelos olhos de um grego numa página, de um judeu ou de um turco noutras.”

“Pode dizer-se que este é o triunfo do livro: quando o leitor está prestes a simpatizar com o sofrimento de um grupo, Mazower avança a narrativa para o ponto de vista de outro.”

Esse meticuloso esforço de equilibrar emoções é palpável num dos capítulos mais tocantes do livro, o do genocídio (pp. 417-438).

Depois de termos acompanhado a incrível vida dos judeus de Salónica – um grupo tão numeroso e excepcional que teve conselheiros na corte e operários socialistas, conciliou o Talmude com a Sharia (lei islâmica) e encontrou um “messias” num convertido ao Islão – a descrição das acções das tropas nazis, de Abril de 1941 a Outubro de 1944, é tão brutal que quase nos faz esquecer os restantes habitantes da cidade.

Quase.

Estamos nós petrificados a “testemunhar” a humilhação pública (incluindo a privação de alimentos e depois a pilhagem e destruição de propriedades) de “todos os judeus do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 18 e os 45 anos”, no dia 8 de Julho de 1942, por ordem do comandante da Wehrmacht em Salónica, e logo a seguir Mazower iliba de culpa os cristãos da cidade, ainda hoje suspeitos de anti-semitismo.

Lembra-nos que alguns deles colocaram as suas vidas em perigo, oferecendo casas ou vagões para acolher os perseguidos.

Leia-se a transcrição que o autor fez de uma conversa à beira-mar do judeu Jacques Stroumsa que sobreviveu a Auschwitz, onde os pais e a mulher grávida foram mortos, e voltou à sua cidade para uma breve passagem.

“Fumava cigarro atrás de cigarro, com medo que as lágrimas saltassem. Um amigo meu, ortodoxo grego, encontrou-me sozinho por volta da meia-noite, e disse-me: ‘Compreendo-te Jacques. Já não sabes bem onde ir em Salónica, a cidade onde, em tempos, conhecias as pedras uma a uma’.” (p. 457)

The Arch of Galerius in the Ottoman period @DR

O Arco de Galério, no período otomano, nas proximidades de Salónica

Também para com os Otomanos, Mazower é compassivo – reconhece-lhes tolerância e um poder sofisticado – e lamenta que os gregos, mais predispostos agora a honrar a memória judaica, ainda não se tenham reconciliado com o legado turco, quase apagado.

Assim, quem nunca visitou ou já visitou a cidade que judeus, cristãos e muçulmanos consideravam uma dádiva divina (“E não se costuma dizer que onde está Deus tudo é possível?”, pergunta Mazower) irá olhá-la, seguramente, de uma outra forma depois de ler este livro, com fotos e ilustrações dos velhos tempos, bem traduzido e com um belíssimo grafismo.

Pacheco Pereira, no seu blogue, Abrupto, deixou uma promessa: “Se lá voltar, não tornarei a pisar o chão da universidade de Salónica, construída por cima do vasto cemitério judeu, vandalizado e pilhado, sem me lembrar de que muitos dos mortos que lá ainda continuam por debaixo do betão, devem ter tido nomes portugueses.”

Nuno Guerreiro, autor de outro blogue, Rua da Judiaria, deixou-nos para reflectir um poema de um escritor “que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição”, Jorge Luís Borges (A Chave em Salónica).

Está lá também uma canção, Morenica, cantada por Savina Yannatou, do álbum Primavera en Salonico.

Mark Mazower, o autor deSalónica, Cidade de Fantasmas - Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950 @DR

Mark Mazower, o autor de Salónica, Cidade de Fantasmas – Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950, livro sobre “um lugar único na história da Europa e da Humanidade”

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 19 de Dezembro de 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 19, 2008

Nelson Évora: O corpo é de ouro, o coração é bahá’í

A religião que ele professa desde os 16 anos pede que seja excelente. Foi influenciado por João Ganço, o treinador que o ajudou a ser campeão olímpico. Ainda recebe parabéns pela medalha de Pequim, mas o objectivo é saltar mais alto. Uma “mão divina” pode explicar “um centímetro a mais”. (Ler mais | Read more…)

A “viagem espiritual” de Nelson Évora, filho de uma costa-marfinense e de um cabo-verdiano, começou com a mãe, “a mais religiosa da família”, diz o atleta olímpico. “É católica mas não praticante, e sempre me ensinou a acreditar em Deus. Na sua maneira religiosa de estar e ser, deu-me os valores que me ajudarem a tornar-me bahá’í. Não seguiu o meu caminho, mas respeita o meu”
© Nuno Ferreira Santos

Fedross Imani não trouxe o saltério, instrumento de cordas com que o Rei David acompanhava os Salmos, mas veio Katherine Fiero com a sua harpa. Ela toca e canta: We are all waves of one sea/we are all leaves of one tree/we are all flowers of one garden.

Os fiéis escutam-na em silêncio, sob o olhar melancólico de ‘Abdu’l Bahá, filho de Bahá’u’lláh, o profeta dos bahá’ís, cujo retrato ocupa lugar central numa pequena sala de cortinas azuis e heras cor de laranja.

É domingo à tarde, e Fedross está particularmente orgulhoso. Não só porque o palestrante da celebração de hoje, sábado à tarde, no [antigo] Centro Bahá’í em Lisboa, é o seu filho Navid, mas porque na audiência está Nelson Évora, o atleta que personifica um dos valores máximos desta religião: a excelência.

O atleta medalha de ouro do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Pequim [6 a 24 de Agosto de 2008] é a estrela do dia, ainda que a sede da comunidade ostente no portão de entrada uma outra estrela.

Tem nove pontas e representa a “unidade na diversidade” que inspirou “Cathy”: o sabeanismo (os sabeus ainda hoje vivem – perseguidos – no Iémen,  no Iraque, no Paquistão e no Afeganistão), o hinduísmo, o judaísmo, o zoroastrismo, o budismo, o cristianismo, o babismo e o bahá’ísmo.

Depois de distribuir beijos, abraços e sorrisos, Nelson Évora sentou-se na segunda fila, entre a mulher e o filho do seu treinador e amigo, João Ganço.

Navid, professor de artes marciais, dissertou sobre “a influência da educação no carácter do ser humano”, e o “menino de ouro” foi várias vezes citado como um bom exemplo. O que se prepara “para atingir a perfeição”.

Nelson ouviu-o com atenção e deu o seu testemunho: “O importante é estar sempre em movimento e trabalhar muito, porque a excelência é o lado físico e o lado espiritual.”

Sentada a pouca distância, a romena Iona Gheorghe lançou um piropo, que fez o atleta soltar o riso e roer ainda mais as unhas, e declarou, com esfuziante alegria: “Eu cheguei aqui há dois anos vinda de um país que foi uma ditadura. Era ortodoxa, mas senti sempre um vazio. Só a fé bahá’í me deixou completa.” Várias cabeças acenaram em concordância.

Uma delas, a da harpista Catherine, que a Orquestra Nacional de São Carlos dispensou. “Eu vim de Nova Iorque, e sinto-me feliz desde que há 30 anos aceitei Bahá’u’lláh como mensageiro de Deus”, dir-nos-á a antiga cristã metodista, no final de uma hora de debate de ideias e duas orações.

We are all stars in the sky/ we are all one in God’s eye”, emociona-se ao recitar o seu livro de cânticos. We are angels of fire and snow/we see the light and away we go.

Imagem de ‘Abdu’l Bahá, filho de Bahá’u’lláh, profeta dos bahá’ís. A religião nascida no Irão foi perseguida em Portugal até 25 de Abril de 1974
© Nuno Ferreira Santos

Os fiéis estão num exíguo hall [um edifício maior foi inaugurado em 12 de Novembro de 2011, na Rua Cidade Nova Lisboa] a partilhar bolinhos, queijos e sumos – lanche com que tradicionalmente terminam os encontros – e já Nelson Évora e João Ganço subiram à biblioteca para contarem como chegaram à “verdade”.

“Eu era muito novo, tinha uns nove ou dez anos”, revela o jovem, num misto de serenidade e nervosismo. “Costumava frequentar a casa do professor, em Odivelas, para brincar com o filho [David Ganço]”

“Lembro-me de ir às aulas de crianças sem saber para que serviam, mas depois percebi que o objectivo era transmitir valores. Éramos ensinados a não mentir e tínhamos de passar a teoria à prática. Eu e o David começávamos por mentir e depois víamos o resultado dessa mentira.”

Ao contrário do que possa parecer, a “viagem espiritual” de Nelson, nascido em 20 de Abril de 1984, filho de uma costa-marfinense e de um cabo-verdiano, não começou na casa do vizinho João Ganço, antigo recordista do salto em altura.

“A minha mãe foi sempre a mais religiosa da família”, diz. “É católica mas não praticante. Acredita em Deus e sempre me ensinou a acreditar em Deus. Na sua maneira religiosa de estar e ser, deu-me os valores que me ajudarem a tornar-me bahá’í. Ela não seguiu o meu caminho, mas respeita o meu.”

O momento decisivo aconteceu aos 16 anos, numa “escola de Verão em Monchique”, mais uma vez na companhia do amigo David Ganço.

“Eu era jovem, mas os meus ideais, a minha forma de vida, já eram bahá’Ís. Só faltava declarar-me e assim fiz.”

Encontrar respostas não é ter certezas, avisa Nelson. “Nada fica definido para o resto da vida. Tudo é questionável. Por exemplo, e só agora falo disto, há pouco tempo, uma amiga morreu de repente, num acidente, e voltaram-me as perguntas. Porquê?”

Nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, onde ganhou a Medalha de Ouro, Nelson Évora saltou 17,67m. Será que ele s ente que a fé o ajuda? "Porquê um centímetro a mais ou a menos? Há coisas físicas, é certo, mas aqui atribuo uma mão divina. Para alguns, talvez seja sorte. Eu vejo mais além." @Stu Forster/Getty Images

Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, onde ganhou a Medalha de Ouro. Nelson Évora saltou 17,67m. A fé ajuda-o? “Porquê um centímetro a mais ou a menos? Há coisas físicas, é certo, mas aqui atribuo uma mão divina. Para alguns, talvez seja sorte. Eu vejo mais além”
© Stu Forster | Getty

Será que Nelson duvidou da existência de Deus quando o seu pai adoeceu gravemente antes dos Jogos de Pequim? “O meu pai adoeceu por um motivo”, afirma, sem precisar.

“Quando há um motivo, não há perguntas a fazer. Coloquei mais perguntas, quando a minha amiga morreu, do nada. Ela era uma pessoa que procurava a excelência. E aconteceu-lhe aquilo. Ainda não consigo aceitar a morte.”

Para outras adversidades, porém, já encontrou defesas. Quando o britânico Phillips Udowu reagiu muito mal ao segundo lugar (17,62m), o português que já era campeão do mundo desvalorizou os insultos.

“A culpa é dele porque fez mal o exercício. Eu entrei em prova, sabia que estava bem. A primeira coisa que fiz, mesmo sabendo o que ele dissera de mim, foi estender-lhe a mão e falar com ele. Não guardo ressentimentos.”

Há um episódio que Nelson Évora recorda, na sua primeira competição internacional, o campeonato do mundo 2003/04, em Budapeste, quando no meio do corredor uma atleta se atravessou à sua frente.

“Eu tinha apostado tudo naquele salto e não consegui saltar. Desconcentrei-me e isso desmoralizou-me. Podia ter protestado. Não o fiz. Não me arrependo. Essa atitude enriqueceu-me como ser humano e desportivamente.”

Prece atribuída a Bahá’u’lláh: Bem-aventurado o lugar, a casa e o coração, e bem-aventurada a cidade, a montanha, o refúgio, a caverna e o vale, a terra e o mar, o prado e a ilha, onde se haja feito menção de Deus e celebrado o Seu louvor
© Nuno Ferreira Santos

Nunca fez nada de errado? “Claro que fiz! Às vezes temos de experimentar as coisas más para saber onde os erros nos levam. Nem sempre chegamos lá quando nos dizem ‘Não vás por aí’. Se faço mal, peço perdão sem dificuldade. Sei que todos erramos, que tenho defeitos e os outros também.”

E quando ganha, o Nelson que saltou 17,67m sente que a fé o ajuda? “Eu e o professor trabalhámos muito, e eu só tinha de estar o mais concentrado possível. O que aconteceu depois, na prova, são coisas que me ultrapassam. Porquê um centímetro a mais ou a menos? Há coisas físicas, é certo, mas aqui atribuo uma mão divina. Para alguns, talvez seja sorte. Eu vejo mais além.”

“Quero chegar mais longe, sem dúvida!”, frisa Nelson. “Vou ter de estar muito equilibrado a todos os níveis. Se atingir os meus objectivos, e mesmo se não os atingir, essa procura servirá de exemplo de vida, para mim, e para os que acompanharem o meu percurso até lá. As pessoas ainda estão a pensar na medalha olímpica, mas eu, um dia depois, já estava a pensar noutra coisa. Noutra etapa, noutra prova.”

Ganço insiste no que já antes dissera noutras entrevistas: “Não foi só a fé bahá’í que deu a vitória ao Nelson. Foi um conjunto de factores e um deles foi a fé. Estamos há muito tempo juntos e sentimos o que temos e o que podemos fazer.”

Sobre o seu percurso religioso, o treinador desvenda: “Eu era católico, mas tinha muitas dúvidas. Depois do meu casamento [mera formalidade pela igreja], eu e a minha mulher decidimos investigar várias religiões.”

“Fomos ter com tudo o que era seita. Budistas, muçulmanos, o Mr. Moon [fundador e reverendo da Igreja da Unificação, morreu aos 92 anos, em 3 de Setembro de 2012] e até as Testemunhas de Jeová. Era uma necessidade pessoal e espiritual.”

“Quando pegava na Bíblia e começava a ler, interrogava-me. Havia coisas que não entendia. Também me questionava sobre a razão de ser de tantas religiões com tantos crentes. Onde estava a verdade? Foi a fé bahá’i que deu resposta às minhas dúvidas.”

“Quando os outros textos religiosos foram revelados, a mentalidade era outra. Precisamos de outras orientações, mais avançadas. A época de Bahá’u’lláh [1817-1892] é a mais recente.”

João Ganço, o treinador que ajudou Nelson Évora a ser campeão olímpico, demorou cinco anos a tornar-se bahá’í. “Há pessoas que chegaram lá logo pelo coração. Eu precisei de investigar. A minha mulher, os meus filhos e até a minha sogra são bahá’ís. Alguns dos meus atletas são bahá’ís. Não pressionámos ninguém”
© Nuno Ferreira Santos

João Ganço demorou cinco anos a tornar-se bahá’í. “Há pessoas que chegaram lá logo pelo coração. Eu precisei de investigar. A minha mulher, os meus filhos e até a minha sogra são bahá’ís. Alguns dos meus atletas, não só o Nelson, são bahá’ís. Não pressionámos ninguém. Foram sentindo a atmosfera, sentiram-se bem e foram aderindo.”

Nelson é o seu orgulho: “O primeiro passo não fui eu que o dei, foram os pais dele, que são católicos e são excelentes. A educação base foi da família. Depois, sentiu a influência bahá’í. Hoje, ele é mais conhecido pelo seu lado humano do que pela medalha. E eu fico contentíssimo, porque, um dia, ele deixará de ser atleta [estuda Marketing e Publicidade e é modelo] mas continuará a ser uma pessoa.”

Orgulho na fé que segue há 50 anos é também o que sente Mário Mota Marques, um dos nove membros eleitos da Assembleia Bahá’í de Lisboa.

Líder muito respeitado na comunidade [morreu em 18 de Outubro de 2009] Mota Marques sempre foi um “estudioso das religiões”, apesar de a sua família não ser religiosa. Começou por ler o Bhagavad Gita, dos hindus. Aos 16 anos, foi conduzido ao centro bahá’í por um amigo que continua a ser agnóstico.

O amigo vive em Nova Iorque e é músico.  Sempre se corresponderam. Uma das suas cartas falava de Bach, mas a PIDE, que frequentemente batia à porta de Mário Marques de madrugada (esta religião foi perseguida até ao 25 de Abril de 1974), implicou porque leu bahá’í.

“Entravam e vasculhavam tudo”, recordou o responsável, que também não esquece outra visita da polícia política a uma sala onde crianças tinham actividades lúdicas. “Os agentes chegaram, olharam para o papel de cenário com desenhos coloridos e perguntaram se eram planos para ataques a quartéis.”

Os maus tempos passaram. Hoje, a fé bahá’í está reconhecida oficialmente e tem as suas próprias aulas de religião e moral nas escolas públicas, e um programa na RTP2.

[Em 2015, aos 30 anos, o campeão do mundo e olímpico conquistou a medalha de ouro em triplo salto, nos Europeus de Atletismo de pista coberta disputados em Praga, na República Checa. 

Em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio, Nelson Évora terminou em sexto, mas “fez a melhor marca pessoal do ano e garantiu mais um diploma para Portugal”. Estas Olimpíadas marcaram também o fim da ligação do atleta ao seu treinador, João Ganço, que se afastou, desgostoso por o seu discípulo ter criticado a preparação planeada. Nelson Évora mudou-se, também, do Benfica, onde esteve 12 anos, para o Sporting.]

Em Praga, 7 de Fevereiro de 2015, Nelson Évora sagrou-se campeão europeu, conseguindo o seu primeiro grande título indoor, com um triplo salto a 17,21 metros. © EPA

Praga, 7 de Fevereiro de 2015. Nelson Évora sagrou-se campeão europeu, conseguindo o seu primeiro grande título indoor, com um triplo salto a 17,21 metros.
© EPA

 Guia para compreender a fé de Bahá’u’lláh

O Santuário de Báb e os Jardins Bahá'í, em Haifa (Israel). © Zvi Roger

Santuário de Báb e Jardins Bahá’í, em Haifa (Israel)
© Zvi Roger

Nascer na Pérsia e morrer em Israel 
  • A religião bahá’í é a segunda mais disseminada geograficamente, depois do cristianismo – está presente em todos os cantos do mundo
  • 200 grupos étnicos, tribais e raciais em 235 países e territórios dependentes.
  • Foi fundada em 1844 por Bahá’u’lláh, que declarou publicamente ser “o Mensageiro de Deus para a nossa era”, o último depois de Krishna, Buda, Zoroastro, Moisés, Jesus Cristo e Maomé, até aparecer um outro ainda mais magnífico. Bahá’u’lláh significa “A Glória de Deus” e é o título de Husayn-‘Ali, nascido em Teerão de uma família da nobreza persa, a 12 de Novembro de 1817.
  • O seu pai era um abastado governador de província, mas ele recusou um cargo político e preferiu dedicar-se a acções de filantropia. Juntou-se depois a um comerciante de Shiraz chamado Siyyid ‘Ali-Muhammad, posteriormente conhecido como Báb (Porta), o fundador da fé babí e uma espécie de João Baptista que anunciou Bahá’u’lláh como “o Prometido de todas as religiões”. Quando Báb foi executado em 1850, Bahá’u’lláh foi primeiro detido e depois desterrado para o Iraque.
  • Em 1963, foi de novo exilado para Constantinopla e em 1968 foi deportado para Akka [Acre, em hebraico e agora uma cidade israelita; Akko, em árabe], na Palestina otomana. Morreu em 1892. O lugar onde está sepultado, no Monte Carmelo, em Israel, é o maior santuário dos bahá’ís.
Da América para Lisboa
  • Em 1844, várias páginas do III volume do Dicionário Popular, dirigido por Manuel Pinheiro Chagas, já se referiam ao Báb como precursor de Bahá’u’lláh, mas a fé bahá’í só foi divulgada em Portugal em 1926, com a chegada das crentes norte-americanas Martha Root e Florence Schoflocher.
  • Em Lisboa, proferiram conferências no Clube Rotário, deram entrevistas ao Diário de Notíciase ao Diário de Lisboa e ofereceram livros sobre a nova religião à Biblioteca Nacional. A comunidade só começou, porém, a ser formada a partir de 1943, depois da vinda para Lisboa de Virgínia Orbinson (que vivia em Madrid) e Valeria Nichols (que viajou dos EUA).
  • Instalaram-se no Hotel Victoria, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e uma das primeiras almas que “conquistaram” foi a da proprietária de uma loja de alta-costura no Chiado.
  • A 20 de Abril de 1949, foi eleito o primeiro Conselho Bahá’í Local de Lisboa e a 20 de Outubro de 1957 foi inaugurado o Centro Bahá’í.
A religião de todas as religiões
  • Ainda que perseguidos como uma “heresia” por fundamentalistas islâmicos, sobretudo no Irão, onde muitos têm sido executados, os bahá’ís – sete milhões a nível mundial e uns dez mil em Portugal – não parecem temer o futuro. Estão, aliás, convencidos de que “a paz mundial não é apenas possível mas inevitável”.
  • Monoteístas em “progressiva evolução” (aceitam a Bíblia e o Corão), o seu livro mais sagrado é o Kitáb-i-Aqdas, parte de um grande corpo de escrituras onde Bahá’u’lláh ensina que “a Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos”.
  • Entre os vários princípios e leis estão, designadamente, a eliminação de preconceitos de qualquer natureza (raça, classe, crença); a igualdade de oportunidades, direitos e deveres entre o homem e a mulher; a eliminação dos extremos de pobreza e de riqueza; e a harmonia entre religião e ciência.
Assembleias sem clero
  • Não há clero na fé bahá’í. A vida colectiva da comunidade bahá’í é administrada por conselhos consultivos de nove membros.
  • Como não há candidaturas individuais, são eleitos os crentes mais votados, a nível local, nacional e internacional, para as assembleias Espirituais Locais, Assembleias Espirituais Nacionais e Casa Universal da Justiça – a sede que funciona em Haifa (Israel).
Como rezam os bahá’ís?
  • Através da oração e da meditação, individual ou na comunidade (seja no centros bahá’í ou nas casas dos crentes – onde frequentemente há música, debate de ideias e partilha de alimentos).
  • O trabalho com espírito de serviço também é considerado adoração a Deus. As escrituras desta religião contêm numerosas preces para vários objectivos e ocasiões.
Casamento monogâmico
  • Para os bahá’ís, a família é a unidade básica da sociedade, e o casamento monogâmico é a base da vida familiar. Cada um escolhe o seu parceiro, mas os pais “têm o direito e a obrigação de avaliar se dão o seu consentimento” aos filhos.
  • O casamento é efectuado na presença de duas testemunhas designadas pelo conselho local bahá’í, numa cerimónia simples (embora a festa possa ser opulenta) em que o casal recita o seguinte versículo: “Todos nós cumpriremos a vontade de Deus.”
  • O primeiro casamento baha’í, reconhecido em Portugal foi o de David Ganço (filho do treinador de Nelson Évora), em 22 de Março de 2008. Os casamentos inter-raciais são encorajados para sublinhar a unidade da raça humana.
Divórcio com “um ano de paciência”
  • Um casal bahá’í pode divorciar-se, mas, primeiro, marido e mulher terão de fazer uma tentativa de reconciliação. Vivem separados pelo menos um ano – “um ano de paciência” – e se, depois desta experiência, ainda desejarem o divórcio, este é concedido.
Prioridade às filhas na educação
  • Os bahá’ís são ardentes defensores da igualdade entre homens e mulheres, mas atribuem grande importância às mães e às filhas.
  • As mães são consideradas vitais na formação dos jovens como “força poderosa para mudar as sociedades”.
  • Se um casal tiver um rapaz e uma rapariga mas apenas tiver posses para educar um, a prioridade deve ser dada à rapariga, porque “as desigualdades entre homens e mulheres dependem da educação e da oportunidade, não das capacidades”.
Contribuições voluntárias e secretas
  • Todas as contribuições para o Fundo Bahá’i são voluntárias e confidenciais. Ninguém pode ser pressionado a contribuir, e só são aceites contribuições de não bahá’ís para projectos sociais, económicos ou educativos.
Proibição de filiação partidária
  • Os crentes bahá’ís estão proibidos de serem membros de partidos políticos, porque consideram que as acções políticas de natureza partidária não respondem aos problemas universais.
  • Isso não significa que não possam assumir posições públicas sobre questões “puramente sociais e morais” e votar nos candidatos que considerem mais capazes de mudar o mundo.
  • Este princípio de não envolvimento na política relaciona-se com o ensinamento bahá’í de lealdade ao governo em exercício.

Este guia contou com a preciosa colaboração de Mário Mota Marques, um dos mais influentes membros da Assembleia Espiritual Nacional dos Baha’ís de Portugal que morreu em 2009, e de Marco António Oliveira, outro destacado membro da comunidade e autor do blogue Povo de Bahá.

© David J. Phillip | AP

© David J. Phillip | AP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 12 de Dezembro de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 12, 2008

O homem a quem ofereceram o mundo

Robert Fisk não gosta que lhe chamem “repórter de guerra”, mas escreveu A Grande Guerra pela Civilização, livro repleto de batalhas e massacres(Ler mais | Read more…)

A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk, é um livro de história, uma autobiografia, um manual de jornalismo e também tributo ao pai do autor, soldado na I Guerra Mundial – a que marcou as fronteiras de regiões onde, nos últimos 30 anos, “Bob” tem testemunhado “crimes contra a humanidade”
© New World Notes

Robert Fisk diz-nos que está sentado no seu apartamento, com uma magnífica varanda com vista para o Mediterrâneo, em Beirute, na mesma rua onde viu o amigo Rafiq Hariri, ex-primeiro-ministro libanês, “a arder” depois da explosão de um carro armadilhado que o matou em 2005.

O contacto foi estabelecido por SMS – Fisk diz que não usa Internet nem e-mail. A conversa, por telefone fixo, durou duas horas.

A voz é segura e sonora, talvez reflexo de 25 por cento de surdez causada pelos canhões disparados durante a guerra Irão-Iraque de 1980-1988.

Fala com sabedoria, palavras e frases cuidadas, como se estivesse a ler um artigo recém-escrito para o seu The Independent – o diário que o acolheu em 1989, depois de terminar 18 anos de “colaboração leal” com The Times.

Abandonou este jornal, que o enviou para Portugal em 1976, quando começou a ver os seus artigos “censurados politicamente” pelo novo proprietário, o magnata Rupert Murdoch.

Não perdoa ao Sindicato dos Tipógrafos “socialista” ter inviabilizado a reestruturação tecnológica que o anterior dono, “o filantrópico Lord [Roy] Thomson”, queria introduzir para evitar a falência.

A demissão não foi o fim de carreira do jornalista polémico que já havia escrito uma obra monumental, Pity the Nation – Lebanon at War (1990), antes de, em 2005, se lançar na Grande Guerra pela Civilização – A Conquista do Médio Oriente, agora na versão portuguesa das Edições 70.

Este é um livro de História, uma autobiografia, um manual de jornalismo e um tributo ao pai, soldado na I Guerra Mundial – a que marcou as fronteiras das regiões onde nos últimos 30 anos “Mr. Robert”, “Bob” ou “Fisky” tem testemunhado muitos crimes contra a humanidade.

Ganhou sete vezes o prémio International Reporter of the Year, dois British Press Award, e duas vezes o mais distinto prémio do jornalismo britânico – Journalist of the Year. Tem 61 anos e não se arrepende de ter escolhido uma profissão onde “é preciso sobreviver para contar a história”. Dia 9 [de Dezembro de 2008] está em Lisboa, para falar do seu livro na Universidade Nova.

“Depois do que fizemos no Médio Oriente nos últimos 100 anos, ninguém se deveria surpreender por tanta gente nos odiar”, diz Robert Fisk. “[No livro] tentei explicar isto com o que vi: guerra, tortura, traição, violações, todo o tipo de atrocidades” (Na foto, protestos de palestinianos, em Jerusalém, contra a política americana que apenas protege os interesses de Israel)
© Getty Images | Newsweek

Ainda sabe falar e ler português?

Posso ler português facilmente, porque fiz o meu primeiro curso em latim e linguística. Quando estive no Brasil, o ano passado, achei muito fácil a leitura do jornal ‘A Folha de São Paulo’. Posso entender muito bem a língua portuguesa – falada não, mas escrita. Também consigo ler esse magnífico poeta que vocês têm, Pessoa, apenas porque sei latim.

Tem livros de Fernando Pessoa?

Sim…

Quais?

Não os tenho aqui em Beirute, mas na Irlanda. Agora, não me lembro dos títulos. São colectâneas de poemas. Quando estava na Irlanda do Norte [a fazer a cobertura dos Troubles, o conflito entre republicanos e leais à Coroa britânica], fui enviado para Portugal, para fazer reportagens sobre o pós-revolução de Abril.

Quando abria os jornais da manhã – oh, e naquela altura havia tantos jornais da manhã! -, eu conseguia lê-los sem grande dificuldade, embora com a ajuda de um dicionário. Muito pouco tempo depois, fui enviado para o Médio Oriente. Acabei por ficar em Portugal apenas três meses como correspondente.

Chegou em 1976?

Sim, no início de 1976, e parti na Primavera [Abril] para o Líbano, onde estou agora e continua a ser a minha base desde há mais de 30 anos.

Em A Grande Guerra pela Civilização, refere uma conversa com um conselheiro político do Ministério Iraniano dos Negócios Estrangeiros em que menciona a revolução portuguesa de 1974 como um bom exemplo – “não teve pelotões de fuzilamento” -, embora, posteriormente, refira que os portugueses se “cansaram da fase cordata e burguesa” da sua revolução. Que memórias tem desse tempo?

Bem, vou tentar lembrar-me de algo que aconteceu há mais de um quarto de século. A minha memória já não é o que era, mas lembro-me que o problema em cobrir a revolução portuguesa continua a ser o problema de cobrir o Médio Oriente.

Os repórteres andavam atrás de uma narrativa que foi delineada pela embaixada dos Estados Unidos, pelo Governo americano, pelo Governo britânico…, em vez de investigarem o que realmente estava a acontecer.

Fiquei muito impressionado com o facto de ser quase o único jornalista ocidental em Beja a ver os comunistas apoderarem-se dos latifúndios no Alentejo. Os outros estavam em Lisboa a noticiar o que as embaixadas diziam.

Uma das coisas que a revolução portuguesa me ensinou foi a de que não basta só falar com primeiros-ministros e presidentes. Fiz uma longa entrevista a [Mário] Soares e foi muito aborrecido. Não fiquei a perceber nada de Portugal nessa conversa.

Não porque ele estivesse a tentar ensinar-me alguma coisa de Portugal, mas porque aprendi muito mais indo para o país real. Naqueles tempos, o mais importante foi tomar consciência de que aquilo que as pessoas diziam não era o que vinha escrito nos jornais.

“Cobrir a revolução portuguesa [em 1974] continua a ser o problema de cobrir o Médio Oriente”, diz Robert Fisk. “Os repórteres andavam atrás de uma narrativa que foi delineada pela embaixada dos Estados Unidos, pelo Governo britânico…, em vez de investigarem o que realmente estava a acontecer. (…) Naqueles tempos, o mais importante foi tomar consciência de que aquilo que as pessoas diziam não era o que vinha escrito nos jornais”.
© Alfredo Cunha

No seu livro diz que tinha 29 anos, estava de férias em Porto Covo, quando recebeu o convite do Times para ser correspondente no Médio Oriente, e viu-se como Faisal quando lhe ofereceram o Iraque. Pode explicar este sentimento?

Repare, aos 29 anos estava a ser-me oferecido o melhor emprego do jornal. A carta, que ainda guardo, do meu antigo editor da secção Internacional, dizia-me que [ir para o Médio Oriente] seria uma grande aventura numa terra com muito sol.

Ele estava certo no que diz respeito ao sol. Claro, para mim, aos 29 anos, era uma extraordinária oportunidade de ir para um dos lugares mais excitantes do mundo, onde a História estava a acontecer. E eu sei o que isso significava.

O meu pai foi um soldado na I Guerra Mundial. Eu sabia a importância que a História tem. Para mim, isto era algo que nunca imaginara. [Receber este convite] aos 40, 50 anos, talvez, mas nunca aos 29 anos. E foi assim que parti para o Médio Oriente – e foi muito duro. Não imaginava que iria passar aqui mais de metade da minha vida.

Tem dito e escreveu que Correspondente Internacional (1940), de Alfred Hitchcock, que viu aos 12 anos, foi uma das razões que o levou a ser jornalista. O senhor diz que queria ser como o protagonista, “um dos soldados da imprensa”, mas não gosta que lhe chamem “repórter de guerra”. Por outro lado, este seu livro é, também, um relato de várias guerras. Como explica isso?

Eu faço a cobertura do mundo muçulmano. Se aceitasse que me chamassem “correspondente de guerra”, isso significaria que o mundo muçulmano é a guerra. Mas não é: é cultura, é teatro, é música, é comida, é povo, é geografia, é história. Quando se aplica a etiqueta de “correspondente de guerra”, estamos a fazer com que um povo seja olhado como violento. Parece que gosto da guerra.

Eu odeio a guerra! Ainda na semana passada, quando estive no Afeganistão, a minha reportagem foi sobre a realização de um filme afegão. Se me assumisse como “correspondente de guerra”, diria que estas pessoas não são seres humanos como nós.

Os correspondentes de guerra procuram a guerra. Eu não procuro a guerra. Eu sou correspondente no Médio Oriente.

Fisk: “Eu faço a cobertura do mundo muçulmano. Se aceitasse que me chamassem ‘correspondente de guerra’, isso significaria que o mundo muçulmano é a guerra.” (Na foto, bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, Palestina
© The Wall Street Journal

Como descreveria então este livro?

Tudo começou quando me propus escrever um livro em que tentaria descrever o que é dizer a verdade sobre o Médio Oriente. A certa altura apercebi-me que deveria ser como entender o Médio Oriente, dar a conhecer a dor e o sofrimento a que esta região tem sido sujeita.

Decidi, por isso, que não seria um livro sobre mim, embora, obviamente, fale de mim. Não seria sequer cronológico – começa com [Osama] Bin Laden, segue para os russos, a revolução islâmica [de 1979 no Irão], o meu pai, o genocídio arménio.

Termina, claro, com a ocupação do Afeganistão e do Iraque. Tentei dizer que, depois do que fizemos no Médio Oriente nos últimos 100 anos, ninguém se deveria surpreender por tanta gente nos odiar.

Tentei explicar isto com o que vi: guerra, tortura, traição, violações, todo o tipo de atrocidades. Uma das coisas que mais me tocou, enquanto remexia nos meus documentos, centenas de milhares deles, remonta a um dia 12 de Dezembro, depois de uma guerra, quando estava a preparar-me para ir de férias.

Quando me lembro destas férias, reparo que as pessoas nesta região vivem em guerra permanente – não têm férias. Isto é muito deprimente. Foi muito perturbador escrever este livro.

Quanto tempo demorou a escrevê-lo?

Uns 17 meses para o escrever, mas cerca de 20 anos a recolher informação.

Ainda mantém um olhar fresco ou, para si, já nada é novo no Médio Oriente?

O que acabamos por relatar é sempre a loucura humana. Há três anos, quando saíram as edições francesa e holandesa deste livro, passei duas semanas em Paris e em Amesterdão. Vi famílias a passear em jardins e ao longo dos canais. Pareciam pessoas felizes.

Eu vivo em Beirute e quando voltei ao Líbano sentei-me na minha varanda – tenho uma bela casa de onde posso ver palmeiras e o Mediterrâneo, a poucos metros da minha janela.

Olhei para o mar e perguntei-me: “Será que, na altura em que recebi aquela carta em Portugal oferecendo-me o Médio Oriente, se eu soubesse o que sei agora, passaria mais de metade da minha vida a ver massacres e mortes? Será que aceitaria esta missão?”

E qual foi a resposta?

A resposta foi: “Sim, teria aceitado!” Porque às vezes, sentado na cama à noite com uma caneca de chocolate quente ou de café, a ler um grande livro sobre a trágica história do Médio Oriente, dei por mim a passar de capítulo em capítulo, até a madrugada espreitar pelas cortinas.

E porque estive eu a ler toda a noite? Porque quis saber o que iria acontecer a seguir. É por isso que ainda aqui estou: porque quero saber o próximo acontecimento.

“Quando me perguntam se reconheço o direito de Israel existir, respondo: ‘Mostrem-me onde fica a fronteira1″, diz Robert Fisk. “Inclui ou não Jerusalém? É com o ‘muro’, a que nós, jornalistas, cobardemente, chamamos ‘vedação’ ou ‘barreira de segurança’? Eu digo [aos israelitas]: ‘Quando souberem quais são as fronteiras do vosso Estado, perguntem-me se ele tem direito de existir’”
(Na foto, uma família palestiniana depois de a sua casa ter sido destruída por Israel na aldeia de Aqraba, em Nablus, Cisjordânia ocupada, perto do colonato judaico de Itamar)
© voanews.com

E o que vai acontecer, por exemplo, na Palestina?

Não vejo qualquer futuro. [Benjamin] Netanyahu [líder do partido de direita Likud] será, provavelmente, o próximo primeiro-ministro de Israel nas eleições de 2009. Acho que [Barack] Obama não irá enfrentar Netanyahu – embora não tenha ficado com muito boa impressão deste quando o conheceu.

Não?

Foi um primeiro encontro muito mau, é só o que lhe digo.

Há alguma possibilidade de mudança com Hillary Clinton como secretária de Estado?

Não! Não fará qualquer diferença. A política externa americana para o Médio Oriente é cimento armado – apoio total e incondicional a Israel. Talvez vejamos algumas críticas, mas não mudará nada.

Continuará este conflito num beco sem saída?

Repare, eu ainda acredito na Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, que exige a retirada das tropas israelitas dos territórios ocupados na guerra de 1967, em troca da segurança de todos os Estados da região. É o único postulado para a paz. Mas Israel continua intransigente.

No dia em que Obama deixou Israel, no final de uma viagem pelo Médio Oriente, foram anunciadas novas construções nos colonatos judaicos na Cisjordânia. Não vejo aqui nenhum futuro.

Os colonos já não atacam só palestinianos. Atacam também intelectuais, soldados. É um novo fenómeno?

Não, não creio que isto seja novo.

Mas será que, com estes actos, a sociedade não toma consciência de que os colonos extremistas se tornaram num perigo para Israel?

Não, não creio! Quando nós, ocidentais, vamos a Israel, e eu vou muito a Israel, gostamos de falar com pessoas do centro e da esquerda, pessoas do [partido] Meretz, pessoas como [o pacifista] Uri Avnery ou [a jornalista] Amira Hass.

Gostamos de os ouvir falar do Israel em que queremos acreditar, compassivo e aberto ao compromisso. Mas, quando apanhamos o autocarro de Telavive para Jerusalém e falamos com os colonos, esse não é o Israel em que queremos acreditar. Temos de ser rigorosos e avisar que os políticos do centro e da esquerda não representam o Estado de Israel.

A solução de dois Estados ainda é viável?

Nunca haverá uma solução de um só Estado! Por duas razões: a primeira é que a população judaica ficaria em minoria, e Israel tornar-se-ia num Estado árabe – nenhum israelita quer que isso aconteça. Em segundo lugar, evocar a solução de um só Estado será cruel para os palestinianos que ainda acreditam nisso.

É mais um sonho falso que não se concretizará! A Palestina foi dividida [em 1947] pelas Nações Unidas – uma parte árabe e outra judaica. A questão é saber onde fica a fronteira.

Quando me perguntam se reconheço o direito de Israel existir, respondo: “Mostrem-me onde fica a fronteira.” Inclui ou não Jerusalém? É com o “muro”, a que nós, jornalistas, cobardemente, chamamos “vedação” ou “barreira de segurança”?

Eu digo [aos israelitas]: “Quando souberem quais são as fronteiras do vosso Estado, então perguntem-me se ele tem o direito de existir.”

Fisk: Os britânicos perderam a guerra no Afeganistão em 1842; os russos perderam-na em 1978. Que obsessão esta, a de ganhar guerras no Afeganistão!” (Na foto, soldados americanos em treinos na província de Kandahar, no sul do Afeganistão)
© Baz Ratner | Reuters | NBC News

Avancemos agora para o Afeganistão. Qual é a situação actual?

Basicamente, o Ocidente já perdeu uma parte do Afeganistão. Estive em Kandahar. Fui ao hospital de Meir Wais – podem ler o meu artigo no Independent. Está na Internet. Eu não uso a Internet, nem o e-mail, mas podem encontrá-lo lá…

Por que não usa Internet nem e-mail?

Muito simples: tenho milhares de livros que são muito mais úteis. E não uso e-mail, porque recebo umas 250 cartas em papel por semana e já não preciso de mais, sobretudo porque vejo que os mails recebidos pelos meus colegas estão cheios de erros gramaticais.

Como envia então os seus artigos para o Independent?

Tenho um computador portátil. Basta premir um botão e o texto segue. Não tenho de fazer mais nada. Graças a Deus! Bem, entrei no principal hospital de Kandahar e estava lá uma rapariga a quem lançaram ácido sobre o rosto, porque ela ia para a escola.

Havia outra rapariga, um pouco mais velha, a quem foi amputada a perna direita. Vivia numa aldeia que foi bombardeada pelos americanos. Ela disse-me: “Olhei para baixo e vi os meus pés em pedaços.” Imagens horríveis! Sabe que todas as ONG deixaram Kandahar, excepto uma?

A Cruz Vermelha Internacional tem 11 médicos e enfermeiros ainda a trabalhar ali – são da Austrália, da França, da Nova Zelândia, da Suíça, da Costa do Marfim… Tentam ajudar os médicos afegãos a enfrentar isto.

Saí de Kandahar e escrevi para o meu jornal o seguinte: Obama quer mandar mais 7000 soldados para Kandahar, mas o que ele precisa de mandar é mais 7000 médicos e não fucking soldiers, desculpe a expressão!

Há crianças a morrer de fome, mas vão mandar mais soldados porque é preciso ganhar a guerra. Que ridículo! Os britânicos perderam a guerra no Afeganistão em 1842; os russos perderam-na em 1978. Que obsessão esta, a de ganhar guerras no Afeganistão!

No Afeganistão, para inverter o rumo da guerra, está agora a verificar-se uma mudança, que é a de distinguir entre os Taliban e a Al-Qaeda.

Sempre houve uma diferença entre eles. Porque a Al-Qaeda é, essencialmente, uma organização árabe.

O problema é que se nós, nós, o Ocidente, continuarmos a olhar o mundo muçulmano como alvo, haverá cada vez menos diferenças entre os Taliban, a Al-Qaeda, o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica. Nós é que estamos a fazer deles um só. Eles não são um único grupo.

No Iraque, estamos a comprar uns para combater outros. Não é assim que se vencem guerras. Depois de 32 anos aqui, estou convencido de que temos de deixar de enviar soldados para o mundo muçulmano.

Há agora 22 vezes mais forças ocidentais no mundo islâmico do que os Cruzados tinham no século XII.

Temos soldados no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque, na Turquia, na Jordânia, no Kuwait, na Arábia Saudita, no Qatar – onde está a maior base aérea americana – no Bahrain, no Iémen.

Até na Argélia temos forças especiais americanas. O que estamos a fazer nestes países? Estamos a construir uma cortina de ferro e ainda perguntamos por que nos odeiam.

Dos primeiros jornalistas a encontrar-se com Osama Bin Laden, que o qualificou de “repórter neutral”, Fisk desabafa o desgosto: “Vai ser como um albatroz que me perseguirá o resto da minha vida.. (…) Ele criou a al-Qaeda para ele – não para nós. Foi um sucesso pessoal. Ela existe. Podemos compará-la à criação da bomba atómica” (Na foto, o artigo que “Mr Robert” publicou no diário britânico ‘The Independent ‘depois de falar com o chefe da Al-Qaeda, em 1993)
© Twitter

Foi para obter respostas que se encontrou com Osama bin Laden?

Bin Laden vai ser como um albatroz que me perseguirá durante o resto da minha vida. Mas deixe-me dizer que Bin Laden já se tornou irrelevante.

Porquê?

Ele criou a al-Qaeda. Para ele – não para nós -, foi um sucesso pessoal. A al-Qaeda existe. Podemos compará-la à criação da bomba atómica. Se prendermos todos os cientistas nucleares de nada vale, porque a bomba já existe. O monstro nasceu. Podemos perseguir todos os que a criaram, mas ela permanece.

O mesmo com Bin Laden. Não interessa se ele morrer, porque cai numa ravina, tem uma paragem renal, é envenenado ou é abatido pelos americanos. Tornou-se irrelevante.

[Osama bin Laden foi morto durante uma operação de forças especiais dos EUA, no interior de um complexo residencial em Abbottabad, no Paquistão, em 2 de Maio de 2011. A ordem para o matar foi dada pelo Presidente Barak Obama.]

Quem é Bin Laden?

A primeira vez que o conheci foi no Sudão em 1993. Ele pensava que eu ia fazer-lhe perguntas sobre terror, terror, terror. Mas preferi perguntar como foi combater os russos [no Afeganistão].

Eu queria saber como tinha sido essa experiência. E ele contou-me uma história de como ele e os seus combatentes foram atacados por uma posição de artilharia russa, perto de Jalalabad, na província de Nangarhar. Uma granada de morteiro caiu aos pés dele. Esperou que ela explodisse.

Muitas pessoas gostariam que tivesse explodido (risos). Mas ele permaneceu calmo. Nessa altura, compreendeu que a morte não era uma coisa má.

Foi ele que pediu para me ver. Nunca pedi para o ver! Quando eu recebia mensagens, respondia sempre: “Liguem-me daqui a três semanas, estou muito ocupado.” Não queria que ele pensasse que podia estalar os dedos e chamar o Sr. Robert. E não podia.

A segunda e a terceira vez que me encontrei com ele foi no Afeganistão, em 1996 e 1997. Não me pareceu uma pessoa que estivesse a par das notícias…

… sim, neste livro, conta que ele lhe pediu os jornais que levava consigo.

Outra coisa que me impressionou foi que ele pensava muito nas perguntas. Não respondia de imediato. Foi o primeiro árabe que conheci que não disparou a primeira palavra que lhe veio à cabeça. De modo geral, os árabes não gostam que pensem que são estúpidos e respondem logo.

Ele não se importava de parecer estúpido. Queria deixar claro que dizia o que que queria dizer. Enquanto pensava o que iria responder, ia limpando os dentes com um palito. Jantei com ele, sentados fora de uma tenda. Iogurte, queijo, pão, chá com menta.

À nossa volta havia vários combatentes com armas. Ele estava obcecado com a corrupção da família real saudita, mais do que com qualquer outra coisa.

Em 1997, na última entrevista – ele ainda pediu para me ver depois do 11 de Setembro de 2001, e eu tentei chegar até ele, mas a aldeia onde eu o deveria encontrar tinha sido destruída pela força aérea americana, e os Taliban que me acompanhavam recusaram continuar a viagem.

Porque não queriam morrer, o que é interessante, porque, supostamente, os Taliban não deviam ter medo de morrer (risos) -, ele disse-me: “Senhor Robert, desta montanha onde estamos sentados, destruímos o exército britânico e ajudámos a destruir a União Soviética.” Era um exagero com uma ponta de verdade.

E depois disse: “Rezo a Deus para tornar a América numa sombra de si própria.” Eu escrevi no meu livro de apontamentos: “Retórica? Ponto de interrogação?”

Amira Hass, brilhante jornalista do [diário israelita] Ha’aretz, ensinou-me o que um correspondente internacional deve fazer: vigiar os centros de poder”, diz Robert Fisk
© Green Lefty Weekly

Foi nesse encontro que ele o tentou recrutar?

Bem, creio que sim. Exprimiu satisfação por me voltar e ver e disse que um dos seus homens tinha tido um sonho. “Você apareceu vestido como um imã, e isso significa que você é um verdadeiro muçulmano.” Pensei imediatamente que ele estava a tentar recrutar-me.

Olhei para os tipos da al-Qaeda por todo o lado, a mexer nas armas e a ouvirem Bin Laden como se ele fosse um mahdi [messias].

Sentiu medo?

Não, não (risos). Eu sabia o que se estava a passar. Já tinha falado antes com Bin Laden. Sempre tinha sido educado e cortês comigo, mas eu queria ter a certeza de que a minha resposta não seria mal interpretada.

O que lhe disse foi: “Xeque Osama, eu não sou muçulmano, sou jornalista e a minha obrigação é dizer a verdade”, o que lhe deu a oportunidade de retorquir. “Mas isso é o mesmo que ser muçulmano.”

Foi nessa altura que ele o considerou “o único jornalista neutral no Médio Oriente”?

Não. Ele gravou uma cassete, num período de eleições intercalares na América, em 2004. Nessa altura, disse: “Se a Casa Branca quiser saber o que pensa a al-Qaeda, deve perguntar a Robert Fisk, que é um jornalista neutral.” Eu dispensava esse elogio.

Isto conduz a outra pergunta. Quando o inquiriram sobre se alguma vez entrevistara o Presidente dos EUA, George W. Bush, o senhor respondeu que não estava interessado, porque “ele é um mentiroso”. No entanto, viajou quilómetros para ouvir Bin Laden, Yasser Arafat, Saddam Hussein, Khomeini, líderes que cometeram tantas atrocidades. Por que não Bush?

Desculpe, desculpe, o jornalista era da Folha de São Paulo e a entrevista que ele me fez foi muito cortada. Eu disse várias coisas antes de chamar mentiroso a Bush. Ele é mentiroso, tal como Tony Blair! Mas, ao retirarem o que eu disse antes de “Não falo com Bush porque ele é mentiroso”, deixaram uma impressão enganadora.

Então, o que é que disse antes?

Bem, não me lembro das palavras exactas naquele momento. O que eu digo é que pessoas como Bush e Blair falam inúmeras vezes em conferências de imprensa. Sabemos o que eles pensam. Não dizem nada de novo. Eu prefiro falar com pessoas que não falam habitualmente a jornalistas.

Prefiro pessoas doentes, pessoas em fuga, pessoas moribundas… Pessoas cujas palavras raramente são noticiadas. Escrevo artigos em que cito Bush. Mas não preciso de o ver ou de falar com ele para saber o que pensa, porque ele aparece na televisão todas as noites.

Mohammad Khatami, antigo Presidente do Irão, é “o único líder do Médio Oriente” por quem Robert Fisk diz ter “enorme respeito”
© Radio Farda

Mas Arafat, por exemplo, também adorava falar aos jornalistas e o senhor entrevistou-o.

Quando falei com ele, ele não gostava de falar com jornalistas. Mais tarde, quando ele adorava falar com jornalistas, eu já não me esforçava por ir ao seu encontro.

Se reparar nas duas entrevistas que lhe fiz, uma foi em Beirute, em 1978, e a outra foi no Líbano, mas não em Beirute, em 1983. Depois disso, já não falei mais com ele, porque ele nunca mais se calou.

Se eu me limitar a entrevistar Ehud Barak, o rei da Jordânia ou Bashar al-Assad – e falei com todos -, não vou explicar nada, porque podemos ler o que eles dizem no ‘Herald Tribune’ ou no ‘New York Times’.

No entanto, quando Bin Laden fala comigo, é o tipo de coisas que não se vê noutros jornais. Tive entrevistas com feridos de guerra no Líbano mais longas do que as que fiz a Osama bin Laden. E esses indivíduos foram mais importantes, para mim, do que Bin Laden.

Numa altura em que a narrativa no Médio Oriente é definida por generais, primeiros-ministros e presidentes, eu acho que é preciso oferecer outra narrativa ao mundo. Amira Hass, brilhante jornalista do [diário israelita] Ha’aretz, ensinou-me o que um correspondente internacional deve fazer: vigiar os centros de poder.

Devemos sempre desafiar a autoridade, sobretudo quando somos conduzidos com mentiras para a guerra. Se não o fizermos, podemos ir conduzir autocarros ou trabalhar num banco.

Sempre tão crítico do poder, há algum líder no Médio Oriente pelo qual sinta respeito?

Sim! O ex-Presidente Mohammad Khatami, do Irão. Ele queria desenvolver uma sociedade civil e estendeu a mão ao Ocidente, à América. Bush preferiu inclui-lo num eixo do mal.

Khatami foi derrotado e tivemos [Mahmoud] Ahmadinejad, que é um lunático. Muito obrigado, Presidente Bush! Escrevi um artigo há mais de um ano em que perguntava: “O que aconteceu aos titãs do mundo actual? Onde estão os novos Roosevelt, Churchill, De Gaulle?”

E só encontrei um que fosse comparável: Khatami. Foi Presidente, eleito democraticamente. É um homem decente e honrado.

Defende o restabelecimento de laços com os EUA. É imensamente inteligente. É um líder religioso sério. Tem um pensamento corajoso. É o único líder no mundo muçulmano e no Médio Oriente por quem tenho enorme respeito!

Robert Fisk diz que o seu o artigo mais difícil foi sobre os massacres cometidos, por milicianos cristãos, nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Shatila, durante a invasão israelita de Beirute, em 1982: “Comecei a escrever quando já tinha contado uns cem cadáveres”
© Alain Mingam | Gamma-Rapho via Getty Images | The New York Review of Books

Depois de tantos anos no Médio Oriente, mantém a “inocência” dos seus 29 anos e que, neste livro, diz ser parte da “integridade do jornalista”?

Não, não. Eu mudei. Um dia estava na minha casa em Dublin e pus-me a pensar que tudo o que tenho visto é crueldade, barbárie, valas comuns. Uma amiga disse-me: Ah! That is the end of sweet stories! [É o fim das histórias felizes] Percebi que tenho noticiado o pior da humanidade.

Tem pesadelos?

Não! Tive só um, talvez. Foi depois dos massacres de palestinianos nos campos de Sabra e Shatila pelos milicianos falangistas aliados de Israel. Nesse pesadelo via cadáveres despejados sobre a minha cama. Eu tinha passado o dia a pisar corpos de pessoas mortas.

Ainda cheirava a morte, quando a minha empregada de limpeza chegou na manhã seguinte e me aconselhou a queimar as roupas. Foi um pesadelo resultante de uma experiência física directa.

Depois disso, nunca mais tive pesadelos. Testemunho cenas terríveis, mas continuo a jantar à noite sem problemas. Temos de ser muito fortes e duros para trabalhar no Médio Oriente.

Se não formos, é melhor irmos para casa. Temos de nos manter vivos e ter orgulho em ser testemunha, por muito horrível que seja aquilo a que estamos a assistir.

O mais difícil é sobreviver?

A nossa obrigação quando vamos em reportagem é relatar e não morrer. Os jornalistas dão pobres mártires. E há demasiados jornalistas mortos. Temos de aprender a sobreviver e escrever sobre as atrocidades que vimos.

Qual foi o artigo mais difícil que teve de escrever?

(Longa pausa) Uff! [A matança em] Sabra e Shatila foi muito difícil. Comecei a escrever quando já tinha contado cem cadáveres. Outro difícil foi sobre o massacre de Qana [cidade libanesa] em 1996.

O senhor foi o primeiro a dar a notícia.

Sim, eu estava em Qana. Era um quartel da Força das Nações Unidas no Sul do Líbano [UNIFIL] que os israelitas bombardearam e onde mataram 106 civis libaneses, mais de metade deles, crianças.

Eu vi bebés a arder. Parecia uma cena bíblica. Fiquei muito furioso! Lembro-me de ter desabafado com um amigo e de ele me ter dito: “Contém-te. Tens de noticiar isto. Isto é um crime de guerra.”

Um médico quando está a operar um doente com cancro não pode chorar. Tem de se concentrar em salvar o paciente. Nós, jornalistas, não podemos salvar ninguém.

“A nossa obrigação quando vamos em reportagem é relatar e não morrer”, diz Robert Fisk. “Os jornalistas dão pobres mártires. E há demasiados jornalistas mortos. Temos de aprender a sobreviver e escrever sobre as atrocidades que vimos”
© BBC Radio4

Os massacres a que se referiu foram cometidos no Líbano. Por que é que continua a viver em Beirute?

É uma grande interrogação, não é? Bem, eu quero continuar a cobrir o Médio Oriente e quero continuar a contar a verdade. Se vivesse em Damasco, que é uma bela cidade, assim que eu criticasse o presidente, alguém iria mexer os cordelinhos. Se eu vivesse no Iraque, corria o risco de morrer todos os dias.

Se vivesse no Afeganistão, não saberia o que se passa no Médio Oriente. Se vivesse em Chipre, é a terra dos rumores. Se vivesse no Cairo, não saberia o que estava acontecer do outro lado do rio Nilo.

O Líbano é o lugar do mundo que melhor conheço. É uma sociedade cosmopolita e os libaneses são um povo de grande talento. Além disso, aqui posso apanhar um avião 20 minutos antes de descolar.

Quando não está em reportagem, disse que gosta de ler poesia, sobretudo a de W. H. Auden. E mais?

Estou a ter lições de violino, que eu tocava muito bem. Vou a concertos. Vou ao cinema. Saio com os meus amigos. Falamos de música, de livros e de arte. Viajo muito, para dar palestras. Acabei de regressar de Bolonha. Onde quer que vá, gosto de ver pintura.

Tenho uma coluna onde posso escrever sobre tudo, e muitas vezes nem sequer é sobre o Médio Oriente. Agora estou a escrever sobre [o grande poeta irlandês] Yeats.

 É feliz?

Não!

Porquê?

Creio que sou um repórter realizado, mas não sou um homem feliz.

Tem mais amigos que inimigos?

Tenho muito mais amigos. Os inimigos serão uns três jornalistas e dois leitores. Todas as semanas recebo umas 250 cartas. Uma ou duas são críticas e ofensivas, mas quando lhes respondo, a explicar o meu ponto de vista, é habitual receber de volta pedidos de desculpa.

O QUE DIZEM OUTROS REPÓRTERES 

Phil Reeves, Jornalista neozelandês

Correspondente da National Public Radio (NPR). Foi correspondente do “Independent” e da BBC. Reportagens: Índia, Sri Lanka, Paquistão, Afeganistão, Tchetchénia, Iraque, Israel, Irlanda do Norte

A base de Philip (Phil) Reeves é Nova Deli, onde é correspondente da National Public Radio (NPR) para a Ásia do Sul e Central desde 2004, mas é em Islamabad que atende o telemóvel, para nos dizer que não sabe por que Robert Fisk o incluiu na lista de agradecimentos do seu livro A Grande Guerra pela Civilização.

“Terá sido porque, há uns cinco ou seis anos, ele ficou no meu apartamento em Jerusalém, quando éramos colegas no Independent?. Essa pode ser uma razão, ou então o facto de termos trabalhado juntos no Médio Oriente e de termos sido bons companheiros. Conhecemo-nos desde 1999. Encontrámo-nos em Bagdad.”

Autor de reportagens especiais em vários lugares do mundo, desde o julgamento de Mike Tyson nos EUA aos últimos anos de Boris Ieltsin na Rússia, Reeves é um jornalista experiente, formado em Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge.

Sobre Fisk diz: “É enérgico, entusiasta e admiravelmente bem informado do ponto de vista histórico. Está certo ao recusar que lhe chamem ‘repórter de guerra’, porque ele é um perito em Médio Oriente. Escreve sobre muito mais do que guerras.”

O que Fisk faz, elogia, “já não é, infelizmente, muito comum entre os jornalistas actuais. Ele vê e descreve o que se passa à sua volta, enquadrando tudo num profundo e vasto contexto histórico. Não se pode entender o Médio Oriente de outro modo, e ele faz isso muito bem.”

Quanto às críticas de que Fisk “não é imparcial”, Reeves enerva-se: “Isso é um longo e complexo debate. O melhor é ir à procura das respostas ao livro Point of Departure, de James Cameron. É uma questão quase filosófica que não estou preparado para responder agora.”

Famoso pela sua cobertura da guerra do Vietname, Cameron deixou escrito: “Posso não ter sido satisfatoriamente equilibrado, mas sempre argumentei que a objectividade é menos importante do que a verdade.” Conclui Reeves: “A tarefa de um jornalista é denunciar actos repreensíveis e aqueles que os cometeram.”

 

David Hirst, Jornalista inglês

Foi correspondente no Médio Oriente do “Guardian” e escreveu para outras publicações como “The Christian Science Monitor” ou “Al-Ahram”. Autor de três livros, a sua obra-prima é “The Gun and the Olive Branch”. Reportagens: Eritreia, Egipto, Síria, Arábia Saudita, Iraque, Líbano

À primeira vista, nada separa David Hirst e Robert Fisk, correspondentes  veteranos no Médio Oriente, ambos com “sede em Beirute” e muito críticos das políticas do Ocidente e de Israel em relação aos árabes, em geral, e aos palestinianos, em particular.

No entanto, quando telefonámos a Hirst para lhe pedir um depoimento sobre A Grande Guerra da Civilização, vincou: “Posso falar consigo sobre tudo, menos sobre Robert Fisk.”

Não explicou as razões, mas muitos colegas insinuam que o Médio Oriente se tornou demasiado pequeno para duas “estrelas”: Hirst, ex-aluno da Universidade de Oxford que trabalhou para o Guardian de 1963 até 2001 (ainda colabora esporadicamente), e Fisk, actual correspondente do Independent.

Rival ou não, certo é que Hirst é elogiado por Fisk no seu livro “como o jornalista que tão acertadamente escreveu” sobre Arafat.

Refugiado na sua segunda casa, em Chipre, a escrever desde há dois anos uma história do Líbano (o título é uma citação do anarquista russo Mikhail Bakunin: Beware of Small States [Lebanon, Battleground of the Middle East, Faber & Faber, 2010]  não quis falar de Fisk, mas aceitou falar de jornalismo no Médio Oriente.

“Antigamente, tínhamos imenso espaço – umas 8000 palavras para um artigo. Tudo isso mudou, radicalmente, a partir do final dos anos 1990. Hoje, os jornalistas na região já não têm o impacto de outrora, porque não podem fazer trabalhos profundos.”

Um dos últimos “trabalhos profundos” de Hirst foi o obituário de George Habache, o líder da FPLP, publicado pelo Guardian em Janeiro deste ano [2008]. Foi também ele que “enterrou” Saddam e Arafat – textos que “estavam escritos há 15-20 anos e só tiveram de ser actualizados”.

A frustração de Hirst é grande: “Não sei se voltarei a ser jornalista depois de escrever este livro.” Se desistir, não será por ter sido raptado duas vezes (“Senti-me desesperadamente com medo quando, em 1988, me apontaram uma arma à cabeça e ameaçaram executar-me”) e proibido de entrar em seis países árabes, mas porque o Médio Oriente já não o surpreende. “É uma região muito deprimente, em constante degradação.”

Patrick Cockburn, Jornalista irlandês

Correspondente no Médio Oriente desde 1979, primeiro no “Financial Times” e agora no “Independent”. Autor de quatro livros, entre eles, “Saddam Hussein: An American Obsession” Reportagens: Iraque, Irão, Afeganistão, Paquistão, Israel, Palestina

Um dos raros jornalistas a permanecer em Bagdad durante a guerra do Golfo de 1991 que obrigou o Iraque a retirar-se do Kuwait, Patrick Cockburn é também um dos raros colegas elogiados por Robert Fisk em A Grande Guerra pela Civilização.

A admiração é mútua. “Cobrimos os mesmos conflitos e as mesmas histórias”, diz Cockburn, por telefone, a partir de Londres, recém-regressado do Afeganistão. “Sempre o achei um extraordinário correspondente.”

“Também controverso, claro!”, reconhece. “Mas se fazemos algo sério, muitas pessoas, sobretudo as que estão no poder, não vão gostar. Se gostam, é porque há qualquer coisa de errado com o nosso jornalismo. Todos os jornalistas dizem que buscam a verdade, mas nem todos se esforçam arduamente para a conseguir.”

“Há um velho ditado jornalístico inglês [atribuído ao seu pai, “patriarca” de uma família de jornalistas, Francis Claud] que nos aconselha a não acreditar em nada até ser oficialmente desmentido.”

Cockburn acha que muitos jornalistas “não passam de mensageiros de governos, sem interesse em apurar o que se passa”. E, tal como Fisk, também ele recusa que o classifiquem como repórter de guerra.

“Essa expressão tem uma certa conotação machista, que é desagradável. Até parece que gostamos de guerras, que as achamos excitantes, o que não é verdade. E nem sempre as crises e o sofrimento das pessoas envolvem guerras.”

Sobre a afirmação de Fisk de que não se limita a escrever notícias mas também livros de História Cockburn concorda: “O jornalista não só pode como deve ser um historiador, porque estamos a ver a História a acontecer.”

Além disso, o facto de Fisk trabalhar a partir de Beirute, “onde o governo é muito fraco, permite-lhe manter-se mais independente do que se estivesse a escrever de Washington, Londres ou Paris”.

“O jornalismo”, frisa, “sempre inclui um ponto de vista, que pode estar declarado ou ser subliminar – mas está sempre lá”. Por isso, aconselha: “Declarem logo de início qual é o nosso ponto de vista.”

 

Adelino Gomes, Jornalista português

Timor-Leste, Angola, Israel, Iraque, Afeganistão, Haiti, El Salvador, Nicarágua, Guatemala

Os caminhos profissionais de Adelino Gomes cruzaram-se com os de Robert Fisk numa reportagem sobre a Legião Estrangeira, em pleno deserto saudita, a poucos quilómetros das fronteiras com o Iraque e com o Kuwait, em 1990, e nas cidades paquistanesas de Quetta e de Chaman (fronteira com o Afeganistão), em 2001.

“Do breve contacto, retive a imagem de um repórter excepcionalmente culto e que alardeava uma tendência lamentável, muito anglo-saxónica, para mergulhar nos conflitos, armado de doses cavalares de cinismo”, diz-me o antigo redactor principal do diário PÚBLICO, enviado especial a vários cenários de guerra, galardoado com “15 a 20 prémios”, [antigo] provedor do ouvinte da rádio pública.

“Percebi agora que, se tal aconteceu, Fisk o lamenta”, acrescenta Adelino Gomes, citando o prefácio de A Grande Guerra pela Civilização, onde o autor escreve: “A inocência, se a pudermos manter, protege a integridade do jornalista”.

A obra de Fisk impressionou Adelino Gomes: “Há excelentes livros que se impõem no primeiro capítulo. Outros, também bons, precisam de mais tempo para se afirmarem.

Este ganha-nos logo nos Agradecimentos – uma lista de nomes que é uma verdadeira antologia para quem queira compreender a dimensão extraordinária que as fontes adquirem no exercício do jornalismo.”

“Independentemente da qualidade dos seus textos e do impacto das suas reportagens, Fisk começa por se afirmar através do que são as suas fontes – monumental”, sublinha Adelino Gomes.

“Do soldado iraniano Shojae Ahmmadavnde a Shapour Bakhtiar, último primeiro-ministro do Xá do Irão; do soldado Andrew Shewmaker, da 24ª Divisão de Infantaria Mecanizada, dos EUA, na guerra do Golfo de 1991, ao ex-segundo comandante da força aérea do Iraque, a Mikail Kalashnikov (sim, o inventor da AK-47), a Hassan Nasrallah (líder do Hezbollah), a Yasser Arafat, a Osama bin Laden (a quem entrevistou três vezes, mais vezes ele sozinho do que todos nós juntos, repórteres do resto do mundo ocidental).”

Seja lá o que se pense dele, Robert Fisk é um desses cada vez mais raros repórteres do pequeno exército de narradores do quotidiano que estão a escrever um borrão da história ‘à boca dos canhões’ e adoram o que fazem.”

Este livro, adianta, “reveste-se de uma enorme utilidade para os leitores de imprensa a quem falta um outro olhar (e tantas e tão extraordinárias histórias do lado geralmente esquecido) sobre os grandes conflitos do nosso tempo, e em particular sobre o Médio Oriente. É, claro, obrigatório para jornalistas e candidatos a jornalista.”

Sobre a recusa de Fisk em ser catalogado como “repórter de guerra”, Adelino Gomes remete-nos para a última página do livro do polémico jornalista britânico onde lembra que, no Médio Oriente, os povos vivem a sua história passada continuamente, quotidianamente.

Por isso, comenta o jornalista português, “o lugar de excepção” que Fisk ocupa no jornalismo actual “releva de uma mesma forma de praticar a profissão – continuamente, quotidianamente, desde meados da década de 1970 do século passado.”

Quanto à afirmação de que a tarefa do jornalista é “vigiar os centros de poder”, não duvida que é isso que Fisk “faz, sem cessar, ao longo das 1230 páginas deste livro monumental”.

Mais: “Penso que também tem razão ao escrever que os jornalistas devem tentar ser as primeiras testemunhas imparciais da História e sobre elas escreverem ‘primeiras páginas’ (a que prefiro chamar ‘borrões’).

Devem ter a consciência, porém, de que escrevem num mar de paixões, quando se ouvem ainda os gritos de dor ou os brados de vitória. Faltam à sua, as perspectivas da distância e do tempo, que ajudam a melhor entender o quadro geral.”

E deve um jornalista dar “mais espaço à vítima do que ao opressor”, como exige Fisk a si próprio? “A questão coloca-se, sempre, nos momentos kairos dos grandes acontecimentos”, responde Adelino Gomes.

“Pessoalmente, vivi-os no 25 de Abril, no 11 de Março, em Julho de 1975, em Angola, em Outubro do mesmo ano, em Timor e nos anos que se seguiram até ao referendo de 1999, para falar apenas das mais impressivas neste plano.”

“Sempre me coloquei a mim próprio a questão, no plano teórico. Mas nunca encontrei outra resposta plausível que não a que Fisk dá: é ridícula a ideia de que se pode equilibrar um artigo dando igual espaço aos opressores e às vítimas.”

“O que não quer dizer (de modo algum) que não se ouçam os opressores. Tratando os seus pontos de vista com o mesmo rigor que se deve dar a todos os outros.”

“Se nós, nós, o Ocidente, continuarmos a olhar o mundo muçulmano como alvo, haverá cada vez menos diferenças entre os Taliban, a Al-Qaeda, o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica”, avisa Robert Fisk. “Nós é que estamos a fazer deles um só. Eles não são um único grupo”
© i.ytimg.com

Esta entrevista, agora actualizada, e os testemunhos de outros repórteres foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO, em 5 de Dezembro de 2008 | This interview, now updated, and the testimonies of other reporters were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 5, 2008 

Nujood Ali divorciou-se aos 10 anos

A revista Glamour distinguiu-a como uma das dez Women of the Year 2008. A menina que comoveu um juiz quando foi a tribunal para se libertar dos abusos do marido viajou de Sanaa, capital do Iémen, até Nova Iorque, por ter aberto o caminho a outras crianças que querem libertar-se de casamentos forçados. [A sua história deu um livro mas é o pai que a ‘vendeu’ quem está a gastar os direitos de autor.]. (Ler mais | Read more…)

O drama de Nujood Ali começou quando o pai, desempregado que recolhia lixo nas ruas, quebrou a promessa de não a retirar da escola para lhe arranjar marido, tal como  fizera às outras irmãs. Ela frequentava a 2ª classe e adorava estudar Matemática e o Corão. Ele foi buscá-la para a entregar a um homem de 30 anos, o carteiro Faiz Ali Thamer
© Brian Danton  | The New York Times

No dia 10 [de Novembro de 2008], quando pisou o palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, acompanhada da sua advogada Shada Nasser (também ela premiada), Nujood Mohamed Ali al-Ahdal irradiava luz, com uma túnica tradicional violeta e uma bandelette amarela a segurar longos cabelos negros. Impressionou pela timidez e valentia que fizeram dela a mais jovem receptora deste galardão, atribuído desde há mais de duas décadas.

“Mal posso esperar conhecê-la, vai ser muito inspirador falar com ela. Que história incrível”, disse Condoleezza Rice, uma das premiadas. Outra [antiga] secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, também contemplada, exclamou: “Ela é exemplo de coragem. Uma das mulheres mais extraordinárias que eu já conheci.”

Os elogios agradaram a Nujood, mas do que ela mais gostou, segundo o New York Daily News, foi de uma visita ao Museu Americano de de História Natural, de um passeio no Central Park e de um cruzeiro no rio. Tudo tão diferente do bairro com esgotos a céu aberto e do casebre onde viviam o pai, a mãe, a madrasta e 15 irmãos.

O drama de Nujood começou quando o pai, um desempregado que antes recolhia lixo nas ruas, quebrou a promessa de não a retirar da escola para lhe arranjar um marido, como fez a outras irmãs. Ela frequentava a segunda classe e adorava estudar Matemática e o Corão. Ele foi buscá-la para a entregar a um homem de 30 anos, o carteiro Faiz Ali Thamer.

A 12 de Março de 2013, o repórter Joe Sheffer, do diário britânico The Guardian, dava conta de que os direitos de autor do livro I Am Nujood, Age 10 and Divorced, com a história da menina iemenita que deveriam pagar os seus estudos “estão a ser gastos pelo pai [na foto].” Este casou-se novamente e também ‘vendeu’ a irmã mais nova a um homem com o dobro da idade dela, queixou-se Nujood Ali
© Annasofie Flamand

No dia do casamento, confiante num alegado compromisso de que a união não seria consumada antes de ela “ser adulta”, a menina ficou fascinada com o dote: três vestidos, um perfume, duas escovas do cabelo, dois hijab (lenços usados, voluntariamente ou impostos pela família, como sinal de devoção islâmica) e um anel cujo preço equivaleria a cerca de 20 dólares americanos. Este foi logo vendido por Faiz Thamer, que comprou roupas para si. A partir dali, a vida da recém-casada só piorou.

“Eu corria de sala em sala para tentar fugir, mas ele acabava sempre por me apanhar”, revelou Nujood ao jornal Yemen Times. “Chorei tanto, mas ninguém me ouvia. Sempre que eu queria brincar no pátio, ele vinha, batia-me e obrigava-me a ir para o quarto com ele. E se seu pedia misericórdia ainda batia e abusava mais de mim. Eu só queria ter uma vida respeitável. Um dia fugi.”

E esse dia foi 2 de Abril de 2008, dois meses após o casamento. Sob o pretexto de ir visitar a sua irmã favorita, Haifa (que aos 9 anos vendia pastilhas na rua), seguiu o conselho da “tia” (a segunda mulher do pai) e foi procurar justiça. Esta mendiga que ocupa um quarto com os seus cinco filhos foi a única que a tentou ajudar.

Faiz Ali Thamer, o carteiro com quem o pai obrigou Nujood a casar-se e cujos maus tratos ditaram a anulação desta união forçada
© Khaled Fazaa | AFP | Getty Images

Nujood apanhou primeiro um autocarro e depois um táxi e foi até a um tribunal de Sanaa. Era tão pequenina, que quase passou despercebida aos magistrados, aos advogados e a outros funcionários.

À hora de almoço, quando a multidão se dispersava, relatou o diário Los Angeles. Times, “um juiz curioso aproximou-se dela e perguntou-lhe o que fazia sentada num dos bancos”. A resposta foi: “Vim pedir o divórcio.” Mohammed al-Qadhi, o juiz, ficou comovido.

“O tribunal estava quase a fechar, e ele levou-a para casa dele”, contou-nos, por e-mail, a advogada Shada Nasser. “No sábado seguinte, ele mandou deter o marido e o pai. Foi então que eu apareci e me ofereci para a representar.”

Nasser ficou intrigada por Nujood ter recusado ir para um lar de acolhimento e ter preferido voltar à casa paterna, mas nunca mais a abandonou. Quando o veredicto chegou – dissolução do casamento -, a notícia espalhou-se pelo Iémen e pelo resto do mundo.

A CNN incluiu a advogada numa “galeria de heróis”, por ela ter aceitado defender gratuitamente todas as outras (e muitas) meninas que entretanto quiseram seguir o exemplo de Nujood.

Nujood e dois irmãos – à direita, de preto, Haifa Ali, noiva de um homem que nunca viu. “Não me quero casar”; estou muito assustada, mas o dote já foi pago [ao pai] e eu gostava de continuar a estudar”, disse ela ao jornal The Guardian. A menina que, em 2008, conseguiu o divórcio, interrompeu-a para sentenciar: “Não vou permitir que isso aconteça. Vou falar com o maior número possível de jornalistas e advogados – porque isto é ilegal!”
© Annasofie Flamand

No Iémen, segundo um estudo da Universidade de Sanaa, cerca de 52% das raparigas são forçadas a casar-se antes dos 18 anos. “O exemplo de Nujood vai aumentar a pressão para que se defina uma idade mínima para casar”, diz-nos, por telefone, Mohammed al-Kibsi, do jornal Yemen Observer.

“Os islamistas do Comité da Shariah recusam impor limites, mas há um grande movimento da sociedade civil para que o Parlamento aprove uma lei que imponha os 18 anos como idade mínima. Vai haver compromisso, para os 16 anos.”

Al-Kibsi lamenta que nenhum jornal em língua árabe – nem mesmo no Iémen – tenha noticiado o prémio de Nujood e Nasser. “É pena que a maioria das pessoas ignorem o que aconteceu, até porque, para a maioria das tribos, no Norte e no Sul, o casamento forçado é uma vergonha.”

Nujood Ali, que completou já a15 anos (em 2013), não desiste de querer estudar em Inglaterra e ser, um dia, advogada, como Shada Nasser: “A realidade pode ser cruel comparada com os sonhos – mas também pode trazer surpresas boas”
© National Geographic

“A minha vida é doce como um rebuçado”, disse Nujood à Glamour, que a descreve como “a divorciada mais célebre do mundo”. Regressou à escola. Quer ser advogada. “Para proteger outras meninas como eu.”

[A 12 de Março de 2013, num artigo enviado a partir de Sanaa, o repórter Joe Sheffer, do diário britânico ‘The Guardian’, dava conta de que os direitos de autor do livro (“I Am Nujood, Age 10 and Divorced”) com a história da menina iemenita que deveriam pagar os seus estudos “estão a ser gastos pelo pai.”

Este casou-se novamente e também ‘vendeu’ a irmã mais nova a um homem com o dobro da idade dela, queixou-se Nujood. “Ele tem agora quarto mulheres, 14 filhos e não aprendeu nada com a minha experiência. Ele só me dá entre 20 e 30 dólares por mês.”

O livro foi escrito pela jornalista Delphine Minoui, publicado originalmente em França, traduzido para 16 línguas e vendido em 35 países, incluindo Portugal.

A editora Michel Lafon fez um acordo para pagar a Ali Mohammed al-Ahdal, o pai de Nujood, cerca de 1000 dólares mensais até ela completar 18 anos e ser independente. Comprou também uma casa ampla para acomodar toda a família, na capital iemenita, e criou um fundo que deveria pagar directamente à escola a educação de Nujood. 

O que Joe Sheffer soube, porém, é que Nujood foi expulsa de casa e não recebeu um tostão da quantia entregue ao pai. O primeiro andar da casa está alugado a  outra família, e a nova mulher do pai instalou-se no segundo piso. “Fui obrigada a sair e a viver na casa velha, apinhada com os meus irmãos mais velhos”, irritou-se Nujood.

Enquanto ouvia está denúncia, Joe Sheffer viu que, a um canto, estava Haifa Ali, a irmã mais nova, noiva de um homem que nunca viu. “Não me quero casar”; estou muito assustada, mas o dote já foi pago [ao pai] e eu gostava de continuar os meus estudos.”

O pai recusou falar com o “Guardian”, mas uma porta-voz da editora Michel Lafon prometeu que iria tentar alterar a situação, ressalvando, todavia, que não pode pagar directamente a Nujood; “As leis no Iémen favorecem o pai, e este tem muitos juízes do seu lado, contra Nujood”.

[Em Novembro de 2016, Akbar Shahid Ahmed, do Huffington Post, actualizou a situação de Nujood: “Nunca acabou os estudos. Casou-se em 2014 e tem duas filhas. Em 2015, foi à Arábia Saudita para se tratar de tuberculose. Tinha esperança que Hillary Clinton fosse eleita Presidente dos EUA e acabasse com a guerra no Iémen.]

A missão da advogada Shada Nasser

Shada Nasser, a advogada de Nujood, está envolvida na luta contra as tradições tribais, por uma nova lei de protecção da família e menores, no Iémen
© Delphine Minoui | Los Angeles Times

A 8 de Abril de 2008, Shada Nasser foi a correr para um tribunal em Sanaa, capital do Iémen, assim que soube que Nujood Mohammed Ali al-Ahdal, uma menina de 10 anos (agora tem 15), apareceu sozinha perante um juiz a pedir para se divorciar do marido, que tinha 30.

“Quando o juiz ordenou a detenção do marido e do pai de Nujood, que a obrigara a casar-se, dei-lhe um abraço forte e prometi-lhe que a ajudaria”, contou-nos Shada Nasser, numa entrevista por e-mail, antes de ambas receberem, em Nova Iorque, o prémio Women of the Year 2008 da revista Glamour. “Ela sorriu e eu fiquei confiante que conseguiria vencer este caso.”

Há mais de uma década que a advogada iemenita, [agora com 54 anos], que usa o hijab (lenço) mas não o niqab, que cobre o rosto, quando comparece em tribunal, está envolvida na luta contra as tradições tribais, por uma nova lei de protecção da família e menores.

A militância pelos direitos humanos  aprendeu-a com o pai, Mohamed Nasser Mohamed, diplomata e jornalista, que ajudou a fundar um diário incómodo para o poder, Al-Tariq. Igualmente fundamental, para Shada, foi o exemplo da sua mãe, encorajada pelo marido desde que se casaram, a que nunca ocultasse a face, mas que tivesse um emprego e conduzisse o carro de ambos.

Os pais de Shada viviam no Iémen do Sul, marxista e secular, antes da fusão com o Norte, conservador e religioso, em 1990. Ela tinha 9 anos quando Nasser morreu – o avião onde seguiu foi atingido por uma bomba, no que ele suspeita ter sido um atentado visando silenciar uma voz que o regime não suportava. Foi na véspera da unificação que Shada se mudou de Praga, na actual República Checa, onde estudava, para regressar a Sanaa.

Nujood Ali e a sua advogada Shada Nasser
© glamour.com

Não havia advogadas, quando Shada Nasser chegou à capital iemenita, e foi ela quem ajudou a criar o primeiro escritório de advocacia exclusivamente feminino, com o objectivo de defender mulheres.

Antes de Nujood, ela já se tinha envolvido num processo complicado, em 2005: uma rapariga de 16 anos, condenada a ser fuzilada por ter assassinado o marido. Na prisão, a ré foi violada, supostamente, por um guarda, e engravidou. Um decreto presidencial salvou-lhe a vida, in extremis, porque ela era menor e a lei proibia a pena capital nessas circunstâncias.

No caso de Nujood, foi também sob o argumento de que “não foi respeitada a lei” – muto vaga – sobre a “idade ideal” para ter relações sexuais, e deliberando que se tratou de “violação”, que um juiz dissolveu o casamento. Tratou-se de uma medida mais drástica do que o divórcio.

“Eu tinha de apoiar Nujood [e outras crianças que apareceram depois], sem as oportunidades da minha filha, Lamya, 9 anos, e do meu filho, Khalid, de 4, que frequentam a British School, tocam piano e aprendem francês”, disse-nos Shada Nasser.

“Eu e o meu marido estudámos Direito. Ele é doutorado pela Sorbonne, em Paris, e eu mestre pela Universidade Charles Carlove, em Praga – para onde me mudei quando o meu pai foi morto. Somos activistas e queremos mudar o nosso país.”

[Depois do galardão da ‘Glamour’, Shada e Nujood deixaram de ser falar durante algum tempo, segundo vários relatos, quando a menina se queixou de que a advogada se apropriara indevidamente do dinheiro do prémio. Resolveram, entretanto, o diferendo e voltaram a ser amigas, até porque a revista não pagou a nenhuma delas. Contribui apenas para um fundo da organização Vital Voices que ajuda a impedir casamentos forçados de crianças em várias regiões do mundo.]

Novembro de 2008, dia 10: Nujood e Shada Nasser subiram ao palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, para que a menina recebesse o prémio Women of the Year
© Reuters

Este artigo, aqui na versão integral e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 14 de Novembro de 2008 | This article, here in the expanded and updated version, was originally published in the Portuguese daily newspaper PÚBLICO, on November 4, 2008.