Uma carta de amor ao berço da civilização

O grupo de teatro belga tg STAN montou um espectáculo inspirado em obras de grandes escritores e músicos, para nos oferecer The Tangible. O ponto de partida é o triângulo Palestina-Bagdad-Beirute, mas ultrapassa as suas fronteiras. Frank Vercruyssen, co-fundador da companhia, deu-me uma entrevista, em que explica a importância de reflectir sobre a perda pessoal e colectiva. (Ler mais | Read more…)

© stan.be

Falta meia hora para Frank Vercruyssen entrar em palco, em Toulouse (França), quando estabelecemos contacto através do Facebook.

A urgência em conseguir uma entrevista faz com que troquemos o seu nome por “Drank” (Bêbado). Ele não se ofende. Troca mensagens, divertido, e deixa transparecer entusiasmo com a estreia do seu espectáculo The Tangible no Teatro Maria Matos, em Lisboa, no dia 11 [de Dezembro de 2010]..

Vercruyssen tem sido descrito como “a consciência política” do colectivo de teatro belga tg STAN, e The Tangible é a prova de como ele exprime essa consciência perante as suas audiências, num cadenciado diálogo entre dança e palavra, imagem e som (mas também silêncio).

Não é por acaso que este espectáculo – com três bailarinas e três actores – é uma combinação dos textos insubmissos do romancista e ensaísta britânico John Berger, da escritora e artista visual libanesa Etel Adnan e dos poetas palestinianos Mahmoud Darwish, Samih al-Qasim e Mourid Barghouti. E ainda uma mistura das músicas de Béla Bartók, Brahim El Belkani, Johnny Cash, John Coltrane, Raed Yassin, György Ligeti, entre muitos outros.

Onde é que Vercruyssen foi buscar o título The Tangible? Ao livro de Berger De A para X: Cartas de Amor [Livraria Civilização Editora, 2009], a história de A (A’ida), uma farmacêutica, e X, o namorado insurrecto, preso devido às suas actividades políticas.

Berger, um dos pensadores mais influentes dos nossos dias, situou a sua narrativa em Suse, cidade imaginária; o actor flamengo do tg STAN transferiu-a para locais anónimos do Médio Oriente fotografados por Ruanne Abou-Rahme (um dos quatro cenógrafos) e Yazan Al Khalili.

“A minha primeira escolha”, diz-me Vercruyssen “foi The Fertile Crescent [O Crescente Fértil] e a segunda Amnesia of the Tangible (Amnésia do Tangível), só que achei este título ainda demasiado pesado, e assim ficou The Tangible (O Tangível)”.

Para justificar por que considerou este título “mais apropriado”, citou Berger quando comenta a perda de património após uma vaga de bombardeamentos: “No dia seguinte, acompanhei-o aos seus escombros. Havia vários epicentros, onde tudo havia sido reduzido a pó, com pequenos fragmentos dispersos em seu redor.”

“À excepção de alguns tubos e alguns cabos, não restava nenhum objecto reconhecível. Tudo o que precisou de uma vida inteira para ser construído desvaneceu-se sem deixar vestígios, e perdeu o seu nome. Uma amnésia não de espírito, mas do tangível.”

The Tangible, adianta o co-fundador do grupo nascido há 20 anos em Antuérpia, “é um espectáculo bastante abstracto, pessoal e emocional – não é um documentário nem um ponto de exclamação. Centra-se sobretudo na perda pessoal e na perda para a humanidade, como um todo.”

“Por isso, embora o triângulo Palestina-Bagdad-Beirute seja o ponto de partida, não pretendemos oferecer soluções nem transmitir mensagens claras sobre qualquer questão. É um documento pessoal do colectivo que criou o show.”

“O facto de a dança desempenhar aqui um papel tão importante também indica, de certo modo, a razão por que quisemos ir para além das palavras.”

© stan.be

Se a dança é poderosa, as palavras são igualmente pujantes, resultado de uma “recolha feita durante dois anos” de textos dos escritores acima mencionados.

“Tu olhaste-me de alto a baixo, e murmuraste ‘obrigado’. Por quanto tempo vais manter essa venda nos olhos?”, diz/escreve Aïda ao namorado (que também compõe cartas de amor, mas não as envia).

Em The Tangible, podemos acompanhar esta correspondência em inglês, francês e árabe, como tem sido hábito numa companhia com repertório multilingue.

“A esperança e a espera são completamente diferentes uma da outra. No início, pensava que a esperança era a espera de uma coisa longínqua. Estava enganada. A espera vem do corpo, enquanto a esperança vem da alma.”

O namorado segreda: “Adormeci durante duas horas. Coloquei tampões nos ouvidos e adormeci depois da informação. Não noticiaram a minha morte.”

No palco, ora vazio e silencioso, ora iluminado por fotos de prédios esventrados em guerras e sonorizado com o que parece ser tiros ou explosões, as três bailarinas disputam o espaço. Prostram-se, rastejam, levantam-se, contorcem-se, confrontam-se, entrelaçam-se, separam-se, tocam-se, caminham, correm.

“Não sei se tenho uma mensagem – isso cabe à audiência decidir”, esclarece Vercruyssen. “Não me interessa ser um pregador, isso é uma certeza. Por isso é que vinco o facto de este espectáculo ser pessoal, um depoimento emocional.”

“É claro que as questões formuladas são muito directas, mas este não é um espectáculo sobre a Palestina ou Beirute no sentido estrito. Esses conflitos são um ponto de partida para começar a falar sobre coisas…”

O projecto inicial, declara Vercruyssen, era escrever “uma carta de amor a al Hilal al Khaseeb”, o Crescente Fértil, que engloba a antiga Mesopotâmia (hoje Iraque), o Líbano e a Palestina – “o berço da civilização”. A ideia acabou por ser “ultrapassada pela realidade” e abandonada.

“Para mim, pessoalmente”, acentua o flamengo do tg STAN, “esta região e a sua história têm sido uma parte importante da minha vida; e estou convencido de que as consequências da situação ali (seja Bagdad ou Palestina) serão inúmeras, para todos nós.”

“Não quero dizer à audiência como deve interpretar o que vê”, prossegue. “Nós, os seis, (as três bailarinas e os três actores), trabalhámos em todos os aspectos do espectáculo. As palavras são o culminar de um longo processo de selecção e eliminação de textos. As imagens e a música desenvolveram-se segundo o mesmo espírito.”

“O movimento é definido, obviamente, pelas bailarinas. Não houve, da minha parte, uma intervenção como coreógrafo. A relação delas com o conteúdo dos textos é trabalhada no seu tempo próprio. É um acto de equilíbrio entre o explícito e o abstracto.”

© stan.be

The Tangible começou a ser ensaiado em Janeiro deste ano. Por esta altura, Vercruyssen tinha “um pilha enorme de textos”. Dessa pilha que existia ainda durante os ensaios, ele concebeu o cenário.

Foi nessa altura, também, que decidiu que o fill rouge do texto seria “From A do X”, de John Berger. “Uma rapariga escreve ao seu namorado na prisão. Ele não responde, mas ‘escreve por detrás das letras’ pensamentos, ideias, etc. Este princípio deu-nos a oportunidade de nos prender a essas letras outros textos, poesia…”

Ouvimos Aïda: “Abre-se um diagrama que tu desenhaste sobre uma página em branco. Sob o desenho, tu recopiaste à mão o nome de peças diferentes. E, de imediato, compreendo que estou prestes a ler um poema de amor. Motor de lançamento e excitação/gerador-câmara de combustão/turbina. Um poema de amor. E o namorado entoa: “I just want to see you as the sun goes down. No more than that”.

As fotos e a música, nota Vercruyssen, foram igualmente sujeitos a um processo de selecção por parte do colectivo. “Tivemos de encontrar a harmonia perfeita, para termos a certeza de que os diferentes aspectos do espectáculo deixariam espaço para outros, para que o show não se ‘engolisse a si próprio’ com exageros.”

Frank Vercruyssen @ okradio-photo

Frank Vercruyssen
© okradio-photo

Não foi fácil montar este espectáculo. Vercruyssen queria envolver “Eid (de Nablus)”, na Cisjordânia ocupada por Israel) e “Rojina (de Damasco), capital da Síria, mas um “problema logístico” deitou por terra as suas intenções.

“Em 2008, eles disseram que sim ao projecto, tendo a escola que frequentam em Damasco assegurado que conseguiriam concluir os seus estudos depois desta tournée.

Em Novembro, poucas semanas antes da estreia prevista para França, o director que dera garantias mudou de ideias – eles perderiam os seus diplomas se continuassem a ‘tour’ connosco. Fui obrigado a substituí-los. Trabalharíamos muito bem juntos se este director megalomaníaco não tivesse abusado dos seus poderes.”

Em todo o caso, Vercruyssen deixa bem claro que está “muito feliz” com os substitutos – Boutaïna Elfekkak, de Rabat (Marrocos) e Mokhallad Rasem, de Bagdad (Iraque) -, que se mostraram disponíveis para trabalhar em conjunto”, partilhando o palco com ele e com Eve-Chems de Brouwer (actriz franco-egípcia), Tale Dolven, Liz Kinoshita, Federica Porello.

A entrevista chega ao fim.

“Tenho de me ir embora agora. O show começa dentro de uma hora”, escreve Vercruyssen. Dia 11 [de Dezembro de 2010] , combinámos encontrar-nos no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

O espectáculo – com três bailarinas e três actores – foi uma combinação dos textos insubmissos do romancista e ensaísta britânico John Berger, da escritora e artista visual libanesa Etel Adnan (foto 1 ) e dos poetas palestinianos Mahmoud Darwish (foto 2), Samih al-Qasim e Mourid Barghouti. E ainda uma mistura das músicas de Béla Bartók, Brahim El Belkani, Johnny Cash, John Coltrane, Raed Yassin, György Ligeti, entre muitos outros

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em Dezembro de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2010

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