O Papa Francisco rezou mas a paz não chegou

O chefe da Igreja Católica reuniu no Vaticano o israelita Shimon Peres, o palestiniano Mahmoud Abbas e o patriarca cristão ortodoxo, em busca de uma visão comum de paz. O Bispo de Roma pediu “uma pausa na política”. A prece colectiva foi lida como prova de que “a religião pode desempenhar um papel central na tentativa de resolver conflitos no Médio Oriente”. (Ler Mais | Read more…)

O abraço do palestiniano Mahmoud Abbas ao israelita Shimon Peres, perante o olhar do Papa Francisco, durante a “oração pela paz” em Junho de 2014, nos jardins do Vaticano. © nbcnews.com

O abraço do palestiniano Mahmoud Abbas ao israelita Shimon Peres, perante o olhar do Papa Francisco, durante a “oração pela paz” em Junho de 2014, nos jardins do Vaticano
© nbcnews.com

Em Junho [de 2014], numa entrevista que deu logo após uma viagem memorável à Terra Santa, o Papa Francisco confessou-se ao jornal La Vanguardia, de Barcelona: “No Vaticano, pelo menos 99% opunha-se” a uma oração conjunta envolvendo cristãos (como o patriarca ortodoxo Bartolomeu I), israelitas judeus, como Shimon Peres, e palestinianos muçulmanos, como Mahmoud Abbas/Abu Mazen).

A ideia “era uma novidade total e não foi fácil vê-la aprovada”, disse o chefe da Igreja Católica. O objectivo era “abrir uma janela para o mundo e, no final, o 1% que apoiava a iniciativa começou a aumentar.”

Inquirido sobre as razões que o levaram a envolver-se no “furacão” do Médio Oriente, duas semanas depois de o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, ter reconhecido o colapso do “processo de paz”, o Bispo de Roma respondeu: “Nada se compara à tempestade que foi a visita ao Brasil, em 2013 [quando prescindiu do “papamóvel”, à prova de balas, para ser abraçado e beijado por milhões de fiéis.] “Eu não podia saudar as pessoas e dizer-lhes que as amo do interior de uma lata de sardinhas – mesmo que fosse de cristal.”

“Oficialmente, o principal objectivo do Papa, ao visitar as raízes da religião cristã, era comemorar o 50º aniversário do encontro entre Paulo VI e Atenágoras, Patriarca Ecuménico de Constantinopla”, lembra-nos, numa entrevista, Michaela Koller, cientista política e estudiosa da Igreja Católica, Próximo Oriente e Diálogo Inter-religioso.

“Foi aquele encontro, em 1964, que permitiu o fim das excomunhões em vigor desde o Grande Cisma de 1054. No entanto, Francisco inspirou expectativas maiores e o encontro com o sucessor de Santo André acabou por não ser o clímax da viagem”.

Antes da chegada de Francisco, já o patriarca latino de Jerusalém, Arcebispo Fouad Twal, clarificara as intenções: “Falarei sempre sobre a vida quotidiana na Terra Santa, sobre a necessidade de paz sem ocupação [israelita] e liberdade de acesso [dos palestinianos]aos locais sagrados. Isto significa que nos opomos aos checkpoints, onde quer que se encontrem, e à exigência de que todos os árabes necessitam de uma autorização para vir e estar aqui, enquanto visitantes da China, Japão ou países europeus podem chegar sem qualquer problema.”

 Mosteiro de Latrun, em Israel, vandalizado com graffiti: nas paredes lê-se “Jesus é um macaco” e os nomes de dois colonatos judaicos na Cisjordânia © Menahem Kahana | AFP | Getty

Mosteiro de Latrun, em Israel, vandalizado com graffiti: nas paredes lê-se “Jesus é um macaco” e os nomes de dois colonatos judaicos na Cisjordânia
© Menahem Kahana | AFP | Getty

Os cristãos em Israel ou sob a Autoridade Palestiniana, salientou Michaela Koller, vaticanista com base em Munique (Alemanha), “vêem-se a si próprios como vítimas das restrições causadas pela ‘fronteira de segurança’ construída na forma de um muro gigantesco em Belém.”

“Mobilidade geográfica e mentes abertas estão limitadas nesta região dominada por duas outras religiões monoteístas, sobretudo quando a paz parece inatingível”, acrescentou. “O momento em que o Papa Francisco parou junto ao ‘muro de separação’ e ali rezou foi o ponto alto da sua viagem: uma oração para sarar o trauma.”

Para as autoridades israelitas, a “barreira” que os palestinianos designam por “muro do apartheid“ é uma “protecção contra o terrorismo: há um controlo real de movimentos entre a Cisjordânia e Israel desde que o muro foi construído, e o número de ataques diminui, notou Michaela Koller.

Meses antes da viagem de Francisco, os anfitriões incluíram no programa oficial uma paragem junto a um memorial em honra dos civis israelitas mortos em actos de terrorismo palestiniano. “Foi então que o pontífice decidiu equilibrar os sinais”, observou a analista alemã. “O programa permitia-lhe ver as feridas e as suas causas – e outra ferida, ainda maior, foi a crise na Síria.”

O patriarca latino, Fouad Twal, contou [em Junho] pelo menos “140.000 a 150.000 mortos” [este número foi actualizado, em 2016, para cerca de 400 mil, segundo estimativas da ONU]. E Twal não parece ter simpatia pela oposição à  ditadura de Bashar al-Assad. “Mudar o regime ? Este não era o pior do mundo. E quem virá a seguir? Os ocidentais deveriam deixar de ajudar os terroristas.”

Sendo uma das várias confissões religiosas na Síria, a maioria dos cristãos foi, até à guerra civil iniciada em 2011, leal ao Presidente Bashar, cuja sobrevivência, política e do seu clã alauita (também uma minoria), dependiam de uma coligação contra a maioria muçulmana sunita.

No primeiro dia de peregrinação, Francisco recebeu cerca de 600 refugiados e jovens deficientes, na igreja latina de Betânia, junto ao local onde Jesus foi baptizado por São João.

De seguida, o Papa agradeceu às autoridades do Reino da Jordânia por terem aberto as portas a mais um fluxo de refugiados, sobretudos os que fugiram do Iraque e da Síria [onde o autoproclamado “estado islâmico”, ou Daesh, estabeleceu um “califado”].

O Papa Francisco reza junto ao que os palestinianos designam por "muro do apartheid", na Cisjordânia ocupada por Israel, quando se dirigia para a Igreja da Natividade na cidade de Belém. © Mheisen Amareen | Reuters

O Papa Francisco reza junto ao que os palestinianos designam por “muro do apartheid“, na Cisjordânia ocupada por Israel, quando se dirigia para a Igreja da Natividade na cidade de Belém
© Mheisen Amareen | Reuters

Num apelo à paz na Síria, o Papa exortou a comunidade internacional “a não deixar a Jordânia sozinha no esforço de assistência humanitária e que, pelo contrário, aumente o seu apoio e auxílio.

“Numa região onde a religião serve frequentemente para legitimar o poder político, o Papa apontou o caminho inverso: que a religião tem a sua própria esfera e pode fazer avançar o que está congelado”, constatou Michaela Koller.

Ao convidar Peres e Abbas para uma oração pela paz, no Vaticano, a 8 de Junho, Domingo de Pentecostes, Francisco “enviou mais um sinal ao mundo: as pessoas podem ter as suas posições e ideias, adversárias ou até hostis umas para com as outras, mas podem começar por se erguerem juntas, pelo menos por um momento, em busca de um bem maior.”

Peres, o artífice do programa nuclear israelita e do projecto colonial nos territórios palestinianos ocupados, o trabalhista que perdeu todas as eleições até conseguir a Presidência (numa votação no Parlamento), o “pacifista” que iniciou várias guerras, partiu desconfiado para a oração ecuménica. Dias antes, os rivais palestinianos Fatah, que administra a Cisjordânia, e o Hamas, que governa a Faixa de Gaza, formaram um governo de unidade nacional, composto por independentes.

Resmungou o Nobel da Paz que ajudou a assinar (com Abbas) os Acordos de Oslo em 1993 – vistos pelo defunto académico palestiniano Edward W. Saïd como “uma capitulação” porque têm permitido a expansão dos colonatos: “Este compromisso Fatah-Hamas é uma contradição inviável – porque um [a maior facção, secular, da OLP] renega a coexistência e outra [o movimento islâmico, religioso] prega a violência”.

O nonagenário Peres [que morreria em 2016], defensor de dois Estados, foi substituído, em 24 de Julho [de 2014], por um direitista (do partido Likud), Reuven Rivlin, que advoga “um só Estado, para judeus e árabes com os mesmos direitos”.

O cargo de Presidente em Israel é meramente protocolar, mas é da sua responsabilidade conceder amnistias e aprovar ou rejeitar a libertação de prisioneiros que representam trunfos, como Marwan Barghouti, o líder da Segunda Intifada (2000) condenado a várias penas de prisão perpétua mas admirado por uma maioria de palestinianos.

Shimon Peres e Mahmoud Abbas (à esquerda), o Papa Francisco (ao centro) e o Patriarca Bartolomeu I (à direita) quando plantavam uma oliveira pela paz nos jardins do Vaticano, em 8 de Junho de 2014. © International Business Times

O Papa Francisco, com Shimon Peres, Mahmoud Abbas e o patriarca Bartolomeu I , quando plantavam uma oliveira pela paz nos jardins do Vaticano, em 8 de Junho de 2014
© International Business Times

A caminho de casa, Francisco exprimiu optimismo na sua conta no Twitter: “A oração é toda-poderosa; deixemos que ela leve a paz ao Médio Oriente e ao mundo”. O Papa insistiu em que não tem uma agenda política e que apenas quis reacender a chama da paz quando endereçou o convite a Peres, Abbas e Bartolomeu I.

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, mostrou-se exultante, em declarações à agência noticiosa Associated Press (AP): “A oração tem uma força política que, talvez, não vislumbremos mas que deve ser desenvolvida ao máximo. […] Porque a oração tem a capacidade de transformar corações e de transformar a História.”

Nos jardins do Vaticano, o Papa, Abbas e Peres plantaram uma oliveira, seguindo-se a este ritual pequenos discursos de cada um dos convidados. Abbas falou da importância de Jerusalém para o povo palestiniano, e agradeceu a Deus ter abençoado os palestinianos com o nascimento de Jesus na Palestina [segundo historiadores, em Nazaré , actual Israel, não em Belém, território sob ocupação desde 1967, apesar de aqui se encontrar um dos principais templos cristãos, a Basílica da Natividade]. Também invocou a necessidade de um Estado palestiniano, “independente e soberano”, para que possa haver uma paz “justa e duradoura” na região.

O Papa declarou: “Mais do que uma vez temos estado próximos da paz,mas o Diabo impediu que ela chegasse. Por isso estamos aqui. Precisamos de erguer os olhos ao Céu e reconhecer que somos todos filhos de um só Pai.”

Peres repetiu palavras gastas: “Eu era jovem e tornei-me um idoso. Experimentei a guerra e saboreei a paz. Nunca esquecerei as famílias enlutadas – pais e filhos – que pagaram o preço da guerra [será que incluiu aqui uma operação militar que ele próprio ordenou, em 2006, contra o quartel-general das tropas da ONU, em Qana, no Sul do Líbano, que causou mais de cem mortos e um número superior de feridos?) Até ao fim da minha vida jamais deixarei de procurar a paz para as gerações vindouras.

Thomas Reese, analista do Vaticano para o National Catholic Reporter, observou: “No Médio Oriente, gestos simbólicos e passos firmes são muito importantes. Quem sabe o que se discutiu por detrás de portas fechadas?”

Se houve segredo nas conversações, a oração em conjunto realizou-se à vista de todos nos jardins do Vaticano, descrito como “o lugar religioso mais neutral na cidade-Estado”. E, pela primeira vez, as três religiões entoaram os seus hinos, exprimindo a um Deus único gratidão e perdão.

Por seu turno, Daniel Petri, num artigo publicado pela revista TIME, sentenciou que a “cimeira da oração” foi puramente simbólica, mas concorda que não foi insignificante: “Actos simbólicos podem gerar progressos a longo prazo.”

“Quando o Papa fala sobre temas internacionais, o mundo ouve-o. E o que ele diz tem repercussões, por isso, há muito tempo que os meios de comunicação social deveriam conside- rar o Papado um dos maiores actores geopolíticos.”

O artigo de Petri, doutorando em Política pela Universidade Católica da América, foi uma reacção a um outro, também publicado na TIME, por Christopher J. Hale, senior fellow dos Catholics in Alliance for the Common Good. Escreveu Hale: “Reduzir a cimeira de oração convocada pelo papa a um acto de mero simbolismo é não compreender o papel que a religião pode desempenhar no debate de crises políticas.”

“É difícil negar que Francisco é o mais importante político do mundo depois da sua viagem à Terra Santa. Durante 55 horas, o Bispo de Roma, 77 anos, visitou três países, plantou árvores e suportou uma conferência de im-prensa que durou 45 minutos.”

Jovens palestinianos em confronto com a Polícia durante protestos na aldeia árabe Kfar Kana, no Norte de Israel, em 10 de Novembro de 2014 * © Ariel Schalit | AP

Jovens palestinianos em confronto com a Polícia, durante protestos na aldeia árabe Kfar Kana, no Norte de Israel, em 10 de Novembro de 2014
© Ariel Schalit | AP

Todos os momentos foram importantes, salientou Christopher Hale, mas o que terá um impacto duradouro na região foi a surpresa dominical do Papa, durante uma missa ao ar livre em Belém, ao convidar Peres e Abbas para se juntarem a ele no Vaticano para oração e diálogo.

Bastou uma hora para que os dois estadistas aceitassem. E é de realçar, segundo Hale, o êxito do Papa face ao fracasso do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que não conseguiu revitalizar um processo de paz “dormente desde há [vários] anos”.

Comentadores como David Levy, no jornal The New York Times, ou David Horovitz, no diário The Times of Israel, desvalorizaram o gesto conciliatório do Papa, mas Hale argumentou: “Reduzir o encontro de Junho a um simples acto simbólico é não compreender o papel que a religião pode desempenhar para resolver questões difíceis, políticas e étnicas.”

“Em toda a História mundial, profetas religiosos foram criativos na resolução de problemas para obterem a paz e a justiça.” E citou alguns: Mahatma Gandhi (na Índia) e Martin Luther King Jr. (nos EUA): “Eles provaram que testemunhas religiosas podem vencer guerras sem levantar a mão.”

Hale recordou ainda que, em Setembro de 2013, quando estava iminente uma intervenção militar dos EUA na Síria, Francisco pediu à sua Igreja um dia mundial de oração e jejum. Numa vigília, na Praça de São Pedro, o papa perguntou: “É possível mudar de rumo? Podemos livrar-nos desta espiral de dor e morte? Poderemos nós aprender, uma vez mais, a caminhar e viver nos caminhos da paz?”

Os críticos desconfiaram que o jejum pudesse resolver alguma coisa na Síria, mas Hale notou que eles “estavam errados”, pois que a comunidade internacional negociou um plano para desmantelar as armas químicas do regime de Assad, e “os EUA evitaram a terceira campanha militar no estrangeiro dos últimos doze anos”.

Conclui Christopher Hale: “Se a oração colectiva do Papa Francisco puder ser um catalisador para recomeçar as negociações de paz no Médio Oriente [Peres e Abbas não se encontravam em público há um ano], e se pudermos, de certo modo, pôr fim à violência infindável que assola região como uma praga, então saberemos que o arcanjo Gabriel estava certo: “A Deus nada é impossível.”

[Este “encontro pela paz” não conseguiu o “milagre” de levar a paz ao Médio Oriente. Pelo contrário, em regiões do Iraque e da Síria emergiu uma ameaça maior do que a velha al-Qaeda.]

A vaticanista alemã Michaella Koller, entrevistada para este artigo, durante uma audiência com o anterior Papa, Bento XVI, em Dezembro de 2011. © Cortesia de | Courtesy of Michaella Koller

A vaticanista alemã Michaella Koller, entrevistada para este artigo, durante uma audiência com o anterior Papa, Bento XVI, em Dezembro de 2011
© Cortesia de | Courtesy of Michaella Koller

Este artigo, agora actualizado e com um título diferente, foi originalmente publicado na revista “Além-Mar”, na edição de Setembro de 2014 | This article, now updated and under a different title, was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, Setembro 2014 edition

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