O “médico de Gaza” quer justiça e não vingança

A sorte não nasceu com Izzeldin Abuelaish, mas este obstetra especialista em fertilidade que tratou muitos casais israelitas e palestinianos renega o impossível. Em 2009, duas bombas mataram-lhe três filhas e uma sobrinha. Quis acreditar que seriam as últimas vítimas de várias guerras que testemunhou até à Operação Escudo Protector – “a mais cruel” de que tem memória. Sente ódio? “Não, isso é uma doença.” (Ler mais | Read more…)

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Mayar, Aya (ao centro) e Bessan: as três filhas de Izzeldin Abuelaish mortas num bombardeamento aéreo, na Faixa de Gaza, durante a Operação Chumbo Endurecido (Cast Lead), em 2009
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Houg, no Sul da Palestina, era conhecida como “a aldeia dos Abuelaish”, uma família numerosa e abastada. Em 1948, durante a primeira guerra israelo-árabe, o avô Mustafa guiou os parentes para a cidade mais próxima, Gaza, “cerca de oito quilómetros a pé”. Partiram “sem pertences”, esperando regressar “alguns dias depois, duas semanas no máximo”. Não mais voltaram ao que, entretanto, se tornaria “a quinta de Ariel Sharon” (1928-2014).

Em 1967, quem voltou foi Sharon, à época comandante militar na Faixa de Gaza. Chegou com dezenas de escavadoras e “arrasou centenas de casas” no campo de Jabalyia, onde se refugiara a família Abuelaish. “Precisava de espaço para a passagem dos seus carros de combate”, depois de Israel conquistar o pequeno território ao Egipto.

Foi em Jabalyia, num quarto sem luz e água potável onde uma dezena de pessoas dormia no mesmo colchão e comia do mesmo prato as rações alimentares distribuídas pela ONU, que nasceu, a 3 de Fevereiro de 1955, Izzeldin Abuelaish, neto de Mustafa. E foi em Jabaliya que, em 2009, duas bombas israelitas mataram três filhas e uma sobrinha do homem agora conhecido como “o médico de Gaza”.

Depois de uma Nakba (Catástrofe) e um Naksah (Revés) – como as guerras de 1948 e 1967 são conhecidas em árabe –, seria de esperar que Izzeldin Abuelaish quisesse vingar-se dos seus inimigos. Mas nem agora, depois do que classifica como “a mais cruel agressão militar” na Faixa de Gaza, o autor de Não Odiarei (Ed. Planeta) cede à retórica por vezes anti-semita que tem acompanhado as notícias e imagens da Operação Escudo Protector, lançada a 8 de Julho.

Segundo o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA) foram mortos “2.104 palestinianos, incluindo 1.462 civis, dos quais 495 são crianças e 253 mulheres”. O número de desalojados internos “ultrapassará os 200 mil, incluindo 46.000 mulheres grávidas”. Os que perderam as suas casas, destruídas ou seriamente danificadas, totalizam 108 mil.

O Hospital de Al-Shifa, que não escapou aos ataques, terá registado “um aumento de 15 a 20% de nascimentos prematuros”. Entre os israelitas contaram-se 69 mortos, quatro deles civis (estes, tal como um trabalhador estrangeiro, vítimas de ataques com rockets, lançados de Gaza contra as povoações na fronteira).

“O que vejo ofende-me e deixa-me zangado”, disse-me, numa entrevista por Skype, o obstetra e especialista em fertilidade que ajudou muitos casais israelitas e palestinianos a terem filhos, e que depois da sua tragédia familiar vive no Canadá, onde continua a exercer Medicina e é professor de Saúde Global na Universidade de Toronto.

“Fui testemunha de todas as ofensivas em Gaza mas esta é pior do que a de 2009. Einstein dizia que loucura é fazer a mesma coisa vezes sem conta e esperar resultados diferentes. É o que se passa com a máquina militar de Israel em relação aos palestinianos. É impossível pôr fim a este conflito se não for reconhecido aos palestinianos o direito de serem livres.”

“Precisamos de coragem para acabar com a ocupação. É o maior desafio enfrentamos. O povo palestiniano é a única nação que não é livre. Se os palestinianos forem livres, os israelitas serão livres e sentir-se-ão seguros.”

O "médico de Gaza" e os seus filhos, numa foto que partilhou no Facebook para assinalar a festa muçulmana do Eid. © Cortesida de | Courtesy of Izzeldin Abuelaish

O “médico de Gaza” e os seus filhos, numa foto que partilhou (em 4 de Outubro), na sua página de Facebook, para assinalar a festa muçulmana do Eid
© Cortesia de | Courtesy of Izzeldin Abuelaish

Israel foi dando várias justificações para o início da operação que, no seu campo, causou mais de 60 mortos: primeiro, o rapto e homicídio de três jovens israelitas, atribuído ao Hamas, que governa Gaza (posteriormente, o crime foi atribuído a um bando fora do controlo do movimento islâmico); depois, o lançamento de rockets contra localidades no Sul que vitimaram três civis (embora o lançamento destes projécteis tenha recomeçado só depois de Israel ter assassinado operacionais do Hamas violando a trégua em vigor desde 2006; e, finalmente, a descoberta de “dezenas de túneis” que permitiriam à guerrilha infiltrar-se em Israel).

Embora tenha concorrido, como independente, contra o Hamas, nas eleições de 2006, e reafirme que condena “qualquer tipo de violência”, Abuelaish desmente que o movimento vencedor absoluto das legislativas “use civis como escudos humanos”, segundo alega Israel. “Isso é uma grande mentira!”, exclama.

“Antes de mais, é preciso entender o que é a Faixa de Gaza: um território muito, muito pequeno. Um total de 360 quilómetros quadrados para 1,8 milhões de habitantes. É a área mais densamente povoada do mundo, onde 50% são crianças e 20% são mulheres. Não há espaço livre para ninguém. As pessoas nem conseguem mexer-se. Israel continua a culpar-nos por lutarmos, mas nós lutamos por que não aceitamos a ocupação.”

Sobre os túneis, Abuelaish explica: “Foram criados depois do castigo colectivo imposto em 2006 [quando o Hamas ganhou as legislativas]. As fronteiras foram fechadas e a necessidade é mãe da criatividade. Os túneis foram escavados para sobrevivência.”

“Os túneis são sintomas de uma doença, que é a ocupação. Depois dos Acordos de Oslo [de 1993], previa-se um Estado palestiniano nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Leste como capital. Isto deveria acontecer em 1999.”

“Estamos em 2014 e, a cada dia que passa, mais e mais terras são confiscadas para expandir colonatos na Cisjordânia. Isto enfraquece a Autoridade Palestiniana e reforça o Hamas. Gaza tornou-se na maior prisão do mundo mas nada nos pode afastar dos nossos irmãos na Cisjordânia – somos um só povo.”

zzeldin Abuelaish with daughters, Shatha, left, and Dalal, May 30 at the first Daughters for Life gala. ©Asad Rahman

Izzeldin Abuelaish com as sus filhas Shatha (esq.) e Dalal, que fazem parte da direcção (não remunerada) da Fundação Daughters for Life, criada pelo médico em homenagem às suas outras três filhas mortas em Gaza em 2009
© Asad Rahman

“Em 2006, a Autoridade Palestiniana opunha-se à realização de eleições e os Estados Unidos impuseram-nas”, recordou Abuelaish. “As eleições foram consideradas livres – observadores europeus comprovaram. Os palestinianos elegeram os seus representantes, o Hamas, mas a comunidade internacional rejeitou-os.”

“No entanto, alguém rejeitou o Governo israelita que é composto por dois partidos de extrema-direita, a Casa Judaica, de Naftali Bennett e Ayelet Shaked, e o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman, que advogam a limpeza étnica dos palestinianos?”

“Por que é que esta liberdade é concedida a Israel e não aos palestinianos? Não pode haver dois pesos e duas medidas no que se refere à justiça. Logo após a vitória do Hamas foram impostas sanções aos palestinianos. Isto é inaceitável.”

“E o mundo tem de perceber isso. Os meus amigos israelitas não deviam ficar silenciosos. Como disse Martin Luther King, ‘tudo o que é necessário para que o mal triunfe é que os homens nada façam’ [esta citação é atribuída ao político, escritor e filósofo irlandês William Burke, 1729-1797].

Abuelaish tem muitos amigos israelitas. Foram eles que lhe deram o primeiro emprego fora de Gaza, aos 15 anos, na Moshav (cooperativa) Hodaia. Durante 40 dias, trabalhou das seis da manhã às 20h00, no Verão.

A família Madmoony, de origem sefardita, tratava-o “com carinho”. Mais tarde, foi operário da construção civil, na cidade de Ashqelon, mas nunca deixou de estudar. Em 1975, concluído o liceu, seguiu para a Universidade do Cairo, graças a uma bolsa.

Nessa altura era livre o movimento de pessoas e bens entre Gaza e o Egipto. Em 1983, finalizou o mestrado em Medicina e retornou a Gaza para exercer a profissão em hospitais locais.

Em 1987, tendo juntado dinheiro em Jidá, na Arábia Saudita, onde trabalhou numa maternidade, Abuelaish casou-se com Nadia – no campo de Jabalyia.

A primeira filha, Bessan, nasceu em 1988, no mesmo ano em que ele ingressou no Instituto de Obstetricia da Universidade de Londres, para outro mestrado, com bolsa, sobre as causas da infertilidade.

Posteriormente, na sua clínica privada em Gaza, reparou que os principais livros sobre a sua área eram de professores israelitas na Universidade de Ben-Gurion, em Beersheba: Bruno Lunenfeld e Vaclav Insler. Telefonou-lhes e levou até eles pacientes palestinianos.

Eles apresentaram-no a Marek Glezerman, na altura presidente do Departamento de Ginecologia do Hospital de Soroka. A partir daqui, desenvolveu-se a amizade entre ambos e Abuelaish tornou-se no primeiro médico palestiniano aceite como quadro de um grande hospital israelita (de 1997 a 2002).

A especialidade foi sendo aperfeiçoada noutros países, como a Itália e a Bélgica. Completou ainda um mestrado em Gestão de Saúde na Universidade de Harvard (EUA).

Foto da família Abuelaish. A partir da esquerda estão os oito filhos do médico de Gaza Mayar (morta no ataque israelita em 2009), Etimad, Bessan (morta em 2009), Shatha, Abdullah, Aya (morta em 2009), Raffah e Dalal. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Foto da família Abuelaish. A partir da esquerda estão os oito filhos do médico de Gaza Mayar (morta no ataque israelita em 2009), Etimad, Bessan (morta em 2009), Shatha, Abdullah, Aya (morta em 2009), Raffah e Dalal
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Em 2009, quando a Faixa de Gaza foi encerrada para mais uma operação militar instigada pelos rockets do Hamas, Abuelaish serviu de “fonte” de muitos jornalistas.

Tornou-se amigo de Shlomo Eldar, repórter do Canal 10 da de TV israelita. Foi a ele que telefonou quando duas bombas caíram sobre a sua residência, onde viviam 22 pessoas, e mataram as suas três filhas, Bessan, Mayar e Aya, e a sobrinha Ghaida.

Uma quarta filha, Shatha, perdeu um olho e ficou parcialmente cega. Nesse dia 16 de Janeiro, quando o viu a chorar, o filho mais novo deu-lhe coragem para se dedicar aos sobrevivente: “Não deves estar triste, pai; elas vão para junto da mãe”. Nadia tinha morrido meses antes de leucemia. Abuelaish ficou com cinco filhos para criar (duas raparigas e três rapazes).

Eldar estava em estúdio a entrevistar Tzipi Livni, actual ministra da Justiça, quando notou que Abuelaish estava a ligar. Não atendeu. No intervalo da emissão, o telemóvel voltou a tocar e decidiu ouvir, como se pressentisse algo de errado.

Abuelaish gritava: “O que é que vocês fizeram às minhas filhas?” O jornalista colocou-o em alta voz, virou o telefone para a câmara e respondeu: “Diz-me onde elas estão que envio uma ambulância à tua casa”.

Do outro lado da linha, o ‘médico de Gaza’ não continha as lágrimas: “Elas foram mortas, Shlomi”.

Abuelaish, um muçulmano devoto, recebeu incontáveis mensagens de apoio de muitos judeus israelitas. Foram os seus amigos que o fizeram sair de Gaza e convenceram a mudar-se para o Canadá. Aqui, em Toronto, criou a Fundação Daughters for Life, em homenagem às suas filhas.

É uma instituição que concede bolsas de estudo a jovens do Médio Oriente – incluindo israelitas –, porque “a educação das mulheres garante o futuro da Humanidade”, como salientou nesta entrevista.

my son Mohammed said to me: 'Why are you crying? You must be happy.' 'Happy for what?' I asked. 'Because my sisters are with their mum,' he told me. It came as a message: this 12-year-old boy telling me to move forward. I was saved, and now it was my job to save others. I could have been killed, too, so very easily, and then no one would have known our story." © Ben Curtis/AP Photo (The Guardian)

Izzeldin e o seu filho Mohammed depois do ataque em que perdeu as suas filhas, em 2009. Numa entrevista ao diário britânico The Guardian, o médico de Gaza contou uma conversa entre ambos. “Por que choras? Devias estar feliz”, disse o rapaz, com 12 anos O pai respondeu: “Feliz porquê?” E o menino retorquiu: ” Porque as minhas irmãs estão a com a sua mãe”, que meses antes morrera de cancro. 
© Ben Curtis | AP Photo

O apoio que Abuelaish recebeu de anónimos cidadãos israelitas também o faz acreditar ainda em dois Estados, o de Israel e o da Palestina. “Se o Governo de Benjamin Netanyahu quer esta solução de tem de acabar com a expansão dos colonatos, que são ilegais e serão sempre ilegais”, declarou. “Se está a inviabilizar esta solução, tem de ser responsabilizado.”

Infelizmente para Abuelaish, o Governo federal em Otava, dirigido [em 2014] pelo conservador Stephen Harper, é um aliado incondicional de Netanyahu e está a inviabilizar uma iniciativa que conta com o apoio das autoridades provinciais de Ontário, para que 100 crianças palestinianas gravemente feridas sejam tratadas no Canadá.

[Em 2015, com o trabalhista Justin Trudeau na chefia do Governo do Canadá, Abuelaish, professor associado na Dalla Lana Scool of Public Health na Universidade de Toronto, viu alguns dos seus sonhos realizados: obteve cidadania canadiana, ao fim de seis anos no país, na mesma altura em que chegava um primeiro avião com refugiados sírios.]

Apesar dos obstáculos, Abuelaish imagina israelitas e palestinianos juntos a pressionarem uma mudança de líderes: “Acho isso possível, porque não acredito em impossibilidades. É possível vivermos juntos, com respeito e compreensão mútuos – e em igualdade. Não há outra via. Israelitas e palestinianos são como gémeos siameses. Não se pode separá-los.”

“Nunca deixarei que o veneno do ódio me invada ou se aproxime de mim. Se eu quiser viver bem tenho de estar saudável, física e mentalmente. O ódio é uma doença a que eu resisto”, concluiu. “Acredito no que faço, porque a Medicina tem um rosto humano.”

“Não há diferenças entre israelitas e palestinianos quando estão num hospital. Todos são iguais. Sempre trabalhei no interesse dos meus pacientes. Quando ajudo um casal israelita ou um casal palestiniano a terem filhos fico feliz, porque quando os seus bebés choram ao nascer não há diferenças entre eles.”

Izzeldin Abuelaish, na sua nova casa em Toronto (Canadá), em Dezembro de 2010, o ano em que processou judicialmente o Estado de Israel pelas mortes das suas filhas, no ano anterior, durante um ataque aéreo em Gaza. © Andrew Wallace | Toronto Star

Izzeldin Abuelaish, na suacasa em Toronto, em Dezembro de 2010, o ano em que processou judicialmente  Israel pelas mortes das suas filhas, durante um ataque aéreo em Gaza
© Andrew Wallace | Toronto Star

A versão portuguesa de I Shall Not Hate. Na entrevista à "Além-Mar", Izzeldin Abuelaish queixou-se de a Editora Planeta não ter promovido devidamente o livro.

A versão portuguesa de I Shall Not Hate. Izzeldin Abuelaish queixou-se de que a Editora Planeta não “promoveu devidamente” o livro

Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente na edição de Outubro de 2014 da revista “Além-Mar” | This article, under a different titlle, was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, October 2014 edition

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