Berlim: Analogia com humor (1989-2014)

No ano em que o Muro de Berlim caiu, estavam no poder Helmut Kohl, em Bona, Mikhail Gorbatchov, em Moscovo e George H. W. Bush em Washington. O que os distingue de Angela Merkel, Vladimir Putin e Barack Obama? Fizemos estas perguntas, via Facebook, ao economista político Dwayne Woods, professor na Universidade de Purdue (Indiana, EUA) e investigador interessado na Europa Ocidental, que acaba de co-editar o livro The Many Faces of Populism: Current Perspectives. Estas são as suas divertidas respostas. (Ler mais | Read more…)

Angela Merkel e Helmut Kohl: ele foi o chanceler da unificação alemã e ela sua discípula até tomar o lugar do mentor. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Angela Merkel e Helmut Kohl: ele foi o chanceler da unificação alemã e ela sua discípula até tomar o lugar do mentor.
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Até que ponto teria sido possível a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética se, em 1989, na chancelaria em Bona estivesse Angela Merkel em vez de Helmut Kohl? E como é que o percurso de vida, na antiga RDA, da actual chefe do Governo alemão molda as políticas que ela segue em relação a países da UE, como Portugal?

Angela Merkel formou-se em Física, por isso, em seu entender, tudo deve ser claro e exacto. A física tem leis e a política tem regras. Assim que são definidas, as regras têm de ser obedecidas, segundo Merkel. Kohl era mais intuitivo e flexível.

Não fazia dieta e era um bon vivant. Apreciava um grand buffet. Aceitava tudo desde que comessem como ele – e com ele. Merkel diz a Portugal, à Espanha e à Grécia que regras são regras – mesmo que sejam dolorosas.

Seria possível uma relação privilegiada entre Merkel e Mikhail Gorbatchov como a que Kohl estabeleceu com o líder soviético? E a reacção de Kohl face à posição agressiva da Rússia na Ucrânia seria igual à de Merkel?

Merkel manteria uma relação cordial, mas não calorosa, com Gorbatchov. Quanto à agressão da Rússia na Ucrânia, Kohl teria telefonado a [Vladimir] Putin e dito: ‘Meu amigo, tens de acabar com este disparate.’ Merkel telefonou a Putin e disse-lhe, no seu sotaque da Alemanha de Leste: ‘Herr Putin, não quebre as regras.’ Putin [que foi espião do KGB em Dresden] respondeu-lhe, com o seu sotaque da Alemanha de Leste: ‘Sou eu que faço as regras!’

Os acontecimentos na URSS e na Europa de Leste em 1989 teriam sido possíveis se Putin, e não Gorbatchov, estivesse no poder em Moscovo naquele ano?

Se Putin governasse teria sido o desmancha-prazeres que Gorbatchov não foi. Talvez ele tivesse planeado um golpe militar contra si próprio como pretexto para retomar o poder e invadir a Europa de Leste. Putin alegaria, provavelmente, que o queda da União Soviética era uma conspiração pactuada num restaurante McDonald em Berlim Ocidental. Putin deixaria bem claro aos comunistas que não poderiam engolir este ‘big Mac’.

Mikhail Gorbatchov (à esquerda) e Vladimir Putin (à direita), durante um encontro em São Petersburgo: os dois eram discípulos do chefe comunista Iuri Andropov. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Mikhail Gorbatchov (esq.) e Vladimir Putin (dir.), durante um encontro em São Petersburgo, em 1994: dois discípulos do chefe comunista Iuri Andropov
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Será que, na perspectiva de Putin, [a praça de] Maidan em Kiev – centro da revolta pró-europeia contra Moscovo na Ucrânia – representa hoje o que a Alemanha foi em 1989? Estará ele a igualar a anexação da Crimeia à unificação alemã? Como é que Kohl teria reagido a este desafio, em comparação com a atitude de Merkel?

Para Putin, a Ucrânia é parte da eterna mátria Rússia. Se ele não a pode ter por completo aceitará ter apenas a metade oriental. Se Kohl estivesse agora no poder, teria dito a Putin: ‘Quebrar as regras é uma coisa, mas acabar com uma amizade de bon vivant é inaceitável.’

Kohl teria mobilizado uma frente unida contra a agressão levada a cabo por Putin. Sendo originário da Renânia, Kohl teria convocado uma cimeira de Estados europeus para adoptar medidas duras contra a Rússia. Depois, abriria várias garrafas de um fino [vinho alemão] Riesling, proclamando: ‘É preciso beber a uma boa crise.’

Num recente artigo na revista Commentary, Jonathan S. Tobin diz que, à semelhança de George H. W. Bush face às revoluções de 1989 na Europa de Leste, também Barak Obama está a reagir como se estivesse “perdido” e fosse um “opositor” dos movimentos pró-reformas no Médio Oriente. Concorda?

Tal como todos os advogados “’mal’ formados, Obama é cauteloso e realista. E, tal como os advogados que não exercem a profissão, ele esquece-se de que esperar que os acontecimentos ocorram não é equivalente a ficar inerte durante biliões de horas.

Obama continua, apesar de tudo, a preferir esperar que as coisas aconteçam antes de tomar uma decisão sobre o que irá fazer.

Depois, se as coisas acontecerem, ele decide então que já não tem alternativa. G. H.W. Bush era um homem de acção e princípios. Afinal, foi director da CIA, durante um ano. Na sua visão do mundo, não havia acontecimento que não pudesse ser resolvido com um pouco de pancadaria.

Encontro entre Barack Obama e George H. W. Bush, em 2011, na Casa Branca: o actual é muito mais prudente na sua política externa do que foi o antigo Presidente dos EUA, talvez por este ter sido director da CIA. © Pete Souza

Barack Obama e George H. W. Bush, em 2011, na Casa Branca: o 44º Presidente dos EUA é muito mais prudente na sua política externa do que o 41ª, talvez por este ter sido director da CIA
© Pete Souza

No que diz respeito ao Médio Oriente, um ano após a queda do Muro de Berlim e na sequência da invasão iraquiana do Kuwait, em 1990, G.H.W. Bush não hesitou em formar uma coligação contra Saddam Hussein. Em 1991, ameaçou congelar a ajuda financeira a Israel, se o primeiro-ministro Yitzhak Shamir não suspendesse a construção dos colonatos e participasse na Conferência de Paz de Madrid. Como imagina que teria sido a reacção de Obama?

Em 1989, Obama teria pacientemente formado uma coligação anti-Saddam como fez G.H.W. Bush. Teria invadido [o Iraque] e evitaria entrar em Bagdad [como fez Bush pai]. Não teria pressionado Shamir para ele estar presente na Conferência de Madrid.

Diria, depois, que ambas as partes [Israel e os Árabes] agem de má fé, e a conferencia teria fracassado. G.H.W. Bush acreditava que o poder da América podia forçar Israel a fazer concessões.

Obama acredita que o peso de Israel na política americana obrigaria os EUA a recuar. Para evitar perder a face, seria passivo-agressivo.

Para terminar, como avalia as relações Obama-Merkel e Obama-Putin?

A relação de Merkel com Obama é como a relação dela com o marido. Tudo está bem desde que ele se mantenha distante.

Assim que soube que Obama ouvia as conversas dela [alusão ao escândalo envolvendo as escutas de aliados europeus pela National Security Agency nos EUA], Merkel trancou a porta.

Agora, se bater à porta e disser que é Obama, ela responde-lhe: ‘Estou ocupada.’ Até recentemente, o facto de Putin quebrar as regras irritava Merkel, mas ele continua a comprar mercadoria alemã. E ela prefere alguém com sotaque da Alemanha de Leste a quebrar as regras do que um bisbilhoteiro que não fala alemão.”

Dwayne Woods

Prof. Dwayne Woods

Este artigo, com um título diferente, foi originalmente publicado, em 25 de Outubro de 2014, numa edição especial da revista “Sábado” dedicada ao 25º aniversário do mais importante acontecimento da história moderna alemã: a queda do Muro de Berlim | This article, under a different title, was originally published on October 25, 2014, in the Portuguese magazine “Sábado”, a special edition dedicated to the 25th anniversary of the most significant event in recent German history: the Fall of the Berlin Wall

An English version of this interview can be read here:  

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