Imigrante ilegal e director de um jornal

Kebedom Mengistu é um dos 60 mil eritreus que procuram asilo em Israel. De manhã faz limpezas. À noite, escreve textos para ajudar os que, como ele, correm risco de deportação – e de vida (Ler mais | Read more…)

Kebedom - Photo 1

Nas mãos de Kebedom Mengistu uma cópia do seu jornal, Hadush Zemen (“Novo Século”), uma publicação destinada a ajudar a comunidade de refugiados e imigrantes eritreus em Israel – uns 60 mil
© Maxim Reider | The Christian Science Monitor

Em busca de um sonho, quando fugiu da Eritreia natal, Kebedom Mengistu não imaginava que teria de atravessar um inferno até chegar à “Terra Prometida”. Israel não era o destino original de uma penosa viagem por quatro países, mas ele deu a volta ao destino.

Não tem dinheiro que o sustente, mas obteve fundos para criar um jornal, Hadush Zemen (“New Century”/”Novo Século”), de modo a ajudar os imigrantes ilegais, como ele, a sobreviver num ambiente hostil.

A jornada começou em 2005. Kebedom, que calcula a sua idade em “cerca de 35 anos”, saiu de casa sem informar a mulher, “de 30-31”, e as filhas, de 9 e 6. “Tinha de partir discretamente”, contou-nos, numa entrevista por telefone, a partir de Telavive, onde trabalha, 9 horas por dia, como empregado de limpeza num escritório de advogados. “Não podia justificar-me porque ninguém estaria a salvo”, justifica Kebedom, exprimindo-se num inglês quase perfeito, umas das línguas não oficiais da sua pátria.

Várias organizações de direitos humanos acusam a Eritreia, Estado do Corno de África que se separou da Etiópia em 1991, após uma guerra de três décadas (1961-1991) e um total de 100 mil a 150 mil mortos, de ser “uma das maiores ditaduras do mundo”.

Num dos seus relatórios, a Amnistia Internacional denuncia: “O Governo [do Presidente Isaias Afewerki] restringe de forma severa todas as liberdades; não permite partidos da oposição, jornalismo independente, organizações da sociedade civil e grupos religiosos ‘não registados’. Há milhares de prisioneiros políticos em condições medonhas, muitos deles em penitenciárias secretas onde são torturados.

O serviço militar é obrigatório – os desertores, os que fogem ao recrutamento e as suas famílias são ameaçados, encarcerados e maltratados. Permanece em vigor a política de ‘atirar a matar’ sobre quem tentar fugir pelas fronteiras.”

“Saí de casa só com a roupa que tinha no corpo e sem dinheiro nos bolsos”, relata Kebedom.
“Sabia que enfrentaria uma situação de vida ou de morte. Se fosse apanhado na fronteira, os guardas roubavam-me e matavam-me. Decidi arriscar, e ganhei. Não sei se me arrependo ou não desta decisão; sinceramente, tenho medo de me lembrar dela.”

Primeiro sozinho e depois com companheiros de infortúnio que ia encontrando, o antigo contabilista Kebedom Mengistu percorreu a Etiópia, o Sudão e a Líbia.

“Pelo caminho, fomos contactados por contrabandistas que nos prometiam assistência em troca de uma comissão”, detalha, narrando a sua história com um tom de voz paradoxalmente alegre. “No deserto do Sara, porque a carrinha que nos transportava avariou, fiquei 19 dias sem comer ou beber”.

Na Líbia, que deveria ser a etapa final, esperou dois anos para entrar em Itália: o sonho. Teve de o abandonar depois de um acordo entre Silvio Berlusconi e Muammar Khadafi que interditava o acesso de refugiados. Seguiu então para a península do Sinai, no Egipto. Daqui, arriscou ir para Israel, em 2010. “Fiquei três meses num centro de detenção em Beersheba [a maior cidade no deserto do Negev, no Sul]”.

Quando o deixaram sair, com a etiqueta de “ilegal”, Kebedom instalou-se na estação central de autocarros de Telavive. “Não tinha um tostão – a viagem custou-me cerca de 10 mil dólares, que a minha família fazia chegar a amigos eritreus nos países por onde eu passava; só 3000 foram para os contrabandistas que me conduziram da Líbia para o Egipto.”

“Dormi quase duas semanas nas ruas. Arranjei diversos empregos sem futuro, mas o dinheiro não era suficiente. Ainda hoje, partilho uma casa de quatro assoalhadas com outros 15 imigrantes. Telefono à minha mulher duas vezes por mês. Ela e as filhas tiveram de mudar de povoação, para não serem perseguidas. Estão bem, mas não creio que possam juntar-se a mim.”

A jornalista Lily Galili decidiu ajudar Kebedom quando. uma aluna na faculdade onde agora dá aulas a alertou para o sonho do eritreu. Contactou o New Israel Fund, que aprovou o projecto por ter um objectivo colectivo e não individual. @ Lily Galili

A jornalista Lily Galili decidiu ajudar Kebedom quando. uma aluna na faculdade onde agora dá aulas a alertou para o sonho do eritreu. Contactou o New Israel Fund, que aprovou o projecto por ter um objectivo colectivo e não individual
© Lily Galili

Foi nesta precariedade que uma antiga jornalista do diário Ha’aretz, Lily Galili, agora a colaborar com o canal de televisão e site noticioso I24News, interveio em seu auxílio. “Uma aluna na faculdade onde dou aulas alertou-me para o projecto de Kebedom de criar um jornal de apoio à sua comunidade – uns 60 mil imigrantes”, explica durante a entrevista telefónica, feita a partir da sua casa, com o imigrante eritreu a seu lado.

“Contactei o New Israel Fund, que aprovou o projecto por ter um objectivo colectivo e não individual. O financiamento obtido [não especificado] permite comprar o papel, imprimir e distribuir o Hadush Zemen.”

Lily orienta Kebedom na escolha dos temas das oito páginas do jornal e contribuiu com uma em hebraico. Há também uma em inglês, sendo as restantes em tigrinyan (vão para a gráfica em formato PDF de forma a serem reconhecidas), língua oficial da Eritreia a par com o árabe. Os 3000 exemplares por mês são oferecidos por Kebedom a outros imigrantes que os vendem para se alimentarem – iniciativa semelhante à revista Cais, em Portugal.

Ao fim de 9 horas de trabalho diário, o cristão ortodoxo Kebedom dedica-se à escrita não remunerada. Sob a orientação da judia Lily, dá conselhos sobre como interagir numa sociedade com valores muito diferentes dos seus. “O choque é por vezes tão profundo que causa violência no seio dos casais”, refere Lily.

Um problema mais grave: muitos dos imigrantes habitam em zonas de judeus muito religiosos e também de classes baixas. “Não é fácil aceitar imigrantes que vêm ocupar postos de trabalho que escasseiam, e essa rejeição também existe da parte dos árabes de cidadania israelita e dos palestinianos – até para mim, é um dilema moral: como ajudar todos sem discriminar?”

Perante incapacidade de encontrarem empregos, face à crescente agressividade dos vizinhos e frustrados por verem desfeita a esperança de esta ser uma escala temporária a caminho da Europa, os imigrantes “recorrem cada vez mais à criminalidade, geralmente como forma de sobrevivência.”

Lily tenta sensibilizar os israelitas para serem compassivos com os africanos, “inicialmente bem recebidos até começarem a afluir em grandes números”. Ao contrário de outros “activistas de esquerda”, ela recusa classificar a atitude de Israel como “racista”.

Isso “é ser hipócrita, pois até os imigrantes reconhecem a complexidade do nosso sistema”. Ainda recentemente, realça, “chegou aqui um africano com seis balas nas costas, disparadas por gangsters no Sinai. Israel pode cometer muitos erros, mas este Estado não constitui um perigo físico”.

Kebedom anui: “Não é uma questão de racismo, nem de branco e negro, mas sim de diferentes culturas e religiões que é preciso harmonizar. Sinto que a minha mensagem está a passar. A próxima fase é fazer chegar o Hadush Zemen à Etiópia, à Eritreia e ao Sudão. Quero informar as pessoas antes de partirem, alertá-las para a tragédia que as pode esperar; para que o exílio que procuram não se transforme numa desilusão.”

O jornal Hadush Zemen ("New Century"/"Novo Século"), criado por Kebedom Mengistu, para ajudar os imigrantes ilegais, como ele, a sobreviver num ambiente hostil. @

O jornal Hadush Zemen (“New Century”/”Novo Século”), criado por Kebedom Mengistu, para ajudar os imigrantes ilegais, como ele, a sobreviver num ambiente hostil
© Vanessa O’Brien

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 30 de Dezembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 3, 2012

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