23 milhões de taiwaneses esperam empresas portuguesas

Em 2013, Portugal e Taiwan esperam criar um business council que promova o negócio bilateral. A ilha Formosa quer servir de ponte para a entrada na “grande China” e no resto da Ásia. (Ler mais | Read more…)

Taiwan, com uma “escala inferior” à da China continental, “pode adaptar-se às empresas portuguesas, porque o seu tecido empresarial também é de pequena e média dimensão”, diz Jorge Pais, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa - Câmara de Comércio e Indústria @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Taiwan, “escala inferior” à China continental, “pode adaptar-se às empresas portuguesas: o seu tecido empresarial também é de pequena e média dimensão”, diz Jorge Pais, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa – Câmara de Comércio e Indústria
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Dos 27 Estados-membros da União Europeia, 18 já abriram centros económicos e culturais em Taipé, mas Portugal não é um deles, embora Taiwan – a 18.ª maior economia do mundo – demonstre interesse em ser “ponte para as empresas portuguesas entrarem no mercado da ‘Grande China'”.

Há mais de 15 anos que os taiwaneses investem na China continental – fomos, aliás, os primeiros a entrar”, diz-nos o representante do Centro Económico e Cultural de Taipé em Lisboa, Jiang-gueng Her. “Porque partilhamos tradições, cultura e língua [com a República Popular da China/RPC], podemos também partilhar as nossas experiências com empresas portuguesas: A melhor via é a das joint-ventures, porque oferecem mais vantagens e permitem maior eficácia do que investimentos isolados”.

Esta é também a opinião que ouvimos de Jorge Pais, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa – Câmara de Comércio e Indústria (AIP-CCI), que espera(va), no primeiro trimestre de 2013 , assinar um protocolo para criar o Business Council Portugal-Taiwan. O objectivo é “dinamizar oportunidades de negócio” entre os dois países.

“Se as empresas portuguesas entrarem no mercado taiwanês agregadas, em conjunto, estarão mais apoiadas, já que muitas delas não têm dimensão internacional nem estrutura técnica ou de gestão – basta dizer que, de um total de 1,5 milhões, não chegam a 40 mil as que possuem capacidade de exportação.”

“A agregação das empresas, ou os chamados clusters”,  precisa Jorge Pais, “agiliza o marketing, a promoção directa, diminui os custos e permite uma maior penetração nos mercados. Os taiwaneses tomaram a iniciativa de apresentar um memorando de entendimento, que já foi aprovado pela AIP. O business council deverá avançar depois da visita a Lisboa de uma missão empresarial de Taipé.”

“O que Taiwan, um país democrático e ocidentalizado, nos pode oferecer é uma entrada na China em condições mais favoráveis, mas também noutros mercados, como o da Coreia e o de Singapura. Portugal, por seu lado, pode facilitar a entrada de Taiwan no Brasil e na América Latina, em Angola e Moçambique, além de uma consolidação na União Europeia.”

Já em 1992, ano da abertura da representação da Formosa em Lisboa, o jornal Taipei Today destacava que a República da China (ROC/nome oficial de Taiwan) olhava para Portugal como “um valioso parceiro, apesar da fragilidade da sua economia, porque detém o mesmo peso nas tomadas de decisão na UE”.

Além disso, o objectivo de apostar na Europa, primeiro na do Norte e Ocidental e depois na do Sul, justifica-se porque, aqui, “os exportadores taiwaneses estão menos vulneráveis às flutuações do grande mercado norte-americano.”

Para Jorge Pais, “não é garantido que um acordo de comércio livre entre Taiwan e a UE consagre melhores soluções para Portugal”. Porque, a nível bilateral, os negócios terão de ser conduzidos sector a sector. “Taiwan, com uma escala inferior à da China continental, pode adaptar-se às empresas portuguesas, porque o seu tecido empresarial também é de pequena e média dimensão.”

Foto 2

Os empresários de ambos os países desconhecem ainda os mercados de cada um. Há sectores que oferecem potencialidades como o automóvel e o agro-alimentar (vinhos – sendo o do Porto “a jóia da coroa” -, azeitonas, compotas e azeites), o design e a moda, têxteis e calçado” 
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Nos contactos com vista ao business council, o que Jorge Pais constatou foi “um desconhecimento” dos empresários de ambos os países em relação aos mercados de cada um. Há sectores que oferecem potencialidades como o automóvel e o agro-alimentar (vinhos – sendo o do Porto “a jóia da coroa” -, azeitonas, compotas e azeites), o design e a moda, têxteis e calçado.”

Uma ideia a explorar, porque os taiwaneses “têm poder de compra”, é a da “abertura, em locais de impacto social, de lojas que possam ter produtos gourmet, combinados com exposições de arte e de música de Portugal”.

business council poderá ajudar a equilibrar uma balança comercial que Cecilia Ruo-Fei Liou, da Oficina Economica Y Cultural de Taipei em Madrid, descreve como de “défice crónico” a desfavor de Portugal.

Entre Janeiro e Agosto de 2012, e em comparação com igual período de 2011, as exportações de Portugal para Taiwan aumentaram 17%, mas ficaram-se pelos 47,3 milhões de dólares, enquanto as importações diminuíram 9%, mas totalizaram 127,3 milhões.

“É certo que as relações comerciais se ressentiram da crise financeira mundial”, reconheceu Jiang-gueng Her, que teria o estatuto de embaixador se Portugal reconhecesse Taiwan, “mas há um espaço enorme a preencher em termos de laços económicos, culturais e turísticos, sobretudo a nível do sector privado”.

No campo da educação, Her destaca as bolsas oferecidas pelo seu Governo a estudantes (meio ano para aprender Mandarim, um ano para licenciatura, dois anos para mestrado e quatro para doutoramento) e professores/investigadores (um ano).

A Universidade Nacional de Taiwan, por exemplo, tem um acordo de intercâmbio com a Universidade do Porto e a Universidade Nacional de Chengchi está ligada à Universidade Católica.

Sobre o turismo, não obstante as quase ou mais de 24 horas de distância que separam os dois países, Her lembra que a isenção de vistos de/para Taiwan-UE elevou o número de “taiwaneses com dinheiro” que viajam para a Europa – mais de 239 mil, em 2011 (os europeus que visitaram Taiwan, no mesmo ano, foram mais de 212 mil).

Por isso, o representante de Taiwan em Lisboa recomenda que Espanha “possa ser usada como alternativa”, se a justificação (a mais plausível, segundo Jorge Pais) para a não-abertura de um centro em Taipé seja “apenas a escassez de recursos” em tempo de crise.

O maior investimento de Taiwan em Portugal é o da Asus, quarto maior fabricante mundial de computadores, que entrou aqui como multinacional em Agosto de 2008 e, segundo o responsável pelo marketing, "lidera o mercado nacional de placas-mãe (MB) e de vídeo, media streamers, netbooks e notebooks". @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O maior investimento de Taiwan em Portugal é o da Asus, 4º maior fabricante mundial de computadores, que entrou aqui como multinacional em Agosto de 2008 e, segundo o responsável pelo marketing, “lidera o mercado nacional de placas-mãe (MB) e de vídeo, media streamers, netbooks e notebooks
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O maior investimento de Taiwan em Portugal é o da Asus, quarto maior fabricante mundial de computadores, que entrou aqui como multinacional em Agosto de 2008 e, segundo o responsável pelo marketing, “lidera o mercado nacional de placas-mãe (MB) e de vídeo, media streamers, netbooks e notebooks“.

Esta informação é confirmada pela Gartner, consultora norte-americana de referência sobre tecnologias de informação, que adianta: a nível global, entre Julho e Setembro deste ano, os lucros da Asus aumentaram 43% face ao período homólogo de 2011, para 229,1 milhões de dólares, sobretudo, graças às vendas de portáteis (cinco milhões de unidades).

Nenhum das perguntas que fizemos sobre os números do investimento da Asus em Portugal obtiveram resposta, sob pretexto de confidencialidade. Porquê o secretismo? Será mera política interna do grupo fundado em 1990 ou porque Portugal teme o castigo de Pequim e, por isso, “é mais chinês do que os chineses”, como notou um antigo diplomata taiwanês em Lisboa?

Jorge Pais responde: “Não se pode ignorar o peso da História e algumas visões redutoras no passado, mas Portugal não deve ter medo de desagradar à China, sobretudo porque desapareceu o sentimento de rejeição da RPC face a Taiwan. Há um potencial de desenvolvimento que não podemos ignorar: Taiwan pode vir a ofuscar o Japão nos seus laços com o Ocidente e Portugal precisa de ter uma estratégia.”

A secretária económica de Taiwan em Madrid, Cecilia Liou, reafirmando que um centro de Lisboa em Taipé expandiria negócios portugueses “para toda a Ásia”, aponta os sectores que classificou como estratégicos e com enorme potencial: “A inovação tecnológica, as energias renováveis, o ambiente, o turismo, a pesca, os têxteis, matérias-primas e materiais de inovação.”

Actualmente, segundo a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), entre os produtos que Taiwan mais compra a Portugal estão, designadamente, máquinas e aparelhos (sobretudo os usados na fabricação de esferas/plaquetas de dispositivos de visualização de ecrã plano); e entre os que mais vende estão circuitos integrados ou impressos até triciclos e esfregões de aço.

“Quando há vontade, há sempre um caminho”, enfatiza Jiang-gueng Her. E o caminho “está mais facilitado” desde que, em 2008, Ma Ying-jeou, do partido nacionalista Kuomintang, foi eleito (e reeleito em 2012) Presidente da República. Ao afastar do poder os independentistas, Ma aproximou-se de Pequim, diminuindo as tensões no estreito da Formosa.

“Já assinámos 18 acordos com a China, o mais importante dos quais foi o Acordo-Quadro de Cooperação Económica, firmado em Junho de 2010, prevendo a isenção de taxas para 539 produtos”, conclui Jiang. Foi um “acordo histórico”, marco na reconciliação entre dois rivais divididos por uma guerra civil há seis décadas.

A “descoberta portuguesa de Taiwan em 1582”: 200 escudos, em ouro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa. Série “II República, 1974-2001”. Última emissão é de 1996. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A “descoberta portuguesa de Taiwan em 1582”: 200 escudos, em ouro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa. Série “II República, 1974-2001”. Última emissão é de 1996
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Dezembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 2, 2012

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