Berlim: Analogia com humor (1989-2014)

No ano em que o Muro de Berlim caiu, estavam no poder Helmut Kohl, em Bona, Mikhail Gorbatchov, em Moscovo e George H. W. Bush em Washington. O que os distingue de Angela Merkel, Vladimir Putin e Barack Obama? Fizemos estas perguntas, via Facebook, ao economista político Dwayne Woods, professor na Universidade de Purdue (Indiana, EUA) e investigador interessado na Europa Ocidental, um dos coordenadores do livro The Many Faces of Populism: Current Perspectives. Estas são as suas (divertidas) respostas. (Ler mais | Read more…)

Angela Merkel e Helmut Kohl: ele foi o chanceler da unificação alemã e ela sua discípula até tomar o lugar do mentor
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Até que ponto teria sido possível a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética se, em 1989, na chancelaria em Bona estivesse Angela Merkel em vez de Helmut Kohl? E como é que o percurso de vida, na antiga RDA, da actual chefe do Governo alemão molda as políticas que ela segue em relação a países da UE, como Portugal?

Angela Merkel formou-se em Física, por isso, em seu entender, tudo deve ser claro e exacto. A física tem leis e a política tem regras. Assim que são definidas, as regras têm de ser obedecidas, segundo Merkel. Kohl era mais intuitivo e flexível.

Não fazia dieta e era um bon vivant. Apreciava um grand buffet. Aceitava tudo desde que comessem como ele – e com ele. Merkel diz a Portugal, à Espanha e à Grécia que regras são regras – mesmo que sejam dolorosas.

Seria possível uma relação privilegiada entre Merkel e Mikhail Gorbatchov como a que Kohl estabeleceu com o líder soviético? E a reacção de Kohl face à posição agressiva da Rússia na Ucrânia seria igual à de Merkel?

Merkel manteria uma relação cordial, mas não calorosa, com Gorbatchov. Quanto à agressão da Rússia na Ucrânia, Kohl teria telefonado a [Vladimir] Putin e dito: ‘Meu amigo, tens de acabar com este disparate.’ Merkel telefonou a Putin e disse-lhe, no seu sotaque da Alemanha de Leste: ‘Herr Putin, não quebre as regras.’ Putin [que foi espião do KGB em Dresden] respondeu-lhe, com o seu sotaque da Alemanha de Leste: ‘Sou eu que faço as regras!’

Os acontecimentos na URSS e na Europa de Leste em 1989 teriam sido possíveis se Putin, e não Gorbatchov, estivesse no poder em Moscovo naquele ano?

Se Putin governasse teria sido o desmancha-prazeres que Gorbatchov não foi. Talvez ele tivesse planeado um golpe militar contra si próprio como pretexto para retomar o poder e invadir a Europa de Leste. Putin alegaria, provavelmente, que o queda da União Soviética era uma conspiração pactuada num restaurante McDonald em Berlim Ocidental. Putin deixaria bem claro aos comunistas que não poderiam engolir este ‘big Mac’.

Mikhail Gorbatchov (à esquerda) e Vladimir Putin (à direita), durante um encontro em São Petersburgo: os dois eram discípulos do chefe comunista Iuri Andropov. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Mikhail Gorbatchov (esq.) e Vladimir Putin durante um encontro em São Petersburgo, em 1994: dois discípulos do chefe comunista Iuri Andropov

Será que, na perspectiva de Putin, [a praça de] Maidan em Kiev – centro da revolta pró-europeia contra Moscovo na Ucrânia – representa hoje o que a Alemanha foi em 1989? Estará ele a igualar a anexação da Crimeia à unificação alemã? Como é que Kohl teria reagido a este desafio, em comparação com a atitude de Merkel?

Para Putin, a Ucrânia é parte da eterna mátria Rússia. Se ele não a pode ter por completo aceitará ter apenas a metade oriental. Se Kohl estivesse agora no poder, teria dito a Putin: ‘Quebrar as regras é uma coisa, mas acabar com uma amizade de bon vivant é inaceitável.’

Kohl teria mobilizado uma frente unida contra a agressão levada a cabo por Putin. Sendo originário da Renânia, Kohl teria convocado uma cimeira de Estados europeus para adoptar medidas duras contra a Rússia. Depois, abriria várias garrafas de um fino [vinho alemão] Riesling, proclamando: ‘É preciso beber a uma boa crise.’

Num recente artigo na revista Commentary, Jonathan S. Tobin diz que, à semelhança de George H. W. Bush face às revoluções de 1989 na Europa de Leste, também Barak Obama está a reagir como se estivesse “perdido” e fosse um “opositor” dos movimentos pró-reformas no Médio Oriente. Concorda?

Tal como todos os advogados “’mal’ formados, Obama é cauteloso e realista. E, tal como os advogados que não exercem a profissão, ele esquece-se de que esperar que os acontecimentos ocorram não é equivalente a ficar inerte durante biliões de horas.

Obama continua, apesar de tudo, a preferir esperar que as coisas aconteçam antes de tomar uma decisão sobre o que irá fazer.

Depois, se as coisas acontecerem, ele decide então que já não tem alternativa. G. H.W. Bush era um homem de acção e princípios. Afinal, foi director da CIA, durante um ano. Na sua visão do mundo, não havia acontecimento que não pudesse ser resolvido com um pouco de pancadaria.

Encontro entre Barack Obama e George H. W. Bush, em 2011, na Casa Branca: o actual é muito mais prudente na sua política externa do que foi o antigo Presidente dos EUA, talvez por este ter sido director da CIA. © Pete Souza

Barack Obama e George H. W. Bush, em 2011, na Casa Branca: o 44º Presidente dos EUA é muito mais prudente na sua política externa do que o 41ª, talvez por este ter sido director da CIA
© Pete Souza

No que diz respeito ao Médio Oriente, um ano após a queda do Muro de Berlim e na sequência da invasão iraquiana do Kuwait, em 1990, G.H.W. Bush não hesitou em formar uma coligação contra Saddam Hussein. Em 1991, ameaçou congelar a ajuda financeira a Israel, se o primeiro-ministro Yitzhak Shamir não suspendesse a construção dos colonatos e participasse na Conferência de Paz de Madrid. Como imagina que teria sido a reacção de Obama?

Em 1989, Obama teria pacientemente formado uma coligação anti-Saddam como fez G.H.W. Bush. Teria invadido [o Iraque] e evitaria entrar em Bagdad [como fez Bush pai]. Não teria pressionado Shamir para ele estar presente na Conferência de Madrid.

Diria, depois, que ambas as partes [Israel e os Árabes] agem de má fé, e a conferencia teria fracassado. G.H.W. Bush acreditava que o poder da América podia forçar Israel a fazer concessões.

Obama acredita que o peso de Israel na política americana obrigaria os EUA a recuar. Para evitar perder a face, seria passivo-agressivo.

Para terminar, como avalia as relações Obama-Merkel e Obama-Putin?

A relação de Merkel com Obama é como a relação dela com o marido. Tudo está bem desde que ele se mantenha distante.

Assim que soube que Obama ouvia as conversas dela [alusão ao escândalo envolvendo as escutas de aliados europeus pela National Security Agency nos EUA], Merkel trancou a porta.

Agora, se bater à porta e disser que é Obama, ela responde-lhe: ‘Estou ocupada.’ Até recentemente, o facto de Putin quebrar as regras irritava Merkel, mas ele continua a comprar mercadoria alemã. E ela prefere alguém com sotaque da Alemanha de Leste a quebrar as regras do que um bisbilhoteiro que não fala alemão.”

Este artigo, com um título diferente, foi originalmente publicado na revista SÁBADO, em 25 de Outubro de 2014 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on October 25, 2014

Merkel, Putin e Obama: Onde estavam eles em 1989?

No dia em que o Muro de Berlim caiu, Angela Merkel não interrompeu o seu “ritual de sauna” das quintas-feiras à tarde. Só à noite foi celebrar, com cerveja, a abertura de um checkpoint que separava as duas Alemanhas. Em Dresden, onde recrutava espiões para o KGB, Vladimir Putin percebeu que era inevitável o fim da RDA, mas ainda chora o colapso da URSS. Em Chicago, a firma de advogados Sidley & Austin acabara de contratar um “prodigioso estudante de Direito de Harvard”, Barack Obama, que seria o primeiro presidente afro-americano. (Ler mais | Read more…)

Barack Obama, Angela Merkin e Vladimir Putin: os "donos" do mundo? © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Barack Obama, Angela Merkin e Vladimir Putin: os “donos” do mundo?

A física “Kohl girl

Angela Kasner (Merkel) tinha apenas 7 anos, em 1961, quando o Muro de Berlim começou a ser erigido. Era domingo, 13 de Agosto e, para a futura chanceler, este dia permaneceu “uma das memórias mais amargas” da sua vida.

A construção foi iniciada três semanas depois de a família ter regressado à pequena povoação de Templin, na extinta República Democrática Alemã (RDA), após um mês de férias na Baviera. “A mãe chorou na igreja enquanto o pai, pastor da congregação luterana local, lia o sermão dominical”, relatam Alan Crawford e Tony Czuczka, co-autores da biografia Angela Merkel: A Chancellorship Forged in Crisis.

Em 1967, um outro episódio tornar-se-ia também uma lembrança azeda: durante uma visita à antiga Checoslováquia, a 21 de Agosto de 1968, carros de combate soviéticos esmagaram a “Primavera de Praga”.

De volta à escola, em Templin, a futura chefe de Governo queria contar o que ouvira na rádio, mas recuou quando viu o rosto nervoso da professora.

Sobre esse tempo, disse ao jornal Frankfurter Allgemeine: “Sim, é uma desvantagem que, na Alemanha de Leste, tenhamos aprendido a ficar calados. Essa era uma das estratégias de sobrevivência. E continua a ser ainda hoje”.

Desse período, reteve também um conselho que terá dado a países europeus em dificuldades económicas, como Portugal: “Não é o que se ganha mas o que se poupa que nos torna independentes.” Na RDA, Merkel apenas investiu nos esforços para se superar a si própria.

Não foi na Alemanha comunista que Angela Kasner nasceu, mas em Hamburgo, na República Federal, em 17 de Julho de 1954. O pai, Horst, formara-se em Teologia naquela cidade, mas era natural do Leste e aqui queria viver.

Quando a filha tinha 7 meses, ele e a mulher, Herlind Jentzsch, colocaram-na num berço e seguiram para a paróquia de Quitzow, “a cerca de 20 quilómetros da fronteira intra-alemã”, relatam os biógrafos Crawford e Czuczka.

Por não pertencerem à “classe operária”, as autoridades na RDA proibiram Herlind de exercer a profissão de professora de Inglês. Ela passou a ser “dona de casa e mãe (de três filhos) a tempo inteiro”. O marido foi encarregue, em 1957, de abrir um seminário (Waldhof) em Templin, cerca de 80 quilómetros a nordeste de Berlim.

Horst rapidamente se tornou um influente membro do clero luterano. A religião contrariava a ideologia do Estado, mas as autoridades não viam, aparentemente, como ameaça um homem que defendia “um socialismo de rosto humano”, ainda que não escondesse os livros do dissidente soviético Andrei Sakharov na sua biblioteca.

Segundo Crawford e Czuczka, o maior ídolo de Angela, durante a infância, era Marie Curie, a polaca naturalizada francesa que foi a primeira mulher a ganhar um Nobel: da Física (em 1903) e a primeira pessoa a quem o prémio foi atribuído duas vezes: ganhou o da Química em 1911.

Num país onde “era preciso não atrair atenções e, ao mesmo tempo, ser melhor do que os outros”, foi naquelas áreas que a filha de Horst se especializou. “As leis da Física não permitem distorcer a verdade”, diz Merkel.

Terminado o liceu, em 1973, ela saiu de casa dos pais e foi estudar para a Universidade de Leipzig. Fora das aulas, servia bebidas em “festas disco sound” organizadas pelos colegas. Aqui conheceu, em 1974, o primeiro marido, Ulrich Merkel.

Só se casaram (três anos depois) porque, de outro modo, o governo não permitia partilhar um apartamento na mesma cidade. Em 1981, ela pediu o divórcio. Ele ficou com os móveis; ela manteve o apelido.

As leis da Física – a área em que se especializou – “não permitem distorcer a verdade”, diz Angela Merkel

Por esta altura, a polícia secreta (Stasi) tentou que Angela fosse informadora numa escola para a qual se candidatara a professora.

Não conseguiu o emprego porque alegou “não saber guardar segredo”. Dedicou-se à investigação na Academia de Ciências da Alemanha de Leste, onde concluiu o doutoramento em Química, em 1986. Um colega, Joachim Sauer, seria o seu segundo e actual marido.

Se tivesse colaborado com a Stasi, Angela Merkel dificilmente teria chegado a chanceler. Em 9 de Novembro de 1989, quando o Muro de Berlim caiu e milhares de alemães celebravam a liberdade, ela não cancelou a tradicional sessão de sauna das quintas-feiras.

Só à noite se juntou, com amigos, a uma multidão em júbilo. Antes, telefonara à mãe a lembrar que um sonho se tornara realidade e, por isso, teriam de cumprir a promessa de ir comer ostras no Hotel Kempinski, em Berlim Ocidental.

Embora seguisse a política “do outro lado”, Merkel não era propriamente uma activista – e tem admitido isso em entrevistas.

Após a queda do Muro, juntou-se ao Despertar Democrático, de Wolfgang Schnur, mas logo o abandonou para ser porta-voz da CDU (democratas-cristãos) na RDA, dirigida por Lothar de Maiziére.

Quando as Alemanhas se reunificaram em 1990, o então chanceler, Helmut Kohl, levou Merkel para o seu Governo. Ela estava no partido apenas há seis meses e tinha 36 anos.

Em 2000, aquela a quem chamavam “Kohl girl” assumiu a liderança da CDU. Afastou mentores e rivais. É hoje a mulher mais poderosa da Europa e do mundo.

O espião de Leninegrado

Vladimir Putin era espião do KGB, em Dresden, na RDA, quando caiu o Muro de Berlim. Para ele, desaparecimento da União Soviética foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”

O tenente-coronel Vladimir Vladimirovich Putin chegou à “mansão do KGB” em Dresden, na antiga Alemanha de Leste, em Agosto de 1985. Vinha de Leninegrado, actual São Petersburgo, e os camaradas nos serviços de espionagem da URSS chamavam-lhe “pequeno Volodya”.

Putin chegou no ano em que, em Moscovo, morreu Konstantin Tchernenko, secretário-geral do Partido Comunista (PCUS).

Quando os operacionais no “quartel-general” em Berlim-Karlshorst telefonaram a comunicar o óbito, para que o Kremlin avaliasse a reacção dos cidadãos na RDA, os agentes em Dresden foram buscar a um “esconderijo” garrafas de champanhe da Crimeia para celebrar.

O chefe da missão estava em Leipzig, numa feira, e eles queriam festejar o facto de Tchernenko “não ter demorado tanto tempo a sair de cena” como os antecessores, Leonid Brejnev (1906-1982) e Iuri Andropov (1914-1984).

“Era totalmente óbvio, para nós, que o poder soviético estava a dirigir-se, inexoravelmente, para o declínio”, disse ao semanário alemão Der Spiegel Vladimir Ussolzev, um dos agentes em Dresden que, em 2013, preparava uma biografia de Putin.

Não era um cargo de luxo aquele para o qual foi mobilizado o actual Presidente da Rússia. O edifício do KGB ficava a 100 metros de distância da sede da Stasi, a polícia secreta da Alemanha de Leste.

Dresden e outras regiões da RDA representavam, para Moscovo, “uma frente importante em termos de luta de classes”, salientou Ussolzev. “A NATO era o alvo principal, havendo particular interesse nos ‘Boinas Verdes’, as forças especiais do Exército dos EUA estacionadas na cidade bávara de Bad Tölz.”

O “verdadeiro trabalho” de Putin, segundo Ussolzev, era “descobrir potenciais agentes do KGB entre estudantes estrangeiros na Universidade Técnica em Dresden. “Ele procurava pessoas cujas famílias eram parte da elite política e que poderiam vir a ser informadores valiosos quando regressassem aos seus países de origem.

Por muito bem sucedido que pudesse ter sido nas tentativas de recrutamento – e “roubo de segredos tecnológicos” (a chamada Operação Luch/”Raio”) –, o que parece certo, segundo um artigo, assinado em The Atlantic, por Fiona Hill e Clifford G. Gaddy, é que Putin “nunca fez parte das estruturas mainstream”. Em Leninegrado ou em Dresden, mesmo sendo esta a terceira maior cidade da RDA, com meio milhão de habitantes, “esteve sempre na periferia”.

No entanto, tal como Vladimir Ussolzev, também Putin chegou à conclusão, em Dresden, que “a URSS sofria de uma doença incurável e terminal”.

Putin começou por apoiar Mikhail Gorbatchov, o artífice da Perestroika. Ambos eram discípulos de Andropov e este advogava igualmente reformas.

No entanto, quando viu que o primeiro e último presidente soviético não conseguia controlar as mudanças que pôs em marcha, o actual líder russo concluiu que “não podia deixar-se guiar por uma lealdade cega a uma ideologia a dirigentes específicos”, observaram Hill e Gaddy. “A sua lealdade passou a ser ao Estado e não a um sistema de governo”.

O fim da RDA e a queda do Muro de Berlim eram inevitáveis”, considerou Putin. O que ele lamenta é o desaparecimento da União Soviética, que descreveu como “a maior catástrofe geopolítica do século XX – a URSS deixou de ser uma superpotência e milhões de russos foram excluídos da Federação Russa.”

Em 1989, Putin tinha 37 anos. A sua União Soviética era constituída por 15 repúblicas espalhadas por 11 fusos horários, com fronteiras que se estendiam do Mar Báltico até ao Extremo Oriente, do Ártico ao Mar Negro.

Em 2014, a Rússia de Putin tem 143 milhões de habitantes, menos do que os 148 milhões em 1994. Entre as razões apontadas para este decréscimo estão uma baixa taxa de natalidade e um elevado número de abortos. Se isto assusta Putin, a perspectiva de uma Rússia de maioria muçulmana em 2050 ainda o atemoriza mais.

D Gordon, que fez estas observações, na publicação electrónica Washington Examiner, argumenta que o antigo espião está empenhado em “proteger os cidadãos russófonos”, estejam eles nas zonas que já anexou na Geórgia e Ucrânia, como na Letónia, Lituânia ou Estónia.

“Ele quer reconstruir a Grande Rússia – porque pode, e está confiante de que a América e a Europa não o confrontarão”.

O advogado que veio de Harvard

Brad Berenson, também entrevistado pela NPR, disse que era impossível não reparar no “tipo que veio do Hawai, com calças de ganga, blusão de cabedal estilo Jimmy Dean, que fumava de pé, em frente a Gannett House [o mais antigo edifício da Harvard Law School, construído em 1838].” ©

Brad Berenson, colega de Barack Obama na universidade, disse à NPR que era impossível não reparar “tipo que veio do Hawai, com calças de ganga, blusão de cabedal ao estilo de Jimmy Dean, que fumava de pé, em frente a Gannett House [o mais antigo edifício da Harvard Law School, construído em 1838]”

Aos 25 anos, associada na firma de advogados Sidley & Austin, em Chicago, Michelle Robinson foi notificada de que teria de supervisionar Barack Obama, de 27, “um prodígio da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard”. Nem um nem outro imaginavam como 1989 iria mudar as suas vidas – e o mundo.

Inicialmente, Michelle resistiu às propostas de Barack para que namorassem. Temia falatório porque ambos eram “os únicos negros” na firma. Em 3 de Outubro de 1992, os dois casaram-se. En 2009, ele entrou na história como o primeiro Presidente negro da América.

Não será exagero dizer que 1989 foi um marco para a carreira de Obama. Numa entrevista à emissora americana National Public Radio (NPR), Lawrence Tribe, estrela académica em Harvard, lembrou o quanto ficou impressionado, desde o primeiro momento, com “o jovem magrinho, de jeans e cabeleira afro” que foi bater à porta do seu gabinete, dizendo: “Quero trabalhar consigo.”

Naquele altura, Obama já se destacava como activista comunitário em Chicago. “Quando chegou ao campus, era mais do que evidente de que ansiava distinguir-se dos outros; queria aprender como funcionava o sistema”, notou Tribe, o mentor e futuro conselheiro presidencial.

Um dos objectos de estudo de Obama, “investigador assistente” de Tribe, foi tentar encontrar uma forma de legislar sobre um tema fracturante da sociedade – o aborto –, colocando a ênfase na educação e no controlo da natalidade.

Foi bem sucedido e, no segundo ano em Harvard, a reputação de Obama não passava despercebida, a professores e colegas. Um destes, Brad Berenson, também entrevistado pela NPR, disse que era impossível não reparar no “tipo que veio do Hawai, com calças de ganga, blusão de cabedal ao estilo de Jimmy Dean, que fumava de pé, em frente a Gannett House [o mais antigo edifício da Harvard Law School, construído em 1838].”

No momento em que decidiu candidatar-se a um dos mais prestigiados cargos na Faculdade de Direito – presidente da Harvard Law Review – Obama conseguiu o que parecia impossível: um consenso entre editores democratas e republicanos.

Um dos republicanos que o apoiou foi Berenson: “Tínhamos a sensação de que, ao contrário de outros candidatos, ele era uma mente aberta, alguém que nos ouviria e aceitaria o nosso contributo.”

“Confirmou-se o instinto dos conservadores”, salientou Berenson. “Obama irritou mais quem estava à esquerda, como ele, do que os que se posicionavam à sua direita.” Razão? “Porque o seu principal objectivo foi sempre consolidar a imagem da Law Review como uma publicação de primeira classe.”

Ser presidente da revista de Harvard ofereceu a Obama fama a nível nacional. Quando partiu para Cambridge (Massachusetts) , “tinha todas as portas abertas”. Não seguiu a advocacia, como fez Michelle, até optar por ser primeira-dama em regime de exclusividade.

Ele escolheu a carreira política, vencendo a sua primeira eleição em 1996, para senador pelo Estado do Illinois.

Em 1989, quem governava a América era um republicano – George H. W. Bush, que enfrentou o desmoronamento da União Soviética e do Pacto de Varsóvia. Em 2014, o democrata que agora ocupa a Casa Branca confronta a emergência do “Estado Islâmico” (ISIS/DAESH), um movimento mais extremista do que a al-Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2011.

Comparando as duas presidências, na revista Commentary, Jonathan S. Tobin não poupa ambas: “Se há analogia adequada com 1989 é entre as reacções dos governos dos EUA na Europa [há 25 anos] e actualmente. Em 1989, a Administração de George H. W. Bush mal sabia o que dizer sobre a derrocada do império do mal.”

“Em vez de liderar a favor da liberdade, o primeiro Presidente Bush e seus acólitos pareciam perdidos, de início, e opuseram-se energicamente, depois, a que os Estados cativos 8da Europa de Leste] fossem livres.”

Obama, segundo Tobin, tem demonstrado igual incapacidade para lidar com as revoltas árabes, da Tunísia ao Iémen, preferindo, aparentemente, o confortável statu quo, de manter no poder ditadores aliados.

O próprio Departamento de Estado norte-americano, no seu site, admite que G.H.W. Bush, surpreendido com a queda do Muro de Berlim, só agiria activamente quando Boris Ieltsin sucedeu a Gorbatchov, prometendo então, a partir de 1992, apoiar economicamente a Rússia com 4000 a 5000 milhões de dólares.

Obama, por seu turno, demorou a agir contra o ISIS/DAESH (considerado o resultado da desastrosa invasão do Iraque em 2003, ordenada por Bush filho), e só recentemente deu “luz verde” a operações militares contra o que tem sido descrito como “a maior ameaça que o mundo enfrenta desde a Guerra Fria”.

Barack Obama

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Angela Merkel

Vladimir Putin

Este artigo foi originalmente publicado na revista SÁBADO, em 25 de Outubro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on October 25, 2014

O “médico de Gaza” quer justiça e não vingança

A sorte não nasceu com Izzeldin Abuelaish, mas este obstetra especialista em fertilidade que tratou muitos casais israelitas e palestinianos renega o impossível. Em 2009, duas bombas mataram-lhe três filhas e uma sobrinha. Quis acreditar que seriam as últimas vítimas de várias guerras que testemunhou até à Operação Escudo Protector – “a mais cruel” de que tem memória. Sente ódio? “Não, isso é uma doença.” (Ler mais | Read more…)

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Mayar, Aya (ao centro) e Bessan: as três filhas de Izzeldin Abuelaish mortas durante um bombardeamento aéreo israelita, na Faixa de Gaza ocupada, durante a Operação Chumbo Endurecido (Cast Lead), em 2009
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Houg, no Sul da Palestina, era conhecida como “a aldeia dos Abuelaish”, uma família numerosa e abastada. Em 1948, durante a primeira guerra israelo-árabe, o avô Mustafa guiou os parentes para a cidade mais próxima, Gaza, “cerca de oito quilómetros a pé”.

Partiram “sem pertences”, esperando regressar “alguns dias depois, duas semanas no máximo”. Não mais voltaram ao que, entretanto, se tornaria “a quinta de Ariel Sharon” (1928-2014).

Em 1967, quem voltou foi Sharon, à época comandante militar na Faixa de Gaza. Chegou com dezenas de escavadoras e “arrasou centenas de casas” no campo de Jabalyia, onde se refugiara a família Abuelaish. “Precisava de espaço para a passagem dos seus carros de combate”, depois de Israel conquistar o pequeno território ao Egipto.

Foi em Jabalyia, num quarto sem luz e água potável onde uma dezena de pessoas dormia no mesmo colchão e comia do mesmo prato as rações alimentares distribuídas pela ONU, que nasceu, a 3 de Fevereiro de 1955, Izzeldin Abuelaish, neto de Mustafa. E foi em Jabaliya que, em 2009, duas bombas israelitas mataram três filhas e uma sobrinha do homem agora conhecido como “o médico de Gaza”.

Depois de uma Nakba (Catástrofe) e um Naksah (Revés) – como as guerras de 1948 e 1967 são conhecidas em árabe –, seria de esperar que Izzeldin Abuelaish quisesse vingar-se dos seus inimigos. Mas nem agora, depois do que classifica como “a mais cruel agressão militar” na Faixa de Gaza, o autor de Não Odiarei (Ed. Planeta) cede à retórica por vezes anti-semita que tem acompanhado as notícias e imagens da Operação Escudo Protector, lançada a 8 de Julho.

Segundo o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA) foram mortos “2.104 palestinianos, incluindo 1.462 civis, dos quais 495 são crianças e 253 mulheres”. O número de desalojados internos “ultrapassará os 200 mil, incluindo 46.000 mulheres grávidas”. Os que perderam as suas casas, destruídas ou seriamente danificadas, totalizam 108 mil.

O Hospital de Al-Shifa, que não escapou aos ataques, terá registado “um aumento de 15 a 20% de nascimentos prematuros”. Entre os israelitas contaram-se 69 mortos, quatro deles civis (estes, tal como um trabalhador estrangeiro, vítimas de ataques com rockets, lançados de Gaza contra as povoações na fronteira).

“O que vejo ofende-me e deixa-me zangado”, disse-me, numa entrevista por Skype, o obstetra e especialista em fertilidade que ajudou muitos casais israelitas e palestinianos a terem filhos, e que depois da sua tragédia familiar vive no Canadá, onde continua a exercer Medicina e é professor de Saúde Global na Universidade de Toronto.

“Fui testemunha de todas as ofensivas em Gaza mas esta é pior do que a de 2009. Einstein dizia que loucura é fazer a mesma coisa vezes sem conta e esperar resultados diferentes. É o que se passa com a máquina militar de Israel em relação aos palestinianos. É impossível pôr fim a este conflito se não for reconhecido aos palestinianos o direito de serem livres.”

“Precisamos de coragem para acabar com a ocupação. É o maior desafio enfrentamos. O povo palestiniano é a única nação que não é livre. Se os palestinianos forem livres, os israelitas serão livres e sentir-se-ão seguros.”

O "médico de Gaza" e os seus filhos, numa foto que partilhou no Facebook para assinalar a festa muçulmana do Eid. © Cortesida de | Courtesy of Izzeldin Abuelaish

O “médico de Gaza” e os seus filhos, numa foto que partilhou (em 4 de Outubro), na sua página de Facebook, para assinalar a festa muçulmana do Eid
© Cortesia de | Courtesy of Izzeldin Abuelaish

Israel foi dando várias justificações para o início da operação que, no seu campo, causou mais de 60 mortos: primeiro, o rapto e homicídio de três jovens israelitas, atribuído ao Hamas, que governa Gaza (posteriormente, o crime foi atribuído a um bando fora do controlo do movimento islâmico); depois, o lançamento de rockets contra localidades no Sul que vitimaram três civis (embora o lançamento destes projécteis tenha recomeçado só depois de Israel ter assassinado operacionais do Hamas violando a trégua em vigor desde 2006; e, finalmente, a descoberta de “dezenas de túneis” que permitiriam à guerrilha infiltrar-se em Israel).

Embora tenha concorrido, como independente, contra o Hamas, nas eleições de 2006, e reafirme que condena “qualquer tipo de violência”, Abuelaish desmente que o movimento vencedor absoluto das legislativas “use civis como escudos humanos”, segundo alega Israel. “Isso é uma grande mentira!”, exclama.

“Antes de mais, é preciso entender o que é a Faixa de Gaza: um território muito, muito pequeno. Um total de 360 quilómetros quadrados para 1,8 milhões de habitantes. É a área mais densamente povoada do mundo, onde 50% são crianças e 20% são mulheres. Não há espaço livre para ninguém. As pessoas nem conseguem mexer-se. Israel continua a culpar-nos por lutarmos, mas nós lutamos por que não aceitamos a ocupação.”

Sobre os túneis, Abuelaish explica: “Foram criados depois do castigo colectivo imposto em 2006 [quando o Hamas ganhou as legislativas]. As fronteiras foram fechadas e a necessidade é mãe da criatividade. Os túneis foram escavados para sobrevivência.”

“Os túneis são sintomas de uma doença, que é a ocupação. Depois dos Acordos de Oslo [de 1993], previa-se um Estado palestiniano nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Leste como capital. Isto deveria acontecer em 1999.”

“Estamos em 2014 e, a cada dia que passa, mais e mais terras são confiscadas para expandir colonatos na Cisjordânia. Isto enfraquece a Autoridade Palestiniana e reforça o Hamas. Gaza tornou-se na maior prisão do mundo mas nada nos pode afastar dos nossos irmãos na Cisjordânia – somos um só povo.”

zzeldin Abuelaish with daughters, Shatha, left, and Dalal, May 30 at the first Daughters for Life gala. ©Asad Rahman

Izzeldin Abuelaish com as suas filhas Shatha (esq.) e Dalal, que fazem parte da direcção (não remunerada) da Fundação Daughters for Life, criada pelo médico em homenagem às suas outras três filhas mortas em Gaza em 2009
© Asad Rahman

“Em 2006, a Autoridade Palestiniana opunha-se à realização de eleições e os Estados Unidos impuseram-nas”, recordou Abuelaish. “As eleições foram consideradas livres – observadores europeus comprovaram. Os palestinianos elegeram os seus representantes, o Hamas, mas a comunidade internacional rejeitou-os.”

“No entanto, alguém rejeitou o Governo israelita que é composto por dois partidos de extrema-direita, a Casa Judaica, de Naftali Bennett e Ayelet Shaked, e o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman, que advogam a limpeza étnica dos palestinianos?”

“Por que é que esta liberdade é concedida a Israel e não aos palestinianos? Não pode haver dois pesos e duas medidas no que se refere à justiça. Logo após a vitória do Hamas foram impostas sanções aos palestinianos. Isto é inaceitável.”

“E o mundo tem de perceber isso. Os meus amigos israelitas não deviam ficar silenciosos. Como disse Martin Luther King, ‘tudo o que é necessário para que o mal triunfe é que os homens nada façam’ [esta citação é atribuída ao político, escritor e filósofo irlandês William Burke, 1729-1797].

Abuelaish tem muitos amigos israelitas. Foram eles que lhe deram o primeiro emprego fora de Gaza, aos 15 anos, na Moshav (cooperativa) Hodaia. Durante 40 dias, trabalhou das seis da manhã às 20h00, no Verão.

A família Madmoony, de origem sefardita, tratava-o “com carinho”. Mais tarde, foi operário da construção civil, na cidade de Ashqelon, mas nunca deixou de estudar. Em 1975, concluído o liceu, seguiu para a Universidade do Cairo, graças a uma bolsa.

Nessa altura era livre o movimento de pessoas e bens entre Gaza e o Egipto. Em 1983, finalizou o mestrado em Medicina e retornou a Gaza para exercer a profissão em hospitais locais.

Em 1987, tendo juntado dinheiro em Jidá, na Arábia Saudita, onde trabalhou numa maternidade, Abuelaish casou-se com Nadia – no campo de Jabalyia.

A primeira filha, Bessan, nasceu em 1988, no mesmo ano em que ele ingressou no Instituto de Obstetricia da Universidade de Londres, para outro mestrado, com bolsa, sobre as causas da infertilidade.

Posteriormente, na sua clínica privada em Gaza, reparou que os principais livros sobre a sua área eram de professores israelitas na Universidade de Ben-Gurion, em Beersheba: Bruno Lunenfeld e Vaclav Insler. Telefonou-lhes e levou até eles pacientes palestinianos.

Eles apresentaram-no a Marek Glezerman, na altura presidente do Departamento de Ginecologia do Hospital de Soroka. A partir daqui, desenvolveu-se a amizade entre ambos e Abuelaish tornou-se no primeiro médico palestiniano aceite como quadro de um grande hospital israelita (de 1997 a 2002).

A especialidade foi sendo aperfeiçoada noutros países, como a Itália e a Bélgica. Completou ainda um mestrado em Gestão de Saúde na Universidade de Harvard (EUA).

Foto da família Abuelaish. A partir da esquerda estão os oito filhos do médico de Gaza Mayar (morta no ataque israelita em 2009), Etimad, Bessan (morta em 2009), Shatha, Abdullah, Aya (morta em 2009), Raffah e Dalal. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Foto da família Abuelaish. A partir da esquerda estão os oito filhos do médico de Gaza Mayar (morta no ataque israelita em 2009), Etimad, Bessan (morta em 2009), Shatha, Abdullah, Aya (morta em 2009), Raffah e Dalal
© pressherald.com

Em 2009, quando a Faixa de Gaza foi encerrada para mais uma operação militar instigada pelos rockets do Hamas, Abuelaish serviu de “fonte” de muitos jornalistas.

Tornou-se amigo de Shlomo Eldar, repórter do Canal 10 da de TV israelita. Foi a ele que telefonou quando duas bombas caíram sobre a sua residência, onde viviam 22 pessoas, e mataram as suas três filhas, Bessan, Mayar e Aya, e a sobrinha Ghaida.

Uma quarta filha, Shatha, perdeu um olho e ficou parcialmente cega. Nesse dia 16 de Janeiro, quando o viu a chorar, o filho mais novo deu-lhe coragem para se dedicar aos sobrevivente: “Não deves estar triste, pai; elas vão para junto da mãe”. Nadia tinha morrido meses antes de leucemia. Abuelaish ficou com cinco filhos para criar (duas raparigas e três rapazes).

Eldar estava em estúdio a entrevistar Tzipi Livni, actual ministra da Justiça, quando notou que Abuelaish estava a ligar. Não atendeu. No intervalo da emissão, o telemóvel voltou a tocar e decidiu ouvir, como se pressentisse algo de errado.

Abuelaish gritava: “O que é que vocês fizeram às minhas filhas?” O jornalista colocou-o em alta voz, virou o telefone para a câmara e respondeu: “Diz-me onde elas estão que envio uma ambulância à tua casa”.

Do outro lado da linha, o ‘médico de Gaza’ não continha as lágrimas: “Elas foram mortas, Shlomi”.

Abuelaish, um muçulmano devoto, recebeu incontáveis mensagens de apoio de muitos judeus israelitas. Foram os seus amigos que o fizeram sair de Gaza e convenceram a mudar-se para o Canadá. Aqui, em Toronto, criou a Fundação Daughters for Life, em homenagem às suas filhas.

É uma instituição que concede bolsas de estudo a jovens do Médio Oriente – incluindo israelitas –, porque “a educação das mulheres garante o futuro da Humanidade”, como salientou nesta entrevista.

my son Mohammed said to me: 'Why are you crying? You must be happy.' 'Happy for what?' I asked. 'Because my sisters are with their mum,' he told me. It came as a message: this 12-year-old boy telling me to move forward. I was saved, and now it was my job to save others. I could have been killed, too, so very easily, and then no one would have known our story." © Ben Curtis/AP Photo (The Guardian)

Izzeldin e o seu filho Mohammed depois do ataque em que perdeu as filhas, em 2009. Numa entrevista ao diário britânico The Guardian, o médico de Gaza contou uma conversa entre ambos. “Por que choras? Devias estar feliz”, disse o rapaz, com 12 anos O pai respondeu: “Feliz porquê?” E o menino retorquiu: ” Porque as minhas irmãs estão a com a mãe”, que meses antes morrera de cancro
© Ben Curtis | AP Photo

O apoio que Abuelaish recebeu de anónimos cidadãos israelitas também o faz acreditar ainda em dois Estados, o de Israel e o da Palestina. “Se o Governo de Benjamin Netanyahu quer esta solução de tem de acabar com a expansão dos colonatos, que são ilegais e serão sempre ilegais”, declarou. “Se está a inviabilizar esta solução, tem de ser responsabilizado.”

Infelizmente para Abuelaish, o Governo federal em Otava, dirigido [em 2014] pelo conservador Stephen Harper, é um aliado incondicional de Netanyahu e está a inviabilizar uma iniciativa que conta com o apoio das autoridades provinciais de Ontário, para que 100 crianças palestinianas gravemente feridas sejam tratadas no Canadá.

[Em 2015, com o trabalhista Justin Trudeau na chefia do Governo do Canadá, Abuelaish, professor associado na Dalla Lana Scool of Public Health na Universidade de Toronto, viu alguns dos seus sonhos realizados: obteve cidadania canadiana, ao fim de seis anos no país, na mesma altura em que chegava um primeiro avião com refugiados sírios.]

Apesar dos obstáculos, Abuelaish imagina israelitas e palestinianos juntos a pressionarem uma mudança de líderes: “Acho isso possível, porque não acredito em impossibilidades. É possível vivermos juntos, com respeito e compreensão mútuos – e em igualdade. Não há outra via. Israelitas e palestinianos são como gémeos siameses. Não se pode separá-los.”

“Nunca deixarei que o veneno do ódio me invada ou se aproxime de mim. Se eu quiser viver bem tenho de estar saudável, física e mentalmente. O ódio é uma doença a que eu resisto”, concluiu. “Acredito no que faço, porque a Medicina tem um rosto humano.”

“Não há diferenças entre israelitas e palestinianos quando estão num hospital. Todos são iguais. Sempre trabalhei no interesse dos meus pacientes. Quando ajudo um casal israelita ou um casal palestiniano a terem filhos fico feliz, porque quando os seus bebés choram ao nascer não há diferenças entre eles.”

Izzeldin Abuelaish, na sua nova casa em Toronto (Canadá), em Dezembro de 2010, o ano em que processou judicialmente o Estado de Israel pelas mortes das suas filhas, no ano anterior, durante um ataque aéreo em Gaza. © Andrew Wallace | Toronto Star

Izzeldin Abuelaish, na sua casa em Toronto, em Dezembro de 2010, o ano em que processou judicialmente  Israel pelas mortes das filhas, durante um ataque aéreo em Gaza
© Andrew Wallace | Toronto Star

Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente na edição de Outubro de 2014 da revista “Além-Mar” | This article, under a different titlle, was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, October 2014 edition

De candidato a jihadista a muçulmano punk

O americano Michael Muhammad Knight converteu-se ao Islão aos 17 anos. Numa madrassa em Islamabad quis ir combater para a Tchetchénia. Convenceram-no a mudar de rumo. De regresso aos EUA, afrontou o establishment muçulmano com uma particular “religião punk-rock”. Falámos com este antigo aluno de Harvard e lemos os seus livros em busca de respostas para o que motiva jovens a alistar-se no “estado islâmico”. Esta é a sua história. (Ler mais | Read more…)

Michael Muhammad Knight é hoje um líder muçulmanos que inspira novas gerações na América. © Michael Muhammad Knight

Michael Muhammad Knight inspira novas gerações de muçulmanos na América
© Cortesia de | Courtesy of Michael Muhammad Knight

Calvin Sherrad Unger, o avô de Michael Muhammad Knight, nasceu no dia de Natal em 1895, em Berkeley Springs, no estado americano da Virgínia Ocidental. Casou-se com Maude, rapariga da terra, e deixou-a grávida para ir combater na I Guerra Mundial. A sogra de Calvin não aceitou a união com um homem de classe baixa. Depois de ela dar à luz, em casa, imediatamente esmagou o crânio da criança recém-nascida contra uma cadeira.

No Verão de 1920, também Maude morreu. Cinco meses depois, Calvin casou-se com Martha Irene Bishop, de 16 anos. Quando não trabalhava nas minas no Condado de Morgan, o avô de Michael pregava os Evangelhos pelas ruas. Ascendeu a ministro pentecostal e passou a realizar baptismos no rio Cacapon.

Entre 1921 e 1947, Martha teve 20 filhos: 12 raparigas e oito rapazes. Para os dominar, o patriarca da família ameaçava: “Se não comeres a sopa, o Diabo leva-te”. Ia mais longe, fazendo-os acreditar que os fornos de carvão, na cave, conduziam directamente ao fogo do Inferno.

Com uma trabalhosa descendência, Calvin e Martha delegaram nos filhos mais velhos o cuidado pelos mais novos. Um deles era Wesley Calvin Unger, que foi criado pelas irmãs, uma das quais o acusou de a ter violado.

Aos 14 anos, Wesley viu o irmão David, de 6, perder a vida, atropelado por um camião. Dois anos depois, a mãe morreu de desgosto. Calvin voltou a casar-se, e a terceira mulher tentou convencê-lo de que Wesley era o “próprio Diabo”.

Quando o ambiente se tornou insuportável, Wesley passou a viver num carro, no parque de estacionamento da igreja. Inscreveu-se no exército, para fugir de Berkeley Spring. Aos 17 anos, foi enviado para a Coreia, onde “algo aconteceu”.

Circulavam várias histórias. Que testemunhara um massacre de crianças refugiadas às mãos dos norte-coreanos. Que o seu cérebro ficara afectado por um ataque com armas químicas. Que sofrera um acidente e ficara com danos neurológicos.

Wesley nada revelou. Certo é que terminou o serviço militar “com honra”, e passou a receber um subsídio de 211 dólares por mês como veterano deficiente de guerra.

Knight provém de uma família onde se misturam religião e violência. Um dos seus livros autobiográficos é Journey to the End of Islam. © Michael Muhammad Knight

Michael Muhammad Knight provém de uma família onde se misturam religião e violência. Ele narra vários dramas que, em parte, contribuíram para a sua conversão em livros autobiográficos como Journey to the End of Islam
© Cortesia de | Courtesy of Michael Muhammad Knight

Finda a tropa, o comportamento de Wesley tornou-se mais alucinatório, explicado por um diagnóstico de esquizofrenia e abuso de estupefacientes. Instalou-se numa zona de caravanas em Titusville (Florida).

Uma tarde, viu uma garota de 19-20 anos, uma década mais nova, atravessar a rua com dois sacos de mercearia. Travou a fundo o seu “T-Bird” (Ford Thunderbird) amarelo e ilegal, com matrícula de 1963. Abriu-lhe a porta do carro. Ela entrou, sem resistência.

Assim se conheceram Wesley e Susan (que o futuro marido trataria por “Jodie”), os pais de Michael William Unger, nascido em Geneva, cidade do estado de Nova Iorque, onde viviam os avós maternos, de origem irlandesa. Foram eles que o baptizaram, como católico, aos 7 anos.

Paranóico, alcoólico e violento, Wesley tentou decapitar o filho e espancava a mulher, até ela conseguir que a Polícia o prendesse. Tudo isto consta de uma autobiografia, The Impossible Man, e ajuda a compreender por que Michael Muhammad Knight empreendeu uma “viagem até ao fim do Islão” (título de um outro livro).

Depois de Wesley Unger e antes do motard Bill Schutt, o segundo marido da mãe com quem aprendeu a gostar de wrestling, Michael imaginou-se um jedi como Luke Skywalker, combatente pela justiça e liberdade. Em comum, ambos tinham, como pai, um sinistro Darth Vader.

Os heróis que se seguiram foram o raper MC Hammer e o grupo Public Enemy, com a sua “entourage paramilitar, uniformes e boinas pretas ao estilo dos Panteras Negras, e um vocalista, Chuck D., vangloriando-se de que a sua [metralhadora] Uzi pesava uma tonelada”.

A canção dos Public Enemy favorita de Michael era Black Steel in the Hours of Chaos . Ouvia-a até se gastarem as pilhas do seu Walkman. Sabia a letra de cor:

I got a letter from the Government, the other day

I opened and read it, it said they were suckers

they wanted me for their army or whatever

picture me giving a damn

I said never

Uma noite, em 1992, Michael passou pela secção de livros de um supermercado e retirou da prateleira A autobiografia de Malcolm X. Já tinha ouvido falar que esta obra servira de base ao biopic realizado por Spike Lee, mas não fazia ideia de quem se tratava.

Rapidamente se sentiu atraído pelas ideias do activista dos direitos dos afro-americanos cujo pai fora assassinado por supremacistas brancos (como era Wesley Unger) do Ku Klux Klan (KKK).

“Malcolm X e Public Enemy inspiraram-me a prosseguir o meu conhecimento, a pensar por mim próprio e a questionar as narrativas que me haviam ensinado” diz-me Knight, numa entrevista por Facebook.

Um dos mais notáveis líderes do movimento Nation of Islam (Nação do Islão), Malcolm X tornar-se-ia depois um dos mais críticos. Três antigos correligionários mataram-no em 1966, quando ele abandonou a organização.

Para Michael Knight, quando Malcolm dizia que “os brancos são o demónio” não era ele quem falava mas a Nation of Islam, “coisa diferente”. A transformação, referiu, deu-se em Meca, “quando viu que todos rezavam juntos, incluindo muçulmanos brancos.”

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Em Blue-Eyed Devil (“O Diabo de olhos azuis”), outro dos seus livros, Knight admite que os negros representam “quase metade da população muçulmana dos EUA”, enquanto os muçulmanos brancos (1%) “continuam a ser um “mutante cultural que ainda exige explicação”.

Reconhece que quando entra numa mesquita “ninguém se convence” que ele é muçulmano. Pode até cumprimentar os “irmãos” com a tradicional saudação em árabe as-salamau alaikum (a paz esteja convosco), mas obterá como resposta um “educado hello”.

Seja como for, aos 16 anos, Michael estava determinado a seguir os passos de Malcolm X e, nesse processo, teve a seu lado a pessoa que mais admirava, e encorajava, a sua procura de conhecimento. “A minha mãe conduziu-me até à mesquita e testemunhou a minha conversão”, exulta, nesta entrevista. “Ela apoiou-me incondicionalmente.”

Foi no Centro Islâmico de Henrietta, subúrbio de Rochester, estado de Nova Iorque, que Michael proclamou a Shahadah (profissão de fé): “Há um só Deus e Maomé é o seu Profeta”. Foi aqui que o seu nome do meio passou a ser Muhammad. E foi aqui que o convidaram para participar num “campo de férias” no Paquistão.

O bilhete de avião e o alojamento foram pagos pela Academia Daw’ah. Esta faz parte da Universidade Islâmica Internacional, com base na Mesquita Faisal, em Islamabad, financiada pela Arábia Saudita – bastião da rígida doutrina wahabita seguida pela velha al-Qaeda e pelo novo “Exército Islâmico” (EI).

O Paquistão governado pela primeira-ministra Benazir Bhutto (assassinada em 2007) estava repleto de refugiados muçulmanos de várias guerras, do Afeganistão à Somália. Todos os dias, depois das aulas, Michael e os seus colegas acompanhavam, pelos noticiários da CNN, a insurreição na república separatista russa da Tchetchénia.

Observou o converso: “Era inacreditável, e certamente uma glória para o Islão, que aqueles pobres rebeldes, poucos em número e sem recursos – ainda menos do que os afegãos [que derrotaram os invasores soviéticos na guerra de 1979-1989] – pudessem talvez ganhar a liberdade na luta contra o império kafir [infiel] russo.”

os 16 anos, Michael estava determinado a seguir os passos de Malcolm X e, nesse processo, teve a seu lado a pessoa que mais admirava, e encorajava, a sua procura de conhecimento. “A minha mãe conduziu-me até à mesquita e testemunhou a minha conversão”, exulta, nesta entrevista. “Ela apoiou-me incondicionalmente.” ©

Aos 16 anos, Michael Knight estava determinado a seguir os passos de Malcolm X e, nesse processo, teve a seu lado a pessoa que mais admirava, e encorajava, a sua procura de conhecimento. “A minha mãe conduziu-me até à mesquita e testemunhou a minha conversão. Ela apoiou-me incondicionalmente”
© Cortesia de | Courtesy of Michael Muhammad Knight

Naquela altura, tal como acontecia em relação ao Afeganistão sob domínio das autoridades comunistas de Moscovo, muitos muçulmanos ofereciam-se como voluntários para apoiar a guerrilha no Cáucaso do Norte.

Michael, que havia lido a história do Imã Shamil (1797-1871), líder político e religioso da resistência anti-russa naquela região, sentiu subitamente um impulso para se juntar aos “jihadistas” tchetchenos.

Certa noite, o americano foi bater à porta de Siddique, um dos companheiros, e disse-lhe: “Acho que que quero ir para a Tchetchénia”. A resposta à pergunta “para quê?” foi: “Não sei. Talvez estando eu aqui tão perto eu possa ter a oportunidade de ajudar.”

Siddique replicou: “É maravilhoso que queiras ajudar os teus irmãos, mas tens mais a oferecer do que ir para a Tchetchénia.” Michael retorquiu: “Mais do que as minhas mãos? Se virmos algo de errado, temos de corrigir isso primeiro com as mãos”.

Siddique acrescentou: “Seja quais forem os teus talentos, podes usá-los ao serviço do Islão. Todos os homens têm mãos mas nem todos têm cérebro. Para alguém como tu, ir para a frente de batalha e tornar-se mais um cadáver na vala é quase uma ingratidão para com Alá. Ele deu-te um dom e tu estás a desperdiçá-lo. Sabes por que estás aqui? A comunidade [muçulmana em Rochester] é 85% paquistanesa. Tu vieste para conhecer a cultura, aprender algum Urdu, entender o sentido de humor e saber como tolerar as especiarias na comida, porque tu tens um futuro na mesquita.”

O Centro Islâmico em Rochester estava dividido em facções, como se lê em The Impossible Man. Os paquistaneses queriam “controlar por serem a maioria”; os árabes porque “tinham dado o dinheiro”; os afro-americanos porque “achavam que era o seu país”.

Para Siddique, Michael não era uma ameaça por “ser branco, quase neutral”. E foi assim que o filho de Sue escapou à jihad.

“Os seres humanos são complicados e as suas motivações são complexas”, observou Michael quando o inquirimos sobre o que leva jovens da Europa à Austrália a alistar-se num movimento como o “Estado Islâmico”, cuja marca registada está a ser a decapitação de “inimigos”, sejam jornalistas ou crianças.

“Eu não represento uma teoria universal sobre nada. Interessa-me apenas que deixemos de pensar sobre os muçulmanos como gente que age apenas por motivos religiosos. Os muçulmanos são seres humanos.”

Eu cresci num país que glorifica o sacrifício militar e sente ter o direito de reconstruir outras sociedades de acordo com a sua própria visão. Eu interiorizei esses valores muito antes de pensar em religião. Ainda sem sequer saber o que era um muçulmano, quanto mais conceitos como jihad ou ‘estado islâmico’, a minha vida americana ensinou-me que é isso o que homens corajosos fazem.” ©

“Cresci num país que glorifica o sacrifício militar e sente ter o direito de reconstruir outras sociedades de acordo com a sua visão. Interiorizei esses valores muito antes de pensar em religião”, diz Knight. “Ainda sem sequer saber o que era um muçulmano, quanto mais conceitos como jihad ou ‘estado islâmico’, a minha vida americana ensinou-me que é isso o que homens corajosos fazem”
© Cortesia de | Courtesy of Michael Muhammad Knight

Num artigo de opinião publicado pelo diário The Washington Post, Michael Knight, lamentou que os media “tracem frequentemente uma linha clara entre categorias imaginadas de muçulmanos ‘bons’ e ‘maus’ . (…) Os meus irmãos no Paquistão disseram-me que a violência não era o melhor que eu tinha para oferecer.”

“Outros jovens na minha situação terão recebido conselhos diferentes. É fácil presumir que pessoas religiosas, em particular muçulmanos, façam coisas só porque a sua religião lhe diz para o fazerem. Mas quando eu penso no meu impulso, aos 17 anos, de fugir e ser um combatente ao lado dos tchetchenos, tenho de considerar mais do que factores religiosos.”

“O meu cenário imaginado de libertar a Tchetchénia e de a transformar num Estado islâmico era uma fantasia puramente americana, assente em ideais e valores americanos. Sempre que ouço de falar de um americano que atravessa o mundo para se envolver em lutas pela liberdade que não são suas, penso, Que maneira tão, tão americana de agir.”

“E é esse o problema”, adiantou. “Somos educados para amar a violência e ver a conquista militar como acto benevolente. O garoto americano que quer intervir na guerra civil de uma outra nação deve a sua visão do mundo tanto ao excepcionalismo americano como às interpretações jihadistas das escrituras. Eu cresci num país que glorifica o sacrifício militar e sente ter o direito de reconstruir outras sociedades de acordo com a sua própria visão.”

“Eu interiorizei esses valores muito antes de pensar em religião. Ainda sem sequer saber o que era um muçulmano, quanto mais conceitos como jihad ou ‘estado islâmico’, a minha vida americana ensinou-me que é isso o que homens corajosos fazem.”

Depois da sua primeira visita ao Paquistão e de regresso à América, Michael Muhammad Knight começou a ficar desiludido com a ortodoxia sunita, e irritou muita gente no establishment representado pela Sociedade Islâmica da América do Norte. Em 2004, chegou a compará-la ao antigo Presidente George W. Bush, porque ambos “são antiaborto, anti-gays e fazem com que o Islão normativo seja tão duro e pérfido como a Cristandade.”

A fé de Michael não tem fronteiras, como ele deixa claro em Journey to the End of Islam: “Na baixa de Manhattan [em Nova Iorque], visito ordens sufis; mais acima, no Harlem, convivo com os Five Percenters, para quem o homem negro é Alá [uma organização dissidente da Nation of Islam para a qual “só 5% da Humanidade que conhece a verdade sobre a existência está determinado a iluminar os 85% que a ignoram; há 10% que conhecem mas interessa-lhes manter a ignorância”].”

“Em Brooklyn, o meu Islão torna-se indiano quando Sadaf [a sua mulher] compra CD de qawwalis [estilo de música sufi, um dos seus grandes expoentes foi Nusrat Fateh Ali Khan]. Ela usa um versículo corânico no seu colar, um tradição na Ásia do Sul, mas desencorajada na Arábia Saudita pela polícia religiosa.”

“O Islão dela é tão social quanto espiritual. (…) A família dela é sunita, mas no período de Ashura [mês de luto pelo assassínio de Hussein, filho do Imã Ali] eu junto-me aos xiitas no Jamaica, [bairro de classe média nova-iorquino de] Queens. (…) Quando rezo numa mesquita onde as mulheres não são autorizadas a entrar na principal sala de orações, ela espera na rua por mim; mas na mesma cidade eu tenho rezado lado a lado com mulheres, algumas delas liderando a prece de sexta-feira.”

Para Michael Muhammad Knight, a sua relação com o Islão “só encaixa na América onde não existe polícia religiosa nem leis de apostasia para impor a crença dos governantes aos outros.” E adianta: “Prefiro ser um xiita em Nova Iorque do que no Cairo, ou um sunita em Nova Iorque do que em Teerão. Prefiro ser um Ahmadi [subseita muçulmana considerada herege, sobretudo no Paquistão] em Nova Iorque do que em Lahore; e prefiro ser um sufi em Nova Iorque do que em Meca.”

Houve um tempo em que Knight também disse que “a América poderia, até certo ponto, salvar o Islão”. Inquirimos a este respeito, e ele já não pensa deste modo. “Não creio que a América possa salvar o Islão”, frisou.

“Já ultrapassei esta atitude nacionalista e xenófoba americana em relação ao Islão. Não acredito numa versão americana do Islão que possa ser redentora para os muçulmanos em todo o mundo. Nos EUA o Islão não está afastado da política. Se o Islão precisa de ser ‘salvo’, esta salvação não pode vir de um império que laça bombas [com drones sobre o Afeganistão, por exemplo] sobre crianças muçulmanas.”

Quanto ao “estado islâmico” ou Daesh, e ao anúncio do Presidente Barack Obama de que vai envolver os EUA numa ampla coligação militar para destruir aquele grupo, Knight evitou responder. “Não me interessa agir como analista sobre o ISIS [uma das siglas usadas para o EI] ou sobre os contextos militares no terreno, seja no Iraque ou em qualquer outro país”, declarou.

Ao contrário da al-Qaeda, que aposta numa guerra permanente dentro e fora da sua área de operações, o Daesh parece mais interessado em estabelecer uma “entidade territorial viável”, como notou o cientista político Mouin Rabbani.

O Daesh controla zonas significativas da Síria e do Iraque, de onde expulsou ou mantém em regime de escravatura minorias religiosas, funcionando como uma administração de facto. Um dos estudos mais aprofundados, da autoria de Peter Harling, do International Crisis Group, pode ser lido aqui:

Quanto a Michael Muhammad Knight parece ter seguido o conselho de Siddique. Depois de um mestrado na Universidade de Harvard, prossegue os Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

Os seus livros que, a princípio, eram distribuídos quase clandestinamente como fotocópias, tendo sido censurados e confiscados (em Singapura, por exemplo), são agora estudados nas escolas americanas. O mais célebre e controverso é The Taqwacores, centrado num grupo de muçulmanos punk que partilha uma casa em Buffalo (Nova Iorque). Na sala-de-estar, que serve para rezas e festas, há drogas e sexo.

O livro deu origem a uma nova forma de música – a taqwacore, combinação de hardcore e taqwa (termo árabe para “piedade”). Um dos grupos que se tornou no símbolo destes novos ritmos é The Kominas.

No final da entrevista, pedimos a Michael Muhammad Knight que comente o seguinte lamento inscrito em The Taqwacores: “Reduzimos a nossa religião a fuckin’ academics”.

O americano convertido escreveu: “O treino académico dá-nos as ferramentas para ler mais além e desconstruir a nossa religião, mas não nos permite a sua reconstrução. Para mim, há mais na religião do que o texto. Há também as experiências vividas, Por isso, às vezes preciso retirar [a religião] da minha cabeça e tentar senti-la.”

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Este artigo foi originalmente publicado no REDE ANGOLA, em 30 de Setembro de 2014 | This article was originally posted on the news website REDE ANGOLA, on September 30, 2014

The odd alliance between a “good spy” and a “red prince”

Kai Bird is the author of The Good Spy: The Life and Death of Robert Ames, a brilliant biography of “one of the most important operatives in CIA history”. When the war was cold and the PLO a hot devil, “Bob” managed to establish a singular friendship with Ali Hassan Salameh, the allegedly political heir of Yasser Arafat. Had Ames lived, according to the Pulitzer Prize-winning historian, “he might have helped heal the rift between Arabs and the West”. Salameh and Ames were both killed in Beirut: one by the Mossad and the other by the Hezbollah. (Read More…)

CIA operative Robert Ames is the protagonist of another biography by historian Kai Bird
© bbcimg.co.uk

Co-author with Martin J. Sherwin of the Pulitzer Prize-winning biography, American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer (2005), which also won the National Book Critics Circle Award for Biography and the Duff Cooper Prize for History in London.

Kai Bird also wrote The Chairman: John J. McCloy, the Making of the American Establishment (1992) and The Color of Truth: McGeorge Bundy & William Bundy, Brothers in Arms (1998). He is also co-editor with Lawrence Lifschultz of Hiroshima’s Shadow: Writings on the Denial of History and the Smithsonian Controversy (1998).

The reviews of The Good Spy have been invariably of praise. In his website, Bird calls our attention to the one by Seymour Hersh, Pulitzer Prize-winning author of The Price of Power, The Dark Side of Camelot, and Chain of Command, who said: 

-“Kai Bird has produced a compelling and complex narrative that must be read on many levels – including as a detailed account of the immense influence that a truly good man can have on an agency as cynical as the CIA, and as a reminder of a myriad of losses. Robert Ames did not live long enough to get what he most desperately wanted -a real peace in the Middle East. And America’s intelligence agencies no longer seem as welcoming to agents with the wisdom, vision and integrity that Ames exemplified.”

Kai Bird gave me this email interview for a longer article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, for which he was a correspondent in Washington D.C.,  reporting in the mid-1980s.

A new war in the Middle East is looming on the horizon. How do you think Robert Ames would act in face of the Islamic State’s threat to the region and to the rest of the word?

Robert Ames was a good spy because he knew how to listen to people. We cannot know what he would have thought of the current crisis. But I would like to think that he would have been highly skeptical of all those “experts” in America today who are urging a reluctant, cautionary President [Barack] Obama to intervene militarily.

Ames knew enough to understand that the Middle East is a complicated crossroads of religious and tribal politics. And I rather think that this knowledge would have persuaded him that America should avoid yet another war in the Middle East.

Ali Hassan Salameh (center), with Yasser Arafat (right) who designated him head of the Force 17 of the PLO, was known as “the red prince”. A friend of CIA operative Robert Ames, he was killed by the Mossad in Beirut
© alchetron.com

You argue that Ames’s work paved the way to the 1993 Oslo Accords and that, had he lived, he might have “helped heal the rift between the Arabs and the West” (thanks to his friendship with the “red prince” Ali Hassan Salameh, chief of Force 17, intelligence unit of the PLO, killed by the Mossad in Beirut). How could that be possible if it remains “an unchangeable and indisputable fact” what Ames acknowledged during his CIA’s tenure: “I guess if the Israelis lead us right into WWIII, we [Americans] still won’t put pressure on them”?

I argue in The Good Spy that Ames’s clandestine diplomacy with the PLO planted the seeds for Palestinians and Israelis to begin talking about a two-state political compromise to this conflict. But it is also true that Ames was highly frustrated by his growing realization that U.S. foreign policy in the Middle East was not even-handed.

Iran is pointed as the architect of the attack that killed the “good spy”, but Iran is now, apparently, coordinating with the US a military campaign against this so-called “Islamic Army”. As a historian, how do you assess the tangle of new and old alliances in the Middle East post-Ames?

One of my own frustrations as a historian is to realize that very few people learn from history. So we Americans seem unable to learn that our countless interventions in the Middle East have invariably exacerbated things. The 2003 Iraq war is only the most egregious example of this kind of ‘blow-back’.

Yes, things are now a bloody mess. And no doubt there will be more wanton violence. But I am certain that the religious fundamentalism and despicable violence branded by ISIS is a momentary phenomenon. ISIS is only filling a political vacuum—and it will be defeated by its own numerous and quite indigenous enemies.

During your research project which were the “secrets” that dazzled you most? And how different would your book be if you could have had access to information still classified by the agency?

I would like to think that The Good Spy shows my readers what it is really like to be a spy. It demystifies the profession. My other books have been critical of the CIA. But I learned from Robert Ames’s life that sometimes a CIA clandestine officer can go where a normal diplomat is barred.

He can talk to ‘bad guys’ with guns—and try to understand what motivates them to take up the gun. A good spy can learn about human motivation and intentions. And that is an invaluable piece of intelligence. My biography of Ames could have been enriched if the CIA had agreed to declassify some of Ames’s memorandums and cables. But they refused my requests.

Kai Bird, the author of The Good Spy © All Rights Reserved

Kai Bird, the author of The Good Spy
© All Rights Reserved

Parts of this interview were included in an article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 27, 2014

A amizade improvável entre o “bom espião” e o “príncipe vermelho”

Robert Ames, o protagonista de mais uma biografia do historiador americano Kai Bird © The Nation

Robert Ames, o protagonista de mais uma biografia do historiador americano Kai Bird
© The Nation

A 13 de Setembro de 1993, enquanto Bill Clinton empurrava Yitzhak Rabin e Yasser Arafat para um aperto de mão, nos jardins da Casa Branca, um grupo de operacionais da CIA concentrou-se no Cemitério Nacional de Arlington, na capital dos Estados Unidos.

Desgostosos por não terem sido convidados a testemunhar a assinatura dos Acordos de Oslo, deslocaram-se à campa de Robert Ames para homenagear o agente “que iniciou o processo de paz”.

Assim começa The Good Spy (“O Bom Espião”), da autoria de Kai Bird, o historiador que, em 2006, dividiu o distinto Prémio Pulitzer com Martin J. Sherwin, graças a outra biografia, American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer.

Se o retrato do “pai da bomba atómica” é um livro magistral, a obra dedicada a Robert (Bob) Ames é tão extraordinária quanto a vida e a morte do “Lawrence da Arábia americano”.

Bird, filho de um diplomata americano, tinha 12 anos quando conheceu Bob. Foram vizinhos em Dhahran, na Arábia Saudita, quando o agente da CIA se fazia passar por “adido comercial”. Inicialmente, a intenção do autor era apenas escrever sobre o atentado que, em 1983, destruiu a Embaixada dos EUA em Beirute, onde Bob haveria de morrer.

Foi só quando reencontrou Yvonne Ames que Bird se deu conta de que poderia ir mais além. A viúva e os seis filhos de Bob colocaram ao seu dispor mais de 150 páginas de cartas e várias fotografias. Antigos colegas e outras fontes também quiseram revelar segredos com mais de três-quatro décadas.

Ficamos assim a saber que Ames, nascido em 1935 num subúrbio de classe operária em Filadélfia, começou a gostar de dois mundos, o árabe e o da espionagem em 1956, quando o Exército o colocou num posto de escuta da National Security Agency (NSA) na Eritreia.

Após o serviço militar, chumbou no exame para entrar no Foreign Service mas, em 1961, foi aceite na CIA, com a responsabilidade de recrutar agentes estrangeiros. O Médio Oriente tornou-se no seu campo de acção – do Iémen ao Kuwait, do Líbano ao Irão.

Ali Hassan Salameh, conhecido como "príncipe vermelho,", aos 27 anos, em Beirute, quando dirigia a Força 17, unidade de serviços secretos da OLP. © As-Safir

Ali Hassan Salameh, conhecido como “príncipe vermelho,”, aqui aos 27 anos, em Beirute, quando dirigia a Força 17, “unidade de elite” dos serviços secretos da OLP
© As-Safir

Ames apaixonou-se pelos árabes, a sua cultura e língua (que falava fluentemente), e era inegável que simpatizava com “causa palestiniana”. Um dos principais núcleos da narrativa de Bird –antigo correspondente do Expresso em Washington – assenta na relação singular entre Bob e Ali Hassan Salameh, chefe da Força 17, em tempos descrita como “unidade de elite” dos serviços secretos da OLP.

Conhecido como “príncipe vermelho”, pela fama e proveito de playboy, Ali Salameh nasceu em 1942, em Bagdad (Iraque), lugar de refúgio quando o Mandato Britânico da Palestina ofereceu uma recompensa pela captura do seu pai, o lendário Sheikh Hassan.

Foi depois de um combate com a milícia judaica Irgun, liderada por Menachem Begin (perseguido pelos ingleses como terrorista), que Hassan morreu, vítima de ferimentos de balas, em 2 de Junho de 1948. Tinha 37 anos.

Também Salameh seria morto aos 37 anos, em 1979, na sequência de uma ordem de Begin (já primeiro-ministro), que não desistira de eliminar os suspeitos do massacre de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972.

Bird dá a entender que Munique não foi única razão para a Mossad matar Salameh, ao fazer explodir um carro armadilhado quando ele e os guarda-costas seguiam por uma rua de Beirute. O motivo principal terá sido a relação privilegiada que Ames estabelecera com o presumível herdeiro de Arafat.

Embora sendo duas personalidades opostas (o “espião” era um marido fiel a Yvonne enquanto o “príncipe” não escondia as amantes e era casado com duas mulheres), Ames e Salameh conseguiram que a OLP fosse, indirectamente, “ouvida” pelo Presidente dos EUA. Em tempo de Guerra Fria, isto era uma heresia, para Israel.

A Mossad inquiriu a CIA sobre se Salameh era um “colaboracionista”. Esse “estatuto” ter-lhe-ia salvo a vida. A Agência guardou silêncio, e Salameh não aceitou o conselho de Ames para se deixar proteger. Sabia que estava condenado à morte –mas jamais por “traição”.

Salameh, que Ames conheceu através do xiita libanês Mustafa Zein (outra figura relevante no livro de Bird), recusou sempre ser pago pela CIA. E recebeu propostas de alguns milhões de dólares.

O único presente que aceitou, de Bob, foi uma viagem à Disneylândia e ao Hawai, na companhia da sua segunda mulher, a libanesa Georgina Rizk, Miss Universo 1971.

O único presente que aceitou, de Bob, foi uma viagem à Disneylândia e ao Hawai, na companhia da sua segunda mulher, a libanesa Georgina Rizk, Miss Universo 1971. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O único presente que Ali Hassan Salameh aceitou de Bob Ames foi uma viagem à Disneylândia e ao Hawai, na companhia da segunda mulher, a libanesa Georgina Rizk, Miss Universo 1971

Ames estava a par de que Salameh planeava actos terroristas, mas nunca conseguiu confirmar o envolvimento do amigo no Setembro Negro, o grupo responsável pelo massacre de Munique.

Os laços entre ambos eram tão sólidos que Ali Hassan se tornou no protector dos americanos num Líbano dilacerado pela guerra civil (1975-1990). Chegou a salvar a vida de Henry Kissinger – o chefe da diplomacia que prometeu a Israel nunca reconhecer a OLP –, ao alertar para planos que visavam abater o avião que o transportava.

Salameh não sobreviveu para salvar Ames, um dos 63 americanos mortos quando a Embaixada dos EUA foi alvo de um atentado bombista, em 1983, levado a cabo por uma nova força, o Hezbollah, criada pelo Irão depois de Israel invadir Beirute, no ano anterior.

Perguntámos a Kai Bird por que está tão seguro de que Ames teria “aproximado a América dos Árabes” quando um dos lamentos de Bob permanece imutável: “Creio que se os israelitas nos conduzissem até à III Guerra Mundial, nós [EUA] continuaríamos a não os pressionar”.

Numa entrevista por e-mail, o historiador esclareceu: “O meu argumento, em The Good Spy, é o de que a diplomacia clandestina de Ames com a OLP plantou as sementes para que israelitas e palestinianos começassem a negociar uma solução política, para este conflito, baseada em dois Estados. Contudo, é igualmente verdade que Ames se sentia mais e mais frustrado, ao constatar que a política externa dos EUA na região não era equilibrada.”

A view of damages to the U.S. Embassy caused by a terriorist bomb attack. Marines are here participating as members of a multinational peacekeeping force. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Robert Ames foi uma das vítimas da destruição da Embaixada dos EUA em Beirute, em 1983: a responsabilidade foi atribuída ao Hezbollah, a nova força política regional que emergiu após a invasão israelita do Líbano no ano anterior

Como agiria hoje Bob face à ameaça de uma nova guerra no Médio Oriente, liderada pelos EUA, para travar a barbárie do “Exército Islâmico” (EI – IS ou ISIS, nas siglas inglesas)? “Robert Ames era um bom espião porque sabia ouvir as pessoas”, respondeu Bird.

“Não é possível saber o que ele pensaria da crise actual, mas eu gostaria de crer que ele olharia com cepticismo para os ‘peritos’ na América actual que exortam um cauteloso e relutante Presidente [Barack] Obama a intervir militarmente.”

“Ames sabia o suficiente para compreender que o Médio Oriente é uma encruzilhada complicada de políticas tribais e religiosas. Prefiro pensar que o seu conhecimento o convenceria de que a América deve evitar outra guerra no Médio Oriente.”

“Uma das minhas frustrações é concluir que muito poucas pessoas aprendem com a História”, acrescentou Bird.

“Nós, americanos, parecemos incapazes de aprender que as nossas inúmeras intervenções no Médio Oriente exacerbaram invariavelmente as coisas. A guerra do Iraque em 2003 é apenas o exemplo mais egrégio deste tipo de blow-back.”

“Sim, vivemos uma trapalhada sanguinária. E não há dúvida que haverá ainda mais violência devastadora. Mas tenho a certeza de que o fundamentalismo religioso e a violência desprezível brandida pelo ‘exército islâmico’ [Daesh] é um fenómeno momentâneo. O ISIS [Daesh] está apenas a preencher um vazio político – e será derrotado pelos seus numerosos inimigos locais.”

Durante a entrevista, Bird lamentou que a CIA tivesse mantido confidenciais documentos que poderiam iluminar ainda mais as várias narrativas contidas nas 430 páginas da biografia de Robert Ames.

“Gostaria de pensar que The Good Spy revela aos leitores o que significa, na realidade, ser um espião”, disse. “A profissão é desmistificada. Outros livros meus foram críticos da CIA, mas aprendi, com a vida de Robert Ames, que um agente clandestino da CIA pode, por vezes, chegar onde um normal diplomata está impedido de ir. Ele podia falar com “tipos maus” com armas – e tentar entender o que os levava a usar as armas.”

“Um bom espião pode conhecer as intenções e motivações humanas. E isso é uma peça de intelligence de valor incalculável. A minha biografia de Ames poderia ter sido enriquecida se a CIA tivesse concordado em levantar a confidencialidade de alguns dos memorandos e telegramas de Ames. Mas todos os meus pedidos foram recusados”.

Mesmo sem ajuda em Langley (a sede da CIA), Bird dá informações que eram desconhecidas. Resolve, por exemplo, o mistério do desaparecimento do Imã Musa al-Sadr, que nunca mais fora visto após uma visita à Líbia de Khadafi, em 1978.

Terá sido Khomeini quem mandou assassinar aquele teólogo xiita libanês, por “ser uma ameaça”, ao opor-se ao conceito de Velayat-e Faqhi (“direito” de os religiosos deterem poder temporal).

Kai Bird expõe ainda uma amarga ironia: um iraniano, Ali Reza Asgari, implicado na explosão que matou Robert Ames, desertou e vive agora na América. Terá sido ele quem forneceu a informação que permitiu localizar, em Damasco, o artífice da destruição da embaixada em Beirute.

O fugitivo Imad Mughniyeh, xiita libanês, fora treinado por Salameh mas trocou a OLP pelo Hezbollah. Também ele foi executado pela Mossad, com recurso a um carro armadilhado, em 2008.

Kai Bird, o autor the The Good Spy: : The Life and Death of Robert Ames © Stephen Frietch

Kai Bird, o autor the The Good Spy: : The Life and Death of Robert Ames
© Stephen Frietch

Este artigo, com um título diferente (“Vida e morte de um espião”), foi publicado originalmente n jornal EXPRESSO, em 27 de Setembro de 2014 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 27, 2014

Porquê estudar o Holocausto e não a Nakba?

Mohammed Dajani Daoudi sabia que corria riscos ao liderar um grupo de jovens palestinianos numa visita à antiga rede de campos de concentração e extermínio no que foi a Polónia sob domínio nazi. O objectivo era estudar a Shoah no contexto do conflito com Israel. No regresso a Jerusalém, o professor perdeu o emprego. (Ler mais | Read more…)

Mohammed Dajani durante a visita com os seus alunos a Auschwitz. © Cortesia de | Courtesy of Mohammed Dajani

Mohammed Dajani Daoudi durante a visita com os seus alunos a Auschwitz
© Cortesia de | Courtesy of Mohammed Dajani

A morte tem acompanhado a vida de Mohammed Suleiman Dajani Daoudi. Nasceu em 1946, no sector ocidental de Jerusalém, mas foi obrigado a mudar-se para o lado oriental em 1948, após a primeira guerra israelo-árabe. No êxodo forçado de milhares de palestinianos, a sua família perdeu todos os bens e propriedades.

Da infância e adolescência, Daoudi reteve “os valores da temperança, tolerância e existência” que aprendeu, no ensino primário e secundário, na Friends School, que pertence à sociedade de movimentos religiosos Quaker.

“Ainda me recordo do tempo em que o director Farid Tabri, um cristão licenciado pela Universidade Islâmica de al-Azhar, no Cairo, organizava assembleias de leitura duas vezes por semana: uma para a Bíblia e outra para o Alcorão”, disse-me Daoudi, numa entrevista por e-mail.

Daoudi formou-se em Comunicação Social na Universidade Americana de Beirute, em Junho de 1972. Foi neste ano que começou a envolver-se em “políticas radicais”.

Em 1975, decidiu mudar de rumo e partiu para os Estados Unidos, com o objectivo de prosseguir os estudos. Em 1976, concluiu um mestrado em Artes pela University of Eastern Michigan.

Frequentou depois a Universidade da Carolina do Sul, onde se doutorou em 1981. Dois anos depois, fez um segundo doutoramento na Universidade do Texas, em Austin 1983. Seria, mais tarde, docente nestas duas universidades.

Mohammed Daoudi não é um desconhecido na sociedade palestiniana. A sua família sempre foi influente em Jerusalém. Um dos seus bisavôs, Sheikh Ahmed Dajani (1459-1561), foi nomeado pelo sultão otomano guardião do túmulo do Rei David, no Monte Sião.

Duas experiências pessoais mudaram o seu trajecto, revelou Daoudi. “Em 1993, quando as autoridades israelitas permitiram que me juntasse à minha família – eu vivia no Líbano desde a guerra de 1967 – pude constatar que o meu pai, doente de cancro, era tratado pelos médicos israelitas como um paciente e não como árabe ou inimigo”.

A segunda experiência envolveu a mãe que, numa crise asmática, foi socorrida, por guardas do Aeroporto de Ben-Gurion, que chamaram uma ambulância com uma equipa de médicos e enfermeiros. Ela acabaria por morrer num hospital militar, onde a internaram, mas Daoudi só pensava naqueles que a tentaram salvar.”

“Estas experiências pessoais ajudaram-me a ver o rosto humano do meu inimigo, convertendo-me num activista pela paz que acredita em “NÓS E ELES” mais do que em “NÓS OU ELES”, sublinhou.

Um total de 30 alunos universitários manifestaram interesse em visitar Aushwitz com o professor Dajani: dois desistiram e um não foi autorizado por Israel a viajar por ser “simpatizante do [movimento islamista] Hamas
© Cortesia de Mohammed Dajani

O homem que se define como “intelectual muçulmano que procura aproximar a sua comunidade dos valores islâmicos moderados e dos ensinamentos do Alcorão”, fundou o projecto Wasatia (“Moderação”) em Janeiro de 2007. “Rejeito o uso do terrorismo e da luta armada para pôr fim à ocupação israelita.”

“Entre 1967 e 1975, fui militante activo da Fatah [a maior facção da Organização de Libertação da Palestina /OLP], apelando à destruição de Israel e à criação, sobre os seus escombros, de um Estado palestiniano”, recordou. “Posteriormente, como conselheiro da Autoridade Palestiniana fui-me distanciando de um sistema político autocrático e corrupto que emergiu dos Acordos de Oslo”.

As ideias de Mohammed Daoudi são controversas, numa altura em que o movimento BDS (boicote, desinvestimento e sanções) ganha apoios para isolar Israel. “Quando questiono o direito de retorno dos refugiados palestinianos, a minha intenção é poupar à geração mais jovem a experiência de crescer como minoria muçulmana num Estado judaico”, justificou.

“Pelo contrário, prefiro que os nossos filhos cresçam como uma maioria num Estado palestiniano. Não deixemos que o peso pesado do passado enterre as promessas do futuro.”

A receita de Daoudi para a paz é esta: “Os palestinianos precisam de engolir o comprimido amargo de que Israel ‘está aqui para ficar’; por seu turno, os israelitas devem também tomar o comprimido amargo que lhes permitirá compreender que a criação de um Estado palestiniano, forte e não fraco, é necessidade essencial para cumprir a procura de uma identidade palestiniana.”

Foi este activista de convicções inabaláveis que decidiu levar a Auschwitz – pela primeira vez – um grupo de alunos para estudarem o Holocausto, tentando “entender a outra parte” do conflito. Segue-se a entrevista feita em Junho:

Como surgiu a ideia de visitar Auschwitz?

Em Fevereiro de 2011, fui convidado pela organização Aladdin, em Paris, a ir até Auschwitz em conjunto com 150 líderes religiosos de todo o mundo.

Esta viagem abriu-me os olhos. Sou um palestiniano, muçulmano moderado, educado numa cultura que nega as atrocidades do Holocausto, vê este como a causa da catástrofe nacional palestiniana de 1948, ou acredita que houve um esforço coordenado entre nazismo e sionismo para que os judeus apoiassem a criação do Estado de Israel na Palestina.

A bestialidade do que vi obrigou-me a deixar de ser um mero espectador. Dois meses depois, co-assinei com Robert Satloff [director executivo do think tank neo-conservador The Washington Institute for Near East Policy] um artigo de opinião intitulado Why should the Palestinians learn about the Holocaust? [“Por que devem os palestinianos estudar o Holocausto?”]

Em seguida, apoiados pela Freidrich Schiller University e com fundos da German Research Foundation, planeámos a viagem dos estudantes.

Mais uma foto de Dajani e dos seus alunos durante a visita a Auschwitz. © i24news.tv

Mohammed Dajani e os seus alunos durante a visita a Auschwitz
© Cortesia de | Courtesy of Mohammed Dajani

 Como descreve a visita?

A maioria dos estudantes que participaram teve um curso sobre resolução de conflitos no American Studies Institute [criado poe Daoudi] na Universidade de al-Quds University. Recebemos 70 candidaturas; seleccionámos 30. Comprámos bilhetes e vistos. Duas raparigas desistiram e um simpatizante do Hamas não foi autorizado por Israel a viajar.

Passámos dois dias em Cracóvia, na Polónia, a ouvir falar das condições de vida nos bairros judaicos antes do Holocausto. Depois, estivemos três dias em Auschwitz – dois para visitar o campo e o terceiro para troca de pontos de vista.

Que perguntas foram feitas pelos participantes?

Eles fizeram muitas perguntas e aprenderam imenso com as respostas. Infelizmente, devido a notícias distorcidas que apareceram nos media palestinianos, as provocações começaram ainda antes da partida. Alegavam, por exemplo, que a viagem tinha sido planeada por universidades israelitas e financiada por organizações judaicas.

Os estudantes começaram a ficar preocupados e a adoptar uma postura defensiva, sublinhado que ninguém os poderia acusar de terem abdicado das reivindicações a um Estado.

Por que é tão difícil que palestinianos e judeus (israelitas e outros) tenham dificuldade em aceitar as suas narrativas respectivas?

É difícil porque uns e outros estão em rota de colisão, cada um lutando para aniquilar o outro para ser a força dominante. Acredito que será mais fácil chegar à paz e à coexistência se for respeitada, mas não adoptada, a narrativa uns dos outros.

Qualifica a viagem com os estudantes como seu maior desafio a nível pessoal e da sua carreira académica?

Sim, foi um dos maiores desafios, até agora. Dada a natureza altamente sensível do Holocausto para a identidade nacional palestiniana, eu sabia que caminhava num campo minado e envolvendo muitos riscos. Antes de partir, recebi um aviso para não viajar.

Também chegou uma carta da reitoria da Universidade de al-Quds a desencorajar-me de seguir o meu plano, e exigindo que informasse os alunos de que seria responsabilidade deles se me acompanhassem. Eu informei os participantes e pedi que assinassem formulários dando o seu consentimento. Tinha consciência de que estava a violar os códigos da sociedade e quebrar temas tabu.


“Quando um dos meus alunos me perguntou por que devíamos estudar o Holocausto se Israel quer proibir o uso da palavra Nakba, a minha resposta foi simples: ‘Porque estamos a fazer o que é certo”, disse Mohammed Dajani (Na foto, um palestiniano é impedido de entrar na Mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém, considerada pelos muçulmanos o terceiro lugar sagrado do Islão, durante a festa judaica do Tabernáculo)
© Ahmad Gharabli | AFP | Getty Images

Uma das razões que alguns comentadores evocam como explicação plausível para as críticas de que em sido alvo é a dos laços que mantém os neoconservadores na América…

… Em 2002, quando fundei na Universidade de al-Quds o American Studies Center, o críticos disseram que se tratava de uma operação da CIA para recrutar [espiões entre os] estudantes. Em 2007, quando estabeleci a iniciativa moderada Wasatia, os críticos acusaram-me de receber dinheiro dos EUA para promover um Islão ocidental.

Desta vez, uma viagem de estudo tornou-se um esquema perverso para lavar o cérebro da juventude palestiniana. Se eu ligar aos críticos acabo por me tornar num vegetal.

Por que decidiu demitir-se dos seus cargos na universidade? Não foi uma “capitulação”?

Não! Não desisti mas elevei a batalha para um patamar mais elevado. A minha carta de demissão [entregue em Junho] foi um teste para ver até que ponto a administração da universidade apoia a liberdade académica, a liberdade de expressão e de acção – o que não se verificou.

[A universidade emitiu, entretanto, um comunicado a esclarecer que pediu ao professor Daoudi que recuasse na demissão, e ele recusou, mas insistindo em que a viagem a Auschwitz foi uma “aventura pessoal”].

Esperava que o reitor recusasse a minha demissão mas, ao aceitá-la, a mensagem foi óbvia: “’Não há lugar no nosso campus para as ideias de Dajani’. Não foi esta, também, a mensagem que os Atenienses quiseram enviar aos alunos de Sócrates quando o condenaram à morte?”

Os palestinianos têm estado sempre no campo dos vencidos. A viagem a Auschwitz coincidiu com mais um fracasso das negociações de paz. Por que acha que deve ser o oprimido a ceder ao opressor?

Não fui a Auschwitz por eles [israelitas] mas por mim. Repito: Não quero permanecer um espectador. O ódio, o racismo e a sectarismo espalham um reino de terror e as pessoas boas ficam paralisadas. Fomos a Auschwitz em busca do conhecimento: por que aconteceu [o Holocausto], como prevenir que se repita? É preciso quebrar as barreiras que nos separam.

Quando um dos meus alunos me perguntou por que devíamos estudar o Holocausto se Israel quer proibir o uso da palavra Nakba, a minha resposta foi simples: ‘Porque estamos a fazer o que é certo”.

Mohammed Dajani: “Dada a natureza altamente sensível do Holocausto para a identidade nacional palestiniana, eu sabia que caminhava num campo minado e envolvendo muitos riscos”
© porisrael.org

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR edição de Setembro de 2014 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2014 edition

O Papa Francisco rezou, mas a paz não chegou

O chefe da Igreja Católica reuniu no Vaticano o israelita Shimon Peres, o palestiniano Mahmoud Abbas e o patriarca cristão ortodoxo, em busca de uma visão comum de paz. O Bispo de Roma pediu “uma pausa na política”. A prece colectiva foi lida como prova de que “a religião pode desempenhar um papel central na tentativa de resolver conflitos no Médio Oriente”. (Ler Mais | Read more…)

O abraço do palestiniano Mahmoud Abbas ao israelita Shimon Peres, perante o olhar do Papa Francisco, durante a “oração pela paz” em Junho de 2014, nos jardins do Vaticano. © nbcnews.com

O abraço do palestiniano Mahmoud Abbas ao israelita Shimon Peres, perante o olhar do Papa Francisco, durante a “oração pela paz” em Junho de 2014, nos jardins do Vaticano
© nbcnews.com

Em Junho [de 2014], numa entrevista que deu logo após uma viagem memorável à Terra Santa, o Papa Francisco confessou-se ao jornal La Vanguardia, de Barcelona: “No Vaticano, pelo menos 99% opunha-se” a uma oração conjunta envolvendo cristãos (como o patriarca ortodoxo Bartolomeu I), israelitas judeus, como Shimon Peres, e palestinianos muçulmanos, como Mahmoud Abbas/Abu Mazen).

A ideia “era uma novidade total e não foi fácil vê-la aprovada”, disse o chefe da Igreja Católica. O objectivo era “abrir uma janela para o mundo e, no final, o 1% que apoiava a iniciativa começou a aumentar.”

Inquirido sobre as razões que o levaram a envolver-se no “furacão” do Médio Oriente, duas semanas depois de o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, ter reconhecido o colapso do “processo de paz”, o Bispo de Roma respondeu: “Nada se compara à tempestade que foi a visita ao Brasil, em 2013 [quando prescindiu do “papamóvel”, à prova de balas, para ser abraçado e beijado por milhões de fiéis.] “Eu não podia saudar as pessoas e dizer-lhes que as amo do interior de uma lata de sardinhas – mesmo que fosse de cristal.”

“Oficialmente, o principal objectivo do Papa, ao visitar as raízes da religião cristã, era comemorar o 50º aniversário do encontro entre Paulo VI e Atenágoras, Patriarca Ecuménico de Constantinopla”, lembra-nos, numa entrevista, Michaela Koller, cientista política e estudiosa da Igreja Católica, Próximo Oriente e Diálogo Inter-religioso.

“Foi aquele encontro, em 1964, que permitiu o fim das excomunhões em vigor desde o Grande Cisma de 1054. No entanto, Francisco inspirou expectativas maiores e o encontro com o sucessor de Santo André acabou por não ser o clímax da viagem”.

Antes da chegada de Francisco, já o patriarca latino de Jerusalém, Arcebispo Fouad Twal, clarificara as intenções: “Falarei sempre sobre a vida quotidiana na Terra Santa, sobre a necessidade de paz sem ocupação [israelita] e liberdade de acesso [dos palestinianos] aos locais sagrados.”

“Isto significa que nos opomos aos checkpoints, onde quer que se encontrem, e à exigência de que todos os árabes necessitam de uma autorização para vir e estar aqui, enquanto visitantes da China, Japão ou países europeus podem chegar sem qualquer problema.”

 Mosteiro de Latrun, em Israel, vandalizado com graffiti: nas paredes lê-se “Jesus é um macaco” e os nomes de dois colonatos judaicos na Cisjordânia © Menahem Kahana | AFP | Getty

Mosteiro de Latrun, em Israel, vandalizado com graffiti: nas paredes lê-se “Jesus é um macaco” e os nomes de dois colonatos judaicos na Cisjordânia
© Menahem Kahana | AFP | Getty Images

Os cristãos em Israel ou sob a Autoridade Palestiniana, salientou Michaela Koller, vaticanista com base em Munique (Alemanha), “vêem-se a si próprios como vítimas das restrições causadas pela ‘fronteira de segurança’ construída na forma de um muro gigantesco em Belém.”

“Mobilidade geográfica e mentes abertas estão limitadas nesta região dominada por duas outras religiões monoteístas, sobretudo quando a paz parece inatingível”, acrescentou. “O momento em que o Papa Francisco parou junto ao ‘muro de separação’ e ali rezou foi o ponto alto da sua viagem: uma oração para sarar o trauma.”

Para as autoridades israelitas, a “barreira” que os palestinianos designam por “muro do apartheid“ é uma “protecção contra o terrorismo: há um controlo real de movimentos entre a Cisjordânia e Israel desde que o muro foi construído, e o número de ataques diminui, notou Michaela Koller.

Meses antes da viagem de Francisco, os anfitriões incluíram no programa oficial uma paragem junto a um memorial em honra dos civis israelitas mortos em actos de terrorismo palestiniano. “Foi então que o pontífice decidiu equilibrar os sinais”, observou a analista alemã. “O programa permitia-lhe ver as feridas e as suas causas – e outra ferida, ainda maior, foi a crise na Síria.”

O patriarca latino, Fouad Twal, contou [em Junho] pelo menos “140.000 a 150.000 mortos” [este número foi actualizado, em 2016, para cerca de 400 mil, segundo estimativas da ONU]. E Twal não parece ter simpatia pela oposição à  ditadura de Bashar al-Assad. “Mudar o regime ? Este não era o pior do mundo. E quem virá a seguir? Os ocidentais deveriam deixar de ajudar os terroristas.”

Sendo uma das várias confissões religiosas na Síria, a maioria dos cristãos foi, até à guerra civil iniciada em 2011, leal ao Presidente Bashar, cuja sobrevivência, política e do seu clã alauita (também uma minoria), dependiam de uma coligação contra a maioria muçulmana sunita.

No primeiro dia de peregrinação, Francisco recebeu cerca de 600 refugiados e jovens deficientes, na igreja latina de Betânia, junto ao local onde Jesus foi baptizado por São João.

De seguida, o Papa agradeceu às autoridades do Reino da Jordânia por terem aberto as portas a mais um fluxo de refugiados, sobretudos os que fugiram do Iraque e da Síria [onde o autoproclamado “estado islâmico”, ou Daesh, estabeleceu um “califado”].

O Papa Francisco reza junto ao que os palestinianos designam por "muro do apartheid", na Cisjordânia ocupada por Israel, quando se dirigia para a Igreja da Natividade na cidade de Belém. © Mheisen Amareen | Reuters

O Papa Francisco reza junto ao que os palestinianos designam por “muro do apartheid“, na Cisjordânia ocupada por Israel, quando se dirigia para a Igreja da Natividade, em Belém
© Mheisen Amareen | Reuters

Num apelo à paz na Síria, o Papa exortou a comunidade internacional “a não deixar a Jordânia sozinha no esforço de assistência humanitária e que, pelo contrário, aumente o seu apoio e auxílio.

“Numa região onde a religião serve frequentemente para legitimar o poder político, o Papa apontou o caminho inverso: que a religião tem a sua própria esfera e pode fazer avançar o que está congelado”, constatou Michaela Koller.

Ao convidar Peres e Abbas para uma oração pela paz, no Vaticano, a 8 de Junho, Domingo de Pentecostes, Francisco “enviou mais um sinal ao mundo: as pessoas podem ter as suas posições e ideias, adversárias ou até hostis umas para com as outras, mas podem começar por se erguerem juntas, pelo menos por um momento, em busca de um bem maior.”

Peres, o artífice do programa nuclear israelita e do projecto colonial nos territórios palestinianos ocupados, o trabalhista que perdeu todas as eleições até conseguir a Presidência (numa votação no Parlamento), o “pacifista” que iniciou várias guerras, partiu desconfiado para a oração ecuménica.

Dias antes, os rivais palestinianos Fatah, que administra a Cisjordânia, e o Hamas, que governa a Faixa de Gaza, formaram um governo de unidade nacional, composto por independentes.

Resmungou o Nobel da Paz que ajudou a assinar (com Abbas) os Acordos de Oslo em 1993 – vistos pelo defunto académico palestiniano Edward W. Saïd como “uma capitulação” porque têm permitido a expansão dos colonatos: “Este compromisso Fatah-Hamas é uma contradição inviável – porque um [a maior facção, secular, da OLP] renega a coexistência e outra [o movimento islâmico, religioso] prega a violência”.

O nonagenário Peres [que morreria em 2016], defensor de dois Estados, foi substituído, em 24 de Julho [de 2014], por um direitista (do partido Likud), Reuven Rivlin, que advoga “um só Estado, para judeus e árabes com os mesmos direitos”.

O cargo de Presidente em Israel é meramente protocolar, mas é da sua responsabilidade conceder amnistias e aprovar ou rejeitar a libertação de prisioneiros que representam trunfos, como Marwan Barghouti, o líder da Segunda Intifada (2000) condenado a várias penas de prisão perpétua mas admirado por uma maioria de palestinianos.

Shimon Peres e Mahmoud Abbas (à esquerda), o Papa Francisco (ao centro) e o Patriarca Bartolomeu I (à direita) quando plantavam uma oliveira pela paz nos jardins do Vaticano, em 8 de Junho de 2014. © International Business Times

O Papa Francisco, com Shimon Peres, Mahmoud Abbas e o patriarca Bartolomeu I , quando plantavam uma oliveira pela paz nos jardins do Vaticano, em 8 de Junho de 2014
© International Business Times

A caminho de casa, Francisco exprimiu optimismo na sua conta no Twitter: “A oração é toda-poderosa; deixemos que ela leve a paz ao Médio Oriente e ao mundo”. O Papa insistiu em que não tem uma agenda política e que apenas quis reacender a chama da paz quando endereçou o convite a Peres, Abbas e Bartolomeu I.

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, mostrou-se exultante, em declarações à agência noticiosa Associated Press (AP): “A oração tem uma força política que, talvez, não vislumbremos mas que deve ser desenvolvida ao máximo. […] Porque a oração tem a capacidade de transformar corações e de transformar a História.”

Nos jardins do Vaticano, o Papa, Abbas e Peres plantaram uma oliveira, seguindo-se a este ritual pequenos discursos de cada um dos convidados. Abbas falou da importância de Jerusalém para o povo palestiniano, e agradeceu a Deus ter abençoado os palestinianos com o nascimento de Jesus na Palestina. Também invocou a necessidade de um Estado palestiniano, “independente e soberano”, para que possa haver uma paz “justa e duradoura” na região.

O Papa declarou: “Mais do que uma vez temos estado próximos da paz,mas o Diabo impediu que ela chegasse. Por isso estamos aqui. Precisamos de erguer os olhos ao Céu e reconhecer que somos todos filhos de um só Pai.”

Peres repetiu palavras gastas: “Eu era jovem e tornei-me um idoso. Experimentei a guerra e saboreei a paz. Nunca esquecerei as famílias enlutadas – pais e filhos – que pagaram o preço da guerra [será que incluiu aqui uma operação militar que ele próprio ordenou, em 2006, contra o quartel-general das tropas da ONU, em Qana, no Sul do Líbano, que causou mais de cem mortos e um número superior de feridos?]. Até ao fim da minha vida jamais deixarei de procurar a paz para as gerações vindouras.

Thomas Reese, analista do Vaticano para o National Catholic Reporter, observou: “No Médio Oriente, gestos simbólicos e passos firmes são muito importantes. Quem sabe o que se discutiu por detrás de portas fechadas?”

Se houve segredo nas conversações, a oração em conjunto realizou-se à vista de todos nos jardins do Vaticano, descrito como “o lugar religioso mais neutral na cidade-Estado”. E, pela primeira vez, as três religiões entoaram os seus hinos, exprimindo a um Deus único gratidão e perdão.

Por seu turno, Daniel Petri, num artigo publicado pela revista TIME, sentenciou que a “cimeira da oração” foi puramente simbólica, mas concorda que não foi insignificante: “Actos simbólicos podem gerar progressos a longo prazo.”

“Quando o Papa fala sobre temas internacionais, o mundo ouve-o. E o que ele diz tem repercussões, por isso, há muito tempo que os meios de comunicação social deveriam conside- rar o Papado um dos maiores actores geopolíticos.”

O artigo de Petri, doutorando em Política pela Universidade Católica da América, foi uma reacção a um outro, também publicado na TIME, por Christopher J. Hale, senior fellow dos Catholics in Alliance for the Common Good. Escreveu Hale: “Reduzir a cimeira de oração convocada pelo papa a um acto de mero simbolismo é não compreender o papel que a religião pode desempenhar no debate de crises políticas.”

“É difícil negar que Francisco é o mais importante político do mundo depois da sua viagem à Terra Santa. Durante 55 horas, o Bispo de Roma, 77 anos, visitou três países, plantou árvores e suportou uma conferência de im-prensa que durou 45 minutos.”

Jovens palestinianos em confronto com a Polícia durante protestos na aldeia árabe Kfar Kana, no Norte de Israel, em 10 de Novembro de 2014 * © Ariel Schalit | AP

Jovens palestinianos em confronto com a Polícia, durante protestos na aldeia árabe Kfar Kana, no Norte de Israel, em 10 de Novembro de 2014
© Ariel Schalit | AP

Todos os momentos foram importantes, salientou Christopher Hale, mas o que terá um impacto duradouro na região foi a surpresa dominical do Papa, durante uma missa ao ar livre em Belém, ao convidar Peres e Abbas para se juntarem a ele no Vaticano para oração e diálogo.

Bastou uma hora para que os dois estadistas aceitassem. E é de realçar, segundo Hale, o êxito do Papa face ao fracasso do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que não conseguiu revitalizar um processo de paz “dormente desde há [vários] anos”.

Comentadores como David Levy, no jornal The New York Times, ou David Horovitz, no diário The Times of Israel, desvalorizaram o gesto conciliatório do Papa, mas Hale argumentou: “Reduzir o encontro de Junho a um simples acto simbólico é não compreender o papel que a religião pode desempenhar para resolver questões difíceis, políticas e étnicas.”

“Em toda a História mundial, profetas religiosos foram criativos na resolução de problemas para obterem a paz e a justiça.” E citou alguns: Mahatma Gandhi (na Índia) e Martin Luther King Jr. (nos EUA): “Eles provaram que testemunhas religiosas podem vencer guerras sem levantar a mão.”

Hale recordou ainda que, em Setembro de 2013, quando estava iminente uma intervenção militar dos EUA na Síria, Francisco pediu à sua Igreja um dia mundial de oração e jejum. Numa vigília, na Praça de São Pedro, o papa perguntou: “É possível mudar de rumo? Podemos livrar-nos desta espiral de dor e morte? Poderemos nós aprender, uma vez mais, a caminhar e viver nos caminhos da paz?”

Os críticos desconfiaram que o jejum pudesse resolver alguma coisa na Síria, mas Hale notou que eles “estavam errados”, pois que a comunidade internacional negociou um plano para desmantelar as armas químicas do regime de Assad, e “os EUA evitaram a terceira campanha militar no estrangeiro dos últimos doze anos”.

Conclui Christopher Hale: “Se a oração colectiva do Papa Francisco puder ser um catalisador para recomeçar as negociações de paz no Médio Oriente [Peres e Abbas não se encontravam em público há um ano], e se pudermos, de certo modo, pôr fim à violência infindável que assola região como uma praga, então saberemos que o arcanjo Gabriel estava certo: “A Deus nada é impossível.”

[Este “encontro pela paz” não conseguiu o “milagre” de levar a paz ao Médio Oriente. Pelo contrário, em regiões do Iraque e da Síria emergiu uma ameaça maior do que a velha al-Qaeda.]

A vaticanista alemã Michaella Koller, entrevistada para este artigo, durante uma audiência com o anterior Papa, Bento XVI, em Dezembro de 2011. © Cortesia de | Courtesy of Michaella Koller

A vaticanista alemã Michaella Koller, entrevistada para este artigo, durante uma audiência com o anterior Papa, Bento XVI, em Dezembro de 2011
© Cortesia de | Courtesy of Michaella Koller

Este artigo, agora actualizado e com um título diferente, foi originalmente publicado na revista ALÉM-MAR na edição de Setembro de 2014 | This article, now updated and under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, Setembro 2014 edition

O silêncio dos (não) inocentes

Quase um mês depois da invasão da Faixa de Gaza, com mais de 1300 mortos contados até agora, uma israelita que perdeu a filha de 13 anos num atentado suicida palestiniano e um palestiniano a quem o Exército israelita matou o irmão denunciam a indiferença de europeus e americanos, “cúmplices dos crimes da ocupação”. (Ler mais | Read more…)

Shayma al-Masri, 4 anos, ferida por um ataque aéreo israelita na Faixa de Gaza que matou a sua mãe e dois dos seus irmãos
© Ashraf Amra | APA images

Cursed is he who says ‘Revenge!’

Vengeance for the blood of a small child

Satan has not yet created

Haim Nahman Bialik (1873-1934), “o maior poeta judeu dos tempos modernos”, escreveu estas linhas em Al ha-Shehitah (“On the Slaughter”, 1903) depois de dois pogroms em Kishinev, na Bessarábia, antiga província do Império Russo; actual Quichinau, capital da Moldávia.

Neste livro, o escritor que influenciou “o poeta nacional palestiniano” Mahmoud Darwish clama por “justiça dos céus” ou, à falta dela, pela “destruição do mundo”.

“Não ocorreu a Bialik, há um século, que a criança pudesse ser palestiniana de Gaza e que os seus assassinos fossem soldados judeus”, disse Nurit Peled-Elhanan quando, em 2008, Israel invadia o território onde, a 8 de Julho, lançou uma nova ofensiva.

Operação Escudo Protector já causou, entre os palestinianos, mais de 1300 mortos (75%  dos quais civis), um número superior a 7000 feridos e cerca de 250 mil deslocados internos, segundo dados da ONU. Entre os israelitas, estão confirmadas as mortes de 56 soldados, em combate, e três civis, na sequência de rockets lançados pelo movimento islâmico Hamas.

[No dia 1 de Agosto, o Hamas terá capturado um oficial israelita identificado como Hadar Goldin, 23 anos, de cidadania britânica e  familiar do ministro da Defesa, Moshe Ya’alonNo dia 2, depois de uma apelo público da família para que o Exército não se retirasse de Gaza sem trazer Goldin de volta a casa, Israel anunciou, oficialmente, que o soldado não fora capturado mas morreu em combate.]

Não tem medo das palavras a Prémio Sakharov para os Direitos Humanos 2001, em conjunto com o académico palestiniano Izzat Ghazzawi (1951-2003).

O que se passa em Gaza é um “holocausto”, um “genocídio”, um conjunto de “massacres” e de “pogroms”, afirma Nurit Peled-Elhanan, numa entrevista, por telefone, a partir de Jerusalém, onde vive e é professora na Universidade Hebraica.

Na noite anterior, pelo menos 15 palestinianos, a maioria crianças e mulheres que ainda dormiam, foram mortos e mais de 100 feridos numa escola gerida pelas Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabaliya.

Uma criança sentada nas ruínas da sua casa arrasada pela aviação israelita em Beit Hanoun, um bairro da Faixa de Gaza, em 12 Agosto de 2014
© Siegfried Modola | Reuters

O edifício foi atingido por cinco obuses da artilharia israelita durante um intenso bombardeamento. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, qualificou o ataque de “ultrajante e injustificável”, exigindo “responsabilização e justiça”.

Nesta escola para meninas estavam abrigadas mais de 3000 pessoas, que seguiram o conselho dos militares israelitas para abandonarem as suas casas.

“Crianças mortas durante o sono é uma afronta a todos nós, fonte de vergonha universal”, acusou Pierre Krähenbühl, comissário-geral da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), descrevendo o bombardeamento como “uma grave violação da lei internacional”.

Mais emocionado se mostrou Chris Hunness, porta-voz da organização, que não conseguiu conter as lágrimas durante uma entrevista dada à cadeia de televisão Al Jazeera. Para o diário britânico The Guardian, o vídeo, partilhado por milhões de pessoas, tornou-se numa das “imagens mais memoráveis da guerra”.

“As minhas lágrimas são insignificantes quando comparadas com as das pessoas em Gaza cujo sofrimento é intolerável”, explicou Hunness, antigo correspondente da BBC que já testemunhou três guerras no minúsculo território onde 1,8 milhões de palestinianos habitavam 360 km2 – área entretanto reduzida em 40 por cento pelos actuais bombardeamentos.

“Chegámos a um ponto de uma tragédia tão profunda que as lágrimas se tornaram mais eloquentes dos que as palavras.”

A porta-voz das Forças de Defesa de Israel (conhecidas pela sigla inglesa IDF) informou que “o incidente [em Jabaliya – o campo de refugiados onde em 1987 despontou a primeira Intifada] está a ser investigado”. As primeiras informações, referiu, dão conta de que “militantes do Hamas dispararam morteiros nos arredores da escola e que os soldados responderam na direcção da origem do tiroteio.”

Desumanização dos palestinianos
Sisters Mariam Attar, centre right, and Sada Attar, centre left, rest with their children inside the New Gaza Boys United Nations School. © The Associated Press

As irmãs palestinianas Mariam Attar (centro à dir.) e Sada Attar (centro à esq.) refugiaram-se com os filhos numa escola para meninos sob administração da UNRWA, depois de forçadas, por tropas israelitas, a abandonar as suas casas na Faixa de Gaza
© Associated Press

Voltemos agora a Nurit Peled-Elhanan, autora de Palestine in Israeli School Books: Ideology and Propaganda in Education, análise semiótica e linguística de mais de 20 livros de História e Geografia publicados entre 1994 e 2010 e usados quer em escolas públicas como religiosas em Israel.

“A insensibilidade para com o que estamos a assistir em Gaza é, em grande medida, resultado de manuais escolares que desumanizam os palestinianos”, disse Nurit, comentando uma sondagem segundo a qual mais de 85% dos israelitas são hostis a um cessar-fogo.

“A sociedade israelita habituou-se a ver as crianças palestinianas como futuros terroristas. Os israelitas pensam que são um povo com moralidade superior, e se há um massacre acham que foi por uma boa causa. Acreditam que se os militares matam é porque foram obrigados a isso. É assim que se consolam a si próprios.”

Durante a sua investigação, Nurit verificou que os habitantes dos territórios ocupados são apresentados, em mapas, como “trabalhadores estrangeiros”, não como palestinianos.

“Este método, segundo o qual a terra é adquirida enquanto os seus cidadãos e a sua existência são ignorados, designa-se por ‘silêncio’ toponímico”, explicou a professora de Linguagem da Educação, num artigo que escreveu para o diário hebraico Ha’aretz.

Livros de escolas estatais “justificam a ocupação com versículos bíblicos (…): ‘Eu definirei as tuas fronteiras dos desertos até ao Líbano, do rio (Eufrates) até ao Mar Ocidental (Livro do Deuteronómio 11:24). (…) Os refugiados palestinianos são gente que quer entrar em Israel e não os que querem regressar à sua pátria; os palestinianos de cidadania israelita são o inimigo interno, ameaça demográfica e minoria inferior à maioria judaica – individual, social e economicamente.”

“As únicas fotografias de palestinianos mostram refugiados descalços numa estrada não identificada. O Livro de Geografia do Eretz [Grande] Israel exibe a caricatura de um homem de bigode, usando um kaffiyeh, a montar um camelo, geralmente acompanhado por uma mulher submissa e muitos filhos. (…) É assim que os estudantes judeus vêem os seus vizinhos árabes e palestinianos, incluindo os compatriotas israelitas.”

Nurit Peled-Elhanan constatou ainda que, nos livros escolares, os massacres cometidos pelas IDF ou pelas antigas milícias que precederam a fundação do Estado – Haganah, Irgun e Lehi (as duas últimas dirigidas por futuros primeiros-ministros, Menachem Begin e Yitzhak Shamir) – são descritos como “acções”, “campanhas”, “histórias”, “batalhas” e/ou “actos punitivos”.

“Os massacres na aldeia de Deir Yassin, em 1948, um dos detonadores do grande êxodo palestiniano; na aldeia de Kafr Qasim, em 1956; e na aldeia jordana de Qibya, arrasada totalmente sob comando de outro futuro chefe do Governo, Ariel Sharon, em 1953, são justificados como “necessários para obter resultados positivos”.

Os túneis do medo
Menina palestiniana com o crânio e o nariz fracturado na sequência de um ataque israelita. A reportagem que o jornalista Jon Snow da cadeia de televisão britânica Channel 4 fez com esta criança tornou-se mais um dos símbolos desta "guerra" © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Menina palestiniana com o crânio e o nariz fracturado na sequência de um ataque israelita. A reportagem que o jornalista Jon Snow da cadeia de televisão britânica Channel 4 fez com esta criança tornou-se mais um dos símbolos desta “guerra”

“Não há uma educação para a paz mas sim para o ódio em Israel”, observou a filha do general Mattityahu “Matti” Peled (1923-1995), um dos primeiros responsáveis militares a reconhecer “a necessidade de uma solução de dois Estados”.

Sobre os livros escolares palestinianos, diz-me Nurit: “Não é Israel que é apresentado como inimigo mas sim a ideologia do Sionismo, considerada a continuação do colonialismo europeu.”

Essa visão, notou a sabra Nurit (nascida em Israel, em 1949), é reforçada pela imagem que o Estado projecta de si próprio.

“Não se considera parte do Médio Oriente mas sim um país ocidental. A nossa educação é europeia. Os judeus de países árabes [como Marrocos, Iraque ou Iémen] e muçulmanos [como o Irão] são discriminados. Pior ainda estão os judeus etíopes, tratados como escravos.”

Para Nurit, a ofensiva em Gaza e o maciço apoio popular ao Governo de Netanyahu são “uma “derrota pessoal”. Ela que perdeu uma filha, Smadar, de 13 anos, num atentado suicida palestiniano em Jerusalém, em 1997, mas recusou vingar-se, sendo hoje uma das personalidades mais influentes na associação de famílias enlutadas (israelitas e palestinianas) Parents Circle-Family Forum (PCFF).

Ela que tem dois filhos no grupo de ex-guerrilheiros e antigos soldados Combatents for Peace, lamentou “não ter estado mais alerta”.

“Devíamos ter feito mais alguma coisa antes – talvez uma revolução, mas não fizemos ou não sabíamos o que fazer”, lastimou-se Nurit, confessando que, “para poder viver”, pensa muitas vezes em abandonar Israel.

“Os quase 90% de israelitas que agora apoiam Netanyahu têm medo dos túneis do Hamas. Quando as pessoas pensam que vão morrer não lhes interessa mais nada, mesmo que haja um fosso social que se aprofunda. Ninguém imaginava que os kibbutzim estivessem ao alcance dos túneis [usados pelos combatentes do Hamas para acções de guerrilha, supostamente visando soldados e não civis].”

Seraj ismail Abdel Al, 5 anos, ligeiramente ferido num ataque nocturno israelita, inspecciona os danos causados a vários edifícios na Faixa de Gaza, em 2 Agosto de 2014
© Lefteris Pitarakis | AP

“As pessoas só tinham conhecimento dos túneis de contrabando na fronteira com o Egipto [a sul, embora o Governo e o Exército soubessem da existência dos que foram escavados a leste, porque um deles serviu, em 2006, para raptar o soldado Gilad Shalit]”, acrescentou Nurit.

“As pessoas estão assustadas e reagem ao pânico, mas eu acho que estes 90% mudarão de opinião em dois minutos se houver perspectivas de paz. O nosso problema é este regime, de corruptos e criminosos, que age como uma máfia.”

“Não fizemos o suficiente para o destituir. Agora, o seu objectivo é exterminar os árabes; conquistar mais e mais terras para os judeus; ter menos e menos e menos palestinianos.”

Aziz Abu Sarah, um palestiniano que perdeu o irmão mais velho na primeira Intifada (1987-1994) em resultado da tortura a que foi submetido numa prisão militar, também faz parte do PCFF.

Rami Elhanan, o marido de Nurit, chama-lhe “meu irmão” e ambos se consideram “melhores amigos”, mas Aziz não considera que o imenso apoio popular em Israel à ofensiva na Faixa de Gaza seja uma derrota pessoal.

“As pessoas, a nível global, tendem a apoiar os seus governos no início de qualquer guerra”, disse ao Rede Angola, numa entrevista por e-mail, a partir de Washington, onde dirige, em conjunto com o rabi Marc Gopin, o Centro de Resolução de Conflitos da Universidade George Mason – o mais antigo no mundo.

“Tal como aconteceu com os americanos na guerra do Iraque, na guerra do Afeganistão, [os israelitas] são muitas vezes desinformados pelos media ou, em certa medida, influenciados mentalmente pela propaganda”, explicou Aziz.

“Neste caso, foi dito que os líderes do Hamas ordenaram o rapto e morte de três jovens na Cisjordânia (o chefe da Polícia em Jerusalém esclareceu, entretanto, que o Hamas não ordenou o sequestro). Os israelitas desconhecem que centenas de palestinianos foram presos antes do ataque a Gaza.”

“Os israelitas não sabem que o seu Governo violou o acordo com o Hamas no que diz respeito à libertação de prisioneiros [voltou a prendê-los em rusgas na Cisjordânia]. Por isso, não me surpreende que os israelitas estejam a apoiar a actual ofensiva em Gaza. Eles só vêem parte da história porque só lhes deram a narrativa que apoia a guerra.”

Os mitos do conflito
Palestinian children amid the ruins of a house destroyed by an Israeli airstrike in Gaza City, 15 July. © Ezz Zanoun | APA images

Um rapazinho palestiniano descansa sobre um colchão nas ruínas da sua casa, destruída durante um bombardeamento israelita na Faixa de Gaza
© Ezz Zanoun | APA images

São vários os “mitos” sobre Gaza, os palestinianos e o Hamas. Num artigo publicado pelo site +972 Mag, Aziz e o rabi Marc Gopin tentam responder a uma pergunta que muitos têm colocado: “Haverá paz se os palestinianos depuserem as armas?”

A resistência pacífica “é um passo positivo para a paz, mas não é suficiente para acabar com este conflito”, concluem os autores. Porque há “duas falsas assunções”: a primeira é a de que “o único impedimento à paz é a violência palestiniana” e a segunda é a de que “os israelitas são pacifistas.”

O argumento em relação à violência “é uma táctica barata para fomentar o medo”, salientaram Aziz e Gopin. “Demoniza os palestinianos e iguala-os aos nazis. (…) Os palestinianos na Cisjordânia depuseram, efectivamente, as armas.”

“Mais: usam as armas para proteger Israel. A Organização de Libertação da Palestina, OLP, reconheceu Israel. O presidente [da Autoridade Palestiniana] Mahmoud Abbas declarou o fim da luta armada e opõe-se aos rockets, à resistência armada e a qualquer tipo de combate contra Israel.”

“A Polícia palestiniana tem instruções para prender todos os que estejam a planear ataques contra Israel. Há nove anos que faz isto, desde que Abbas assumiu o poder. Segundos responsáveis pela segurança de Israel, Abbas conseguiu evitar vários ataques suicidas.”

“Abbas tem apostado na construção das infra-estruturas de um Estado palestiniano. Esforçou-se por assinar um acordo negociado com Israel (…), mas até agora falhou a missão. Por isso, o argumento de que quando os palestinianos depõem as armas a paz prevalecerá está longe da verdade e ignora as raízes da ocupação: um conflito territorial, disputa de recursos de água e falta de vontade política.”

Obras para recuperar a casa da família, na Cidade de Gaza, em Junho de 2015 © Associated Press

Junho de 2015: Obras para recuperar a casa da família, na Cidade de Gaza, depois da ofensiva militar israelita no ano anterior
© Associated Press

“Uma maioria dos palestinianos apoiou o processo de paz e a candidatura apresentada por Abbas à ONU para que a Palestina seja um Estado nas fronteiras [definidas pela guerra] de 1967, oferecendo a Israel 78% das terras que eles consideram a sua pátria”, lembraram Aziz e Gopin.

“A ironia é que o Hamas usa um conceito semelhante aos argumentos de Israel: que o reconhecimento de Israel por parte da OLP e a renúncia à luta armada não conseguiram nada; que a OLP depôs as armas e ainda não há paz. O Hamas alega que a sua confrontação violenta com Israel em 2012 obteve mais em troca do que as negociações e a diplomacia da OLP.”

“O Hamas consegue actualmente obter apoio porque Abbas não obteve a paz nas negociações com Israel.” “Os palestinianos sabem que não têm possibilidade de vencer uma luta armada”, notaram Aziz e Gopin.

“Também sabem que é improvável um acordo através de negociações (pelo menos não com este governo israelita). Até iniciativas não violentas como o movimento BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções] e protestos semanais nas aldeias contra o muro na Cisjordânia são rapidamente condenados como anti-semitas.”

“É absurdo que os palestinianos tenham de perguntar a Israel: ‘Que tipo de protesto é que acham aceitável e não anti-semita?’ Muitos palestinianos sentem que o mundo não quer ver o seu sofrimento e aspirações de liberdade.”

Sobre outros mitos, no que diz respeito à retirada unilateral de Gaza ordenada por Sharon, em 2005, e como o Hamas consolidou o seu poder, em 2007, ver o que escreveram o analista político americano-israelita Peter Beinart; Mehdi Hasan e Noura Erakat.

A doutrina de Netanyahu
Uma menina palestiniana em Gaza tenta recuperar os seus livros depois de um ataque israelita. Esta foto foi partilhada por milhares de pessoas nas redes sociais. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Uma menina palestiniana em Gaza tenta recuperar os seus livros depois de um ataque israelita que deixou em ruínas a habitação da família. Esta composição de fotografias foi partilhada por milhares de pessoas nas redes sociais

Aziz Abu Sarah é um assumido idealista, mas Rashid Khalidi, professor de Estudos Árabes na Universidade de Columbia, director do Journal of Palestine Studies e antigo consultor nas negociações israelo-palestinianas em 1991-93, há muito que deixou de acreditar na solução de dois Estados.

E se ainda tinha dúvidas, o primeiro-ministro Netanyahu deixou bem claro, para quem o quis ouvir, qual é o seu plano para a Cisjordânia.

“Três dias depois de ter lançado a actual guerra em Gaza, Netanyahu deu uma conferência de imprensa, em Telavive, durante a qual disse, em hebraico: ‘Penso que o povo israelita compreende agora o que sempre afirmei, que não pode haver uma situação, em nenhum acordo, que nos faça abdicar do controlo de segurança a ocidente do rio Jordão’”, escreveu Khalidi, na revista The New Yorker, citando o jornal The Times of Israel.

“Vale a pena ouvir atentamente Netanyahu quando ele fala ao povo israelita. O que se passa hoje na Palestina não tem a ver, na realidade, com o Hamas. Não tem a ver com os rockets. Não tem a ver com os ‘escudos humanos’, terrorismo ou túneis. Tem a ver com o controlo permanente de Israel sobre a terra e as vidas palestinianas.”

“É isso que Netanyahu diz, e é isso que ele agora admite que ‘sempre’ disse. Trata-se de uma política israelita imutável desde há décadas de negar à Palestina a autodeterminação, a liberdade e a soberania.”

“Como indicam as palavras de Netanyahu, Israel só aceitará um ‘estado’ palestiniano que seja privado de todos os atributos de um verdadeiro Estado: controlo sobre a sua segurança, fronteiras, espaço aéreo, limites marítimos, contiguidade e, portanto, soberania”, comentou Khalidi.

“A charada do ‘processo de paz’ que durante há 23 anos mostra que isto é o que Israel oferece, com a aprovação plena de Washington. Sempre que os palestinianos resistem a este destino patético (como qualquer outra nação faria), Israel castiga-os pela sua insolência. Não é uma novidade.”

“A paz foi conseguida na Irlanda do Norte e na África do Sul porque os Estados Unidos e o mundo compreenderam que tinham de pressionar a parte mais forte, responsabilizando-a e acabando com a sua impunidade”, adiantou Khalidi, autor de vários livros, o mais recente dos quais Brokers of Deceit: How the US has undermined peace in the Middle East.

Jovens no bairro de Shejaia, na Cidade de Gaza, visitam as ruínas da sua casa, bombardeada durante a Operação Escudo Protector em 2014
© Associated Press | SIPA

“A Irlanda do Norte e a África do Sul não são exemplos perfeitos mas vale a pena recordar que, para ter uma solução justa, foi necessário que os EUA lidassem com grupos como o Exército Republicano Irlandês [IRA] e o Congresso Nacional Africano [ANC], envolvidos em actos de guerrilha e até de terrorismo. Foi a única maneira de seguir uma via em direcção a uma paz verdadeira e à reconciliação. “

“O caso da Palestina não é diferente, nos seus fundamentos. [Mas aqui], os EUA colocam premem a balança a favor da parte mais forte. Nesta visão distorcida do mundo até parece que os israelitas é que são ocupados pelos palestinianos e não o contrário.”

“Neste universo desvirtuado, os reclusos de uma prisão ao ar livre estão a cercar uma potência com armas nucleares e com um dos exércitos mais sofisticados no mundo. (…) Os EUA têm de alterar esta sua política ou abandonar o clamor de que são um ‘mediador honesto’”.

Aziz Abu Sarah não acredita que a actual Administração nos EUA possa vir a seguir o exemplo da de George H. W. Bush que, em 1991, ameaçou congelar a ajuda militar a Israel (que hoje totaliza cerca de 3.000 milhões de dólares/ano) se Yitzhak Shamir não suspendesse a colonização judaica dos territórios ocupados.

“O que parece é que cada vez mais interessa a Barack Obama envolver-se menos no conflito israelo-palestiniano. John Kerry [o secretário de Estado] é criticado cada vez que o faz”, disse o activista. “E não esqueçamos que Obama aumentou significativamente a assistência a Israel, tendo concedido, há poucos dias, mais 350 milhões de dólares para apoiar o sistema [de intercepção de rockets] Iron Dome.”

A “cumplicidade” da Europa…

No Hospital Kamal Adwa, em Beit Lahiya, no norte de Faixa de Gaza, uma palestiniana chora a morte de familiares mortos num ataque israelita a uma escola das Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabalaiya, em 30 Julho de 2014
© Khalil Hamra | AP

Inquirido sobre a celeridade com que a União Europeia e Washington impuseram sanções a Moscovo depois da queda de um avião malaio, alegadamente, abatido por separatistas pró-russos na Ucrânia, em contraste com a recusa em penalizar Israel pela carnificina em Gaza, Aziz respondeu: “A UE e os EUA têm sido indiferentes em relação a países onde não têm interesses estratégicos.”

“A Síria [em guerra civil desde 2011] tem poucos recursos e os palestinianos nenhum. Não são prioridade para ninguém. A Ucrânia, pelo contrário, está situada numa área estratégica no que respeita à Rússia e, portanto, a Europa tem aqui muitos interesses. No final, tudo se resume a uma questão política”.

Na comunidade internacional, os protestos mais veementes têm sido os de países da América Latina – paradoxalmente uma das regiões para onde Israel vende mais armas –, como o Brasil, o Chile, a Argentina, o Equador, o Peru e a Venezuela, que chamaram os seus embaixadores em Telavive para consultas. Excepções foram o México e a Colômbia.

A Palestina tornou-se, segundo Aziz Abu Sarah, “uma nova Síria”, onde actores externos influenciam a situação política e de segurança “para seu próprio benefício”.

É o caso do Egipto presidido pelo general Abdel Fattah el-Sisi, que quer ver esmagado o Hamas, ramo da Irmandade Muçulmana afastada do poder no Cairo, e se aliou a Israel e à Arábia Saudita. Do outro lado, estão o Qatar e a Turquia, rivais de sauditas e egípcios, financiadores do Hamas, competindo pelo domínio regional. Para a professora

Nurit Peled-Elhanan, “há muita gente a beneficiar com esta guerra – até Israel beneficia porque no final dos combates pode vender as armas usadas aos tiranos no resto do mundo. Todos os países europeus têm interesse em vender mais e mais armas a Israel.”

“Os países europeus estão a colaborar com os crimes em Gaza e, por isso, são eles próprios criminosos. Na revolta do gueto de Varsóvia [há 70 anos], todos ficaram em silêncio. Agora, em relação aos palestinianos, todos continuam em silêncio.”

Sobre vendas de armas ler aqui,  aqui , aqui, aqui: e aqui: .

… e o crescendo de anti-semitismo

4 Maio de 2015, Faixa de Gaza: Um homem e uma criança passam por casas destruídas durante os 50 dias que durou a ofensiva militar israelita no verão de 2014
© Mohammed Salem | Reuters

O conselho de Nurit é o de “dar mais força ao movimento BDS para que possa levar Israel a julgamento no Tribunal Criminal Internacional [TCI]”.

É preciso “lidar com esta situação em termos criminosos e não políticos, tal como aconteceu com Milosevic, na Sérvia, ou com Marcus, nas Filipinas”.

Mas como agir desse modo quando, no Conselho dos Direitos Humanos da ONU, os Estados Unidos foram os únicos a vetar – enquanto a Alemanha, a França e o Reino Unido se abstiveram  – uma proposta para investigar eventuais crimes de guerra em Gaza?

“Toda a gente pode fazer isso”, assegurou Nurit, que ajudou a criar o Tribunal Popular Internacional Russel, em 2009, para avaliar “o papel e cumplicidade de terceiras partes, como governos, instituições e empresas, na violação da lei internacional” contra os palestinianos.

“Um advogado francês [Gilles Devers] acabou de o fazer, ao apresentar uma queixa junto do TCI acusando Israel de crimes de guerra.”

“Não existe esquerda em Israel”, admite Nurit. “Somos apenas alguns milhares a apoiar o BDS – é o que temos. Plantamos uma semente e temos de esperar até colher os frutos. O que podemos fazer é criar uma espécie de clube de pessoas que partilham as mesmas ideias, para continuar a protestar, a escrever, a falar. Nada mais podemos fazer, por enquanto, para parar este holocausto em Gaza ou a catástrofe em Israel. “

Perguntamos se “holocausto” não é uma palavra “demasiado pesada” para ser usada. “Não é preciso estabelecer paralelos [com a Shoah], é apenas uma palavra, ‘holocausto’”, contrapôs Nurit. “Em Gaza está a ser cometido um genocídio, e um genocídio é um genocídio, cada um com suas características.”

E esta banalização de termos não estará a contribuir para o alegado aumento de anti-semitismo na Europa, em particular em França, onde sinagogas foram atacadas e de onde surgem informações de que famílias judias estão a abandonar o país?

Nurit não pede desculpa pela sua opinião: “Israel está a fazer de propósito ao igualar judeus a israelitas, e os judeus que sentem ter de ser leais a Israel caem nesta armadilha.”

“Os judeus têm de compreender que há muito pouco Judaísmo no massacre de palestinianos e na ocupação. Devem criticar isto ou arriscam-se a sofrer a ira dirigida contra Israel.”

Aziz Abu Sarah, que a National Geographic nomeou Explorer Leader, como recompensa por ter ajudado a fundar uma agência de viagens (Mejdi Tours) com guias turísticos que apresentam aos visitantes as diferentes narrativas israelita e palestiniana, está revoltado: “A Palestina é e tem uma causa justa. Atacar os judeus na Europa em nome dos palestinianos é poluir a nossa luta pela liberdade.”

“Ninguém deve usar a violência contra outras pessoas fora da região em nosso nome. Os que realmente apoiam os palestinianos devem mostrar o seu activismo e fazer com que as suas vozes sejam ouvidas – mas nunca recorrendo à violência.”

O “regime” e a esquerda

Uma pai e uma filha aproveitam uma trégua de 72 horas para ver o que resta da sua casa em Beit Hanun, na Faixa da Gaza, em Agosto de 2014
© Marco Longari

Nurit Peled-Elhanan é implacável na avaliação do que ela chama o regime. “A sociedade está cada vez mais racista porque há mais apoio e fundos oficiais para que a extrema-direita aumente as ameaças, sem castigo”, lamentou.

Mas o que pode a enfraquecida esquerda fazer? Nem vozes influentes, como a do escritor David Grossman, parecem comover os israelitas que, em 1995, choraram o assassínio de Yitzhak Rabin cometido por um judeu extremista incapaz de aceitar o reconhecimento da OLP, de Yasser Arafat.

Escreveu Grossman, “o profeta secular”, no jornal The New York Times: “Pergunto aos líderes do meu país, ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e aos seus predecessores: Como é que vocês desperdiçaram anos desde o último conflito sem iniciar um diálogo, sem sequer fazerem o mais pequeno gesto em direcção ao diálogo com o Hamas, sem sequer tentar mudar a nossa realidade explosiva?”

“Por que é que, nos últimos anos, Israel evitou negociações judiciosas com os sectores mais moderados e dialogantes do povo palestiniano – um acto que serviria também para pressionar o Hamas? Por que é que ignorou, durante 12 anos, a Iniciativa da Liga Árabe que poderia ter mobilizado mais Estados árabes moderados com poder para impor, talvez, um compromisso ao Hamas?”

“Por outras palavras: Por que é que os governos israelitas têm sido incapazes, desde há décadas, de pensar fora da bolha?”

Duas crianças palestinianos no que resta de um bloco de apartamentos de 13 andares destruído pela aviação israelita em Gaza
© Mohammed Salem | Reuters

Aziz Abu Sarah reconhece que “o movimento pró-paz, em geral, tem de reavaliar a sua estratégia e métodos para chegar às duas comunidades, quer em Israel como na Palestina. Creio que só o diálogo não basta para mudar mentalidades.”

“Este é um momento importante para uma autorreflexão sobre o que resulta e não está a resultar nos nossos projectos e estratégias.” Apesar de tudo, o palestiniano que aprendeu hebraico e visitou Auschwitz “para entender o inimigo” insiste em não considerar como derrota pessoal a ofensiva em Gaza.

“Temos de repensar as estratégias de compromisso”, escreveu Aziz no e-mail de resposta às nossas questões. “Lembro-me muitas vezes disto: investigadores tentam encontrar medicamentos para o cancro ou VIH, e alguns deles estão envolvidos há uma década ou duas nestes esforços, mas ainda não obtiveram os resultados que pretendem.”

“Alguns deles vêem os seus pacientes morrer. Contudo, não se sentem derrotados. Continuam a tentar, continuam a lutar, porque sabem que ainda não é o fim o caminho. É assim que me sinto no meu trabalho de resolução de conflitos.”

“Há muitos reveses. Há muitos momentos tristes e de desapontamento, mas desistir seria a pior coisa a fazer. Conflitos, guerras, mortes são como o cancro, e os activistas pelas paz são como médicos que tentam encontrar os remédios certos.”

Madi Hasanein e a sua familia, no que resta da sua casa, no bairro de Tofah, na Cidade de Gaza, em Outubro de 2014
© Ezz al-Zanoun | NurPhoto | Corbis

Quanto às previsões de uma terceira Intifada, Aziz não a exclui, sobretudo depois de, recentemente, milhares de palestinianos terem vindo, espontaneamente, para as ruas em Ramallah, enfrentando balas reais do Exército e detenções, para protestar contra a matança em Gaza e contra a ocupação na Cisjordânia: “As pessoas na Palestina estão frustradas. As negociações não conduziram a nada. A resistência armada não conduziu a nada.”

“O nível de indignação é muito elevado, por isso, o terreno é propício a uma nova revolta. Não estou certo de que possa eclodir agora, mas não estamos muito longe de uma grande mudança na Cisjordânia. Se, aqui, os líderes palestinianos não oferecerem uma alternativa ao actual processo político (que está morto) então ser-lhes-á muito difícil justificar a existência de uma Autoridade Palestiniana.”

“Em Gaza, Israel sabe que esmagar totalmente o Hamas e criar anarquia em Gaza será pior para a sua segurança”, conclui Aziz. “A Autoridade Palestiniana não pode, neste momento, administrar o território. Há indicação de que grupos como o ISIS [Estado Islâmico do Iraque e do Levante] se tornarão mais poderosos.”

“É, pois, improvável que os combates terminem numa vitória para Israel. O Hamas também não pode derrotar Israel porque não tem qualquer poder militar nem constitui sequer uma ameaça à existência de Israel. São apenas os civis que pagam o preço.”

A família Shaheen partilha uma refeição junto aos destroços da sua casa destruída durante a ofensiva militar israelita na Faixa de Gaza em 2014 – ainda não a conseguiram reconstruir
© Mohamed Al Hajjar

“Há aqui um problema de imagem. Israel quer mostrar à sua comunidade que venceu, e o Hamas quer o mesmo. Nas negociações para um cessar-fogo pesam mais a fraseologia e o que cada grupo quer ‘vender’ à sua comunidade. Para o Hamas, o fim do bloqueio [por terra, mar e ar, em vigor desde 2007] constituiria uma vitória – este é, aliás, um dos seus objectivos claros.”

“Para Israel, é um pouco mais complicado, porque os objectivos do ataque a Gaza mudam a cada semana que passa: fim dos disparos de rockets, a destruição de túneis, a desmilitarização do Hamas. É improvável que Israel obtenha estes três objectivos.”

“Ninguém vencerá. Não basta um cessar-fogo, é preciso criar uma visão clara que ponha fim à ocupação, e garanta segurança e liberdade para todos – israelitas e palestinianos.”

Heaven, beg mercy for me!  

If there is

a God in you,

a pathway through you

to this God – which I have not

discovered – then pray for me!  For my

heart is dead, no longer is there prayer

on my lips; all strength is gone, and

hope is no more.  Until when, how

much longer, until when?

(Bialik, in: “On the Slaughter”)

Nurit Peled-Elhanan © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Nurit Peled-Elhanan

Aziz Abu Sarah © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Aziz Abu Sarah

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no REDE ANGOLA em 1 de Agosto de 2014 | This article, now updated, was originally posted on the news website REDE ANGOLA, on August 1, 2014