Naftali Bennett não tem medo do “apartheid”

O Habayit HaYehudi aspira a tornar-se na terceira força política de Israel. Entrou, como pretendia, no Governo de coligação de Netanyahu. O líder do partido atrai religiosos e laicos na defesa de um só Estado.. (Ler mais | Read more…)

Naftali Bennett é "uma história de sucesso israelita, como militar e no mundo dos negócios”, Comentou Ori Nir: “Ele oferece soluções ‘apelativas’ que fazem sentido, sobretudo para os jovens. É orgulhosamente de direita, sem ser fanático. É carismático, eloquente, fala de unidade nacional e oferece uma solução para um problema que permite a Israel manter a maioria dos territórios [ocupados] sem integrar a maioria dos palestinianos. Este plano é atractivo, mas inviável e desastroso para o futuro de Israel." @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Naftali Bennett é “uma história de sucesso israelita, como militar e no mundo dos negócios”, comentou Ori Nir: “Fala de unidade nacional e oferece uma solução para um problema que permite a Israel manter a maioria dos territórios [ocupados] sem integrar a maioria dos palestinianos – um plano desastroso”
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

A constelação política em Israel tem uma nova estrela: Naftali Bennett. Em mais de seis décadas de existência do Estado, este milionário e militar de elite retirou, pela primeira vez, a máscara do rosto da direita – do centro ao extremo – sem pudor de dizer o que pensa.

Nas eleições de Janeiro de 2013, o seu Habayit HaYehudi (“Casa Judaica”) esperava tornar-se no terceiro maior partido: um incómodo parceiro da futura coligação governamental.

[O  Habayit HaYehudi conquistou 12 dos 120 lugares do Knesset, e Bennett ascendeu a ministro da Indústria, Comércio e Trabalho, ministro dos Serviços Religiosos, Ministro para as Questões de Jerusalém e da Diáspora e ainda membro da Comissão de Defesa e dos Negócios Estrangeiros. São pastas, negociadas com Netanyahu, que lhe conferiram peso político, financeiro e de segurança].

O mais novo dos três filhos de um casal que fez fortuna no sector imobiliário e imigrou de São Francisco para Haifa, após a guerra de 1967, Bennett [que teve de renunciar à cidadania americana assim que se tornou membro do Parlamento] foi um dos principais rivais de Benjamin Netanyahu e de Avigdor Lieberman.

Estes haviam unido os seus respectivos partidos, Likud e Yisrael Beiteinu, numa aliança que Elisheva Goldberg, analista do think tank Molad: The Center for the Renewal of Israeli Democracy, chamou de Biberman & Leiberyeahu.

Numa entrevista que nos deu, por telefone, a partir de Jerusalém, Goldberg diz que uma das razões para a popularidade de Naftali Bennett foi “ele apresentar-se como autêntico e sincero, sem cinismo nem medo de palavras como apartheid ou “bantustões”, ao opor-se a um Estado palestiniano e ao defender a anexação unilateral de cerca de 60% da Cisjordânia”.

Nesta “Área C”, assim designada nos Acordos de Oslo de 1992 e sob controlo exclusivo de Israel, está a maioria dos colonatos judaicos. Aos palestinianos que aqui residem, Bennett “oferece” cidadania israelita. Os restantes, nas áreas B e C, terão “direito” a uma “autonomia limitada”, sem soberania em matéria de segurança.

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O mais novo dos três filhos de um casal que fez fortuna no sector imobiliário e imigrou de São Francisco para Haifa, após a guerra de 1967, Naftali Bennett teve de renunciar à cidadania americana assim que se tornou membro do Parlamento, após as eleições de Janeiro de 2013
© Ha’aretz

Embora tivesse reconhecido que o seu programa é duramente criticado nos Estados Unidos, Europa e Médio Oriente, Bennett afirmou-se confiante de que “a comunidade internacional acabará por se adaptar, tal como aconteceu quando Israel anexou Jerusalém Oriental, em 1967”, após conquistar aos jordanos o sector da cidade que os palestinianos reclamam como capital.

Elisheva Goldberg tem uma explicação para as palavras de Bennett terem atraído uma grande parte dos israelitas, mesmo os que “ainda acreditam” numa solução de dois Estados: “São cada vez menos os que se importam com a opinião do mundo.”

Nesta campanha eleitoral, o mais importante “é a política interna”, e Bennett “marcou a diferença porque tinha um plano concreto, com medidas que incluíam, por exemplo, subsídios para a compra de habitação [os preços aumentaram cerca de 40%], acesso ao ensino superior ou uma maior abertura em relação aos Haredim [judeus ultra-ortodoxos], que incluiu na sua lista de candidatos.”

“O que torna Bennett tão especial”, adiantou Goldberg, “é ele ter feito renascer o velho Mafdal [Partido Religioso Nacional], dando-lhe uma imagem moderna, ao escolher, por exemplo, para “número dois”, Ayelet Shaked, uma direitista secular”. A presença de Shaked é uma bandeira que Bennett gosta de agitar, como fez em declarações à revista Time: “Pela primeira vez, o nosso partido tem um candidato não-religioso que é também uma mulher.”

“No dia 22 de Janeiro, não vamos escolher um primeiro-ministro – toda a gente sabe que ele será Netanyahu”, disse Bennett à TIME. “O mais importante é conhecer quem será o seu braço direito.” E Bennett, que aspirava, segundo Goldberg, a ser ministro da Habitação, foi entre 2006 e 2008 um zeloso chefe de gabinete de Bibi, após um desaire nas legislativas que deixou o Likud com apenas 16 deputados dos 120 no Knesset.

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“O que torna Bennett tão especial”, diz a analista Elisheva Goldberg, “é ele ter feito renascer o velho Mafdal [Partido Religioso Nacional], dando-lhe uma imagem moderna, ao escolher, por exemplo, para “número dois”, Ayelet Shaked (ambos na foto), uma direitista secular”. A presença de Shaked é uma bandeira que Bennett gosta de agitar, como fez em declarações à revista TIME: “Pela primeira vez, o nosso partido tem um candidato não-religioso que é também uma mulher”
© Michal Chelbin| The New Yorker 

Netanyahu deixou-se impressionar pelo currículo daquele que pretendia recrutar para retirar do poder Ehud Olmert, o antecessor. Apresentaram-lhe um major na reserva da Sayeret Matkal, a mais prestigiada unidade do Exército; sionista fervoroso formado numa yeshiva (escola talmúdica) e licenciado em Direito pela Universidade Hebraica de Jerusalém; antigo director executivo do conselho que representa meio milhão de colonos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mas que vive numa mansão em Telavive; empresário que enriqueceu em 2005 ao vender, por 145 milhões de dólares, a sua companhia de software antifraude criada em 1999.

O dinheiro permitiu a Bennett entrar na política, mas não terá sido suficiente, segundo Elisheva Goldberg, para que ele criasse um partido de raiz, como era sua intenção.

Em Abril de 2011, formou o Yisra’el Sheli (Meu Israel), para “propagar o amor pelo sionismo” na Internet – onde se revelou “um fenómeno”. Em 2012, com a jovem (35 anos) e bonita Ayelet Shaked, edificou outro movimento, Yisraelim (Israelitas), para fomentar “a educação judaica”.

Ambos poderiam integrar listas do Likud, o partido a que pertenciam, mas optaram por refundar o velho Miflag Datit Leumit (Partido Religioso Nacional), mais conhecido pelo acrónimo hebraico Mafdal, dissolvido em 2008. Esta organização sionista surgiu em 1956 e fez parte de todos os governos até 1992.

Para Larry Derfner, que escrevia features no diário (de direita) The Jerusalem Post e hoje é um dos colaboradores do website israelita (de esquerda)+972 Magazine, a transformação do Mafdal em Habayit HaYehudi contribuiu para a ascensão de Bennett. Ou, como nos disse, numa entrevista via Facebook: “Ele deu a um partido antiquado uma face jovem e enérgica.”

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Alguns dos candidatos que Bennett levou para o Knesset são radicais da extrema-direita. Um deles, Orit Strock, tinha um filho na prisão por ter raptado e atacado brutalmente um jovem palestiniano; outro, Jeremy Gimpel, apelou a que fosse destruída à bomba a Cúpula do Rochedo”,  em Jerusalém
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

“Bennett atraiu para o seu campo “toneladas” de jovens soldados religiosos, conquistou os media e passou o teste”, adianta o colunista israelita. “O problema é que muitos dos candidatos que ele levará para o Knesset são radicais da extrema-direita. Um deles, [a agora deputadaOrit Strock, tem um filho na prisão por ter raptado e atacado brutalmente um jovem palestiniano; outro, Jeremy Gimpel, apelou a que fosse destruída à bomba a Cúpula do Rochedo“, relicário islâmico em Jerusalém.

“Vamos ter o Governo mais extremista da História de Israel”, sublinha Derfner. “O Likud está mais extremista do que nunca, com várias pessoas no topo da lista [eleitoral] a quererem anexar o máximo da Cisjordânia; que são racistas assumidos (Moshe Feiglin disse à New Yorker: “Não se pode ensinar um macaco a falar e não se pode ensinar a democracia aos árabes”), que desejam enfraquecer o Supremo Tribunal – o próprio Netanyahu queria proibir os altifalantes nas mesquitas…”

Para Derfner, “algumas destas pessoas, incluindo [o anterior ministro dos Negócios Estrangeiros, Avigdor] Lieberman, podem muito justamente ser chamados fascistas; e, agora, o partido de Bennett, o Likud e o Yisrael Beiteinu vão controlar o próximo Governo, talvez em conjunto com um partido haredi [ultra-ortodoxo] tão extremista quanto os outros três – portanto, não interessa se dois ou três partidos “centristas” [o Trabalhista, de Shelly Yachimovich, o Hatnuah, de Tzipi Livni, ou o Yesh Atid, de Yair Lapid] venham a entrar na coligação, porque não terão qualquer influência!”

[Os ultra-ortodoxos não foram incluídos; Bennett ocupa dois cargos – da Indústria, Comércio e Trabalho, e também dos Serviços Religiosos -; a senhora Livni  tornou-se ministra da Justiça,  encarregada das negociações com os palestinianos; Lapid é titular da pasta das Finanças].

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O Habayit Hayehudu conquistou 12 dos 120 lugares do Knesset, e Naftali Bennett ascendeu a vários postos ministeriais no Governo de Netanyahu
© Menahem Kahana | AFP

E que influência terá Bennett no novo Governo de Netanyahu? A analista Elisheva Goldberg diz que “tudo vai depender do número de deputados que ele conseguir – se tiver uns 14, ganha peso.” No entanto, se em termos de política interna “talvez não seja difícil impor mudanças, no que diz respeito à anexação na Cisjordânia é improvável que a pressão de Bennett suplante a da comunidade internacional” sobre Bibi.

Derfner afirma, por seu turno: “O partido de Bennett e outros acham que serão a força dominante, mas falta ver até que ponto conseguirão arrastar Netanyahu – porque o resto do mundo está a pressionar para que ela siga numa direcção oposta – a da paz com os palestinianos.”

Ori Nir, porta-voz da organização Americans for Peace Now, em Washington, olhou para as sondagens e, ao ver em queda partidos como os de Yachimovich e Livni, confessou apreensão.

“Há, sem dúvida, potencial para um Governo de falcões”, disse-nos, numa entrevista por email. “Uma coligação destas deixará Israel ainda mais isolado internacionalmente, além de que poderá ser também uma ameaça à democracia e à segurança nacional de Israel.”

À semelhança de Goldberg e Derfner, também Nir considera que o poder de atracção de Bennett está no facto de ele ser “uma história de sucesso israelita, como militar e no mundo dos negócios; ele oferece soluções “apelativas” que fazem sentido, sobretudo para os jovens.

É orgulhosamente de direita, sem ser fanático. É carismático, eloquente, fala de unidade nacional e oferece uma solução para um problema que permite a Israel manter a maioria dos territórios [ocupados] sem integrar a maioria dos palestinianos. Este plano é atractivo, mas inviável e desastroso para o futuro de Israel.”

[Em Novembro de 2016, Naftali Bennet, ministro da Educação, regozijou-se com a vitória de Donald Trump nas presidenciais americanas, considerando-a “a oportunidade para Israel recusar imediatamente a ideia de um Estado palestiniano”. Durante a campanha para entrar na Casa Branca, o sucessor de Barack Obama deu a entender que Israel terá carta branca para continuar as expandir os colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada, e não excluiu a possibilidade de transferir a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém.]

Larry Derfner

© Larry Derfner

Elisheva Goldberg

© Elisheva Goldberg

Ori Nir

© Ori Nir

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 21, 2013

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