Naftali Bennett não tem medo do “apartheid”

O Habayit HaYehudi aspira a tornar-se na terceira força política de Israel. Entrou, como pretendia, no Governo de coligação de Netanyahu. O líder do partido atrai religiosos e laicos na defesa de um só Estado.. (Ler mais | Read more…)

Naftali Bennett fala de unidade nacional e oferece uma solução para um problema que permite a Israel manter a maioria dos territórios [ocupados] sem integrar a maioria dos palestinianos 
© The Jerusalem Post

A constelação política em Israel tem uma nova estrela: Naftali Bennett. Em mais de seis décadas de existência do Estado, este milionário e militar de elite retirou, pela primeira vez, a máscara do rosto da direita – do centro ao extremo – sem pudor de dizer o que pensa.

Nas eleições de Janeiro de 2013, o seu Habayit HaYehudi (“Casa Judaica”) esperava tornar-se no terceiro maior partido: um incómodo parceiro da futura coligação governamental.*

O mais novo dos três filhos de um casal que fez fortuna no sector imobiliário e imigrou de São Francisco para Haifa, após a guerra de 1967, Bennett [que teve de renunciar à cidadania americana assim que se tornou membro do Parlamento] foi um dos principais rivais de Benjamin Netanyahu e de Avigdor Lieberman.

Estes haviam unido os seus respectivos partidos, Likud e Yisrael Beiteinu, numa aliança que Elisheva Goldberg, analista do think tank Molad: The Center for the Renewal of Israeli Democracy, chamou de Biberman & Leiberyeahu.

Numa entrevista que me deu, por telefone, a partir de Jerusalém, Goldberg diz que uma das razões para a popularidade de Naftali Bennett foi “apresentar-se como autêntico e sincero, sem cinismo nem medo de palavras como apartheid ou “bantustões”, ao opor-se a um Estado palestiniano e ao defender a anexação unilateral de cerca de 60% da Cisjordânia”.

Nesta “Área C”, assim designada nos Acordos de Oslo de 1992 e sob controlo exclusivo de Israel, está a maioria dos colonatos judaicos. Aos palestinianos que aqui residem, Bennett “oferece” cidadania israelita. Os restantes, nas áreas B e C, terão “direito” a uma “autonomia limitada”, sem soberania em matéria de segurança.

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O mais novo dos três filhos de um casal que fez fortuna no sector imobiliário e imigrou de São Francisco para Haifa, após a guerra de 1967, Naftali Bennett teve de renunciar à cidadania americana assim que se tornou membro do Parlamento, após as eleições de Janeiro de 2013
© Ha’aretz

Sionista fervoroso formado numa yeshiva (escola talmúdica) e licenciado em Direito pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Naftali Bennett foi major na reserva da Sayeret Matkal, a mais prestigiada unidade do Exército; israelita
© playbuzz.com

Embora tivesse reconhecido que o seu programa é duramente criticado nos Estados Unidos, Europa e Médio Oriente, Bennett afirmou-se confiante de que “a comunidade internacional acabará por se adaptar, tal como aconteceu quando Israel anexou Jerusalém Oriental, em 1967”, após conquistar aos jordanos o sector da cidade que os palestinianos reclamam como capital.

Elisheva Goldberg tem uma explicação para as palavras de Bennett terem atraído uma grande parte dos israelitas, mesmo os que “ainda acreditam” numa solução de dois Estados: “São cada vez menos os que se importam com a opinião do mundo.”

Nesta campanha eleitoral, o mais importante “é a política interna”, e Bennett “marcou a diferença porque tinha um plano concreto, com medidas que incluíam, por exemplo, subsídios para a compra de habitação [os preços aumentaram cerca de 40%], acesso ao ensino superior ou uma maior abertura em relação aos Haredim [judeus ultra-ortodoxos], que incluiu na sua lista de candidatos.”

“O que torna Bennett tão especial”, adiantou Goldberg, “é ele ter feito renascer o velho Mafdal [Partido Religioso Nacional], dando-lhe uma imagem moderna, ao escolher, por exemplo, para “número dois”, Ayelet Shaked, uma direitista secular”.

A presença de Shaked é uma bandeira que Bennett gosta de agitar, como fez em declarações à revista Time: “Pela primeira vez, o nosso partido tem um candidato não-religioso que é também uma mulher.”

“No dia 22 de Janeiro, não vamos escolher um primeiro-ministro – toda a gente sabe que ele será Netanyahu”, disse Bennett à TIME. “O mais importante é conhecer quem será o seu braço direito.” E Bennett, que aspirava, segundo Goldberg, a ser ministro da Habitação, foi entre 2006 e 2008 um zeloso chefe de gabinete de Bibi, após um desaire nas legislativas que deixou o Likud com apenas 16 deputados dos 120 no Knesset.

 

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“O que torna Bennett tão especial”, diz a analista Elisheva Goldberg, “é ele ter feito renascer o velho Mafdal [Partido Religioso Nacional], dando-lhe uma imagem moderna, ao escolher, por exemplo, para “número dois”, Ayelet Shaked (ambos na foto), uma direitista secular”
© Michal Chelbin| The New Yorker 

Netanyahu deixou-se impressionar pelo currículo daquele que pretendia recrutar para retirar do poder Ehud Olmert, o antecessor. Apresentaram-lhe um major na reserva da Sayeret Matkal, a mais prestigiada unidade do Exército. Um sionista fervoroso formado numa yeshiva (escola talmúdica) e licenciado em Direito pela Universidade Hebraica de Jerusalém. O antigo director executivo do conselho que representa meio milhão de colonos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mas que vive numa mansão em Telavive. O empresário que enriqueceu em 2005 ao vender, por 145 milhões de dólares, a sua companhia de software antifraude criada em 1999.

O dinheiro permitiu a Bennett entrar na política, mas não terá sido suficiente, segundo Elisheva Goldberg, para que ele criasse um partido de raiz, como era sua intenção.

Em Abril de 2011, formou o Yisra’el Sheli (Meu Israel), para “propagar o amor pelo sionismo” na Internet – onde se revelou “um fenómeno”. Em 2012, com a jovem (35 anos) e bonita Ayelet Shaked, edificou outro movimento, Yisraelim (Israelitas), para fomentar “a educação judaica”.

Ambos poderiam integrar listas do Likud, o partido a que pertenciam, mas optaram por refundar o velho Miflag Datit Leumit (Partido Religioso Nacional), mais conhecido pelo acrónimo hebraico Mafdal, dissolvido em 2008. Esta organização sionista surgiu em 1956 e fez parte de todos os governos até 1992.

Para Larry Derfner, que escrevia features no diário (de direita) The Jerusalem Post e hoje é um dos colaboradores do website israelita (de esquerda)+972 Magazine, a transformação do Mafdal em Habayit HaYehudi contribuiu para a ascensão de Bennett. Ou, como me disse, numa entrevista via Facebook: “Ele deu a um partido antiquado uma face jovem e enérgica.”

Embora tivesse reconhecido que o seu programa é duramente criticado na Europa e no Médio Oriente, Nafatali Bennett (aqui com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu) afirmou-se confiante de que “a comunidade internacional acabará por se adaptar, tal como aconteceu quando Israel anexou Jerusalém Oriental, em 1967”
© timesofisrael.com

“Bennett atraiu para o seu campo “toneladas” de jovens soldados religiosos, conquistou os media e passou o teste”, adianta o colunista israelita. “O problema é que muitos dos candidatos que ele levará para o Knesset são radicais da extrema-direita.”

“Um deles, [a agora deputadaOrit Strock, tem um filho na prisão por ter raptado e atacado brutalmente um jovem palestiniano; outro, Jeremy Gimpel, apelou a que fosse destruída à bomba a Cúpula do Rochedo”, relicário islâmico em Jerusalém.

“Vamos ter o Governo mais extremista da História de Israel”, sublinha Derfner. “O Likud está mais extremista do que nunca, com várias pessoas no topo da lista [eleitoral] a quererem anexar o máximo da Cisjordânia; que são racistas assumidos (Moshe Feiglin disse à New Yorker:

-“Não se pode ensinar um macaco a falar e não se pode ensinar a democracia aos árabes”), que desejam enfraquecer o Supremo Tribunal – o próprio Netanyahu queria proibir os altifalantes nas mesquitas…”

Para Derfner, “algumas destas pessoas, incluindo [o anterior ministro dos Negócios Estrangeiros, Avigdor] Lieberman, podem muito justamente ser chamados fascistas; e, agora, o partido de Bennett, o Likud e o Yisrael Beiteinu vão controlar o próximo Governo, talvez em conjunto com um partido haredi [ultra-ortodoxo] tão extremista quanto os outros três – portanto, não interessa se dois ou três partidos “centristas” [o Trabalhista, de Shelly Yachimovich, o Hatnuah, de Tzipi Livni, ou o Yesh Atid, de Yair Lapid] venham a entrar na coligação, porque não terão qualquer influência!”

[Os ultra-ortodoxos não foram incluídos; Bennett ocupa dois cargos – da Indústria, Comércio e Trabalho, e também dos Serviços Religiosos -; a senhora Livni  tornou-se ministra da Justiça,  encarregada das negociações com os palestinianos; Lapid é titular da pasta das Finanças].

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O Habayit Hayehudu conquistou 12 dos 120 lugares do Knesset, e Naftali Bennett ascendeu a vários postos ministeriais no Governo de Netanyahu
© Menahem Kahana | AFP

E que influência terá Bennett no novo Governo de Netanyahu? A analista Elisheva Goldberg diz que “tudo vai depender do número de deputados que ele conseguir – se tiver uns 14, ganha peso.” No entanto, se em termos de política interna “talvez não seja difícil impor mudanças, no que diz respeito à anexação na Cisjordânia é improvável que a pressão de Bennett suplante a da comunidade internacional” sobre Bibi.

Derfner afirma, por seu turno: “O partido de Bennett e outros acham que serão a força dominante, mas falta ver até que ponto conseguirão arrastar Netanyahu – porque o resto do mundo está a pressionar para que ela siga numa direcção oposta – a da paz com os palestinianos.”

Ori Nir, porta-voz da organização Americans for Peace Now, em Washington, olhou para as sondagens e, ao ver em queda partidos como os de Yachimovich e Livni, confessou apreensão.

“Há, sem dúvida, potencial para um Governo de falcões”, diz-me, numa entrevista por mail. “Uma coligação destas deixará Israel ainda mais isolado internacionalmente, além de que poderá ser também uma ameaça à democracia e à segurança nacional de Israel.”

À semelhança de Goldberg e Derfner, também Nir considera que o poder de atracção de Bennett está no facto de ele ser “uma história de sucesso israelita, como militar e no mundo dos negócios; ele oferece soluções “apelativas” que fazem sentido, sobretudo para os jovens.

É orgulhosamente de direita, sem ser fanático. É carismático, eloquente, fala de unidade nacional e oferece uma solução para um problema que permite a Israel manter a maioria dos territórios [ocupados] sem integrar a maioria dos palestinianos. Este plano é atractivo, mas inviável e desastroso para o futuro de Israel.”

[Em 2013, o  Habayit HaYehudi conquistou 12 dos 120 lugares do Knesset, e Bennett ascendeu a ministro da Indústria, Comércio e Trabalho, ministro dos Serviços Religiosos, Ministro para as Questões de Jerusalém e da Diáspora e ainda membro da Comissão de Defesa e dos Negócios Estrangeiros. São pastas, negociadas com Netanyahu, que lhe conferiram peso político, financeiro e de segurança].

Elisheva Goldberg

Larry Derfner

Ori Nir

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 21, 2013

A judia que um amigo árabe tornou na “million dollar baby” de Israel

Moncef Bennour prometeu e ofereceu a Adi Rotem o cinto de campeã mundial de Muay Thai. A guerra em Gaza quase separou treinador e atleta, mas a arte marcial Muay Thai – com muitos adeptos em Portugal – fez deles amigos inseparáveis. (Ler mais | Read more…)

Adi Rotem 1

A israelita Adi Rotem ganhou um título mundial de Muay Thai, graças a um tunisino muçulmano que a “protege” e incentiva à luta chamando-lhe “carinhosamente” fucking Jew
© shirany.co.il

À espera de um exercício intenso com Dina Pedro, das raras mulheres treinadoras de Muay Thai (kickboxing tailandês), em Lisboa, André Almeida estica as pernas franzinas e enrola vagarosamente, do polegar ao pulso, as ligaduras que o irão proteger debaixo de luvas volumosas.

Aluno do 9ºo ano da Escola Nuno Álvares Pereira, na Casa Pia, o jovem de 14 anos está ali pelas mesmas razões que levaram Adi Rotem, a trocar, aos 5, as aulas de ballet pelas de judo: “Descarregar a raiva”.

Hoje, a atleta israelita é notícia porque ganhou um título mundial, na categoria de 52 quilos, graças a um árabe e muçulmano, que a “protege” chamando-lhe fucking Jew

Deixamos para o final o atrevido André e adiantemos a história de Adi Rotem, que ela nos conta numa entrevista por Skype, a partir de Telavive, onde vive, abriu um ginásio e se prepara para futuros combates.

“Sempre fui uma menina possante, com temperamento forte”, diz a jovem de tranças louras e corpo tatuado. “Eu adorava subir às árvores, tipo maria-rapaz, mas a minha mãe queria que eu fosse bailarina. Bastaram três meses para a convencer a deixar-me trocar o tutu pelo judoji [uniforme de judoca].”

“Nunca avaliei o meu nível de testosterona, mas deve ser elevado; acho que tenho de mais, para uma rapariga, mas garanto que não sou lésbica”, ironiza Adi. “Em miúda gostava de brincar com a Barbie mas, ao contrário de outras crianças, eu não a penteava; cortava-lhe o cabelo. Também adorava ginástica, basquetebol e jogar futebol. Todos tinham medo de mim.”

As artes marciais também encantaram Adi Rotem, nascida em Herzliya, no Centro de Israel, há 33 anos. Rapidamente conquistou um cinturão negro, tendo sido durante sete anos consecutivos campeã, de peso leve, em judo, jiu-jitsu e karatê.

Dos 18 aos 20 anos, durante o serviço militar obrigatório, foi instrutora de Krav Mag, curso que inclui boxe, Muay Thai, jiu-jitsu, pugilismo e luta corpo a corpo. A combinação destas técnicas foi desenvolvida em meados dos anos 1930, antes de emigrar para Israel, por um judeu húngaro, Imi Lichtenfeld, para defender o seu bairro judaico contra grupos fascistas.

Com “demasiada energia para estar num só lugar”, Adi saltitou de escola em escola, incapaz de se adaptar. Finalizado o equivalente ao 12º ano, não se inscreveu na universidade e, após a tropa, mudou-se para a Tailândia, onde o Muay Thai é desporto-rei.

“Foi em Banguecoque [a capital] que me deixei arrebatar e alimentei o sonho de ser campeã mundial. Neste desporto usamos tudo, dos punhos aos pés, dos cotovelos às canelas, e vale tudo menos tocar nos órgãos genitais dos adversários. É um contacto total, que exige uma grande concentração e disciplina – é perfeito para mim!”

Conhecida como “a arte das oito armas”, o Muay Thai começou por ser usado como defesa pessoal há cerca de 2000 anos. Ganhou popularidade no Extremo Oriente no século XVI e fama internacional a partir do século XX. Graças a esta projecção, um outro país – a Holanda – tem vindo a sobressair e foi para aqui que Adi seguiu, no Verão de 2006, ingressando no Vos Gym, em Amesterdão.

“Vivi um período complicado”, confessa. “Sem apoios oficiais ou patrocínios, gastei as minhas poupanças. Dormi em hotéis reles, partilhando quartos com mais de cinco pessoas, que passavam as noites drogados, enquanto eu não podia fumar nem beber, e tinha de acordar de madrugada, para treino duros, e de seguir uma dieta alimentar saudável e rigorosa.”

Adi and the coach (left side)

Adi Rotem celebra a vitória com a sua equipa – o treinador Moncef Benour está à sua esquerda: ele prometeu-lhe a vitória quando ela chegou a um ginásio em Amesterdão – e cumpriu
© royzweers.nl

No Vos Gym, Adi encontrou Moncef Bennour, mais conhecido por “Ben”, um imigrante árabe muçulmano, de 37 anos, nascido na Tunísia. Nos primeiros meses, o relacionamento entre atleta e treinador foi tenso.

“Ele via-me como representante da ocupação israelita e muitas vezes chamava-me fucking Jew. Mas não era racista, talvez fosse a sua maneira de me incentivar a ser mais aguerrida. Ele é negro e também usa a expressão fucking nigger. Sempre me respeitou, porque via a minha dedicação; nunca faltei a um treino.”

Em 2008-2009, Adi regressou a Israel quando decorria a Operação Chumbo Endurecido contra o Hamas. “Ben” telefonava-lhe quase todas as noites. “Tinha uma maneira especial de querer saber se eu estava bem”, diverte-se Adi.

“Perguntava-me: ‘Andas a matar crianças na Faixa de Gaza?’ e quando regressei a Amsterdão ele tinha o ginásio decorado com os rostos de miúdos palestinianos mortos pelo Exército israelita.”

“Evitava falar comigo, até que um dia, chamei-o e disse-lhe: ‘Tens de compreender as circunstâncias em que vivemos. Tu segues o islão e não devias beber álcool, mas consomes; eu sou judia e devia comer kosher mas não o faço. Somo o que somos. A partir, daí, ele é como o meu protector; somos bons amigos.”

Apesar das provocações de “Ben”, Adi não esquece e está grata por ele ter concretizado o seu sonho. Memorizou as datas: “A 18 de Setembro de 2012, depois do Rosh Hashanah [Ano Novo judaico], ele foi buscar-me ao aeroporto de Amsterdão e disse: ‘Não sairás daqui sem o cinto [de campeã]. Durante três semanas, treinámos dia e noite. A 6 de Outubro, foi o combate. Eu venci e, a 7 de Outubro, ‘Ben’ levou-me ao aeroporto, com o título que me prometera.”

Num artigo para a revista do Ha’aretz, a que deu o título de Million shekel baby, numa alusão à moeda nacional israelita e ao filme de Clint Eastwood com Hillary Swank, o jornalista Avshalom Halutz observou como Adi “ficou de pé, incapaz de parar de chorar; as lágrimas diluídas no suor e sangue que escorriam pela sua face, e no champanhe que os admiradores aspergiam em todas as direcções”. Ali estava uma campeã mas, ao contrário do que acontece noutros desportos, não havia nenhum ministro de Israel para a saudar.

Adi Rotem 1-a)

Adi Rotem quer “continuar os combates, pelo menos, até aos 35 anos”, idade em que teme ficar “física e emocionalmente menos forte”. Quer ter uma família (já tem um filho), mas admite que as relações afectivas são muito instáveis no mundo do Muay Thai
© Ilya Melnikov | Ha’aretz

Adi não nos especificou o valor do prémio. Referiu apenas que tem vindo a gastá-lo a pagar a renda do seu apartamento em Telavive, na comida e na preparação física. O seu plano de futuro é continuar os combates, “pelo menos até aos 35 anos”, idade em que receia ficar “física e emocionalmente menos forte”.

Quer ter uma família, mas admite que as relações afectivas são muitos instáveis no mundo do Muay Thay. [Em 2016, com 23 semanas de gravidez, continuou a praticar, revelando boa forma em vídeos que foi partilhando no YouTube e na sua página de Facebook.]

“Este é um ambiente ainda muito machista, mas eu não preciso de rapazes para me ajudarem. Sou capaz de fazer tudo. Como treinadora no meu ginásio, há tipos que desistem quando percebem que será uma mulher a ensiná-los.”

Dina Pedro, que conheceu Adi Rotem na Sérvia, em 2007, quando esta iniciava a sua carreira profissional, concorda que o Muay Thai continua “muito masculino”, ainda que nos seus 19 anos como atleta e dez como treinadora (de uma equipa mista), tenha vindo a dissipar preconceitos. Também ela se queixa da falta de apoios, apesar do seu reconhecimento fora do país.

A tetracampeã mundial que lidera a equipa “Dinamite” acaba de ser nomeada a primeira e única portuguesa membro do World Women WAKO Committe. WAKO é a sigla de World Association of Kickboxing Organisations, com sede na Itália.

Sobre a israelita, Dina elogia-lhe o “carácter de alguém que persegue e consegue o que quer”. Leonor Agostinho, que Adi derrotou em 2008 num campeonato da Europa em Guimarães (onde a israelita ganhou a medalha de prata), descreve-a como “uma guerreira”. Tatiana Correia, que conheceu Adi na Tailândia em 2009, venera-a como “uma verdadeira máquina física”.

Dina Pedro, que conheceu Adi Rotem na Sérvia, em 2007, quando esta iniciava a sua carreira profissional, concorda que o Muay Thai continua “muito masculino”, ainda que nos seus 19 anos como atleta e dez como treinadora (de uma equipa mista), tenha vindo a dissipar preconceitos. Também ela se queixa da falta de apoios, apesar do seu reconhecimento fora do país. A tetracampeã mundial que lidera a equipa “Dinamite” acaba de ser nomeada a primeira e única portuguesa membro do World Women WAKO Committe. WAKO é a sigla de World Association of Kickboxing Organisations, com sede na Itália. © NOVAGENTE.pt

Dina Pedro, que conheceu Adi Rotem na Sérvia, em 2007, quando esta iniciava a sua carreira profissional, concorda que o Muay Thai continua “muito masculino”, ainda que nos seus 19 anos como atleta e dez como treinadora (de uma equipa mista), tenha vindo a dissipar preconceitos. A  tetracampeã mundial e líder da equipa “Dinamite” é a primeira e única portuguesa membro do World Women WAKO Committe. WAKO é a sigla de World Association of Kickboxing Organisations, com sede na Itália
© NOVAGENTE.pt

Numa segunda-feira à noite, em duas sessões de treinos, Dina “Mite” Pedro vai marcando o ritmo com simpatia e disciplina. Numa plataforma de tapetes de borracha vermelhos, os cantos repletos de mochilas com o material necessário – luvas, caneleiras, calções, ligaduras, protector de dentes e de tórax (este para as mulheres), caneleiras, coquilhas (para eles e elas) – os atletas vão alternando de “estação” a cada ordem.

Uns exercitam, simultaneamente, o khow (joelhada), o sook (cotovelada) o teep (pontapé frontal), o mat hook (cruzado), o join (golpe em salto) ou o kaak (defesa com a canela), entre outras tácticas. Há quem se isole no dtoi lom (boxe sombra) e os que rodopiam entrelaçados num clinch (prendem o adversário em torno do pescoço ou do corpo, tentando arremessa-lo ao chão).

Finalizados os exercícios para os combates – os profissionais duram cinco rounds (os amadores, quatro) de três minutos com dois de intervalo para recuperar forças – , todos se despedem com beijos, apertos de mão ou abraços.

É a demonstração do “espírito de companheirismo” que Dina fomenta, e que levou Dan Balsemão, mais conhecido por “Pantera”, campeão da Europa em 2012, na categoria de 69,80 Kg, a deixar o ajam (mestre) que o orientou durante sete anos.

“O Muay Thai faz de nós pessoas menos violentas, mais confiantes e controladas”, frisa Balsemão, ruivo de olhos azuis e 28 anos, vigilante de uma empresa de segurança.

Um “maior autocontrolo” foi igualmente o que Maria Lobo, designer freelance de 25 anos, campeã de mundo em 57/60Kg, também em 2012, realçou como uma das qualidades do que considera a sua “maior paixão”, apesar de “ter os joelhos gastos, rasgado o nervo ciático, esmagado o disco da coluna e um pulso aberto”.

A dor física é, para Maria, menos importante do que a lição de vida que Dina ensina aos atletas: “É muito fácil ser campeão e não perder; difícil é perder e cair, mas levantarmo-nos e continuar”. Foi por causa de um crescendo de violência exterior, na escola, que os pais de Maria a inscreveram no Muay Thai.

História diferente é a de André Almeida, que praticou karatê mas não era suficiente para reprimir, também na escola, a sua violência interior.

“Desde que vim para o kickboxing nunca mais fui suspenso, por mau comportamento ou más notas”, orgulha-se, o rosto matreiro fitando o primo Miguel, 17 anos, a timidez contrastando com as cores garridas dos calções de poliéster, com brilhantes e franjas. “Antes, quando alguém me irritava eu passava-me; agora resolvo na boa todos os problemas”, diz André.

Adi Rotem
© wikimedia.org

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 21 de Janeiro de 2013 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 21, 2013

Marcel Nuss reclama o direito de fazer amor

Em França, um activista totalmente paralisado por uma doença congénita exige que o Estado reconheça a “prostituição voluntária”. Porque o prazer sexual não pode ser negado a nenhum cidadão. (Ler mais | Read more….)

Marcel Nuss
© Martin Colombet | libe.fr

De Estrasburgo, Marcel Nuss aparece no écrã do computador, via Skype, com um sorriso luminoso. Deficiente profundo devido a uma amiotrofia espinhal, doença congénita e hereditária que o paralisou aos 10 meses, lançou um livro, Je veux faire l’amour (“Quero fazer amor”, Ed. Autrement), exigindo o direito a “assistência sexual”, para si e outros na sua condição. Com isso, lançou um debate em França sobre a legalização da “prostituição voluntária”.

“Vou contar-lhe apenas uma pequena parte da minha vida, porque este ano [seria apenas em 2015] vou publicar a história dos meus 57 anos, uma biografia com o título ainda provisório de A contra-corrente”, diz-nos Nuss, numa conversa que durou duas horas.

Não é fácil falar e fazer-se entender depois de, aos 19 anos, ter sido submetido a uma traqueotomia e ter de respirar por um ventilador.

O diálogo começa assim: “Vê-me no meu escritório, mas não pense que estou confinado a esta cama regulável que apenas me facilita a conversação; aqui, movimento-me numa cadeira de rodas, embora sempre com a ajuda dos meus quatro empregados. Só me deito em casa, para descansar bem, porque trabalho cerca de dez horas por dia.”

Jilly, namorada de Marcel Nuss, é uma figura fundamental na sua vida íntima e profissional. Casaram-se em 14 de Fevereiro (Dia de S. Valentim) em 2015. Ela passou a dirigir a Association pour la promotion de l’accompagnement sexuel (Appas), que ele fundou
© Marcel Nuss

E o que faz ele? “Escrevo num computador, graças a um microfone de reconhecimento vocal; dou palestras, percorro uma média de 25.000 quilómetros por ano por vários países, num carro adaptado e conduzido por um motorista. No próximo ano, estarei em Bolonha, na Itália.”

Quando o som perde qualidade e ele se queixa, uma mão feminina aproxima-se, silenciosamente, para ajustar o auricular. Mais tarde, enquanto explica o simbolismo da tatuagem no seu tronco que o lençol não tapa por completo, a mesma mão interrompe-o para lhe dar uma chávena de chá e um comprimido.

“Mandei tatuar um lobo, porque é um animal selvagem e solitário como eu, mas eu sou apenas no interior; por fora sou muito aberto”.

Nascido em Geispolsheim, nos arredores de Estrasburgo, em 1955, o pai carpinteiro e a mãe dona de casa, um irmão e duas irmãs com os quais frequentava a mesma escola, Nuss conta que foi hospitalizado, pela primeira vez, tinha um ano de idade. “Era um lugar sem condições para a minha condição”, critica.

O seu estado de saúde agravou-se aos 14, e os estudos foram interrompidos. “Tinha eu 19 anos, depois de uma paragem respiratória, fiquei oito dias em coma e obrigado a permanecer cinco anos no serviço de reanimação. Foi aqui, em 1978, que conheci Gabi, uma enfermeira com quem me casei”

“Seduzimo-nos mutuamente, e Gab deixou o hospital para se dedicar exclusivamente a mim – sempre sozinha”, reconhece Nuss, cabeça rapada e o rosto com barba emoldurado por uns óculos de massa.

“Juntos, aprendemos formas alternativas de fazer amor. Tivemos dois filhos: um rapaz, Mathieu, e uma rapariga, Elodie. Felizmente, em nenhum deles se manifesta a minha doença, mas são portadores dela. Se um dia quiserem dar-me netos, os seus parceiros terão de fazer testes para garantir que não correm riscos.”

“Em 2002, eu e Gab decidimos divorciar-nos. Ela estava esgotada, e a nossa relação também. Desde então, não mais nos contactámos. Voltei a ter uma companheira durante sete anos e outros romances, sobretudo com escort-girls [acompanhantes] “Não sou como os tetraplégicos.”.

“Posso não mexer nada, mas sinto tudo, incluindo desejo. Comigo, a mulher é a parte a activa fisicamente, e eu sou activo pela palavra. E ela não fica indiferente. Ninguém pode negar a um deficiente o direito a ter prazer sexual. Por isso, ajudei a fundar a Coordination Handicap et Autonomie, em 2002, e o Collectif Handicaps et Sexualités (CHS), em 2007.”

Marcel Nuss num encontro, em 2015, de uma associação francesa que forma aprendizes de acompanhantes sexuais
© Pascal Bastien | libe.fr

Após o divórcio, Nuss recebia um subsídio de 900 euros por mês, que ele gastava em três horas de assistência por dia.

“Um dia fui ao encontro de Ségolène Royal [na altura, ministra delegada para a Família e os Deficientes, no Governo socialista de Lionel Jospin] para que ela visse, com os seus próprios olhos, a situação de dependência total em que me encontrava.”

“Consegui mudar a lei, o que surpreendeu muita gente. Em Abril de 2002, comecei a receber quase 10 mil euros mensais em ajudas do Estado – e é com esse dinheiro e o que cobro nas minhas conferências, aproximadamente 9500 euros brutos por ano, que pago 300 a 400 euros por mês a cada um dos meus empregados, que têm famílias para sustentar.”

A batalha de Marcel Nuss tem deparado com críticas dos que vêem nos seus esforços uma campanha para legalizar a prostituição.

Ele esclarece: “É preciso reconhecer que existe uma prostituição especializada e voluntária – em França, uns 20% de prostitutos, homens e mulheres, são voluntários e merecem ser respeitados. É uma escolha deles e isso não me perturba, porque não os confundo com a prostituição mafiosa, que, essa sim, é um escândalo.”

Como reagem os filhos de Marcel a esta sua militância? “O meu filho, professor de 30 anos, e a minha filha, musicóloga de 28, nunca deixaram de me apoiar”, assegura Nuss.

“Eles entendem que, para mim, a doença não é uma fatalidade. É parte de mim, mas não é toda a minha vida. A minha deficiência tornou-me mais forte. Em geral, a deficiência destrói; a mim, ela construiu-me. Não me impede de viver, de trabalhar, de ser feliz.”

Além da autobiografia, Marcel continua, desde os 20 anos, a escrever poemas, “a maioria eróticos”, revela, citando como fontes de inspiração Arthur Rimbaud, Guillaume Apollinaire, Jacques Prévert e alguma poesia japonesa. “Não sou eu que escrevo, são os poemas que me escrevem. De manhã, por vezes, surgem bruscamente.” E envia-me, por e-mail, um desses poemas:

Voyage
L’amour est un voyage
entre les lignes d’un corps
qui dessine le décor
de désirs incarnés
Somptueux envol
sur des ailes de chair
emportant son sanctuaire
vers des nues illuminées
Atteindre le firmament
au sein de ses étoiles
puis atterrir doucement
sans atterrir vraiment
L’amour est un voyage
d’intenses voluptés
aéroport de Lille
Madame, il faut descendre maintenant. 
 

“Estar preso a um corpo dá-nos um sentido mais apurado da liberdade”, disse à AFP Marcel Nuss, aqui com Jill, no dia do casamento de ambos
© Marcel Nuss

 

A finalizar a entrevista, Marcel Nuss faz questão de falar de Jilly, a namorada, 27 anos. “Ela é assistente sexual. Eu já era conhecido e ela ficou surpreendida por a contactar. Apaixonámo-nos por Skype.” (Risos). “Há quem fique chocado com a nossa diferença de idades, mas esse choque só existe por eu ser deficiente, porque, nos meios intelectuais, há muitos homens da minha idade que se envolvem com mulheres mais jovens.”

“Quem nos conhece acha tudo normal. Gostava que a nossa sociedade fosse mais tolerante e não fosse tão intrusiva.”

Jilly, que aparece junto de Nuss nas fotos que ele vai partilhando no Facebook, muitas vezes alertando os amigos virtuais para os artigos do seu blogue, tem planos para se mudar para casa dele.

[Ela apresenta-se agora, oficialmente, como Conseillère en relations affectives et sexuelles at Avenbleu consulting” (conselheira para relações afectivas e sexuais na Avenbleu consulting].

Irá Jilly abandonar a profissão? “A decisão será dela e eu aceitarei o que ela decidir. Se quiser continuar, não vejo problema. Na nossa cultura o amor é sexo. Para mim, amor não é sexo, mas o sexo faz parte do amor. Ou amamos ou não. Temos de respeitar a liberdade do outro.”

[Aos 60 anos, Marcel Nuss casou-se com Jilly a 14 de Fevereiro de 2015, Dia de São Valentim. Lançou também “En dépit du bon sens: Autobiographie d’un têtard à tuba“, (Ed. Eveil Citoyen). Vale a pena ler a entrevista que, a propósito desta obra, o casal deu aqui. Em 13 de Fevereiro de 2024, Jill Prevôt Nuss anunciou a morte, aos 69 anos, do homem que ela tratava carinhosamente como “mon petit mari”. No Facebook escreveu: “O nosso aniversário do casamento terá o gosto salgado das minhas lágrimas.”

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 10 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 10, 2013

Natal copta entre a esperança e o medo

A 7 de Janeiro e não a 25 de Dezembro, porque o seu calendário é juliano e não gregoriano, a maior comunidade cristã do Médio Oriente “sai do gueto” para exigir os seus direitos. (Ler mais | Read more…)

An Egyptian youth takes in the scene at a Coptic Christian church in the Waraa neighborhood of Cairo on October 20, 2013 after gunmen on motorcycles opened fire @Mohsen Nabil | AP

Reparar os danos causados por homens armados, num ataque a uma igreja cristã copta, no bairro de Waraa, no Cairo, em 20 de Outubro de 2013. Os atacantes não foram identificados
© Mohsen Nabil | AP

Hany Wahba, engenheiro eléctrico de 31 anos, estará domingo [6 de Janeiro de 2013] na Catedral de São Marcos, no Cairo, das 19h até à missa da meia-noite, para celebrar o Natal dos cristãos ortodoxos coptas, que se assinala a 7 [de Janeiro].

“Não temos muitos motivos para festejar, com um Presidente (Mohamed Morsi) da Irmandade Muçulmana [destituído e preso em Julho de 2013] e uma Constituição que nos aproxima de um Estado Islâmico”, diz o jovem egípcio, numa entrevista  que nos deu, por telefone. “Vivemos agora pior do que durante o regime de Hosni Mubarak”.

Apesar de tudo, Hany e o seu amigo, “mais religioso”, Mina Thabet, estudante de Engenharia de 24 anos, estarão juntos a rezar “pela salvação do Egipto”.

Diz-nos Mina, líder do Maspero Youth Union, também por telefone: “Temos agora um novo Papa [Tawadros II] e queremos saber como podemos vencer o medo, que não é só da maior comunidade cristã do Médio Oriente mas de todos os egípcios.”

Hany entristece-se quando lembra que muitas pessoas nem sequer lhe desejam Feliz Natal. “Muitos salafistas emitiram fatwas [éditos] que condenam à morte quem nos saudar dessa forma, porque isso é considerado um reconhecimento de que Jesus é mais do que um profeta – é muito triste!”

O Natal dos coptas ortodoxos – 10 a 20% dos 80 milhões de egípcios – não é celebrado a 25 de Dezembro como o de outros cristãos (incluindo os coptas católicos e protestantes, cerca de 800.000), porque eles ainda usam o calendário juliano, adoptado por Júlio César em 46 a.C., e modificado por Augusto, outro imperador de Roma, em 8 d.C..

Este calendário tem 365 dias, ao qual se acrescenta um ano bissexto, a cada quatro anos. Desse modo, deixou de ficar sincronizado, em 13 dias, com o calendário moderno gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582.

O Papa Tawadros II, líder espiritual da Igreja Copta do Egipto (à esquerda), preside à Missa de da Meia-Noite, na véspera de Natal, na Catedral de São Marcos, no Cairo, em 2013. @Khaled Elfiqi |EPA

O Papa Tawadros II, líder espiritual da Igreja Copta do Egipto (esq.), preside à Missa de da Meia-Noite, na véspera de Natal, na Catedral de São Marcos, no Cairo, em 2013
© Khaled Elfiqi | EPA

O Cristianismo egípcio remonta à fundação da Igreja de Alexandria, por São Marcos, em 43 d.C., o que faz dos coptas uma das mais antigas comunidades – liderada por uma hierarquia clerical distinta. Eles recusam-se a ser tratados como “minoria religiosa”, até porque a origem etimológica (e geográfica) de “copta” é kpt, o modo como os árabes pronunciavam a palavra grega Egipto (Aigyptos).

Os coptas rejeitaram o Concílio de Calcedónia, que impôs, em 451, o conceito de que “Cristo tem duas naturezas: uma terrena e outra divina”.

Foram chamados de “monofisitas”, um termo que consideram pejorativo, classificando-se oficialmente como parte da “Igreja Ortodoxa Oriental”, na qual se integram também os arménios, os etíopes e os siríacos – mas não os ortodoxos gregos e russos, que cindiram do catolicismo posteriormente.

Todas as festividades coptas são precedidas de um período de jejum – o do Natal é de 43 dias, assinalando os 40 dias em que Moisés atravessou o deserto, com fome e sede, para receber os Dez Mandamentos.

Mina Thabet, por exemplo, confessou que estava exausto porque desde 25 de Novembro não comia carne, peixe, ovos e lacticínios, de manhã até ao início da noite, ainda que precisasse de estudar intensamente para o último exame na universidade, a 1 de Janeiro.

Só no domingo, 6 de Janeiro, fim do Advento, à meia-noite, quando começa o Natal, ele quebrará a abstinência, “para receber, sem mácula, o corpo e o sangue de Cristo”. Irá também saborear um pão especial que é distribuído pelos fiéis, durante a Eucaristia; chama-se Qurban, tem uma cruz ao meio e está rodeado por 12 estrelas, que representam os 12 apóstolos de Jesus.

Na casa de Mina e de Hany há “algumas decorações natalícias, como velas e árvores iluminadas”, mas os coptas “não têm a tradição ocidental de trocar presentes”, embora algumas crianças recebam uma pequena quantia de dinheiro (el’aidia), para comprarem doces, brinquedos ou gelados, explica Thabet.

“Todos se vestem com roupas novas, sim, e depois da missa reunimo-nos com a família e os amigos, em casa, parques, cinemas – mas só depois de comermos fatta, um prato à base de arroz e carne.”

Egyptian Coptic Christians attend celebrations for the Feast of Assumption, marking the Virgin Mary's ascension into heaven, late 20 August 2007 in Doronka village, outside Assuit, 400 kilometers (248 miles) south of Cairo. @AFP PHOTO/KHALED DESOUKI

Cristãos coptas egípcios celebram a festa da Assunção da Virgem Maria ao Céu , em 20 de Agosto de 2007, na aldeia de  Doronka, cerca de 400 quilómetros a sul do Cairo, a capital
© Khaled Desouki | AFP

Hany e Mina, ainda que ansiosos pelas celebrações, não escondem também as preocupações. “Os coptas, em particular, e a maioria dos egípcios, em geral, vivem apavorados”, frisa o primeiro. “Temos de mudar este país, por isso me inscrevi em várias organizações da sociedade civil e políticas.

O Presidente, Mohamed Morsi, está há seis meses no poder e ainda não nos deu nada. Talvez precisemos de outra sublevação. Não gosto que me despejem numa segunda classe. Ser copta é a minha religião, mas não me define como cidadão e, como cidadão, eu exijo os meus direitos.”

Inquirido sobre qual o seu melhor Natal, Mina Thabet hesita na resposta. “Só me lembro do pior: em 2011, quando uma igreja em Alexandria foi atacada. Morreram 24 pessoas, a maioria mulheres e crianças. Foi uma tragédia; um dos piores crimes contra os coptas. Este ano, espero que seja melhor; já é especial por termos um novo Papa, e depois porque acredito que Deus me ajudará nesta nossa luta por um país melhor.”

Mais céptico, Hany Wahba lamenta: “As tensões confessionais sempre existiram, mas nunca a impunidade foi tão ostensiva. “Há cada vez mais ataques pessoais e contra igrejas (“pelo menos 16 foram incendiadas”), além de expropriação de bens e a proibição, que vem do tempo de Hosni Mubarak, de construir novos lugares de oração.” Hany não esquece, em particular, o chamado “massacre de Maspero”, cometido em 9 de Outubro de 2011.

Nesse dia, forças de segurança mataram 27 coptas e feriram mais de 300, quando protestavam contra a destruição de um templo no Alto Egipto.

“Exames forenses mostraram que pelo menos 14 pessoas foram esmagadas por carros de combate e as restantes foram mortas por munições reais, mas o tribunal arquivou o processo por ‘falta de provas’ para punir os culpados”, critica Hany.

“Se eu tivesse a certeza de que arranjaria emprego no estrangeiro, já não viveria aqui; estou [cá] porque tenho de zelar pela minha mãe e pela minha irmã.”

O destino de Hany seria os Estados Unidos, onde o número de coptas que deixam o Egipto, fugindo da perseguição e da crise económica, aumentou cerca de 30%. Aos 350 mil que já viviam na América antes da revolução, juntaram-se mais 100 mil, segundo a emissora pública de rádio, a National Public Radio (NPR).

Muitos chegam com vistos de turista e depois pedem asilo político, concentrando-se sobretudo em Nova Iorque, Nova Jérsia e Sul da Califórnia. Muitos dos que abandonam as suas casas já não são apenas os da classe média e das cidades, mas também os menos cultos e mais pobres das zonas rurais.

Um paroquiano copta mostra páginas de um livro de orações resgatado deppis de um ataque sectário à Igreja do Arcanjo Gabriel, no Egipto. @ Laura King |Los Angeles Times

Um paroquiano copta mostra um livro de orações resgatado após um ataque à Igreja do Arcanjo Gabriel, no Egipto
© Laura King | Los Angeles Times

Hany Wahba pertence à classe média. Frequentou uma universidade católica privada onde, garante, nunca foi alvo de abusos físicos ou verbais, “mais frequentes nas escolas públicas”.

Um revolucionário orgulhoso, Hany foi dos primeiros coptas a desobedecer ao Papa Shenouda III e a ir para a Praça Tahrir, exigir a queda de Mubarak. Esteve “em todas as manifestações” contra o Conselho Supremo das Forças Armadas, quando este era liderado pelo temível marechal Tantawi.

“Foi um período curto em que muçulmanos, cristãos, bahá’ís e outros tinham como objectivo a unidade. Mas depois, face à irresponsabilidade do Ministério do Interior e de alguns pregadores salafistas, que encorajam os criminosos, a paz nacional tornou-se uma miragem.”

Co-fundador da Aliança Socialista Popular, “um partido não religioso em que os muçulmanos constituem a maioria dos membros”, Hany tem a certeza de que “os coptas estão a sair do gueto” em que Shenouda os colocou, “como forma de os proteger”. Os cristãos, frisa, “têm de deixar a religião para a Igreja, e a Igreja tem de se afastar da política.

São os crentes que têm de se integrar nas diversas forças políticas como cidadãos”. Por isso, a sua Aliança é uma das componentes da Frente de Salvação Nacional, da qual fazem parte também os grupos de Mohamed ElBaradei, antigo director da agência da ONU para o nuclear, e Amr Moussa, ex-secretário-geral da Liga Árabe.

Hany reconhece que a oposição tem estado dividida, “devido aos muitos egos dos líderes”, mas acredita que após a aprovação da nova e polémica Constituição em referendo (cerca de 60% votaram a favor mas pouco mais de 30% foram às urnas), “há agora maior vontade de superar as divergências, e enfrentar em conjunto a ditadura absoluta da Irmandade Muçulmana.”

Worshippers attend a service as Coptic priest Father Samaan Ibrahim reads his sermon on July 26, 2012 at the St Samaans (Simon) Church also known as the Cave Church in the Mokattam village, nicknamed as "Garbage City," in Cairo. Once a week hundreds gather at the Cave Church in Moqattam, after the prayer, a coptic priest performs exorcism or healing blessing to some of the believers. With a cross and holy water he fights spiritual entities and demons. The Monastery of St. Simon the Tanner is the largest and it has an amphitheater with a seating capacity of 20,000 making it the largest church in the Middle East. It is named after the Coptic Saint, Simon the Tanner, who lived at the end of the 10th century, when Egypt was ruled by the Muslim Fatimid Caliph Al-Muizz Lideenillah. Simon the Tanner is the Coptic Saint who is associated with the legend of the moving of the Mokattam Mountain. AFP PHOTO/GIANLUIGI GUERCIA @ GIANLUIGI GUERCIA/AFP/GettyImages)

Fiéis escutam o sermão de um padre copta, em 26 de Julho de 2012, na igreja de São Samaans (Simão), conhecida como igreja da Gruta, na aldeia de Mokattam, no Cairo. Uma vez por semana, os cristãos egípcios reúnem-se aqui, depois das orações, para serviços de exorcismo ou benção dos doentes. O Mosteiro de São Simão é o maior no Médio Oriente, com um anfiteatro capaz de acolher cerca de 20 mil pessoas. Simão viveu no final do século X, quando o Egipto era governado pelo califa muçulmano da dinastia fatimita (xiita) Al-Muizz Lideenillah
© Gianluigi Guercia | AFP | Getty Images

Alguns dos partidos da Frente já decidiram concorrer numa mesma lista nas próximas eleições legislativas, o que, para Hany, “tem vantagens – como uma melhor estrutura logística, que permita chegar às zonas mais conservadoras; e desvantagens – como correrem o risco de a votação ser apresentada como uma escolha entre os que estão a favor e contra Deus”.

“A situação económica é dramática e a política de Morsi não é diferente da de Mubarak, porque depende das ordens do Fundo Monetário Internacional, que está a exigir aumento de impostos e de preços dos alimentos, e também a desvalorização da moeda nacional”, salienta Hany. “Acho que nem o ditador deposto se atreveria a fazer isto, porque isto só aumenta a pobreza e a revolta!”

Tendo já provado as medidas amargas de Morsi, será que os egípcios voltarão a dar à confraria do Presidente e aos salafistas a maioria que detinham no Parlamento anterior, dissolvido pelos militares?

“Talvez não, mas temo que a reacção popular, apesar do desapontamento, seja de apatia; e uma forte abstenção, a par de inevitáveis fraudes, será muito má para a oposição, se esta não aproveitar a oportunidade.”

“É preciso ir aos redutos dos islamistas e informar as pessoas mais ignorantes de que não podem continuar a viver das esmolas dos Irmãos Muçulmanos; têm de exigir que o Estado lhes dê os seus direitos, e esses direitos são escolas ou clínicas, que não podem ser oferecidas como caridade.”

Menos devoto do que Mina Thabet, embora nunca tenha faltado a uma missa de Natal, Hany Wahba está nervoso: “As igrejas estão todas sob forte protecção policial, devido às ameaças que têm sido feitas. Talvez o Governo envie algum representante à catedral; e admito que ElBaradei e Moussa também estejam presentes, porque não têm nada a perder.” Quanto a si próprio, revela que o melhor Natal foi o que antecedeu o fim da licenciatura: “Tinha uma namorada naquele ano, e tudo parecia tão fácil.”

“A diáspora preserva a fé”

Ibrahim Saweros, investigador numa universidade holandesa, explica-nos por que os “filhos dos faraós” estão a fugir do Egipto da Irmandade Muçulmana.

Abril de 2013: Missa na igreja copta ortodoxa de St. Mary and St. Antonios em Ridgewood, Queens (Nova Iorque) durante as celebrações da Quaresma: 55 dias de orações e jejum que precederam a Páscoa, em Maio. @ Robert Stolarik | The New York Times

2013: Missa na igreja copta ortodoxa de Santa Maria e Santo António, em Ridgewood, Queens (Nova Iorque, Estados Unidos) durante as celebrações da Quaresma: 55 dias de orações e jejum que precederam a Páscoa
© Robert Stolarik | The New York Times

Autor do blogue e-COPTOLOGY, fluente em língua copta, em árabe, hieróglifos egípcios, grego clássico, inglês e em alemão, investigador na Universidade de Leiden, na Holanda, Ibrahim Saweros vai celebrar o Natal, a 7 de Janeiro, “em liberdade” porque, diz ele, vive na diáspora.

No Egipto, de onde saiu em 2010, não vê sinais de esperança. “Muitos emigrantes investiam em vários sectores, como o turismo, mas agora recomendam-se uns aos outros que encerrem os seus negócios para não ajudar o regime islamista” da Irmandade Muçulmana.

O erudito Saweros explica por que sua comunidade cristã ortodoxa festeja o Natal nesta data: “Seguimos o chamado yea cóptico (também conhecido como o calendário dos mártires do antigo ano egípcio). A 29 do mês de Koiak corresponde o 25 de Dezembro de antes da introdução do calendário gregoriano em 1582.”

Apreensivo quanto ao futuro da pátria que o desiludiu, ele guarda, ainda assim, boas memórias natalícias da sua infância. “Nasci em Tema, uma pequena cidade que pertence ao distrito de Sohag, no extremo sul do Egipto”, conta Saweros, numa entrevista que nos deu, por e-mail.

“No Natal vestíamos roupas novas e fazíamos diversas actividades. Na véspera, 6 de Janeiro, participávamos numa ‘celebração oficial’ com os membros mais idosos da família, partilhando a Eucaristia numa igreja a poucos passos da nossa casa.”

“Durante 3-4 horas de oração, que quase não entendíamos porque era recitada na língua copta, tínhamos de nos mostrar miúdos bem comportados, mexendo os lábios como se soubéssemos rezar de cor, e éramos obrigados a jejuar até ao momento em que recebíamos o Corpo e Sangue de Cristo.”

“No final da missa da meia-noite”, adianta, “corríamos para casa para saborear os melhores pratos confeccionados pela minha mãe, depois de 43 dias abstinência total. Os pratos consistem, sobretudo, em carne de frango e molokhia (um vegetal egípcio cozido em água com sabão).”

“Dormíamos poucas horas para acordar cedo e ir à ‘escola de domingo’, onde assistíamos a peças de teatro, ouvíamos coros e recebíamos um presente especial. A meio do dia, concentrávamo-nos na praça central da cidade ver o fogo-de-artifício.”

Em Leiden, é fácil preservar a fé. “Em parte, graças à Igreja Copta que, desde os anos 1960, mantém todos os serviços religiosos”, refere Ibrahim Saweros “Quando vim para aqui, em Janeiro de 2010, já havia sete templos coptas em toda a Holanda. Eu frequento a igreja de Haia todos os domingos.”

Celebração da Liturgia da Natividade, início do Natal, na Igreja de São Jorge em Brooklyn, Nova Iorque (EUA), em Janeiro de 2013. “Os coptas na diáspora sentem-se mais livres para viver a sua fé do que no Egipto”, diz o investigador Ibrahim Saweros, que vive em Leiden, Holanda
© Spencer Platt | Getty Images | NPR

“Há outros serviços, como uma biblioteca com livros religiosos, em árabe e em neerlandês, uma loja que vende produtos egípcios, sobretudo para os períodos de jejum, e um lugar (tipo café) onde as famílias coptas se reúnem.” Leiden, acrescenta, é “uma cidade internacional onde não só os vizinhos holandeses são amáveis como se conhecem outras pessoas de todo o mundo.”

Na realidade, sublinha, “é muito melhor ser um copta aqui do que no Egipto. Podemos comer, beber, rezar, pensar, vestirmo-nos como queremos e preferimos. É mais fácil construir aqui uma igreja copta do que no Egipto.”

Profundamente devoto, Saweros conhece bem os ritos da sua Igreja: “Celebramos 15 períodos de jejum por ano – sete deles chamam-se “grande jejum”, sendo os da Páscoa e do Natal os mais importantes.

Segundo as Constituições Apostólicas, é obrigatório celebrar o Natal, festa que se relaciona de forma especial com a Eucaristia. As orações começam ao fim da tarde com a cerimónia do incenso. A seguir, vem a liturgia copta, com muitos cânticos entoados apenas nesta ocasião. O Papa, os bispos, os padres, os diáconos envergam as suas melhores vestes eclesiásticas.”

Saweros não especifica as razões por que deixou a pátria, mas o retrato que dela faz sugere que não saiu de livre vontade. “Os coptas têm sido sempre perseguidos e hoje a situação é ainda mais complicada”, lamenta.

“O Egipto sob o poder de islamistas radicais divide-se em duas categorias: uma, a dos que detém o poder e governam o país, é composta por mentirosos cultos e espertos que estão sempre a invocar a tolerância do Islão; na segunda estão aqueles que, em todas as esquinas, usam os punhos e às vezes as armas.”

“Se ocorre, por exemplo, um problema entre dois vizinhos, um árbitro determinará que o vizinho é copta é seguramente o culpado”, precisou.”Pode ser-lhe exigido que dê todos os seus bens ao vizinho muçulmano ou que abandone o local de residência para sempre.”

Ibrahim Isaac Sidrak, Patriarca da Igreja Católica Copta do Egipto (à dir), em Alexandria, com o Papa Tawadros II, da Igreja Copta Ortodoxa
© ahram.org.eg

“Milhares de coptas perderam os seus empregos por trabalharem como Sanai3y (por conta própria), em actividades como pintores ou canalizadores, que podem ser contratados a nível individual”, queixa-se Saweros.

“Muitos têm de esconder a sua identidade (sobretudo as mulheres) para não serem vítimas de violência. Os islamistas radicais fazem tudo para que as povoações sejam 100% habitadas por muçulmanos.”

Ibrahim Saweros está convencido que a nova geração de coptas participará em todos os protestos contra o novo Presidente [entretanto destituído e preso pelos militares], Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, mas crê também que “milhares tentarão encontrar maneira de fugir do Egipto, que perde uma parte importante dos seus cérebros.”

Esta nova geração, de 25 anos e menos, “está a afastar-se da Igreja completamente; nasceu num mundo livre e digital; exprime-se em várias línguas, participa activamente nas redes sociais, e na cena política, ao lado de muçulmanos, sobretudo desde [a revolução de] 25 de Janeiro de 2011, mas não tolera os muçulmanos radicais. São jovens cultos, conhecem bem a sua história.”

A Igreja Copta, como instituição, não se afastará da política, sublinha o investigador em Leiden. “O regime continuará a usá-la como instrumento de poder, tal como usa [a mesquita-universidade de] al-Azhar [reduto do Islão sunita], porque precisa que o clero controle os jovens – revoltados, se não virem as suas reivindicações aceites, tudo se pode esperar deles.”

“Desde há meio século que os coptas têm vindo a emigrar para o Ocidente”, lembra Saweros. É uma diáspora “totalmente conservadora, europeus/americanos de cultura e educação, mas orgulhosos de serem coptas, isto é, filhos dos faraós.”

O maior desafio da comunidade, conclui o devoto copta, é o de “manter a sua identidade sem recorrer à violência. Tem de mostrar aos extremistas que o cerne do Cristianismo é o amor. Tem de os persuadir de que no Egipto há lugar para todos e, para isso, o diálogo tem de infinito.”

Mina Thabet @

Mina Thabet

Ibrahim Saweros @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Ibrahim Saweros

Estes artigos foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO, em 6 de Janeiro de 2013 | These articles were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 6th, 2013

Imigrante ilegal e director de um jornal

Kebedom Mengistu é um dos 60 mil eritreus que procuram asilo em Israel. De manhã faz limpezas. À noite, escreve textos para ajudar os que, como ele, correm risco de deportação – e de vida (Ler mais | Read more…)

Kebedom - Photo 1

Nas mãos de Kebedom Mengistu uma cópia do seu jornal, Hadush Zemen (“Novo Século”), uma publicação destinada a ajudar a comunidade de refugiados e imigrantes eritreus em Israel – uns 60 mil
© Maxim Reider | The Christian Science Monitor

Em busca de um sonho, quando fugiu da Eritreia natal, Kebedom Mengistu não imaginava que teria de atravessar um inferno até chegar à “Terra Prometida”. Israel não era o destino original de uma penosa viagem por quatro países, mas ele deu a volta ao destino.

Não tem dinheiro que o sustente, mas obteve fundos para criar um jornal, Hadush Zemen (“New Century”/”Novo Século”), de modo a ajudar os imigrantes ilegais, como ele, a sobreviver num ambiente hostil.

A jornada começou em 2005. Kebedom, que calcula a sua idade em “cerca de 35 anos”, saiu de casa sem informar a mulher, “de 30-31”, e as filhas, de 9 e 6. “Tinha de partir discretamente”, contou-nos, numa entrevista por telefone, a partir de Telavive, onde trabalha, 9 horas por dia, como empregado de limpeza num escritório de advogados. “Não podia justificar-me porque ninguém estaria a salvo”, justifica Kebedom, exprimindo-se num inglês quase perfeito, umas das línguas não oficiais da sua pátria.

Várias organizações de direitos humanos acusam a Eritreia, Estado do Corno de África que se separou da Etiópia em 1991, após uma guerra de três décadas (1961-1991) e um total de 100 mil a 150 mil mortos, de ser “uma das maiores ditaduras do mundo”.

Num dos seus relatórios, a Amnistia Internacional denuncia: “O Governo [do Presidente Isaias Afewerki] restringe de forma severa todas as liberdades; não permite partidos da oposição, jornalismo independente, organizações da sociedade civil e grupos religiosos ‘não registados’. Há milhares de prisioneiros políticos em condições medonhas, muitos deles em penitenciárias secretas onde são torturados.

O serviço militar é obrigatório – os desertores, os que fogem ao recrutamento e as suas famílias são ameaçados, encarcerados e maltratados. Permanece em vigor a política de ‘atirar a matar’ sobre quem tentar fugir pelas fronteiras.”

“Saí de casa só com a roupa que tinha no corpo e sem dinheiro nos bolsos”, relata Kebedom.
“Sabia que enfrentaria uma situação de vida ou de morte. Se fosse apanhado na fronteira, os guardas roubavam-me e matavam-me. Decidi arriscar, e ganhei. Não sei se me arrependo ou não desta decisão; sinceramente, tenho medo de me lembrar dela.”

Primeiro sozinho e depois com companheiros de infortúnio que ia encontrando, o antigo contabilista Kebedom Mengistu percorreu a Etiópia, o Sudão e a Líbia.

“Pelo caminho, fomos contactados por contrabandistas que nos prometiam assistência em troca de uma comissão”, detalha, narrando a sua história com um tom de voz paradoxalmente alegre. “No deserto do Sara, porque a carrinha que nos transportava avariou, fiquei 19 dias sem comer ou beber”.

Na Líbia, que deveria ser a etapa final, esperou dois anos para entrar em Itália: o sonho. Teve de o abandonar depois de um acordo entre Silvio Berlusconi e Muammar Kadhafi que interditava o acesso de refugiados. Seguiu então para a península do Sinai, no Egipto. Daqui, arriscou ir para Israel, em 2010. “Fiquei três meses num centro de detenção em Beersheba [a maior cidade no deserto do Negev, no Sul]”.

Quando o deixaram sair, com a etiqueta de “ilegal”, Kebedom instalou-se na estação central de autocarros de Telavive. “Não tinha um tostão – a viagem custou-me cerca de 10 mil dólares, que a minha família fazia chegar a amigos eritreus nos países por onde eu passava; só 3000 foram para os contrabandistas que me conduziram da Líbia para o Egipto.”

“Dormi quase duas semanas nas ruas. Arranjei diversos empregos sem futuro, mas o dinheiro não era suficiente. Ainda hoje, partilho uma casa de quatro assoalhadas com outros 15 imigrantes. Telefono à minha mulher duas vezes por mês. Ela e as filhas tiveram de mudar de povoação, para não serem perseguidas. Estão bem, mas não creio que possam juntar-se a mim.”

O jornal Hadush Zemen (“New Century”/”Novo Século”), criado por Kebedom Mengistu, para ajudar os imigrantes ilegais, como ele, a sobreviver num ambiente hostil
© Vanessa O’Brien

Foi nesta precariedade que uma antiga jornalista do diário Ha’aretz, Lily Galili, agora a colaborar com o canal de televisão e site noticioso I24News, interveio em seu auxílio. “Uma aluna na faculdade onde dou aulas alertou-me para o projecto de Kebedom de criar um jornal de apoio à sua comunidade – uns 60 mil imigrantes”, explica durante a entrevista telefónica, feita a partir da sua casa, com o imigrante eritreu a seu lado.

“Contactei o New Israel Fund, que aprovou o projecto por ter um objectivo colectivo e não individual. O financiamento obtido [não especificado] permite comprar o papel, imprimir e distribuir o Hadush Zemen.”

Lily orienta Kebedom na escolha dos temas das oito páginas do jornal e contribuiu com uma em hebraico. Há também uma em inglês, sendo as restantes em tigrinyan (vão para a gráfica em formato PDF de forma a serem reconhecidas), língua oficial da Eritreia a par com o árabe. Os 3000 exemplares por mês são oferecidos por Kebedom a outros imigrantes que os vendem para se alimentarem – iniciativa semelhante à revista Cais, em Portugal.

Ao fim de 9 horas de trabalho diário, o cristão ortodoxo Kebedom dedica-se à escrita não remunerada. Sob a orientação da judia Lily, dá conselhos sobre como interagir numa sociedade com valores muito diferentes dos seus. “O choque é por vezes tão profundo que causa violência no seio dos casais”, refere Lily.

Um problema mais grave: muitos dos imigrantes habitam em zonas de judeus muito religiosos e também de classes baixas. “Não é fácil aceitar imigrantes que vêm ocupar postos de trabalho que escasseiam, e essa rejeição também existe da parte dos árabes de cidadania israelita e dos palestinianos – até para mim, é um dilema moral: como ajudar todos sem discriminar?”

Perante incapacidade de encontrarem empregos, face à crescente agressividade dos vizinhos e frustrados por verem desfeita a esperança de esta ser uma escala temporária a caminho da Europa, os imigrantes “recorrem cada vez mais à criminalidade, geralmente como forma de sobrevivência.”

Lily tenta sensibilizar os israelitas para serem compassivos com os africanos, “inicialmente bem recebidos até começarem a afluir em grandes números”. Ao contrário de outros “activistas de esquerda”, ela recusa classificar a atitude de Israel como “racista”.

Isso “é ser hipócrita, pois até os imigrantes reconhecem a complexidade do nosso sistema”. Ainda recentemente, realça, “chegou aqui um africano com seis balas nas costas, disparadas por gangsters no Sinai. Israel pode cometer muitos erros, mas este Estado não constitui um perigo físico”.

Kebedom anui: “Não é uma questão de racismo, nem de branco e negro, mas sim de diferentes culturas e religiões que é preciso harmonizar. Sinto que a minha mensagem está a passar. A próxima fase é fazer chegar o Hadush Zemen à Etiópia, à Eritreia e ao Sudão. Quero informar as pessoas antes de partirem, alertá-las para a tragédia que as pode esperar; para que o exílio que procuram não se transforme numa desilusão.”

A jornalista Lily Galili decidiu ajudar Kebedom quando. uma aluna na faculdade onde agora dá aulas a alertou para o sonho do eritreu. Contactou o New Israel Fund, que aprovou o projecto por ter um objectivo colectivo e não individual
© Cortesia de | Courtesy of Lily Galili

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 30 de Dezembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 3, 2012

O Twitter do Papa e as mudanças na Cúria Romana

As “cartas secretas de Bento XVI”  – ou o escândalo Vatileaks – levaram à prisão do mordomo do Pontífice, mas Gianluigi Nuzzi, o jornalista italiano que as divulgou , não sente remorsos nem medo. O autor de Sua Santidade garante que este livro “documenta a perspectiva da verdade” sobre escândalos que atingem a Igreja Católica. Dois vaticanistas, Sandro Magister e Bernard Lecomte, criticam uma obra  “sem investigação e nada de novo”. (Ler mais | Read more…)

Em 12 de Dezembro de 2012, o agora Papa emérito Bento XVI inaugurou oficialmente a conta @pontifex no microblog Twitter, com uma benção aos católicos que foi reproduzida em sete línguas. Começou por ter 700 mil seguidores. O seu sucessor, o jesuíta Francisco, tinha em 2 de Julho de 2013 um total de sete milhões de “fiéis”, agora em nove idiomas, segundo dados da Santa Sé. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 12 de Dezembro de 2012, o agora Papa emérito Bento XVI inaugurou oficialmente a conta @pontifex no microblog Twitter, com uma benção aos católicos que foi reproduzida em sete línguas. Começou por ter 700 mil seguidores. O seu sucessor, o jesuíta Francisco, tinha em 2 de Julho de 2013 um total de sete milhões de “fiéis”, agora em nove idiomas, segundo dados da Santa Sé
© Reuters

Depois de descodificar centenas de documentos que, num assumido “golpe de sorte”, lhe foram parar às mãos, há “um mistério” que Gianluigi Nuzzi ainda não resolveu.

“Sei que, no Verão passado, a pretexto de férias particulares em Roma, Mark Zuckerberg foi recebido em audiência pelo Papa ou pelo seu ‘primeiro-ministro’, o cardeal Tarcisio Bertone [espécie e primeiro-ministro do Vaticano]; gostava muito de saber de que falaram”, diz-me o autor de Sua Santidade, As Cartas Secretas de Bento XVI (Ed. Bertrand).

A avaliar pela recente decisão do chefe da Igreja Católica de abrir conta no Twitter, “não terá havido acordo para uma página no Facebook”.

Seja como for, a presença no Twitter “é mais do que um gesto simbólico e pode ser um sinal de mudança” na Cúria Romana, observa Nuzzi, que com a ajuda das suas “quase 20 fontes” – uma delas, Paolo Gabriele, o mordomo do Papa, detido e sob interrogatório –, se tornou no protagonista de uma fuga de informações, “inéditas e explosivas”, designada por Vatileaks.

“Espero que Gabriele, católico devoto e pai de três filhos, também possa contar ao mundo a razão por que me deu as cartas secretas; relatar o modo como foi detido. Não se prende um inocente porque tirou fotocópias. Ele não é pedófilo, então por que está preso se nem os pedófilos estão presos no Vaticano?”

“Não posso negar que foi uma das minhas fontes, porque me identificou como interlocutor. Não me responsabilizo por ele estar encarcerado. É um homem de coragem absoluta. Tem fé e mantém o equilíbrio emocional. Sabíamos que ambos corríamos riscos, mas não carrego culpa.”

[Paolo Gabriele seria libertado em Julho de 2013, tendo ficado inicialmente sob detenção domiciliária. A primeira audiência do seu julgamento foi em 29 de Setembro. Condenaram-no a três anos de cadeia, reduzidos a 18 meses “devido a atenuantes”. Incorria numa pena maior, até 30 anos. Bento XVI indultou-o, a 22 de Dezembro, após receber uma carta em que o mordomo lhe pedia perdão por ter traído a sua confiança.

O camareiro de 42 anos era como “uma sombra, atento a cada necessidade, a cada suspiro”, que seguia o Papa em todas as viagens pelo mundo, segundo Nuzzi.

Conhecia bem a rotina diária no terceiro piso do Palácio Apostólico: Bento XVI acorda todas as manhãs pelas 6h30-6h45, celebra eucaristia na capela privada às 7h30; reza o Breviário às 8h00; e às 8h30 toma um pequeno-almoço de “leite, café descafeínado, pão com manteiga e marmelada e, raramente, uma fatia de bolo”.

Paolo Gabriele (na foto, com o guarda-chuva), o camareiro de Bento XVI, era como “uma sombra, atento a cada necessidade, a cada suspiro”, que seguia o Papa em todas as viagens pelo mundo. Conhecia bem a rotina diária no terceiro piso do Palácio Apostólico. Pediu perdão por trair confiança e foi indultado em 2013
© The New York Times

Paolo Gabriele era membro da restrita “família pontifícia”, juntamente com Carmela, Loredana, Cristina e Rosella (membros do movimento Comunhão e Libertação), e ainda dois secretários particulares: o presbítero alemão Georg Gänswein e o escriturário maltês Alfred Xuereb.

O estilo de vida do actual Papa “é quase monástico”, observa Nuzzi. À hora de almoço, Paulo VI privilegiaria a companhia dos seus secretários.

João Paulo II preferia, supostamente, convidar bispos e cardeais. Bento XVI partilhará as refeições, na cozinha, com quem lhe prepara “pratos simples”, como penne com salmão e sopa de legumes.

A sua sobremesa favorita, “por ele [que é ‘quase abstémio’] apelidada jocosamente de ‘virgens bêbedas’, assemelha-se a um muffin macio, aromatizado com algumas gotas de álcool para doces.”

Uma vez que Gabriele o servia à mesa, pode esperar-se perdão do Papa? “No Vaticano, poucas linhas são direitas; tudo é altos e baixos”, comenta Nuzzi. “O que é mais importante – manter Paolo detido para que ninguém o imite?”

“O que acontecerá, se ele for libertado*  Poderá fazer mais revelações? Todas as tentativas para o desacreditar perderam legitimidade. Até a alegação de que ele tinha na sua posse uma pepita de ouro foi rejeitada por um magistrado como prova em tribunal.”

Se havia uma pepita de ouro estaria nos envelopes que Gabriele, com o nome de código “Maria”, entregava pessoalmente, “em dias fixos e lugares escolhidos antecipadamente”, porque não podia comunicar por correio, telefone ou e-mail.

“Confinada ao interior de alguns palácios romanos, sem grande comunicação entre os diferentes dicastérios, a Cidade do Vaticano é uma instituição pequena: 44 hectares, 2300 pessoas”, observa Bernard Lecomte, especialista em questões da Igreja Católica Romana. “É lógico que este pequeno mundo suscite rumores, invejas e conspirações de corredores”
© Tony Gentile | Reuters | American Magazine

Os efeitos de uma “situação incandescente” começaram a sentir-se no final de Janeiro deste ano, relembra Nuzzi, quando dedicou “um episódio do programa Gli Intoccabili [“Os Intocáveis”], no canal La7, a monsenhor Carlo Maria Viganò, o secretário-geral da Governadoria incumbido de sanear o orçamento e de pôr em ordem os cálculos dos aprovisionamentos e fornecimentos”.

Viganò terá sido “vítima de uma conjura, que culminou com o seu afastamento forçado para núncio apostólico em Washington”, no relato de Nuzzi. Aflui, depois, “uma série de artigos com outros documentos internos da Santa Sé, publicados nos diários Libero e Il Fatto Quotodiano”.

Estava garantido o sucesso mundial de um livro que, exclusivamente, na versão portuguesa, tem inscrita, na capa, “Como o Vaticano vendeu a alma”, uma “frase choque para, naturalmente, atrair a atenção do leitor”, orgulha-se o autor, “sem pudor”.

Voltando aos tweets [activados em 12-12-12] de Bento XVI, eles mudam, pelo menos uma parte da descrição que Nuzzi faz do “escritório simples” de Joseph Ratzinger, sucessor de João Paulo II como 265º pontífice do catolicismo: “Dois telefones fixos e nenhum telemóvel. (….) As tecnologias avançadas da Casa Branca encontram-se ausentes.” (Pág. 21)

À medida que ia recebendo os segredos guardados na “escrivaninha papal”, o que mais o surpreendeu, confessa o jornalista que já escrevera Vaticano SA (bestseller em 2009), é “a incapacidade e a indisponibilidade de o Santo Padre levar a cabo uma purificação” da Igreja.

Porque ele, argumenta, não é apenas “um teólogo dedicado ao estudo dos textos sagrados” mas também “acompanha detalhadamente espinhosas questões temporais”, como os “escândalos que vão sendo geridos e ocultados”.

O Papa, insiste Nuzzi, “é vítima de uma ‘lei de Estado’ que hipoteca qualquer mudança”. Esta avaliação contradiz, porém, o modo como concluiu a entrevista.

“Sim, claro que a Cúria Romana pode ser reformada. Já estão em marcha processos de transparência. O meu livro saiu em Maio, em Itália; em Setembro, Ettore Gotti Tedeschi, presidente do IOR [Instituto para as Obras Religiosas], banco do Vaticano, foi demitido por ter violado leis contra o branqueamento de capitais.”

“E a transparência irá ser acelerada, devido à crise financeira e à crise das vocações. É preciso que a democracia chegue aos palácios sagrados.”

“Sim, claro que a Cúria Romana pode ser reformada.”, fiz Gianluigi Nuzzi. “A transparência irá ser acelerada, devido à crise financeira e à crise das vocações. É preciso que a democracia chegue aos palácios sagrados.” (Na foto, o Papa Bento XVI despede-se dos cardeais, no Vaticano, prometendo “reverência incondicional e obediência” ao seu sucessor, Francisco)
© L’Osservatore Romano

“Não escrevi um livro contra a Igreja, até porque não sou anticlerical, mas sim uma denúncia forte da hipocrisia desconhecida, da ambição de poder das batinas longas”, sublinha Nuzzi.

“Limitei-me a documentar histórias não conhecidas, mas é certo que [Tarcisio] Bertone é um problema. Sabíamos algumas coisas, sobre rivalidades na Cúria, corrupção e escândalos de pedofilia, mas faltava-nos a perspectiva da verdade; como os factos realmente ocorreram”.

As cartas publicadas por Nuzzi acusam Bertone [que ocupa a função de camerlengo – um dos dois funcionários principais da Cúria Romana que não perde o seu cargo enquanto o papado está vacante e que, durante este período, administra as finanças e as propriedades da Igreja], 77 anos, de ter ordenado a transferência de Carlo Maria Viganò para a nunciatura em Washington quando este procedeu a uma “limpeza nas contas”, transformando um “défice superior a 7,8 milhões de euros, em 2009, num excedente de 34,4 milhões” no ano seguinte.

Acusam-no também de ter difamado Dino Boffo, ex-director do jornal Avvenire, numa campanha insinuando que este crítico de Berlusconi era suspeito de “assédio homossexual”; ou de, numa alegada tentativa de expandir autoridade para além das muralhas do Vaticano e consolidar a sua base em Milão, de ter demitido o titânico antigo arcebispo da cidade, cardeal Dionigi Tettamanzi, da direcção do Instituto Toniolo, fundação que controla a Universidade Católica.

Bertone, que em 2002, então monsenhor, desvalorizava a pedofilia como “uma doença que apenas atinge uma ínfima minoria de sacerdotes”, é ainda criticado por ter “ignorado os abusos sexuais e psicológicos” exercidos pelo fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel, que morreu em 2008; ou por passar “demasiado tempo em viagens no estrangeiro”, negligenciando tarefas diárias.

É-lhe imputada a “péssima gestão” de casos como os de Richard Williamson, bispo do cisma lefbreviano e negacionista do Holocausto a quem foi levantada a excomunhão, e do sacerdote ultraconservador Gerhard Wagner que teve de renunciar ao cargo de bispo auxiliar de Linz depois de, na Áustria, ter qualificado o furacão Katrina de “castigo divino pela imoralidade dos habitantes de Nova Orleães”.

Em 2009, o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, terá ido visitar o Papa para lhe “implorar” que afastasse Bertone – em vão.

Secretário de Estado de Bento XVI, o cardeal Tarcisio Bertone (à dir.), tem estado envolvido em vários escândalos e tem sido uma fonte de desestabilização no pontificado de Francisco
© Daniel Dal Zennaro | DPA

Em 2011, foi a vez de o padre espanhol Adolfo Nicolás, Superior-Geral vitalício da Companhia de Jesus, reencaminhar para Bento XVI correspondência de “grandes e influentes benfeitores”, denunciando “o modo como o medo começa a ser paralisante no Vaticano e como o dinheiro guia certos pastores”.

“Sei que quando um leigo aponta faltas, a reacção da Igreja é a de se unir para defender quem é criticado”, afirma Nuzzi, reconhecendo que, apesar do “forte declínio do poder político de Bertone”, Sua Santidade “pode atrasar” o seu afastamento, que alguns davam como provável.

“O Papa não mudará o ‘primeiro-ministro’ porque isso seria lançar uma sombra sobre o seu próprio pontificado”, justifica o autor que, no livro (pág. 17), é mais explícito: “É sabido que pôr em causa, mesmo apenas em termos hipotéticos, a frágil aliança com o secretário de Estado seria um caminho sem retorno.”

Nuzzi assegura que não tencionou “interferir nas escolhas” do que descreve como “um microscópico Estado de 44km2 onde não se cometem crimes, não se prende ninguém e se invocam concordatas para garantir imunidade”.

No entanto, logo no prefácio da sua obra, condescende que “o projecto de Bento XVI de diminuir [a influência da comunidade cardinalícia italiana num próximo conclave] opõe-se ao de Bertone”.

Durante a entrevista, é implacável com o secretário de Estado e a sua Ordem dos Salesianos. “Bertone é uma espécie de Sílvio Berlusconi”, o ex-primeiro-ministro que agora promete voltar, após a demissão de Mario Monti, “o mais filo-vaticanista de todos os chefes de governo de Itália”.

À pergunta sobre se, ao expor os “pecados de Roma”, não está a contribuir deliberadamente para enfraquecer os que desejam ver de novo um italiano no “trono de Pedro”, a resposta de Nuzzi é esta: “Não foi o meu objectivo, mas desejo, sinceramente, que o próximo Papa não seja italiano.”

“Preferia que fosse um chinês, porque daria um forte impulso à pequena comunidade de católicos na China e, talvez, acelerasse a democratização do país, como aconteceu na Europa de Leste com a escolha do polaco Woytila!” [Seria o argentino Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco.]

Para o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, o livro de Nuzzi “assume o carácter de acto criminoso”. O Papa já criou uma comissão de inquérito para averiguar como os dossiers confidenciais, compilados por “secretários fidelíssimos”, saíram do seu escritório. “

“A mesquinhez da Cúria”, diz o vaticanista Sandro Magister, “não é comparável, em gravidade, com o escândalo da pedofilia” que continua a abalar a Igreja Católica
© Gerry Melendez | thestate.com

Tenho algum medo, como toda a gente”, confessa Nuzzi, que descreve os serviços de informação e segurança do Vaticano como os “melhores e mais eficazes do mundo”, graças à agência de espionagem israelita Mossad.

“Não quero, contudo, ser conhecido pelos meus medos, mas pelo que escrevo. O medo é uma forma de marketing. Ser jornalista de investigação é como limpar vidros num arranha-céus. Se foi essa a minha escolha, não me posso queixar nem armar-me em vítima.”

O francês Bernard Lecomte, autor de  Les secrets du Vatican, leu Sua Santidade e esta é a sua análise: ”Nuzzi fez o que tinha de fazer”, disse-nos, numa entrevista, por e-mail, o antigo editor nos jornais La Croix e L’Express.

“Ele obteve informações inéditas sobre o Papa e a Cúria Romana, e é normal que as publicasse. Que tenha procurado escrever uma obra sensacionalista não é escandaloso.”

“Que tente ‘resguardar’ a sua principal fonte também é legítimo. O seu livro não é uma invenção nem uma manipulação. A única crítica que se lhe pode fazer é a de que não se aprende grande coisa sobre temas que já conhecíamos.”

“Há poucas informações verdadeiramente novas ou extraordinárias”. Além disso, “desconfiemos das ‘fofocas’ que animam habitualmente a Cúria Romana.”

Embora igualmente crítico de Bertone, a quem acusa de ser “mau governante que embaraça o Papa”, o vaticanista Lecomte contextualiza:

– “Se a Igreja Católica tem 1200 milhões de fiéis, a Cidade do Vaticano é uma instituição pequena: 44 hectares, 2300 pessoas. Está confinada ao interior de alguns palácios romanos, sem grande comunicação entre os diferentes dicastérios.”

“É lógico que este pequeno mundo suscite rumores, invejas e conspirações de corredores. E como o Vaticano pratica habitualmente o secretismo, isso suscita fantasmas. A imprensa italiana, especialista em ‘revelações’ assombrosas, lança abundantemente rumores sem fundamento, um pouco como a imprensa britânica com a família real de Inglaterra.”

Em 2 de Maio de 2013, pela primeira vez desde que abdicou, alegando “forte cansaço”, o agora Papa emérito Bento XVI deixou a sua residência de Verão, em Castel Gandolfo, 25 quilómetros de Roma, e regressou ao Vaticano. Aqui, onde chegou de helicóptero, ficará a residir, a poucos metros do seu sucessor, o Papa Francisco (Na foto, o actual e o anterior pontífices encontram-se com um grupo de cardeais, em 19 de Novembro de 2016)
© abacapress.com

“Ninguém imagina o Papa a ser pressionado a demitir-se, nem a fazer campanha por este ou aquele sucessor!”, frisa o também blogger Lecomte, condecorado com a Legião de Honra francesa, aludindo a pressões nesse sentido em alguns media italianos.

[Num gesto que surpreendeu o mundo, Bento XVI renunciou ao cargo em 11 de Fevereiro de 2013 – o primeiro Sumo Pontífice a abdicar desde Gregório XII, em 1415, durante o Primeiro Grande Cisma do Ocidente.]

“O Vaticano não é um parlamento nem um partido político. É certo que as manobras no interior da Cúria visam, prioritariamente, Tarcisio Bertone, que não é uma figura com apoio unânime. O Papa, contudo, está acima de todas essas pequenas operações, que ele deplora e lhe dão problemas, os quais, aos 85 anos, ele bem dispensaria.”

“Hoje, ninguém pode prever se o próximo Papa será italiano ou não: uma avaliação dos conclaves desde há dois séculos mostra que é impossível fazer prognósticos!”

Lecomte é da opinião de que “as pequenas manobras na Cúria Romana” interessam sobretudo aos italianos. No entanto, “elas contribuem, seguramente, para degradar a imagem da Igreja, embora o seu impacto seja muito menor do que, por exemplo, o escândalo de pedofilia que lança a suspeita sobre 400 mil padres de todo o mundo.”

Abalada pelos últimos acontecimentos que atingiram Bento XVI, como o caso Williamson ou a futura beatificação de Pio XII [cujo pontificado, de presumível silêncio perante a Shoah, é mal visto pelos judeus] a Cúria tenta, desde há dois anos, modernizar a comunicação do Vaticano.”

“Vejam como o Papa se pôs a twittar. Mas uma instituição com dois milénios, por vezes arcaica, é muito difícil de reformar.”

Um outro vaticanista, o italiano Sandro Magister, é muito mais duro com Gianluigi Nuzzi, numa entrevista que me deu, também por e-mail:

– “O interesse de Sua Santidade está apenas nos documentos publicados, todos autênticos, não na ‘narrativa’ em que [o autor] os envolve; uma ‘narrativa’ confusa e largamente controversa, escrita em moldes romanescos.”

“Nuzzi não chegou aos documentos através de uma investigação especial; recebeu-os, pura e simplesmente”, realça o jornalista da revista L’Espresso, formado em Teologia, Filosofia e História, autor de dois livros, La politica vaticana e l’Italia 1943-1978 e Chiesa extraparlamentare – Il trionfo del pulpito. Quanto ao conteúdo dos documentos, a substância já era conhecida de muitos.”

Francisco, o sucessor de Bento XVI, tem enfrentado por muitos críticos internos nos seus esforços para mudar a Igreja Católica
© pri.org

Quanto ao timing de publicação, foi definido “pela fonte, que decidia ‘quando’ entregaria as cartas. O comportamento e a mentalidade de Paolo Gabriele foram esclarecidos nos interrogatórios a que foi submetido antes e durante o processo.”

“Desde 2006 que ele subtraía e acumulava documentos reservados, e pode admitir-se que terá escolhido entregar uma parte deles a Nuzzi depois de ter visto o sucesso do seu anterior livro, com documentos relativos ao IOR.”

Para Magister, que, de 2008 a 2010, supervisionou a publicação de três volumes com as homilias de Bento XVI correspondentes a esses anos litúrgicos, “Gabriele nada tem de heróico; pelo contrário, revelou-se uma personalidade frágil e com grandes fantasias (‘inspirado pelo Espírito Santo’ para ‘purificar’ a Igreja).

O processo judiciário também indicou que à sua volta gravitavam personagens da Cúria Romana, como Ingrid Stampa [antiga governanta do Papa que traduziu para italiano um novo livro de Bento XVI sobre Jesus] ou o cardeal Paolo Sardi [pró-patrono da Ordem de Malta], que poderão ter alimentado as suas próprias fantasias.”

“É difícil captar nas malhas deste processo os comportamentos de tais personagens”, constata o consultor do canal televisivo da Conferência Episcopal Italiana. “Estes comportamentos são o reflexo do estado de confusão geral na Cúria Romana, dividida entre ambições pessoais e lutas de poder a vários níveis.”

“Bertone é a principal vítima da confusão, mas também por motivos objectivos: sendo o ‘primeiro-ministro’, é sobre ele que, inevitavelmente, recai a responsabilidade de uma ausência de governance. Seja como for, ele ainda está no seu posto: a publicação das cartas secretas não apressou e só atrasou o tempo da sua substituição.”

“A mesquinhez da Cúria”, prossegue Sandro Magister, “não é comparável, em gravidade, com o escândalo da pedofilia. As cartas publicadas por Nuzzi são quase incompreensíveis para um leitor comum e, em grande parte, tornam-se maçadoras. Se não fosse o romance ‘estilo Dan Brown’ que as envolveu não apaixonariam ninguém.”

“O ‘sucesso’ constante das viagens de Bento XVI, mesmo nos países aparentemente mais hostis, é a prova de que a autoridade moral deste Papa não foi arranhada pelos litígios dos prelados da Cúria.”

“Este Papa está muito avançado na idade, e seleccionou drasticamente as coisas a fazer e a não fazer. Todas as suas energias são dedicadas à crise da fé e não, seguramente, à reforma da Cúria.”

No final da entrevista, quando lhe perguntamos se, como católico, o que desvendou abalou a sua fé, Nuzzi incomoda-se: “Não gosto que se atribuam rótulos a quem escreve. Quando leio um livro não me interessa se foi escrito por um branco ou por um preto; um homossexual ou heterossexual – só quero ter a certeza de que é verdadeiro.”

“Estou convencido de que, depois de lerem o meu livro, os cristãos não se afastarão da Igreja, apenas serão mais exigentes.”

Sua Santidade “é uma denúncia da hipocrisia desconhecida, da ambição de poder das batinas longas”, diz Gianluigi Nuzzi (na foto, durante a entrevista que me deu em Lisboa). “Os cristãos não se afastarão da Igreja depois de lerem o meu livro, apenas serão mais exigentes”
© Nuno Ferreira Santos

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 18 de Dezembro de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 18, 2012

Portugal e a “melhor cerveja do Médio Oriente”

Os Khoury, palestinianos cristãos, investiram tudo para celebrizarem a Taybeh. Garantem a pureza do produto cumprindo uma lei alemã de 1516, e cativam muçulmanos com “um sabor sem álcool”. Porque o negócio prospera, lamentam a perda de contrato com uma vidreira da Marinha Grande. (Ler mais | Read more…)

Nadim Khoury considera a sua cerveja Taybeh um “projecto de coexistência”: vendida com e sem álcool, vai ao encontro de todos: judeus, cristãos e muçulmanos na Palestina e em Israel
© eugeniogrosso.com

Em 1994, Nadim Khoury deixou a América, onde viveu 15 anos, para lançar um projecto inédito em Taybeh, sua terra-natal, na Cisjordânia.

Sem financiamento externo, penhorou bens para comprar máquinas de fabricação ao Canadá, malte à Bélgica, lúpulo à Alemanha e à República Checa, levedura à Grã-Bretanha e garrafas a Portugal.

Hoje, mantém todos os parceiros iniciais, excepto o fornecedor Santos Barosa-Vidros S.A., da Marinha Grande. “A ocupação israelita arruinou esta colaboração”, lamenta o palestiniano co-fundador da única microcervejeira do Médio Oriente.

“Importávamos de Portugal pelo menos dez contentores por ano, cada um com 75 mil garrafas até que, em 2002, a mercadoria ficou retida, “para inspecção”, nas alfândegas de Israel durante 58 dias”, contou-nos Khoury, numa entrevista, por telefone.

“As autoridades argumentaram que a carga não obedecia às regras do International Standard Institute [que certifica a qualidade e segurança dos produtos]. Fiquei atónito, porque nunca tive problemas antes e, sobretudo, porque as garrafas da Santos Barosa estão entre as melhores do mundo.”

“Os custos da retenção dos contentores e a multa que tive de pagar não compensaram o valor das garrafas”, queixou-se Khoury, sem dar números. “Percebi que o objectivo implícito era forçarem-me a negociar com empresas israelitas – o que faço agora mas, garanto, que a qualidade é muito inferior e o preço superior”

“As garrafas Santos Barosa eram de uma grande resistência; nunca se danificavam ou partiam durante o processo de esterilização, enchimento e rotulagem”, salientou.

Khoury revelou ainda que, “há cerca de três meses” [Setembro de 2012], tentou reatar a ligação à Santos Barosa. “Telefonei para o senhor Inácio Lourenço [responsável pelos serviços de exportação], mas ele informou-me que já não fabricam as garrafas que nos vendiam”, lastimou-se.

Contactado um responsável da empresa que, de modo indelicado, recusou adiantar pormenores e ser identificado, condescendeu que eu o citasse apenas no seguinte: “Para nós, era um negócio irrisório, totalmente insignificante – dois contentores por ano, num total de 150 mil garrafas.”

“Negócio é negócio; não vejo que tenha sido uma perda quando falamos de um grupo, como o nosso, que fabrica 1100 milhões de garrafas por ano, num total de 130 milhões de euros”, vincou.

Certo é que a referência às garrafas portuguesas constava de todas as reportagens internacionais ou blogues de viajantes centrados na cerveja de Taybeh, hoje célebre mundialmente, graças a um acordo de franchising com a Alemanha, que a exporta para a Suécia, Bélgica, Holanda, Reino Unido e Japão.

A Taybeh Brewing Company é um negócio de família. Nasceu em 1994, um ano após a assinatura dos Acordos de Oslo Peace quando David (à esquerda) e o irmão Nadim aceitaram o conselho do pai de ambos, Canaan David Khoury (1926-2002; ao centro) para regressarem à aldeia-natal de Taybeh, depois de viverem mais de 20 anos nos EUA. @Taybeh Brewing Company

A Taybeh Brewing Company é um negócio de família. Nasceu em 1994, um ano após a assinatura dos Acordos de Oslo Peace quando David (esq.) e o irmão Nadim (à direita) aceitaram o conselho do pai de ambos, Canaan David Khoury (1926-2002; ao centro) para regressarem à aldeia-natal de Taybeh, depois de viverem mais de 20 anos nos EUA
© Taybeh Brewing Company

Esses elogios desapareceram quando, há uma década, a Santos Barosa deixou de exportar para a aldeia 100% cristã, cercada por colonatos judaicos, a 15 quilómetros de Jerusalém.

“A cerveja foi inventada pelos faraós do Egipto e faz parte do Médio Oriente desde há 5000 anos”, sublinha Khoury, notando que, quando quis fundar a Taybeh Brewing Company, com o seu pai, Canaan, e o seu irmão, David, nenhuma empresa em Israel manifestou interesse em se associar a eles.

Agora, com uma produção anual de 6000 hectolitros por ano, 10% dos quais reservados para exportação, o projecto dos Khoury já é mais atraente.

A iniciativa dos Khoury foi posta em marcha um ano depois de Israel e a OLP terem assinado os Acordos de Oslo em que se reconheciam mutuamente.

Nadim, que deixara Taybeh a 2 de Fevereiro de 1979, para estudar nos EUA (tem um mestrado em Administração de Empresas pela Universidade de Boston), voltou à aldeia onde nasceu na companhia de David, que emigrara dois anos antes.

Como todos os palestinianos no estrangeiro, eram obrigados por Israel a regressar esporadicamente a casa para renovarem os documentos de identidade, sob risco de perderem direitos de residência.

Gerentes de uma rede de bares na América (Nadim especializou-se também em técnicas cervejeiras), voltavam sempre com novidades, maravilhando parentes e amigos. “Um dia, o pai disse: “Vamos fazer história!”

E assim aconteceu. “Tínhamos esperança que a paz estava à vista e queríamos contribuir para desenvolver a economia da Palestina”, vangloriou-se Nadim.

“O nosso pai exigiu que pedíssemos autorização prévia a Yasser Arafat. Fomos ter com o presidente [da Autoridade Palestiniana], que era muçulmano mas respeitava os cristãos, que nos disse só isto: ‘Que Deus vos abençoe!’”

“O investimento necessário totalizava 1,2 milhões de dólares, mas não tínhamos essa quantia, e nenhum banco nos concedia empréstimo. Juntámos poupanças e hipotecámos propriedades para concretizar o sonho.”

“A nossa primeira cerveja foi produzida em 1 de Agosto de 1999”, continua Nadim, assumindo-se, com uma gargalhada, “quase tão famoso como Jesus Cristo”, que pernoitou com os discípulos em Taybeh, quando este povoado, hoje com 1400 habitantes, se chamava Efraim, uma das tribos do antigo Reino de Israel.

Todos os Khoury se dedicam ao negócio da família. Na foto Canaam (à esq.), licenciado em Engenharia em Harvard, e Madees, a sua irmã, filhos de Nadim
© Luna Alqamar | vice.com

Embora a cerveja Taybeh tenha, em árabe, o significado de “deliciosa”, reza uma lenda que o seu nome se deve a Saladino, o herói do Islão que, no século XII, derrotou os Cruzados. Ao visitar Efraim, o conquistador muçulmano achou os residentes cristãos tão hospitaleiros que os terá chamado de taybeen (bons e generosos).

“Foi sempre nossa intenção fazer uma cerveja caseira e não industrial”, explica Nadim, realçando que, para uma fermentação pura, não usa aditivos nem pasteuriza os “cincos sabores” que agora comercializa: a branca dourada (que foi a primeira, 5% de álcool); a preta (para celebrar o “o novo milénio da Terra Santa”, e seguindo uma receita dos monges da Idade Média que a bebiam para suportar o jejum); âmbar (clara e escura), light (de baixo teor alcoólico, menos de 4%); e sem álcool – com um rótulo verde.

Vulgarmente designada como “cerveja do Hamas”, foi lançada quando o movimento islamista ganhou as eleições legislativas em 2006. Embora o Hamas governe a Faixa de Gaza após ter derrotado a rival Fatah, a Taybeh não pode entrar naquele território porque Israel não autoriza.

Se o arranque do projecto parecia auspicioso, tudo se tornou mais difícil para os Khoury em 2002, com a segunda Intifada, devido à multiplicidade de atentados suicidas cometidos por bombistas palestinianos. “Israel ergueu mais 650 checkpoints na Cisjordânia, dificultando o livre movimento”, precisou Nadim.

Um trabalhador na fábrica dos Khoury que agora produz vários tipos de cerveja, uma delas halal (sem álcool, permitida pela lei islâmica)
© Gali Tibbon | The Guardian

“O turismo diminuiu drasticamente; a nossa produção desceu, para menos de 10% da capacidade; e fomos obrigados a despedir funcionários (entretanto readmitidos) – somos 20 no total, incluindo os cinco membros da nossa família”, adiantou.

“Se vamos falar dos problemas da ocupação, um artigo não chega, terá de ser um livro”, brinca o mestre-cervejeiro.

“Repare, nós só usamos água pura, mas temos restrições que nos forçam a alterar o horário semanal de produção, ao contrário dos colonos, que a podem desperdiçar.”

“Nas exportações para o estrangeiro, porque a Palestina não tem um porto ou um aeroporto, as nossas cargas ficam retidas durante quase dois meses em Israel.”

“Transportar o produto até Jerusalém, por exemplo, demora em média 15 a 20 minutos mas, para não arriscarmos a que, nos postos militares, nos abram as caixas e barris, para verificarem se têm bombas, porque a cerveja fica intragável quando exposta ao sol, temos de usar caminhos alternativos, o que dura horas infindáveis.”

“Acontece chegarmos aos hotéis que nos fazem encomendas, e são dezenas só em Israel, e já estarem fechados. Tempo perdido.”

Na aldeia de Taybeh, os Khoury já não produzem e exportam apenas cerveja, mas também vinho da marca Nadim, o nome de Nadim, o proprietário e co-fundador
© Abbas Momani | AFP

A situação na Cisjordânia melhorou ligeiramente com o governo do independente Salam Fayyad [antigo primeiro-ministro], admite Nadim, que se entusiasma com outro projecto que patrocina: a venda de azeite biológico. Durante a Intifada [de 2000], devido ao cerco israelita, muitos jovens não conseguiam pagar as propinas.”

Um padre local propôs que as famílias financiassem os estudos vendendo azeite, já que a aldeia é famosa também pelas suas muitas oliveiras. Como a igreja ficou com um grande excedente, os Khoury tomaram a seu cargo a comercialização do Peace Oil.

“Tenho orgulho no que conseguimos”, exulta Nadim. “Não voltaremos a deixar a nossa terra. O maior problema é a ocupação.”

“Exigimos ser tratados como seres humanos. Temos de chegar a uma solução de dois Estados. Israel pode construir quantos colonatos judaicos quiser, mas Taybeh, onde a minha família vive há 600 anos, continuará a ser a Palestina.”

Um sinal de esperança, segundo Nadim, foi a Oktoberfest que, em Outubro de 2012, os Khoury organizaram mais uma vez – o evento repete-se anualmente desde 2005. “Com música do Sri Lanka, rap palestiniano e danças da Baviera, juntámos europeus, japoneses – e até israelitas.”

“Não contabilizei o que vendemos, porque oferecíamos três copos da “melhor cerveja do Médio Oriente” por cada um que era comprado. O nosso lema é Drink Palestinian; Taste the Revolution [“Beba palestiniano; saboreie a revolução”]. Foi uma grande festa!”

A primeira cerveja Taybeh foi produzida em 1999. Os Khoury importavam anualmente de Portugal pelo menos 10 contentores, cada um com 75.000 garrafas, compradas à empresa Santos Barosa
© Gali Tibbon | The Guardian

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 9 de Dezembro de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 9, 2012

23 milhões de taiwaneses esperam empresas portuguesas

Em 2013, Portugal e Taiwan esperam criar um business council que promova o negócio bilateral. A ilha Formosa quer servir de ponte para a entrada na “grande China” e no resto da Ásia. (Ler mais | Read more…)

Portugal e a sua comida, ilustração da taiwanesa Leslie Wang
© iwang.myportfolio.com

Dos 27 Estados-membros da União Europeia, 18 já abriram centros económicos e culturais em Taipé, mas Portugal não é um deles, embora Taiwan – a 18.ª maior economia do mundo – demonstre interesse em ser “ponte para as empresas portuguesas entrarem no mercado da ‘Grande China'”.

Há mais de 15 anos que os taiwaneses investem na China continental – fomos, aliás, os primeiros a entrar”, diz-nos o representante do Centro Económico e Cultural de Taipé em Lisboa, Jiang-gueng Her.

“Porque partilhamos tradições, cultura e língua [com a República Popular da China/RPC], podemos também partilhar as nossas experiências com empresas portuguesas: A melhor via é a das joint-ventures, porque oferecem mais vantagens e permitem maior eficácia do que investimentos isolados”.

Esta é também a opinião que ouvimos de Jorge Pais, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa – Câmara de Comércio e Indústria (AIP-CCI), que espera(va), no primeiro trimestre de 2013 , assinar um protocolo para criar o Business Council Portugal-Taiwan. O objectivo é “dinamizar oportunidades de negócio” entre os dois países.

“Se as empresas portuguesas entrarem no mercado taiwanês agregadas, em conjunto, estarão mais apoiadas, já que muitas delas não têm dimensão internacional nem estrutura técnica ou de gestão – basta dizer que, de um total de 1,5 milhões, não chegam a 40 mil as que possuem capacidade de exportação.”

“A agregação das empresas, ou os chamados clusters”,  precisa Jorge Pais, “agiliza o marketing, a promoção directa, diminui os custos e permite uma maior penetração nos mercados.”

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“Os taiwaneses tomaram a iniciativa de apresentar um memorando de entendimento, que já foi aprovado pela AIP. O business council deverá avançar depois da visita a Lisboa de uma missão empresarial de Taipé.”

“O que Taiwan, um país democrático e ocidentalizado, nos pode oferecer é uma entrada na China em condições mais favoráveis, mas também noutros mercados, como o da Coreia e o de Singapura.”

“Portugal, por seu lado, pode facilitar a entrada de Taiwan no Brasil e na América Latina, em Angola e Moçambique, além de uma consolidação na União Europeia.”

Já em 1992, ano da abertura da representação da Formosa em Lisboa, o jornal Taipei Today destacava que a República da China (ROC/nome oficial de Taiwan) olhava para Portugal como “um valioso parceiro, apesar da fragilidade da sua economia, porque detém o mesmo peso nas tomadas de decisão na UE”.

Além disso, o objectivo de apostar na Europa, primeiro na do Norte e Ocidental e depois na do Sul, justifica-se porque, aqui, “os exportadores taiwaneses estão menos vulneráveis às flutuações do grande mercado norte-americano.”

Para Jorge Pais, “não é garantido que um acordo de comércio livre entre Taiwan e a UE consagre melhores soluções para Portugal”. Porque, a nível bilateral, os negócios terão de ser conduzidos sector a sector. “Taiwan, com uma escala inferior à da China continental, pode adaptar-se às empresas portuguesas, porque o seu tecido empresarial também é de pequena e média dimensão.”

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Nos contactos com vista ao business council, o que Jorge Pais constatou foi “um desconhecimento” dos empresários de ambos os países em relação aos mercados de cada um. Há sectores que oferecem potencialidades como o automóvel e o agro-alimentar (vinhos – sendo o do Porto “a jóia da coroa” -, azeitonas, compotas e azeites), o design e a moda, têxteis e calçado.”

Uma ideia a explorar, porque os taiwaneses “têm poder de compra”, é a da “abertura, em locais de impacto social, de lojas que possam ter produtos gourmet, combinados com exposições de arte e de música de Portugal”.

business council poderá ajudar a equilibrar uma balança comercial que Cecilia Ruo-Fei Liou, da Oficina Economica Y Cultural de Taipei em Madrid, descreve como de “défice crónico” a desfavor de Portugal.

Entre Janeiro e Agosto de 2012, e em comparação com igual período de 2011, as exportações de Portugal para Taiwan aumentaram 17%, mas ficaram-se pelos 47,3 milhões de dólares, enquanto as importações diminuíram 9%, mas totalizaram 127,3 milhões.

“É certo que as relações comerciais se ressentiram da crise financeira mundial”, reconheceu Jiang-gueng Her, que teria o estatuto de embaixador se Portugal reconhecesse Taiwan, “mas há um espaço enorme a preencher em termos de laços económicos, culturais e turísticos, sobretudo a nível do sector privado”.

No campo da educação, Her destaca as bolsas oferecidas pelo seu Governo a estudantes (meio ano para aprender Mandarim, um ano para licenciatura, dois anos para mestrado e quatro para doutoramento) e professores/investigadores (um ano).

A Universidade Nacional de Taiwan, por exemplo, tem um acordo de intercâmbio com a Universidade do Porto e a Universidade Nacional de Chengchi está ligada à Universidade Católica.

Sobre o turismo, não obstante as quase ou mais de 24 horas de distância que separam os dois países, Her lembra que a isenção de vistos de/para Taiwan-UE elevou o número de “taiwaneses com dinheiro” que viajam para a Europa – mais de 239 mil, em 2011 (os europeus que visitaram Taiwan, no mesmo ano, foram mais de 212 mil).

Por isso, o representante de Taiwan em Lisboa recomenda que Espanha “possa ser usada como alternativa”, se a justificação (a mais plausível, segundo Jorge Pais) para a não-abertura de um centro em Taipé seja “apenas a escassez de recursos” em tempo de crise.

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O maior investimento de Taiwan em Portugal é o da Asus, quarto maior fabricante mundial de computadores, que entrou aqui como multinacional em Agosto de 2008 e, segundo o responsável pelo marketing, “lidera o mercado nacional de placas-mãe (MB) e de vídeo, media streamers, netbooks e notebooks“.

Esta informação é confirmada pela Gartner, consultora norte-americana de referência sobre tecnologias de informação, que adianta: a nível global, entre Julho e Setembro deste ano, os lucros da Asus aumentaram 43% face ao período homólogo de 2011, para 229,1 milhões de dólares, sobretudo, graças às vendas de portáteis (cinco milhões de unidades).

Nenhum das perguntas que fizemos sobre os números do investimento da Asus em Portugal obtiveram resposta, sob pretexto de confidencialidade.

Porquê o secretismo? Será mera política interna do grupo fundado em 1990 ou porque Portugal teme o castigo de Pequim e, por isso, “é mais chinês do que os chineses”, como notou um antigo diplomata taiwanês em Lisboa?

Jorge Pais responde: “Não se pode ignorar o peso da História e algumas visões redutoras no passado, mas Portugal não deve ter medo de desagradar à China, sobretudo porque desapareceu o sentimento de rejeição da RPC face a Taiwan.”

“Há um potencial de desenvolvimento que não podemos ignorar: Taiwan pode vir a ofuscar o Japão nos seus laços com o Ocidente e Portugal precisa de ter uma estratégia.”

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A secretária económica de Taiwan em Madrid, Cecilia Liou, reafirmando que um centro de Lisboa em Taipé expandiria negócios portugueses “para toda a Ásia”, aponta os sectores que classificou como estratégicos e com enorme potencial:

– “A inovação tecnológica, as energias renováveis, o ambiente, o turismo, a pesca, os têxteis, matérias-primas e materiais de inovação.”

Actualmente, segundo a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), entre os produtos que Taiwan mais compra a Portugal estão, designadamente, máquinas e aparelhos (sobretudo os usados na fabricação de esferas/plaquetas de dispositivos de visualização de ecrã plano); e entre os que mais vende estão circuitos integrados ou impressos até triciclos e esfregões de aço.

“Quando há vontade, há sempre um caminho”, enfatiza Jiang-gueng Her. E o caminho “está mais facilitado” desde que, em 2008, Ma Ying-jeou, do partido nacionalista Kuomintang, foi eleito (e reeleito em 2012) Presidente da República. Ao afastar do poder os independentistas, Ma aproximou-se de Pequim, diminuindo as tensões no estreito da Formosa.

“Já assinámos 18 acordos com a China, o mais importante dos quais foi o Acordo-Quadro de Cooperação Económica, firmado em Junho de 2010, prevendo a isenção de taxas para 539 produtos”, conclui Jiang.

Foi um “acordo histórico”, marco na reconciliação entre dois rivais divididos por uma guerra civil há seis décadas.

© iwang.myportfolio.com

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Dezembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 2, 2012

Uma carta de amor ao berço da civilização

O grupo de teatro belga tg STAN montou um espectáculo inspirado em obras de grandes escritores e músicos, para nos oferecer The Tangible. O ponto de partida é o triângulo Palestina-Bagdad-Beirute, mas ultrapassa as suas fronteiras. Frank Vercruyssen, co-fundador da companhia, deu-me uma entrevista, em que explica a importância de reflectir sobre a perda pessoal e colectiva. (Ler mais | Read more…)

© stan.be

Falta meia hora para Frank Vercruyssen entrar em palco, em Toulouse (França), quando estabelecemos contacto através do Facebook.

A urgência em conseguir uma entrevista faz com que troquemos o seu nome por “Drank” (Bêbado). Ele não se ofende. Troca mensagens, divertido, e deixa transparecer entusiasmo com a estreia do seu espectáculo The Tangible no Teatro Maria Matos, em Lisboa, no dia 11 [de Dezembro de 2010]..

Vercruyssen tem sido descrito como “a consciência política” do colectivo de teatro belga tg STAN, e The Tangible é a prova de como ele exprime essa consciência perante as suas audiências, num cadenciado diálogo entre dança e palavra, imagem e som (mas também silêncio).

Não é por acaso que este espectáculo – com três bailarinas e três actores – é uma combinação dos textos insubmissos do romancista e ensaísta britânico John Berger, da escritora e artista visual libanesa Etel Adnan e dos poetas palestinianos Mahmoud Darwish, Samih al-Qasim e Mourid Barghouti. E ainda uma mistura das músicas de Béla Bartók, Brahim El Belkani, Johnny Cash, John Coltrane, Raed Yassin, György Ligeti, entre muitos outros.

Onde é que Vercruyssen foi buscar o título The Tangible? Ao livro de Berger De A para X: Cartas de Amor [Livraria Civilização Editora, 2009], a história de A (A’ida), uma farmacêutica, e X, o namorado insurrecto, preso devido às suas actividades políticas.

Berger, um dos pensadores mais influentes dos nossos dias, situou a sua narrativa em Suse, cidade imaginária; o actor flamengo do tg STAN transferiu-a para locais anónimos do Médio Oriente fotografados por Ruanne Abou-Rahme (um dos quatro cenógrafos) e Yazan Al Khalili.

“A minha primeira escolha”, diz-me Vercruyssen “foi The Fertile Crescent [O Crescente Fértil] e a segunda Amnesia of the Tangible (Amnésia do Tangível), só que achei este título ainda demasiado pesado, e assim ficou The Tangible (O Tangível)”.

Para justificar por que considerou este título “mais apropriado”, citou Berger quando comenta a perda de património após uma vaga de bombardeamentos: “No dia seguinte, acompanhei-o aos seus escombros. Havia vários epicentros, onde tudo havia sido reduzido a pó, com pequenos fragmentos dispersos em seu redor.”

“À excepção de alguns tubos e alguns cabos, não restava nenhum objecto reconhecível. Tudo o que precisou de uma vida inteira para ser construído desvaneceu-se sem deixar vestígios, e perdeu o seu nome. Uma amnésia não de espírito, mas do tangível.”

The Tangible, adianta o co-fundador do grupo nascido há 20 anos em Antuérpia, “é um espectáculo bastante abstracto, pessoal e emocional – não é um documentário nem um ponto de exclamação. Centra-se sobretudo na perda pessoal e na perda para a humanidade, como um todo.”

“Por isso, embora o triângulo Palestina-Bagdad-Beirute seja o ponto de partida, não pretendemos oferecer soluções nem transmitir mensagens claras sobre qualquer questão. É um documento pessoal do colectivo que criou o show.”

“O facto de a dança desempenhar aqui um papel tão importante também indica, de certo modo, a razão por que quisemos ir para além das palavras.”

© stan.be

Se a dança é poderosa, as palavras são igualmente pujantes, resultado de uma “recolha feita durante dois anos” de textos dos escritores acima mencionados.

“Tu olhaste-me de alto a baixo, e murmuraste ‘obrigado’. Por quanto tempo vais manter essa venda nos olhos?”, diz/escreve Aïda ao namorado (que também compõe cartas de amor, mas não as envia).

Em The Tangible, podemos acompanhar esta correspondência em inglês, francês e árabe, como tem sido hábito numa companhia com repertório multilingue.

“A esperança e a espera são completamente diferentes uma da outra. No início, pensava que a esperança era a espera de uma coisa longínqua. Estava enganada. A espera vem do corpo, enquanto a esperança vem da alma.”

O namorado segreda: “Adormeci durante duas horas. Coloquei tampões nos ouvidos e adormeci depois da informação. Não noticiaram a minha morte.”

No palco, ora vazio e silencioso, ora iluminado por fotos de prédios esventrados em guerras e sonorizado com o que parece ser tiros ou explosões, as três bailarinas disputam o espaço. Prostram-se, rastejam, levantam-se, contorcem-se, confrontam-se, entrelaçam-se, separam-se, tocam-se, caminham, correm.

“Não sei se tenho uma mensagem – isso cabe à audiência decidir”, esclarece Vercruyssen. “Não me interessa ser um pregador, isso é uma certeza. Por isso é que vinco o facto de este espectáculo ser pessoal, um depoimento emocional.”

“É claro que as questões formuladas são muito directas, mas este não é um espectáculo sobre a Palestina ou Beirute no sentido estrito. Esses conflitos são um ponto de partida para começar a falar sobre coisas…”

O projecto inicial, declara Vercruyssen, era escrever “uma carta de amor a al Hilal al Khaseeb”, o Crescente Fértil, que engloba a antiga Mesopotâmia (hoje Iraque), o Líbano e a Palestina – “o berço da civilização”. A ideia acabou por ser “ultrapassada pela realidade” e abandonada.

“Para mim, pessoalmente”, acentua o flamengo do tg STAN, “esta região e a sua história têm sido uma parte importante da minha vida; e estou convencido de que as consequências da situação ali (seja Bagdad ou Palestina) serão inúmeras, para todos nós.”

“Não quero dizer à audiência como deve interpretar o que vê”, prossegue. “Nós, os seis, (as três bailarinas e os três actores), trabalhámos em todos os aspectos do espectáculo. As palavras são o culminar de um longo processo de selecção e eliminação de textos. As imagens e a música desenvolveram-se segundo o mesmo espírito.”

“O movimento é definido, obviamente, pelas bailarinas. Não houve, da minha parte, uma intervenção como coreógrafo. A relação delas com o conteúdo dos textos é trabalhada no seu tempo próprio. É um acto de equilíbrio entre o explícito e o abstracto.”

© stan.be

The Tangible começou a ser ensaiado em Janeiro deste ano. Por esta altura, Vercruyssen tinha “um pilha enorme de textos”. Dessa pilha que existia ainda durante os ensaios, ele concebeu o cenário.

Foi nessa altura, também, que decidiu que o fill rouge do texto seria “From A do X”, de John Berger. “Uma rapariga escreve ao seu namorado na prisão. Ele não responde, mas ‘escreve por detrás das letras’ pensamentos, ideias, etc. Este princípio deu-nos a oportunidade de nos prender a essas letras outros textos, poesia…”

Ouvimos Aïda: “Abre-se um diagrama que tu desenhaste sobre uma página em branco. Sob o desenho, tu recopiaste à mão o nome de peças diferentes. E, de imediato, compreendo que estou prestes a ler um poema de amor. Motor de lançamento e excitação/gerador-câmara de combustão/turbina. Um poema de amor. E o namorado entoa: “I just want to see you as the sun goes down. No more than that”.

As fotos e a música, nota Vercruyssen, foram igualmente sujeitos a um processo de selecção por parte do colectivo. “Tivemos de encontrar a harmonia perfeita, para termos a certeza de que os diferentes aspectos do espectáculo deixariam espaço para outros, para que o show não se ‘engolisse a si próprio’ com exageros.”

Frank Vercruyssen @ okradio-photo

Frank Vercruyssen
© okradio-photo

Não foi fácil montar este espectáculo. Vercruyssen queria envolver “Eid (de Nablus)”, na Cisjordânia ocupada por Israel) e “Rojina (de Damasco), capital da Síria, mas um “problema logístico” deitou por terra as suas intenções.

“Em 2008, eles disseram que sim ao projecto, tendo a escola que frequentam em Damasco assegurado que conseguiriam concluir os seus estudos depois desta tournée.

Em Novembro, poucas semanas antes da estreia prevista para França, o director que dera garantias mudou de ideias – eles perderiam os seus diplomas se continuassem a ‘tour’ connosco. Fui obrigado a substituí-los. Trabalharíamos muito bem juntos se este director megalomaníaco não tivesse abusado dos seus poderes.”

Em todo o caso, Vercruyssen deixa bem claro que está “muito feliz” com os substitutos – Boutaïna Elfekkak, de Rabat (Marrocos) e Mokhallad Rasem, de Bagdad (Iraque) -, que se mostraram disponíveis para trabalhar em conjunto”, partilhando o palco com ele e com Eve-Chems de Brouwer (actriz franco-egípcia), Tale Dolven, Liz Kinoshita, Federica Porello.

A entrevista chega ao fim.

“Tenho de me ir embora agora. O show começa dentro de uma hora”, escreve Vercruyssen. Dia 11 [de Dezembro de 2010] , combinámos encontrar-nos no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

O espectáculo – com três bailarinas e três actores – foi uma combinação dos textos insubmissos do romancista e ensaísta britânico John Berger, da escritora e artista visual libanesa Etel Adnan (foto 1 ) e dos poetas palestinianos Mahmoud Darwish (foto 2), Samih al-Qasim e Mourid Barghouti. E ainda uma mistura das músicas de Béla Bartók, Brahim El Belkani, Johnny Cash, John Coltrane, Raed Yassin, György Ligeti, entre muitos outros

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em Dezembro de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2010