Netanyahu: O regresso do “vendedor de sofás”

As sondagens acertaram e Benjamin (Bibi) Netanyahu foi novamente eleito primeiro-ministro de Israel. Quem é este homem que trocou um emprego bem pago de consultor em Boston para trabalhar numa empresa de mobiliário em Telavive, onde o foram buscar para ser “príncipe” e, depois, “rei” do Likud? (Ler mais | Read more…)

@ Associated Press (AP)

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Em 1996, os israelitas deitaram-se com o veterano Shimon Peres e acordaram com o inexperiente Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro eleito. Este ano [2009], a incerteza voltou a pairar num país onde as sondagens têm sido pouco fiáveis: seria noite de terça-feira de Bibi mas a manhã de quarta [11 de Fevereiro] de Tzipi Livni?

Os prognósticos não estavam errados e as eleições marcaram o regresso ao poder do líder do Likud, o primeiro sabra (nascido em Israel) a tornar-se chefe de Governo e o mais jovem político a assumir o cargo – em 1996 tinha 37 anos. Apesar de já não ser um novato – em Outubro [de 2009] completa 50 anos -, Netanyahu continua a ser uma figura intrigante, dentro e fora do seu país.

Quando, surpreendentemente, derrotou o trabalhista Peres, depois do assassínio de Yitzhak Rabin por um extremista judeu, os jornalistas Orly Azula-Katz, Anat Meidan e Rami Tal, do diário Yediot Ahronot, e Biranit Goren, do semanário Kol Ha’ir, foram investigar a sua vida e ficaram fascinados com o que (não) conseguiram descobrir.

O que se sabe: Bibi nasceu em Telavive em 1959. É neto de imigrantes judeus lituanos – o avô paterno mudou o apelido Mileikowsky para Netanyahu (“Dado por Deus”, em hebraico) quando chegou à antiga Palestina em 1920. O pai é Benzion Netanyahu, especialista em História Medieval e discípulo do ideólogo sionista Ze’ev Jabotinsky.

O irmão era Yonatan Netanyahu, um “herói e uma lenda” – foi morto durante uma célebre operação em Entebbe, no Uganda, para resgatar os reféns de um avião sequestrado por guerrilheiros palestinianos, em 1976.

Todos estes familiares moldaram o carácter nacionalista de Bibi, também ele um brilhante comando da principal unidade de elite do Exército, Sayeret Matkal.

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© Carlos Latuff

Embora o seu pai fosse um ardente defensor do “Grande Israel” (dizia que não podia haver compromisso e que os árabes só entendiam a linguagem da força), Bibi confessou que Benzion, editor da Enciclopédia Hebraica, não queria que ele seguisse a carreira política. A sua obsessão era o conhecimento e neste campo o filho não decepcionou. Teve sempre as notas mais altas, excepto a uma disciplina: música.

Quando Benjamin tinha 14 anos, os pais mudaram-se para Filadélfia, nos Estados Unidos. O filho foi matriculado no Liceu de Cheltenham – uma das mais competitivas escolas da América.

Com saudades de Israel, servia à mesa em restaurantes para ganhar dinheiro que lhe permitisse passar as férias de Verão em Jerusalém. Adorava ir para os kibbutzim, comunidades geridas segundo um modelo socialista, onde fazia tudo para trabalhar mais que os amigos.

Em 5 de Junho de 1967, começou a Guerra dos Seis Dias. Benjamin Netanyahu, excelente aluno e jogador de basquetebol, faltou à cerimónia de formatura e ofereceu-se como voluntário para combater nas Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês). Como soldado, chegou à patente de capitão na Sayeret Matkal.

Participou numa série de operações secretas e foi ferido quando lutava contra piratas do ar que haviam desviado um avião da transportadora belga Sabena. No Canal do Suez, quase se afogou, ao tentar nadar com a sua pesadíssima metralhadora, debaixo de fogo egípcio.

Depois de cinco anos como oficial do exército, regressou aos EUA. Formou-se em Arquitectura no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde terminou a licenciatura em dois anos e meio.

“Ninguém conseguiu isso antes ou depois dele”, sublinhou Leon Garviser, um dos seus professores, citado pelo jornalista Barry Chamish, editor da publicação Inside Israel. Netanyahu também estudou Ciência Política na Universidade de Harvard, mas interrompeu o curso para voltar à guerra, do Yom Kippur, em Outubro de 1973.

© Charles Dharapak | AP

© Charles Dharapak | AP

Combateu na Península do Sinai, no Egipto, e quando regressou à América era um indefectível activista por Israel. Essa militância chamou a atenção de Colette Avital, que haveria de ser embaixadora em Lisboa e na altura era cônsul em Boston. Foi ela, uma trabalhista nomeada pelo Governo de Peres e Yitzhak Rabin, quem organizou o primeiro debate televisivo de Netanyahu.

O convidado era Edward W. Said, o mais prestigiado académico palestiniano, conselheiro da OLP até à ruptura com Yasser Arafat, em 1993, após os Acordos de Oslo (a que, por outras razões, também se opôs).

A morte do irmão Yonatan na Operação Entebbe obrigou Benjamin a desistir dos planos de ser arquitecto, escreveu Barry Chamish. Optou por um mestrado em Administração de Empresas e aceitou um emprego no Boston Consulting Group, com um salário de 100 mil dólares anuais.

Subitamente, decidiu ir trabalhar para uma empresa de venda de mobiliário em Israel, a ganhar um quarto do que auferia nos EUA. As razões dessa intempestiva mudança são misteriosas, até porque nunca se chegou a saber por que é que o seu número de segurança social, 020-36-4537, tinha o registo de quatro pedidos de crédito sob diferentes nomes: Benjamin Netanyahu, Benjamin Nitai, John Jay Sullivan e John Jay Sullivan Jr.

A investigação do Kol Ha’ir descobriu apenas que, em Junho de 1973, Bibi pediu a um tribunal de Boston para se chamar Benjamin Nitai, alegando que preferia um “nome mais curto”. O pedido foi aceite – ele tinha dupla nacionalidade. Os restantes nomes permanecem um enigma.

A morada que lhes é atribuída, em Malibu (Califórnia), não existe. Requisições de acesso aos seus registos foram negadas como “confidenciais”, o que, segundo o jornal, só se aplica a pessoas que trabalhem para três agências federais – FBI, CIA, IRS – ou às que são consideradas terroristas e criminosas. “Como é improvável que Netanyahu pertencesse a estas duas categorias, ou que trabalhasse para o IRS (finanças), talvez estivesse a soldo da CIA ou do FBI.”

A teoria da conspiração não desaparece e adensou-se quando, em 1979, Netanyahu começou a organizar conferências sobre terrorismo, em Jerusalém, dedicadas ao seu irmão Yonatan. Embora tivesse chamado a atenção de figuras como George H. W. Bush, George Shultz e Richard Perle (o principal negociador de armas do Presidente Ronald Reagan), quando as palestras terminavam, Bibi voltava à venda de móveis e sofás.

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© Carlos Latuff

Tudo mudou, segundo Barry Chamish, em 1982, quando Moshe Arens, que era embaixador de Israel nos EUA, convidou Netanyahu para seu adjunto.

“As pessoas riam-se quando ouviam dizer que eu telefonei para uma fábrica de mobiliário para arranjar um adjunto”, ironizava o próprio Arens. “O que me chamou a atenção em foi a sua capacidade de organizar conferências contra o terrorismo e a forte impressão que ele causou aos líderes americanos que nelas participavam.”

Em 1984, Benjamin Netanyahu já era o sucessor de Arens como embaixador em Washington – nomeado por Peres com a objecção de Yitzhak Shamir. Na altura, o líder trabalhista e o do Likud exerciam rotativamente os cargos de chefe de governo e da diplomacia numa coligação de “unidade nacional”, depois de eleições inconclusivas.

Para Barry Chamish, este foi “o ponto de viragem” na ambição de Bibi de ser primeiro-ministro. Um homem sensual e eloquente, tornou-se um frequente convidado nos programas Nightline, de Ted Koppel, e Larry King Live.

Por esta altura, Netanyahu já tinha escrito um livro, Terror – How The West Can Win, o que aumentou o seu valor junto da Administração Reagan.

Em 1988, ele já tinha poderosos amigos nos media americanos, com destaque para Charles Krauthammer e A. M. Rosenthal,  dos diários The Washington PostThe New York Times, respectivamente, e Ellie Weymouth (filha de Katharine Graham), antiga directora da Newsweek. No regresso a Israel, “era demasiado poderoso para ser ignorado”, comentou Chamish.

Foi nomeado vice-ministro dos Negócios Estrangeiros e depois porta-voz do primeiro-ministro, Shamir. Nesta função, quando os mísseis SCUD de Saddam Hussein caíam sobre Telavive, em 1991, a CNN fez brilhar como estrela internacional na guerra, liderada pelos EUA contra o Iraque, após a invasão do Kuwait.

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© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Nas primárias do Likud de 1993, Netanyahu já se sentia suficientemente capaz de desafiar a velha guarda. Ganhou a liderança do partido e, em 1996, venceu as eleições.

Em 1999, depois de ter desiludido Arens, o seu mentor, e os “príncipes” Benny Begin (filho de Menachem) e Dan Meridor (filho de Ya’akov), herdeiros das dinastias fundadoras, Bibi ficou sem governo.

Em 2000, perdeu a direcção para Ariel Sharon, que ainda assim o convidou para ministro das Finanças. Demitiu-se em 2005, por se opor à retirada unilateral de Gaza, abrindo caminho à cisão que originou a criação do Kadima.

Voltou em 2009 [e em 2013, retendo o cargo de primeiro-ministro, mas com uma descida significativa de votos, que o obrigou a uma aliança com Naftali Bennett, da extrema-direita, e Yair Lapid, do centro: um governo sem a presença dos partidos ultra-ortodoxos; em 2015, conquistou o seu quarto mandato na chefia do Governo.]

Um inquérito à opinião pública, publicado no diário Jerusalem Post, dava ao Likud 26 dos 120 lugares no Knesset, contra 23 do Kadima, de Livni. Tendo em conta que havia “29 a 15%” de indecisos, a possibilidade de Livni, a “senhora mãos limpas”, suceder ao impopular Ehud Olmert não era descartada por personalidades próximas de Netanyahu.

Foi o caso de Gerald Steinberg, presidente do Departamento de Estudos Políticos da Universidade de Bar-Illan, em Telavive. “Um rosto relativamente fresco e não manchado pela corrupção, Livni começou com forte apoio, mas a sua falta de experiência militar tem sido um handicap, sobretudo numa altura em que Israel enfrenta crescentes ameaças”, disse-me Steinberg, numa breve entrevista por e-mail.

“A sua actuação durante a guerra do Líbano de 2006 e na subsequente ofensiva em Gaza tem sido muito criticada, mas ainda se admite a possibilidade de uma vitória surpresa”, acrescentou.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Para Steinberg, o ideal seria Netanyahu liderar “uma ampla coligação de emergência”, que incluiria o Likud, o Kadima e o Labour, “mais alguns partidos sectoriais” (alusão ao Shas, ultra-ortodoxos mizrahim ou judeus de origem no Médio Oriente, Norte de África e Península Ibérica), e ao Yisrael Beitenu, dominado por imigrantes russófonos), para “maior estabilidade”.

Steinberg não explicou, porém, como é que as diferentes agendas poderiam ser conciliadas [mas os interesses de cada parte ditaram a coexistência].

Por exemplo: como iria o secular Avigdor Lieberman (líder do Yisrael Beitenu) impor casamentos civis a que o rabi Ovadia Yossef [morreu em 7 de Dezembro de 2013] se opõe veementemente? (O líder espiritual do Shas avisou os fiéis de que quem votasse num partido cujos militantes “comem carne de porco” seria consierado “um transgressor cujos pecados jamais serão expiados”.)

Aluf Benn, actual director do jornal Ha’aretz, explicou-nos, também por e-mail, por que é que os israelitas voltaram a dar o benefício da dúvida a Netanyahu. “Há várias razões: a primeira, ele liderou a oposição a Olmert, um primeiro-ministro detestado; a segunda, provou ter razão nos seus avisos de que Israel seria alvo de rockets depois da retirada de Gaza; a terceira, centrou as suas mensagens na segurança e na economia; a quarta, foi um ministro das Finanças eficiente durante o Governo de Sharon; a quinta, recebeu o apoio de antigos rivais que o criticaram severamente no passado e que depois concorrem na sua lista de candidatos.”

Inquirido sobre como definiria a personalidade de Netanyahu, o analista Benn não hesitou em qualificá-lo de “duro e pragmático”. Por exemplo, “ele acredita que a retirada da Cisjordânia e dos Montes Golã vai prejudicar a segurança de Israel, mas no passado aceitou fazer compromissos em negociações”.

Comparado com Sharon ou Olmert, adianta Benn, “Netanyahu é mais culto mas falta-lhe a sensibilidade” dos anteriores líderes. “Sabe como conduzir uma campanha eleitoral mas é inábil no modo como se relaciona com as pessoas – o seu gabinete sempre foi uma confusão de assessores e conselheiros em constante competição. Em todo o caso, foi um bom gestor como ministro das Finanças porque se rodeou de um círculo de funcionários públicos profissionais que o apoiavam.”

© Vanity Fair

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Sobre o Governo de Netanyahu, Benn acreditava que ele não teria dificuldade em formar uma coligação de direita ou uma de centro-esquerda, “com o Kadima e/ou o Labour”. O primeiro cenário envolve mais riscos porque, “se o processo de paz com os árabes e os palestinianos ganhar ímpeto, a extrema-direita vai abandoná-lo, como aconteceu em 1999”.

O segundo cenário oferece-lhe a possibilidade de “menor oposição se encontrar um equilíbrio com os parceiros direitistas”. Netanyahu “sabe que o próximo governo de Israel enfrenta dois inimigos: o Irão e a recessão”. E quanto a estes dois temas “não há grandes diferenças entre os partidos mainstream do país”.

Quanto à eventualidade de um choque com a nova Administração de Barack Obama em Washington – Netanyahu prometeu derrubar o Hamas, continuar a “expansão natural” dos colonatos e comparou o Irão de Mahmoud Ahmadinejad [entretanto substituído, após as eleições presidenciais de 2013, pelo pragmático Hassan Rowhani] à Alemanha de Hitler -, Benn constata: “Sempre que a América vai para a esquerda, Israel vai para a direita.”

“O risco de colisão existe, mesmo que seja uma conveniência política de Obama, que quer mostrar ao mundo que ‘ele não é Bush’”, acentuou Benn. “Junte-se a isso as nomeações de Rahm Emmanuel [como chefe de gabinete] e Hillary Clinton [secretária de Estado], ambos com más recordações de Bibi do seu anterior mandato [durante as negociações com Yasser Arafat, em Wye River].”

“Netanyahu está convicto de que vai conseguir vender a sua ‘paz económica’ à nova equipa norte-americana”, salientou Benn, aludindo à proposta do líder do Likud de “fomentar prosperidade em vez de soberania” na Cisjordânia.

“Serão considerações políticas a determinar as relações com os EUA: uma forte pressão americana para a paz israelo-palestiniana deixará uma coligação de Bibi sob uma pressão insuportável.”

Aluf Benn, director do jornal israelita Ha'aretz @DR (Direitos reservados | All Rights Reserved)

Aluf Benn, director do jornal israelita Ha’aretz
© Direitos reservados | All Rights Reserved

Gerald Steinberg, da Universidade de Bar-Illan, em Telavive @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Gerald Steinberg, da Universidade de Bar-Illan, em Telavive
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 8 de Fevereiro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on February 8, 2009

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