“Ponham-se no lugar daqueles a quem chamam vilões”

Este artigo foi planeado depois de ler centenas de comentários às notícias sobre a guerra na Faixa de Gaza. Quisemos perceber a razão de tanto ódio aos israelitas e/ou aos palestinianos. A muçulmana Raquel Evita Saraswati e o judeu Roi Ben-Yehuda deixam aqui um conselho: “Escolham o campo dos que defendem a paz, seja qual for o lado da ‘fronteira’ em que vivem”. (Ler mais | Read more…)

Uma criança israelita observa a rua a partir da janela da sua casa destruída por um morteiro disparado por facões palestinianas na Faixa de Gaza. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Uma criança israelita observa a rua a partir da janela da sua casa destruída por um morteiro disparado por facões palestinianas na Faixa de Gaza
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Um leitor identificado como “Fantasma Vermelho, Leninegrado”, escreveu: Quanto mais rápido o sionismo assinar todas as suas sentenças e certidões de óbito, quanto melhor! Massacre puro e duro. Do mais fiel nazismo que por aí habita. Holocausto aplicado pelos descendentes das suas vítimas. A ironia da História? […] Morte ao Sionismo! Viva a Palestina!!!.

Um outro leitor, Alexandre Pinto, Lisboa” deixou esta quase prece: Israel, que Deus te ilumine, não te falhe a pontaria e a mão pesada. Acaba de vez com a peçonha que habita as tuas fronteiras. Não tenhas dó nem piedade. Avança com botas cardadas e não te preocupes com os chamados alvos civis porque é onde se escondem os terroristas cobardes do Hamas.

Porquê tanto ódio? Por que temos de escolher um dos lados?

Para encontrar respostas, batemos à porta de um judeu, Roi Ben-Yehuda, e de uma muçulmana, Raquel Evita Saraswati, dois amigos que vivem nos Estados Unidos, reconhecidos como “agentes de coragem moral”, porta-vozes de uma nova geração, que não olha para “o outro” como fonte de todo o mal.

Licenciada em Relações Internacionais, Raquel Evita Saraswati, em Boston, define-se como “uma académica e activista muçulmana reformista, cujos principais interesses são a religião e os direitos humanos, a resolução de conflitos e a reconciliação da cultura com a soberania individual”.

Nos EUA ou no Canadá, na Academia Naval norte-americana ou na ONU, ela tem discursado sobre vários temas – crimes de honra, mulheres e o Islão, a situação no Darfur (Sudão) ou o tráfico de crianças no Centro e Sudeste da Ásia. Escreve para jornais como o israelita Ha’aretz, tem sido entrevistada pela CNN e foi capa da revista finlandesa The Freethinker.

Apesar das “ameaças de morte e mutilação física”, ela insiste em que “o Islão obriga todos os crentes a agir com justiça” e em que “a liberdade oferecida pela democracia onde vivemos não deve ser desperdiçada”. Em 2007, recebeu o prestigiado Courage Award da fundação norte-americana Colin Higgins.

Roi Ben-Yehuda é um jornalista freelance licenciado em Artes na New School University e com um mestrado em História Judaica no Jewish Theological Seminary. Vive em Nova Iorque. Prepara um doutoramento em resolução de conflitos.

Os seus artigos, traduzidos para várias línguas, incluindo espanhol, francês, indonésio e urdu, aparecem regularmente no Ha’aretz, Jewcy.com, France 24, The Turkish Daily Times, Al Jazeera, Middle East Times, Middle-East Online, entre outros.

Apresentados que estão os dois, aqui está o que eles pensam, depois de uma troca de e-mails:

ESCOLHER UM CAMPO?

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Roi: “Ao contrário de alguns ideais românticos, o sofrimento não enobrece. Todas as guerras e violência deixaram cicatrizes no nosso povo. Os nossos corações, como ovos em água a ferver, endureceram. Não é que a israelitas e palestinianos falte, intrinsecamente, compaixão; é apenas a realidade no terreno que impossibilita o reconhecimento da humanidade de um e de outro.

A minha amizade com Raquel, e com muitos outros muçulmanos, continua a renovar a minha fé na possibilidade de reconciliação e coexistência. Se a experiência cria inimizade, também cria possibilidade. Quanto mais positivo for o contacto que israelitas/palestinianos e judeus/muçulmanos tiverem uns com os outros, mais próximos ficaremos da paz.

Quanto à ideia de que temos de adoptar ou a perspectiva palestiniana ou a perspectiva israelita, considero que isso é uma razoável mas infeliz resposta ao conflito. Em tempos de crise, quando as vidas e identidades das pessoas estão sob ameaça, é compreensível que a sua cosmopolita visão mundial (se alguma vez existiu) desabe sobre si própria.

Mas temos de reconhecer que ao criar dicotomias positivas e negativas estamos frequentemente a contribuir para o problema. Se escolherem campos, escolham entre os que são a favor da paz, seja qual for o lado da ‘fronteira’ em que eles vivam.

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Raquel Evita: Creio que, por vezes, o ódio é a única maneira que as pessoas têm de canalizar a sua dor, a única maneira em que os seres humanos processam o sofrimento.

Não acredito que as pessoas queiram odiar – no entanto, quando um jovem palestiniano não conhece nada mais que um território sem Estado, nada mais a não ser a vergonha de um checkpoint, nada mais a não ser a visão de corpos ensanguentados; e quando um jovem israelita vê numa viagem de autocarro a morte iminente, vê uma criança da sua idade enrolar munições à cintura para assassinar e destruir em nome de Deus – a razão está perdida.

A razão, que deveria levar um coração humano à compaixão e à reconciliação, à misericórdia e à justiça, não existe.

Nas palavras do escritor Salman Rushdie: ‘O mundo é incompatível, nunca se esqueçam… fantasmas, nazis, santos, todos vivem ao mesmo tempo; num só lugar, felicidade venturosa, enquanto ao fundo da rua é o inferno’. Nenhum povo sabe melhor isto do que os povos de Israel-Palestina. Lutam pela paz, pela simples decência – e, no entanto, o mal da destruição está sempre presente.

A minha amizade com Roi é uma das mais importantes relações da minha vida. Nele eu vejo esperança para a humanidade: um homem cuja vida não tem sido poupada ao horror da violência mas cujo coração tem recusado a toxicidade do ódio. Tantos de nós sabemos que pessoas assim existem no ‘outro lado’ – falamos de anónimos ‘cidadãos palestinianos’ e ‘cidadãos israelitas’, contudo, este conhecimento abstracto não é suficiente.

Os nossos media e políticos demonizam os nossos congéneres, e nós seguimos, demasiadas vezes, esta óbvia manipulação de mentes e espíritos. O que nós, a nova geração de muçulmanos e judeus que apela a paz, devemos fazer é isto: dialogar uns com os outros.

As nossas mentes não devem ser campos de batalha calcados por velhos pensamentos e um ódio persistente. Devemos rejeitar a ideia simplista de que a identidade religiosa ou a etnicidade determina o nosso ‘campo’. Podemos encontrar-nos uns com os outros – até virtualmente – e reinventar esta região. Para além do desejo de reconciliação, podemos e devemos, agir pela paz.

VICIADOS EM VIOLÊNCA?

Uma palestiniana chora depois de um agente da Polícia de Fronteiras de Israel informar que ela não pode entrar na Mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, para os judeus poderem celebrar o Rosh Hashanah, no Muro Ocidental. EPA/JIM HOLLANDER

A tristeza de um grupo de palestinianas depois de um agente da Polícia de Fronteiras de Israel informar que ela não podem entrar na Mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, para os judeus celebrarem o  Ano Novo (Rosh Hashanah), no Muro Ocidental.
© Jim Hollander

Roi: Lamento desapontar alguns dos seus leitores, mas israelitas e palestinianos, líderes incluídos, não acordam de manhã e dizem: ‘Preciso da minha dose de violência’. Isso faria deles monstros e não humanos. A maioria de israelitas e palestinianos envolve-se na violência devido à percepção de que estão sob ameaça e na convicção de que agem em autodefesa e pela causa da justiça. Não é, portanto, um impulso sádico para provocar derramamento de sangue.

Ao mesmo tempo, é óbvio que inúmeros palestinianos e israelitas têm uma doentia confiança na eficácia da violência. Temos depositado demasiada fé no que chamamos de algoritmo da violência: a noção de que a força é o método opcional de resolver conflitos. Esta fé fez com que muitos, tragicamente, rejeitassem formas pacíficas de solucionar o conflito.

Embora a violência em Gaza possa, a curto prazo, resultar numa trégua temporária, nunca acabará com este conflito. Como constatou o músico norte-americano Michael Franti, ‘podem bombardear o mundo e deixá-lo em pedaços, mas não podem bombardeá-lo e conseguir a paz’.

O verdadeiro desafio que Israel-Palestina enfrentam hoje é como transformar a fé das pessoas, do algoritmo da violência para o algoritmo da paz. A minha missão, ao escrever, é encontrar meios criativos para levar a cabo esta transformação.

Uma família de judeus israelitas procura abrigar-se dos rockets lançados por milicianos palestinianos a partir da Faixa de Gaza. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Uma família de judeus israelitas procura abrigar-se dos rockets lançados por milicianos palestinianos, a partir da Faixa de Gaza.
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Raquel Evita: Não tenho a certeza se os líderes israelitas e palestinianos estão viciados na violência, mas creio que são incapazes de olhar para além da violência como forma de solucionar o conflito.

Quando as partes se sentem atacadas – como ambas legitimamente se sentem – a violência parece, frequentemente, a única resposta viável. Tem sido esse o caso desde o aparecimento da Humanidade – e as pessoas de todas as ideologias têm, de uma maneira ou de outra, usado a violência quando têm a percepção de estar em risco.

“Nestas circunstâncias, a diplomacia não tem sido mais do que um interregno entre actos de violência. Mesmo as negociações supostamente sérias têm sido teatrais na sua apresentação. As pessoas que vivem no terreno – por vezes literalmente! – não conseguem olhar de novo para inimigos que apertam as mãos do outro lado do mundo e, instantaneamente, acreditarem que o seu vizinho não os vai matar.

O que precisamos é de uma mudança de ideologia: ambas as partes se apresentam como vítimas e, de facto, ambas as partes são vítimas, até certo ponto. É injusto dizer que a Palestina ‘quer’ ser vista como vítima, quando é o argumento de que é uma vítima que levou Israel a atacar Gaza. Ambas as partes são lar de vítimas e de vitimizados; de poderosos e de impotentes.

O QUE FAZER?

Roi: O meu conselho a todos é reforçar as capacidades de empatia. O Presidente [Barack] Obama estava certo quando, numa visita a Israel, afirmou: ‘Se alguém lançasse rockets sobre a minha casa onde as minhas filhas dormem à noite eu faria tudo ao meu alcance para impedir isso. E espero que os israelitas façam o mesmo’.

Isto é o que o mundo precisa de fazer antes de chamar a Israel ‘um cancro entre as nações’. Desafio os leitores do seu jornal a interrogarem-se sobre quão contidos seriam se uma organização político-militar em Espanha bombardeasse as suas cidades com mísseis numa base diária. Quão tolerantes seriam se as suas povoações ficassem paralisadas com medo?

Ao mesmo tempo, também desafio os israelitas a fazer o mesmo [raciocínio] com os palestinianos. Imaginar o que é estar sob ocupação ou viver sitiado. Olharem para as imagens dos mortos e feridos, fixar os rostos dos oprimidos e imaginarem as suas próprias famílias. Imaginarem que essas pessoas, tal como eles, têm planos, que também querem viver e ser livres. Faria desse exercício mental parte do currículo escolar em Israel.

O meu conselho a todos é que se ponham no lugar daqueles a quem chamam vilões. Fazê-lo poderá não causar o mesmo tipo de legítima indignação mas dificultará muito mais que se desumanize e se destrua, física e culturalmente, o outro. A batalha para Israel-Palestina não é o cenário do bem versus mal, e tratá-la assim não ajuda ninguém.

Tenho vivido em Israel metade da minha vida e aqui regresso frequentemente. A minha posição política amadureceu e solidificou-se em Israel e não creio que o facto de hoje viver aqui [em Nova Iorque] mudou alguma coisa a esse respeito.

Se eu fosse um palestiniano a viver na Palestina, gostaria de pensar que seria parte da resposta não violenta à ocupação. Sei que é mais fácil dizer do que fazer, mas é assim que eu gostaria de me ver a mim próprio como palestiniano.

The Palestinian sister of 10-year-old Audi Naser cries during his funeral after he was killed in an Israeli air strike, in Beit Hanun, northern Gaza Strip @DR

A irmã de Audi Naser, uma menina palestiniana de 10 anos, chora durante o seu funeral. A criança foi morta num ataque aéreo israelita, em  Beit Hanun, norte da Faixa de Gaza.
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Raquel Evita: O bem-estar da humanidade depende da nossa capacidade de comunicar através de barreiras auto-impostas de identidade religiosa, por isso, tenho de rejeitar a ideia de falar apenas para um ‘campo’. Esta falsa dicotomia é a essência do conflito.

Sou uma muçulmana americana que nunca esteve em Israel-Palestina. No entanto, as vidas em Israel-Palestina estão ligadas à minha – não apenas porque a minha linhagem tem o mesmo sangue deles – mas também porque o bem-estar de palestinianos, israelitas e dos seres humanos em todo o mundo – tem impacto no que acontece naquela região. É nossa responsabilidade colectiva fazer a mudança positiva”.

Como mulher, tenho sofrido o tipo de violência que só o mais vil e cruel dos homens pode perpetrar – e, no entanto, não odeio os homens. Tenho visto morte. Tenho visto doenças e desespero – e, no entanto, não culpo Deus.

Não posso dizer que conheço a vida dos palestinianos e dos israelitas, mas sei que somos maiores do que a soma da nossa ira e as marcas da nossa dor. O mundo faria bem em intervir de forma material – economia, segurança, diplomacia – mas também devemos fazer ouvir as vozes dos palestinianos e dos israelitas que sinceramente apelam à paz.

Imagens de ódio só servem os nossos objectivos mais destrutivos – um apaziguamento masoquista do pior de nós próprios. É muito mais desconfortável ver a verdadeira humanidade do inimigo. Apelo a todos que assumam a sua responsabilidade pessoal em impulsionar a nova geração de pacifistas. Que não sejamos apenas ouvidos mas que nos levem a sério.

Depende de nós porque a velha guarda tem sido inútil. As vidas dos nossos filhos valem muito mais do que aquilo que hoje estamos a fazer uns aos outros.

© theyorker.co.uk

© theyorker.co.uk

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 6 de Janeiro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 6, 2009

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