RDC e Sudão do Sul: Onde a esperança não morre

O mais importante país católico em África e a mais jovem nação do mundo confiavam em que a visita do Papa Francisco daria visibilidade às suas aspirações de paz, justiça e democracia.  A missão foi adiada por motivos de doença. Os fiéis continuam a acreditar que o futuro está do seu lado. (Ler mais | Read more…)

Fiéis católicos rezam em Kinshasa, capital da República Democráticas do Congo no Dia dos Mártires da Independência
© John Wessels | AFP | Getty Images

Seria uma viagem memorável. Em Kinshasa, dois milhões de congoleses deveriam encher a pista do aeroporto de Ndolo onde se concluía “uma das maiores tribunas da história” para a celebração de uma missa solene. Em Kibumba, 20 quilómetros a norte da cidade de Goma, engalanadas as ruas e afinadas as vozes do coro paroquial, tudo estava a postos para acolher pelo menos outros quatro milhões de fiéis. Na diocese de Rumbek, jovens sudaneses do Sul organizavam uma caminhada de mais de 400 km, até Juba, para afirmação da sua fé.

O anúncio de que a visita apostólica do Papa Francisco à República Democrática do Congo (RDC) e ao Sudão do Sul, confirmada inicialmente pelo Vaticano para decorrer de 2 a 7 de Julho, foi adiada sine die, por motivos de doença, entristeceu os que há muito “preparavam o seu coração” para o receber.

A missão do pontífice ao continente que ele descreve como “um mártir espoliado por outras potências”, incluiria oito discursos, três homilias e encontros com líderes políticos, diplomáticos e religiosos, pessoas deslocadas e refugiadas, membros de grupos discriminados, vítimas de violência, sobretudo mulheres e crianças.

Isso obrigaria a muitas horas de pé, sob um calor intenso, algo que os médicos desaconselharam a um paciente de 85 anos, que, com fortes dores no joelho direito, se move em cadeira de rodas ou com a ajuda de uma bengala, e não pode interromper os tratamentos.

Um membro do M23 dorme num camião, enquanto aguarda a retirada deste grupo rebelde da cidade de Goma, no leste da República Democrática do Congo, em Dezembro de 2012. Não é fácil construir a paz no segundo maior país de África, onde a guerra se prolonga há muitos anos, com milícias e organizações armadas em constante luta contra o governo
© Phil Moore | AFP | Getty Images | The New York Times

Na RDC, a visita começaria em Kinshasa, a capital, depois de um voo de seis horas e meia, prosseguindo em Goma, cidade da província do Kivu-Norte, no Leste, ainda a recuperar de duas erupções vulcânicas, onde continuam activos mais de 100 grupos armados e parece iminente, segundo a organização Human Rights Watch, “uma nova guerra” envolvendo o Burundi, o Uganda e o Ruanda.

Francisco deveria celebrar missa no campo de refugiados de Kibumba e, no centro diocesano local, encontrar-se-ia com vítimas da violência em Beni, a segunda maior cidade da região, fustigada por uma epidemia de Ébola, desastres naturais e múltiplas atrocidades contra civis, como raptos e execuções extrajudiciais, atribuídas a milícias, mas também ao exército congolês.

A visita ao Sudão do Sul, acompanhado do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e do Moderador da Igreja da Escócia, Jim Wallace, seria uma “peregrinação ecuménica sem precedentes”, com uma vigília de oração em Juba, no Mausoléu de John Garang (dedicado ao defunto líder do exército de libertação), conduzida pelos três líderes, para encorajar os crentes e os políticos a “buscar o que os une e a ultrapassar o que os divide”.

Ainda na capital, antes de uma missa de despedida, o Papa visitaria um campo de deslocados internos, recebendo depois os jesuítas da Nunciatura Apostólica, bispos, padres e outros religiosos na Catedral de Santa Teresa.

Católicos congoleses cantam e dançam durante uma manifestação para exigir a demissão do antigo presidente Joseph Kabila, em 31 de Dezembro de 2017: o papel da Igreja foi fundamental para a transição política
©John Wessels | AFP | France24

Na RDC, Rigobert Minani Bihuzo, Coordenador do Apostolado Social da Província Jesuíta da África Central e da Rede Eclesiástica da Floresta da Bacia do Congo, ia encontrar-se com o Papa na Nunciatura em Kinshasa e depositava grandes esperanças numa visita de “solidariedade e compaixão”, com o potencial de despertar a atenção do mundo, “tendenciosamente concentrada na Ucrânia”, para “um sofrimento maior”, e para a urgência de preservar o que a Encíclica Laudate Si’ descreve como “o segundo maior pulmão do planeta”, depois da Amazónia.

No seu “perigoso apostolado”, em conjunto com a Comunidade de Sant’Egídio, uma das funções do padre Bihuzo é “dialogar com gente não recomendável: grupos armados, pessoas que lideram rebeliões ou estão envolvidas em assassínios”.

“É um diálogo perigoso”, explica-me, em entrevista por telefone, o autor de Le défis de la construction de la paix em RDC et l’engagement de l’Église. “Se tudo corre bem, é natural que sejamos elogiados; se falhamos, somos condenados. É um fardo penoso de carregar sozinho.”

E há sempre ameaças “Quando andamos pela selva e não nos conhecem, arriscamos a morte. É preciso ganhar antes a confiança [dos interlocutores]. Numa situação volátil, às vezes, somos suspeitos de ser espiões.”

Milhares de congoleses fogem da aldeia de Sake em direcção a Goma, em 2007, na sequência de violentos combates entre o exército nacional e soldados leais ao líder rebelde tutsi, Nkunda, no leste da RDC, país onde se estima haver mais de cinco milhões de deslocados internos – um décimo dos 50 milhões em todo o mundo, segundo um relatório do Internal Displacement Monitoring Centre
© Lynsey Addario | Corbis | daraint.org

Não é, pois, fácil construir a paz no segundo maior país de África, depois da Argélia, cuja área (2.345.000 km2) equivale a mais de metade do território da União Europeia. “Temos uma guerra que se prolonga há muitos anos, com milícias e grupos armados em constante luta contra o governo”, observa Bihuzo.

“O governo, na maior parte das vezes, usa uma abordagem militar, mas quando um conflito assenta em contendas de território e assume características muito diversas, não devemos concentrar-nos apenas na questão militar. Precisamos de incluir também outros problemas, como o acesso à terra, a segurança individual, a participação política. É preciso ir ao encontro do que as comunidades necessitam.”

Grande parte da missão de Bihuzo centra-se no Leste da RDC, epicentro de um conflito com origem no genocídio da minoria tutsi do Ruanda em 1994 (quando extremistas hutus fugiram para o Zaire de Mobutu e aqui formaram grupos armados) e alimentado pela cobiça de países vizinhos, que pilham as vastas riquezas naturais congolesas – coltan, cobalto, cobre, lítio, diamantes, ouro – contribuindo para o empobrecimento da sociedade. Calcula-se que 82% dos mais de 75 milhões de habitantes vivam abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,25 dólares por dia e por pessoa.

Duas mulheres congolesas refugiadas numa igreja em Kibumba, no norte de Goma, depois de obrigadas a fugir de suas casas devido ao reatamento dos combates entre o grupo rebelde M23, apoiado pelo vizinho Ruanda, e tropas governamentais da RDC, em Julho de 2022
© Associated Press | dailysabah.com

Em 2002, onze governos africanos e vários grupos armados assinaram acordos para pôr fim a uma guerra que causou, até agora, 5,4 milhões de mortos (muitos por falta de alimentos), 4,5 milhões de deslocados internos e mais de 800 mil refugiados.

A instabilidade conduziu à escassez de meios de subsistência e à ruptura dos serviços básicos, como cuidados de saúde. A violência bárbara atingiu duramente mulheres e crianças: desde 1996, registaram-se mais de 200 mil violações.

Em 2008, Rigobert Bihuzo foi enviado para os Kivus pelo anterior Governo em Kinshasa para acompanhar as equipas que negociavam com a milícia Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP) e outros grupos armados congoleses. As negociações, que se realizaram sob os auspícios das Nações Unidas e da União Africana, terminaram com um acordo de paz assinado em 30 de Março de 2009.

O coordenador jesuíta continua a supervisionar a aplicação deste compromisso, “um trabalho que exige muita paciência, porque os resultados são muitas vezes lentos ou parecem inexistentes, especialmente quando se tem de acompanhar actores ‘fracos’, isto é, os que perderam a guerra, mas continuam a ser perigosos, ou aqueles cuja causa não tem apoio internacional”.

A maioria dos esforços de paz fracassa, admite Bihuzo, porque “a comunidade internacional insiste na ideia de que o conflito é um assunto interno da RDC e evita desafiar o Estado e o aparelho militar do Ruanda. Não é possível resolver o problema enquanto não se confrontar o incendiário.”

Kisanfu, uma das maiores reservas de cobalto, controladas pela China, na RDC, um país onde a guerra é alimentada pela cobiça de países vizinhos, que pilham vastas riquezas naturais, as quais incluem também coltan, cobre, lítio, diamantes e ouro. Apesar da abundância de recursos, calcula-se que 82% dos mais de 75 milhões de habitantes do país vivam abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,25 dólares por dia e por pessoa
© Ashley Gilbertson | The New York Times

Outro elemento a destacar: “Todos estão mais interessados nos negócios com os minerais estratégicos do Congo, usados na alta tecnologia, como smartphones, computadores e carros eléctricos, do que em pôr fim à guerra. Enquanto não interpelarmos os actores locais, regionais e internacionais não chegaremos a lado nenhum.” 

Da sua experiência, Bihuzo nota que, “na maior parte das vezes, é o governo que está ao leme” e que “as pessoas nem sempre têm tempo, energia ou estratégia para contactar as comunidades no terreno”, cujos líderes têm perspectivas diferentes.

“No final, ficamos com a impressão de que os acordos são firmados entre elites, só que a realidade é mais complexa. O importante é ir em busca das raízes do conflito.”

Na construção da paz, Rigobert Bihuzo lamenta ainda que a abordagem seja frequentemente “muito técnica e jurídica, sem integrar as componentes da simpatia, do sofrimento, da solidariedade, do amor”.

Na sua opinião, “há vantagem em partir destes valores cristãos”, porque “negociar não é reparar um carro avariado. É preciso considerar as situações de sofrimento, as questões humanas, o respeito pelos direitos fundamentais. Por detrás da procura da força e do poder, há vidas a ter em conta.”

Uma igreja dos tempos coloniais na comunidade remota de Rimenze, Sudão do Sul, onde muitos procuraram refúgio depois de ataques de forças governamentais durante a guerra civil
©Tyler Hicks | The New York Times

Pactos entre elites é o que o antropólogo Jok Madut Jok também constata no Sudão do Sul, a mais jovem nação do mundo que o Papa deveria visitar de 5 a 7 de Julho e onde já foram assinados 12 acordos de paz desde que uma guerra civil eclodiu em 2013, causando mais de 400 mil mortos, 2,3 milhões de refugiados em seis países vizinhos e 1,6 milhões de deslocados internos.

“A resolução de conflitos e a construção da paz baseia-se demasiado em acordos entre elites político-militares (…) sobre a partilha de poder e de recursos”, escreve Jok, investigador no Sudd Institute, em Juba, num ensaio intitulado Lessons in Failure: Peacebuilding in Sudan/South Sudan. “Muitas vezes ignoradas são as dinâmicas das comunidades e da sociedade que inicialmente alimentaram a violência.”

Um dos equívocos que Jok realça é o facto de, nos processos negociais, “se insistir na reconstrução das infra-estruturas, da economia e das instituições públicas, mas se negligenciar a reconstrução das pessoas, das suas relações umas com as outras, da assistência aos traumas e à restauração dos laços familiares e da ordem social, que já impediam a estabilidade antes da guerra começar”.

“Quando falha o sentimento de justiça, é certo o colapso da confiança das pessoas nos acordos de paz”, adverte Jok. “E a confiança só pode ser restaurada através do diálogo nacional, da reconciliação, da partilha equitativa dos dividendos da paz e de reformas credíveis no campo da segurança.”

Mãe e filha num campo para pessoas deslocadas em Yambio, no Sudão do Sul, a mais jovem nação do mundo, onde já foram assinados 12 acordos de paz desde que uma guerra civil eclodiu em 2013, causando mais de 400 mil mortos
© Tyler Hicks | The New York Times

Os sudaneses do Sul queriam que as autoridades “controlassem os soldados rebeldes, profissionalizassem as forças armadas e lhes ensinassem o valor da lei e dos direitos humanos”, mas o Governo em Juba “não correspondeu às expectativas e a viabilidade do Estado é hoje uma questão em aberto.”

Jok tem uma certeza: “Não será bem-sucedida nenhuma iniciativa de paz que não contemple a justiça e a responsabilidade pelos crimes de guerra”. Muitas pessoas que continuam a combater queixam-se de que o Governo “não facilita a reconciliação nacional” e “atribuem esse fracasso ao esforço das elites para encobrir os abusos e as atrocidades levados a cabo durante a guerra” que conduziu à separação do Sudão em 2011.

Quase ¾ da população do Sudão do Sul tem menos de 30 anos de idade. A maioria, toda uma geração de 1995 até 2005, não frequentou a escola. “A sua única noção de identidade é o contributo para a guerra [contra Cartum] e a convicção de que o Governo os abandonou desde que deixaram as armas para trás.” Sem perspectivas de emprego, muitos destes jovens tronaram-se “uma das principais fontes de instabilidade política e de militância crescente”, adianta Jok.

Quase ¾ da população do Sudão do Sul tem menos de 30 anos de idade. A maioria, toda uma geração de 1995 até 2005, não frequentou a escola. “A sua única noção de identidade é o contributo para a guerra [contra Cartum] e a convicção de que o Governo os abandonou desde que deixaram as armas para trás”
© Associated Press | VoA

O Sudão do Sul até pode ter um acordo de paz que acomodou os principais líderes, o presidente, Salva Kiir, e o vice-presidente, Riek Machar, seu rival, mas as comunidades de onde provêm estes jovens “continuam a sofrer a violência da pobreza, da exclusão e da falta de oportunidades.”

“O caminho para a paz e reconciliação é longo”, admite, em entrevista que me medu, por WhatsApp, o comboniano Christian Carlassare, bispo da diocese de Rumbek, capital do estado de Lagos, que, na preparação da visita papal, estava a mobilizar os jovens para uma romaria, “pela fé, vocação, unidade e reconciliação”, até Juba, 25 km diários, a pé e de carro, durante 11 dias. 

“A assinatura do acordo de paz de 2018 e a formação de um governo de unidade nacional representaram um passo em frente, mas ainda falta dar muitos passos importantes”, reconhece Dom Carlassare. “Sabemos que o período de transição tem um prazo [termina em Fevereiro de 2023] e que várias resoluções devem ser implementadas. Vemos que essa implementação está a ser difícil.”

Em Abril, o Painel de Peritos sobre o Sudão do Sul, criado pelas Nações Unidas, concluiu que “quase todos os componentes do acordo de paz estão reféns do calculismo político das elites militares e de segurança do país, que recorrem à violência, apropriação indevida de recursos públicos e apadrinhamento para satisfazerem os seus interesses.” Um dos componentes que ainda não se materializou é a criação de um exército unificado, que deveria integrar 42 mil soldados dos campos do governo e da oposição.

O Sudão do Sul é também um dos países mais afectados pelas alterações climáticas. Três anos consecutivos de cheias destruíram imensas colheitas. Só em 2021 foram afectadas cerca de 835 mil pessoas
© Peter Caton | petapixel.com

“Há demasiadas armas nas mãos de civis”, atesta o missionário que foi baleado nas duas pernas, pouco depois de nomeado por Francisco, em Abril de 2021. Foi tão grave o atentado à sua vida, supostamente cometido por “pessoas católicas”, incluindo um sacerdote, que só em Março deste ano foi possível a sua sagração, após seis cirurgias.

“A violência é sempre má e inexplicável”, declara Christian Carlassare. “As pessoas perdem facilmente a cabeça quando cegas pela ambição ou pelo desejo de ganhos pessoais. Jovens sem educação também são manipulados. Foi uma experiência dura, mas agradeço a Deus porque senti a dor que muitos no Sudão do Sul sofrem, o medo pela própria vida e a subsequente necessidade de esquecer tudo em benefício dos outros. Agradeço a Deus o sentimento profundo de perdão e liberdade para fazer o que está certo.”

“É claro que África nos ensina a nunca desesperar”, adianta o bispo. “As pessoas serão a esperança deste novo país quando todos, cidadãos e comunidades, entregarem as armas e responsabilizarem os líderes pelas suas acções, apoiando os que estão realmente comprometidos com o bem comum.”

Embora o acordo de 2018 tenha contido os combates mais sangrentos, a realidade é que a violência nunca cessou, e até tem vindo a aumentar, com violações, decapitações e ataques em que civis são queimados vivos. O estado de Unity é um dos mais afectados, mas também o de Equatória Ocidental, onde em 2021 centenas de pessoas foram mortas e 80 mil desalojadas.

11 de Abril de 2019: O Papa Francisco ajoelha-se para beijar os pés do presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, no decurso de um retiro de dois dias no Vaticano, no qual participou também o vice-presidente, Riek Machar (à direita). Aos dois rivais, o chefe da Igreja Católica pediu que resolvessem as suas desavenças e fizessem a paz
© Reuters | CNS | Vatican Media

“O tecido social do país deteriorou-se devido às divisões étnicas”, realça Carlassare, também ele, aparentemente, vítima das rivalidades entre a tribo Dinka, maioritária no Rumbek, com a qual trabalhou durante dez anos, e o clã Nuer. “Uma economia enfraquecida não é garantia de vida digna para os cidadãos: a grande maioria [80% ou 1 em cada 5, segundo o Banco Mundial] vive abaixo do limiar da pobreza”.

O Programa Alimentar Mundial da ONU calcula que, este ano, 2/3 da população (8,3 milhões) do Sudão do Sul enfrentará fome extrema devido aos vários conflitos, às alterações climáticas e à inflação. Nos campos de deslocados internos, o bispo ouve um lamento: “Somos prisioneiros no nosso próprio país.”

O italiano Carlassare, tal como o congolês Bihuzo, ansiava pela visita do Papa que, em 2019, numa notável audiência no Vaticano, se ajoelhara para beijar os pés de Salva Kiir e do rival Riek Machar, exortando-os a respeitar o armistício que haviam assinado e a prometer que não perpetuavam a guerra civil. A visita ao Sudão do Sul, acredita o bispo de Rumbek, serviria para ajudar a consolidar a paz, “a nível institucional e das comunidades locais”, mas também apoiar um “processo democrático pacífico”.

Pessoas deslocadas pela violência inter-confessional em Tombura, no Sudão do Sul, em setembro de 2021, procuraram abrigo em casa de familiares em Yambio, onde também recebem ajuda da diocese católica local
© Sean Hawkey | CNS

O acordo de 2018 deveria culminar em eleições em Dezembro do próximo ano, mas o cepticismo é enorme, porque não há garantias de segurança nem fundos para organizar o escrutínio. E, sobretudo, porque nenhuma das partes se compromete com uma data. A oposição, por exemplo, exige que regressem primeiro os milhares de refugiados e que haja uma Constituição permanente.

Na República Democrática do Congo, onde o mandato do presidente, Felix Tshisekedi, termina em Dezembro de 2023, seria igualmente intenção de Francisco “encorajar a realização de eleições livres e justas”.

A Conferência Episcopal (CENCO), que “tudo tem feito para promover a democracia”, segundo Bihuzo, denunciou “inúmeras irregularidades” na nomeação dos membros da Comissão Eleitoral Nacional (CENI) e do Tribunal Constitucional, que proclama os resultados oficiais, suspeitando que “a politização” destes organismos visa manter no poder o homem que sucedeu a Joseph Kabila num processo que 4000 observadores da Igreja Católica confirmaram fraudulento em 2019.

Apesar da turbulência constante, o padre jesuíta não considera que as riquezas da RDC sejam uma maldição. “Não é por o país ser rico que tem problemas. É a corrida aos nossos recursos que alimenta o conflito. Estou optimista porque o meu trabalho, no dia a dia, permite-me ver que as pessoas estão determinadas a encontrar soluções. As pessoas querem marcar a diferença. O futuro está do nosso lado.”

Em Kinshasa e em Juba, a Igreja une-se ao povo

Duas mulheres da comunidade congolesa em Roma, no momento do ofertório, durante uma missa celebrada pelo Papa Francisco na Basílica de São Pedro, no Vaticano, em 3 de Julho de 2022, dia em que o chefe da Igreja deveria ter estado em Kinshasa; a viagem foi adiada devido a problemas de saúde
© CNS | Vatican Media

Num continente onde, até 2050, o número de cristãos deverá totalizar 1300 milhões – o maior do mundo -, segundo o Center for the Study of Global Christianity, do Seminário Teológico Gordon-Conwell*, há uma nação que se destaca: a República Democrática do Congo (RDC).

Neste país que o Papa Paulo VI chamou de “o irmão mais velho da Igreja na África negra”, e onde a história da evangelização remonta ao século XV quando, em 1491, missionários portugueses baptizaram o soberano do reino do Kongo, Nzinga Nkuwu (mais tarde João I), cerca de 90% da população é cristã (diferentes denominações), refere o padre jesuíta Rigobert Minani Bihuzo, num artigo publicado na revista italiana Aggiornammenti Sociali.

A Igreja Católica na RDC, a que pertencem 55% dos congoleses, “é poderosa, respeitada e influente”, porque “apazigua tensões e desarma crises”, diz, por seu turno, Franz Vaillant, director da estação francesa Tv5Monde. “É um facilitador da palavra, um actor discreto e eficaz, espécie de mediador neutro, capaz de estabelecer um diálogo entre as partes, sem tomar partido”, sem dar “passos em falso” entre “uma oposição exasperada e um presidente crispado”.

Bihuzo, destacado activista pela paz, salienta que, apesar de “um forte crescimento” dos evangélicos pentecostais nas últimas décadas, uma forma de o regime travar o poder da Igreja Católica, esta “não perdeu sua vitalidade” e tornou-se num “importante berço do catolicismo, enviando missionários para todo o mundo”.

“A Igreja Católica, a que pertencem 55% dos congoleses, “é poderosa, respeitada e influente”, porque “apazigua tensões e desarma crises”, assegura Franz Vaillant, director da estação francesa Tv5Monde. (Na foto, fiéis durante a celebração de uma missa na Catedral de Kinshasa, em 29 de Dezembro de 2018)
© Baz Ratner | Reuters | CNS

Se o actual Papa resignar (e há rumores a este respeito devido aos seus problemas de saúde), entre os cardeais eleitores que participarão no conclave que escolherá o sucessor está o arcebispo de Kinshasa, Fridolin Ambongo, regularmente apontado como “sério pretendente” ao lugar. Francisco elevou Fridolin a cardeal em Outubro de 2019.

A Igreja da RDC, observa o padre Bihuzo, é conhecida pelo seu “rito particular, zairense, uma liturgia orante, dançante e vibrante”, que encoraja os “esforços de inculturação”, mas é também “uma igreja de mártires”, como Marie-Clémentine Anaurite Nengapeta, Isidoro Bankaja e Christophe Munzihirwa, que aguardam canonização.

Na entrevista que me deu, Bihuzo enfatiza que “a Igreja Católica é uma das instituições mais sólidas da RDC e uma das mais corajosas em África”. Com 82% da população a viver abaixo do limiar da pobreza, a Igreja “substitui o Estado onde ele está ausente, sobretudo nas áreas rurais e remotas”, garantindo serviços vários, da educação e cuidados de saúde (controla 70% das escolas e muitos hospitais) ao pagamento de salários de professores e outros funcionários públicos. Está também presente na arena política, através da prestigiada Conferência Episcopal (CENCO), “exigindo o respeito pela democracia e os direitos humanos”.

No Sudão do Sul, “a Igreja funciona como o fermento na massa – uma pequena quantidade tem o poder de realizar uma grande mudança”, diz o bispo comboniano de Rumbeck, Christian Carlassare. (Na foto, oração matinal na escola primária católica das Irmãs de Loreto, em Maker Kuei, nos arredores de Rumbeck)
© Paul Jeffrey | Life on Earth Pictures | World Council of Churches

Quanto ao Sudão do Sul, onde os primeiros missionários chegaram em 1842 e a religião é considerada uma ponte que une grupos étnicos desavindos, os católicos representam menos de metade dos cristãos (37,2%, ou 6,2 milhões dos 16 milhões de habitantes). Isto não preocupa o bispo de Rumbeck, Christian Carlassare. “A Igreja funciona como o fermento na massa – uma pequena quantidade tem o poder de realizar uma grande mudança”, diz-me o prelado numa entrevista.

Num país onde já só 19,7% da população se mantém fiel a crenças tradicionais e animistas, que envolvem o culto dos mortos, o espiritismo ou a magia, a Igreja Católica procura “estar presente em todas as comunidades e falar a língua comum do Evangelho, que é o mandamento do amor, do perdão e da reconciliação”, enfatiza o prelado comboniano. “A Igreja tem sido o grande impulsionador do processo de paz e uma testemunha credível, porque sempre esteve ao lado do povo, sofrendo em conjunto.”

Em muitos casos, tem sido “o primeiro agente na construção da paz e no cuidado dos que foram afectados pela guerra civil que causou milhares de mortos, através de serviços de saúde e assistência. No campo da formação, por exemplo, ajudou a abrir escolas e encorajou o ensino.

A educação, realça Dom Carlassare, “é o meio mais poderoso de mudança social e cultural, sobretudo a educação das raparigas, tantas vezes esquecidas e destinadas a casamentos precoces.”

* Instituição evangélica composta por 85 denominações, com sede em Hamilton, Massachusetts, Estados Unidos da América

“A Igreja [no Sudão do Sul] tem sido o grande impulsionador do processo de paz e uma testemunha credível, porque sempre esteve ao lado do povo”, garante o bispo de Rumbeck © Secretariato Generale della Missione, MCCJ

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Julho-Agosto de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine Além-Mar, July-August 2022 edition

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