O Irão sabe que, em persa, Obama significa “ele está connosco”

Se a nova Administração norte-americana iniciar negociações com o a República Islâmica, antes das eleições de Junho [de 2009], será um sinal de que não pretende mudar o regime. Entrevistas com a académica iraniana Sanam Vakil e Trita Parsi, presidente do National Iranian American Council. (Ler mais | Read more…)

Ghazaleh Miramini (à esquerda) pratica guitarra com o seu professor de música, Amir Salami numa escola em Teerão (Novembro de 2011). Nos anos 1980, a música quase desapareceu da República Islâmica. Lembra a NBC que "agentes da polícia e de milícias mandavam parar carros para se certificarem que os condutores e passageiros não estavam a ouvir cantores pré-revolucionários; por vezes quebravam as cassetes. Uma década depois, a vida social ganhou um novo dinamismo, sobretudo após a vitória do reformista Khatami. Quando Ahmadinejad chegou ao poder toda a expressão cultural e artística voltou a ser censurada. @AP |NBC

Ghazaleh Miramini (à esquerda) pratica guitarra com o seu professor de música, Amir Salami numa escola em Teerão (Novembro de 2011). Nos anos 1980, a música quase desapareceu da República Islâmica. Lembra a NBC que “agentes da polícia e de milícias mandavam parar carros para se certificarem que os condutores e passageiros não estavam a ouvir cantores pré-revolucionários; por vezes quebravam as cassetes. Uma década depois, a vida social ganhou um novo dinamismo, sobretudo após a vitória do reformista Mohammad Khatami. Quando Mahmoud Ahmadinejad chegou ao poder toda a expressão cultural e artística voltou a ser censurada
© AP | NBC

O Irão não parou para ver a tomada de posse de Barack Obama. A televisão estatal não mostrou uma só imagem da cerimónia e não apareceram fotos do sucessor de George W. Bush nas primeiras páginas dos jornais. No entanto, a sua oferta de “estender a mão aos que têm o punho fechado” não foi ignorada.

O Presidente [agora substituído pelo pragmático Hassan Rouhani, eleito em 2013] Mahmoud Ahmadinejad disse ao Daily Telegraph, de Londres, que vai ser “paciente” para ver se há mudança. Se sim, “será uma nova era entre nós”, frisou.

Para analisar o impacto de uma reaproximação dos EUA ao Irão, três décadas depois da queda do Xá Pahlavi e da instauração pelo Ayatollah Khomeini da primeira República Islâmica, falámos separadamente, por telefone, com dois analistas iranianos.

Trita Parsi, que não perdeu a esperança de vir a ser consultor de Obama, é presidente do National Iranian American Council (NIAC), a maior organização de apoio ao cerca de um milhão de iranianos a viver na América. Escreveu uma obra de referência, Treacherous Alliance – The Secret Dealings of Iran, Israel and the United States, a partir da sua tese de doutoramento, orientada por Francis Fukuyama, na John Hopkins University.

Sanam Vakil, que também nasceu no Irão e se doutorou na mesma universidade, onde leccionou Estudos do Médio Oriente [agora é professora Associate Fellow do Programa de Médio Oriente e Norte de África da Chatham House/The Royal Institute of International Affairs], foi investigadora no Council on Foreign Relations e é autora de Through the Looking Glass: An Analysis of US-Iranian Relations. Se o processo de reconciliação EUA-Irão tiver êxito, “mudará profundamente o Médio Oriente”, reconheceram ambos.

Ahmadinejad, que enviou uma carta inédita a felicitar Obama pela sua eleição, em Novembro de 2008, estará ansioso pelo diálogo com o homólogo cujo nome do meio (Hussein) é o de uma figura venerada pelos xiitas, e cujo último nome (Obama) significa, em farsi, “Ele está connosco”.

Na Rua Ferdowsi (nome de um poeta nacional), em Teerão, um homem coloca notas de dólares dos EUA num saco plástico. O seu negócio é o câmbio, mas em Dezembro de 2011, quando esta fotografia foi tirada, o valor do rial, a moeda iraniana, sofrera uma queda bruta: 1 dólar = 16,50 riais. Ainda assim, nada que se compare a 1979, o ano da Revolução Islâmica, a taxa equivalia a 1 dólar = 70 riais. @Vahid Salemi |AP |NBC

Na Rua Ferdowsi (nome do poeta nacional, autor do épico Livro dos Reis), em Teerão, um homem coloca notas de dólares dos EUA num saco plástico. O seu negócio é o câmbio, mas em Dezembro de 2011, quando esta fotografia foi tirada, o valor do rial, a moeda iraniana, sofrera uma queda bruta: 1 dólar = 16,50 riais. Ainda assim, nada que se compare a 1979, o ano da Revolução Islâmica, a taxa equivalia a 1 dólar = 70 riais
© Vahid Salemi |AP |NBC

Já é oficial que Barack Obama vai mudar a política dos EUA em relação ao Irão. Qual será a resposta da República Islâmica?

SANAM VAKIL É difícil especular, porque não sabemos os objectivos da nova política norte-americana. Até agora, os iranianos têm enviado mensagens receptivas. Têm sido bastante mais moderados na sua linguagem e até nas reacções à guerra em Gaza.

Sim, o Irão tem uma boa relação com o Hamas, mas de modo algum é comparável aos laços que mantém com o Hezbollah no Líbano, uma aliança estratégica para salvaguardar os seus interesses em países árabes com minorias xiitas.

Os iranianos têm sido muito prudentes, e podemos ler essa prudência como uma oportunidade para a mudança. O Irão precisa de duas coisas: de segurança, porque quer sentir que depois de 30 anos [desde a Revolução Islâmica] é aceite pelos EUA e que o seu regime não estará constantemente sob ameaça; e do levantamento das sanções que estão a asfixiar a sua economia.

Em troca, o Irão pode oferecer menos beligerância, quer em relação à política externa norte-americana no Golfo Pérsico quer ao conflito Israel-Palestina.

TRITA PARSI Há um consenso no Irão de que negociar com os EUA, nas circunstâncias certas, será benéfico para o país. Mas é imperativo que os EUA revelem o que querem do Irão. Querem apenas uma redução de tensões ou a resolução dos problemas?

Se a mudança de regime continuar a ser um objectivo estratégico, então o Irão não irá ajudar em nada. O Irão quer uma solução global dos contenciosos com os EUA. Isso inclui o seu programa nuclear e o reconhecimento de que é uma potência regional. O erro dos iranianos é não terem ainda clarificado o que pretendem quando reclamam ser potência regional.

 Iranian Jewish men carry the Torah scroll out from a cupboard to be read during morning prayers at Yusef Abad synagogue in Tehran on Monday. Present for more than 2,500 years in Persia, Iranian Jews have lost more than 70 per cent of their 80,000 to 100,00 population who lived in Iran before the 1979 Islamic revolution. Today Iran is home to about 8,750 Jews, according to a 2011 census. They are scattered across the country, but are mostly in the capital Tehran, Isfahan in the centre and Shiraz in the south. @Behrouz Mehri/AFP

Judeus iranianos retiram os Rolos da Torah de um armário, para sem lidos nas orações matinais na Sinagoga de Yusef Abad, em Teerão (2014]. Com uma presença na Pérsia que remonta há mais de 2500 anos, a comunidade judaica perdeu mais de 70% dos seus membros (de 80.000 para os actuais 8.750 crentes) desde a Revolução Islâmica de 1979, segundo um censo de 2011. Os judeus iranianos vivem por todo o país, mas sobretudo na capital, em Isfahan (Centro) e em Shiraz (Sul)
© Behrouz Mehri | AFP | Financial Times

Quem detém o poder no Irão?

SANAM VAKIL – Os EUA já compreenderam que quem toma as decisões finais no Irão é o Guia Supremo, Ayatollah Ali Khamenei. Não sabemos se os americanos irão ter contactos directos com o seu gabinete, mas é certo que qualquer negociação será supervisionada por ele e terá de ser aprovada por ele. O [anterior] Presidente Mahmoud Ahmadinejad é apenas uma voz.

Pode ser a que mais se ouve, mas não tem poder para agir sem a aprovação do Guia Supremo. E é este que tem a autoridade total sobre questões de segurança nacional – não Ahmadinejad! No Irão, há uma luta de facções que dura há vários anos, mas quem controla realmente o país tem uma grande abertura face à ideia de negociações com os EUA.

Esta é uma questão discutida abertamente pelas elites e pelos círculos de poder. Já ninguém diz ‘se’, mas ‘quando’. Todos os candidatos às eleições iranianas estão ansiosos por anunciar que foram eles que permitiram a reconciliação com os EUA, sejam os pragmáticos, como Ali Larijani, ou os da linha dura, como Ahmadinejad.

TRITA PARSI – Há muitas pessoas a decidir, mas a decisão final é a de Ali Khamenei. E, se olharmos para ele atentamente, isso é bem claro.

Tem alguns problemas de saúde, mas nada que o impeça de desempenhar o seu papel. Isso não quer dizer que todo o processo [de aproximação aos EUA] dependa de um só homem, mas ele é a pessoa com mais peso e poder.

Mahnaz Mollaei, (à direita) ensina patinagem a crianças, no Clube Pardis, na cidade de Isfahan, a sul de Teerão, a capital iraniana. Foto de 1 de Janeiro de 2012 @Vahid Salemi | AP | NBC

Mahnaz Mollaei, (à direita) ensina patinagem a crianças, no Clube Pardis, na cidade de Isfahan, a sul de Teerão, a capital iraniana. Foto de 1 de Janeiro de 2012
© Vahid Salemi | AP | NBC

Obama vai tentar aproximar-se antes das eleições presidenciais iranianas, em Junho [de 2009]?

SANAM VAKIL – Se os EUA optarem por se aproximar só depois das eleições, estarão a sinalizar que o acto eleitoral é crucial para as relações bilaterais. Se esperarem, estarão a enviar a mensagem de que ainda procuram uma mudança de regime, e essa mensagem só exacerbou tensões.

Se avançarem já, poderão influenciar as eleições, porque as relações com os EUA serão um dos temas da campanha. E se as negociações forem frutíferas, Ahmadinejad, ou outro candidato, vai usar esse sucesso para reforçar a sua posição.

A política dos últimos anos de procurar mudar o regime apoiando movimentos democráticos no Irão foi muito negativa, não só para as relações EUA-Irão como também para os activistas da sociedade civil iraniana.

TRITA PARSI – Barack Obama disse que iria seguir uma abordagem global. Isso indica que ele não procura apenas uma gestão do conflito, mas vai procurar resolver o conflito. Precisamente porque ele manifestou interesse nessa abordagem global, não creio que será exequível esperar até depois de Junho para estabelecer contactos com o Irão.

Os primeiros contactos deverão ser a nível de base, não necessariamente uma grande abertura, porque a realidade é que os EUA sabem muito pouco sobre o Irão e sobre as intenções iranianas, e vice-versa, porque os contactos têm sido mínimos.

Creio que haverá primeiro um período de recolha de informações, de forma a entender o que melhor fazer. Há um grande risco em esperar. Não há garantias de que esperar possa prejudicar Ahmadinejad [nas eleições]. Até pode ajudá-lo. Depois, até mesmo os reformistas têm dito que será mais fácil ao próximo Presidente iraniano, seja ele qual for, falar com os EUA se as conversações forem iniciadas ainda durante o mandato de Ahmadinejad.

Estudantes universitários iranianos partilham chapéus de chuva, num dia de tempestade de neve (8 de Novembro de 2010), em Teerão. A inesperada neve de Outono obrigou ao encerramento de escolas e estradas na maior parte do Norte do país. @Caren Firouz | Reuters | NBC

Estudantes universitários iranianos partilham chapéus de chuva, num dia de tempestade de neve (8 de Novembro de 2010), em Teerão. A inesperada neve de Outono obrigou ao encerramento de escolas e estradas na maior parte do Norte do país.
© Caren Firouz | Reuters | NBC

É possível negociar com Ahmadinejad, o presidente que quer “apagar Israel das páginas da história” e negar o Holocausto?

SANAM VAKIL – Com toda a certeza! Ahmadinejad é um animal político muito pragmático. Todos os seus discursos e acções têm sido tácticos, no sentido de aumentar o seu poder e popularidade. Se Ahmadinejad mostrou alguma coisa é de que ele não hesitará em seguir todos os meios para conseguir o que nenhum Presidente no Irão foi capaz de obter.

Poderá não viajar até Jerusalém, como fez Anwar Sadat em 1977, mas reconhecerá que o conflito israelo–palestiniano tem de ser resolvido pelos israelitas e palestinianos, não necessariamente pelo Irão. É difícil acreditar nisto, mas também era difícil acreditar que os EUA se iriam aproximar da China, em 1969.

E, no entanto, mantiveram dois anos de negociações [até à visita de Richard Nixon a Pequim em 1972], porque isso era do interesse dos dois países. O regime em Teerão age mais por interesse nacional do que ideológico.

TRITA PARSI – Ahmadinejad tornará tudo muito mais difícil, politicamente, para que a aproximação aos EUA tenha êxito. Mas até as diatribes ideológicas de Ahmadinejad contra Israel têm um objectivo estratégico. Israel é visto como obstáculo à reconciliação entre os EUA e o Irão.

A retórica anti-Israel ajuda a eliminar o fosso persa-árabe e xiita-sunita; mobiliza as massas árabes para impedirem que os seus regimes se aliem a Telavive contra Teerão. Se Benjamin Netanyahu ganhar as eleições em Israel, em Fevereiro [de 2009], a situação ficará mais complicada.

Será [e foi] um pesadelo para Obama ter Netanyahu e Ahmadinejad ao mesmo tempo no poder. Mas creio também que Netanyahu não quer afectar negativamente as relações EUA- Israel.

Um teólogo iraniano espera pelo início de uma conferência, em Teerão, intitulada "Gaza, Um símbolo de Resistência", em 18 de Janeiro de 2012. Teerão manteve, sob a presidência de Ahmadinejad, laços estreitos com o movimento palestiniano Hamas, ao qual fornecia, supostamente, armas e munições. @Caren Firouz / Reuters

Um teólogo iraniano espera pelo início de uma conferência, em Teerão, intitulada “Gaza, Um símbolo de Resistência”, em 2012. Teerão manteve, sob a presidência de Ahmadinejad, laços estreitos com o movimento palestiniano Hamas, ao qual fornecia, supostamente, armas e munições
© Caren Firouz | Reuters

O programa nuclear iraniano estará desde logo na mesa?

SANAM VAKIL – Não sei se os EUA vão envolver imediatamente o Irão de forma tão directa. Creio que começarão por abordar questões regionais, como o Iraque e o Afeganistão. Tentarão estabelecer a confiança mútua em áreas onde há potencial de cooperação, antes de discutir a questão nuclear.

TRITA PARSI – Não abordar desde o início a questão nuclear seria um erro, porque o Irão não irá colaborar no Iraque ou no Afeganistão se não houver uma indicação de qual o objectivo dos EUA. Por que haveria de ajudar os americanos sem saber o que vai receber em troca?

Em Teerão, uma menina aprende a tocar flauta na Escola Pishtaz - o primeiro estabelecimento de ensino pré-primário, equipado com computadores para crianças sobredotadas. Aqui, informou a NBC "usa-se a inovação tecnológica para melhorar o sistema de educação. Os pais podem seguir as actividades diárias dos seus filhos através de câmaras de TV instaladas nas salas de aulas, corredores, ginásios e pátios." @Raheb Homavandi | Reuters | NBC

Em Teerão, uma menina aprende a tocar flauta na Escola Pishtaz – o primeiro estabelecimento de ensino pré-primário, equipado com computadores para crianças sobredotadas. Aqui, informou a NBC “usa-se a inovação tecnológica para melhorar o sistema de educação. Os pais podem seguir as actividades diárias dos seus filhos através de câmaras de TV instaladas nas salas de aulas, corredores, ginásios e pátios”
© Raheb Homavandi | Reuters | NBC

As linhas vermelhas em relação ao programa nuclear vão manter-se?

SANAM VAKIL – As linhas vermelhas estão a mudar. Obviamente que a Europa e os EUA, a Rússia e a China vão tentar limitar a evolução do programa atómico iraniano, tentando restringi-lo à energia nuclear civil. Creio que esse é o objectivo do Conselho de Segurança da ONU, da Alemanha, do Japão e de outros países.

Haverá um compromisso com o regime iraniano, mas o programa nuclear será sujeito a um rigoroso controlo e supervisão, de modo a garantir que é fiável depois de tanta opacidade. Se o Irão está pronto para este compromisso, é difícil de dizer porque muito depende do que lhe irá ser oferecido.

Os iranianos querem garantias de que não haverá tentativas de mudança de regime, ingerência na sua soberania nacional e, claro está, o restabelecimento de laços diplomáticos com os EUA. Os europeus serão muito importantes neste processo.

Devem continuar unidos no Conselho de Segurança da ONU, cooperando com os EUA nos incentivos e nas restrições ao Irão para forçar o regime a fazer concessões.

TRITA PARSI – Vai ser muito interessante ver qual a coordenação entre americanos e europeus quando forem redigidas novas resoluções do Conselho de Segurança (CS) da ONU. A promessa de Obama é a de negociar sem condições prévias, o que obrigará o CS a algumas mudanças.

O ponto crítico é saber exactamente se os EUA vão mudar a linha vermelha, se estão dispostos a levantar sanções em troca de melhor comportamento do Irão. Bush queria obter algo e não oferecer nada. Isso não é negociar. É uma ameaça e um ultimato.

Não será a imposição de mais sanções que vai mudar o comportamento iraniano mas a proposta de levantar sanções. A não ser que o Ocidente redefina o jogo e modifique a pressão sobre o Irão – em vez de exigir o fim do enriquecimento de urânio (exigência que falhou), exigir o não fabrico da bomba, criando desincentivos para o Irão não ter a arma nuclear -, o tempo continuará a estar do lado do Irão.

Uma cristã iraniana procura decorações de Natal numa loja no centro de Teerão. Fotografia tirada a 13 de Dezembro de 2011. Actualmente, calcula-se que haja 600 igrejas para 250 mil cristãos, de vários ritos. @Morteza Nikoubazl / Reuters

Uma cristã iraniana procura decorações de Natal numa loja no centro de Teerão. Fotografia tirada a 13 de Dezembro de 2011. Actualmente, calcula-se que haja 600 igrejas para 250 mil cristãos, de vários ritos.
© Morteza Nikoubazl | Reuters

Em 2003, o Irão do reformista Mohammad Khatami propôs à Administração de George W. Bush suspender o enriquecimento de urânio, deixar de armar o Hamas e o Hezbollah e apoiar o plano de paz da Liga Árabe, em troca da garantia de que os EUA não ameaçariam a sua segurança no Golfo Pérsico. Saddam tinha sido derrubado em Bagdad, e Bush recusou. A oferta ainda é viável?

SANAM VAKIL – Neste momento, o Irão considera que está numa posição de força, sobretudo desde que a maioria xiita governa o Iraque. [Em 1984, Khomeini recusou-se a ajudar os xiitas libaneses e a entrar em guerra com os invasores israelitas, emitindo um édito onde dizia que “a estrada para Jerusalém passa por Karbala“].

Em 2003 estava numa posição de fraqueza [temia o mesmo destino de Saddam]. Para obter o que foi proposto a Bush, Obama terá de fazer agora muito mais concessões. 

TRITA PARSI – A proposta [de 2003] ainda está na mesa, mas os Estados Unidos vão ter de pagar um preço muito mais elevado do que naquela altura.

Trita Parsi, fundador e presidente do National Iranian American Council (NIAC) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Trita Parsi, fundador e presidente do National Iranian American Council (NIAC)
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Que impacto terá no Médio Oriente, uma aproximação EUA-Irão?

SANAM VAKIL – Poderá haver mais estabilidade. O Irão já apoia o governo de [Nouri al-]Maliki no Iraque e o de [Hamid] Karzai no Afeganistão. Aqui, também interessa aos iranianos e a americanos travar a ascensão de inimigos comuns, como os salafistas da al-Qaeda e os extremistas sunitas taliban [em 1988, a República Islâmica quase travou uma guerra contra os estudantes de teologia que governavam Cabul].

Ambos estão determinados a combater o tráfico de droga na fronteira afegã. Há também interesses económicos e comerciais mútuos, designadamente na área da energia [com as maiores reservas naturais de gás natural em todo o mundo, embora exportando apenas 2 por cento do total global, o Irão pode servir de alternativa aos russos].

TRITA PARSI – Haverá uma mudança total e profunda no Médio Oriente. E será muito positivo. Não podemos ter uma paz duradoura se um dos países mais poderosos na região for excluído. Como seria hoje a Europa se a Alemanha estivesse de fora?

A relação EUA-Israel vai continuar forte, mas vai mudar porque o pilar dessa relação deixará de ser a oposição ao Irão. Consequentemente, o Irão também vai ter de mudar a sua posição face a Israel. Deixará de criar problemas a Israel, porque será reconhecido como potência legítima. É a exclusão do Irão que lhe dá incentivos para desestabilizar a região.

Sanam Vakil, autora de autora de Through the Looking Glass: An Analysis of US-Iranian Relations © Chatham House

Sanam Vakil, autora de Through the Looking Glass: An Analysis of US-Iranian Relations
© Chatham House

E qual o impacto da abertura aos EUA sobre o regime iraniano?

SANAM VAKIL – Neste momento, as autoridades têm vindo a reprimir activistas como a Prémio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, e a impedir que ‘think tanks’ europeus organizem seminários no Irão. São sinais claros com dois destinatários. O primeiro é os EUA e a Europa, que têm financiado métodos de mudança do regime.

A mensagem é: “Não interfiram nos nossos assuntos internos, não hesitaremos em reprimir essas forças.” O segundo destinatário é a sociedade civil – jornalistas, estudantes, mulheres, religiosos, intelectuais, académicos americanos de origem iraniana. O regime quer provar que não tem medo de usar todos os meios para travar a dissidência.

Os EUA deram o pretexto para essa repressão ao financiarem uma via de confronto para derrubar o regime, e este reagiu como autodefesa. Se houver uma aproximação aos EUA, talvez haja mais liberdade para florescerem os vários grupos da sociedade civil, que é vibrante e criativa. Será um processo difícil, longo e frustrante.

Haverá muitos desmancha-prazeres: russos e chineses, que têm aproveitado o isolamento do Irão para reforçar laços económicos; os países árabes sunitas que temem o ressurgimento de um vizinho xiita ainda mais poderoso.

Quanto a Israel, vai estar atento ao tipo de concessões que americanos e iranianos farão. No futuro, todos compreenderão, porém, que sempre foi mais produtivo ter relações com o Irão do que marginalizá-lo.

TRITA PARSI – À medida que o Irão deixar de estar isolado, vai ser mais difícil ao regime aguentar-se e reprimir a sociedade civil. Vai haver mais espaço para activistas pró-democracia. O Governo deixará de ter o argumento de que, por motivos de segurança, precisa de reprimir os dissidentes.

Em 23 de Novembro de 2013, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry (à direita - na foto com o chefe da diplomacia de Teerão, Mohammad Javad Zarif), anunciou um acordo entre o Irão e os países P5+1 (Alemanha, China, Estados Unidos França, Reino Unido e Rússia) que prevê o levantamento parcial de sanções económicas em troca do compromisso, por parte do novo Presidente Hassan Rouhani de limitar o enriquecimento de urânio do Irão. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 23 de Novembro de 2013, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry (à direita – na foto com o chefe da diplomacia de Teerão, Mohammad Javad Zarif), anunciou um acordo entre o Irão e os países P5+1 (Alemanha, China, Estados Unidos França, Reino Unido e Rússia) que prevê o levantamento parcial de sanções económicas em troca do compromisso, por parte do Presidente, Hassan Rouhani, de limitar o enriquecimento de urânio do Irão
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente o jornal PÚBLICO, em 22 de Janeiro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 22, 2009

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