Criar empregos: o maior desafio árabe

Do Cairo ao Qatar, ninguém escapa aos efeitos da crise mundial”, diz o investigador norte-americano Marcus Noland. Mas, “por estranho que pareça”, reinos e emirados parecem mais preparados para adoptar reformas – económicas e políticas – do que as repúblicas. (Ler mais | Read more…)

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Director de estudos e senior fellow no Peterson Institute for International Economics , em Washington, Marcus Noland fez parte do Council of Economic Advisers in the Executive Office of the President of the United States. Doutorado pela John Hopkins University, o seu campo de investigação é vasto: estende-se da Ásia e África, onde viveu, até ao Médio Oriente.

Uma das suas obras, escrita em parceria com Howard Pack, é Arab Economies in a Changing World. Na entrevista, que nos deu por e-mail [em 2009] analisa o impacto da actual crise financeira global, do Norte de África ao Golfo Pérsico.

Que economias no mundo árabe considera mais vulneráveis à crise?

De momento, os principais exportadores de petróleo e de gás do Golfo [Pérsico] e outros grandes produtores, como a Argélia e a Líbia, são os mais expostos à crise devido ao declínio dos preços da energia. Em alguns desses países, a desvalorização dos mercados financeiros está a afectá-los directamente, uma vez que o sector financeiro era uma das suas vias e diversificação.

Em todo o caso, embora sejam os mais expostos, o anterior boom [nos preços do petróleo] deixou-lhes consideráveis fundos nos bancos. Por outro lado, o declínio nos preços da energia também será sentido em países como o Egipto e a Síria que, não sendo grandes produtores em termos mundiais, têm nos produtos energéticos fatia significativa das exportações. 

O abrandamento no Golfo também será sentido nas economias com menores recursos, porque os emigrantes que aqui trabalham vão diminuir as suas remessas, e porque haverá uma baixa de investimentos nos países ricos em petróleo.

As economias mais pobres não beneficiaram do boom e não têm amortecedores agora que a crise financeira está a empurrá-los para baixo. Em resumo, todos os países da região vão sofrer, embora o grau seja variável de país para país.

Muitos analistas têm afirmado que os Estados do Golfo ricos em petróleo ainda são santuários de investimento. Partilha esta opinião?

Muitos dos reinos e emirados do Golfo, numa tentativa de diversificar as suas economias, investiram em sectores como a educação, a saúde e, predominantemente, na área financeira. É improvável que todas estas iniciativas sobrevivam à actual crise se ela perdurar.

Várias instituições educativas são marginais – terão de consolidar-se ou simplesmente fechar as portas. E isso já está a acontecer.

O Bahrein desenvolveu um avançado sistema de cuidados de saúde e o Dubai tem obtido muitas vantagens em actividades relacionadas com finanças e turismo. No entanto, quem tem o dinheiro é o Qatar, o Abu Dhabi e, sobretudo, a Arábia Saudita. Ainda não é claro qual será o impacto no sector financeiro.

Talvez aconteça, por exemplo, que um país se especialize na banca islâmica e outro privilegie o commodities trading ou equities trading com reconhecimento internacional. Se a Arábia Saudita alguma vez decidir que quer estabelecer um verdadeiro sector financeiro de classe mundial, a sua dimensão e riqueza poderão ameaçar outros [na região].

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Alguns analistas dizem que o maior problema do Médio Oriente é a riqueza ser investida em sectores que não criam empregos. Quais as consequências para uma região onde se prevê que, na próxima década, haja um aumento de 150 milhões de habitantes – o equivalente ao aparecimento de dois Egiptos?

A questão crítica, na próxima década, será a capacidade de estas economias gerarem empregos e de elevarem os níveis de vida de milhões de jovens que deveriam entrar no mercado de trabalho. Actualmente, a região tem a mais baixa taxa de emprego formal no mundo. O desemprego jovem é de cerca de 25 por cento, ou seja, quase duas vezes mais do que a média mundial.

Em alguns países, há dez vezes mais possibilidade de os recém-licenciados ficarem desempregados do que os que concluem apenas o liceu. Tendo em conta o obscurantismo dos regimes políticos locais, as massas de jovens diplomados desempregados representam uma ameaça à estabilidade política.

Entre os jovens, as mulheres são as que têm mais dificuldade em entrar no mercado de trabalho. Uma questão-chave é saber até que ponto a recente aceleração do crescimento económico – gerada em parte pelo “boom” nos mercados de fundos e de “commodities” – é permanente ou transitória. Será que o futuro se vai parecer mais com os últimos cinco anos ou com os últimos 50?

Qual será o impacto nos países árabes se os preços do petróleo continuarem a descer e começarem a ser procuradas alternativas?

Vamos presumir que o pico de 150 dólares por barril e os actuais 40 dólares são excepções, e que, a médio prazo, os preços vão estabilizar algures entre um e outro valor.

A longo prazo, a ameaça às economias petrolíferas é a reacção política ao aquecimento global nos países industrializados, que vão investir em programas comercialmente viáveis de combustível à base de hidrogénio e outras tecnologias que reduzam imenso o consumo de petróleo.

No entanto, por muito desejável que seja esta via, ainda há quem tenha dúvidas sobre a concretização deste cenário.

Em 200.., Marcus Noland já previa "riscos de uma mudança abrupta de regimes" - como aconteceu na Tunísia e no Egipto dois anos depois -, porque "muitos governos fecharam vias para uma oposição liberal secular e empurram os dissidentes para as mesquitas" © AFP | STR

Nesta entrevista, em 2009, Marcus Noland já previa “riscos de uma mudança abrupta de regimes” – como aconteceria na Tunísia e no Egipto dois anos depois. Porque “muitos governos fecharam vias para uma oposição liberal secular e empurram os dissidentes para as mesquitas”
© AFP | STR

A descida dos preços do petróleo contribuiu para o colapso da União Soviética nos anos 1990 e para o derrube do Xá Mohammad Reza Pahlavi, no Irão, em 1979. Há risco de mudança de regimes ou assistiremos apenas a uma radicalização das sociedades?

Este é um mundo único onde se combinam autoritarismo político e estabilidade económica. Tem havido muitas tentativas para explicar este autoritarismo permanente. Um exemplo: alguns governos estão assentes em pequenas circunscrições étnicas, tribais ou religiosas e, em consequência disso, temem diminuir o controlo e a democratização.

Outro exemplo: a existência de riqueza petrolífera dá a estes governos recursos para comprar lealdades ou reprimir dissidentes. O resultado é que muitos destes governos fecharam vias para uma oposição liberal secular e empurram os dissidentes para as mesquitas. Sim, há riscos de uma mudança abrupta de regimes. [Uma profecia acertada: o primeiro regime a cair foi o do Presidente Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, em 2011. Seguiu-se o de Hosni Mubarak, no Egipto.]

A actual crise financeira vai aumentar o descontentamento das massas e reforçar a instabilidade política. Mais: a criação de meios de comunicação social genuinamente pan-árabes, como as estações de televisão Al Jazeera e Al Arabiya, poderá fazer com que os acontecimentos num determinado país tenham maior impacto no desenvolvimento de outros.

Será que a actual crise vai aumentar a urgência de reformas políticas e económicas?

A actual crise deveria aumentar o interesse em reformas, mas isso não significa que serão mais ou menos prováveis. Uma fraca performance económica poderá fortificar o descontentamento e deixar os governos ainda mais hostis a reformas.

Uma boa liderança política poderia usar a crise – sobretudo se não for responsável por ela – como oportunidade para mobilizar apoio a mudanças que, em tempos normais, seriam mais difíceis de empreender. A legitimidade política tem aqui um grande peso. 

Que país está mais preparado para adoptar reformas?

Por muito estranho que pareça, algumas monarquias que têm seguido estratégias económicas menos intervencionistas do que repúblicas seculares talvez tenham mais facilidade em enfrentar estes desafios. Mais do que a Jordânia, a Síria, Marrocos ou a Argélia.

Se vão ou não estar à altura destes desafios é uma dúvida: nenhum desses países navega presentemente em águas calmas.

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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Janeiro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 2, 2009 

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