Unidos pela fé, desunidos pela etnia e pela língua

Dos 22 milhões de habitantes do Sri Lanka, só 7% são cristãos. Na sua história entrelaçam-se um passado colonial de quase cinco séculos e as tensões étnico-religiosas do presente. Para entender a comunidade católica do antigo Ceilão, falei com Bernardo Brown, professor de Antropologia na International Christian University de Tóquio, estudioso do Catolicismo na Ásia. (Ler mais | Read more…)

23 de Abril de 2019: Freiras passam por um soldado de vigia junto à Igreja de São Sebastião, em Negombo, Sri Lanka, depois dos ataques de Domingo de Páscoa qua causaram mais de 300 mortos
© Carl Court | Getty Images | newframe.com

Em 1948, quando Ceilão deixou de ser uma colónia da Grã-Bretanha, os católicos da ilha – cingaleses e tâmiles – tinham “uma identidade distinta”, que lhes permitia, por exemplo, içar lado a lado as bandeiras do Vaticano e do novo Sri Lanka.

Tudo mudou em 1960, assim que o Governo assumiu o controlo das escolas da Igreja. Dois anos depois, em resposta a um alegado reforço da presença de budistas nas forças armadas, oficiais católicos e protestantes do exército organizaram um golpe para derrubar o Governo da primeira-ministra, Sirimavo Bandaranaike, e o ressentimento cresceu.

Em 1983, quando o grupo extremista Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE) iniciou uma guerra civil (identitária e cultural, mas não religiosa) para reivindicar uma pátria separada no Norte e Leste, a comunidade católica dividiu-se: os cingaleses tomaram o partido dos militares e da maioria budista; os tâmiles juntaram-se aos rebeldes, predominantemente hindus.

Crianças brincam à porta da sua casa crivada de balas em Mullivaikal, onde se travou a batalha final que pôs fim à sangrenta guerra civil do Sri Lanka (1983-2009) que deixou bem visíveis as fracturas entre católicos cingaleses e tâmiles
© Miguel Candela | Al Jazeera

O fim de 25 anos de guerra não pacificou o Sri Lanka, onde o poder crescente da organização radical Bodu Bala Sena (Força do Poder Budista) tem sido uma ameaça constante às minorias. As divisões só começaram, vagamente, a esbater-se quando, perante uma crise económica, moral e existencial, uma vaga de protestos populares forçou a queda da corrupta família Rajapaksa.

Entre os milhares de manifestantes nas ruas, havia cingaleses e tâmiles, mouros e burghers; cristãos e budistas, hindus e muçulmanos, numa rara demonstração de unidade contra um regime etno-nacionalista.

Poderá estar aberto o caminho para a reconciliação? Numa entrevista por e-mail, o antropólogo Bernardo Brown, especialista no Sri Lanka e professor numa das mais prestigiadas universidades do Japão, explica-me que esta continua a ser uma meta difícil de atingir.

Fiéis católicos rezam na rua, junto à Igreja de Santo António, por muitos venerada como “um lugar de milagres”, em Colombo, a capital (foto de Abril de 2019, ano dos mortíferos ataques terroristas de Domingo de Páscoa)
© Adam Dean | The New York Times

Numa nação onde Tâmiles hindus e Cingaleses budistas são praticamente homogéneos, o Catolicismo tem sido definido como “a religião que une pessoas de diferentes etnias através de uma fé única”. É uma singularidade?

Esta singularidade é apenas um esforço para simplificar diferentes categorias. No Sri Lanka, trata-se de uma coerência artificial: por exemplo, a etnia (Sinhala /Cingalesa) corresponde à religião (Budismo) e corresponde à língua (Sinhala /Cingalês).

Estas três categorias têm sido apresentadas como se englobassem nitidamente toda a população. Uma “sobreposição” semelhante também acontece com os Tâmiles. Mas a realidade no Sri Lanka é muito mais complexa e muitos grupos religiosos são bastante mais “híbridos”. Quanto ao Catolicismo, é verdade que é a única religião que atravessa a fronteira étnica e linguística.

No entanto, tradicionalmente, tem sido uma relação difícil. É errado pensar que os católicos cingaleses e tâmiles estão unidos pela religião. É mais útil pensarmos que os católicos estão DIVIDIDOS pela língua e pela etnia.

Uma família católica no Sri Lanka assiste à missa dominical, em casa, pela televisão, uma semana depois dos ataques que destruíram três igrejas na Páscoa de 2019
© Adam Dean | The New York Times

As fracturas ficaram à vista durante a guerra civil de 1983-2009, durante a qual pelo menos 100 mil pessoas perderam a vida, dezenas de milhares desapareceram e centenas de milhares foram deslocadas. Durante o conflito, o senhor (e outros) constataram que cingaleses católicos foram “apoiantes leais” do exército e tâmiles católicos alinharam com a guerrilha. Como avalia estas posições opostas?

A identidade étnica neste conflito era mais importante do que a identidade religiosa. Um tâmil católico tinha mais em comum com um tâmil hindu do que com um cingalês católico. E durante esta guerra muitas vezes os cingaleses católicos juntaram-se aos cingaleses budistas e às forças armadas em vez de defenderem os direitos dos tâmiles católicos, que eram perseguidos e mortos.

De igual modo, os tâmiles católicos, incluindo vários membros do clero, apoiaram abertamente atividades terroristas do LTTE. Estes problemas causaram um ressentimento profundo entre os católicos no Sri Lanka.

Jovens acendem delas para uma vigília, em Colombo, pelas vítimas dos ataques terroristas no Domingo de Páscoa de 2019
©Thomas Peter | Reuters

Com o exército e o LTTE responsabilizados por crimes de guerra horríveis, como compreender a cumplicidade, o silêncio e a inabilidade da hierarquia da Igreja Católica [nenhum bispo recomendou ou aceitou tréguas no Natal, por exemplo]? Por que não serviu de mediador para acabar com a carnificina?

Era limitada a capacidade de a Igreja agir como intermediário, em parte porque todas as forças nacionalistas (nos dois campos) a acusavam frequentemente de ser uma potência colonial e estrangeira. Contudo, é importante clarificar que entre os clérigos no Sri Lanka (alguns deles estrangeiros) havia defensores activos dos direitos humanos.

Muitos padres foram mortos e outros desapareceram durante aqueles anos de violência. Por isso, embora como instituição a Igreja Católica pudesse ter feito mais com um papel de mediação, a verdade é que várias paróquias serviram frequentemente de santuário [às vítimas] e houve muitas iniciativas de paz lançadas por padre.

Um deles, por exemplo, o sacerdote jesuíta americano Harry Miller, em Batticaloa [onde criou uma comissão para recolher queixas de familiares desaparecidos. Em missão no Sri Lanka desde 1948, onde morreu, foi “testemunha, intermediário e protector de todos os que lhe pediam ajuda”.]

Padres no exterior da Igreja de Santo António em Colombo, depois de as missas terem sido canceladas por ordem do arcebispo, na sequência dos ataques terroristas na Páscoa de 2019 – só depois destes actos de violência, cujos responsáveis nunca foram identificados, é que o cardeal Malcolm Ranjith decidiu virar-se contra o Governo dos Rajapaksa, que ele sempre apoiou
© Adam Dean | The New York Times

Em 2014, o senhor reparou que, terminada a guerra, “sectores da Igreja” continuaram a apoiar os Rajapaksa e a receber “uma série de benefícios materiais”, confirmando divisões não apenas entre leigos, mas na própria hierarquia eclesiástica. Porquê esta “colaboração”?

O cardeal Malcolm Ranjith [arcebispo de Colombo e antigo núncio apostólico em Timor-Leste, hoje o maior país católico da Ásia (97%) depois das Filipinas (83%)] apoiou o Governo durante [a fase final da] guerra para eliminar o LTTE, entre 2006 e 2009.

Nesse período, milhares de civis foram mortos, muitos deles católicos, e a Igreja pouco fez para os proteger. (Recordo, porém, que padres tâmiles católicos e o bispo de Mannar [no Norte] denunciaram o que estava a acontecer e fizeram os possíveis para salvar vidas).

[Com os Rajapaksa], a Igreja beneficiou de múltiplas maneiras. Por exemplo, quando o Governo lhe deu o controlo de algumas escolas ou apoiou financeiramente os seus esforços de reconstrução. Muitos destes apoios foram para o clero e leigos cingaleses católicos, não tanto para os tâmiles, os que mais sofreram.

25 de Abril de 2022: O cardeal Malcolm Ranjith num encontro, junto à Basílica de São Pedro, no Vaticano, com sobreviventes e familiares das vítimas dos ataques terroristas que destruíram três igrejas no Domingo de Páscoa de 2019
© Carol Glatz | CNS

Será que algo mudou desde o sangrento Domingo de Páscoa de 21 de Abril de 2019 [quando três igrejas foram destruídas em ataques suicidas coordenados, atribuídos a militantes islamistas, que causaram mais de 275 mortos e cerca de 500 feridos]?

O cardeal Ranjith continuou a apoiar a família Rajapaksa e quase fez campanha a favor deles, mesmo após os ataques na Páscoa de 2019. No entanto, algo aconteceu no ano seguinte, e ninguém sabe explicar ainda o quê. Ranjith deixou de ser um apoiante dos Rajapaksa para se tornar num dos maiores críticos durante os protestos que conduziram ao colapso do Governo.

Por que mudou ele tão drasticamente de opinião? Não encontrei ainda uma explicação convincente. Há quem argumente que se sentiu traído pela falta de vontade dos Rajapaksa em revelar a verdade sobre os atentados.

[Ranjith, de 74 anos, acusou o regime de “ocultar a verdade sobre os ataques e a identidade dos criminosos, para fins pessoais”; há informações de que Nova Deli alertara Colombo para uma ameaça terrorista, mas o aviso terá sido ignorado para que Gotabaya Rajapaksa, o ex-secretário da Defesa que derrotou o LTTE, se apresentasse de novo como “homem forte”, desta vez contra os muçulmanos, para poder ser – e foi – eleito presidente, em Novembro de 2019].

É possível. Mas creio que há outras razões que o transformaram de melhor amigo em pior inimigo em menos de um ano. Talvez venhamos a saber um dia.

No cemitério católico de Sellakanda, em Negombo, Sri Lanka, uma oração pelas vítimas de um dos ataques suicidas no Domingo de Páscoa de 2019; os crentes, divididos durante a guerra civil, uniram-se no luto e, em 2022, nos protestos contra a dinastia Rajapaksa, forçada a abandonar o poder em Julho de 2022
© Athit Perawongmetha | Reuters | CNS

Nos protestos do movimento Aragalaya contra os Rajapaksa participaram pessoas de todas as etnias e religiões. Este é um fenómeno passageiro, porque as divisões são mais profundas do que o sofrimento comum, ou é um genuíno “processo de reconciliação”?

É difícil dizer. Por um lado, concordo que tem havido muitos sinais bons de colaboração inter-étnica e que o movimento encontrou interesses comuns para lutar e ultrapassar as suas tradicionais divisões. Da perspectiva de um conflito inter-étnico, são realmente sinais positivos.

Por outro lado, é importante não nos concentramos apenas em Colombo. Os protestos realizaram-se quase exclusivamente na capital. É indiscutível que Colombo sempre foi uma cidade diversa e relativamente tolerante. Mas, quando vamos para o Norte [de maioria tâmil] e para o Sul [de maioria cingalesa], é possível que as velhas divisões ainda permaneçam muito mais fortes do que qualquer vaga de unidade contra a corrupção [dos Rajapaksa].

Uma mulher reza na Igreja de Santo António, em Colombo, onde mais de 50 pessoas foram mortas num dos três atentados suicidas no de Domingo de Páscoa de 2019; os responsáveis católicos têm sido duramente críticos dos serviços secretos, que ignoraram os avisos de que os ataques estavam a ser planeados, presumivelmente por muçulmanos extremistas
© Ishara S Kodikara | AFP | Getty Images | The Guardian

O senhor tem seguido grupos de fiéis que viajam pelas comunidades rurais para “organizar actividades multi-étnicas e promover o diálogo entre tâmiles e cingaleses católicos”. O que nos pode dizer sobre essa experiência?

Há muito boas iniciativas por parte de grupos da Igreja para superar as divisões étnicas. Pelo menos até começar a pandemia de Covid-19, esses grupos envolveram-se em acções muito interessantes, viajando para diferentes regiões, celebrando missas em várias línguas, etc.

Alguns católicos lamentaram que não fossem iniciativas “ao nível da Igreja”, por isso o seu impacto foi limitado, mas foi bom ver o desejo de muitos cingaleses e tâmiles católicos de se encontrarem com outras pessoas e partilharem as suas diferentes culturas.

Em Janeiro de 2015, numa visita ao Sri Lanka, o Papa Francisco canonizou o padre José Vaz – o primeiro santo do país -, nascido no antigo território português de Goa, numa celebração que reuniu centenas de milhares de pessoas
© Reuters | DW

Foi o colonialismo português que abriu as portas ao Catolicismo Romano no Sri Lanka em 1505. O que resta do legado português?

As obras do padre jesuíta Vito Perniola [autor de uma história da Igreja no Sri Lanka, de 1505 até 1920, obra em 19 volumes, cada um com cerca de 500 páginas] continuam a ser o registo histórico mais completo sobre a introdução do Catolicismo em Ceilão.

Quando chegaram, os Portugueses (tal como fizeram na Índia) só estavam interessados em estabelecer enclaves costeiros, por isso, raramente se aventuravam para o interior ou então só alguns quilómetros. O Catolicismo era, pois, uma religião sobretudo costeira (de certo modo, como o Islão), e os convertidos estavam, na sua maioria, ligados ao comércio do peixe.

Ainda hoje, algumas localidades onde os Portugueses se instalaram continuam a ser o coração do Catolicismo, e a maioria dos pescadores são católicos. ‘Perera’ e ‘Fernando’ são os apelidos mais comuns na região. Na cidade de Negombo, a norte de Colombo, 93% da população é católica.

Algumas cidades para sul, como Galle, foram dos primeiros postos missionários. Com a chegada do colonialismo holandês, a partir de 1650, o Catolicismo foi proscrito [tal como a língua portuguesa] e manteve-se clandestino durante mais de 100 anos, até à chegada de São José Vaz, que veio escondido de Goa para [em 1687] começar de novo a pregar aos milhares de católicos que não abandonaram a sua fé, apesar de mais de um século sem clero.

Bernardo Brown, professor de Antropologia na International Christian University de Tóquio, estudioso do Catolicismo na Ásia
© Cortesia de | Courtesy of Bernardo Brown

Fontes:

Catholicism’s Overlooked Importance in Asia”, Bernardo Brown e Michael Chambon, The Diplomat; “Mission, humility and the study of Fr. Vito Perniola”, Melani Manel Perera, PIME Asia News; “The Louisiana Jesuit who fought for truth and justice in war-torn Sri Lanka”, Jeannine Guthrie, America Magazine; “Who are Sri Lanka’s Christians?”, Mathew Schmalz, College of the Holy Cross, The Conversation.

A entrevista foi publicada na edição de Setembro de 2022 da revista ALÉM-MAR | The interview was published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2022 edition

Portugueses na Taprobana

Foi com o colonialismo português que a Igreja de Roma entrou em Ceilão, em 1505, mas o Cristianismo terá chegado antes à ilha que Luís de Camões refere na primeira estrofe d’Os Lusíadas.

Os Portugueses chegaram ao que designariam por Ceilão, hoje Sri Lanka, em 1505 e ali ficaram até 1658 (Ilustração:A chegada de Vasco da Gama à Índia)
©Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) | Bibblioteca Nacional de Portugal | National Geographic

Leonard Pinto, autor de Being a Christian in Sri Lanka: Historical, Political, Social and Religious Considerations, divide a história nacional da Cristandade em Ceilão em três períodos: pré-colonial (72-1505); colonial (1505-1948); pós-colonial (1948-presente).

Na era pré-colonial, diz ele, já viviam no que é hoje o Sri Lanka dois grupos de cristãos, “os discípulos de São Tomé (que pregou aos brâmanes na Índia) e os Nestorianos”. Como prova, cita três cruzes desse período descobertas em posteriores escavações arqueológicas.

Para a investigadora Silvana Roque de Oliveira (Dicionário da História Religiosa de Portugal), “a referência mais antiga à presença de cristãos em Ceilão data de 535, e deve-se a Cosme Indicopleustes”, monge e mercador de Alexandria (Egipto) que ali chegou em 550. Oliveira e Pinto citam-no, atestando que a comunidade “tinha uma igreja de cristãos persas, com um presbítero ordenado na Pérsia, um diácono e um ritual eclesiástico completo”.

Se Silvana Oliveira não encontra “rastos de nenhuma comunidade cristã, no século I ou II, numa ilha que desde o imperador indiano Axoka se convertera ao Budismo (272-232 a.C.)”, Leonard Pinto destaca que o cartógrafo siciliano Muhammad Al-Idrisi, que visitou Ceilão, entre 1100 e 1166, ali encontrou “16 cristãos conselheiros do rei”.

E diz ainda que, “depois de Yahbalaha III [patriarca da Igreja do Oriente], o Primado Nestoriano aceitou unir-se à Igreja Católica”, tendo o padre Jordanus Catalha chegado à ilha em 1329 e o padre Giovanni de Marignolli vindo como representante do Papa em 1348-49. “Havia, portanto, cristãos em Ceilão antes da chegada dos Portugueses no século XVI”, sublinha Pinto.

Silvana Oliveira realça que só com os Portugueses “se deu um encontro consequente entre a Cristandade e a civilização cingalesa”, numa ilha que, nos primórdios de Quinhentos, se dividia em três reinos autónomos; “Jaffna, no Norte; Kandy ou Cândia, nas montanhas centrais; e Kotte, a sul, que depois se desdobraria dando origem ao reino de Sitawaka ou Sitavaca”.

“A partir de 1506”, adianta Oliveira, “em todos os tratados de amizade e comércio que se ratificaram entre a Corte Portuguesa e os reinos locais figurava um cláusula que assegurava a liberdade para evangelizar o povo cingalês”.

Descendentes de portugueses do antigo Ceilão ou Burghers
©nacaomestica.org

Esta evangelização tornar-se-ia “sistemática” a partir da década de 1540, quando começaram a aportar os primeiros missionários: os Franciscanos, activos em Kotte e Jaffna, em 1543; os Jesuítas, em 1602; os Dominicanos, em 1605; e os Agostinianos, em 1606.

Foram estes missionários, observa Leonard Pinto, que “introduziram o estilo de educação de massas” em Ceilão. Até então a educação estava “reservada aos pirivenas, os filhos dos ricos”, que podiam pagar o ensino em casa”. Eles “construíram e geriram escolas, orfanatos e enfermarias”.

No colégio franciscano de Colombo, os alunos aprendiam “religião, boas maneiras, leitura, escrita, aritmética, cânticos e Latim”. Outras escolas franciscanas leccionavam em cingalês e tâmil. Os colégios jesuítas em Jaffna e na capital “foram pioneiros da educação gratuita e secular” no país.

“Os missionários também deram a conhecer ao mundo ocidental a língua e a gramática cingalesa, através de livros escritos em português”, salienta Pinto, evocando os exemplos de Ars Cingalensis Linguae (“A Teoria da Linguagem Cingalesa”), de Emanuel Costa, e Arte Grammatica de Língua Chingala, do padre jesuíta Pierre Berguin. Também houve obras literárias escritas por católicos em cingalês e tâmil.

Os progressos conseguidos não foram suficientes para travar a hostilidade de monges budistas que viam com maus olhos as conversões de famílias reais cingalesas e tâmiles. A chegada dos holandeses no séc. XVII pôs fim a 163 anos de colonização portuguesa das regiões marítimas de Ceilão.

A perseguição aos missionários católicos foi inscrita na lei: um decreto de 1658 proibia, sob pena de morte, que se albergasse ou protegesse sacerdotes católicos, mas o clero era muito influente e o apostolado continuava em segredo, referiu Silvana Oliveira.

Os holandeses dominariam o Ceilão durante 138 anos, e os Britânicos, que vieram depois, ali estiveram 152 anos, até à independência da ilha (em 1948) que passou na chamar-se Sri Lanka em 1972.

Seja como for, anota o investigador Karel Staněk (A Tentativa Portuguesa de Colonizar o Sri Lanka (1580-1630), “os vestígios do período português” na antiga Ceilão “são mais fortes” do que os dos holandeses ou ingleses, “o traço mais marcante” da sua influência representado pela língua dos membros da comunidade luso-cingalesa [Burghers], o português crioulo, e pela religião católica, que até cingaleses e tâmiles professam.

Mapa da Ásia e Oceania c.1550
© Wikipedia

O naufrágio do Sri Lanka

Como é que a “resplandecente ilha” *, suposta “democracia multiétnica e multirreligiosa”, se afundou na mais grave crise da sua história? A culpa é atribuída aos Rajapaksa, a família que transformou o país numa caquistocracia – o governo dos piores cidadãos. Para a sua surpreendente queda contribuiu um movimento popular único – Aragalaya. (Ler mais | Read more…)

A estátua de D.A. Rajapaksa, o patriarca da dinastia que deixou o Sri Lanka na miséria, é coberta por um funcionário depois destruída por manifestantes que forçaram a queda da família que governava o país
© Atul Loke | The New York Times

Há pelo menos 25 anos que Ruki Fernando defende a dignidade humana e a justiça social no Sri Lanka. Assume-se protector de indivíduos, famílias e comunidades vítimas de violações dos direitos humanos. A solidariedade deste católico da maioria cingalesa, predominantemente budista, para com as minorias tâmil e muçulmana, contra um “racismo sistémico”, levou a que muitos, incluindo familiares e amigos, o acusassem de ser “traidor” e “apoiante do terrorismo”.

Em 2007, na fase final e mais cruel de uma guerra civil de quase três décadas, que causou, segundo a ONU, uns 100 mil mortos e 100 mil desaparecidos, Ruki Fernando foi documentando todo o tipo de abusos.

Vigiado, alvo de ameaças, preso, sujeito a interrogatórios e desacreditado nos media, exilou-se durante uns meses e só regressou quando se sentiu seguro. Com este percurso de vida, ninguém estranhou quando o viram na linha da frente dos protestos populares que conduziram à queda dos omnipotentes Rajapaksa.

“Não gosto que me considerem um dos protagonistas do Aragalaya”, o movimento cujo nome se traduz por “Luta”, esclarece Ruki Fernando, numa entrevista que me deu, por e-mail. “Digam antes que sou há muitos anos um activista empenhado em diferentes aragala [lutas], embora seja verdade que fui um dos que participaram” nas manifestações contra os governantes que deixaram o país na ruína.

Em Março intensificaram-se os protestos em Colombo, a capital do Sri Lanka, contra o agravamento da situação económica no país devido às políticas desastrosas da família Rajapaksa
©Atul Loke | The New York Times

“O Sri Lanka tem muitos recursos – naturais e humanos -, mas as más políticas de sucessivos governos provocaram o colapso”, lamenta Fernando, consultor no Centre for Society and Religion (CSR) em Colombo, a capital. Outra razão para este desfecho: “A ausência de indignação e a falta de sensibilidade dos responsáveis do Estado e de grande parte da sociedade em relação às injustiças, à opressão, à discriminação”.

Também entrevistado por mim, Neil DeVotta, um dos maiores especialistas no Sri Lanka, onde cresceu, hoje professor de Política e Assuntos Internacionais na Universidade de Wake Forest, na Carolina do Norte (EUA), é mais explícito quanto às razões da crise sem precedentes nos últimos 74 anos.

A ilha a que os Portugueses chamaram Ceilão “sempre viveu acima das suas possibilidades e isso ficou evidente com os vários défices orçamentais acumulados desde a independência em 1948”, comenta DeVotta. “Os 16 planos firmados com o Fundo Monetário Internacional – está agora a ser negociado o 17º – são a prova disso.”  

Vários edifícios foram destruídos pelos manifestantes em Hambantota, a terra-natal dos “ganaciosos” Rajapaksaa, que se puseram a construir uma série de infra-estruturas, para as quais não tinham dinheiro. Aqui, entre as suas obras “inúteis”, incluem-se um estádio de críquete “onde só se realizaram 26 jogos desde 2011”; um aeroporto “que recebe mais cobras e elefantes do que aviões”; um centro de conferências com capacidade para 1500 pessoas, mas que está sempre vazio; um museu para glorificar os pais de Mahinda e Gotabaya, erigido com fundos públicos
©Atul Loke | The New York Times

Neste contexto, o autor de Blowback: Linguistic, Nationalism, Institutional Decay, and Ethnic Conflict in Sri Lanka identifica “quatro factores, abrangentes e interligados”, que deixaram em agonia um país que poderia ter sido um oásis de estabilidade na Ásia do Sul, com uma classe média culta (o ensino é gratuito, tal como a saúde) e próspera.

O primeiro factor, que agravou o défice e a dívida foi uma cultura de dependência em relação a subsídios, da electricidade aos combustíveis. O segundo foi “a trajectória etnocêntrica”, que começou em meados dos anos 1950 com políticas contra as minorias, visando a supremacia da maioria budista.

“Este empoderamento fez-se incorporando mais e mais cingaleses em serviços do Estado, de tal modo que o país tem agora um excedente de 1,5 milhões de funcionários públicos, embora bastasse menos de metade.” Muitos dos “funcionários redundantes” estão nas forças armadas ou em empresas estatais que dão prejuízos.

Em Março – face a uma escassez generalizada de combustíveis, gás de cozinha, alimentos e medicamentos, com 3/5 da população desnutrida e muitas famílias a saltar refeições –, milhares de pessoas saíram às ruas gritando Gota Go Gama (“Gota vai para casa”; “gama” significa “aldeia” na língua cingalesa), exigindo a demissão do presidente e da sua entourage
© Thilina Kaluthotage | NurPhoto | Getty Images | Foreign Policy

O terceiro factor foi “a política racista” em relação à minoria tâmil, cujas forças separatistas foram dizimadas em 2009, mas também a islamofobia que, depois da guerra, permitiu aos irmãos Rajapaksa – Mahinda (que foi presidente e primeiro-ministro) e Gotabaya (que foi chefe de Estado e titular da pasta da Defesa) – “solidificar as credenciais de nacionalistas cingaleses budistas”, enquanto “encobriam as suas más práticas”.

O quarto factor foi “a ganância” desta família, ansiosa por criar “uma dinastia política”, que se pôs a construir uma série de infra-estruturas, para as quais não tinha dinheiro. Entre as obras “inúteis”, sobretudo em Hambantota, a terra-natal dos Rajapaksa, DeVotta inclui um estádio de críquete “onde só se realizaram 26 jogos desde 2011”; um aeroporto “que recebe mais cobras e elefantes do que aviões”; um centro de conferências com capacidade para 1500 pessoas, mas que está sempre vazio; um museu para glorificar os pais de Mahinda e Gotabaya, erigido com fundos públicos.

De todos os projectos, o mais controverso foi o porto de águas profundas de Hambantota. Custou 3000 milhões de dólares e acabou alugado à China (que o construiu) por 99 anos e por um valor inferior, porque os Rajapaksa não o podiam pagar. Pequim, numa disputa de influência com a Índia, é hoje o segundo maior credor do Sri Lanka, depois de ter encorajado a megalomania do regime.

As filas para comprar combustível, em Colombo, a capital, e noutras cidades eram tão longas que muitos motoristas esperavam horas para conseguir encher os depósitos; muitos que ganhavam a vida a conduzir tuk-tuk, já afectados pela quebra das receitas do turismo, desistiram dos seus negócios
© Chamila Karunarathne | EPA | The New York Times

Durante algum tempo, as receitas com o turismo (o Sri Lanka é descrito por visitantes como “um paraíso de campos verdejantes, praias cristalinas e templos coloridos”), as remessas dos emigrantes e as exportações de têxteis e de chá foram equilibrando as contas, até que cinco acontecimentos nos últimos três anos “desencadearam o caos”, acrescenta Neil DeVotta. “Dois foram auto-infligidos; os outros três foram exógenos”.

Em 2019, depois de chegar à presidência, aproveitando-se dos mortíferos ataques de Domingo de Páscoa contra igrejas e hotéis para exibir a reputação de “exterminador” ganha na guerra contra os Tâmiles, Gotabaya Rajapaksa adoptou, sem qualquer justificação, uma medida desastrosa: desceu os impostos, reduzindo o número de contribuintes de 1,55 milhões em 2020 para 412 mil em 2021. Ao baixar a receita fiscal, acelerou a inflação, para 60,8%.

Em Abril do ano passado, com os cofres do Estado vazios, e para poupar em subsídios, Gotabaya proibiu a importação de fertilizantes sintéticos e pesticidas, decretando da noite para o dia uma transição para a agricultura orgânica que prometera fazer em 10 anos. O resultado foi catastrófico: só a produção de cereais caiu 43%.

A seguir, vieram os acontecimentos “exógenos”: a pandemia de Covid-19, que reduziu drasticamente as receitas turísticas e as remessas dos emigrantes, e depois a guerra na Ucrânia, que fez disparar os preços dos alimentos e energia a nível global. A situação tornou-se tão grave que dividiu o próprio Governo em “dois centros de poder”, segundo o jornal The New York Times.

Os irmãos Mahinda Rajapaksa (presidente), Gotabaya Rajapaksa (chefe do Governo) e Basil Rajapaksa (ministro das Finanças), em 2018: os principais membros da família que dominou o Sri Lanka durante a maior parte das últimas duas décadas
© Eranga Jayawardena | Associated Press

Em Março – com uma escassez generalizada de combustíveis, gás de cozinha, alimentos e medicamentos, com 3/5 da população desnutrida e muitas famílias a saltar refeições, com o encerramento de escolas e negócios –, milhares de pessoas saíram às ruas gritando Gota Go Gama (“Gota vai para casa”; “gama” significa “aldeia” na língua cingalesa), exigindo a demissão do presidente e da sua entourage.

Ruki Fernando diz não ter memória de protestos tão gigantescos, espontâneos e imprevisíveis. “Muitos dos participantes são antigos activistas, sindicalistas, líderes estudantis, artistas, clérigos, advogados e utilizadores das redes sociais, que foram capazes de mobilizar todos os que sentiam zangados, frustrados e desesperados.”

“Eu já havia sido testemunha de outras janatha aragala [lutas populares], algumas das quais vitoriosas”, como a da comunidade tâmil que, em 2018, retirou à Marinha o controlo que desde 1992 exercia sobre as ilhas Iranaitheevu, acrescenta Fernando. “São, geralmente, lutas locais, que não granjeiam a simpatia da maioria cingalesa e budista, e que a imprensa internacional tende a ignorar. Em todo o caso, sempre achei que líderes autoritários, corruptos e racistas acabarão por cair. Só não imaginava que, desta vez, tudo acontecesse tão rapidamente.”

Em Julho, depois de forçarem a demissão do presidente Gotabaya e incendiarem a residência do primeiro-ministro, centenas de manifestantes em Colombo entraram no seu palácio nunca antes aberto ao público: mergulharam na piscina, fizeram churrascos no jardim, dormiram a sesta na cama do fugitivo, exercitaram-se num ginásio e tiraram selfies na sala de conferências
© Chamila Karunarathne | EPA | The New York Times

Neil DeVotta concorda que os habitantes do Sri Lanka “sempre tiveram uma forte tradição de protesto”, mas também ele ficou surpreendido com “a amplitude” das manifestações do Aragalaya. Espantou-o, em particular, “a mansidão” com que, em 9 de Julho, Gotabaya fugiu num avião militar para as Maldivas, enquanto uma multidão invadia o palácio presidencial, depois de ter incendiado as residências do primeiro-ministro Mahinda (que se demitira em Maio) e de vários deputados.

Numa mansão nunca antes aberta ao público, manifestantes mergulharam na piscina, fizeram churrascos no jardim, dormiram a sesta na cama de Gotabaya, exercitaram-se num ginásio e tiraram selfies na sala de conferências.

As tendas montadas no parque de Galle Face Green, em Colombo, descreve Ruki Fernando, “pareciam uma cidade, com uma biblioteca, uma universidade do povo, um cinema, uma cozinha comunitária, um centro de energia solar e instalações de primeiros socorros”.

O Aragalaya não tinha chefes, mas à medida que o tempo passava, “foi emergindo uma liderança, ainda que sem estrutura formal”, indica Fernando. Havia diversidade e divergências, o que é natural, com as pessoas a discutir se haveriam de negociar com os partidos, se deveriam continuar ou desistir.”

As tendas montadas no parque de Galle Face Green, em Colombo, descreve Ruki Fernando, “pareciam uma cidade, com uma biblioteca, uma universidade do povo, um cinema, uma cozinha comunitária, um centro de energia solar e instalações de primeiros socorros”
© Atul Loke | The New York Times

Para Ruki Fernando, ter-se juntado aos protestos desde o primeiro dia, especialmente estar presente na grande concentração de 9 de Abril em Galle Face Green, “foi uma experiência extraordinária”. Durante semanas e meses, ali passou os dias, até de madrugada, na companhia de imensa gente, incluindo pais que levavam os filhos, para assistir a debates políticos e actividades culturais.

Quando muitos começaram a desmobilizar, porque estavam cansados de palmilhar quilómetros para chegar à capital ou não tinham combustível para os seus veículos, ele sentiu “solidão e tristeza”.

“No Sri Lanka, nunca houve uma verdadeira luta pela democracia e pela justiça à escala do Aragalaya”, realça Ruki Fernando. E, embora o que se viu nos últimos meses, fosse um grande encontro das várias etnias e religiões (Cingaleses e Tâmiles, budistas e hindus, cristãos e muçulmanos), a realidade é que “o foco do movimento era a economia e o estado de Direito”.

Poucos quiseram discutir as feridas da guerra civil, como os milhares de desaparecidos. “Uma das coisas que mais me impressionou”, conta Fernando, “foi quando uma mãe velhinha tâmil me veio dizer: ‘Eles [cingaleses] querem luz, combustível, gás e fertilizante; nós queremos saber onde estão os nossos filhos e familiares que nos retiraram à força’.”

A crise e os protestos uniram, por ora, cingaleses e tâmiles, budistas, cristãos, muçulmanos, mas o activista Ruki Fernando observou que poucos quiseram discutir as feridas da guerra civil de 1983-2009. “Uma das coisas que mais me impressionou”, disse Fernando, “foi quando uma mãe velhinha tâmil me veio dizer: ‘Eles [cingaleses] querem luz, combustível, gás e fertilizante; nós queremos saber onde estão os nossos filhos e familiares que nos retiraram à força’” (na foto, um protesto de familiares de tâmiles desaparecidos, realizado em 2018 em Mullaitivu, no nordeste do país)
© Adam Dean | The New York Times

Neil DeVotta converge na apreciação de Ruki Fernando. “O movimento Aragalaya não discute a militarização que oprime os Tâmiles, em especial no Norte, nem as exigências tâmiles de responsabilização pelos crimes cometidos durante a guerra civil. Embora os manifestantes tenham apelado a uma mudança do sistema, pouco ou nada têm a dizer sobre as queixas das minorias, excepto alguns slogans contra o racismo, etc.”

“O Aragalaya tem raízes na privação económica, não num desejo de igualdade étnico-religiosa.  A unidade étnico-religiosa deve-se à escassez que a todos afecta e ao ódio aos Rajapaksas, um sentimento comum às minorias.”

“Se hoje a comunidade maioritária também partilha este sentimento, não é por estar disposta a abandonar a supremacia; pelo contrário, é porque o nacionalismo não substitui estômagos vazios.”

Mais optimista, o padre Jude Chrysantha Fernando, recém-nomeado pela Conferência Episcopal do Sri Lanka director para a Comunicação Social Nacional da Igreja Católica, crê que no Aragalaya “toda a gente está genuinamente unida, seja qual for a identidade étnica ou religiosa”.

Uma das razões para a ruína do Sri Lanka, segundo o académico Neil DeVotta, foi “a trajectória etnocêntrica”, que começou em meados dos anos 1950 com políticas contra as minorias, visando a supremacia da maioria budista. (Na foto, ao centro, Galagoda Aththe Gnanasara Thero, líder da organização extremista Bodu Bala Sena (BBS)
© Dinuka Liyanawatte | Reuters

Essa foi uma das razões, diz-nos também em entrevista, por que tantos aceitaram e apoiaram o movimento. “Os líderes políticos tentam dividir-nos, mas no Aragalaya até alguns monges budistas, que sempre foram privilegiados, rejeitam agora esses líderes.”

“Na linha da frente, estiveram sacerdotes e freiras. O nosso cardeal Malcolm Ranjith tem assumido um papel activo. A Igreja, que é muito respeitada, principalmente porque as suas escolas formam as melhores pessoas, colocou-se ao lado dos jovens que protestam, e protege-os.”

O padre Fernando critica o actual presidente, Wickremesinghe, por reprimir quem insiste em reclamar nas ruas os seus direitos, e acredita que os cidadãos não se deixarão silenciar. “Dentro de dois anos, haverá eleições e ninguém irá cometer os erros do passado.”

“As pessoas votarão numa nova liderança que seja boa para o país. O Aragalaya abriu um precedente: os políticos corruptos não serão tolerados e serão derrubados imediatamente.”

Em Abril de 2021, com os cofres do Estado vazios, e para poupar em subsídios, Gotabaya Rajapaksa proibiu a importação de fertilizantes sintéticos e pesticidas, decretando da noite para o dia uma transição para a agricultura orgânica que prometera fazer em 10 anos. O resultado foi catastrófico: só a produção de cereais caiu 43%
© Shefali Rafiq | The New Humanitarian

O activista Fernando diz que “as detenções em massa, os raptos e os interrogatórios”, alegadamente ordenados por Wickremesinghe – um protegido de Gotabaya (que tencionava regressar ao país em 24 de Agosto, depois de estadas em Singapura e na Tailândia) – “têm reforçado e enfraquecido” o movimento de protesto, mas “apenas temporariamente”, porque, “a longo prazo, o poder popular sairá fortalecido”.

“O actual governo, o presidente e o Parlamento [dominado pelo partido dos Rajapaksa], não reflectem um mandato do povo”, critica Ruki Fernando. “O Aragalaya não é perfeito, não resolve todos os nossos problemas e também não nos oferece um país perfeito, mas já conseguiu muito: livrou-nos de líderes autoritários, corruptos e racistas.”

O académico Neil DeVotta reconhece que a realização de eleições “poderia acalmar” os manifestantes, porque se livrariam da maioria dos deputados, mas alerta que dificilmente isso resolveria de imediato os problemas económicos.

“Primeiro, é preciso garantir uma certa estabilidade; talvez formar um governo com todos os partidos políticos, diminuir os poderes do chefe de Estado e acabar com o sistema de presidência executiva [instaurado por Gotabaya]. No pior cenário, a crise irá durar 6 a 8 anos. Serão anos muito penosos.”

Em Julho, manifestantes queimaram a efígie do agora presidente, Ranil Wickremesinghe, um político veterano que havia sido escolhido por Gotabaya e que conta com o apoio do partido dos Rajapaksa no Parlamento. A luta continua, prometaram
© Atul Loke | The New York Times

Chegados aqui, como explicar a longevidade dos Rajapaksa, uma família que, escreveu DeVotta, transformou o Sri Lanka “de uma meritocracia numa etnocracia que, por sua vez, degenerou numa caquistocracia – o governo dos piores cidadãos”.

Responde o professor: “O que sempre importou nunca foi a pessoa ser honesta e capaz, mas o seu compromisso para com a etnocracia. Isso fez com muita gente boa se afastasse, fosse cooptada [pelo regime] ou permanecesse em silêncio. E isso permitiu aos Rajapaksa capturar o Estado.”

Alguns analistas regionais dizem que a maioria na ilha padece do “complexo de minoria”. DeVotta compreende este sentimento, porque “o grupo étnico cingalês e a língua cingalesa só existem no Sri Lanka, que criou uma identidade própria depois de enfrentar várias invasões ao longo da sua história”.

O facto de o Budismo “estar a definhar na Ásia do Sul, depois de ter florescido durante séculos” é outro factor de preocupação. O problema maior, todavia, é que “os nacionalistas do Budismo Theravada insistem em promover o complexo de minoria e manipular tal sentimento para justificar a etnocracia.”

Ruki Fernando parece ter fé em dias luminosos: “O Aragalaya reacendeu o espírito de desafio e resistência a uma escala jamais vista no Sri Lanka, oferecendo-nos esperança num futuro melhor. O espírito do Aragalaya, com os seus êxitos e fracassos, irá encorajar muito mais aragala [lutas].”

 * “Resplandecente ilha” é o significado do adjetivo “Sri” e do nome “Lanka”.

Cingaleses, Tâmiles, Mouros, Burghers, Vedas

O Sri Lanka é um mosaico de etnias e religiões, línguas e culturas, mas é dura a coexistência. Sobretudo entre “leões” e “tigres”.

CINGALESES

* Maior grupo étnico da República Democrática Socialista do Sri Lanka – 74,9% dos quase 22 milhões de habitantes -, os Cingaleses dizem-se descendentes de um príncipe, Vijaya, oriundo do Norte da Índia e com um antepassado leonino. Sinhaya é a palavra cingalesa para “leão”, e os Cingaleses descrevem-se como “Povo do Leão” ou “Raça de Leão” – animal que domina a bandeira nacional. A religião é o Budismo (da corrente Theravada, ou “Caminho dos Anciãos”), que é professado por 70,2% da população e por 93% de cingaleses. A língua materna é o Cingalês, que pertence ao grupo linguístico indo-europeu. Seguem o cânone sagrado páli e não o sânscrito, usado pelas outras duas escolas budistas, Mahayana e Vajrayana. Apesar de partilharem a mesma língua e religião, há diferenças entre os cingaleses de Kandy, na região central montanhosa, e os up-country, nas planícies e zona costeira. Kandy, que foi um reino independente até 1818, preservou o prestígio da antiga nobreza e os valores culturais e sociais conservadores, apesar de mais de 400 anos de colonialismo. Já um grande número dos up-country, sobretudo da casta Karava, converteram-se ao Cristianismo e foram subindo na escada social, desenvolvendo uma elite cosmopolita, fluente em línguas europeias e conhecedora da administração civil. A partir da independência em 1948, consolidou-se o “sentimento” de que a ilha “pertence” aos cingaleses budistas. Em 1956, o Cingalês foi declarado língua oficial. Em 1972, a Constituição atribuiu ao Budismo um lugar central, criando efectivamente uma etnocracia, que foi pondo em prática e legitimando acções opressivas das minorias. Embora o Budismo se apresente como uma religião de paz, há na escola Theravada grupos extremistas, alguns liderados por monges, que justificam a violência “para proteger o Estado e a supremacia da religião” contra o que consideram ameaças externas, em particular o Islão. Muitos temem que o Sri Lanka se torne “uma colónia muçulmana”. São o que alguns analistas definem como “uma maioria com complexo de minoria”.

TÂMILES

* Pelo menos 15,4% dos habitantes da ilha são Tâmiles e falam tâmil (língua dravídica do Sul da Índia e Norte e Ocidente de Ceilão). Dividem-se se em dois grupos: os “Tâmiles do Sri Lanka” (também conhecidos como Tâmiles de Ceilão ou de Jaffna), são uma “minoria nativa”, descendente de grupos que, desde o séc. V a.C., migraram do Sul da Índia e que agora totalizam 2,3 milhões ou 11,2%; os “Tâmiles Indianos”, 4,2%, são imigrantes recentes ou descendentes de imigrantes, contratados pelos britânicos, os últimos colonos europeus, para trabalhar nas plantações de chá. A partir de 1948, quase um milhão destes marginalizados tâmiles perderam todos os direitos ou foram repatriados para o vizinho estado indiano de Tamil Nadu. Com a ascensão do nacionalismo cingalês e a adopção da língua cingalesa como idioma oficial aumentou a discriminação e o isolamento de todos os tâmiles. A Constituição de 1972 pôs em marcha planos de colonização cingalesa no Norte e no Leste, e radicalizou os mais jovens nestas regiões. Em 1975, com a maioria dos tâmiles receptivos à ideia de uma pátria separada e a maioria dos cingaleses hostis a quaisquer concessões, emergiram os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE), com uma ala política e militar. Gradualmente, o LTTE foi eliminando outros grupos dispostos a compromissos, até se tornar uma força poderosa e temível. No seu auge, chegou a ter 23 mil combatentes, alguns deles crianças, retiradas de casa e da escola, além de 4000-5000 mulheres, muitas das quais integravam a unidade Black Tigers, responsável por atentados suicidas. Seguindo o lema “a vida é uma arma”, os bombistas andavam sempre com uma cápsula de cianeto à volta do pescoço, que usariam antes de ser capturados. O LTTE, de Vellupilai Prabhakaran, era o único grupo de guerrilha do mundo com uma armada, Sea Tigers, com vários navios e uma unidade de mergulhadores para operações submarinas. Tinha ainda uma divisão aérea, com dois helicópteros e dois aviões ligeiros, e outra antiaérea, com mísseis terra-ar. O grupo identificava-se como “secular, socialista e feminista”, mas muitos não hesitaram em classificá-lo de “fascista”, pela sua doutrina de “um líder, uma nação, um povo”. A guerra civil durou de 1983 até 2009 e causou, segundo a ONU, cerca de 100 mil mortos e 100 mil desaparecidos. Os crimes atribuídos às tropas governamentais foram tão ou mais horrendos que os imputados ao LTTE: atacar e cercar aldeias e privá-las de água, alimentos e medicamentos, execuções extrajudiciais com corpos a arder nas ruas durante dias; múltiplos actos de tortura e violações… A guerra acabou com a derrota do LTTE e a morte de Prabhakaran. A minoria tâmil continua a pagar um preço elevado. A justiça prometida pelos vencedores nunca chegou.

MOUROS

* A comunidade muçulmana (composta por Mouros do Sri Lanka, Mouros Indianos e Malaios) representa 9,2% da população da ilha. A maioria dos fiéis segue o Islão sunita, mas há também discípulos do Sufismo. Em termos linguísticos, o tâmil é o idioma principal, mas, para enfatizarem as “raízes árabes” e se distinguirem dos Tâmiles, os “Mouros de Ceilão” – nome dado pelos Portugueses no séc. XVI, insistem em promover esta “identidade única”. Consideram seus antepassados os mercadores árabes que se instalaram na ilha entre os séc. VIII e XV, casando com mulheres cingalesas e tâmiles. Muitos muçulmanos chegaram antes dos Portugueses; outros (os Memon, os Bohra e os Khoja) vieram depois dos Britânicos, oriundos de várias partes da Índia. Quanto aos Malaios, têm origem no Sudeste Asiático. Muitos dos primeiros imigrantes eram soldados que a administração colonial holandesa colocou em Ceilão; outros eram condenados ou membros de famílias reais exilados, que não abandonaram a ilha. Continuam a falar a língua malaia (bahasa melayu), que absorveu vocábulos cingaleses e tâmiles. Durante a guerra civil de 1983-2009, alvo de massacres e limpeza étnica, os muçulmanos foram aliados do exército contra os guerrilheiros tâmiles, mas quando o LTTE foi derrotado, a maioria cingalesa e budista fez deles o “novo inimigo”.

BURGHERS

* O nome – Burghers – é uma invenção holandesa (deriva da palavra burger, que refere o cidadão de um berg, bairro ou cidade,), mas esta comunidade permanece, na sua maioria, de origem portuguesa. Mantém a religião e as tradições cristãs, e concentra-se em zonas urbanas, como Batticaloa, no Leste, e em Colombo, a capital, mas diminuiu em número e influência desde a independência em 1948, sobretudo devido à emigração. Inicialmente dois grupos separados em bases raciais, religiosas, linguísticas e até compleição física –, só em 1833, sob domínio britânico, é que os “Burghers Portugueses” (católicos) e os “Burghers Holandeses” (protestantes) foram classificados como um só grupo de “descendentes de portugueses, holandeses e todos os europeus nascidos no Sri Lanka”. Portugal encorajava os casamentos mistos. Os filhos destas uniões, desprezados pelos holandeses, eram conhecidos como Tupase pelos cingaleses e Tuppai pelos tâmiles. Sob domínio holandês, a língua portuguesa foi proibida, mas estava tão disseminada que ainda hoje se mantém viva, na forma de “crioulo do Sri Lanka”. Essa influência é visível em apelidos, como “Fonseka”, “Fernando”, “Perera” ou “Silva”; e em nomes comuns, como “iskolaya” (escola), “sumanaya” (semana), “kamisaya” (camisa), “lensuwa” (lenço), “mesaya” (mesa), tuwaya” (toalha), ou produtos como “saban” (sabão) ou “simenti” (cimento).  

VEDAS

* Os Vedas, literalmente, “o povo da floresta”, são os últimos descendentes dos antigos habitantes do Sri Lanka, uma sociedade de caçadores-colectores que, segundo estudos arqueológicos e antropológicos, remontará ao Neolítico. Já habitariam a ilha, em cavernas e abrigos de pedra, antes da chegada dos Cingaleses. Animistas, que veneram plantas, objetos inanimados, fenómenos naturais e o espírito dos antepassados, não conseguiram preservar a língua veda nem os costumes próprios, adoptando os dos colonizadores. Hoje, na sua maioria, estão confinados à aldeia de Dambana, perto de Mahiyangana, que foi o seu primeiro povoado. Mais uma casta do que um grupo étnico, os Vedas são, para a ONU, “uma tribo em extinção”, devido a projectos governamentais que afectaram os seus meios de subsistência e à guerra civil de 1983-2009.

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Setembro de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2022 edition

RDC e Sudão do Sul: Onde a esperança não morre

O mais importante país católico em África e a mais jovem nação do mundo confiavam em que a visita do Papa Francisco daria visibilidade às suas aspirações de paz, justiça e democracia.  A missão foi adiada por motivos de doença. Os fiéis continuam a acreditar que o futuro está do seu lado. (Ler mais | Read more…)

Fiéis católicos rezam em Kinshasa, capital da República Democráticas do Congo no Dia dos Mártires da Independência
© John Wessels | AFP | Getty Images

Seria uma viagem memorável.

Em Kinshasa, dois milhões de congoleses deveriam encher a pista do aeroporto de Ndolo onde se concluía “uma das maiores tribunas da história” para a celebração de uma missa solene. Em Kibumba, 20 quilómetros a norte da cidade de Goma, engalanadas as ruas e afinadas as vozes do coro paroquial, tudo estava a postos para acolher pelo menos outros quatro milhões de fiéis. Na diocese de Rumbek, jovens sudaneses do Sul organizavam uma caminhada de mais de 400 km, até Juba, para afirmação da sua fé.

O anúncio de que a visita apostólica do Papa Francisco à República Democrática do Congo (RDC) e ao Sudão do Sul, confirmada inicialmente pelo Vaticano para decorrer de 2 a 7 de Julho, foi adiada sine die, por motivos de doença, entristeceu os que há muito “preparavam o seu coração” para o receber.

A missão do pontífice ao continente que ele descreve como “um mártir espoliado por outras potências”, incluiria oito discursos, três homilias e encontros com líderes políticos, diplomáticos e religiosos, pessoas deslocadas e refugiadas, membros de grupos discriminados, vítimas de violência, sobretudo mulheres e crianças.

Isso obrigaria a muitas horas de pé, sob um calor intenso, algo que os médicos desaconselharam a um paciente de 85 anos, que, com fortes dores no joelho direito, se move em cadeira de rodas ou com a ajuda de uma bengala, e não pode interromper os tratamentos.

Um membro do M23 dorme num camião, enquanto aguarda a retirada deste grupo rebelde da cidade de Goma, no leste da República Democrática do Congo, em Dezembro de 2012. Não é fácil construir a paz no segundo maior país de África, onde a guerra se prolonga há muitos anos, com milícias e organizações armadas em constante luta contra o governo
© Phil Moore | AFP | Getty Images | The New York Times

Na RDC, a visita começaria em Kinshasa, a capital, depois de um voo de seis horas e meia, prosseguindo em Goma, cidade da província do Kivu-Norte, no Leste, ainda a recuperar de duas erupções vulcânicas, onde continuam activos mais de 100 grupos armados e parece iminente, segundo a organização Human Rights Watch, “uma nova guerra” envolvendo o Burundi, o Uganda e o Ruanda.

Francisco deveria celebrar missa no campo de refugiados de Kibumba e, no centro diocesano local, encontrar-se-ia com vítimas da violência em Beni, a segunda maior cidade da região, fustigada por uma epidemia de Ébola, desastres naturais e múltiplas atrocidades contra civis, como raptos e execuções extrajudiciais, atribuídas a milícias, mas também ao exército congolês.

A visita ao Sudão do Sul, acompanhado do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e do Moderador da Igreja da Escócia, Jim Wallace, seria uma “peregrinação ecuménica sem precedentes”, com uma vigília de oração em Juba, no Mausoléu de John Garang (dedicado ao defunto líder do exército de libertação), conduzida pelos três líderes, para encorajar os crentes e os políticos a “buscar o que os une e a ultrapassar o que os divide”.

Ainda na capital, antes de uma missa de despedida, o Papa visitaria um campo de deslocados internos, recebendo depois os jesuítas da Nunciatura Apostólica, bispos, padres e outros religiosos na Catedral de Santa Teresa.

Católicos congoleses cantam e dançam durante uma manifestação para exigir a demissão do antigo presidente Joseph Kabila, em 31 de Dezembro de 2017: o papel da Igreja foi fundamental para a transição política
©John Wessels | AFP | France24

Na RDC, Rigobert Minani Bihuzo, Coordenador do Apostolado Social da Província Jesuíta da África Central e da Rede Eclesiástica da Floresta da Bacia do Congo, ia encontrar-se com o Papa na Nunciatura em Kinshasa e depositava grandes esperanças numa visita de “solidariedade e compaixão”, com o potencial de despertar a atenção do mundo, “tendenciosamente concentrada na Ucrânia”, para “um sofrimento maior”, e para a urgência de preservar o que a Encíclica Laudate Si’ descreve como “o segundo maior pulmão do planeta”, depois da Amazónia.

No seu “perigoso apostolado”, em conjunto com a Comunidade de Sant’Egídio, uma das funções do padre Bihuzo é “dialogar com gente não recomendável: grupos armados, pessoas que lideram rebeliões ou estão envolvidas em assassínios”.

“É um diálogo perigoso”, explica-me, em entrevista por telefone, o autor de Le défis de la construction de la paix em RDC et l’engagement de l’Église. “Se tudo corre bem, é natural que sejamos elogiados; se falhamos, somos condenados. É um fardo penoso de carregar sozinho.”

E há sempre ameaças “Quando andamos pela selva e não nos conhecem, arriscamos a morte. É preciso ganhar antes a confiança [dos interlocutores]. Numa situação volátil, às vezes, somos suspeitos de ser espiões.”

Milhares de congoleses fogem da aldeia de Sake em direcção a Goma, em 2007, na sequência de violentos combates entre o exército nacional e soldados leais ao líder rebelde tutsi, Nkunda, no leste da RDC, país onde se estima haver mais de cinco milhões de deslocados internos – um décimo dos 50 milhões em todo o mundo, segundo um relatório do Internal Displacement Monitoring Centre
© Lynsey Addario | Corbis | daraint.org

Não é, pois, fácil construir a paz no segundo maior país de África, depois da Argélia, cuja área (2.345.000 km2) equivale a mais de metade do território da União Europeia. “Temos uma guerra que se prolonga há muitos anos, com milícias e grupos armados em constante luta contra o governo”, observa Bihuzo.

“O governo, na maior parte das vezes, usa uma abordagem militar, mas quando um conflito assenta em contendas de território e assume características muito diversas, não devemos concentrar-nos apenas na questão militar. Precisamos de incluir também outros problemas, como o acesso à terra, a segurança individual, a participação política. É preciso ir ao encontro do que as comunidades necessitam.”

Grande parte da missão de Bihuzo centra-se no Leste da RDC, epicentro de um conflito com origem no genocídio da minoria tutsi do Ruanda em 1994 (quando extremistas hutus fugiram para o Zaire de Mobutu e aqui formaram grupos armados) e alimentado pela cobiça de países vizinhos, que pilham as vastas riquezas naturais congolesas – coltan, cobalto, cobre, lítio, diamantes, ouro – contribuindo para o empobrecimento da sociedade. Calcula-se que 82% dos mais de 75 milhões de habitantes vivam abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,25 dólares por dia e por pessoa.

Duas mulheres congolesas refugiadas numa igreja em Kibumba, no norte de Goma, depois de obrigadas a fugir de suas casas devido ao reatamento dos combates entre o grupo rebelde M23, apoiado pelo vizinho Ruanda, e tropas governamentais da RDC, em Julho de 2022
© Associated Press | dailysabah.com

Em 2002, onze governos africanos e vários grupos armados assinaram acordos para pôr fim a uma guerra que causou, até agora, 5,4 milhões de mortos (muitos por falta de alimentos), 4,5 milhões de deslocados internos e mais de 800 mil refugiados.

A instabilidade conduziu à escassez de meios de subsistência e à ruptura dos serviços básicos, como cuidados de saúde. A violência bárbara atingiu duramente mulheres e crianças: desde 1996, registaram-se mais de 200 mil violações.

Em 2008, Rigobert Bihuzo foi enviado para os Kivus pelo anterior Governo em Kinshasa para acompanhar as equipas que negociavam com a milícia Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP) e outros grupos armados congoleses. As negociações, que se realizaram sob os auspícios das Nações Unidas e da União Africana, terminaram com um acordo de paz assinado em 30 de Março de 2009.

O coordenador jesuíta continua a supervisionar a aplicação deste compromisso, “um trabalho que exige muita paciência, porque os resultados são muitas vezes lentos ou parecem inexistentes, especialmente quando se tem de acompanhar actores ‘fracos’, isto é, os que perderam a guerra, mas continuam a ser perigosos, ou aqueles cuja causa não tem apoio internacional”.

A maioria dos esforços de paz fracassa, admite Bihuzo, porque “a comunidade internacional insiste na ideia de que o conflito é um assunto interno da RDC e evita desafiar o Estado e o aparelho militar do Ruanda. Não é possível resolver o problema enquanto não se confrontar o incendiário.”

Kisanfu, uma das maiores reservas de cobalto, controladas pela China, na RDC, um país onde a guerra é alimentada pela cobiça de países vizinhos, que pilham vastas riquezas naturais, as quais incluem também coltan, cobre, lítio, diamantes e ouro. Apesar da abundância de recursos, calcula-se que 82% dos mais de 75 milhões de habitantes do país vivam abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,25 dólares por dia e por pessoa
© Ashley Gilbertson | The New York Times

Outro elemento a destacar: “Todos estão mais interessados nos negócios com os minerais estratégicos do Congo, usados na alta tecnologia, como smartphones, computadores e carros eléctricos, do que em pôr fim à guerra. Enquanto não interpelarmos os actores locais, regionais e internacionais não chegaremos a lado nenhum.” 

Da sua experiência, Bihuzo nota que, “na maior parte das vezes, é o governo que está ao leme” e que “as pessoas nem sempre têm tempo, energia ou estratégia para contactar as comunidades no terreno”, cujos líderes têm perspectivas diferentes.

“No final, ficamos com a impressão de que os acordos são firmados entre elites, só que a realidade é mais complexa. O importante é ir em busca das raízes do conflito.”

Na construção da paz, Rigobert Bihuzo lamenta ainda que a abordagem seja frequentemente “muito técnica e jurídica, sem integrar as componentes da simpatia, do sofrimento, da solidariedade, do amor”.

Na sua opinião, “há vantagem em partir destes valores cristãos”, porque “negociar não é reparar um carro avariado. É preciso considerar as situações de sofrimento, as questões humanas, o respeito pelos direitos fundamentais. Por detrás da procura da força e do poder, há vidas a ter em conta.”

Uma igreja dos tempos coloniais na comunidade remota de Rimenze, Sudão do Sul, onde muitos procuraram refúgio depois de ataques de forças governamentais durante a guerra civil
©Tyler Hicks | The New York Times

Pactos entre elites é o que o antropólogo Jok Madut Jok também constata no Sudão do Sul, a mais jovem nação do mundo que o Papa deveria visitar de 5 a 7 de Julho e onde já foram assinados 12 acordos de paz desde que uma guerra civil eclodiu em 2013, causando mais de 400 mil mortos, 2,3 milhões de refugiados em seis países vizinhos e 1,6 milhões de deslocados internos.

“A resolução de conflitos e a construção da paz baseia-se demasiado em acordos entre elites político-militares (…) sobre a partilha de poder e de recursos”, escreve Jok, investigador no Sudd Institute, em Juba, num ensaio intitulado Lessons in Failure: Peacebuilding in Sudan/South Sudan. “Muitas vezes ignoradas são as dinâmicas das comunidades e da sociedade que inicialmente alimentaram a violência.”

Um dos equívocos que Jok realça é o facto de, nos processos negociais, “se insistir na reconstrução das infra-estruturas, da economia e das instituições públicas, mas se negligenciar a reconstrução das pessoas, das suas relações umas com as outras, da assistência aos traumas e à restauração dos laços familiares e da ordem social, que já impediam a estabilidade antes da guerra começar”.

“Quando falha o sentimento de justiça, é certo o colapso da confiança das pessoas nos acordos de paz”, adverte Jok. “E a confiança só pode ser restaurada através do diálogo nacional, da reconciliação, da partilha equitativa dos dividendos da paz e de reformas credíveis no campo da segurança.”

Mãe e filha num campo para pessoas deslocadas em Yambio, no Sudão do Sul, a mais jovem nação do mundo, onde já foram assinados 12 acordos de paz desde que uma guerra civil eclodiu em 2013, causando mais de 400 mil mortos
© Tyler Hicks | The New York Times

Os sudaneses do Sul queriam que as autoridades “controlassem os soldados rebeldes, profissionalizassem as forças armadas e lhes ensinassem o valor da lei e dos direitos humanos”, mas o Governo em Juba “não correspondeu às expectativas e a viabilidade do Estado é hoje uma questão em aberto.”

Jok tem uma certeza: “Não será bem-sucedida nenhuma iniciativa de paz que não contemple a justiça e a responsabilidade pelos crimes de guerra”. Muitas pessoas que continuam a combater queixam-se de que o Governo “não facilita a reconciliação nacional” e “atribuem esse fracasso ao esforço das elites para encobrir os abusos e as atrocidades levados a cabo durante a guerra” que conduziu à separação do Sudão em 2011.

Quase ¾ da população do Sudão do Sul tem menos de 30 anos de idade. A maioria, toda uma geração de 1995 até 2005, não frequentou a escola. “A sua única noção de identidade é o contributo para a guerra [contra Cartum] e a convicção de que o Governo os abandonou desde que deixaram as armas para trás.” Sem perspectivas de emprego, muitos destes jovens tronaram-se “uma das principais fontes de instabilidade política e de militância crescente”, adianta Jok.

Quase ¾ da população do Sudão do Sul tem menos de 30 anos de idade. A maioria, toda uma geração de 1995 até 2005, não frequentou a escola. “A sua única noção de identidade é o contributo para a guerra [contra Cartum] e a convicção de que o Governo os abandonou desde que deixaram as armas para trás”
© Associated Press | VoA

O Sudão do Sul até pode ter um acordo de paz que acomodou os principais líderes, o presidente, Salva Kiir, e o vice-presidente, Riek Machar, seu rival, mas as comunidades de onde provêm estes jovens “continuam a sofrer a violência da pobreza, da exclusão e da falta de oportunidades.”

“O caminho para a paz e reconciliação é longo”, admite, em entrevista que me medu, por WhatsApp, o comboniano Christian Carlassare, bispo da diocese de Rumbek, capital do estado de Lagos, que, na preparação da visita papal, estava a mobilizar os jovens para uma romaria, “pela fé, vocação, unidade e reconciliação”, até Juba, 25 km diários, a pé e de carro, durante 11 dias. 

“A assinatura do acordo de paz de 2018 e a formação de um governo de unidade nacional representaram um passo em frente, mas ainda falta dar muitos passos importantes”, reconhece Dom Carlassare. “Sabemos que o período de transição tem um prazo [termina em Fevereiro de 2023] e que várias resoluções devem ser implementadas. Vemos que essa implementação está a ser difícil.”

Em Abril, o Painel de Peritos sobre o Sudão do Sul, criado pelas Nações Unidas, concluiu que “quase todos os componentes do acordo de paz estão reféns do calculismo político das elites militares e de segurança do país, que recorrem à violência, apropriação indevida de recursos públicos e apadrinhamento para satisfazerem os seus interesses.” Um dos componentes que ainda não se materializou é a criação de um exército unificado, que deveria integrar 42 mil soldados dos campos do governo e da oposição.

O Sudão do Sul é também um dos países mais afectados pelas alterações climáticas. Três anos consecutivos de cheias destruíram imensas colheitas. Só em 2021 foram afectadas cerca de 835 mil pessoas
© Peter Caton | petapixel.com

“Há demasiadas armas nas mãos de civis”, atesta o missionário que foi baleado nas duas pernas, pouco depois de nomeado por Francisco, em Abril de 2021. Foi tão grave o atentado à sua vida, supostamente cometido por “pessoas católicas”, incluindo um sacerdote, que só em Março deste ano foi possível a sua sagração, após seis cirurgias.

“A violência é sempre má e inexplicável”, declara Christian Carlassare. “As pessoas perdem facilmente a cabeça quando cegas pela ambição ou pelo desejo de ganhos pessoais. Jovens sem educação também são manipulados. Foi uma experiência dura, mas agradeço a Deus porque senti a dor que muitos no Sudão do Sul sofrem, o medo pela própria vida e a subsequente necessidade de esquecer tudo em benefício dos outros. Agradeço a Deus o sentimento profundo de perdão e liberdade para fazer o que está certo.”

“É claro que África nos ensina a nunca desesperar”, adianta o bispo. “As pessoas serão a esperança deste novo país quando todos, cidadãos e comunidades, entregarem as armas e responsabilizarem os líderes pelas suas acções, apoiando os que estão realmente comprometidos com o bem comum.”

Embora o acordo de 2018 tenha contido os combates mais sangrentos, a realidade é que a violência nunca cessou, e até tem vindo a aumentar, com violações, decapitações e ataques em que civis são queimados vivos. O estado de Unity é um dos mais afectados, mas também o de Equatória Ocidental, onde em 2021 centenas de pessoas foram mortas e 80 mil desalojadas.

11 de Abril de 2019: O Papa Francisco ajoelha-se para beijar os pés do presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, no decurso de um retiro de dois dias no Vaticano, no qual participou também o vice-presidente, Riek Machar (à direita). Aos dois rivais, o chefe da Igreja Católica pediu que resolvessem as suas desavenças e fizessem a paz
© Reuters | CNS | Vatican Media

“O tecido social do país deteriorou-se devido às divisões étnicas”, realça Carlassare, também ele, aparentemente, vítima das rivalidades entre a tribo Dinka, maioritária no Rumbek, com a qual trabalhou durante dez anos, e o clã Nuer. “Uma economia enfraquecida não é garantia de vida digna para os cidadãos: a grande maioria [80% ou 1 em cada 5, segundo o Banco Mundial] vive abaixo do limiar da pobreza”.

O Programa Alimentar Mundial da ONU calcula que, este ano, 2/3 da população (8,3 milhões) do Sudão do Sul enfrentará fome extrema devido aos vários conflitos, às alterações climáticas e à inflação. Nos campos de deslocados internos, o bispo ouve um lamento: “Somos prisioneiros no nosso próprio país.”

O italiano Carlassare, tal como o congolês Bihuzo, ansiava pela visita do Papa que, em 2019, numa notável audiência no Vaticano, se ajoelhara para beijar os pés de Salva Kiir e do rival Riek Machar, exortando-os a respeitar o armistício que haviam assinado e a prometer que não perpetuavam a guerra civil. A visita ao Sudão do Sul, acredita o bispo de Rumbek, serviria para ajudar a consolidar a paz, “a nível institucional e das comunidades locais”, mas também apoiar um “processo democrático pacífico”.

Pessoas deslocadas pela violência inter-confessional em Tombura, no Sudão do Sul, em setembro de 2021, procuraram abrigo em casa de familiares em Yambio, onde também recebem ajuda da diocese católica local
© Sean Hawkey | CNS

O acordo de 2018 deveria culminar em eleições em Dezembro do próximo ano, mas o cepticismo é enorme, porque não há garantias de segurança nem fundos para organizar o escrutínio. E, sobretudo, porque nenhuma das partes se compromete com uma data. A oposição, por exemplo, exige que regressem primeiro os milhares de refugiados e que haja uma Constituição permanente.

Na República Democrática do Congo, onde o mandato do presidente, Felix Tshisekedi, termina em Dezembro de 2023, seria igualmente intenção de Francisco “encorajar a realização de eleições livres e justas”.

A Conferência Episcopal (CENCO), que “tudo tem feito para promover a democracia”, segundo Bihuzo, denunciou “inúmeras irregularidades” na nomeação dos membros da Comissão Eleitoral Nacional (CENI) e do Tribunal Constitucional, que proclama os resultados oficiais, suspeitando que “a politização” destes organismos visa manter no poder o homem que sucedeu a Joseph Kabila num processo que 4000 observadores da Igreja Católica confirmaram fraudulento em 2019.

Apesar da turbulência constante, o padre jesuíta não considera que as riquezas da RDC sejam uma maldição. “Não é por o país ser rico que tem problemas. É a corrida aos nossos recursos que alimenta o conflito. Estou optimista porque o meu trabalho, no dia a dia, permite-me ver que as pessoas estão determinadas a encontrar soluções. As pessoas querem marcar a diferença. O futuro está do nosso lado.”

Em Kinshasa e em Juba, a Igreja une-se ao povo

Duas mulheres da comunidade congolesa em Roma, no momento do ofertório, durante uma missa celebrada pelo Papa Francisco na Basílica de São Pedro, no Vaticano, em 3 de Julho de 2022, dia em que o chefe da Igreja deveria ter estado em Kinshasa; a viagem foi adiada devido a problemas de saúde
© CNS | Vatican Media

Num continente onde, até 2050, o número de cristãos deverá totalizar 1300 milhões – o maior do mundo -, segundo o Center for the Study of Global Christianity, do Seminário Teológico Gordon-Conwell*, há uma nação que se destaca: a República Democrática do Congo (RDC).

Neste país que o Papa Paulo VI chamou de “o irmão mais velho da Igreja na África negra”, e onde a história da evangelização remonta ao século XV quando, em 1491, missionários portugueses baptizaram o soberano do reino do Kongo, Nzinga Nkuwu (mais tarde João I), cerca de 90% da população é cristã (diferentes denominações), refere o padre jesuíta Rigobert Minani Bihuzo, num artigo publicado na revista italiana Aggiornammenti Sociali.

A Igreja Católica na RDC, a que pertencem 55% dos congoleses, “é poderosa, respeitada e influente”, porque “apazigua tensões e desarma crises”, diz, por seu turno, Franz Vaillant, director da estação francesa Tv5Monde. “É um facilitador da palavra, um actor discreto e eficaz, espécie de mediador neutro, capaz de estabelecer um diálogo entre as partes, sem tomar partido”, sem dar “passos em falso” entre “uma oposição exasperada e um presidente crispado”.

Bihuzo, destacado activista pela paz, salienta que, apesar de “um forte crescimento” dos evangélicos pentecostais nas últimas décadas, uma forma de o regime travar o poder da Igreja Católica, esta “não perdeu sua vitalidade” e tornou-se num “importante berço do catolicismo, enviando missionários para todo o mundo”.

“A Igreja Católica, a que pertencem 55% dos congoleses, “é poderosa, respeitada e influente”, porque “apazigua tensões e desarma crises”, assegura Franz Vaillant, director da estação francesa Tv5Monde. (Na foto, fiéis durante a celebração de uma missa na Catedral de Kinshasa, em 29 de Dezembro de 2018)
© Baz Ratner | Reuters | CNS

Se o actual Papa resignar (e há rumores a este respeito devido aos seus problemas de saúde), entre os cardeais eleitores que participarão no conclave que escolherá o sucessor está o arcebispo de Kinshasa, Fridolin Ambongo, regularmente apontado como “sério pretendente” ao lugar. Francisco elevou Fridolin a cardeal em Outubro de 2019.

A Igreja da RDC, observa o padre Bihuzo, é conhecida pelo seu “rito particular, zairense, uma liturgia orante, dançante e vibrante”, que encoraja os “esforços de inculturação”, mas é também “uma igreja de mártires”, como Marie-Clémentine Anaurite Nengapeta, Isidoro Bankaja e Christophe Munzihirwa, que aguardam canonização.

Na entrevista que me deu, Bihuzo enfatiza que “a Igreja Católica é uma das instituições mais sólidas da RDC e uma das mais corajosas em África”. Com 82% da população a viver abaixo do limiar da pobreza, a Igreja “substitui o Estado onde ele está ausente, sobretudo nas áreas rurais e remotas”, garantindo serviços vários, da educação e cuidados de saúde (controla 70% das escolas e muitos hospitais) ao pagamento de salários de professores e outros funcionários públicos. Está também presente na arena política, através da prestigiada Conferência Episcopal (CENCO), “exigindo o respeito pela democracia e os direitos humanos”.

No Sudão do Sul, “a Igreja funciona como o fermento na massa – uma pequena quantidade tem o poder de realizar uma grande mudança”, diz o bispo comboniano de Rumbeck, Christian Carlassare. (Na foto, oração matinal na escola primária católica das Irmãs de Loreto, em Maker Kuei, nos arredores de Rumbeck)
© Paul Jeffrey | Life on Earth Pictures | World Council of Churches

Quanto ao Sudão do Sul, onde os primeiros missionários chegaram em 1842 e a religião é considerada uma ponte que une grupos étnicos desavindos, os católicos representam menos de metade dos cristãos (37,2%, ou 6,2 milhões dos 16 milhões de habitantes). Isto não preocupa o bispo de Rumbeck, Christian Carlassare. “A Igreja funciona como o fermento na massa – uma pequena quantidade tem o poder de realizar uma grande mudança”, diz-me o prelado numa entrevista.

Num país onde já só 19,7% da população se mantém fiel a crenças tradicionais e animistas, que envolvem o culto dos mortos, o espiritismo ou a magia, a Igreja Católica procura “estar presente em todas as comunidades e falar a língua comum do Evangelho, que é o mandamento do amor, do perdão e da reconciliação”, enfatiza o prelado comboniano. “A Igreja tem sido o grande impulsionador do processo de paz e uma testemunha credível, porque sempre esteve ao lado do povo, sofrendo em conjunto.”

Em muitos casos, tem sido “o primeiro agente na construção da paz e no cuidado dos que foram afectados pela guerra civil que causou milhares de mortos, através de serviços de saúde e assistência. No campo da formação, por exemplo, ajudou a abrir escolas e encorajou o ensino.

A educação, realça Dom Carlassare, “é o meio mais poderoso de mudança social e cultural, sobretudo a educação das raparigas, tantas vezes esquecidas e destinadas a casamentos precoces.”

* Instituição evangélica composta por 85 denominações, com sede em Hamilton, Massachusetts, Estados Unidos da América

“A Igreja [no Sudão do Sul] tem sido o grande impulsionador do processo de paz e uma testemunha credível, porque sempre esteve ao lado do povo”, garante o bispo de Rumbeck © Secretariato Generale della Missione, MCCJ

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Julho-Agosto de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine Além-Mar, July-August 2022 edition

África: A “tábua de salvação” da Rússia?

Foi o seu isolamento depois da anexação da Crimeia, em 2014, que levou o Kremlin a regressar a um continente que abandonara quando ruiu a União Soviética. Agora, com uma guerra total na Ucrânia, Moscovo poderá usar riquezas da região para escapar a sanções mais penosas. A antropóloga Tatiana Smirnova e o politólogo Ebenezer Obadare explicam-me o que está em jogo. (Ler mais | Read more…)

Fotografia do presidente russo, Vladimir Putin, numa rua de Mabako, capital do Mali, em 19 de Fevereiro de 2022, durante as celebrações do anúncio da França de que iria retirar as suas tropas deste país, que agora acolhe forças de Moscovo
© Florent Vergnes | AP | Getty Images | Foreign Policy

A ambição da Rússia, após o colapso da URSS, era voltar a ser uma potência global e não apenas regional. Para dar esse salto, Moscovo escolheu África, o continente que abandonara abruptamente há três décadas e onde, em alguns países, sobrevive o legado soviético.

O regresso “foi gradual, refletindo um confronto cessante com os países ocidentais”, diz-me, por e-mail, Tatiana Smirnova, antropóloga social e etnologista, estudiosa das relações entre a Rússia e África. “Os acontecimentos de 2014, relacionados com o estatuto da Crimeia, foram o momento crucial; a Rússia precisava de mercados novos, assim como de apoio internacional, e o continente africano era uma excelente oportunidade. A guerra na Ucrânia intensificou esta tendência”.

Em 2014, na sequência da anexação russa da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, a Rússia foi expulsa do Grupo dos Oito (G8) países mais desenvolvidos. Os Estados Unidos, a União Europeia, o Canadá e outros impuseram sanções, reforçando o isolamento diplomático de Moscovo e castigando duramente a sua economia.

A alternativa foi olhar para África, aproveitando o desinteresse da Administração de Donald Trump e a vontade de alguns líderes africanos, preocupados com o domínio crescente da China, diversificarem os seus parceiros de negócios e investimentos.

A United Co Rusal International explora alumínio na Guiné (Conacri); esta empresa russa pôde continuar a exportar este recurso africano, porque só o seu fundador, o bilionário Oleg Deripaska, foi incluído na lista de sanções internacionais após a guerra na Ucrânia ©Bloomberg

“Hoje, não há dúvida de que, à semelhança de outros, a Rússia tem interesses oportunistas em África, sobretudo o comércio de armas e a exploração de recursos económicos, como minerais raros [a United Co Rusal International explora alumínio na Guiné (Conacri); o grupo Rosatom  procura urânio na Namíbia; Alrosa, a maior companhia de minas de diamantes do mundo está activa em Angola e no Zimbabwe]”, adianta Smirnova, investigadora em resolução de conflitos e missões de paz no Centre FrancoPaix da Universidade do Quebeque, no Canadá.

“O mais interessante é a dimensão ‘ideológica’, pois a Rússia está a construir a sua legitimidade à imagem da União Soviética, apresentada como ‘libertadora’ da opressão colonial”, realça. “Esta imagem ainda é poderosa e transcende as fronteiras geográficas dos países com os quais a Rússia lida directamente. O início da guerra na Ucrânia e a extrema polarização do contexto geopolítico fez de Vladimir Putin quase um herói, que é capaz de confrontar e manter a cabeça erguida perante o Ocidente Global.”

“Embora varie de país para país, o poder de atracção russo é muito forte onde o Kremlin pôs em funcionamento a sua possante máquina de propaganda, designadamente na República Centro Africana e no Mali”, observa ainda Smirnova, especialista no Sahel.

“A narrativa russa é alimentada por ideias de multipolaridade e alter-globalismo que são atribuídas à capacidade de Putin de confrontar o Ocidente Global. O grande problema com o discurso promovido pelo Kremlin é excluir qualquer consideração de moralidade, seguindo o lema: ‘atingir os objectivos por todos os meios’. Isto é particularmente assustador, porque o apoio a esta narrativa tem vindo a aumentar, em especial em países afectados por conflitos.”

Há mais de dez anos que o grupo estatal nuclear russo Rosatom explora o potencial de urânio no subsolo da Namíbia; em 2021, pediu autorização para explorar mais uma mina, no Leste do país, o que gerou controvérsia
© rosatomnewsletter.com

No Burkina Faso, repórteres da Voz da América viram bandeiras russas a esvoaçar nas ruas, depois de um golpe de Estado militar, em Janeiro.

Na República Centro Africana, assistiram à inauguração de uma estátua representando soldados nacionais, apoiados por combatentes russos, a proteger civis – e, no entanto, a Human Rights Watch denunciou recentemente graves abusos cometidos aqui por mercenários do grupo Wagner, supostamente ligado ao Kremlin.

No Mali, observaram como a população, cansada de anos de terrorismo jihadista, acolheu calorosamente os “instrutores” russos chamados por líderes golpistas a preencher o vazio deixado pelas tropas francesas.

Como compreender esta popularidade se a Rússia nem sequer é uma grande fonte de assistência ao desenvolvimento em África, se os seus investimentos são mínimos, comparados com os da China, por exemplo? (ver caixa)

“A influência crescente explica-se por vários factores que não se podem reduzir apenas a ‘propaganda’ através das redes sociais ou de actores pan-africanistas radicais”, ressalva Tatiana Smirnova. “A atracção da Rússia é dominadora principalmente nas regiões assoladas por conflitos [como o Mali, o Sudão, a Líbia, a República Centro Africana ou Moçambique/província de Cabo Delgado], onde a prolongada presença de actores internacionais não tem contribuído para a paz.”

“A Rússia promete resolver os problemas de segurança locais onde os ‘ocidentais’ falharam. Ao mesmo tempo, oferece apoio político, e em alguns casos de segurança, às elites que aceitam a presença russa.”

O grupo russo Alrosa, que lidera o negócio de diamantes em todo o undo, em termos de volume, explora minas em Angola e no Zimbabwe © Simon Dawson | Bloomberg

A simpatia pela Rússia e um sinal de que compensou cultivar relações com uma nova geração de dirigentes, dispostos apoiar os objectivos políticos de Moscovo ficou evidente, em 27 de Fevereiro, na votação dos países africanos na primeira reunião de emergência da Assembleia Geral da ONU nos últimos 40 anos, convocada depois do veto russo a uma resolução do Conselho de Segurança que condenava a intervenção militar na Ucrânia e exigia a retirada total e imediata das tropas invasoras.

Na Assembleia Geral, a resolução não vinculativa, que incluía também a condenação da decisão de Putin de “elevar o nível de prontidão das suas forças nucleares”, foi aprovada pela necessária maioria de dois terços. Mas, embora a maioria dos Estados africanos se tenha colocado do lado da Ucrânia – 28 de um total de 54 (tal como fizeram os três representantes africanos – Gabão, Gana e Quénia – no Conselho de Segurança), não deixou de surpreender que um terço (17) tenha optado pela abstenção. Um votou contra (a Eritreia) e oito não participaram na sessão.

Entre os que se abstiveram, estão “regimes autoritários ou híbridos”, como Angola e Moçambique, mas também “democracias com fortes afinidades com o Ocidente”, analisou o investigador Mahama Tawat no site The Conversation.

Se ele entende que a África do Sul e a Namíbia tenham uma dívida de gratidão para com a ex-URSS, que os apoiou na luta contra o apartheid, Tawat notou que o voto do Senegal foi mais intrigante por se tratar de “um país querido” na Europa e EUA. Dacar esclareceu que a sua imparcialidade obedecia aos “princípios de não-alinhamento e resolução pacífica de conflitos”.

Os novos líderes da República Centro Africana ofereceram à Rússia direitos para explorarem ouro e diamantes em troca do fornecimento de armas e formação das suas tropas
© Siegfried Modola | Reuters | The New York Times

Reagindo a estas votações, Ebenezer Obadare, investigador em Estudos Africanos no think-tank Council on Foreign Relations, em Washington, e no Research Institute for Theology and Religion da Universidade da África do Sul, deu dois conselhos ao Ocidente.

Por um lado, “evitar ser paternalista e desdenhar das nações africanas neutrais”; por outro, “não deixar de expor a hipocrisia e oportunismo de líderes africanos que usam o argumento da ingerência ocidental nos assuntos internos dos outros como cortina de fumo para se perpetuarem no poder.”

Numa entrevista que me deu por e-mail, o politólogo Obadare, autor de livros como Governance and the Crisis of Rule In Contemporary Africa, explicou os dois conselhos, que não acha contraditórios. “Em primeiro lugar, quis sublinhar a legitimidade das queixas africanas contra países ocidentais.

Ao mesmo tempo, sinto que é importante não permitir que atores desonestos usem as queixas como desculpa. Podemos condenar os países ocidentais pela sua hipocrisia e, ao mesmo tempo, denunciar a Rússia e apoiar a Ucrânia.”

Na República Centro Africana, o presidente, Faustin Archange Touadéra, saúda os seus apoiantes em Bangui, a capital, em 2020, acompanhado de mercenários russos, seus guarda-costas
©Alexis Huguet/ | AFP | Getty Images | The New York Times

Os países africanos, especificou Obadare, “têm a sensação de ser frequentemente tratados como se existissem apenas para fazer número; que as suas preocupações sinceras com a persistente desigualdade global são facilmente descartadas; que o Ocidente muda muitas vezes as regras a meio do jogo, em suma, que a dor africana é facilmente minimizada.”

“Os Estados Unidos são vistos especialmente como culpados”, prossegue o director das revistas académicas Journal of West African Affairs, Democracy and Development, do Center for Democracy and Development, em Abuja, Nigéria, e Journal of Modern African Studies, da Cambridge University Press.

“O indiscutível polícia do mundo desde o colapso da União Soviética em 1989 tem tido um comportamento errático. Muitos – não só em África – acusam Washington de favoritismo moral, dispensando benesses diplomáticas aos que favorecem os seus interesses, mas saindo de cena assim que percebe uma ameaça a esses interesses, definidos de forma limitada e arbitrária.”

 Um mercenário russo do grupo Wagner (à esq.) acompanha um soldado da República Centro Africana durante um comício do partido United Hearts Movement (MCU) no estádio de Omnisport em Bangui, a capital, em 18 de Março de 2022
© AFP | VoA

Uma das razões por que a Rússia ganha aliados e o Ocidente os perde, apesar de investir mais em África, é que Moscovo segue “um modelo de apoio em que uma folha de serviços limpa no que respeita aos direitos humanos não é uma condição de amizade”, reconhece Obadare.

De modo a “renascer como potência global, é fundamental [que o Kremlin] recrute parceiros em África e lhes ofereça algo que, de momento, eles não obtêm do Ocidente. Tal como a China, a Rússia vê no continente a ocasião de aplicar uma governação alternativa, em que subtilezas quanto a direitos humanos são facilmente postas de lado”.

“Dito isto, uma coisa é [os africanos] quererem lembrar ao Ocidente os maus tratos que lhes infligiu no passado; outra coisa, totalmente diferente, é continuarem a fazer isso correndo o risco de confortar um mauzão certificado [Putin] e tolerar violência gratuita contra um povo cuja única ofensa é a de ser um vizinho”, anota Obadare. “Se a primeira atitude é compreensível, de uma perspectiva histórica simples, como vingança pelo sofrimento próprio, a segunda é moralmente indefensável e politicamente imprudente.”

“Os africanos”, insiste o investigador, “não se podem dar ao luxo de sacrificar um princípio sagrado no altar da conveniência política, exactamente o que acusam o Ocidente de fazer. Dificilmente a Ucrânia [que mantém laços excelentes com África] entenderá por que tem de suportar este fardo. A última coisa que os ucranianos precisam agora é de uma lição de história.”

O Mali virou-se para a Rússia assim que a França anunciou que se iria retirar do país, há muitos anos assolado por uma mortífera inssurreição jihadista (na foto, soldados de Paris em Timbuktu)
© Thomas Coex | AFP | Getty Images | Financial Times

A antropóloga Tatiana Smirnova admite que os recursos do Kremlin, para se expandir em África, “não são os mesmos que tinha antes do início da invasão da Ucrânia”. Tem, porém, a certeza de que “a guerra e o isolamento deram mais uma razão à Rússia para reforçar os seus interesses” no continente. “Creio que não se trata sequer de uma questão de capacidade, mas sim de sobrevivência. A Rússia vai tentar alargar a sua influência a países onde ainda não está presente.”

Haverá o risco de Putin “usar os recursos naturais pilhados em África para fugir às sanções e manter em funcionamento a máquina bélica russa”? Esta hipótese foi aventada num artigo pulicado na revista TIME por George Clooney, John Prendergast e Justyna Gudzowska, responsáveis da organização The Sentry, dedicada a desmantelar redes multinacionais predadoras que beneficiam de conflitos violentos, repressão e cleptocracia? “É difícil prever a próxima jogada”, responde a antropóloga.

O investigador Ebenezer Obadare admite: “Não é inconcebível que Putin possa usar as relações com alguns países africanos para neutralizar os efeitos das sanções ocidentais, mas é uma questão em aberto se, a longo prazo, conseguirá fazer isso com sucesso”.

Já os receios de que África se “poderá tornar palco de uma repetição das lutas imperialistas” que caracterizaram a Guerra Fria, considera-os “enganadores”. Porque “isso seria assumir que os países africanos não são donos do seu destino”.

Clooney, Prendergast e Gudzowska sugerem que o melhor, para os países africanos, seria adoptar uma política de “nem Rússia, nem Ocidente, nem China”. Obadare discorda. “Há quem veja o conflito ucraniano como apenas uma luta intra-europeia pela supremacia entre duas hegemonias sedentas de poder e cujo resultado não afectará os países africanos. Isto é absurdo.”

 Seria um grande erro se os países africanos abandonassem o Ocidente”, conclui. “Não vejo benefícios a longo prazo num mundo em que os valores dominantes são os de Vladimir Putin. Os países africanos estão numa importante encruzilhada histórica; como tal, não podem dar-se ao luxo de seguir um caminho errado.”

Muitas armas, poucos investimentos

©Amelia Broodryk | ISS | premiumtimesng.com

Ao reforçar a sua presença em África, a Rússia aumentou para cerca de 20 mil milhões de dólares as trocas comerciais com o continente – mais do dobro em relação a 2015, segundo o African Export-Import Bank: mais de 14 mil milhões em exportações e menos de 5 mil milhões em importações (80% das quais provenientes da Argélia, do Egipto, de Marrocos, da Guiné, da Costa do Marfim e da África do Sul; as compras de trigo representam 90% deste comércio).

O total continua, porém, a ser muito inferior ao da China, cujo volume anual de trocas com África ascende a 254 mil milhões.  Em termos de investimento estrangeiro directo, o da Rússia equivale apenas a 1%.

A exportação de armas para África representou 18% do total das vendas de armamento da Rússia, entre 2016 e 2020 – um aumento de 23% face ao período 2011-2015. No entanto, a fatia da Rússia no mercado mundial diminuiu 22% em relação à década 2011-2020, sinal de um mercado muito competitivo no continente (envolvendo os EUA, a França, a Alemanha e a China). A Argélia compra à Rússia 69% do seu armamento, Angola 64% e o Egipto 41%, revela o Danish Institute for International Studies.

África compra mais de 1/3 das suas armas à Rússia, segundo o Instituto de Investigação para a Paz em Estocolmo, salientando que “os contratos entre a companhia estatal Rosoboronesport e 20 Estados africanos incluem praticamente todo o tipo de armamento” – caças, helicópteros e sistemas de defesa aérea, carros de combate, espingardas e munições. Os principais compradores são o Egipto e a Argélia, mas também a Nigéria, o Sudão e o Mali.

Há um década, os mercenários contratados por empresas de segurança russas estavam presentes apenas em dois países. Agora, estão activos em 27, sendo 16 deles em África, diz o Center for Strategic and International Studies, em Washington.

Os mercenários do grupo Wagner, com supostas ligações ao presidente Putin, têm entre 3000 e 5000 homens na África subsariana. Entre 800 e 1000 estão no Mali, onde recebem um total de 10 milhões de dólares por mês para “treinar” as forças de segurança, mas principalmente, para “proteger” o regime militar em Bamako, informa Harry G. Broadman, autor do livro Africa’s Silk Road.

© Guardian Design Illustration | The Guardian

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Junho de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the June 2022 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

Guerra na Ucrânia, fome no mundo

Ao interromper a cadeia de abastecimento de cereais e fertilizantes para a agricultura, a invasão russa está a criar uma crise alimentar global que afectará centenas de milhões de pessoas, sobretudo nos países mais pobres. Teme-se uma explosão de conflitos sociais. (Ler mais | Read more…)

© Vincent Mundy | Bloomberg | Getty Images | NPR

No Norte da Ucrânia, o agricultor Grigoriy Tkachenko recusou-se a abandonar a aldeia de Lukashivka, nas proximidades da cidade de Chernihiv, para poder sustentar a família e alimentar os soldados que defendem a pátria. Mas a sua quinta foi destruída por bombas dos invasores russos e agora ele está desesperado, porque “quase nada resta”.

Na Somália, sem pão e sem água, Suray teve de sair de casa numa busca desesperada para salvar os sete filhos. Caminharam durante duas semanas para chegar a Baidoa, capital do Estado do Sudoeste. Nenhuma das crianças sobreviveu, nem o bebé que ela amamentava. Para as sepultar, aldeões ajudaram a mãe a cavar uma campa rasa numa terra estéril depois da seca mais grave das últimas quatro décadas. “Perdi-me na minha dor”, disse ela.

As histórias de Tkachenko e de Suray, contadas pelo jornal The New York Times e pela organização World Vision, respectivamente, são alguns dos dramas humanos exacerbados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, os dois maiores “celeiros do mundo”.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) admitiu que cortou as rações diárias a 3,8 milhões de pessoas no Iémen, no Chade e no Níger, para poder atender às necessidades de outros 3 milhões na Ucrânia e países vizinhos. “Estamos a tirar a comida aos esfomeados para dar aos famintos”, lamentou David Beasley, o director executivo desta agência das Nações Unidas, que nunca precisou de fazer isto em 60 anos de existência.

© Jerome Delay | Associated Press

A Ucrânia e a Rússia são “os motores” que alimentam o mundo. A invasão coincidiu com o início da estação de plantio, transformando desde logo mais de 30% dos férteis terrenos agrícolas ucranianos em zonas de guerra, segundo a ONU.

Depois, foram encerrados os portos do mar Negro, impedindo as exportações. Seguiu-se novo aumento dos elevadíssimos preços do petróleo, encarecendo a compra e distribuição de produtos básicos, deixando em situação de “catástrofe” os Estados mais pobres e vulneráveis em África, no Médio Oriente e na Ásia, já assolados pela “tempestade perfeita” de “conflito, clima e Covid-19”.

Desde o dia 14 de Fevereiro que aviões e carros de combate, mísseis e mercenários russos reduzem a escombros cidades e lugarejos, casas, escolas, hospitais e outros edifícios. Mas a destruição que, segundo a ONU, poderá causar “a maior crise alimentar global desde a Segunda Guerra Mundial” é a dos campos agrícolas, que cobrem 70% da superfície do segundo maior país da Europa.

Com 32 milhões de hectares de terras aráveis, a Ucrânia assegura metade das exportações mundiais de sementes e derivados de girassol para a União Europeia, e é um dos maiores exportadores de trigo e milho.

Nos anos 1930, era Odessa e não Chicago o centro de comércio internacional de cereais. Explica o Banco Mundial que esta riqueza, suplementada por uma “vantajosa localização geográfica” (proximidade com a Rússia e a UE, serventia de portos de águas profundas, acesso aos maiores compradores de cereais no Médio Oriente e no Norte de África) deve-se ao seu solo negro, chernozem, altamente rico numa matéria orgânica chamada húmus, que oferece “condições excepcionais” à produção de vastas culturas, especialmente cereais (14,8 milhões de hectares em 2020) e oleaginosas (10 milhões).

© Finbarr O’Reilly | The New York Times

Em consequência da guerra, pelo menos 20% das colheitas de Abril estão perdidas, informou o primeiro-ministro. Embora muitos agricultores tivessem lançado sementes à terra e o Governo os tenha isentado do serviço militar e da defesa territorial, a realidade é que muitos deixaram os campos que cultivavam, ou os camiões e comboios de mercadorias que conduziam, para combater nas linhas da frente. Além disso, as forças russas têm minado muitas propriedades, destruído maquinaria, silos de armazenagem e depósitos de combustível, o que dificulta ainda mais a recuperação.

Algumas das principais áreas de produção de cereais situam-se nas regiões de Donetsk e Luhansk, no Leste da Ucrânia, para onde a Rússia, que ali apoia grupos separatistas, está a encaminhar as suas tropas depois de ter sido incapaz de conquistar Kiev, a capital.

No entanto, mesmo que parasse agora a guerra – que em menos de dois meses causou 4,3 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos –, faltaria tempo para retomar as exportações, não apenas de cereais, mas também de fertilizantes (a Rússia é o maior produtor mundial).

O preço do trigo, que já havia aumentado 80% entre Abril de 2020 e Dezembro de 2021, deverá continuar a subir se as operações militares não cessarem e os portos e caminhos de ferro forem danificados, disse ao New York Times David Laborde, investigador no International Food Policy Research Institute, em Washington.

Comprometidas as próximas colheitas, dentro de quatro meses, “a situação ficará mesmo sombria, porque os países que dependem do trigo da Rússia [o maior produtor, com 76 milhões de toneladas em 2021, das quais 35 milhões para exportar] e da Ucrânia serão duramente atingidos.”

© Khaled Ziad | Foreign Policy

Quase 283 milhões de pessoas enfrentam actualmente insegurança alimentar aguda ou estão em risco elevado, e 45 milhões estão “à beira da fome”, avisa o PAM, salientando que estes números poderão duplicar devido à guerra entre os que lhe fornecem 50% do trigo com que alimenta mais de 115 milhões de bocas em 117 países e territórios.

“As pessoas vão reagir se não conseguirem pagar a comida, matar a fome”, prevê, em declarações à revista Foreign Policy, Catherine Bertini, investigadora no Chicago Council e ex-directora do PAM, recordando as sublevações populares que, em 2011, ajudaram a derrubar regimes ditatoriais no Egipto e na Tunísia.

No Sudão, por exemplo, milhares de pessoas têm vindo para a rua, sem medo de balas e gás lacrimogéneo, para protestar contra um aumento de 80% do trigo proveniente da Rússia e da Ucrânia. No Iraque, centenas de agricultores revoltaram-se contra a subida dos preços dos fertilizantes.

Arif Husain, economista-chefe e director de investigação no Programa Alimentar Mundial da ONU, não tem dúvidas que a crise que hoje se vive “é muito pior” do que as de 2006-2008 (quando os preços médios do milho, arroz e trigo aumentaram, respectivamente, 70, 180 e 120%, empurrando para a pobreza 105 milhões de pessoas) e de 2010-2012 (que afectou 40-44 milhões de pessoas). “É pior porque agora temos uma guerra no Iémen, uma guerra na Síria, uma guerra na Etiópia, uma guerra no Norte da Nigéria, uma guerra no Afeganistão…”

© Middle East Institute

“Se pensam que o inferno chegou à Terra, é melhor prepararem-se”, avisou David Beasley, o director executivo do PAM, em entrevista ao site POLITICO. “Se neglicenciarmos o Norte de África, o Norte de África virá até à Europa; se negligenciarmos o Médio Oriente, o Médio Oriente virá até à Europa”, em vagas migratórias. E as condições económicas não se degradaram apenas naquelas regiões (ver segundo texto).

“Em Paris, Chicago ou Bruxelas, o que pensam que vai acontecer se não houver comida suficiente? É fácil sentarem-se na vossa torre de marfim, quando não sois vós a passar fome”, criticou Beasley, após uma reunião na Bélgica, onde foi pedir um aumento das contribuições para que o PAM, galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2020, possa ajudar os que mais necessitam.

A solução imediata, reconhece Arif Husain, é monetária. Porque, embora ainda se produza alimentos em quantidade suficiente para alimentar o mundo, o grande problema continua a ser o preço e o acesso numa cadeia de abastecimento global a que faltam resiliência e soberania.

Vejamos: embora o consumo tenha acelerado muito nas últimas décadas, porque o crescimento demográfico aumenta a procura, o comércio internacional de cereais representa apenas “uma pequena parte” da produção, explica o economista e engenheiro alimentar Bruno Parmentier no site Futura Planète.

A maioria dos cereais é consumida pelos países que os produzem. “Em 2020, por exemplo, só 119 milhões das 761 milhões de toneladas produzidas atravessaram fronteiras.”

© Middle East Online

Os países que produzem mais do que consomem são poucos; para o trigo, sobretudo Rússia, Estados Unidos, Canadá, Ucrânia, França, Austrália e Argentina; para o arroz, Índia, Paquistão, Vietname, Tailândia e EUA: para o milho, EUA, Brasil, Argentina e Ucrânia.

“Infelizmente, os países estruturalmente importadores são mais numerosos do que os exportadores”, anota Parmentier. “Não têm superfícies agrícolas e recursos naturais, e a situação agrava-se, de no para ano, porque aumentam as populações, mas a área de terras cultiváveis ou a disponibilidade em água não cessam de diminuir.”

Estados industrializados como o a Suíça, o Japão ou a Coreia do Sul podem ser incapazes de se alimentar sozinhos, mas não terão problemas em comprar – a qualquer preço – os produtos de que necessitam, adianta Parmentier.

“Não é o que acontece com o Egipto – o maior importador mundial de trigo (12 milhões de toneladas em média) – que tem de alimentar 102 milhões de habitantes num deserto, e onde o único vale cultivável é o do Nilo, representando apenas 4% da superfície do país.”

Também não é o caso do Bangladesh, “cuja população deverá aumentar de 165 milhões para mais de 200 milhões em 2050 (com 1400 habitantes por km2, será o mais densamente povoado do mundo), onde a subida das águas, resultante das alterações climáticas, irá amputar-lhe um terço da sua actual superfície”.

© Daniel Berehulak | The New York Times

A guerra é igualmente um obstáculo. “Em países onde os homens são soldados e as mulheres refugiadas, os campos são abandonados”, realça Parmentier. “Mas também é pouco provável que tenham acesso a sementes seleccionadas, fertilizantes, pesticidas, tractores e debulhadeiras ou combustível para os pôr em marcha. E, se por milagre, conseguirem fazer as colheitas, os seus sistemas de armazenamento, transporte e venda não serão os mais eficazes.”

A guerra na Ucrânia ameaça “os verdadeiros pobres do planeta, aqueles cuja ração diária de cereais é sempre a mesma: ou arroz, ou milho ou mandioca”, conclui Parmentier. “São eles os mais sensíveis a aumento dos preços, porque, para eles, é a diferença entre comer mal e ter fome.”

Se os apoios que as agências da ONU imploram não chegarem, o secretário-geral, António Guterres, prevê “um tsunami de fome e o colapso do sistema alimentar global”.

À beira de “um furacão de fome”

Pelo menos 50 países dependem do trigo produzido pela Ucrânia e pela Rússia para alimentar as suas populações. A maioria deles situa-se em África, no Médio Oriente e na Ásia, onde há cada vez mais habitantes e cada vez menos água e terras aráveis.

ÁFRICA ORIENTAL
© Jon Warren | World Vision

Antes da guerra da Rússia na Ucrânia – países que fornecem 90% do trigo que se consome na África Oriental –, pelo menos 28 milhões de pessoas na Etiópia, Quénia, Somália e Sudão do Sul enfrentavam o “perigo real” de fome severa, em consequência de conflitos locais, da pior praga de gafanhotos dos últimos 70 anos, de cheias diluvianas e de uma seca sem precedentes nas últimas quatro décadas. Agora, porque os preços dos bens alimentares, já exacerbados pelos efeitos da Covid-19, aumentaram 80% desde a invasão russa, teme-se “uma catástrofe”, alerta a organização humanitária britânica Oxfam. A Etiópia vive a mais grave crise de insegurança alimentar desde 2016, com mais de 30 milhões de pessoas a necessitar de assistência. Uma semana após a invasão russa, o preço do óleo de girassol, por exemplo, aumentou 215%. Na região somali, no Leste, 3,5 milhões de pessoas não têm água e alimentos suficientes. Na região do Tigré, no Norte, com nove milhões a precisar de ajuda, a situação é ainda mais crítica, devido a uma guerra civil iniciada em 2020. No Quénia, muito dependente do trigo russo e ucraniano, os preços aumentaram de 345 para 550 dólares a tonelada, depois de uma quebra de 70% nas colheitas. Pelo menos 3,1 milhões de pessoas estão em situação de “fome aguda”, e quase metade das famílias “pede comida emprestada ou compra-a a crédito”. Na Somália, que importa praticamente todos os cereais da Ucrânia ou da Rússia (o preço da farinha aumentou mais de 50%) e onde 90% do território enfrenta uma seca severa (há zonas sem chuva há mais de dois anos), 4,3 milhões de pessoas passam fome. Pelo menos 2,3 milhões foram obrigadas a deixar as suas casas, em busca de sustento. Quase metade das crianças com menos de 5 anos estão desnutridas. No Sudão do Sul, o PAM alerta que, este ano, poderá ser “a pior crise de fome de sempre”: mais de 70% da população luta pela subsistência num país criado em 2011 e onde a insegurança alimentar atingiu níveis sem precedentes, causada por conflitos e choques climáticos, pela pandemia de Covid-19 e pelo aumento constante dos preços.

SAHEL
© Michele Cattani | AFP | Getty Images | refugeesinternational.org

Na região que cada vez mais se assemelha ao deserto do Sara e inclui alguns dos países mais pobres do mundo (Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia, Níger), a fome ameaça 35 milhões de pessoas em 2022, se não receberem ajuda, alerta a organização Action Against Anger. É uma subida significativa em relação a 2020 (15 milhões) e 2021 (27 milhões). Incluídos os 17 Estados da África Ocidental e do Sahel, mais os Camarões, as previsões da OCDE são as de que 40,7 milhões de pessoas enfrentarão, até Junho, uma crise alimentar e de nutrição, agravada pelo impacto da guerra na Ucrânia no preço dos produtos básicos – um aumento expressivo face aos 28,9 milhões em 2021. O que se avizinha no Sahel, onde os centros de saúde abarrotam de crianças desnutridas, poderá ser, diz o PAM, “a maior crise alimentar da última década”. A região debate-se com muitos demónios: violência intercomunitária, ameaças jihadistas e operações militares estrangeiras, que desalojaram mais de 9 milhões de sahelianos; golpes de Estado; secas e chuvas extremas, degradação da biomassa, pobreza, pandemia. Um dos grandes problemas no Sahel é o rápido crescimento da população, que duplicou desde 2000 e deverá voltar a duplicar até 2050 (de 92 milhões para quase 200 milhões). Há cada vez menos o que comer e beber, mas há cada vez mais gente para alimentar.

NORTE DE ÁFRICA
© Sojoud Elgarrai | Just Vision

A guerra na Ucrânia pode representar “uma ameaça existencial” para algumas economias e populações do Norte de África (Egipto, Líbia, Sudão, Tunísia), segundo organizações humanitárias. No Egipto, o maior importador mundial e também o maior comprador de trigo à Rússia e à Ucrânia, mais de 70 milhões de pessoas dependem de pão subsidiado. Se os preços continuarem a subir, o regime de Abdel Fateh El Sisi dificilmente levará por diante o plano de cortar os subsídios ao pão, pois corre o risco de protestos como os que derrubaram o ditador Hosni Mubarak em 2011. Nas padarias não subsidiadas, o preço aumentou cerca de 50%. A Líbia, que comprava à Ucrânia mais de 40% do seu trigo, viu os preços deste bem essencial aumentarem mais de 30% uma semana depois da invasão russa. O ministro da Economia garantiu haver reservas estratégicas para seis meses, mas não evitou uma crise de abastecimento de farinha em várias cidades. Depois de mais de uma década de conflitos, implosão do governo central e emergência de vários senhores da guerra, pelo menos 12% dos líbios, ou seja, mais de meio milhão de pessoas, precisarão de ajuda em 2022, segundo o PAM. O Sudão, onde o aumento dos preços do pão também contribuiu para a queda de um tirano, Omar al-Bashir, em 2019, é o país “mais exposto” às consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, que forneciam cerca de 87% dos seus cereais, segundo a FAO. A inflação, devido a desvalorizações da moeda e diminuição dos subsídios, chegou a 250%. Em Cartum, a capital, o preço de um pão, que era de 2 libras sudanesas há dois anos, é agora de 50. As Nações Unidas estimam que quase 1/3 da população, ou mais de 14 milhões de pessoas, precisará de ajuda humanitária este ano. Os que se encontram em situação mais vulnerável são os 3,3 milhões deslocados internos da região de Darfur. Na Tunísia, a braços com uma grave crise política e uma economia à beira da falência, debilitada por anos de inflação, desemprego e dívida pública, a invasão russa da Ucrânia, país que lhe vendia 50% do trigo, fez com que os preços registassem a maior subida dos últimos 14 anos. Regista-se também escassez de arroz, sêmola, açúcar e farinha, que são alimentos básicos.

MÉDIO ORIENTE
© Getty Images | Middle East Institute

Três agências das Nações Unidas – a FAO, o PAM e a UNICEF – soaram o alarme em 14 de Março, menos de um mês após a invasão russa da Ucrânia: a crise de fome no Iémen aproxima-se do “nível de catástrofe”, com 17,4 milhões de pessoas a necessitar já de ajuda alimentar urgente, número que poderá aumentar para 19 milhões, entre Junho e Dezembro. Há pelo menos 2,2 milhões de crianças desnutridas, quase meio milhão delas em risco de vida, condição em que se encontram igualmente 1,3 milhões de mulheres grávidas ou a amamentar. Num país que dependia em 30% do trigo importado da Ucrânia, os preços quintuplicaram em relação a 2015. Um quilo de trigo custa agora 800 riais, comparado com 146 antes da crise, diz o PAM. Uma guerra que dura há sete anos e já matou centenas de milhares de pessoas é o principal causador da fome: cerca de 80% dos cerca de 30 milhões de iemenitas precisam de assistência para sobrevier. Na Síria, dependente do trigo da Rússia, cerca de 90% da população vive na pobreza depois de 11 anos de uma guerra sem fim. Há 4 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. No Líbano, cerca de 80% do trigo importado em 2020 proveio da Ucrânia e outros 15% da Rússia, indicam dados oficiais. Depois da explosão de um silo de armazenamento no porto de Beirute, há 2 anos, as reservas do país ficaram reduzidas a um mês. A situação é dramática, tanto mais que 80% da população vive agora na pobreza.

ÁSIA
© Bulent Kulic | AFP | Al Jazeera

O PAM estima que cerca de 95% dos 38 milhões de habitantes do Afeganistão não têm alimentos suficientes para comer nem dinheiro para os comprar. Cerca de 23 milhões – mais de 55% – já passam fome. A guerra na Ucrânia é “um desastre”, não só porque “desvia recursos, simpatia e atenção merecidos por milhões de afegãos que precisam de fundos, alimentos e protecção contra abusos de direitos humanos”, mas porque também “irá beneficiar os talibãs, que aproveitarão o facto de o mundo estar distraído com outro agressor para assim consolidar o seu poder”, analisa o United States Institute for Peace. Embora os principais fornecimentos de trigo ao Afeganistão provenham do Cazaquistão e do Uzbequistão, a subida dos preços dos bens essenciais e do combustível resultante da invasão russa poderá aumentar em 20% o custo da assistência humanitária. Um saco de farinha custa o equivalente a 26 euros, mas a maioria dos afegãos vive agora com menos 1,75 euros por dia. A UNICEF calcula que mais de um milhão de crianças afegãs com menos de 5 anos correm o risco de morrer desnutridas; 3,5 milhões precisam de ajuda alimentar. O PNUD avisa que os rendimentos de 97% dos afegãos ficarão este ano abaixo da linha de pobreza.

Estes artigos foram publicados na edição de Maio de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, May 2022 edition

Nicarágua: A ditadura do revolucionário

Daniel Ortega e a Frente Sandinista puseram fim a 43 anos de dinastia Somoza para a substituir por outra tirania. O regime do antigo guerrilheiro silencia, persegue, prende, tortura e força ao exílio qualquer dissidente, incluindo ex-companheiros de luta. A sociedade civil está debilitada, e agora as sanções à Rússia pela guerra na Ucrânia introduziram uma incógnita: o que será das autocracias do hemisfério sem o seu patrono? (Ler mais | Read more...)

Um manifestante ergue a bandeira da Nicarágua à frente de uma linha de agentes da polícia de choque, durante um dos muitos protestos, em Manágua, a capital, contra o regime de Daniel Ortega em 2018
© 2018 Oswaldo Rivas | Reuters | Human Rights Watch

O investigador social e professor universitário Diego (nome fictício que escolheu para protecção pessoal) quer “ver a situação com optimismo”, mas reconhece que “é difícil vislumbrar uma saída” para o que alguns descrevem como “a pior crise política dos últimos 40 anos” na Nicarágua, o seu país-natal.

Os sonhos de democracia e justiça foram esmagados em 2018, depois de uma inusitada revolta popular contra um pacote de reformas anunciado, em Abril, pelo Instituto Nicaraguense da Segurança Social (INSS). Os mais penalizados seriam milhares de reformados, que, com pensões equivalentes a 300 ou 500 dólares mensais, passariam a contribuir com 5%, para cobrir despesas por doença.

Dois dias depois do anúncio do INSS, o presidente Daniel Ortega impôs, unilateral e inconstitucionalmente, as reformas, que, alertaram especialistas, sem uma diminuição dos gastos administrativos, iriam aumentar o desemprego no país mais pobre do continente americano.

De imediato, começaram manifestações em Manágua, a capital, e noutras cidades, denunciando o “roubo de décadas de trabalho”. O mais surpreendente foi a participação de sectores que até então apoiavam o governo, como as universidades públicas e o Conselho Superior da Empresa Privada.

O presidente e a vice-presidente da Nicarágua, Daniel Ortega (à dir) e Rosario Murillo (ao centro): os opositores, incluindo antigos camaradas sandinistas, acusam-nos de querer “eliminar a sociedade civil” e perpetuarem-se no poder
© Esteban Felix | AP | The New York Times

Foi uma “rebelião cívica, espontânea e imprevisível”. Mas o regime de Daniel Ortega e Rosário Murillo, primeira-dama e vice-presidente, não olhou a meios para se agarrar ao poder. Balanço da repressão: mais de 300 mortos e cerca de 2000 feridos, a maioria jovens, centenas de prisioneiros, dezenas de milhares de exilados, prejuízos económicos de vários milhões de dólares.

Muitos dos manifestantes estiveram detidos durante meses, sujeitos a tortura, como “choques eléctricos e espancamentos, remoção de unhas, asfixia e violações”, segundo a organização Human Rights Watch. Uma amnistia permitiu a libertação de alguns em 2019, mas garantiu imunidade aos opressores. Ortega promoveu até alguns dos responsáveis envolvidos nos abusos.

“A situação actual é a de uma crise mais prolongada do que se esperava” e que poderá “durar ainda mais alguns anos”, lamenta Diego, numa entrevista que de deu, por e-mail. “Os protestos geraram inicialmente imensas expectativas de mudança política e democratização, mas a resposta repressiva do Estado teve o efeito oposto: a consolidação de um regime autoritário que ainda hoje persiste.”

“Exemplos do colapso terrível da democracia são as prisões frequentes de líderes da oposição, a proibição de novos protestos, o encerramento de espaços públicos de participação política, a censura dos media, das universidades e de organizações não governamentais”, acrescenta o académico nicaraguense. “Hoje, o governo é forte e a sociedade civil é cada vez mais fraca e dispersa.”

Perante a “falta de vontade das autoridades e a ineficácia da comunidade internacional”, há “um sentimento de resignação generalizada e desespero” na sociedade, acrescenta Diego. A possibilidade de mudanças políticas fundamentais “parece distante e difícil de atingir”. Muitos jovens, “incapazes de mudar a nação, mesmo sem ser perseguidos, optam pela emigração, em busca de oportunidades económicas, políticas e sociais”.

Mulheres nicaraguenses que criaram, em 2019, uma associação de familiares de presos políticos; depois das manifestações de 2018, a repressão é cada vez maior
© Cesar Rodriguez | The New York Times

Entre os milhares de nicaraguenses forçados a abandonar o país está Elvira Cuadra, antiga directora executiva do Instituto de Estudos Estratégicos e Políticas Públicas da Nicarágua. Quando lhe pergunto se agora está em segurança, responde: “Direi apenas que me encontro na Costa Rica como exilada, porque existem perigos significativos para a minha vida e integridade.”

Como explica ela os acontecimentos de 2018 e a violência brutal usada contra os manifestantes? “Ortega voltou à presidência em 2007 [havia perdido três eleições desde 1990] com uma muito fraca legitimidade, e sabia que iria enfrentar o descontentamento social, por isso criou um sistema de dispositivos de vigilância e controlo social para o travar, mas esse sentimento cresceu e transbordou completamente”.

“Antes de Abril de 2018, Ortega já havia recorrido à força para reprimir manifestações de protesto – só que nas zonas rurais”, destaca a socióloga que fez parte da Coordenadora Regional de Investigações Económicas e Sociais para a América Central e Caraíbas.

“Em 2018, quando os protestos eclodiram nos centros urbanos, a polícia e os grupos simpatizantes do governo não estavam preparados. Isso levou-os a uma escalada da violência, incluindo o uso de força letal contra os manifestantes.” Desde então e até hoje, a repressão já passou por 14 fases, “com o objetivo específico de eliminar qualquer expressão pública de insatisfação”.

“A revolução devora-se a si mesma”, foi o título que a revista The New Yorker escolheu para um artigo, em Março, assinado por Alma Guillermoprieto, testemunha dos acontecimentos históricos que, em 1979, levaram a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) a derrubar Anastasio Somoza Debayle, o últimos dos três déspotas de uma ditadura familiar que durou 43 anos.

Activistas antigovernamentais da Nicarágua numa “casa segura” na fronteira com a Costa Rica: violentamente reprimidos os protestos de 2018 pelas forças de Daniel Ortega, muitos dissidentes foram obrigados a procurar refúgio e asilo noutros países
© Meridith Kohut | The New York Times

Com o apoio do irmão Humberto, influente estratega sandinista que “preferia controlar o poder nos bastidores”, Daniel Ortega, “o mais apagado” de Los Nueve comandantes da FSLN, tornou-se chefe da Junta Militar de Reconstrução em 1979.

Em 1984, Ortega venceu as primeiras eleições presidenciais da história da Nicarágua, mas perdeu as subsequentes em 1990 (para Violeta Barrios Chamorro), 1996 (Arnoldo Alemán) e 2001 (Enrique Bolaños). As derrotas deixaram ainda mais paranóico um homem que já havia “eliminado toda a concorrência, rodeando-se de incondicionais que, tendo interesse em mantê-lo na liderança, dividiram o Estado entre eles”, como escreveu o jornalista nicaraguense Fabián Medina, autor do livro El Preso 198: Un Perfil de Daniel Ortega.

O que aconteceu ao ex-guerrilheiro para imitar o tirano que ajudou a derrubar? “Ortega é o tipo clássico de revolucionário que degenera para o autoritarismo”, observa Diego, o investigador nicaraguense. “A Frente Sandinista já não é o que era, nem a revolução trouxe as mudanças que prometia.”

“É claro que isso se ficou a dever a ameaças externas (agressão dos EUA) e a erros e abusos internos (controlo excessivo, económico e político, e um alinhamento ideológico marxista). Hoje, entre as novas gerações, há um revisionismo profundo do período revolucionário.”

As instalações do jornal online Confidencial, dirigido por Carlos Fernando Chamorro, filho da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro e agora exilado na Costa Rica, depois de uma rusga policial em 2018
© Meridith Kohut | The New York Times

“Através de uma série de manobras políticas iniciadas em 1990, após perderem as eleições, a FSLN e Ortega fundiram-se num só organismo”, adianta Diego. O movimento sandinista “foi capturado politicamente” pelo presidente e sua família, suprimindo, de forma eficaz, a dissidência interna. Ao regressar ao poder em 2007, Ortega acelerou este processo e extrapolou-o para o Estado, assumindo gradualmente o controlo dos poderes legislativo e judicial, do exército, da polícia, entre outros.”

“Paralelamente, a violência política aumentava. As políticas de Ortega, que não são de esquerda, foram exibindo cada vez mais matizes neoliberais. Diga-se que as controversas reformas da segurança social, que desencadearam os protestos em 2018, integravam recomendações [de austeridade] do Fundo Monetário Internacional. O país foi regredindo nos indicadores democráticos, como prova o Índice de Democracia da Freedom House”, que certificou “o colapso do Estado de Direito”.

Nas eleições de 7 de Novembro de 2021, “Daniel Ortega e Rosario Murillo asseguraram a continuidade no poder, mas a um preço muito elevado, quando decidiram assumir o controlo de todas as variáveis deste processo”, confirma Elvira Cuadra, na entrevista que me deu.

“O terreno foi sendo preparado em 2020, com a aprovação de um conjunto de leis punitivas que restringem significativamente os direitos dos cidadãos.” A seguir, veio “uma escalada de repressão” com o propósito de afastar qualquer rival.

Cristiana Chamorro (ao centro), jornalista e popular dirigente da oposição, filha da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro, foi detida pelo regime de Ortega, antes das últimas eleições presidenciais. Em 22 de Março de 2022, um tribunal condenou-a oito anos de cadeia por “branqueamento de capitais”, uma sentença que todos consideram ter “motivações políticas”
© Ocon | AFP | Getty Images

Foram detidos setes aspirantes presidenciais, acusados de “traição à pátria”, um deles o rosto mais conhecido e popular, Cristiana Chamorro, filha da ex-presidente Doña Violeta, que governou entre 1990 e 1996. Ortega ilegalizou também dois partidos, decapitou o movimento de cidadãos na oposição, ao capturar os seus principais dirigentes, silenciou as vozes mais críticas, perseguindo jornalistas e media independentes, assim como analistas e comentadores políticos, além de organizações da sociedade civil.

A dupla Ortega e Murillo não poupou sequer figuras históricas da Frente Sandinista, como Dora María Téllez, Comandante Dos, e o general Hugo Torres, Comandante Uno – lendários guerrilheiros que, em 1978, com o Comandante Cero, Edén Pastora, tomaram de assalto o Palácio Nacional em Manágua, em 1978, acelerando o fim da ditadura.

Em Fevereiro, Dora María, de 66 anos, para quem Ortega pediu 15 anos de cárcere, foi considerada “culpada de conspiração” num julgamento à porta fechada na infame prisão política de El Chipote, em Manágua. Torres, de 73, que ajudou a libertar Ortega de uma masmorra de Somoza, morreu na cadeia. Da sua residência na Costa Rica, até Humberto Ortega, general e ex-ministro da Defesa, irmão de Daniel, lamentou “doloroso e lamentável desenlace” e apelou à libertação de todos os prisioneiros.

“O estado de terror estendeu-se à população em geral”, salienta Elvira Cuadra, mas, apesar disso, as pessoas “optaram por não ir às urnas” em 2021. O Governo garante que votaram 65,34% dos 4,4 milhões de eleitores registados, mas o Observatório Independente das Urnas Abertas tem a certeza de que a taxa de abstenção chegou a 81,5%.

Na véspera do escrutínio, uma sondagem Gallup dava a Ortega 20% das intenções de voto, uma estimativa muito abaixo do que seria o resultado oficial: 74,9%. O casal presidencial “ganhou sem legitimidade, interna e internacional”, criticou a socióloga nicaraguense.

A entrada para Universidade Politécnica de Manágua, durante os protestos de 2018, depois de os líderes estudantis se terem recusado a negociar com o regime de Ortega, que exigia o fim das manifestações
© Rodrigo Arangua | AFP | Getty Images | The New York Times

“Ortega tem vindo a ‘institucionalizar’ um Estado policial, porque é, na realidade, um regime fraco, só apoiado pela repressão e pelo medo”, reafirma Elvira Cuadra. “Os seus pilares de apoio são apenas o exército, a polícia, grupos paramilitares e simpatizantes fanáticos.”

“Ele sabe que enfrenta um cenário pouco favorável a curto prazo, com a convergência de pelo menos três crises: a sócio-política; a sanitária, devido à política que adoptou em relação à Covid [terá ocultado entre 6000 e 9000 mortes]; e a económica, em consequência das duas anteriores.”

“Há muito descontentamento social [sobretudo de jovens – foram encerradas 14 universidades privadas que deixaram milhares de estudantes sem acesso ao ensino superior] e muita pressão devido às condições de vida da população e ao fluxo de migração [calcula-se que 100 mil nicaraguenses fugiram para a Costa Rica e que outros 50 mil tenham procurado refúgio noutros países], por razões políticas e económicas. Mas também há gente organizada em condições praticamente de clandestinidade”, avalia a socióloga, que vê “um regime forte e simultaneamente débil”.

Em 1978, no assalto ao Congresso em Manágua, 25 guerrilheiros conseguiram neutralizar 3000 homens da temível Guarda Nacional de Somoza. Até que ponto é invencível o aparelho militar que apoia o atual regime? “Embora o exército e a polícia sejam pilares de Ortega, é importante ressalvar que ambos desempenham papéis diferentes”, anota Elvira Cuadra.

Uma manifestante contra o regime, envergando um vestido com as cores da bandeira nacional, é detida por agentes da polícia de choque durante uma manifestação e Manágua, em Março de 2019
© Oswaldo Rivas | Reuters

“No caso do exército, a aliança com Ortega é de natureza política e económica – não é uma posição subordinada. O exército considerara-se actor com poder próprio e, por isso, optou por não se ligar, directa ou visivelmente, às acções de repressão em 2018.”

“O exército tem um património institucional e os seus altos responsáveis um património individual, que têm sido contruídos e alimentados graças à aliança com Ortega”, informa a socióloga que há mais de 20 anos investiga processos de construção da paz e analisa temas como conflitos, segurança, direitos humanos, jovens e cultura política. “Este património corre riscos, se os EUA e outros lhes aplicarem sanções. O Exército é a peça-chave da base política do regime Ortega-Murillo.”

“O caso da polícia é diferente”, esclarece. “Tem uma posição subordinada e deixou de ser uma instituição com amplo reconhecimento e confiança dos cidadãos para se converter num mero aparelho de repressão política. É mais uma peça na engrenagem de repressão e vigilância que Ortega pôs a funcionar plenamente desde 2018.”

Que papel podem estas forças desempenhar se houver uma transição para a democracia? “Eventuais reformas das duas instituições terão de ser distintas”, responde Elvira Cuadra. “Na polícia, um processo destes teria de começar imediatamente após a mudança de governo, incluindo uma depuração dos efectivos e afastamento das chefias, para apurar responsabilidades nos crimes e graves violações dos direitos humanos que têm sido cometidos. Também será necessário modificar o quadro jurídico institucional, as funções, a estrutura e outros aspectos importantes. Na prática, será uma refundação da polícia.”

Simpatizantes de Daniel Ortega e da Frente Sandinista saíram às ruas de Manágua, a capital, para apoiar o Governo contra os manifestantes que o contestam, em 28 de Julho de 2018
© Esteban Biba | EFE

Quanto ao exército, embora seja necessária “uma investigação para saber qual o seu nível de participação na repressão, terá um papel a desempenhar no controlo e desmobilização dos grupos paramilitares organizados por Ortega. Este processo de reforma seria diferente do da polícia, a médio ou longo prazo.”

O investigador Diego insiste em que “não é fácil pensar numa solução rápida [da crise] ou na democratização em que muitos nicaraguenses acreditaram em 2018”. É verdade, admite, que “vários think-tanks, organizações e activistas continuam a resistir e a aproveitar este período para reforçar estruturas, preparar propostas concretas para uma eventual transição democrática e recolher o máximo de provas de violações de direitos humanos”. Mas, em seu entender, “é praticamente impossível supor que haverá novas mobilizações, devido ao controlo político e à repressão que acompanham a consolidação do poder autoritário.”

“A médio prazo, o regime poderá ser pressionado (por factores mais externos do que internos) a iniciar ligeiras mudanças”, conclui. “Duvido muito, porém, que este processo há muito aguardado para democratizar a Nicarágua vá acontecer rapidamente. O regresso à democracia será parcial, com reveses, avanços e nuances.”

Um dos factores externos poderá a ser o impacto da guerra na Ucrânia. Em Março, os Estados Unidos, que cortaram relações com a Venezuela em 2019 e reconheceram Juan Guaidó como “presidente legítimo”, reaproximaram-se do regime de Nicolas Maduro, para o convencer a afastar-se de Vladimir Putin e a oferecer alternativa ao petróleo russo nos mercados globais.

No interior da Universidade Politécnica de Manágua – bastião dos manifestantes em 2018 -, um jovem acende uma vela em memória dos estudantes mortos pelas forças de Daniel Ortega
© Joshua Partlow | The Washington Post

Esta é uma mudança geopolítica de grande significado que Diego reconhece: “A situação na Ucrânia está a criar expectativas a países e governos aliados de Putin, incluindo a Nicarágua”, que recebe apoio militar e tecnológico de Moscovo.

“Se o desfecho favorecer a Ucrânia, talvez Ortega fique mais isolado, precisando de apoio e legitimidade da parte de outros, o que poderá abrir possibilidades políticas de democratização – ainda que um tal processo seja sempre lento e não imediato. Um exemplo concreto disso foi o fim da Guerra Fria [com o colapso da URSS], que obrigou os sandinistas a realizar eleições livres em 1990. Poderá ocorrer agora um cenário semelhante, mas é cedo para o achar provável.”

Elvira Cuadra não vislumbra, por enquanto, “sinais claros de eventuais mudanças” nas relações dos EUA com os países do hemisfério, mas, sem especificar, acha “previsível” que as sanções internacionais à Rússia de Vladimir Putin venham a afectar a Nicarágua, a Venezuela e Cuba”.

Analistas como Antonio Maria Delgado, do jornal Miami Herald, surpreenderam-se com a abertura de Washington a Maduro. Em declarações à DW, Delgado realça que a produção actual de petróleo da Venezuela é de menos de um milhão de barris/dia, uma pequena fracção dos 8000 milhões importados pelos EUA. No entanto, com o preço do crude a mais de 100 dólares o barril e com o dinheiro venezuelano parado nos bancos russos, bloqueados do sistema internacional Swift, “percebe-se por que Maduro poderá ceder”.

A Venezuela, a Nicarágua e Cuba “não têm muitos amigos e, por isso, têm poucas opções”, comenta Delgado. Na conjuntura atual, “é plausível que tentem fazer tudo para sobreviver.” Não lhe passou despercebido o facto de, numa recente votação na Assembleia-Geral da ONU sobre a guerra na Ucrânia, Manágua e Havana se terem abstido, e não votado a favor de Moscovo, como é hábito.

Conclui Elvira Cuadra: por um lado, a oposição nicaraguense “teme que o país seja relegado para um segundo plano”, porque as preocupações da comunidade internacional se concentram na Ucrânia; por outro, as sanções à Rússia poderão dar alento, se “enfraquecerem” o que Jacobo García, do diário espanhol El País, descreveu como “o gulag da América Central”

Ortega: O devorador da revolução

Daniel Ortega, aqui numa foto de 1981, chegou à presidência, pela primeira vez, em 1979
© Charles Tasnadi | AP | The Washington Post
Nicaraguenses empoleiram-se nas janelas da Catedral de Manágua, adjacente ao Palácio Nacional, para tentar ver os membros da Junta de Reconstrução Nacional, em 20 de Julho de 1979: estima-se que mais de cem mil pessoas terão celebrado nas ruas a vitória da revolução sandinista que pôs fim a mais de quatro décadas da ditadura dos Somoza
© Associated Press
Directório da Frente Sandinista de Libertação Nacional: Humberto Ortega (ministro da Defesa); Tomas Borge (ministro do Interior); Sergio Ramírez; Daniel Ortega (irmão de Humberto); e Bayardo Arce (coordenador político), no final da campanha para as eleições gerais de 1984
© Pat Hamilton / Associated Press

A dupla Ortega e Murillo não poupou sequer dirigentes da Frente Sandinista, como Dora María Téllez (na foto, ao centro, empunhando a arma, nas ruas de León), a Comandante Dos, e o general Hugo Torres, o Comandante Uno – figuras lendárias da guerrilha que, em 1978, com o Comandante Cero, Edén Pastora, tomaram de assalto o Palácio Nacional em Manágua, acelerando o fim da ditadura. Dora María foi detida, aos 66 anos, na infame prisão política de El Chipote, na capital; Torres, que ajudou a libertar Ortega de uma masmorra de Somoza, morreu na cadeia, aos 73
© infobae.com

Os desafios da Igreja Católica

Na Nicarágua, há uma voz que não se cala: a de uma instituição-comunidade que continua a usar as paróquias e os púlpitos em defesa dos oprimidos. Para a silenciar, o regime em Manágua acaba de expulsar o representante do Papa.

Uma manifestante ergue um crucifixo durante uma manifestação contra o regime de Ortega, em Manágua (15 de Maio de 2018)
© Oswaldo Rivas | Reuters

Em 2018, poucas horas depois de começar a mobilização popular contra uma controversa reforma da segurança social, os líderes religiosos na Nicarágua apelaram a que se evitasse a violência, mas perante uma escalada de repressão, logo se “abriram as paróquias para acolher as vítimas dos ataques da polícia e dos simpatizantes sandinistas”, relata Diego, professor universitário e investigador, ele próprio um ativista católico na oposição.

“A Igreja validou os protestos ao reconhecer como justas as reivindicações dos manifestantes”, salientou Diego, na entrevista que me deu. “Num país de tradição católica, como é a Nicarágua, a mensagem definitiva dos padres e bispos teve um efeito enorme, pois deu à mobilização maior legitimidade e motivação.”

Ortega e a Frente Sandinista “também viam na Igreja, instituição-comunidade, uma fonte de legitimidade num tempo de crise inesperada”, e convidaram os bispos a mediar negociações com os manifestantes, refere o académico nicaraguense. “O processo acelerou-se de tal modo que os manifestantes começaram a exigir democracia e justiça, não apenas a revogação dos planos para a segurança social. Os bispos promoveram esta agenda, e a democratização tornou-se tema central das negociações.”

Com o passar do tempo, as negociações falharam. “Os bispos criticaram a enorme falta de vontade dos delegados governamentais, mas também a falta de moderação dos opositores, que queriam mudanças rápidas e, talvez, inviáveis. Entretanto, os sandinistas acusaram a Igreja de apoiar uma ‘tentativa de golpe’ contra Ortega”, relegando-a à posição de “testemunha”, sem direito a intervir neste “diálogo nacional”.

Daniel Ortega chamou aos bispos “filhos do diabo”, “terroristas” e agentes estrangeiros”, acusando-os de propagarem uma “cristandade falsa” (na foto, o cardeal Leopoldo Brenes abençoa os participantes numa procissão proibida pelo regime)
© AP | Al Jazeera

Sobre o papel da Igreja para “influenciar o advento da democracia numa região caracterizada pelo autoritarismo e por caudillos, de esquerda e direita”, Diego realça “um elemento crucial”: “Não foi uma acção uniforme. É verdade que, de um modo geral, bispos, padres, mulheres e homens religiosos apoiaram os manifestantes.”

“No entanto, houve casos específicos em que alguns [sacerdotes e prelados] moderaram as suas críticas ou apoiaram abertamente as autoridades, inspirados pela simpatia que sentem pelo partido [sandinista] e por concessões significativas feitas às suas paróquias e dioceses.”

Seja como for, a Igreja “começou a pagar o preço do seu envolvimento com os manifestantes assim que os protestos começaram”, salienta Diego. Por exemplo, “há provas de assédio constante a líderes espirituais, espionagem de serviços religiosos, restrições à obtenção de vistos por parte de missionários estrangeiros, redução de subsídios a obras católicas (como escolas e programas sociais), ataques directos contra infra-estruturas (como a profanação de templos) e à integridade de clérigos (alguns deles feridos).”

O “ponto de viragem” nas relações entre Ortega e a Santa Sé deu-se em 18 de Novembro de 2021, quando o governo anulou, por decreto, a função de “decano do corpo diplomático”, que, nos países de maioria católica é desempenhada pelo núncio papal. No caso da Nicarágua, o arcebispo Waldemar Stanislaw Sommerstang caiu em desgraça assim que começou a usar o termo “prisioneiros políticos”
© 7 Margens

No dia 2 de Março, o regime de Ortega declarou persona non grata o representante do Papa e expulsou-o. O arcebispo polaco Waldemar Stanislaw Sommerstang, núncio apostólico em Manágua, foi obrigado a deixar o país e a mudar-se para Roma, noticiou o site Crux Now.

O “ponto de viragem” nas relações entre Ortega e a Santa Sé deu-se em 18 de Novembro de 2021, quando o governo anulou, por decreto, a função de “decano do corpo diplomático”, que, nos países de maioria católica é desempenhada pelo núncio papal.

Sommerstang caiu em desgraça assim que começou a usar o termo “prisioneiros políticos” e a criticar “as muitas mentiras” do Estado, pondo fim à neutralidade que assumira nos três anos anteriores, enquanto serviu de interlocutor entre o regime e as famílias de centenas de opositores atrás das grades.

O ano passado, Ortega chamou aos bispos “filhos do diabo”, “terroristas” e agentes estrangeiros”, acusando-os de propagarem uma “cristandade falsa”. Chegou a colocar uma cabine policial na rua em frente à residência do cardeal e arcebispo de Manágua, Leopoldo Brenes Solorzano.

“A Igreja na Nicarágua sempre viu Ortega com suspeição, e há ampla documentação e provas sólidas a este respeito”
© Mayela Lopez | Reuters | CNC

“As acções contra a Igreja chamam a atenção pelo seu poder simbólico, político e social”, afirma Diego. “Cada ataque à Igreja demonstra a falta de contenção por parte das autoridades nas represálias contra todos os opositores. Este custo evoca o antagonismo histórico entre sandinistas e católicos, que atingiu o pico nos anos 1980.”

“Não é correcto e é simplista dizer que, a partir de 2007, passou a haver uma aliança entre os bispos católicos e Ortega, só porque o Governo proibiu o aborto terapêutico. A Igreja na Nicarágua sempre viu Ortega com suspeição, e há ampla documentação e provas sólidas a este respeito.”

“Hoje, longe de se desmobilizar em face da repressão acrescida, a Igreja transformou as suas lutas, adoptando uma nova abordagem: continua a ser uma voz crítica, mas transferiu o seu campo de acção para um domínio onde pode mais facilmente vencer as autoridades.”

Um manifestante com uma máscara de Daniel Ortega participa numa marcha em apoio da Igreja Católica em León, Nicarágua, em 28 de Julho de 2018. No cartaz lê-se: “Delitos: Ditador, Genocida, Violador, Traficante, Ladrão. Mórbido”
© Oswaldo Rivas | reuters | Newscom

E que domínio é esse? Apesar de explicitamente proibidas as manifestações no espaço público, “padres continuam a admitir este tipo de protesto nas igrejas”, garante Diego. De igual modo, “sacerdotes e bispos influentes persistem nas críticas ao sistema político”, enquanto “cartas pastorais, tuítes, comunicados e sermões dominicais nos púlpitos denunciam o autoritarismo e realçam a necessidade de dar aos nicaraguenses uma voz e direitos.”

“Os leigos nicaraguenses recorrem igualmente à liturgia para protestar. Símbolos de resistência são frequentemente usados, por exemplo, nos altares à Virgem Maria.” Depois de um incêndio que destruiu um venerado Crucifixo na Capela do Sangue de Cristo em Manágua, o cardeal Brenes condenou um “ataque terrorista premeditado”. O prelado deixou a imagem queimada “como símbolo eloquente da agressão à Igreja”, salientou Diego, referindo que “este tipo de linguagem é subversivo, por natureza, e encoraja os nicaraguenses (que a entendem perfeitamente)”.

A Igreja “é obviamente cautelosa, tentando evitar a repressão e acusações frontais, mas continua a influenciar, e não só simbolicamente”, afirma Diego. “Vários padres organizam reuniões de grupos da oposição nas suas paróquias e comunidades, enquanto outros facilitam o exílio de jovens perseguidos” por um presidente que ainda se identifica como católico (em 2005, Ortega e a companheira de muitos anos, Rosário Murilo, casaram-se pela Igreja numa cerimónia presidida pelo defunto cardeal Miguel Obando Y Bravo), mas que se aproximou dos evangélicos neo-pentecostais – o grupo religioso que mais cresce -, numa “aliança estratégica puramente com objectivos políticos”.

Daniel Ortega, o revolucionário que escolheu seguir as pisadas da dinastia Somoza
© Luisa Grañena | El País

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Abril de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, April 2022 edition

Israel e o “crime de apartheid”

A Amnistia Internacional, o maior movimento global de direitos humanos, diz num relatório ter encontrado provas de que os palestinianos estão a ser vítimas de segregação racial e pede sanções contra os responsáveis por um “sistema de opressão e domínio”. É uma acusação já antes feita por duas ONG israelitas. O Governo dirigido por Naftali Bennet e Yair Lapid defende-se, denunciando uma “agenda anti-semita”. (Ler mais | Read more…)

“O sistema de apartheid começou com a criação de Israel em Maio de 1948, e foi sendo construído e mantido ao longo de décadas por sucessivos governos israelitas”, afirma a Amnisia Internacional no seu relatório © Getty Images | BBC

Quatro anos de investigação, entre 2017 e 2021, levaram a Amnistia Internacional a concluir que Israel comete “o crime de apartheid”, ao tratar os palestinianos como “um grupo racial inferior” e “privá-los dos seus direitos”, com recurso a políticas de “segregação, despojamento e exclusão” nos territórios que controla.

Yair Lapid, o ministro dos Negócios Estrangeiros que alterna com Naftali Bennet a chefia do Governo de Israel, acusou o relatório de “não corresponder à realidade” e defendeu o seu país: “Embora não seja perfeito, é uma democracia comprometida com a lei internacional e aberta ao escrutínio”.

A Amnistia, “em tempos uma organização respeitada” segue agora “uma agenda anti-semita”, atacou Lapid. “Odiaria usar o argumento de que, se Israel não fosse um Estado judaico, ninguém na Amnistia se atreveria a criticá-lo, mas, neste caso, não há alternativa”.

A Amnistia recorda que, em 2017, acusou de “crime de apartheid” o regime da Birmânia/Myanmar, pelas políticas de “limpeza étnica” e “negação dos direitos” de minorias muçulmanas, sobretudo da comunidade Rohingya, no estado de Rakhine.

Agnes Callamard, a secretária-geral da Amnistia Internacional, reconheceu que o relatório de 280 páginas, publicado em Janeiro e intitulado Apartheid de Israel Contra os Palestinianos: Um Sistema Cruel de Domínio e um Crime Contra a Humanidade, “pode chocar e perturbar”, mas deixou claro que “criticar as práticas do Estado de Israel não pode, de modo algum ser uma forma de anti-semitismo”.

Porque o maior movimento global de defesa dos direitos humanos, com 10 milhões de apoiantes e delegações em mais de 70 países (incluindo Portugal) sempre se insurgiu “contra actos de anti-semitismo e qualquer outra forma de racismo”.

“Todas as políticas e leis têm sido moldadas com um objetivo abrangente: manter uma maioria demográfica judaica e maximizar o controlo israelita [das áreas ocupadas] à custa dos palestinianos”, refere ainda a Amnistia Internacionla
© AFP | Middle East Eye

“Criticamos o Governo israelita, não o povo israelita ou o povo judeu – insistimos nessa distinção”, vincou a antiga Relatora Especial das Nações Unidas sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias. “A nossa crítica ao Governo israelita baseia-se na lei internacional, e nas provas dos imensos danos e sofrimento que as políticas israelitas causam aos palestinianos” – seja em Israel, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, como noutros países onde eles são refugiados/deslocados.

Antes da Amnistia, já duas ONG israelitas, Yesh Din e B’Tselem, e mais recentemente a Human Rights Watch, haviam usado o termo apartheid para descrever o sistema imposto por Israel aos palestinianos.

Afinal, o que é que a Amnistia concluiu após “analisar leis relevantes, ordens do exército, directivas ministeriais, declarações de responsáveis governamentais e militares, arquivos parlamentares, documentos de planeamento e zoneamento, orçamentos do Estado e processos judiciais”, depois de “dezenas de entrevistas com comunidades palestinianas em Israel e nos territórios ocupados”; e na sequência de “consultas com numerosos representantes de organizações não governamentais palestinianas, israelitas e internacionais, assim como agências da ONU, académicos e peritos legais”?

“O sistema de apartheid começou com a criação de Israel em Maio de 1948, e foi sendo construído e mantido ao longo de décadas por sucessivos governos israelitas [foram os trabalhistas, e não a direita, que iniciaram o processo de colonização após a guerra de 1967] sobre todos os territórios que controlam”, informa a Amnistia.

“Todas as políticas e leis têm sido moldadas com um objetivo abrangente: manter uma maioria demográfica judaica e maximizar o controlo israelita [das áreas ocupadas] à custa dos palestinianos.”

Para a Amnistia Internacional, os “componentes-chave” do que considera ser um “sistema de domínio e opressão” nos territórios ocupados são “a fragmentação territorial; a segregação e o controlo; a expropriação de terras e bens; a negação de direitos sociais e económicos” dos palestinianos. (Na foto, habitantes encapuzados do colonato judaico de Yitzhar observam campos que incendiaram na aldeia árabe de Asira al-Qiblya, em 2 de Junho de 2010, sob protecção dos soldados israelitas na zona
© Wagdi Ashtiyeh | Flash90 | The Times of Israel

Para conseguir este objetivo, “sucessivos governos têm aplicado, deliberadamente, um sistema de opressão e domínio sobre os palestinianos”, sendo as “componentes-chave” deste sistema “a fragmentação territorial; a segregação e o controlo; a expropriação de terras e bens; a negação de direitos sociais e económicos.” A Amnistia cita vários exemplos.

– “Limitações severas de movimento na Cisjordânia, impostas através de uma rede de checkpoints [postos de controlo] e o encerramento de estradas; isto combinado com um sistema que obriga os palestinianos que queiram deslocar-se a outras zonas dos territórios ocupados a pedir uma autorização militar israelita” para se movimentarem;

– “Um estatuto de nacionalidade superior atribuído aos cidadãos judeus de Israel, que, distinguindo-se do de cidadania, é a base para tratar de forma diferente judeus e não judeus”;

– “Em Jerusalém Leste, a negação sistemática aos palestinianos de licenças de construção, daqui resultando repetidas demolições e despejos [como acontece no bairro de Sheikh Jarrah]; a expansão de colonatos ilegais que força os palestinianos a sair de suas casas e confina a população palestiniana a enclaves cada vez mais pequenos”;

– “A negação do direito internacionalmente protegido de os refugiados palestinianos regressarem; para garantir que Israel controla a demografia, as famílias desalojadas estão proibidas de regressar às suas aldeias e casas [de onde fugiram ou foram expulsas durante e após as guerras de 1948 e 1967]”;

– “Restrições no acesso à terra e a áreas de pesca na Faixa de Gaza, o que exacerba o impacto sócio-económico do bloqueio ilegal israelita [por terra, mar e ar, imposto, quando o movimento islamista Hamas retirou o poder à secular Fatah, principal facção da Autoridade Palestiniana].

A Amnistia Internacional reconhece “o direito – e a obrigação – de Israel proteger a sua população”, mas também concluiu que as medidas e leis “discriminatórias” que aplica na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ocupadas “são um pretexto para acções que visam, de facto, controlar o povo palestiniano e explorar os seus recursos”
© Ryan Rodrick Beiler | fairobserver.com

A Amnistia enumera ainda uma série de “actos inumanos”, que, em seu entender, “encaixam no critério da Convenção do Apartheid”, aprovada em 1973 pela Assembleia-Geral das Nações Unidas: “transferências forçadas, detenção administrativa e tortura, execuções extrajudiciais; negação de direitos básicos e liberdades; perseguição dos palestinianos de Israel e dos territórios ocupados.”

“As autoridades israelitas justificam com argumentos de segurança muitas das políticas mencionadas neste relatório, incluindo a expropriação de terras, a negação de licenças de planeamento e construção, as revogações de residências, as restrições de movimento, as leis discriminatórias em relação à reunificação de famílias”, mas a Amnistia examinou as justificações e, reconhecendo a Israel “o direito – e a obrigação – de proteger a sua população” concluiu que “são um pretexto para acções que visam, de facto, controlar o povo palestiniano e explorar os seus recursos.”

O objetivo do relatório, frisa a Amnistia, é apelar ao Governo israelita para que empreenda “as reformas necessárias no sentido de cumprir as suas obrigações sob a lei internacional”. Até que isso aconteça, faz um apelo ao Conselho de Segurança da ONU para impor sanções a responsáveis israelitas, como “um amplo embargo ao fornecimento, venda e transferência de armas”.

Recomenda ainda que o Tribunal Penal Internacional, com jurisdição desde 2014 na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste, “inclua na sua investigação o crime de apartheid, que é um crime contra a humanidade”.

No seu relatório, a Amnistia Internacional apela ao Governo israelita que empreenda “as reformas necessárias no sentido de cumprir as suas obrigações sob a lei internacional” (na foto, o checkpoint militar de Hawara, na cidade de Nablus, Cisjordânia ocupada, onde os palestinianos esperam horas para poder entrar e sair)
© Middle East Monitor

O relatório da Amnistia Internacional “nega ao Estado de Israel o seu direito de existir como Estado nação do povo judeu”, enfatizou o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita num comunicado. “A sua linguagem extremista e distorção do contexto histórico pretendem demonizar Israel e alimentar o fogo do anti-semitismo.”

Também o presidente do Congresso Judaico Mundial, Ronald Lauder, criticou o relatório “por não contribuir, em absolutamente nada, para um caminho construtivo e por não ter um interesse real em promover os direitos humanos dos palestinianos ou em avançar com vista à paz e a uma solução duradoura de dois Estados”. Pelo contrário, “só alimenta os fogos dos anti-semitas sob o disfarce do politicamente correcto”.

Que a Amnistia quis “deslegitimar e diabolizar o Estado judaico e democrático de Israel”, foi também a acusação feita por grupos poderosos da direita nos Estados Unidos, como o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC).

É uma “falsa narrativa” propagada por aqueles que “pouco criticaram a colaboração militar de Israel com o regime de minoria branca sul-africano, mas que agora se mostram preocupados por o relatório da Amnistia diminuir o sofrimento dos negros africanos sob o apartheid”, anotou Chris McGreal, antigo correspondente do diário britânico The Guardian em Joanesburgo e Jerusalém.

“O cancro de hoje é o apartheid na Cisjordânia”, lamentou o grande escritor israelita A.B. Yehoshua, em 2020. “Este apartheid enraíza-se cada vez mais na sociedade israelita, com impacto sobre a humanidade de Israel”
© Mohammed Salem | Reuters | AL Jazeera

Muitos judeus israelitas – como os antigos primeiros-ministros Ehud Barak e Ehud Olmert, o ex-chefe dos serviços segurança interna Amy Ayalon, o ex-embaixador de Israel em Pretória Alon Liel, ou os ex-ministros da Educação Yossi Sarid e Shulamit Aloni – compararam publicamente a ocupação dos territórios palestinianos ao apartheid.

“Serão eles anti-semitas que odeiam Israel?”, pergunta McGreal, citando um artigo que um dos maiores escritores israelitas, A. B, Yehoshua, publicou em 2020: “O cancro de hoje é o apartheid na Cisjordânia. Este apartheid enraíza-se cada vez mais na sociedade israelita, com impacto sobre a humanidade de Israel.”

A Amnistia “gerou um debate mais intenso sobre o uso da palavra apartheid do que sobre a substância do [seu] relatório, mas a verdade inegável é que judeus israelitas e árabes palestinianos não têm direitos iguais”, escreveu no diário The Jerusalem Post o activista Gershon Baskin, que tem dedicado a vida a promover a coexistência pacífica entre os dois povos. “Cinquenta anos após a Guerra dos Seis Dias (1967), temos um controlo israelita sobre uma realidade binacional que representa uma nova forma de apartheid.”

“O Governo de Bennett-Lapid não se compromete em negociar com os palestinianos”, lamenta Baskin. “Os palestinianos não conseguem convencer a comunidade internacional a forçar ambas as partes a negociar. A Administração Biden não tem interesse em liderar um processo de paz, que também seduz poucos na região.”

“O relatório da Amnistia poderá vir a ser a plataforma de lançamento para uma acção global contra Israel, tal como outros relatórios semelhantes geraram boicotes por todo o mundo contra o apartheid sul-africano. As tentativas israelitas de se desviarem com alegações de anti-semitismo não mudarão a realidade no terreno entre o rio [Jordão] e o mar [Mediterrâneo]. O relatório é um espelho da realidade e mesmo que o Governo israelita o rejeite, esta é a nossa realidade.”

Um regime de “supremacia judaica”

Homens armados do colonato judaico de Yitzhar, na Cisjordânia ocupada, vigiam uma aldeia palestiniana vizinha. São frequentemente acompanhados nas suas acções agressivas por soldados israelitas
© AFP | prc.org.uk

Mais de 14 milhões de pessoas vivem entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, estima a organização israelita de direitos humanos B’Tselem, num relatório divulgado em Janeiro de 2021 no qual denuncia “leis, práticas e violência destinadas a cimentar um “regime de supremacia judaica” sobre os palestinianos nos territórios sob controlo de Israel.

Dos 9,45 milhões de habitantes do Estado de Israel, 17% são árabes palestinianos. O facto de terem cidadania israelita “dá-lhes alguns direitos, mas não os mesmos que os judeus israelitas, seja na lei como na prática”.

Cerca de 350 mil palestinianos vivem em Jerusalém Leste, sector que Israel anexou ao seu território soberano após a guerra de 1967 e que os palestinianos consideram capital de um futuro Estado. São definidos como “residentes permanentes – um estatuto que lhes permite viver e trabalhar em Israel, sem necessidade de autorizações especiais, para poderem aceder a benefícios sociais ou seguros de saúde, e também participar em eleições municipais.”

O problema é que “a residência permanente, ao contrário da cidadania, pode ser revogada a qualquer momento, dependendo da vontade do ministério da Administração Interna; e também pode expirar.”

16 de Abril de 2021: colonos judeus tentam expulsar moradores palestinianos de suas casas no bairro de Sheikh Jarrah em Jerusalém Leste, que Israel ocupou na guerra de 1967
© Emmanuel Dunand | AFP | Getty Images | Middle East Monitor

Quanto à Cisjordânia, embora ocupada, mas não formalmente anexada, vivem aqui 2,8 milhões de palestinianos, em “dezenas de enclaves descontínuos, sob rígido poder militar e sem direitos políticos”. Em cerca de 40% do território, Israel transferiu alguns poderes civis para a Autoridade Palestiniana, mas esta “mantém-se subordinada a Israel e só pode exercer competências limitadas com autorização de Israel”. Desde 1967, instalaram-se em Jerusalém Leste cerca de 200 mil colonos judeus e uns 475 mil na Cisjordânia. A lei internacional considera ilegais todos os colonatos.

A Faixa de Gaza é habitada por cerca de dois milhões de palestinianos, igualmente sem direitos políticos. Em 2005, Israel retirou daqui as suas tropas e desmantelou os colonatos, mas, dois anos depois, quando o movimento islamista Hamas tomou o poder, Israel impôs um bloqueio, por terra, mar e ar, que continua em vigor. “De fora, Israel controla praticamente todos os aspectos da vida em Gaza”, salienta a ONG fundada em 1989.

“O regime israelita não tem de se declarar um regime de apartheid para se definir como tal, nem é relevante que os representantes do Estado o proclamem uma democracia”, conclui o B’Tselem, recordando que, em 2018, uma controversa “Lei do Estado-Nação” conferiu ao povo judeu “o direito à autodeterminação, em detrimento de todos os outros”. Com esta lei, a “supremacia judaica é agora um princípio constitucional obrigatório.”

“Um crime contra a humanidade”
Um cartaz colocado em Joanesburgo, na África do Sul, durante o regime de segregação racial, onde se lê: “Cuidados com os nativos”
© Ejor | Getty Images | history.com

A palavra apartheid, que nos idiomas africâner e neerlandês significa “separação”, tornou-se num regime maldito quando a África do Sul o implantou em 1948, com base em leis e políticas que, desde o século XVII, segregavam e discriminavam a maioria negra, privilegiando a minoria branca. Esta detinha o direito exclusivo ao voto e todo o poder político e económico.

Até ser desmantelado em 1994, este sistema assentava em três leis: o Black Land Act (1913), que atribuía aos negros apenas 7% das terras, embora constituíssem 75% da população total; o Native Urban Act (1923), que empurrava os negros e outros não brancos para townships e bantustões, em condições degradantes, na periferia das cidades, proibindo-os de aceder às áreas exclusivas dos brancos (Whites Only); e o Immorality Act (1927), que punia com prisão os casamentos e relações sexuais entre brancos e não brancos.

A Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD, na sigla inglesa), aprovada em 1965 pela Assembleia Geral da Nações Unidas foi o primeiro instrumento legal de direitos humanos a proscrever o apartheid. Sem o definir, condenava as “políticas governamentais baseadas na superioridade racial ou no ódio, como as políticas de segregação ou separação”.

Actualmente, são três os principais tratados internacionais que proíbem e/ou criminalizam explicitamente o apartheid: a ICERD, a Convenção Internacional sobre a Supressão e Punição do Crime de Apartheid (vulgarmente conhecida como Convenção do Apartheid) e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (ou apenas Estatuto de Roma).

Bancos só para brancos (“europeus”) em Joanesburgo na África do Sul do apartheid
© Ernest Cole | Magnum Photos

Para a Amnistia Internacional, “o ponto de partida para uma definição do apartheid” é o Artigo II da Convenção do Apartheid, que diz: “(…) o termo ‘crime de apartheid’ que deve incluir políticas de segregação racial e discriminação semelhantes às que eram praticadas na África do Sul, deve aplicar-se a todos os actos inumanos cometidos com o objectivo de estabelecer e manter o domínio de um grupo racial de pessoas sobre outro grupo racial de pessoas e de os sistematicamente oprimir…”

Abrindo o seu relatório com uma declaração do ex-primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu – Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos… [mas] o Estado-nação do povo judeu e só dele -, a Amnistia concluiu, depois de quatro anos de investigação, que no país criado em 1948, ironicamente o ano em que a África do Sul instituiu o seu sistema de segregação racial, os palestinianos têm sido vítimas de apartheid: “uma grave violação dos direitos humanos protegidos internacionalmente e um crime contra a humanidade, segundo a lei penal internacional”.

Uma parte do muro construído na Cisjordânia ocupada por Israel foi transformada num declaração contra o apartheid
© Times of Israel

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Março de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2022 edition

“Um tsunami de fome; um sofrimento inimaginável”

Com mais de metade da população em pobreza extrema e um milhão de crianças em risco de morrer desnutridas, o Afeganistão, reconquistado pelos taliban após 20 anos de guerra, enfrenta o que poderá ser, sem ajuda, a pior catástrofe humana de sempre. (Ler mais | Read more...)

Mulheres e crianças afegãs aguardam cuidados méicos numa clínica do Programa Alimentar das Nações Unidas (PAM) em Kandahar
© Jim Huylebroek | The New York Times

No início do ano, em apenas uma semana, Matiullah Wesa percorreu 20 das 34 províncias do Afeganistão, das cidades às aldeias mais longínquas, para avaliar o que podia fazer pelo seu povo. O que viu partiu-lhe o coração.

“Há famílias, muitas com 10-12 filhos, que nada têm na mesa ao jantar ou comem um pão por dia”, relata Matiullah, numa entrevista que me deu, por WhatsApp. “São poucos, mas alguns pais vendem bebés para conseguir sustento. Sem roupa ou calçado, eletricidade ou lenha para aquecimento, há quem morra de frio.”

“Milhares de homens e mulheres, sobretudo os que trabalhavam em ministérios, escolas e hospitais públicos ou na polícia, não têm salário porque perderam os empregos. Muitas lojas e empresas também fecharam. Os bancos restringem o levantamento de dinheiro. Várias ONG que ofereciam assistência partiram.”

Com uma seca extrema, que desde Outubro de 2020 afecta mais de 80% do território, e temperaturas de 20 graus negativos em algumas áreas, a situação é dramática num país onde 70% dos quase 39 milhões de habitantes vive em zonas rurais e 85% do rendimento provém da agricultura.

Muitas mulheres e crianças afegãs têm de caminhar durante mais de uma hora até chegarem à clínica do Crescente Vermelho no distrito de Shah Wali Kot para poderem ser tratadas
©Jim Huylebroek | The New York Times

Cerca de 22,8 milhões de pessoas enfrentam “níveis extremos de fome”, segundo as Nações Unidas, que temem a maior catástrofe humanitária de sempre. “Só 2% da população tem o suficiente para comer”. Até meados deste ano, a taxa de pobreza poderá elevar-se aos 97%. “Mais de 1 milhão de crianças com menos de 5 anos correm o risco de morrer desnutridas.”

Os mais ameaçados, testemunham os Médicos Sem fronteiras (MSF), são os recém-nascidos, até aos 6 meses. Em algumas clínicas, uma em cada cinco crianças ali internada não sobrevive. Na província de Herat, por exemplo, as taxas de mortalidade infantil ligadas à desnutrição chegam a atingir 15%.

“Sem chuva, sem água, não podemos produzir nada”, lastima-se Matiullah Wesa. Os que, como os seus familiares, “exportavam frutos secos, para o Irão, Índia ou Paquistão, deixaram de o fazer porque se fecharam as fronteiras”, desde que, em Agosto de 2021, após 20 anos de um conflito que matou mais de 200 mil pessoas – quase 50 mil das quais civis –, regressou ao poder “um regime [dos taliban] que não sabe governar”.

Para muitos afegãos, Matiullah Wesa é um herói. Em 2004, a escola que o seu pai, um respeitado chefe tribal, abriu em Maruf, a terra-natal na província de Kandahar, foi atacada por combatentes taliban, que não hesitaram em “apontar armas à cabeça dos professores”.

Um talib encarregado de “controlar multidões” vigia os afegãos que recebem ajuda alimentar num centro de distribuição do Programa Alimentar Mundial das Nações Unida em Cabul
© Victor J. Blue | The New York Times

Com os “sonhos destruídos”, a casa incendiada e ameaçados de morte, Matiullah e a família foram obrigados a mudar-se para o distrito vizinho de Spin Boldak e depois para Cabul.

Foi na capital, onde ele os nove irmãos continuaram os estudos que Matiullah teve a ideia de criar uma organização não governamental que reerguesse as escolas arrasadas e proibidas pelos seguidores da rígida doutrina deobandita e das mais conservadoras tradições pashtun.

Em 2009, o estudante que haveria de se formar em Ciência Política e Direitos Humanos em duas universidades indianas fundou a Pen Path (Caminho da Caneta). Desde então, levantou do chão mais de 100 escolas e construiu de raiz outras 46 onde não havia nenhuma, abrindo portas a quase 60 mil crianças, rapazes e raparigas.

Foram também criadas 38 bibliotecas, onde se encontram livros infantis e religiosos, de gramática e de línguas, romance e poesia. Centenas de jovens beneficiam hoje de cursos de alfabetização e bolsas de estudo. Recebem gratuitamente mochilas coloridas, manuais, cadernos, lápis, e até cadeiras de rodas para que portadores de deficiência acedam ao que Matiullah não se cansa de designar por “um direito básico, um direito humano, um direito islâmico”.

Distribuição de pão a jovens necessitados que se concentraram junto de uma padaria em Cabul
© Bulent Kilic | AFP | Getty Images | VOX

Com a necessária bênção de líderes tribais e religiosos, que ajudam a convencer pais relutantes, os 2300 voluntários da Pen Path, 400 dos quais mulheres, andam por todo o país, e não só ensinando a ler e a escrever. Cuidam da saúde física e mental dos que se cruzam no seu caminho.

Promovem direitos básicos, pregando “contra a discriminação e a violência, contra a exploração infantil [pelo menos ¼ das crianças afegãs entre os 5 e os 14 anos trabalham ou mendigam nas ruas] e contra o tráfico de drogas” (que representa 60% das receitas dos talibãs).

Porque as raparigas voltaram a ser proibidas de frequentar o ensino secundário e a universidade desde que o Afeganistão caiu de novo sob o controlo dos taliban, Matiullah Wesa redobrou os esforços para garantir que o seu trabalho continuará a dar frutos.

“Temos agora 29 escolas secretas para meninas em aldeias remotas”, anuncia ele, orgulhoso, na entrevista que me deu. “Algumas destas áreas nunca tiveram uma escola nos últimos 20 anos. As crianças e as suas famílias estão felizes pela oportunidade que lhes damos.” [Matiullah criou, entretanto, escolas-bibliotecas móveis que percorrem as zonas mais remotas, sempre correndo riscos de vida.]

Um bebé afegão é submetido a um teste para avaliar os sinais de desnutrição num centro de saúde do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) em Kandahar
© Jim Huylebroek | The New York Times

Com milhões de pessoas desesperadas, a enfrentar o dilema “morrer de fome ou de frio”, a educação não fica para trás? “A nossa campanha é agora também humanitária”, esclarece Matiullah. “A nossa nação precisa de nós mais do que nunca. Temos de erradicar a pobreza. Apoiamos os professores que ficaram sem salário, oferecemos comida e vestuário, mas não abdicamos de, ao mesmo tempo, reabrir as escolas.”

Mais tarde, no Twitter, Matiullah acrescentaria: “Sempre que entrego um livro a uma criança e alimentos a uma família, sinto-me realizado. Posso dormir em paz à noite. Ganho energia para batalhar ainda mais.”

Nas redes sociais, o popular educador Matiullah vai detalhando a sua missão, levada a cabo graças a muitos benfeitores afegãos, dentro e fora do país. O seu papel, ainda que crucial e reconhecido, não é suficiente, e ele exige responsabilidades à comunidade internacional. “Os Estados Unidos, a Europa e o Reino Unido têm a obrigação de nos auxiliar.

Em 2001, vieram para cá [com milhares de soldados, como represália pelos ataques terroristas de 11 de Setembro cometidos pela Al-Qaeda, hóspede e patrono dos taliban], mas, depois de 20 anos de destruição, foram-se embora. Sentimo-nos isolados. Precisamos que apoiem o nosso povo, os nossos professores, a nossa agricultura.”

Matiullah repete que não tem medo de desafiar as autoridades e que não tenciona desistir. “A guerra, as minas [nas estradas provinciais que diariamente percorre], as ameaças não interrompem a minha luta”, assegura. “Sou independente. Nunca trabalhei para nenhum governo em Cabul. Tenho uma rede ampla de contactos que, espero, possa também funcionar como rede de segurança pessoal. Não abandonarei a minha pátria.” 

Trabalhadores afegãos descarregam sacos de farinha de um camião do Programa Alimentar Mundial
© Victor J. Blue | The New York Times

Nas últimas duas décadas, o orçamento de Estado do Afeganistão dependia em cerca de 80% de contribuições financeiras do estrangeiro. A ajuda internacional representava 40% do produto interno bruto (PIB). Cerca de 90% da população – três milhões são deslocados internos que vivem em condições desumanas nos arredores das cidades, em parques e outros espaços abertos onde improvisam abrigos – depende da ajuda externa.

A guerra, a corrupção (o anterior presidente terá esvaziado os cofres antes de fugir do país), a pandemia de Covid-19, a seca prolongada, as sanções internacionais (só a Reserva Federal dos EUA congelou fundos no valor de 7000 milhões de dólares), o desemprego galopante, a implosão de preços de alimentos e combustíveis, a violência que persiste (confrontos, raptos e execuções extrajudiciais), a miséria exacerbada pelo vício das drogas (há um milhão de toxicodependentes num país que produz anualmente 4000 toneladas de ópio – a base da heroína), tudo contribui para dilacerar a sociedade afegã.

O Programa de Desenvolvimento da ONU alertou que, até meados deste ano, 97% dos afegãos poderão estar abaixo do nível de pobreza. O rendimento per capita, que era de 408 dólares em 2020, deverá baixar para 350 em 2022. Economistas ouvidos pela agência Reuters prevêem que vai ser necessário pelo menos 2000 milhões de dólares (1750 milhões de euros) “só para retirar as pessoas da pobreza extrema para a linha de pobreza”.

Em Janeiro, as Nações Unidas apelaram a um auxílio urgente de 5000 milhões de dólares (cerca de 4 mil milhões de euros) – a maior quantia jamais pedida pela organização para um único país. Cerca de 4400 milhões destinam-se a ajudar os que vivem no Afeganistão, sendo o restante para distribuir por milhões de outros cidadãos que se refugiaram nos países vizinhos, como o Paquistão e o Irão. “Sem estes fundos, não haverá futuro”, avisou o coordenador da ajuda de emergência, Martin Griffiths, citado pelo jornal The Washington Post.

Um jovem afegão mostra uma cicatriz no abdómen após remover um rim, que vendeu para evitar que a família morresse à fome
© Wakil Kohsar | AFP | Getty Images | VOX

“O Afeganistão enfrenta um tsunami de fome”, alertou, por seu turno, Mary-Ellen McGroasrty, responsável do Programa Alimentar Mundial (PAM), em entrevista à Associated Press (AP). Numa recente visita à província de Badakhshan, no Nordeste, camponeses que ela encontrou queixaram-se de que já passaram por 19 governos, mas nunca se depararam com uma provação tão grande.

“Jamais tiveram de estar numa fila, de mão estendida, à espera de comida”, contou McGroasrty. “Alguns disseram que a fome, hoje, é pior do que as várias guerras das últimas cinco décadas. Conseguem imaginar não poderem alimentar nem aquecer os vossos filhos? É um sofrimento inimaginável. Muitos afegãos enfrentam uma de duas escolhas: ou morrem de fome ou deixam o país.”

As taxas de desnutrição duplicam de semana para semana. Crianças em pele e osso chegam todos os dias aos hospitais. Em algumas maternidades, enfermeiras dizem que só têm um aquecedor portátil e que, por vezes, colocam três bebés numa incubadora, porque não têm equipamento suficiente para cuidar deles.

O sistema de saúde, que era financiado em 75% pelo Banco Mundial, entrou em colapso. Só cinco unidades hospitalares, com um número de camas reduzido e sem condições, oferecem tratamento para a Covid-19, depois de 33 terem sido obrigadas a encerrar nos últimos meses, por falta de médicos e medicamentos, constatou a AP.

A situação no Afeganistão é tão grave que, depois da reconquista do poder pelos taliban, milhares de afegãos fugiram diariamente para os vizinhos Paquistão e Irão, em busca de centros de acolhimento e de sobrevivência
© Kiana Hayeri | The New York Times

Numa modesta padaria de Cabul, uma mulher identificada pelo repórter da agência France-Presse como Muhajira Amanallah, revela que todos os dias, sob um frio intenso, a sua família espera horas numa fila para comprar pão. “Se não houver, vamos para a cama com fome. Até pensei em vender as minhas filhas, mas caí em mim e entreguei-me a Deus”.

Na mesma fila, outra mulher, Nouriya, mãe de cinco crianças, descreve a alimentação diária: “Comemos sopa de nabos e cenouras, a que juntamos pedacinhos de pão. Não há carne.” O dono da padaria, Makram El-Din, está consciente das dificuldades dos clientes: “A maioria das pessoas perdeu o salário. Costumávamos usar quatro sacos de farinha por dia, mas agora gastamos apenas um e meio.”

“É uma corrida contra o tempo”, enfatiza Shelley Thakral, porta-voz do PAM em Cabul, em declarações ao site The Diplomat. “Temos de chegar rapidamente às pessoas nas zonas mais duras e inacessíveis. É o inverno, é o frio, é a neve. O custo da ajuda humanitária, só para este ano, foi estimado em 260 mil milhões de dólares. Se parcelarmos esta quantia, teremos 220 milhões por mês, ou seja, 30 cêntimos por pessoa e por dia. É isto o que pedimos.”

Matiullah Wesa, o fundador da organização Pen Path, com alguns dos seus alunos numa aldeia remota do Afeganistão
© Cortesia de | Courtesy of Matiullah Wesa | Pen Path

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Março de 2022 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2022 edition

“O futuro da Índia é extremamente sombrio”

Os cristãos e outras minorias na “maior democracia do mundo” estão à mercê de uma ideologia que se “inspira no nazismo, no fascismo e no apartheid”, diz sem rodeios o padre jesuíta Cedric Prakash, um dos mais importantes e incómodos activistas do país. Antes, durante e depois do Natal, foram muitos os ataques de hindus extremistas a fiéis e templos católicos. A violência tem vindo a aumentar desde 1998, ano em que o BJP, de Narendra Modi, ascendeu ao poder.   (Ler mais | Read more…)

Aldeões rezam em segredo em Bihar, na Índia, depois de uma onda de violência contra as suas igrejas
© Atul Loke | The New York Times

Cedric Prakash, padre da Província de Gujarat da Sociedade de Jesus, é um dos mais reconhecidos activistas na defesa dos direitos humanos, justiça, reconciliação e paz na Índia. Por se insurgir contra os poderosos em defesa dos marginalizados, foi espancado e recebeu ameaças de morte.

O seu escritório foi assaltado, tentaram confiscar-lhe o passaporte. Embora “o ódio e o veneno” o atormentem diariamente, ele insiste em ser uma “pessoa positiva”. A dedicação a causas nobres levou a França a distingui-lo com a sua mais alta condecoração, a Legião de Honra, em 2006.

A Harmony Foundation atribuiu-lhe o Prémio Internacional Madre Teresa para a Justiça Social, em 2013. O Centro Tanenbaum para o Entendimento Religioso em Nova Iorque colocou-o na lista dos dez maiores Peacemakers in Action do Mundo, em 2010.

O Conselho Muçulmano Indiano deu-lhe o Prémio Rafi Ahmed Kidwai, em 2003. Da Comissão das Minorias de Deli recebeu um Lifetime Achievement Award, em 2020. E, em 2021, a Associação da Imprensa Católica Indiana galardoou-o com o importante prémio Luis Carreño (1) de Excelência em Jornalismo, pelos seus “artigos proféticos” contra o fundamentalismo que ameaça o Estado secular e democrático onde nasceu há 70 anos.

Em 1995, por promover a harmonia entre comunidades, também o então presidente da Índia lhe ofereceu o prestigiado Prémio Kabir Puraskar. No entanto, quando a harmonia se rompeu em 1998 – ano em que o partido ultranacionalista hindu BJP (Bharatiya Janata Party) ascendeu ao poder -, depois de uma série de actos de violência contra cristãos em Gujarat, Cedric Prakash tornou-se num dos maiores críticos do actual primeiro-ministro, Narendra Modi.

Horário das orações afixado numa casa em Bilawar Kalan, no estado indiano de Madhya Pradesh, onde os habitantes foram ameaçados com o pagamento de multas se acolhessem cristãos nos seus lares
© Atul Loke | The New York Times

Em 1998, durante dez dias, centenas de ataques por parte de bandos extremistas visaram o distrito tribal e pobre de Dangs, onde muitos habitantes aceitaram o Cristianismo pregado por missionários que, a partir do século XX, começaram a desenvolver a região.

Segundo a organização não governamental Human Rights Watch, que acusou de envolvimento agentes da polícia e responsáveis do estado, dezenas de igrejas e salas de oração foram destruídas ou incendiadas, assim como escolas e lojas. Numerosas pessoas foram agredidas nas suas próprias casas, insultadas e humilhadas nas ruas.

Em 2002, Gujarat viveu dias ainda mais sangrentos. Em 27 de Fevereiro, depois de um incêndio num comboio ter causado a morte de 50 peregrinos hindus, seguiu-se uma vaga de tumultos do qual resultaram, segundo dados oficiais, quase 2000 mortos (790 dos quais muçulmanos – o alvo principal dos atacantes), 2500 feridos e 223 desaparecidos.

Na altura, quem governava Gujarat era Modi, que foi acusado, mas dez anos depois absolvido pelo Supremo Tribunal de ter “iniciado e encorajado um pogrom”.

Cedric Prakash, residente em Ahmedabad, a maior cidade de Gujarat, passou a ser um dos mais ardentes defensores das “vítimas das forças fundamentalistas que levaram a cabo a carnificina”, participando em várias campanhas pelos direitos dos que sobreviveram, em conjunto com diversos grupos, em particular, o Citizens for Justice and Peace, do qual é membro da direcção.

Mulheres cristãs participam numa reunião secreta de oração na casa de um aldeão no estado de Madhya Pradesh
© Atul Loke | The New York Times

Em Junho de 2002, o jesuíta Prakash testemunhou perante a Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF), em Washington, sobre a realidade dos muçulmanos em Gujarat. O seu depoimento terá sido fundamental para que, três anos, depois, tivesse sido negado um visto diplomático a Modi para entrar na América.

Nos seus artigos, publicados em várias revistas nacionais e internacionais, Prakash não tem medo de afrontar Narendra Modi, denunciando um projeto que, em seu entender, “rouba a alma da Índia, ao reduzir a cada dia que passa os valores e os direitos consagrados pela Constituição”.

Uma das iniciativas mais recentes de Prakash foi a campanha pela libertação do também padre jesuíta e defensor dos direitos tribais Stan Swamy, um compatriota detido em Outubro de 2020 sob a acusação de terrorismo e de ser um “simpatizante maoísta” do Partido Comunista da Índia.

A prisão de Swamy gerou protestos por todo o país. Gravemente doente, com Parkinson e Covid-19, morreu a 5 de julho de 2021, num hospital para onde, entretanto, fora transferido.

Cedric Prakash está agora mais do que nunca empenhado na “Campanha Nacional para Defender a Democracia”, pela revogação imediata da chamado Unlawful Activities Prevention Act (UAPA), que permitiu o encarceramento de Swamy, e de outras “leis draconianas que têm tido um impacto prejudicial sobre as vidas dos pobres, excluídos e explorados da Índia”.

De 2016 a 2018, Prakash esteve em Beirute, Líbano, como conselheiro do Serviço Jesuíta aos Refugiados (Região do Médio Oriente e Norte de África), onde dirigiu um estudo pioneiro sobre a situação dos sírios que fugiram da guerra que se tornou num instrumento de aprendizagem para as agências das Nações Unidas e grupos da sociedade civil que lidam com migrações.

Os cristãos na Índia são constantemente ameaçados e perseguidos por hindus extremistas, muitos deles ligados ao BJP, partido do primeiro-ministro, Narendra Modi
© Atul Loke | The New York Times

Em 2018, a pedido do Papa Francisco, a editora Loyola Press, de Chicago, publicou o livro Sharing the Wisdom of Time, para o qual contribuíram 31 “sábios”, entre os 65 e os 100 anos, que partilham as suas memórias sobre trabalho, luta, amor, morte e esperança.

“A história do Padre Cedric é maravilhosa”, escreveu o Pontífice. “Ajuda-nos a compreender que devemos ultrapassar as inconveniências da vida… talvez com sentido de humor, e certamente com a convicção de que todos os problemas podem ser resolvidos.”

“A sabedoria da idade, acompanhada do sentido de humor e de um toque de ironia, podem ajudar-nos a olhar para os nossos desafios diários de uma maneira positiva e evitar a dramatização. Temos de olhar para as coisas de uma maneira nova e criativa. O amor é criativo.”

Cedric Prakash continua a ser um generoso facilitador e orador cuja voz é procurada e escutada sobre temas sociais críticos. Deu-me esta entrevista por e-mail.

Um momento de oração em Bihar, onde supremacistas ligados ao BJP aproveitaram uma nova lei contra as conversões, para proibir aos cristãos o acesso aos poços desta aldeia de Madhya Pradesh e visitas às casas de vizinhos hindus
© Atul Loke | The New York Times

Um relatório da organização inter-denominacional indiana Persecution Relief refere que, entre 2016 e 2019, “os crimes contra cristãos na Índia aumentaram 60%”. Em 2021, “sobretudo antes, durante e depois do Natal”, segundo a sua própria estimativa, “registaram-se mais de 300 ataques” em várias regiões do país. Que ataques são estes e por que estão a aumentar?

Sim, é verdade que os crimes contra a minúscula comunidade cristã têm aumentado dramaticamente desde 2019 e, em particular, em 2021. Fomos testemunhas de vários desses ataques em Dezembro: antes do Natal, durante o Natal e no dia imediatamente a seguir!

Os ataques incluíram interromper e mandar parar, usando força bruta, cerimónias de oração e celebração natalícias, protestos ruidosos junto de igrejas contra o que eles [extremistas] chamam de ‘conversões forçadas’, profanação e vandalização de imagens e outros objetos do Cristianismo, ameaças, assédio e discursos de ódio contra cristãos e outras minorias. E muito mais! Infelizmente, tudo isto ocorre com a conivência da polícia e das autoridades locais.

Os perpetradores sabem muito bem que tudo o que façam, com impunidade e o apoio dos media, terá imunidade assegurada por parte dos poderosos deste país. Os ataques são cometidos, na sua maioria, nos estados governados pelo BJP [que controla 31 assembleias legislativas], como Uttar Pradesh, Karnataka, Madhya Pradesh ou Haryana.

Uma família cristã na aldeia de Bihar, estado de Madhya Pradesh, que tem sido perseguida por extremistas
© Atul Loke | The New York Times

Nos parlamentos destes estados, além das ameaças e intimidação por parte de indivíduos, estão também a ser aprovadas leis contra “conversões forçadas” – em Karnataka, por exemplo, a lei prevê condenação até dez anos de cadeia. Numa nação onde, segundo as suas palavras, “o Hinduísmo prega a tolerância e Constituição consagra a pluralidade”, como é que explica esta crescente hostilidade para com uma minoria que representa pouco mais de 2% dos 1400 milhões de habitantes da Índia?

Os cristãos na Índia NÃO constituem, de modo algum, ameaça para ninguém! Na realidade, segundo o último recenseamento oficial, a percentagem da população cristã diminuiu na India. Os dados podem ser vistos por TODOS.

As leis anti-conversão que estão a ser aprovadas pelos estados governados pelo BJP são um acto patético, inconstitucional e não democrático para denegrir os cristãos com o ‘fantasma’ das ‘conversões forçadas’; para polarizar a maioria hindu com o recurso a medos infundados e ilegítimos; e, acima de tudo, para avançar em direcção ao principal objetivo: a criação de um Estado baseado na ideologia ‘Hindutva’, que é fascista e raivosa por natureza.

Esta ideologia nada tem a ver com o Hinduísmo. Inspira-se no nazismo, no fascismo e no apartheid. Os principais proponentes pertencem aoRashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), uma organização ultranacionalista, que nunca trabalhou pela libertação da Índia [do colonialismo britânico] e que foi responsável pela morte de Mahatma Gandhi. A maioria dos que hoje governam a Índia é membro do RSS.

Um dos alvos dos hindus extremistas foi a congregação Missionárias da Caridade fundada por Madre Teresa de Calcutá, que oferece assistência aos mais pobres e vulneráveis da Índia
© Bikas Das | AP | VoA

Um dos alvos na campanha contra as conversões foi a congregação Missionárias da Caridade (MC), fundada em 1950 por Madre Teresa, que no dia de Natal viu todas as suas contas congeladas e foi proibida de continuar a receber donativos do estrangeiro para financiar os seus orfanatos e abrigos. Como interpreta esta decisão (entretanto revogada a 8 de Janeiro)?

A Madre Teresa é um dos maiores ícones da Igreja Católica (particularmente na Índia) do último século. Demonizar as Missionárias da Caridade, destruí-las totalmente, parece ser uma estratégia clara dos extremistas Hindutva. Eles esperam, suponho eu, o colapso do Cristianismo se conseguirem destruir as MC. Mas isso é ilusório!

Uma sondagem do Pew Research Center, publicada em Junho de 2021, concluiu que, “apesar de partilharem alguns valores e crenças (…), os membros das maiores comunidades religiosas da Índia não sentem, de um modo geral, que tenham muito em comum”. Mais: embora, “exprimam entusiasmo pela tolerância religiosas”, também demonstram “preferência consistente em manter as suas comunidades segregadas – vivem juntos separadamente”.  É também esta a sua percepção? Como é que caracteriza os católicos da Índia e a sua relação com outras comunidades religiosas?

Tudo isso é verdadeiro! Não era tão evidente até à década de 1990 – quando éramos mais inclusivos. Durante a minha infância e enquanto estudante, fui criado num ambiente multicultural e multi-religioso. Não só respeitávamos a religião dos outros, mas também celebrávamos juntos as festas dos outros. Com a emergência dos elementos Hindutva, a situação mudou muito!

Assim que eles tomaram o poder, os cristãos em várias regiões preferiram manter-se isolados – esta é uma questão séria, porque se tornou muito mais fácil às forças hostis à ideia de uma Índia pluralista serem bem-sucedidas nos seus desígnios nefastos e, em última análise, cumprirem a sua agenda.

Infelizmente, a Igreja Católica na Índia entrega-se ao simbolismo e não tem feito esforços suficientes para se envolver num diálogo inter-religioso e numa acção de bases. Não temos sido capazes de cumprir o sonho do Vaticano II de uma Igreja presente para todos!

O telhado danificado de um templo cristão numa aldeia de Madhya Pradesh, depois de um ataque de hindus extremistas, com a ajuda de agentes da polícia local
© Atul Loke | The New York Times

Pode explicar melhor esta sua crítica à Igreja, que, na sua opinião ‘tem estado (salvo poucas excepções) oficialmente muito silenciosa’?

Sim, espero que a Igreja oficial, como o Papa Francisco nos recorda constantemente. ‘eleve uma voz profética’ sempre que houver tentativas de destruir a santidade da nossa Constituição ou de atacar e perseguir as minorias (cristãos, muçulmanos, sikhs, etc.), os Adivasis [tribos, povos indígenas] e os Dalits [os que ocupam o último lugar do sistema de castas, outrora tratados pejorativamente por “intocáveis’”], os camponeses e os trabalhadores migrantes, ou tentativas de atacar o ambiente.

Isto NÃO aconteceu. Lamentavelmente, a Igreja Católica na Índia tem muito medo de perder os seus privilégios e bens, e muito medo dos escândalos em que muitos dos seus funcionários estão envolvidos. Só Deus sabe por que se calam [os responsáveis]!

Mas, se acham que isto é uma tática dita ‘diplomática’, gostaria de lhes lembrar que Jesus nunca foi diplomata, que acreditou na Verdade e na Justiça, que se revoltou contra o Herodes e o Pilatos do seu tempo!

Encontro entre o Papa Francisco e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, no Vaticano, em 30 de Outubro de 2021
©CNS | Vatican Media

Em 2021, depois do seu primeiro encontro, Modi convidou o Papa Francisco a visitar a Índia. Se essa visita se realizar, o que espera dela?

Bem, isso terá várias dimensões!!! O Governo da Índia não emitiu nenhum comunicado oficial em relação a uma eventual visita, depois de um sonoro convite pessoal; além disso, o comunicado do Vaticano também não fez qualquer referência a uma visita.

Enfim, pelo menos em 2022, uma tal visita estará fora de questão., porque parece que as viagens do Papa ao estrangeiro para este ano já foram organizadas. Eu adoraria, com toda a certeza, que o Papa Francisco viesse á Índia.

Quando me encontrei com ele, no Vaticano, em Dezembro de 2019, perguntei-lhe sobre essa possibilidade, e ele respondeu que também adoraria fazer a visita.

Ninguém sabe se irá concretizar-se. Contudo, se e quando ele vier, espero e rezo que não só se sinta seguro aqui, mas que a Igreja da Índia não o impeça de abrir o seu coração e falar fracamente sobre o que se passa no nosso país – principalmente sobre a liberdade religiosa!

“Gostaria de lembrar que Jesus nunca foi diplomata, que acreditou na Verdade e na Justiça, que se revoltou contra o Herodes e o Pilatos do seu tempo”, diz o padre Cedric Prakash
© Aleteia

Diz-se que Narendra Modi culpa Cedric Prakash por lhe ter sido negado um visto diplomático para entrar nos EUA em 2005, depois do seu testemunho perante uma comissão de liberdade religiosa sobre o massacre de Gujarat em 2002. Hoje em dia, porém, o primeiro-ministro indiano é acolhido com passadeira vermelha pelos líderes mundiais, apesar do seu brutal autoritarismo. Como explica esta mudança de atitudes? Como vê o futuro da Índia se ele permanecer no poder (apesar da sua desastrosa política em relação à covid-19, continua um líder popular, sem uma oposição forte)?

Seria pura arrogância da minha parte pensar que SÓ por minha causa e pelo meu testemunho perante a USCIRF é que Modi viu negado o seu visto para os EUA. A verdade é que isso resultou dos esforços de muitas coligações, grupos e indivíduos, que apresentaram provas convincentes para que o visto não fosse atribuído. Mas sim, desempenhei [nesse processo] um pequeno papel!

Assim que ele foi eleito chefe do Governo [central], a Administração americana não tinha alternativa se não oferecer-lhe o necessário protocolo. No entanto, na sua última visita aos EUA, ao contrário do que aconteceu sob o regime de Trump, não lhe estenderam a passadeira vermelha! Sob a sua liderança, o futuro da Índia é extremamente sombrio!

Ele é extremamente autocrático, por natureza, e quanto mais tempo ficar no comando, mais o tecido democrático do país se vai sendo destruindo. A Índia precisa urgentemente de líderes visionários, sagazes, honestos, inclusivos e compassivos. Agora! Isto, se queremos preservar e promover os valores consagrados na Constituição.

* O salesiano espanhol José Luis Carreño Echandía (Bilbau Biscaia, 1905- Pamplona, Navarra, 1986), padre, poeta, escritor e músico, é considerado “o maior missionário da Índia e das Filipinas”, onde fundou vários seminários e escolas.

Cedric Prakash, padre da Província de Gujarat da Sociedade de Jesus, é um dos mais reconhecidos activistas na defesa dos direitos humanos, justiça, reconciliação e paz na Índia
© Indian Catholic Matters

A fé de Devendra e Dayyakar

As notícias que Devendra Bhuriya, reitor do antigo Seminário do Verbo Divino e pároco de Tortosendo, na Covilhã, recebeu nos últimos dias da família que ainda tem em Jhabua, cidade do estado de Madhya Pradesh, não o tranquilizam.

“Estávamos a construir uma catedral, mas dois grupos fundamentalistas vieram interromper a obra”, conta-me Bhuriya, por telefone. “Disseram que não tínhamos licença de construção, mas o templo estava quase pronto após um ano e meio de trabalho intenso. O que havemos de fazer, se estes grupos actuam com apoio das autoridades locais?”

Em Jhabua, salienta Bhuriya, 50 anos de idade e 24 a residir em Portugal, ainda não se registaram ataques violentos como os que, no Natal de 2021, vandalizaram e destruíram igrejas, escolas e casas de cristãos noutras povoações de Madhya Pradesh.  

Mas ele não tem dúvidas de que os perpetradores destas acções e os que mandaram parar a construção da catedral estão ligados ao Bharatiya Janata Party (BJP), o partido ultranacionalista hindu do primeiro-ministro, Narendra Modi, e a força dominante naquele que é o segundo maior estado da Índia em termos de área e o quinto maior em termos de população (mais de 72 milhões de habitantes).

Se está preocupado com o presente e o futuro, Bhuriya está igualmente determinado a resistir, tal como a sua tribo, Bhil, um povo indígena da Índia Central convertido ao Cristianismo há mais de 100 anos. “Toda a minha família é cristã”, salienta.  “Um dos meus primos, que morreu de covid recentemente, era bispo. A nossa fé é muito forte. Estamos prontos a morrer por ela. Se nos atacarem, estaremos unidos para nos defendermos.”

Foi o que aconteceu em 2008, o ano em que o BJP chegou ao poder. “Quando [hindus extremistas] tentaram apoderar-se da escola da nossa igreja”, relata Bhuriya. “Saímos à rua com paus, dispostos a matar ou a morrer.”

Tensões comunitárias não faziam parte da infância e adolescência do pároco de Tortosendo. “Cresci a conviver com hindus e muçulmanos”, recorda. “A minha religião não era mais importante do que a dos outros. Havia uma inocência genuína. Olhávamos para os outros como irmãos. Naqueles tempos, ninguém manipulava a religião. A maldade começa na manipulação, que gera todo o tipo de confusões.”

“Lembro-me de experiências bonitas, quando os hindus nos visitavam no dia de Natal e nós participávamos no festival das luzes [Diwali]”, adianta Devendra Bhuriya. “Na escola, rezávamos juntos. Os cristãos por vezes liam um trecho do Corão, os muçulmanos, uma excerto da Bíblia. Isso já não existe.”

Na Índia, existem 645 tribos reconhecidas pela Constituição, como a de Bhuriya. São povos indígenas, muitos dos quais aceitaram o Cristianismo como uma porta para escapar à pobreza e ao abandono. “As escolas dos missionários formaram novas gerações e ensinaram-nas a ser livres e independentes. A educação tornou-nos iguais e deu-nos direitos num país onde ainda existe um sistema de castas.”

Fiéis católicos numa missa celebrada ao ar livre na aldeia de Mitrapur, estado de Bengala Ocidental, em 26 de Fevereiro de 2020
© Zvonimir Atletic | licas.news
Forças paramilitares patrulham as ruas de Imphal, capital do estado de Manipur, no nordeste da índia depois de ataques bombistas, um deles contra uma escola católica
© CNS | Reuters

Por pertencer ao que descreve como uma “casta exclusiva”, Dayyakar Reddy Thumma, pároco de Cabanelas, em Braga, nascido em Hyderabad, cidade do estado Andhra Pradesh, no Sul da Índia, não vive tão angustiado como o compatriota Devendra Bhuriya.

“Os Reddy são uma casta alta, fechada, com poder político e económico”, explica-me Dayyakar, em entrevista por telefone, “Somos uma minoria, mas temos peso na sociedade, ao contrário de outros cristãos. Inicialmente dominávamos a agricultura, mas agora muitos deixaram a Índia, para seguirem sobretudo engenharia informática, da América à Austrália, onde ganham imenso dinheiro e são uma diáspora próspera.”

A proibição de conversão ao Cristianismo agora imposta por lei em vários estados indianos, mas não ainda em Andhra Pradesh, apesar de ser essa a vontade do BJP local, “limita a evangelização, a transmissão da boa-nova”, comenta Dayyakar, que olha para a situação atual como “uma guerra religiosa”.

É por querem “sobreviver” no meio desta guerra, e sobretudo pela “sobrevivência da fé”, que os cristãos Reddy vivem isolados na sua própria aldeia, só acessível à própria casta. “Estudamos nas mesmas escolas – há hindus e muçulmanos nos colégios internos de padres e freiras, vamos às compras juntos, trabalhamos juntos, mas não há casamentos mistos, nem frequentamos as casas uns dos outros.”

“O Sul tem escapado às convulsões”, anota Dayyakar, “mas no Norte há muitos cristãos que estão a ser obrigados a uma ‘reconversão’ ao Hinduísmo. O BJP está a aumentar os ataques, a semear a anarquia. É por isso que preferimos viver num ‘condomínio fechado’, para não perdermos a nossa liberdade religiosa. Sem poder económico, já teríamos sido aniquilados.”

Em Portugal há 19 anos e a dirigir, desde 2013, a paróquia de uma freguesia com 2100 pessoas, “um sítio muito diferente” da terra-natal, o padre formado num seminário do Verbo Divino diz que, devido às perseguições, muitos cristãos do indianos praticam a fé de forma clandestina. “Os extremistas continuam a tentar atacar o nosso ‘castelo’. Não entraram, mas esperam que morramos devagarinho.”

Devotos católicos acendem velas antes de uma missa de celebração do nascimento da Virgem Maria, numa igreja em Hyderabad, em 8 de Setembro de 2011
© Noah Seelam | AFP | Getty Images

A Índia tem uma das maiores populações de cristãos na Ásia, mas os “19.762.000 católicos”, segundo estatísticas da Santa Sé, representam apenas uma pequena minoria (1,6%) numa nação de 1400 milhões de habitantes, maioritariamente hindus (72,5%).

  • “Há 175 circunscrições eclesiásticas dos ritos latino e orientais”, escreve Fernando Altemeyer no site Consolata América. “Existe atualmente o Patriarcado das Índias Orientais, um Arcebispado maior dos Siro-malabares e um Arcebispado maior dos siro-malankares, 25 arquidioceses de rito latino, quatro arquieparquias de ritos orientais, 126 dioceses de rito latino e dezessete eparquias de ritos orientais. O episcopado conta atualmente com 248 bispos, sendo seis cardeais, 48 arcebispos, um núncio apostólico e 193 bispos diocesanos, auxiliares, eparcas e os eméritos.”
  • A evangelização”, adianta Altemeyer, “principia com a chegada do apóstolo São Tomé, no século primeiro, à região de Kerala”, mas o trabalho missionário só “recomeça efetivamente com a chegada dos Portugueses a Goa em 1510”, onde se registará “uma forte presença de religiosos jesuítas, dominicanos, franciscanos, agostinianos”.
  • Em Agosto de 2022, o Papa proclamou o primeiro cardeal-patriarca de Goa, Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, e também o primeiro cardeal Dalit, Anthony Poola, ambos com direito a voto no conclave que nomeará o sucessor de Francisco.
Em Agosto de 2022, o Papa Francisco ofereceu aos cristãos Dalit da Índia o seu primeiro cardeal, Anthony Poola (na foto)
© Mahesh Kumar A. | Associated Press | economictimes.indiatimes.com

Fontes: Union of Catholic Asian News | Pew Research Center | consolata.america.org

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na edição de Fevereiro de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, February 2022 edition