O Twitter do Papa e as mudanças na Cúria Romana

As “cartas secretas de Bento XVI”  – ou o escândalo Vatileaks – levaram à prisão do mordomo do Pontífice, mas Gianluigi Nuzzi, o jornalista italiano que as divulgou , não sente remorsos nem medo. O autor de Sua Santidade garante que este livro “documenta a perspectiva da verdade” sobre escândalos que atingem a Igreja Católica. Dois vaticanistas, Sandro Magister e Bernard Lecomte, criticam uma obra  “sem investigação e nada de novo”. (Ler mais | Read more…)

Em 12 de Dezembro de 2012, o agora Papa emérito Bento XVI inaugurou oficialmente a conta @pontifex no microblog Twitter, com uma benção aos católicos que foi reproduzida em sete línguas. Começou por ter 700 mil seguidores. O seu sucessor, o jesuíta Francisco, tinha em 2 de Julho de 2013 um total de sete milhões de “fiéis”, agora em nove idiomas, segundo dados da Santa Sé. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 12 de Dezembro de 2012, o agora Papa emérito Bento XVI inaugurou oficialmente a conta @pontifex no microblog Twitter, com uma benção aos católicos que foi reproduzida em sete línguas. Começou por ter 700 mil seguidores. O seu sucessor, o jesuíta Francisco, tinha em 2 de Julho de 2013 um total de sete milhões de “fiéis”, agora em nove idiomas, segundo dados da Santa Sé
© Reuters

Depois de descodificar centenas de documentos que, num assumido “golpe de sorte”, lhe foram parar às mãos, há “um mistério” que Gianluigi Nuzzi ainda não resolveu. “Sei que, no Verão passado, a pretexto de férias particulares em Roma, Mark Zuckerberg foi recebido em audiência pelo Papa ou pelo seu ‘primeiro-ministro’, o cardeal Tarcisio Bertone; gostava muito de saber de que falaram”, disse-nos o autor de Sua Santidade, As Cartas Secretas de Bento XVI (Ed. Bertrand).

A avaliar pela recente decisão do chefe da Igreja Católica de abrir conta no Twitter, “não terá havido acordo para uma página no Facebook”.

Seja como for, a presença no Twitter “é mais do que um gesto simbólico e pode ser um sinal de mudança” na Cúria Romana, observa Nuzzi, que com a ajuda das suas “quase 20 fontes” – uma delas, Paolo Gabriele, o mordomo do Papa, detido e sob interrogatório –, se tornou no protagonista de uma fuga de informações, “inéditas e explosivas”, designada por Vatileaks.

“Espero que Gabriele, católico devoto e pai de três filhos, também possa contar ao mundo a razão por que me deu as cartas secretas; relatar o modo como foi detido. Não se prende um inocente porque tirou fotocópias. Ele não é pedófilo, então por que está preso se nem os pedófilos estão presos no Vaticano?”

“Não posso negar que foi uma das minhas fontes, porque me identificou como interlocutor. Não me responsabilizo por ele estar encarcerado. É um homem de coragem absoluta. Tem fé e mantém o equilíbrio emocional. Sabíamos que ambos corríamos riscos, mas não carrego culpa.”

O camareiro de 42 anos era como “uma sombra, atento a cada necessidade, a cada suspiro”, que seguia o Papa em todas as viagens pelo mundo, segundo Nuzzi.

Conhecia bem a rotina diária no terceiro piso do Palácio Apostólico: Bento XVI acorda todas as manhãs pelas 6h30-6h45, celebra eucaristia na capela privada às 7h30; reza o Breviário às 8h00; e às 8h30 toma um pequeno-almoço de “leite, café descafeínado, pão com manteiga e marmelada e, raramente, uma fatia de bolo”.

Paolo Gabriele era membro da restrita “família pontifícia”, juntamente com Carmela, Loredana, Cristina e Rosella (membros do movimento Comunhão e Libertação), e ainda dois secretários particulares: o presbítero alemão Georg Gänswein e o escriturário maltês Alfred Xuereb.

O estilo de vida do actual Papa “é quase monástico”, observa Nuzzi. À hora de almoço, Paulo VI privilegiaria a companhia dos seus secretários. João Paulo II preferia, supostamente, convidar bispos e cardeais. Bento XVI partilhará as refeições, na cozinha, com quem lhe prepara “pratos simples”, como penne com salmão e sopa de legumes.

A sua sobremesa favorita, “por ele [que é ‘quase abstémio’] apelidada jocosamente de ‘virgens bêbedas’, assemelha-se a um muffin macio, aromatizado com algumas gotas de álcool para doces.”

Uma vez que Gabriele o servia à mesa, pode esperar-se perdão do Papa? “No Vaticano, poucas linhas são direitas; tudo é altos e baixos”, comenta Nuzzi. “O que é mais importante – manter Paolo detido para que ninguém o imite? O que acontecerá, se ele for libertado? Poderá fazer mais revelações? Todas as tentativas para o desacreditar perderam legitimidade. Até a alegação de que ele tinha na sua posse uma pepita de ouro foi rejeitada por um magistrado como prova em tribunal.”

Paolo Gabriele, o camareiro de Bento XVI, era como “uma sombra, atento a cada necessidade, a cada suspiro”, que seguia o Papa em todas as viagens pelo mundo. Conhecia bem a rotina diária no terceiro piso do Palácio Apostólico. Pediu perdão por trair confiança e foi indultado em 2013. @DR (Direitos Reservados |All Rights Reserved)

Paolo Gabriele, o camareiro de Bento XVI, era como “uma sombra, atento a cada necessidade, a cada suspiro”, que seguia o Papa em todas as viagens pelo mundo. Conhecia bem a rotina diária no terceiro piso do Palácio Apostólico. Pediu perdão por trair confiança e foi indultado em 2013
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[Paolo Gabriele foi libertado em Julho de 2012, tendo ficado inicialmente sob detenção domiciliária. A primeira audiência do seu julgamento foi em 29 de Setembro. Condenaram-no a três anos de cadeia, reduzidos a 18 meses “devido a atenuantes”. Incorria numa pena maior, até 30 anos. Bento XVI indultou-o, a 22 de Dezembro, após receber uma carta em que o mordomo lhe pedia perdão por ter traído a sua confiança. Segundo o jornal italiano ‘La Repubblica’, o ‘Vatileaks’ terá contribuído para que o chefe da Igreja Católica renunciasse ao cargo em Fevereiro de 2013.] 

Se havia uma pepita de ouro estaria nos envelopes que Gabriele, com o nome de código “Maria”, entregava pessoalmente, “em dias fixos e lugares escolhidos antecipadamente”, porque não podia comunicar por correio, telefone ou e-mail.

Os efeitos de uma “situação incandescente” começaram a sentir-se no final de Janeiro deste ano, relembra Nuzzi, quando dedicou “um episódio do programa Gli Intoccabili [“Os Intocáveis”], no canal La7, a monsenhor Carlo Maria Viganò, o secretário-geral da Governadoria incumbido de sanear o orçamento e de pôr em ordem os cálculos dos aprovisionamentos e fornecimentos”.

Viganò terá sido “vítima de uma conjura, que culminou com o seu afastamento forçado para núncio apostólico em Washington”, no relato de Nuzzi. Aflui, depois, “uma série de artigos com outros documentos internos da Santa Sé, publicados nos diários Libero e Il Fatto Quotodiano”. Estava garantido o sucesso mundial de um livro que, exclusivamente, na versão portuguesa, tem inscrita, na capa, “Como o Vaticano vendeu a alma”, uma “frase choque para, naturalmente, atrair a atenção do leitor”, orgulha-se o autor, “sem pudor”.

Voltando aos tweets [activados em 12-12-12] de Bento XVI, eles mudam, pelo menos uma parte da descrição que Nuzzi faz do “escritório simples” de Joseph Ratzinger, sucessor de João Paulo II como 265º pontífice do catolicismo: “Dois telefones fixos e nenhum telemóvel. (….) As tecnologias avançadas da Casa Branca encontram-se ausentes.” (Pág. 21)

À medida que ia recebendo os segredos guardados na “escrivaninha papal”, o que mais o surpreendeu, confessa o jornalista que já escrevera Vaticano SA (bestseller em 2009), é “a incapacidade e a indisponibilidade de o Santo Padre levar a cabo uma purificação” da Igreja. Porque ele, argumenta, não é apenas “um teólogo dedicado ao estudo dos textos sagrados” mas também “acompanha detalhadamente espinhosas questões temporais”, como os “escândalos que vão sendo geridos e ocultados”.

O Papa, insiste Nuzzi, “é vítima de uma ‘lei de Estado’ que hipoteca qualquer mudança”. Esta avaliação contradiz, porém, o modo como concluiu a entrevista. “Sim, claro que a Cúria Romana pode ser reformada. Já estão em marcha processos de transparência. O meu livro saiu em Maio, em Itália; em Setembro, Ettore Gotti Tedeschi, presidente do IOR [Instituto para as Obras Religiosas], banco do Vaticano, foi demitido por ter violado leis contra o branqueamento de capitais. E a transparência irá ser acelerada, devido à crise financeira e à crise das vocações. É preciso que a democracia chegue aos palácios sagrados.”

mmmmNum hotel de Lisboa, durante a entrevista. “Sua Santidade é uma denúncia forte da hipocrisia desconhecida, da ambição de poder das batinas longas. Os cristãos não se afastarão da Igreja depois de lerem o meu livro, apenas serão mais exigentes”, sublinha Gianluigi Nuzzi. © Nuno Ferreira Santos

Num hotel de Lisboa, durante a entrevista. “Sua Santidade é uma denúncia forte da hipocrisia desconhecida, da ambição de poder das batinas longas. Os cristãos não se afastarão da Igreja depois de lerem o meu livro, apenas serão mais exigentes”, sublinha Gianluigi Nuzzi
© Nuno Ferreira Santos

“Não escrevi um livro contra a Igreja, até porque não sou anticlerical, mas sim uma denúncia forte da hipocrisia desconhecida, da ambição de poder das batinas longas”, sublinha Nuzzi. “Limitei-me a documentar histórias não conhecidas, mas é certo que Bertone é um problema. Sabíamos algumas coisas, sobre rivalidades na Cúria, corrupção e escândalos de pedofilia, mas faltava-nos a perspectiva da verdade; como os factos realmente ocorreram”.

As cartas publicadas por Nuzzi acusam Bertone, 77 anos, de ter ordenado a transferência de Carlo Maria Viganò para a nunciatura em Washington quando este procedeu a uma “limpeza nas contas”, transformando um “défice superior a 7,8 milhões de euros, em 2009, num excedente de 34,4 milhões” no ano seguinte; de ter difamado Dino Boffo, ex-director do jornal Avvenire, numa campanha insinuando que este crítico de Berlusconi era suspeito de “assédio homossexual”; ou de, numa alegada tentativa de expandir autoridade para além das muralhas do Vaticano e consolidar a sua base em Milão, ter demitido o titânico antigo arcebispo da cidade, cardeal Dionigi Tettamanzi, da direcção do Instituto Toniolo, fundação que controla a Universidade Católica.

Bertone, que em 2002, então monsenhor, desvalorizava a pedofilia como “uma doença que apenas atinge uma ínfima minoria de sacerdotes”, é ainda criticado por ter “ignorado os abusos sexuais e psicológicos” exercidos pelo fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel, que morreu em 2008; ou por passar “demasiado tempo em viagens no estrangeiro”, negligenciando tarefas diárias.

É-lhe imputada a “péssima gestão” de casos como os de Richard Williamson, bispo do cisma lefbreviano e negacionista do Holocausto a quem foi levantada a excomunhão, e do sacerdote ultraconservador Gerhard Wagner que teve de renunciar ao cargo de bispo auxiliar de Linz depois de, na Áustria, ter qualificado o furacão Katrina de “castigo divino pela imoralidade dos habitantes de Nova Orleães”.

Em 2009, o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, terá ido visitar o Papa para lhe “implorar” que afastasse Bertone – em vão. Em 2011, foi a vez de o padre espanhol Adolfo Nicolás, Superior-Geral vitalício da Companhia de Jesus, reencaminhar para Bento XVI correspondência de “grandes e influentes benfeitores”, denunciando “o modo como o medo começa a ser paralisante no Vaticano e como o dinheiro guia certos pastores”.

“Sei que quando um leigo aponta faltas, a reacção da Igreja é a de se unir para defender quem é criticado”, afirma Nuzzi, reconhecendo que, apesar do “forte declínio do poder político de Bertone”, Sua Santidade “pode atrasar” o seu afastamento, que alguns davam como provável.

“O Papa não mudará o ‘primeiro-ministro’ porque isso seria lançar uma sombra sobre o seu próprio pontificado”, justifica o autor que, no livro (pág. 17), é mais explícito: “É sabido que pôr em causa, mesmo apenas em termos hipotéticos, a frágil aliança com o secretário de Estado seria um caminho sem retorno.”

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“Confinada ao interior de alguns palácios romanos, sem grande comunicação entre os diferentes dicastérios, a Cidade do Vaticano é uma instituição pequena: 44 hectares, 2300 pessoas”, observa Bernard Lecomte, especialista em questões da Igreja Católica Romana. “É lógico que este pequeno mundo suscite rumores, invejas e conspirações de corredores”.
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Nuzzi assegura que não tencionou “interferir nas escolhas” do que descreve como “um microscópico Estado de 44km2 onde não se cometem crimes, não se prende ninguém e se invocam concordatas para garantir imunidade”. No entanto, logo no prefácio da sua obra, condescende que “o projecto de Bento XVI de diminuir [a influência da comunidade cardinalícia italiana num próximo conclave] opõe-se ao de Bertone”.

Durante a entrevista, é implacável com o secretário de Estado e a sua Ordem dos Salesianos. “Bertone é uma espécie de Sílvio Berlusconi”, o ex-primeiro-ministro que agora promete voltar, após a demissão de Mario Monti, “o mais filo-vaticanista de todos os chefes de governo de Itália”.

À pergunta sobre se, ao expor os “pecados de Roma”, não está a contribuir deliberadamente para enfraquecer os que desejam ver de novo um italiano no “trono de Pedro”, a resposta de Nuzzi é esta: “Não foi o meu objectivo, mas desejo, sinceramente, que o próximo Papa não seja italiano. Preferia que fosse um chinês, porque daria um forte impulso à pequena comunidade de católicos na China e, talvez, acelerasse a democratização do país, como aconteceu na Europa de Leste com a escolha do polaco Woytila!”

Para o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, o livro de Nuzzi “assume o carácter de acto criminoso”. O Papa já criou uma comissão de inquérito para averiguar como os dossiers confidenciais, compilados por “secretários fidelíssimos”, saíram do seu escritório. “

Tenho algum medo, como toda a gente”, confessa Nuzzi, que descreve os serviços de informação e segurança do Vaticano como os “melhores e mais eficazes do mundo”, graças à agência de espionagem israelita Mossad. “Não quero, contudo, ser conhecido pelos meus medos, mas pelo que escrevo. O medo é uma forma de marketing. Ser jornalista de investigação é como limpar vidros num arranha-céus. Se foi essa a minha escolha, não me posso queixar nem armar-me em vítima.”

O francês Bernard Lecomte, autor de  Les secrets du Vatican, leu Sua Santidade e esta é a sua análise: ”Nuzzi fez o que tinha de fazer”, disse-nos, numa entrevista, por e-mail, o antigo editor nos jornais La Croix e L’Express. “Ele obteve informações inéditas sobre o Papa e a Cúria Romana, e é normal que as publicasse. Que tenha procurado escrever uma obra sensacionalista não é escandaloso.”

“Que tente ‘resguardar’ a sua principal fonte também é legítimo. O seu livro não é uma invenção nem uma manipulação. A única crítica que se lhe pode fazer é a de que não se aprende grande coisa sobre temas que já conhecíamos. Há poucas informações verdadeiramente novas ou extraordinárias”. Além disso, “desconfiemos das ‘fofocas’ que animam habitualmente a Cúria Romana.”

Embora igualmente crítico de Bertone, a quem acusa de ser “mau governante que embaraça o Papa”, o vaticanista Lecomte contextualiza: “Se a Igreja Católica tem 1200 milhões de fiéis, a Cidade do Vaticano é uma instituição pequena: 44 hectares, 2300 pessoas. Está confinada ao interior de alguns palácios romanos, sem grande comunicação entre os diferentes dicastérios.”

“É lógico que este pequeno mundo suscite rumores, invejas e conspirações de corredores. E como o Vaticano pratica habitualmente o secretismo, isso suscita fantasmas. A imprensa italiana, especialista em ‘revelações’ assombrosas, lança abundantemente rumores sem fundamento, um pouco como a imprensa britânica com a família real de Inglaterra.”

Em 2 de Maio de 2013, pela primeira vez desde que abdicou, alegando “forte cansaço”, o agora Papa emérito Bento XVI deixou a sua residência de Verão, em Castel Gandolfo, 25 aquilómetros de Roma, e regressou ao Vaticano. Aqui, onde chegou de helicóptero, ficará a residir, a poucos metros do seu sucessor, o Papa Francisco. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 2 de Maio de 2013, pela primeira vez desde que abdicou, alegando “forte cansaço”, o agora Papa emérito Bento XVI deixou a sua residência de Verão, em Castel Gandolfo, 25 aquilómetros de Roma, e regressou ao Vaticano. Aqui, onde chegou de helicóptero, ficará a residir, a poucos metros do seu sucessor, o Papa Francisco
© Getty Images

“Ninguém imagina o Papa a ser pressionado a demitir-se, nem a fazer campanha por este ou aquele sucessor!”, frisa o também blogger Lecomte, condecorado com a Legião de Honra francesa, aludindo a pressões nesse sentido em alguns media italianos.

[Num gesto que surpreendeu o mundo, Bento XVI renunciou ao cargo em 11 de Fevereiro de 2013 – o primeiro Sumo Pontífice a abdicar desde Gregório XII, em 1415, durante o Primeiro Grande Cisma do Ocidente.]

“O Vaticano não é um parlamento nem um partido político. É certo que as manobras no interior da Cúria visam, prioritariamente, Tarcisio Bertone, que não é uma figura com apoio unânime. O Papa, contudo, está acima de todas essas pequenas operações, que ele deplora e lhe dão problemas, os quais, aos 85 anos, ele bem dispensaria. Hoje, ninguém pode prever se o próximo Papa será italiano ou não: uma avaliação dos conclaves desde há dois séculos mostra que é impossível fazer prognósticos!”

Lecomte é da opinião de que “as pequenas manobras na Cúria Romana” interessam sobretudo aos italianos. No entanto, “elas contribuem, seguramente, para degradar a imagem da Igreja, embora o seu impacto seja muito menor do que, por exemplo, o escândalo de pedofilia que lança a suspeita sobre 400 mil padres de todo o mundo.”

Abalada pelos últimos acontecimentos que atingiram Bento XVI, como o caso Williamson ou a futura beatificação de Pio XII [cujo pontificado, de presumível silêncio perante a Shoah, é mal visto pelos judeus] a Cúria tenta, desde há dois anos, modernizar a comunicação do Vaticano: vejam como o Papa se pôs a “twittar”. Mas uma instituição com dois milénios, por vezes arcaica, é muito difícil de reformar.”

Um outro vaticanista, o italiano Sandro Magister, é muito mais duro com Gianluigi Nuzzi, numa entrevista que nos deu, também por email: “O interesse de Sua Santidade está apenas nos documentos publicados, todos autênticos, não na ‘narrativa’ em que [o autor] os envolve; uma ‘narrativa’ confusa e largamente controversa, escrita em moldes romanescos.”

“Nuzzi não chegou aos documentos através de uma investigação especial; recebeu-os, pura e simplesmente”, realça o jornalista da revista L’Espresso, formado em Teologia, Filosofia e História, autor de dois livros, La politica vaticana e l’Italia 1943-1978 e Chiesa extraparlamentare – Il trionfo del pulpito. Quanto ao conteúdo dos documentos, a substância já era conhecida de muitos.”

Quanto ao timing de publicação, foi definido “pela fonte, que decidia ‘quando’ entregaria as cartas. O comportamento e a mentalidade de Paolo Gabriele foram esclarecidos nos interrogatórios a que foi submetido antes e durante o processo.”

“Desde 2006 que ele subtraía e acumulava documentos reservados, e pode admitir-se que terá escolhido entregar uma parte deles a Nuzzi depois de ter visto o sucesso do seu anterior livro, com documentos relativos ao IOR.”

Para Magister, que, de 2008 a 2010, supervisionou a publicação de três volumes com as homilias de Bento XVI correspondentes a esses anos litúrgicos, “Gabriele nada tem de heróico; pelo contrário, revelou-se uma personalidade frágil e com grandes fantasias (‘inspirado pelo Espírito Santo’ para ‘purificar’ a Igreja).

O processo judiciário também indicou que à sua volta gravitavam personagens da Cúria Romana, como Ingrid Stampa [antiga governanta do Papa que traduziu para italiano um novo livro de Bento XVI sobre Jesus] ou o cardeal Paolo Sardi [pró-patrono da Ordem de Malta], que poderão ter alimentado as suas próprias fantasias.”

“É difícil captar nas malhas deste processo os comportamentos de tais personagens”, constata o consultor do canal televisivo da Conferência Episcopal Italiana. “Estes comportamentos são o reflexo do estado de confusão geral na Cúria Romana, dividida entre ambições pessoais e lutas de poder a vários níveis. Bertone é a principal vítima da confusão, mas também por motivos objectivos: sendo o ‘primeiro-ministro’, é sobre ele que, inevitavelmente, recai a responsabilidade de uma ausência de governance. Seja como for, ele ainda está no seu posto: a publicação das cartas secretas não apressou e só atrasou o tempo da sua substituição.”

“A mesquinhez da Cúria”, prossegue Sandro Magister, “não é comparável, em gravidade, com o escândalo da pedofilia. As cartas publicadas por Nuzzi são quase incompreensíveis para um leitor comum e, em grande parte, tornam-se maçadoras. Se não fosse o romance ‘estilo Dan Brown’ que as envolveu não apaixonariam ninguém.”

“O ‘sucesso’ constante das viagens de Bento XVI, mesmo nos países aparentemente mais hostis, é a prova de que a autoridade moral deste Papa não foi arranhada pelos litígios dos prelados da Cúria. Este Papa está muito avançado na idade, e seleccionou drasticamente as coisas a fazer e a não fazer. Todas as suas energias são dedicadas à crise da fé e não, seguramente, à reforma da Cúria.”

No final da entrevista, quando lhe perguntamos se, como católico, o que desvendou abalou a sua fé, Nuzzi incomoda-se: “Não gosto que se atribuam rótulos a quem escreve. Quando leio um livro não me interessa se foi escrito por um branco ou por um preto; um homossexual ou heterossexual – só quero ter a certeza de que é verdadeiro. Estou convencido de que, depois de lerem o meu livro, os cristãos não se afastarão da Igreja, apenas serão mais exigentes.”

O Papa Bento XVI renunciou ao seu pontificado em 28 de Fevereiro de 2013. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O Papa Bento XVI renunciou ao seu pontificado em 28 de Fevereiro de 2013
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 18 de Dezembro de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 18, 2012

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