Afro-iranianos: Uma minoria especial

Conhecidos como “negros do Sul”, muitos serão descendentes de escravos que Portugal levou para o Golfo Pérsico. Dentro e fora do país, poucos saberão da existência desta comunidade singular. O fotógrafo Mahdi Ehsaei foi à procura deles, na província de Hormozgan, para que sejam reconhecidos pela História. (Ler mais | Read more...)

Sanaz - Minab, Hormozgan Province This Afro-Iranian woman with her baby is a perfect example of Afro-Iranian and Western culture colliding. © Cortesia de Mahdi Ehsaei | Courtesy of Mahdi Ehsaei

Sanaz e o seu filho, em Minab, na província de Hormozgan. Esta mulher “é o exemplo perfeito da fusão entre as culturas afro-iraniana e ocidental”, diz o autor de Afro-Iranians, livro que homenageia uma comunidade singular
© Mahdi Ehsaei

Os iranianos conhecem bem o rosto (maquilhado de) negro de Haji Firuz, o arauto do Ano Novo Persa (Nowruz) que, com roupas coloridas e chapéu coniforme, desfila pelas ruas cantando e desejando boas novas.

Poucos saberão, porém, que este personagem é “a continuação das tradições da era sassânida, quando escravos negros entretinham audiências com música e dança”, segundo o sociólogo Ja’far Shahri.

E como é que uma figura que, devido às suas vestes geralmente vermelhas alguns comparam ao Pai Natal e situam no passado zoroastra pré-islâmico, ainda hoje, depois da abolição da escravatura em 1928, entoa rimas como Meu Senhor, eleva a tua cabeça/ Meu Senhor, olhe para si próprio/ Meu senhor, por que não ri?

A historiadora Beeta Baghoolizadeh, da Universidade da Pensilvânia (EUA), explica: “É o produto do nacionalismo, o resultado de Reza Pahlavi [o primeiro Xá desta dinastia] ter enfatizado um passado ariano. Muitos dirão, ‘Nunca tivemos escravos’, Ciro, o Grande, libertou-os todos. Prevalece o sentimento de que o Antigo Irão marcou o começo de um ‘verdadeiro Irão’. Isto apaga a compreensão da história recente.”

In Bandar Abbas, Eshagh is leaning against one of the most sold cars in Iran, a Kia Pride. The nearly extinct cult car is the Peykan. © Courtesy of Mahdi Ehsaei

In Bandar Abbas, Eshagh posa junto de um carros mais vendidos no Irão, o Kia Pride, que tem vindo a suceder ao Peikan, um “automóvel de culto”
© Mahdi Ehsaei

Haji Firuz, representado pelos trovadores que continuam a espalhar alegria e felicidade no equinócio da Primavera, foi um dos rostos negros que levou o fotógrafo alemão-iraniano Mahdi Ehsaei, 27 anos, a ir ao encontro de uma comunidade “desconhecida e ignorada”, no Sul do Irão. O outro foi um homem que o cativou no estádio de Hafeziyeh, na cidade de Shiraz, de onde é originário o seu pai.

“Em 2010, nas férias de Verão, visitava os meus avós quando fui a assistir a um jogo de futebol”, conta Mahdi Ehsaei, autor de Afro-Iranians, um livro de fotografias que resultou da sua tese de doutoramento e tem merecido aplauso internacional.

“A equipa adversária vinha de Hormozgan, e o chefe da claque era um iraniano de pele negra que animava os jogadores de uma forma que, para mim, era nova. Gravei o momento em vídeo, e decidi conhecer os iranianos com raízes africanas.”

Mahdi Ehsaei, que partilha a opinião de Beeta Baghoolizadeh sobre Haji Firuz – “o olhar, o modo como canta e dança evocam a fisionomia e o dialecto africanos” – não estava sozinho na ignorância.

“Muitos iranianos com quem falei desconheciam que negros viviam no país há séculos”, disse-me, numa entrevista por e-mail. “Tive dificuldade em encontrar documentação visual sobre esta minoria. Cheguei à conclusão que era uma injustiça. A história destas pessoas exigia uma plataforma global que lhes desse a visibilidade devida. Empenhei-me, por isso, em tentar mostrar ao mundo uma comunidade fascinante.”

Khaje-Ata area in Bandar Abbas, Hormozgan Province Women walking into an alley. The 'Chador Bandari' is a lightweight garment worn on the outside by women in the southern parts of Iran © Cortesia de Mahdi Ehsaei | Courtesy of Mahdi Ehsaei

Afro-iranianas numa das ruelas de Khaje-Ata, em Bandar Abbas: O “chador bandari”, leve e colorido é característico do vestuário usado pelas mulheres no Sul do Irão
© Mahdi Ehsaei

A principal fonte de inspiração foi Antoin Sevruguin, iraniano-arménio. Nasceu e morreu em Teerão (1830-1933), de cidadania russa, foi o primeiro a documentar os muitos grupos étnicos e demográficos no Irão. A sua reputação de retratista fez dele um dos fotógrafos oficiais da corte do Xá Nasser al-Din.

Para fotografar os afro-iranianos em Hormozgan, no Estreito de Ormuz, Golfo Pérsico, Mahdi Ehsaei esteve aqui dois meses. A capital da província é a cidade portuária de Bandar Abbas, que os portugueses conheciam por Cambarão. “Fui muito prudente na abordagem das pessoas”, referiu.

“Algumas mostraram-se desconfiadas; outras, sobretudo mulheres, recusaram colaborar. Procurei a naturalidade, para que as imagens fossem autênticas, não encenadas. Houve momentos em que precisei de ajustar a posição dos retratados, de modo a incluir o maior número possível de informação sobre o seu espaço, como se este fosse uma moldura.

No prefácio de Afro-Iranians, escreve Joobin Bekhrad, fundador e director da revista cultural REORIENT: “Em vez de apresentar espécies bizarras para chamar a atenção, Mahdi Ehsaei faz o contrário, mostrando simplesmente iranianos. Talvez os orientalistas se sintam desiludidos. O ‘elemento’ iraniano destaca-se no facto de esbater questões como raça, cultura e cor da pele.”

“Não há nada de ostensivamente ‘afro’ nas pessoas fotografadas nem nas paisagens captadas, excepto em pormenores superficiais. Seja qual for o interesse antropológico, sociólogo ou de curiosidade, este é um projecto que celebra as muitas dimensões da cultura iraniana, antiga e vasta, multifacetada e rica.”

Quem são, afinal, os afro-iranianos? O termo terá sido cunhado por Behnaz Mirzai, que há duas décadas estuda esta comunidade. Muitos deles desconhecem as suas próprias origens e ressentem com “insulto” serem considerados africanos, afirmou a historiadora iraniana ao site Middle East Eye. “Muitos chamam-lhes ‘negros do Sul’, atribuindo a pele negra ao calor abrasador nesta região.”

De um modo geral, porém, os afro-iranianos estão integrados na sociedade. No Sistão e no Baluchistão falam baluchi, a língua local. Em Hormozgan, falam bandari. Também misturam tradições africanas com a cultura iraniana, designadamente o misticismo sufi. Um dos seus principais rituais, é a cerimónia do “Zar”, semelhante a danças tribais na Tanzânia ou na Etiópia, que serve de “exorcismo dos espíritos e demónios”.

Mohammad Ali - Bandar Abbas, Hormozgan Province The Khaje-Ata Beach in Bandar Abbas rests against the Persian Gulf. It is a popular place for inhabitants and tourists. Afternoons are filled with children playing on the beach. © Courtesy of Mahdi Ehsaei

Mohammad Ali brinca na praia de  Khaje-Ata, em Bandar Abbas, lugar muito popular no Irão
© Mahdi Ehsaei

“É importante salientar que nem todos os escravos na Pérsia eram africanos e que nem todos os africanos chegaram à Pérsia como escravos”, esclareceu Ehsaei. “A Pérsia também tinha escravos do Sul da Rússia e do Cáucaso do Norte, enquanto alguns marinheiro africanos vieram para trabalhar no Golfo Pérsico.”

“A partir do início do século X, portugueses e espanhóis ocuparam gradualmente as ilhas de Qeshm [Queixume] e Ormuz, de grande interesse estratégico no Estreito de Ormuz. A ocupação da costa africana ocidental deu aos portugueses acesso ao comércio de escravos, que controlaram durante os mais de cem anos, a partir do século XVI, que dominaram o Golfo Pérsico.”

Ehsaei citou os manuscritos de Lady Mary Sheil, a primeira mulher que escreveu um livro de viagens sobre a Pérsia (Glimpses of Life and Manners in Persia, 1846), para especificar que chegaram ao Irão três tipos de escravos negros: “Os bambassis, os núbios e os habashi. Os bambassi ou zanj, vieram de Zanzibar (actual Tanzânia), e países vizinhos – possivelmente Moçambique e Quénia (Mombaça). Os núbios vinham da Núbia e da Abissínia. Os habashi eram originários da Etiópia.

“Os afro-iranianos pertencem a uma sociedade cultural variada, tal como os restantes grupos étnicos do país: azeris, curdos, árabes, arménios, baluchis…”, anotou Mahdi Ehsaei, que já levou o seu projecto para uma exposição em Calí, na Colômbia [e, posteriormente, em Roma, Itália, e em Nairobi, Quénia]. “O principal objectivo é revelar esta comunidade, contar uma parte desconhecida da história da diáspora africana.”

Mahdi Ehsaei, the author of Afro-Iranians © Todos os Direitos Reservados | All Rights Reserved

Mahdi Ehsaei, o autor de Afro-Iranians

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Este artigo, aqui na versão integral e actualizada, foi originalmente publicado na revista VISÃO em 25 de Agosto de 2016 | This article, here updated and extended version, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on August 25, 2016.

“Só o futebol desperta as paixões da religião no Médio Oriente”

Os jogos têm sido indicadores do que está para vir, diz James M. Dorsey, autor do livro The Turbulent World of Middle East Soccer. Foi nos estádios que germinou a “primavera árabe” de 2011. E poderá ser este o desporto da próxima revolução. (Ler mais | Read more…)

Crianças sírias e palestinianas sobem a uma baliza, antes de um jogo organizado pela Oxfam, no campo de refugiados de Al-Baqaa, próximo de Amã, na Jordânia, em 17 Junho de 2014
© Muhammad Hamed | Reuters

Para muitos, no Médio Oriente e Norte de África, o futebol “é mais do que um jogo – é uma questão de vida e de morte”, escreve o académico e jornalista James M. Dorsey em The Turbulent World of Middle East Soccer, já considerado uma obra de referência.

Os estádios transformaram-se em campos de batalha por direitos políticos e sociais, étnicos e religiosos, de identidade e de género. E estas lutas “espelham a essência do futebol: trata-se de controlar o mais possível o território do oponente”, observa Dorsey, senior fellow na S. Rajaratnam School of Internacional Studies na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.

A maioria dos clubes na região foi criada com motivações ideológicas, mesmo que, hoje, pouco os distinga, excepto uma rivalidade quase tribal, refere Dorsey numa entrevista, por telefone.

Dois exemplos: os egípcios Al Ahly (ligado aos revolucionários que derrubaram a monarquia) e Zamalek (associado a movimentos pró-coloniais), equipas que foram treinadas pelos portugueses Manuel José e Jesualdo Ferreira.

O futebol passou a se um catalisador de protestos, “despertando e não anestesiando a consciência social”. Na Jordânia, tem sido nos estádios que se ouvem as críticas mais veementes à família real. Na Arábia Saudita, muitos príncipes são insultados e até agredidos durante os jogos.

Em Tabriz, capital da província iraniana de Azerbaijão onde há defensores da união com a antiga república soviética com o mesmo nome, o principal clube é o maior símbolo da identidade azeri.

Em 2010-2011, na linha da frente para a “primavera árabe” que derrubou quatro ditadores estavam os adeptos mais militantes, cujo fervor continua a ser imitado por outros nas ruas de Istambul, contra o autoritarismo do Presidente turco.

A selecção feminina de futebol do Afeganistão é considerada um símbolo de progresso e tolerância num país que ainda é um dos mais perigosos e repressivos para as mulheres
© Omar Sobhani | Reuters

Diz, no seu livro, que não era um adepto de futebol quando viu o seu primeiro jogo, em 1986, e continua a não ser. Mas há vários anos que escreve sobre este tema…

Como desporto, o futebol não me interessa. Interessa-me a política do futebol e usá-la como um prisma, uma forma de olhar para as questões fundamentais na região.

Por que é que o futebol é aqui um “mundo turbulento”?

O futebol na América Latina, Europa ou Ásia não é um fenómeno consistente e permanente, em termos políticos e de desenvolvimento social, ao contrário do que acontece no Médio Oriente e Norte de África.

O futebol ocupa aqui, há mais de um século, um lugar central. Basta olhar para a história recente. Adeptos de futebol estiveram na génese da revolta popular de 2011 [“primavera árabe”, iniciada na Tunísia].

No Egipto, têm sido a pedra angular da resistência ao regime do actual Presidente, Abdel Fattah el-Sisi. A componente política está presente em todos os principais clubes de futebol no Médio Oriente.

Na Argélia, por exemplo, a selecção nacional nasceu quando dez atletas fugiram de França, em 1958, e começaram a participar em jogos durante a guerra pela independência, em nome da Frente de Libertação Nacional.

Jogaram contra mais de 50 países e ganharam a maioria das partidas. Em 1954, a FLN usou o Campeonato Mundial na Suíça para anunciar o início da luta armada. O hino da equipa tornou-se o hino do país.

No Egipto, a luta pela independência em 1919 foi uma revolução de adeptos de futebol. Uma das principais equipas, Al Ahly, atraiu os nacionalistas antimonárquicos e anticoloniais, enquanto o Zamalek começou por ser o clube das forças pró-britânicas, que assim pretendiam introduzir conceitos como disciplina, obediência e ordem.

Ainda hoje, a rivalidade existe. Os clubes de futebol são, literalmente, tribais. Antigamente representavam grupos sociais diferentes. Agora, são quase iguais.

Fãs usando trajes tradicionais assistem a um jogo entre as equipas do Gharafa e do Kharaitiyat para a Liga das Estrelas do Qatar, no estádio da primeira em Doha, a capital
© Sean Gallup | Getty Images

O jogo “mais violento da história desportiva egípcia” envolveu o Al Ahly, em 2012, em Port Said, quando a equipa era treinada pelo português Manuel José. Foram mortas 74 pessoas. Como explica o que se passou?

Tenho a certeza de que não foi um incidente espontâneo. Mas não quero dizer com isto que se tratou de um plano deliberado de um qualquer general egípcio. A tensão estava ao rubro depois da queda de Hosni Mubarak [o anterior ditador].

Os Ultras do Al Ahly consideravam-se os líderes da revolução. Quando o árbitro apitou o final da partida, Al Masry ganhava por 3-1. Os seus adeptos invadiram o relvado, armados com facas, garrafas, bastões e pedras. Os ultras do Al Ahly não estavam preparados.

Acho que foi uma tentativa de lhes ensinar uma lição, mas acabou por se perder o controlo. Há provas suficientes de que foi uma acção planeada, com motivações políticas, mas nunca foi concluída uma investigação.

Quem são estes ultras?

Nos últimos cinco anos do poder de Hosni Mubarak no Egipto, os ultras foram o único grupo que ofereceu resistência física ao regime durante o campeonato. Quase todas as semanas se confrontavam com as forças de segurança. Nunca cediam. E nunca um outro grupo na sociedade civil egípcia demonstrou esta capacidade.

Na Síria, os shabiha, são adeptos ultras e milicianos que alinharam com o regime de Assad. Os ultras são também os mais fervorosos entre os nacionalistas palestinianos e curdos.

Jogo entre o Zamalek e o Al-Ahly – duas equipas históricas do Egipto que foram treinadas por portugueses – em 15 de Outubro de 1916
© Marwan Naamani | AFP

No seu livro, diz que os estádios têm sido “centros de detenção e, por vezes, campos da morte”. Esta era a realidade, sobretudo na Líbia de Khadafi e no Iraque de Saddam Hussein [onde foram encontradas valas comuns em vários estádios]. Há outros países onde isto ainda acontece?

Sem dúvida! As batalhas continuam a vários níveis. E uma dessas batalhas é a do Islão político. Ainda recentemente, um jogador iraniano foi suspenso por usar calças amarelas que a Federação de Futebol não gostava.

Na Arábia Saudita, um jogador suportou a humilhação de ver o cabelo rapado antes do início de um jogo, porque “o corte não era islâmico”.  Osama Bin  Laden gostava de jogar futebol quando era jovem, mas também tentou usar o futebol para atrair jihadistas.

No Campeonato Mundial de 1998, autorizou um plano para um ataque [em Marselha] durante um jogo entre a Inglaterra e a Tunísia. Sobre os atentados de 11 de Setembro, comentou: ‘Sonhei que jogávamos contra os americanos. Quando a nossa equipa entrou em campo, éramos todos pilotos.’

O futebol é o principal rival da religião?

Não é bem um rival. Diria que só a religião desperta a mesma paixão profunda que o futebol. A rivalidade só se explica nesse sentido. Embora haja divergências profundas entre grupos radicais sobre se a Sharia [lei islâmica] permite ou não o futebol, muitos líderes religiosos têm usado este desporto para fins políticos.

A Irmandade Muçulmana no Egipto tentou formar a sua própria equipa em 2011. Os líderes do Hezbollah, no Líbano, e do Hamas, na Palestina, foram jogadores ou são adeptos, e reconhecem que o futebol tem enormes qualidades de união e recrutamento.

No entanto, grupos como Daesh, al-Shabab ou Boko Haram executam pessoas que assistam aos jogos, porque consideram que o futebol distrai os fiéis das obrigações religiosas.

Uma família iraniana apoia a selecção nacional no jogo contra o Qatar durante a fase de apuramento para o Campeonato do Mundo de 2018
Ibraheem al-Omari | Newsweek

Há uma outra batalha, a de género, que tem sido travada, com as mulheres exigindo serem mais activas…

Sim, as mulheres têm usado o futebol como veículo para conquistarem mais direitos desportivos no Médio Oriente e Norte de África, e têm conseguido. É verdade que ainda temos países, como a Arábia Saudita e o Irão, que proíbem o acesso das mulheres aos estádios de futebol.

No entanto, devo salientar que o Irão criou um importante sector desportivo feminino, ao contrário da Arábia Saudita, cujo primeiro plano quinquenal de futebol, recentemente aprovado, é só para homens.

Qual o objectivo principal do Qatar para realizar o Campeonato Mundial de 2020?

Bem, o Qatar é um pequeno país. Nunca será independente no campo de batalha, por isso, tenta encontrar a segurança no futebol…

Como é o que futebol oferece segurança?

Depois da invasão iraquiana do Kuwait, em 1990, o Qatar percebeu que não podia depender da protecção dos sauditas. Apesar de gastar milhões de dólares em armas e em treino para as suas forças armadas, não tinha o hard power necessário para se defender. O futebol é, provavelmente a forma mais poderosa de cultura popular e tornou-se um valioso soft power.

Tem havido muitas críticas, no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores estrangeiros, mas há diferenças entre o Qatar e outros países do Golfo. Noutros Estados, os opositores são presos e até executados; o Qatar prefere expulsá-los ou impedir a sua entrada no país. A Human Rights Watch apresenta os seus duros relatórios em Doha [a capital].

Várias instituições, como a Qatar Foundation, têm tentado impor mudanças, o problema é que estas mudanças não estão inscritas na lei. O grande problema está na demografia.

Os qataris são apenas 20% da população. Dar mais direitos aos estrangeiros abre uma caixa de Pandora, e eles têm medo de perder o controlo do país. É um drama existencial.

O futebol poderá inspirar outra “primavera árabe”?    

O Médio Oriente e o Médio estão em transição. As revoltas populares de 2011 revelaram-se um processo volátil e sangrento. Qualquer mudança incluirá muitos riscos. As causas das revoltas continuam a existir. De uma maneira ou de outra, creio que os adeptos de futebol continuarão a ser parte deste processo.

James M. Dorsey é senior fellow na S. Rajaratnam School of Internacional Studies na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura
© Paco Puentes | El País

Este artigo foi publicado originalmente na revista SÁBADO, em 28 de Julho de 2016 | This article was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on July 28, 2016

Fethullah Gülen: O pregador contra o presidente

A luta pelo poder na Turquia trava-se entre dois antigos aliados de conveniência com diferentes tradições islâmicas. (Ler mais | Read more…)

Recep Tayyip Erdogan e Fethullah Gülen: de aliados a inimigos
© aljazeera.com.tr

O “inimigo número um” na Turquia já não é Abdullah Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, separatista). Esse lugar pertence agora a um teólogo que vive na Pensilvânia, acusado pelo Presidente, Recep Tayyip Erdogan, de “inspirar” o golpe falhado de 15 de Julho.

O pregador Fethullah Gülen, de 75 anos e saúde débil, isolado nas montanhas Pocono desde 1999, desmentiu o seu envolvimento na conspiração. E insinuou que a quinta tentativa de golpe no país que tem o segundo maior exército da NATO terá sido encenada por Erdogan.

Quem é, afinal, o homem cuja extradição foi pedida aos EUA, aventando Erdoğan a possibilidade de fechar a base de Incirlik – maior depósito de armas nucleares na Europa e de onde são lançados ataques ao Daesh na Síria?

Muhammad Fethullah Gülen nasceu em Korucuk, aldeia da Anatólia, em Novembro de 1938, o mês e ano em que morreu Mustafa Kemal Atatürk, fundador da moderna nação turca. O seu nome terá sido recusado como “demasiado islâmico” e, por isso, o pai, Ramiz Efendi, só o registou em 27 de Abril de 1941.

No percurso religioso que fez de Gülen um imã (quem conduz as orações), destaca-se a figura de Said Nursî (1878-1969), um curdo sunita de tradição sufi. É o autor de Risale-i Nur, antologia de comentários corânicos que, discutidos em “círculos de leitura” por todo o país, contribuiu para a formação do movimento Nurcu.

Foi deste movimento que coloca a ênfase na fé e professa uma economia de mercado, que emergiu, nos anos 1960-70, a Cemaat/Congregação (mais tarde Camia/Círculo e, agora, Hizmet/Serviço), de Gülen.

A sua filosofia diverge da de Erdoğan, cujo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) tem seguido a tradição Milli Gorus (Visão Nacional), da confraria Naksibendi (ou Naqshbandi), um dos expoentes do islamismo.

Soldados turcos de guarda na Praça de Taksim, em Istambul, em 16 de Julho de 2016, no dia seguinte à tentativa de derrube do Governo
© Murad Sezer | Reuters

O Cemaat/Hizmet define-se como movimento da sociedade civil, ecuménico e sem ambições políticas. Críticos vêem-no como uma rede secreta com objectivos obscuros. Venerado quase como um messias por cerca de 5 milhões de fiéis, o Hoacefendi (honorável professor) Gülen tem defendido uma “democracia secular” que assenta, sobretudo, na educação.

O seu “império”, no valor de muitos milhões de dólares, inclui escolas e universidades (das principais fontes de rendimento), onde se aposta na Ciência e na Matemática, em mais de 150 países; hospitais e seguradoras; um conglomerado de media e um banco (estes confiscados por Erdogan).

O Presidente “precisa de um bode expiatório para galvanizar a sua base de apoio e legitimar acções que abrem caminho a um partido único e ao poder de um só homem”, diz-me, numa entrevista, Ali H. Aslan, antigo correspondente em Washington do jornal Zaman, uma das publicações ligadas ao Hizmet e que o Presidente expropriou.

O que aconteceu para que Gülen, que trocou os partidos de centro-direita em que habitualmente votava pelo AKP, criado em 2001, entrasse em colisão com Erdogan?

“Ao contrário do que geralmente se supõe, as relações mútuas nunca foram cordiais”, observa Aslan. “Foram raros os seus encontros. Gülen apoiou Erdoğan porque este se comprometeu com valores democráticos e a adesão à União Europeia.”

“Os dois mantiveram as divergências em privado, mas Erdogan nunca gostou da presença de simpatizantes de Gülen no aparelho de Estado [exército, polícia, tribunais, academia…]. No entanto, como não tinha uma base política optou por colaborar com eles por recear mais os rivais kemalistas.”

Confronto entre um soldado e um oficial da Polícia na Praça de Taksim, em Istambul: as forças de segurança dividiram-se na lealdade a Erdogan
© Middle East Monitor

A ruptura consumou-se em 2013, com um escândalo de corrupção, exposto por magistrados fethullahci (gulenistas), envolvendo o Irão, dirigentes do AKP, ministros e até um dos filhos de Erdogan.

“Nem todos os sectores da sociedade gostam de Gülen”, admite Aslan. “Alguns receiam que não seja suficientemente secular; grupos religiosos lamentam que seja pouco conservador. Curdos nacionalistas detestam-no porque ele não apoia a luta armada por direitos políticos.”

Para Henri Barkey, director do Programa de Médio Oriente no Woodrow Wilson Center, em Washington, a aliança frágil entre o pregador e o presidente começou a desfazer-se precisamente com “a oposição de Gülen à política de Erdoğan de aproximação ao PKK, em 2011-2012”. Os curdos não gostam dele “porque procuradores e juízes os têm perseguido implacavelmente”, diz Barkey .

Com o escândalo de corrupção em 2013, “Erdogan passou à ofensiva, conseguindo desviar a atenção” de um caso que o fragilizava. “Até então, ambos tinham sido parceiros contra os militares [nos processos Ergenekon e Sledgehammer]. Depois, Erdoğan uniu-se aos militares contra Gülen.”

Barkey não acredita que o golpe tenha sido encenado pelo político a quem detractores chamam “sultão neo-otomano”. A responsabilidade é de “jovens oficiais incompetentes que não tiveram apoio das chefias militares.”

Sobre o pedido para que os EUA extraditem Gülen, o académico Barkey exprime reservas. “Tem de haver um processo judicial e é preciso apresentar provas concretas, o que será difícil.”

Quanto ao fecho base de Incirlik, cujo comandante foi preso após o golpe, alerta que “seria um acto suicida por parte da Turquia.” Ali Aslan concorda: Erdoğan “não se pode arriscar” a uma tal decisão. “Ele sabe que os EUA têm o potencial de desestabilizar o seu regime.”

Novembro 2017: Polícias turcos detêm uma manifestante que protestava em Istambul contra a vaga de prisões que se seguiu ao golpe
© AFP

A vingança em números

Milhares de pessoas, suspeitas de pertencerem ou serem simpatizantes do movimento de Fethullah Gülen têm sido vítimas da purga ordenada pelo Presidente, Recep Tayyip Erdoğan, desde a tentativa de golpe em Julho de 2016:

134.610 foram despedidas;

94.982 foram detidas;

47.128 foram presas;

7.317 cargos académicos foram extintos;

4.272 juízes foram demitidos;

2099 escolas, universidades e residências universitárias foram encerradas;

149 jornais e outras publicações foram encerrados;

162 jornalistas foram presos.

Fonte: turkeypurge.com (dados recolhidos até 19 de Março de 2017)

Ali H. Aslan, antigo correspondente em Washington do jornal Zaman, um dos alvos da fúria do Presidente turco

Henri Barkey, director do Programa de Médio Oriente do Woodrow Wilson International Center for Scholars

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal EXPRESSO em 23 de Julho de 2016 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on July 23, 2016

“Those who commit acts of violence in the name of religion often also have a history of abuse of women”

Raquel Evita Saraswati is an American Muslim activist who focuses primarily on issues related to the status of women and girls in Muslim-majority societies and communities. She is also a member of the steering committee of the Muslim Alliance for Sexual and Gender Diversity (MASGD). She gave me this interview a few days after Omar Mateen killed 49 people and wounded 53 others inside the gay nightclub Pulse in Orlando, Florida, on June 12. This massacre was considered the deadliest incident of violence against LGTBQ people in U.S. history, and the deadliest terrorist attack in America since 9/11. (Read more…)

Top row: Juan Ramon Guerrero, Luis Omar Ocasio-Capo, Stanley Almodovar III, Luis Vielma, Edward Sotomayor Jr., Simon Adrian Carrillo Fernandez, Yilmary Rodriguez Solivan |Second Row: Kimberly Morris, Oscar A. Aracena-Montero, Peter Gonzalez-Cruz, Xavier Emmanuel Serrano Rosado, Mercedez Marisol Flores, Brenda Lee Marquez McCool, Javier Jorge-Reyes | Third Row: Luis Daniel Wilson-Leon, Martin Benitez Torres, Eric Ivan Ortiz-Rivera, Franky Jimmy Dejesus Velazquez, Jean Carlos Mendez Perez, Shane Evan Tomlinson, Joel Rayon Paniagua | Fourth Row: Amanda Alvear, Anthony Luis Laureano Disla, Enrique L. Rios, Jonathan Antonio Camuy Vega, Cory James Connell, Antonio Davon Brown, Juan Chavez-Martinez | Fifth Row: Christopher Joseph Sanfeliz, Darryl Roman Burt II, Luis Daniel Conde, Miguel Angel Honorato, Tevin Eugene Crosby, Frank Escalante, Jerald Arthur- Wright | Sixth Row: Leroy Valentin-Fernandez, Rodolfo Ayala-Ayala, Drew (Christopher) Leinonen, Angel L. Candelario-Padro, Paul Terrell Henry, Jason Benjamin Josaphat, Gilberto Ramon Silva Menendez | Seventh Row: Akyra Murray, Geraldo A. Ortiz-Jimenez, Juan Rivera, Deonka Deidra Drayton, Alejandro Barrios Martinez, Eddie Jamoldroy Justice, Jean C. Nives Rodriguez © NBC News

Top row: Juan Ramon Guerrero, Luis Omar Ocasio-Capo, Stanley Almodovar III, Luis Vielma, Edward Sotomayor Jr., Simon Adrian Carrillo Fernandez, Yilmary Rodriguez Solivan |Second Row: Kimberly Morris, Oscar A. Aracena-Montero, Peter Gonzalez-Cruz, Xavier Emmanuel Serrano Rosado, Mercedez Marisol Flores, Brenda Lee Marquez McCool, Javier Jorge-Reyes | Third Row: Luis Daniel Wilson-Leon, Martin Benitez Torres, Eric Ivan Ortiz-Rivera, Franky Jimmy Dejesus Velazquez, Jean Carlos Mendez Perez, Shane Evan Tomlinson, Joel Rayon Paniagua | Fourth Row: Amanda Alvear, Anthony Luis Laureano Disla, Enrique L. Rios, Jonathan Antonio Camuy Vega, Cory James Connell, Antonio Davon Brown, Juan Chavez-Martinez | Fifth Row: Christopher Joseph Sanfeliz, Darryl Roman Burt II, Luis Daniel Conde, Miguel Angel Honorato, Tevin Eugene Crosby, Frank Escalante, Jerald Arthur- Wright | Sixth Row: Leroy Valentin-Fernandez, Rodolfo Ayala-Ayala, Drew (Christopher) Leinonen, Angel L. Candelario-Padro, Paul Terrell Henry, Jason Benjamin Josaphat, Gilberto Ramon Silva Menendez | Seventh Row: Akyra Murray, Geraldo A. Ortiz-Jimenez, Juan Rivera, Deonka Deidra Drayton, Alejandro Barrios Martinez, Eddie Jamoldroy Justice, Jean C. Nives Rodriguez
© NBC News

What was your initial rea­­­ction when you heard about the dreadful massacre in Orlando? 

I initially heard reports of a shooting in a nightclub and was saddened but not shocked – we continue to have a problem with gun violence in the United States, and nightclubs are certainly not immune. When I heard that there were twenty victims, I knew something was different.

Then the news came that there were nearly fifty victims, and that the act was potentially carried out by someone who claimed my faith. At first, all I could do was cry. Out of sadness for the victims, the horror of their last hours, and the pain of their community.

I received a phone call from a friend – someone who is like a brother to me – checking to see if I was ok and calling to coordinate a response. I spent most of that terrible day in tears. At the same time, I was aware that this would initiate a national conversation, expose tensions between communities, and add petrol to an already noxious political climate. I was devastated and frightened.

Ryan Gibson, left, embraces Tabor Winstead during a vigil for the victims of the Orlando shooting on Sunday, June 12, 2016 at the Legends Club on Hargett Street in downtown Raleigh, N.C. The event was held by the LGBT community in Raleigh, after 50 people were killed in an Orlando nightclub. ( © Robert Willett |The News & Observer via AP

Ryan Gibson, left, embraces Tabor Winstead during a vigil for the victims of the Orlando shooting at the Legends Club on Hargett Street in Raleigh, N.C. The event was held by the local LGBT community, after almost 50 people were killed by Omar Mateen. 
© Robert Willett |The News & Observer via AP

How do you assess the events – terrorism/religious fanaticism, self-hating, addiction to violence (he allegedly abused his ex-wife, idolised the NYPD, worked for a security company…), easy access to guns…?

As someone who has looked closely at these issues for over a decade, the narrative surrounding Omar Mateen comes as no surprise. I have for years been drawing the connection between misogyny and extremist ideology, noting that those who commit acts of violence in the name of religion often also have a history of violence against and abuse of women.

Even now, the only reason we are talking about Omar Mateen’s history of domestic violence is because he ultimately killed [almost] fifty people – and the discussion of his misogyny has been but a brief footnote. Further, it is also true that many of those who endorse radical extremism, as well as those who carry out the acts, often have a history of indulging in the very acts their radical ideology condemns.

Radicals recruit these individuals with the promise of salvation in exchange for their full membership in what is ultimately a cult. It is my view that if there were more conversations about this, we could understand and counter radical ideology well before blood is spilled.

However, it is simply true that the lives of girls, women, and LGBTQ people are valued less in our society than the lives of those who would seek to oppress us. Thus, these conversations are not had, signs are missed, lives are lost – and the media and politicians pull out the same cue cards they use after every massacre – “we are shocked” – “what were the signs?” – etc., and the same five self-appointed experts are invited to comment, offering nothing useful to say.

Mourners at New York's Iconic Stonewall Inn Remember LGBT Victims of the Orlando Shooting © http://www.motherjones.com/

Mourners at New York’s iconic Stonewall Inn remember LGBT victims of the Orlando shooting
© http://www.motherjones.com/

The attack revived a perception of “Islamic homophobia”, not only in countries like Saudi Arabia or Iran, where gays have been subject to imprisonment, corporal punishing or even death penalty, but also in the American Muslim community. How do you explain this perception, and what shall we do about it?

I do not believe that my faith is homophobic, but unfortunately there is rampant homophobia within my community.

Following the Orlando attacks, self-appointed “representatives” of the Muslim community rushed to condemn it, and some even feigned support for the LGBTQ community. These individuals are leaders of the very organisations who host “scholars” and preachers who believe LGBTQ people are sick, criminal, and worthy of death.

As tragic and disgusting as this past week has been, it has caused many to see through the charade. It also now provides us with an opportunity to hold these individuals and organisations accountable once the cameras and microphones are off, and to demand that they live up to the words they uttered for the press.

In addition to holding these organisations accountable, we must fight with urgency the rise of far-right fascism and the ignorance that tells us that identities like LGBTQ and Muslim are mutually exclusive. They are not. There are many of us living at the complicated and at times deeply painful intersection of these identities.

Further, it is worth noting that some of the conservative voices who have used this opportunity to condemn Muslims and Islam for homophobia themselves support measures to restrict the rights of LGBT people.

Some of these individuals and groups in the United States even support murderous policies – such as the notorious “Kill the Gays Bill” in places like Uganda. We must also demand accountability from these individuals and groups, and let them know that we are not fooled.

Gunman Omar Mateen Described as Belligerent, Racist and 'Toxic' - © NBC News

Gunman Omar Mateen was described as “belligerent, racist and ‘toxic'”
© NBC News

Scholar Mehammed Amadeus Mack writes in Newsweek: “The word homosexual does not appear anywhere in the Koran, and indeed it couldn’t, because the word is an invention of the late 19th century, when medical societies in Europe tried to place groups of people who took part in similar sex acts under a common category, which they then labeled ‘homosexuality.’ Later on, the community of people pathologised by this term rallied together under the term of their persecution and began to demand recognition, equality and, finally, rights.” What is your opinion? 

It is true that the word “homosexual” does not appear in the Quran. Indeed, it has been interpreted that the Quranic story most often used to condemn LGBTQ people – the story of Lot – is not about same-sex attraction, but about a people cursed for their violence – including sexual violence – and other forms of cruelty and abuse.

The fact is that interpretations of the Quran based in what we believe to be the nature of God – merciful and compassionate – DO exist.

It is also true that these interpretations are theologically sound. They are not fringe or un-Islamic. They have, however, been pushed to the margins and made difficult to access. This has been done by those within our community who have malignant and political intentions; and by governments who continue to ally and exchange favours with the very regimes who murder people like me – women and LGBTQ people especially.

Saudi Arabia condemned the attack in Orlando – why? Because gays were shot rather than beheaded? Because it was in a private establishment rather than in a town square? And then Barack Obama rushed to meet with Saudi leadership. This would be a joke if it weren’t so dangerous.

Friends and family members embrace outside the Orlando Police Headquarters in Orlando, Florida, June 12, © Steve Nesius | Reuters

Friends and family members embrace outside the Orlando Police Headquarters in Orlando, Florida, after the June 12 massacre
© Steve Nesius | Reuters

How would you define the Muslim American community, and the LGBT Muslim American community? How has the shooting in Orlando affected them? 

Both communities are diverse; and while they hold political and social power to some degree, are also marginalised. The attacks in Orlando provide an opportunity for each community to reposition itself as a stakeholder in the conversation about today’s political and social climates.

How this is done, and with what level of integrity and consistency, is what we will come to see. It is absolutely true that both communities have been and will continue to be pushed into the national spotlight. I continue to hope for and advocate for accountability from those in positions of power, though that hope is currently hard to come by.

© Helen H. Richardson |The Denver Post |Getty Images | The Intercept

© Helen H. Richardson |The Denver Post |Getty Images | The Intercept

You belong to the steering committee of an association for gender equality. Tell us about it, and about your work as a human rights activist.  

The Muslim Alliance for Sexual and Gender Diversity (MASGD) was founded in 2013 following the dissolution of al-Fatiha, an organization many of us were involved with. The mission statement of MASGD is as follows:

“The Muslim Alliance for Sexual and Gender Diversity (MASGD) works to support, empower and connect LGBTQ Muslims. We seek to challenge root causes of oppression, including misogyny and xenophobia. We aim to increase the acceptance of gender and sexual diversity within Muslim communities, and to promote a progressive understanding of Islam that is centered on inclusion, justice, and equality.” We host a retreat for LGBTQ Muslims each May.

My own personal work outside of MASGD is focused primarily on the rights of women, girls and minorities in Muslim-majority societies and communities.

I work to combat various forms of gender-based violence, and while I absolutely do this work outside of my faith community, my primary focus is my community. I work to combat honour-based violence, forced and child marriage, and female genital mutilation (FGM), as well as other violations of human rights and decency.

Members of the © http://muslimalliance.org/

Members of the Muslim Alliance for Sexual and Gender Diversity (MASGD); Raquel Evita Saraswati is part of its Steering Committee
© http://muslimalliance.org

What does it mean for you to be a Muslim woman in today’s America? At what extent were you personally affected by what has happened in Orlando?

In the past week, I’ve been harassed on the street – first called a “stupid terrorist [expletive]” by a non-Muslim man who pushed me in the street; and by a Muslim man who screamed at me, accusing me of apostasy.

While these examples are extreme, they are true – and they encapsulate perfectly what it’s like to be a Muslim woman who wears the hijab and advocates for universal human rights. Because I exist at the intersection of Muslim womanhood and the LGBTQ experience, the past week and a half has been especially raw and painful.

It must be said, however, that many people have been incredibly loving, and that there is great power, beauty, and strength in my communities. I would not sacrifice who I am for any price or promise of ease. I choose instead to live in love, working for our full liberation.

Raquel Evita Saraswati © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Raquel Evita Saraswati
© All Rights Reserved

Parts of this interview, edited for clarification, were included in an article published in the Portuguese news weekly EXPRESSO, on June 25, 2016

“Quem mata em nome da religião tem um passado de violência contra mulheres”   

O massacre de quase 50 pessoas numa discoteca gay em Orlando expôs a vulnerabilidade das comunidades muçulmana e LGBTQ nos EUA. A activista Raquel Evita Saraswati explica o que é viver “na intersecção destas duas identidades”. (Ler mais | Read more...)

Algumas das muitas vítimas do massacre em Orlando © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Algumas das muitas vítimas do massacre em Orlando

No dia 12 de Junho, quando ouviu as notícias sobre um tiroteio que causou 49 mortos e 53 feridos, numa discoteca gay em Orlando (Florida), Raquel Evita Saraswati, activista pelos direitos humanos, percebeu que se tratava de “alguma coisa diferente”.

Foi um massacre, o maior ataque em massa cometido por um só indivíduo nos Estados Unidos. E, rapidamente, se reacendeu o debate sobre livre acesso às armas, terrorismo e homofobia.

Omar Mateen, o atirador, era um muçulmano americano, filho de imigrantes afegãos. Não seria homem em paz com a sua religião e homossexualidade, segundo testemunhos posteriores. Sentir-se-ia discriminado. Teria um comportamento violento com colegas e a ex-mulher.

Manteve, alegadamente, encontros amorosos que desafiavam o seu machismo. Antes de descarregar sobre as vítimas uma semiautomática AR15, para a qual tinha licença de porte, ligou para o serviço de emergência 111 a jurar lealdade ao autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh. Em 2013 e 2014, o FBI investigou-o, mas concluiu que não era suspeito.

Uma foto (sem data) de Omar Mateen, o assassino em Orlando, que ele terá partilhado na rede social MySpace
© Reuters

“O ataque foi cometido por uma pessoa da minha fé, (mas) a minha fé não é homofóbica, embora, infelizmente, haja uma homofobia crescente na minha comunidade”, diz-me, em entrevista por e-mail, Raquel Evita Saraswati, que pertence à direcção da Muslim Alliance for Sexual and Gender Diversity (MASGD, www.muslimalliance.org).

“Para alguém que segue este tipo de acontecimentos há mais de uma década, a narrativa à volta de Omar Mateen não me surpreendeu”, observou. “Há anos que venho estabelecendo uma ligação entre misoginia e ideologia extremista, notando que os que matam em nome da religião têm, quase sempre, um passado de violência contra mulheres.”

“As vidas de meninas, mulheres e pessoas LGBTQ [lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e queer] têm menos valor na nossa sociedade do que as vidas dos que procuram oprimir-nos”, lamentou. “Depois do ataque em Orlando, autoproclamados ‘representantes’ da comunidade muçulmana apressaram-se a condená-lo, e alguns até fingiram apoio à comunidade LGBTQ.”

“São líderes de organizações que acolhem ‘estudiosos’ e pregadores para quem as pessoas LGBTQ são doentes, criminosos e merecedores da morte. Isto oferece-nos a oportunidade de os responsabilizar depois de os microfones e das câmaras se desligarem.”

Lágrimas por amigos e familiares que morreram vítimas do massacre na Discoteca Pulse, em Orlando © Steve Nesius | Reuters

Lágrimas por amigos e familiares vítimas do massacre na Discoteca Pulse, em Orlando
© Steve Nesius | Reuters

Além desta responsabilização, Raquel Evita defende, também, que se lute contra “a ignorância” dos que consideram mutuamente exclusivas as identidades muçulmana e LGBTQ. “Não são”, frisou. “Muitos de nós vivemos nesta intersecção de identidades complicada e profundamente dolorosa.”

“É preciso, ainda, salientar que algumas das vozes conservadoras que têm usado esta oportunidade para acusar de homofobia os muçulmanos e o Islão apoiam, elas próprias, medidas para restringir os direitos das pessoas LGBTQ.”

“A palavra ‘homossexual’ não aparece no Corão”, reconheceu Raquel Evita. “Na verdade, diz-se que a história corânica [e bíblica] de Lot [o ‘castigo divino’ da destruição de Sodoma e Gomorra], invocada para condenar as pessoas LGBTQ, não é sobre a atracção pelo mesmo sexo, mas sobre a maldição de um povo por ter recorrido à violência – incluindo a violência sexual – e outras formas de crueldade!”

People take part in a candlelight memorial service the day after a mass shooting at the Pulse gay nightclub in Orlando, Florida, U.S. June 13, 2016. © Carlo Allegri | Reuters

Uma vigília em memória das vítimas no dia seguinte ao massacre em Orlando 
© Carlo Allegri | Reuters

“É um facto que existem interpretações do Corão baseadas no que acreditamos ser a natureza de Deus, misericordiosa e compassiva. E estas interpretações têm uma base teológica. Não são uma franja, e recuso que sejam consideradas ‘não-islâmicas’. No entanto, têm sido marginalizadas.”

“Isto acontece na nossa comunidade, com intenções malignas e políticas. É feito por governos que continuam a fazer negócios com os regimes que assassinam pessoas como eu!”

“Por que é que a Arábia Saudita [um dos 10 Estados islâmicos onde a lei prevê a pena capital para os homossexuais] condenou o ataque em Orlando? Porque os gays foram mortos a tiro e não decapitados? Porque se tratava de um clube privado e não da praça de uma cidade?”

O ataque de Omar Mateen permite que as comunidades muçulmana e de muçulmanos LGBTQ “se reposicionem, doravante, como parte interessada no debate social e político”, considerou a activista envolvida em causas como a luta contra os “crimes de honra” e a mutilação genital feminina.

Nos dias seguintes a Orlando, Raquel Evita Saraswati foi assediada na rua. “Primeiro, um não muçulmano empurrou-me e chamou-me ‘terrorista estúpida’; depois, um muçulmano acusou-me, aos gritos, de ser apóstata.”

“Embora sejam extremos, estes exemplos mostram bem o que é ser uma muçulmana que usa hijab e defende direitos humanos universais. Porque existo na intersecção da mulher muçulmana e da experiência LGBTQ, os últimos dias têm sido muito duros e penosos. Mas não sacrifico o que sou pela promessa de uma vida mais fácil. Escolhi viver no amor e lutar por uma libertação total.”

Raquel Evita Saraswati
© Cortesia de | Courtesy of Raquel Evita Saraswati 

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 25 de Junho de 2006 | This article under a different headline was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on June 25, 2016

100 anos de Sykes-Picot:  “Não existem Estados homogéneos no Médio Oriente”

Em Maio de 1916, Mark Sykes e François-Georges Picot dividiram os territórios árabes do dissoluto Império Otomano em “esferas de influência” britânica e francesa. Mas não foram eles que desenharam as fronteiras actuais do Médio Oriente, garante a historiadora Sara Pursley. Entrevista por e-mail. (Ler mais | Read more…)

Mapa do Acordo de Sykes–Picot, onde se vêem as áreas de controlo e influência delimitadas por britânicos e franceses © Royal Geographical Society | The National Archives (UK)

Mapa do Acordo de Sykes–Picot, onde se vêem as áreas de controlo e influência (A + B) delimitadas por britânicos e franceses
© Royal Geographical Society | The National Archives (UK)

Na manhã de 16 de Dezembro de 1915, Sir Mark Sykes apressou-se a comparecer no Nº 10 de Downing Street, em Londres.

O baronete de 36 anos, “especialista em assuntos do Médio Oriente”, foi chamado à residência oficial pelo primeiro-ministro, H. H. Asquith, para o aconselhar sobre como evitar o colapso da “frágil aliança” entre a Grã-Bretanha e a França após a dissolução do Império Otomano, derrotado na I Guerra Mundial.

Para a reunião com Asquith e os membros do gabinete de guerra, o deputado conservador, que morreria de gripe espanhola quatro anos depois, “levou um mapa e um resumo em três páginas do que pretendia dizer”, escreve James Barr, em A Line in the Sand: Britain, France and the struggle that shaped the Middle East (Simon & Schuster, 2011).

Durante a audiência, Sykes defendeu vigorosamente um acordo em que Londres e Paris dividiriam entre si os despojos otomanos. Ele era “o homem certo” para chegar a esse compromisso.

Entre os que ouviram o “conselheiro” com muita atenção estava Arthur Balfour, que chefiara o Executivo entre 1902 e 1905.

“Que tipo de entendimento sugere com os franceses?”, perguntou. Sykes fez deslizar um dedo pelo mapa sobre a mesa, descreve Barr. “Gostaria de traçar uma linha do ‘e’ em Acre [hoje uma cidade em Israel] até ao último ‘k’ em Kirkuk” [no Norte do Iraque], disse ele.”

Mapa do Império Otomano – na sua maior extensão incluía os actuais territórios da Turquia, do Egipto, da Grécia, da Bulgária, da Roménia, da Macedónia, da Hungria, da Palestina, da Jordânia, do Líbano, da Síria, partes da Arábia e muito da faixa costeira do Norte de África
© thegeotradeblog.com

“O território a Norte da linha desenhada por Sykes – de Acre, na costa mediterrânica, até Kirkuk, próximo da fronteira persa – ficaria sob protecção [ou “esfera de influência”] francesa; o território a sul, sob protecção britânica. Dentro de cada uma destas áreas, a França e a Grã-Bretanha assumiriam poderes plenos.”

“A zona ‘azul’, francesa, integraria a costa libanesa e a Síria, penetrando na moderna Turquia, a Norte. A zona ‘vermelha’, britânica, expandiria a zona ocupada no Sul do Iraque até Bagdad e, separadamente, abrangeria o porto de Haifa. À Palestina seria atribuída a cor castanha. Ambas as partes procuraram o apoio da Rússia.”

Cem anos depois, o Acordo de Sykes-Picot continua a ser considerado por muitos analistas “a fonte de todos os males”, mas uma historiadora do Iraque na Universidade de Princeton, nos EUA, Sara Pursley, deita por terra estes mitos prevalecentes.

“Há a ideia muito esquisita de que as fronteiras actuais são menos reais do que as fronteiras imaginárias, que não existem e sobre as quais nunca houve acordo”, diz-me, numa entrevista por e-mail, a antiga professora do Programa de Estudos do Médio Oriente da City University of New York (CUNY) e autora de Familiar Futures: Time, Selfhood, and Sovereignty in Iraq.

Por exemplo, “as fronteiras do Iraque são as que temos; não foram desenhadas, em 1916, com uma caneta. Não se assemelham, por isso, ao mapa de Sykes-Picot, um facto que é, estranhamente, ignorado. As fronteiras do Iraque foram criadas ao longo de várias décadas, com o recurso a muita violência.”

“As fronteiras de todos os Estados-nação foram criadas assim. E as pessoas deveriam pensar nisto antes de defenderem que as fronteiras sejam ‘redesenhadas’, seja lá o que isto for.”

“A ideia de que o Iraque é uma imposição colonial é simplesmente falsa, do ponto de vista histórico”, sublinhou. “É certo que os curdos reivindicavam não serem incluídos no Iraque, mas não havia exigências para criar Estados separados xiitas e sunitas.”

“Tanto os iraquianos como os chamados nacionalistas árabes apoiaram as fronteiras do Iraque nos anos 1920. Nessa altura, a noção do Iraque como entidade artificial era um discurso totalmente colonial, usado para argumentar que [o país] não era suficientemente coerente para se governar a si próprio e deveria, portanto, ser administrado pela Grã-Bretanha.”

O declínio do Império Otomano

A questão do Curdistão iraquiano é diferente, admite a historiadora. “Os curdos iraquianos têm muito boas razões históricas para considerarem inaceitável estarem sob o domínio de Bagdad.”

“É uma tragédia com raízes históricas específicas, mas não uma inevitabilidade por serem um povo com diferentes etnias a viver dentro das mesmas fronteiras. Aliás, o argumento repetido pelos curdos é o de que não procuram homogeneidade dentro do seu Estado; aceitam cristãos, árabes e outras minorias.”

“Os curdos são um movimento nacionalista local, com uma longa história de luta por um Estado independente”, anotou Sarah Pursley.

“Não podem ser comparados aos ocidentais que imaginam Estados separados no Iraque para sunitas e xiitas como uma boa ideia, porque se tornarão mais estáveis e menos ‘artificiais’. É uma ideia horrível, sem qualquer fundamento histórico e que tem ajudado a desviar a atenção das questões reais por detrás da guerra em curso. Sem a guerra, a artificialidade das fronteiras do Iraque não seria invocada.”

“Não existem Estados-nação com populações etnicamente e/ou religiosamente homogéneas, e a sua criação deve ser desencorajada”, frisou Sarah Pursley, reafirmando o que detalhou em dois artigos no site Jadaliyya (aqui e aqui).

“A lógica da narrativa do Estado artificial ‘é’ a lógica da limpeza étnica. Seguir a narrativa do Estado artificial não conduz à paz no Médio Oriente mas à violência etno-confessional.”

Sir Mark Sykes (esq.) e François Georges-Picot
© Wikimedia Commons

Em 10 de Junho de 2014, logo após a conquista da cidade iraquiana de Mosul, o autoproclamado “estado islâmico” (Daesh) anunciou “a morte de Sykes-Picot”, mas Sarah Pursley corrige a certidão de óbito. “As fronteiras da região que o EI clama estão mais próximas do mapa de Sykes-Picot do que das fronteiras internacionais reconhecidas entre o Iraque e a Síria.”

“A razão é simples: Sykes-Picot colocou a metade ocidental de Mosul – região que o EI [Desh] considera a ‘província de Nínive’ – na Síria e não no Iraque. Ao integrar esta província na Síria, o EI está a cumprir Sykes-Picot, não a eliminá-lo.”

Um século depois de Sykes-Picot, “há uma convicção ocidental generalizada de que o Médio Oriente é dominado por sentimentos etno-confessionais e que, de certa maneira, cabe ao Ocidente criar fronteiras que confirmem essa convicção”, refere a historiadora.

“Não há muitas pessoas a dizer que os Estados no Ocidente devem ser homogéneos, pelo menos não depois de os nazis o terem tentado. No entanto, muitos ocidentais parecem acreditar que é uma fórmula adequada ao Médio Oriente. É, essencialmente, uma ideia racista, sugerindo que identidades cívicas só são possíveis com determinados povos. É uma forma de não se falar da violência ocidental na região.”

“O que é relevante sobre Sykes-Picot 1916 – é que este foi o ano em que a Grã-Bretanha ocupou militarmente a província otomana de Bassorá e estava prestes a ocupar Bagdad. Foi, sublinhe-se, uma ocupação violenta”, conclui Sara Pursley.

“No que concerne a essas províncias, Sykes-Picot ilustra bem a realidade militar no terreno. Então porquê tanto ênfase no mapa? Ao imaginarem-se responsáveis por traçar um mapa, como se fossem deuses, e ao fingirem que o impõem, os agentes ocidentais fogem à responsabilidade pelos actos de violência mais tangíveis, hoje e no passado.”

Sara Pursley

Este artigo, aqui na íntegra, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 14 de Maio de 2016 | This article, here the extended version, was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, on May 14, 2016.

“O ‘estado islâmico’ será derrotado como foram os nazis”

O Daesh “é um movimento genocida” que mistura o jihadismo salafista com o nacionalismo fascista do antigo Partido Baas, diz Andrew Hosken, autor de Império do Medo. Permanece uma força temível que exporta a guerra para a Europa. Mas não é invencível. (Ler mais | Read more…)

© Getty Images | The Independent

© Getty Images | The Independent

Como é que um gangue jihadista criado por um “bêbado e arruaceiro” jordano chamado Abu Musab al-Zarqawi se transformou no “inimigo número um da Humanidade”, suplantando a Al-Qaeda, de Osama bin Laden?

“É uma surpresa que todos se tenham surpreendido”, diz Andrew Hosken, autor de Império do Medo: No interior do estado islâmico (Ed. Planeta), escrito “para compreender a história deste movimento, a sua selvajaria e os homens cruéis que o criaram.”

O autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh começou como Tawid wa’l Jihad (Monoteísmo e Jihad), “a máquina assassina” criada por Zarqawi num campo de treino, em Herat, no Afeganistão, em 1999.

Nasceu com a bênção de Bin Laden, que lhe deu o equivalente a 7000 euros para início de actividade, mas rapidamente se tornou numa organização rival e mais feroz.

Porque não é apenas um bando terrorista. É um exército convencional com soldados profissionais; um gigantesco aparelho de segurança e espionagem; uma ampla rede de propaganda; uma máfia implacável que trafica petróleo, antiguidades, armas e seres humanos.

“Não fiquei espantado quando, em 2014, o ‘estado islâmico’ se apoderou de Mosul e, com esta conquista, mudou o mapa do Médio Oriente”, diz-me Hosken, numa entrevista, em Lisboa, onde veio apresentar o seu livro.

“Em 2013, quando eu estava no Iraque, era visível que o grupo controlava uma grande parte do país, sobretudo a província de Anbar, e que aterrorizava Bagdad.

Em 2013, sabíamos quantos ataques o Daesh cometera, porque o grupo publicava um ‘relatório anual’ no qual detalhava todos os atentados com carros armadilhados e todos os assassínios premeditados.”

Um menino iraquiano numa escola na província de Dohuk, no Iraque, depois de obrigado a fugir de Mossul, cidade conquistada pelo Daesh em Junho de 2014 © Reuters

Um menino iraquiano abrigado numa escola na província de Dohuk, no Iraque, depois de obrigado a fugir de Mosul, cidade conquistada pelo Daesh, em Junho de 2014
© Reuters

“Em 2002 [quando saiu do campo em Herat, bombardeado pela NATO e pelos EUA, e fugiu através do Irão], Zarqawi já dominava um ‘califado’ brutal no Norte do Iraque, onde combatia os curdos”, adiantou Hosken.

“As tropas americanas nunca foram o alvo, mas sim a maioria xiita, desprezada como kafir, herege ou apóstata, que ascendeu ao poder após a queda de Saddam Hussein. Sunita, salafista e wahabita, Zarqawi sempre quis um califado.”

“Seguiu à letra um ‘Manual de Selvajaria’, que circula online e preconiza a criação de um vazio político através do terror. Travou uma guerra civil sanguinária durante três anos. Até a al-Qaeda, preocupada com a ‘imagem da jihad’, se escandalizou com as execuções bárbaras de reféns, os massacre de xiitas e das minorias.”

“Em 2006, depois de matarem Zarqawi, os americanos não valorizaram o sucessor, Abu Omar al-Baghdadi – não confundir com Abu Bakr al-Baghdadi – e algo de dramático aconteceu”, salientou Hosken, jornalista da BBC Radio 4.

“Abu Omar deu a si próprio o título de califa e proclamou o Estado Islâmico do Iraque. Os EUA ignoraram-no, convencidos de que se tratava de um actor. Historicamente, porém, foi um acontecimento crucial, porque chegou ao fim o casamento de conveniência com a Aal-Qaeda.”

“A morte de Abu Omar, em 2010, criou a ilusão de vitória sobre o Daesh, e as tropas dos EUA retiraram-se pouco depois”, recordou Hosken.

“Em Maio, o grupo deu a conhecer o seu novo líder, Abu Bakr al-Baghdadi. Com ele, o estado islâmico assumiu-se abertamente como organização genocida: num só ataque, massacrou 800 yazidis.”

“É uma mistura de islamismo e fascismo. Uma amálgama de dois grupos que parecem nada ter em comum mas servem objectivos mútuos. O Daesh é a combinação do que resta do antigo Partido Baas, de Saddam, nacionalista e secular, e do grupo de Zarqawi, que quer impor a Sharia ou lei islâmica.”

Membros do Baas desfilam com Kalashnikov e fotos do executao ditador Saddam Hussein, em 8 de Fevereiro, durante celebrações do 39º aniversário do golpe que levou o partido ao poder. A dissolução do Baas, ordenada pelos "administradores" americanos, após a invasão de 2003, levou a que muitos militantes e antigos oficiais iraquianos se juntassem ao Daesh, © Ramzi Haidar | AFP | Getty Images

Membros do Baas desfilam com Kalashnikov e fotos do executado ditador Saddam Hussein, em 8 de Fevereiro de 2002, durante celebrações do 39º aniversário do golpe que levou o partido ao poder. A dissolução do Baas, ordenada pelos “administradores” americanos, após a invasão de 2003, levou a que muitos militantes e antigos oficiais iraquianos se juntassem ao Daesh
© Ramzi Haidar | AFP | Getty Images

“O estado islâmico é, acima de tudo, uma organização iraquiana ligada ao Baas”, frisou o repórter britânico. “Repare-se nos homens que rodeiam Baghdadi. Foram todos foram membros do Exército e da Polícia de Saddam.”

“Quando conquistam uma cidade, os jihadistas podem entrar com os seus coletes de bombas, mas, depois dos suicidas, vêm os tipos do Baas para estabelecer a lei e ordem através do terror.”

A euforia ilusória dos EUA depois das mortes de Zarqawi e Abu Omar talvez explique a relutância de Andrew Hosken em acreditar nos “peritos em terrorismo e contraterrorismo” americanos que anunciam pesadas derrotas do Daesh, na sequência de ofensivas aéreas e terrestres.

Segundo estas fontes, citadas pelo Washington Post, o califado diminuiu 40% nos últimos 6 meses, o que significa menos população a quem extorquir dinheiro; a produção petrolífera, que rendia 500 milhões de dólares anuais, baixou para metade; a queda de receitas da mais rica organização terrorista está a encorajar cada vez mais deserções.

“Pergunto-me se estes peritos são os mesmos que não conseguiram ver os sinais da emergência do Daesh”, ironizou Hosken. “Sabemos apenas que o Daesh perdeu Palmira, com a ajuda dos russos. Perdeu também Kobane, Ramadi, Tikrit e Sinjar. É verdade que tem sofrido desaires significativos, mas perder batalhas não é o mesmo que perder uma guerra.”

“O Daesh não precisa de muito território para sobreviver. Continua a recrutar entre os desiludidos do ‘Inverno árabe’. É uma organização criminosa.”

“Tem muitos ladrões e assassinos. Continua a extrair petróleo e a contrabandeá-lo para a Turquia. Mesmo que seja derrotado militarmente na Síria e no Iraque, continua presente no Afeganistão, no deserto do Sinai (Egipto), na Líbia.”

Até que ponto os recentes ataques terroristas na Europa são a “reacção de uma besta ferida”? “A mensagem que o grupo quer passar é: lá porque estão a matar-nos na Síria e no Iraque não significa que não possamos matar-vos em Bruxelas ou em Paris”, respondeu Hosken.

“O ‘estado islâmico’ quer passar a ideia de que há um único campo de batalha. Os recentes atentados revelam uma capacidade extraordinária de nos atacar.”

“É possível derrotar o Daesh, porque é necessário, como foi necessário derrotar os nazis, que eram uma ameaça muito maior”, concluiu Hosken. “Acredito que o Daesh será derrotado, como foram os nazis. Mas vai levar tempo.”

[O “califado” do Daesh ruiu em 2019, graças a uma guerra não convencional sem precedentes, mas a sua ideologia jihadista-salafista global continua a ser uma ameaça.]

“A grande questão é saber se depois do Daesh, mantendo-se as condições que levaram ao seu aparecimento – fracturas confessionais, confronto permanente entre sauditas e iranianos, regimes repressivos, corrupção – não irá surgir outro grupo ainda pior que ocupará o seu lugar. Talvez um Daesh com armas biológicas.”

Andrew Hosken

Andrew Hosken

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 9 de Abril de 2016 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on April 9, 2016 

Em verso e em prosa: As contradições do Irão

José Saramago e Fernando Pessoa são populares na República Islâmica. O português Nobel da Literatura tem 25 livros publicados em farsi. Um deles, Ensaio sobre a Cegueira, esteve proibido. Não é caso único. A censura é implacável, mas os escritores resistem. Onde e quando menos se espera, há surpresas boas. (Ler mais | Read more…)

Escritores iranianos proibidos ou com obras ainda interditas, no Mehr Cafe, em Yazd © Margarida Santos Lopes

Retratos de escritores iranianos, alguns com obras ainda proibidas na República Islâmica, no Mehr Cafe, na cidade de Yazd
© Margarida Santos Lopes

Seis fotografias a preto e branco reluzem numa parede do Mehr Cafe, numa viela harmoniosa da cidade de Yazd. Uma funcionária, alegre e afável, confirma a identidade dos geniais Nima Yooshij, Ahmad Shamlou, Forough Farrukhzad, Ali Shariati, Mehdi Akhavan Sales e Sadegh Hedayat.

São autores de livros proibidos e/ou censurados. Quem os conhece – e saber quem são ajuda a compreender o Irão – talvez se interrogue: estará a liberdade a passar por aqui?

Nem por isso, mas há alguns sinais de abertura num país onde escritores nacionais de palavras e ideias interditas, sobretudo críticos do regime, ainda se arriscam a prisão e morte, ou buscam o exílio.

Um país onde Salman Rushdie e os seus Versículos permanecem satânicos, mas Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, foi retirado de uma lista de obras malditas, na qual permanece Ulisses, de James Joyce.

Um país onde As Minhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez, foi publicado como Os Meus Amores Tristes, para ser logo proibido como “erro burocrático” do censor.

Um país onde O Banquete (O Simpósio ou Do Amor), de Platão, filósofo d’A República que inspirou o Ayatollah Khomeini, teve finalmente licença para ser lido.

Pelo menos 25 obras do português Nobel da Literatura 1998 estão disponíveis em farsi, diz-me, por e-mail a partir de Los Angeles, Bijan Khalili, fundador e presidente da Ketab Corporation, maior rede mundial de livros sobre o Irão, em persa e noutras línguas.

Uma das biografias do deposto Xá Mohammad Reza Pahlavi à venda numa rua em Teerão © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Uma das biografias do deposto Xá Mohammad Reza Pahlavi à venda numa rua em Teerão, ao lado de livro de uma das mais amadas escritoras iranianas, Forough Farrukzhad
© Margarida Santos Lopes 

Entre os cerca de 100 mil títulos do catálogo da Ketab, os que procuram Saramago encontram Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, A Viagem do Elefante e Jangada de Pedra; O Caderno e A Caverna; As Intermitências da Morte e O Ano da Morte de Ricardo Reis; Memorial do Convento e Manual de Pintura e Caligrafia; O Homem Duplicado e Todos os Nomes; História do Cerco de Lisboa e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Menos sorte teve A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis, ainda ilegalizada.

Outro português famoso é Fernando Pessoa, com seis obras em farsi, sendo a mais popular, segundo Khalili, Livro do Desassossego. Há várias edições de tradutores diferentes, como no caso de Saramago, o que dificulta o controlo de qualidade e de tiragem. No Irão não existe lei que proteja direitos de autor.

Judeu curdo, o antigo engenheiro civil Bijan Khalili, agora com 65 anos, fugiu do Irão no final de 1980, após 11 dias na cadeia, por se opor à revolução islâmica e “pertencer a uma minoria étnica”.

Temia ser “executado sem julgamento”, e exilou-se no bairro conhecido como Tehrangeles, na Califórnia. Neste estado americano vivem, segundo várias estimativas, mais de meio milhão de iranianos, que começaram a chegar como estudantes, nos anos 1960.

Em 1981, com os “dez livros favoritos” que levou na bagagem, Khalili abriu uma pequena livraria, e esta transformou-se, rapidamente, num quase império. Inclui um muito procurado serviço online, que também distribui discos e filmes.

Anualmente, a Ketab edita uma média de 15 livros em farsi. Um dos mais recentes é Camarada Khomeini: O Papel do KGB Soviético na Ascensão de Khamenei (o Supremo Líder).

Política, ficção, dicionários e história são as áreas mais procuradas pelos clientes da Ketab. A companhia vende pouco para o Irão devido às muitas restrições da censura, mas Khalili admite que deixou de ter dificuldades em importar.

Mohammad Reza and Farah Pahlavi continuam a ser demonizados pelo regime islâmico, mas os vendedores ambulantes, alguns deles jovens que nunca conheceram a monarquia, parecem não ter medo de ganhar dinheiro com as biografias do casal imperial, em ruas movimentadas da capital iraniana onde se cruzam milicianos e guardas da revolução. © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Mohammad Reza and Farah Pahlavi continuam demonizados pelo regime em Teerão, mas os vendedores ambulantes, alguns deles jovens que nunca conheceram a monarquia, parecem não ter medo de ganhar dinheiro com as biografias do casal imperial expostas em ruas movimentadas da capital iraniana onde se cruzam milicianos e guardas da revolução
© Margarida Santos Lopes 

Vamos até Teerão, onde vão caindo tabus como a evocação da monarquia. Autobiografias do último Xá vendem-se na avenida que em tempos homenageou a sua dinastia, Pahlavi, e hoje é dedicada a Vali Asr, o último de 12 imãs xiitas.

Uma delas é Resposta à História, publicada pouco depois de ser forçado a deixar o Trono do Pavão em 1979. Outra é Missão para o meu País. Foi impressa quando ainda era “Sua Majestade Imperial, Shahanshah’ (Rei dos Reis)”.

Também se pode comprar as Memórias de Farah Diba, viúva do autoproclamado Aryameh (Luz dos Arianos). Uma das edições está autografada na capa. Ela escreveu até a data: 27.08.05.

O passado mais recente deixou, supostamente, de constituir uma ameaça, numa altura em que o país, que aceitou um acordo nuclear histórico, pretende reafirmar-se como potência regional.

Na capital, não é preciso ir a mercados obscuros, à procura dos homens que, em Persépolis, quadrinhos de Marjane Satrapi, transacionavam discos de “Estevie Vonder” e “Jikael Mackson”, escondidos nas gabardinas.

Na rua que tem o nome Ferdowsi, autor do épico Shahnameh (Livro dos Reis), um jovem alfarrabista afasta momentaneamente os olhos do smartphone e, sorridente, anuncia: “Viva o Xá!” Terá menos de 30 anos, como mais de metade dos quase 78 milhões de iranianos, jovens que só conhecem a teocracia.

Na sua banca improvisada, num passeio onde se cruzam mullahs e mulheres com coloridos roosaris (lenços) deslizando sobre justas roopoosh (túnicas), os Pahlavi estão em destaque. Mas não só.

Quem imaginaria descortinar um vídeo de Googoosh, cantora que recuperou voz e celebridade no exílio, depois de silenciada pela Revolução Islâmica? E um velho filme de Mohammad Al Fardin, pugilista e actor, afastado dos ecrãs por um sistema hostil às cenas românticas deste “rei dos corações” onde o álcool abundava e as garotas encurtavam as saias?

Ahmad Shamlou no Fórum dos Artistas em Teerão: um dos seus poemas continua interdito por ser uma crítica feroz ao regime:In this dead end/ They smell your mouth/ To find out if you have told someone: I love you!/ © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Ahmad Shamlou no Fórum dos Artistas em Teerão: um dos seus poemas continua interdito por ser uma crítica feroz ao regime: In this dead end/ They smell your mouth/ To find out if you have told someone: I love you! 
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A censura oficial no Irão remonta à conquista árabe em meados dos anos 600. Muitos textos zoroastras, a primeira religião do país, foram queimados para solidificar o poder das novas autoridades muçulmanas. A língua persa escrita só renasceu, a partir do século X, com os poetas Ferdowsi, Rudaki e Daqiqi.

Nos anos 1500, quando o Xá safávida Ismail I oficializou a conversão ao Xiismo, muitos estudiosos sunitas foram executados ou desterrados. Em 1923, com o fim da dinastia Qajar, o autocrata Reza (Khan) Pahlavi encerrou as escolas privadas, impôs manuais centrados na história e geografia pré-islâmica e transferiu a “competência de censura” do Ministério da Educação para a Polícia Nacional.

No seu reinado, o filho-herdeiro Mohammad Reza Pahlavi criou um gabinete para censurar previamente todos os livros. Os escritores enfrentavam ainda perseguição por parte de outra entidade: a SAVAK.

A temível polícia política foi dissolvida após a revolução de 1979, mas dois anos depois, formou-se uma instituição igualmente repressiva: o Ministério da Cultura e Orientação Islâmica (MCOI).

Um relatório de 2015, intitulado Writer’s Block: The Story of Censorship in Iran e resultante de uma investigação dirigida por James Marchant, explicou deste modo os obstáculos que enfrentam os escritores. “Zohreh demorou dois anos e meio a acabar um romance de 350 páginas. Contacta um primeiro editor. Não está interessado.”

“O livro corre o risco de ser chumbado pelo MCOI. Ela procura outro editor, um pouco mais corajoso, disposto a investir algum dinheiro na edição, na revisão, na impressão, no design e na publicação. Antes de enviar ao censores o manuscrito em PDF, tem de preencher formulários, para saber se os que têm a última palavra o vão aprovar ou rejeitar.”

“Passam oito meses e o ministério sugere ‘algumas emendas’. Ela elimina 50 páginas, troca a palavra ‘vinho’ por ‘água’ e muda o carácter do protagonista, de bêbado para marido dedicado.

“Mais uma espera longa, até que, finalmente, vários milhares de exemplares recebem autorização para serem distribuídos. Uma cópia é entregue na Biblioteca Nacional. Só então o título fica registado na base de dados estatal, ketab.ir.”

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Os livros não foram as únicas vítimas de Ahmadinejad. Pinturas no valor de mais de 3000 milhões de dólares mantiveram-se fechadas numa cave húmida até serem finalmente expostas, no Museu de Arte Contemporânea de Teerão, em Novembro de 2015. Quadros de Giacometti, Warhol, Monet, Pollock, Magritte, Lichtenstein, Kooning e outros são agora objecto de estudo e adulação. © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Os livros não foram as únicas vítimas da censura imposta pelo anterior presidente Mahmoud Ahmadinejad. Pinturas no valor de mais de 3000 milhões de dólares mantiveram-se fechadas numa cave húmida até serem finalmente expostas, no Museu de Arte Contemporânea de Teerão (nas 2 fotos), em Novembro de 2015. Quadros de Giacometti, Warhol, Monet, Pollock, Magritte, Lichtenstein, Kooning e outros são agora objecto de estudo e adulação
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O período pós-revolucionário mais tolerante, para escritores, jornalistas e bloggers, foi o da presidência de Mohammad Khatami, entre 1997 e 2005. Como ministro da Cultura (1982-1992), já defendia uma “concepção progressista dos valores culturais: liberdade de pensamento e respeito pela honra intelectual”.

Uma era de trevas foi inaugurada por Mahmoud Ahmadinejad em dois mandatos presidenciais, de 2005 a 2013. A sede dos censores passou a ser o Ministério dos Serviços Secretos. Chegou-se ao absurdo de o responsável por “avaliar” os filmes ser um cego.

O ministro da Cultura, Hossein Saffar-Harandi, revogou as licenças de Khatami e ordenou a proibição de numerosas obras (algumas já editadas e reeditadas), apenas por considerar os autores personae non gratae.

A eleição de Hassan Rouhani – um “pragmático” e não “reformista” como Khatami – fez reviver a esperança. O legado do ultraconservador Ahmadinejad foi tão nocivo que exasperou o actual ministro da Cultura. Disse Ali Jannati, citado pela Rádio Europa Livre: “Se o Corão não fosse a palavra divina também teria sido censurado.”

Os livros não foram as únicas vítimas de Ahmadinejad. Pinturas no valor de mais de 3000 milhões de dólares mantiveram-se fechadas numa cave húmida até serem finalmente expostas, no Museu de Arte Contemporânea de Teerão, em Novembro de 2015.

Quadros de Giacometti, Warhol, Monet, Pollock, Magritte, Lichtenstein, Kooning e outros são agora objecto de estudo e adulação.

Toda a colecção foi adquirida por Farah Pahlavi graças às receitas do petróleo quando o mercado de arte estava em crise. Agora é um Irão com necessidade de divisas que põe a render o património que antes renegava.

Rouhani e Jannati têm advogado maior liberdade pessoal e artística, mas é limitada a margem de manobra do actual Governo. Apesar de tudo, vão despontando na sociedade vários nichos onde a audácia desafia a tacanhez.

Um deles é Kar nameh sepanj (O Arquivo 3.5), de Mahmoud Dowlatabadi, autor de O Coronel, que jamais saiu da gaveta do censor, apesar de traduzido para várias línguas. Dowlatabadi, 75 anos, recusa cortes no romance que demorou um quarto de século a escrever, até 2008. O destino trágico dos cinco filhos de um oficial do exército, todos representando facções diferentes da revolução que os devorou, é parte da sua história pessoal. © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Mahmoud Dowlatabadi (na foto, o seu Kar nameh sepani /O Arquivo 3.5, à venda no Fórum dos Artistas Unidos em Teerão), é o autor de O Coronel, livro que jamais saiu da gaveta do censor, apesar de traduzido para várias línguas. Dowlatabadi, 75 anos, recusa cortes no romance que demorou um quarto de século a escrever, até 2008. O destino trágico dos cinco filhos de um oficial do exército, todos representando facções diferentes da revolução que os devorou, é parte da sua história pessoal
© Margarida Santos Lopes

Um deles é o Fórum dos Artistas Iranianos, no parque Honarmandan em Teerão, um complexo arquitectónico erguido das ruínas de um edifício que foi usado por militares e depois resguardou toxicodependentes. Mais de uma década após a sua construção, aqui se encontram todas as classes, os mais pobres do sul e os mais ricos do norte.

Para namorar no jardim. Conversar com amigos. Beber um café. Comer um prato vegetariano. Assistir a uma peça de teatro. Ver um filme. Apreciar e apreçar esculturas ou fotografias. Ouvir um concerto da orquestra sinfónica criada em 2014.

Que salto em frente, num país onde, em tempos não muito longínquos, se incendiavam cinemas e a música era proibida.

Do conjunto de galerias e auditórios, cafés e restaurantes do Fórum sobressai uma loja irresistível. Vende artesanato exclusivo, em têxteis, madeira ou cerâmica, CDs, DVDs e livros. Um deles é Kar nameh sepanj (O Arquivo 3.5), de Mahmoud Dowlatabadi, autor de O Coronel, que jamais saiu da gaveta do censor, apesar de traduzido para várias línguas.

Dowlatabadi, 75 anos, recusa cortes no romance que demorou um quarto de século a escrever, até 2008. O destino trágico dos cinco filhos de um oficial do exército, todos representando facções diferentes da revolução que os devorou, é parte da sua história pessoal.

Em 1974, depois de detido pela SAVAK, o autor de Kelidar, magnum opus de dez volumes e 3000 páginas, perguntou aos carcereiros qual o crime que justificava dois anos numa cela. “Nenhum”, responderam-lhe. “Mas toda a gente o lê, o que faz de si um provocador.”

Dowlatabadi é um colosso da literatura iraniana contemporânea, tal como Nima, Shamlou, Forugh, Shariati, Saless e Hedayat, os escritores emoldurados na parede do Mehr Cafe. O espanto de os ver numa ruela de Yazd é tanto maior quanto The Blind Owl (A Coruja Cega), de Hedayat (1903-1951), nunca teve autorização para ser publicado, embora seja referência obrigatória do século XX.

Shiraz: o mausoléu de Hafez, o mais amado dos poetas iranianos. Os seus versos competem em popularidade com o Corão © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

O mausoléu de Hafez, o mais amado dos poetas iranianos, na cidade de Shiraz. Os seus versos competem em popularidade com o Corão
© Margarida Santos Lopes

Antimonárquico e anticlerical, simpatizante do Tudeh, o extinto partido comunista, Sadegh Hedayat é conhecido como o “Kafka iraniano”. Foi ele quem introduziu o modernismo na ficção iraniana. Estudou na Bélgica e em Paris, entre 1926 e 1930. Deixou-se influenciar, além de Kafka, por Shakespeare, Goethe, Sartre e Rilke. Nunca conseguiu conciliar os seus dois mundos: persa e europeu.

Escreveu The Blind Owl em Bombaim (Índia), sabendo que só clandestinamente esta história sobre medo, perda e morte entraria no seu país. Psicótico e infeliz, Hedayat suicidou-se, em 1951, num apartamento que arrendara na capital francesa.

Amigo de Hedayat, porta-voz dos pobres e dos oprimidos, outra figura notável da literatura iraniana é Nima Yooshij (1896-1960). Aclamaram-no como “pai da nova poesia persa”, por romper com a métrica rígida dos clássicos. Compararam-no ao modernista americano Ezra Pound.

Inscreveram-no no movimento dos simbolistas franceses (Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé). Nos seus versos há muitas referências à “noite” e ao “amanhã”, interpretadas como metáforas de um tempo de tirania e, simultaneamente, de resistência à injustiça e à miséria.

Entre os discípulos de Nima está Forough Farrokhzad (1935-1967), que o descreveu como seu “guia”. Não fosse o seu carácter assumidamente profano e também ela poderia reclamar o título religioso xiita de marja-e taqlid (fonte de emulação), porque continua a cativar muitos iranianos.

Livraria em Shiraz, a cidade dos poetas Hafez e Sa'adi. O Irão anunciou, em Março, que irá construir a maior livraria do mundo, numa área de 45.000 metros quadrados © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Uma modesta livraria em Shiraz, cidade dos poetas Hafez e Sa’adi. O Irão anunciou, em Março, que irá construir a maior livraria do mundo, numa área de 45.000 metros quadrados
© Margarida Santos Lopes

A vida desta grande feminista não foi banal. E foi breve. Acabou num acidente de viação aos 32 anos. Aos 16, começou a escrever os seus ghazals, poemas líricos carregados de erotismo e, aos 16, casou-se com o cartunista Parviz Shapour.

Desta união que a família reprovou, nasceu um filho, em 1956. Forough e Parviz mudaram-se de Teerão para Ahwaz, no Sul. A cidade era conservadora e escandalizou-se com a beleza magnética de uma das primeiras mulheres a aderir à moda das roupas coleantes e curtas. O divórcio consumou-se após o parto. O pai ficou com a custódia da criança.

Por ser divorciada, Forough atraiu ainda mais atenção e recriminação. Indiferente e independente, ela transpôs para a sua poesia todas as dores e paixões. Um dos poemas mais marcantes é The Sin (O Pecado), em que descreve um de vários relacionamentos amorosos de curta duração.

I have sinned a rapturous sin/ in a warm enflamed embrace,/sinned in a pair of vindictive arms,/ arms violent and ablaze./ In that quiet vacant dark/ I looked into his mystic eyes,/ found such longing that my heart/ fluttered impatient in my breast./

In that quiet vacant dark/ I sat beside him punch-drunk,/ his lips released desire on mine,/ grief unclenched my crazy heart (…)

Sexualmente explícitos, vários livros de Forough foram proibidos durante mais de uma década depois da Revolução Islâmica. Hoje, ainda que censurada, é reconhecida como a maior poeta nacional do século XX.

Homenagem a Abbas Kiarostami, o grande cineasta iraniano que morreu em 4 de Julho. O Fórum dos Artistas em Teerão é um dos novos espaços de liberdade © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

Rei Lear, de Shakespeare, e a biografia de Abbas Kiarostami, o grande cineasta iraniano que morreu em 4 de Julho. O Fórum dos Artistas em Teerão é um dos novos espaços de liberdade
© Margarida Santos Lopes

No panteão dos gigantes está também Ahmad Shamlou (1925-2000): poeta, dramaturgo, tradutor, jornalista. Conheceu várias prisões: a dos Aliados que ocuparam a pátria quando a II Guerra Mundial chegava ao fim; a de separatistas na província do Azerbaijão que quase o fuzilaram; a de Mohammad Reza Pahlavi, que mandou destruir os seus livros, por ele ser militante do Tudeh.

Em 1977, o intelectual marxista que nunca concluiu o liceu emigrou primeiro para a América e depois para o Reino Unido, em protesto contra o despotismo. Em 1979, voltou a Teerão, mas rapidamente o velayat-e faqih (governo do jurista) o desiludiu.

Muitos dos seus poemas, incluídos em 20 colectâneas, foram proibidos. Um deles mobilizaria a oposição contra Ahmadinejad, em 2009. Está traduzido, em inglês, como In This Dead-End (“Neste beco sem saída”).

In this dead end/ They smell your mouth/ To find out if you have told someone: I love you!/ They smell your heart!/ Such a strange time it is, my dear;/ And they punish Love/ At thoroughfares/ By flogging./ We must hide our Love in dark closets. (…)

Se a poesia era a arma política de Ahmad Shamlou, a de Ali Shariati (1933-1977) foi a história das religiões. Sociólogo doutorado na Sorbonne, em França, pertenceu a um movimento que tentou fundir o Xiismo com o socialismo europeu.

Ganhou o epíteto de “ideólogo da Revolução Islâmica”. No entanto, entre os seus seguidores estão também opositores do regime actual, e algumas das suas obras críticas dos zelotas xiitas continuam censuradas.

Tradutor para persa do psiquiatra, filósofo e activista anticolonial Frantz Fanon (1925-1961), autor de Peles Negras, Máscaras Brancas, Ali Shariati admirava muito este antigo escravo da Martinica, mas ambos divergiam num ponto essencial, segundo o historiador Ervand Abrahamian.

Fanon aconselhava os “povos do Terceiro Mundo” a abdicar das suas religiões tradicionais “na luta contra o imperialismo ocidental”. Shariati defendia que os países em desenvolvimento precisavam de “redescobrir as suas raízes religiosas para poderem desafiar o Ocidente”.

© Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

© Margarida Santos Lopes 

© Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

© Margarida Santos Lopes

Housed in a beautiful Qajar-era building a short walk north of the National Museum of Iran, the Glass & Ceramics Museum is, like many of its exhibits, small but perfectly formed. Built as a private residence for a prominent Persian family, it later housed the Egyptian embassy and was converted into a museum in 1976. Unusually for its time, the building successfully blends features of Eastern and Western styles. The graceful wooden staircase and classical stucco mouldings are particularly delightful, and there are many delicate carvings and decorative flourishes. The well-designed museum stands out in a country where detailed explanations are hard to find. It has hundreds of exhibits, mainly from Neishabur, Kashan, Rey and Gorgan, dating from the 2nd millennium BC to the modern day. The galleries walk you chronologically through the ages, with detailed, lucid explanations in English that chart the history of the country and the region through the lovingly displayed glass and ceramics that remain. Read more: http://www.lonelyplanet.com/iran/tehran/sights/museums-galleries/glass-ceramics-museum#ixzz4EmmStqdb © Margarida Santos Lopes | Direitos Reservados

O Museu do Vidro e Cerâmica em Teerão funciona desde 1976 num edifício da era Qajar que foi em tempos a Embaixada do Egipto. A arquitectura  é belíssima, da escadaria de madeira aos tectos trabalhados em gesso. Alguns dos objectos expostos em galerias organizadas cronologicamente remontam ao segundo milénio a.C. e contam uma parte da história do Irão
© Margarida Santos Lopes 

As ideias do antigo militante da Frente Nacional, de Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista derrubado pela CIA em 1953, atraíam os estudantes universitários. As suas aulas eram gravadas em cassetes e transcritas para panfletos, distribuídos clandestinamente. Ele não incomodava apenas o palácio mas também a mesquita.

Os teólogos (ulama) preocupavam-se com as afirmações de que não seriam eles a liderar “o regresso a um Islão genuíno”, mas sim os intelectuais (rushanfekran), únicos capazes de oferecer ao Irão “a Renascença e a Reforma”, anotou Ervand Abrahamian.

De 1972 a 1975, Shariati esteve preso sob a acusação de propagar um “marxismo islâmico”. Ficou em detenção domiciliária até 1977, ano em que foi autorizado a partir para Londres. Pouco tempo após a chegada, morreu de “ataque cardíaco”. Tinha 43 anos. Sobrevive a suspeita de que foi assassinado por agentes da SAVAK.

Contemporâneo de Shariati e também activista político, Mehdi Akhavan Sales (1929-1990) é, tal como Nima Yooshij, um dos pioneiros da nova poesia persa, obcecado pela “luta eterna entre luz e escuridão”. Em 1951, publicou a primeira antologia: A todos os combatentes da liberdade.

Após o golpe que afastou Mossadegh, esteve várias vezes preso, por pertencer ao Tudeh. Só em 1957 foi autorizado a retomar uma existência normal, como professor e jornalista. Entre 1969 e 1974, para poder sustentar-se financeiramente, trabalhou na televisão oficial, em programas de história e literários.

Em 1981, após vários anos ao serviço do Estado, foi afastado sem motivo e direito a reforma. Em 1990, morreu num hospital em Teerão. Sepultaram-no em Tus, na província de Khorasan, junto ao mausoléu de Ferdowsi – a quem muitos o comparavam.

De Teerão a Yazd, uma reabilitação póstuma de prosas e versos parece dar razão ao romancista Esmail Fasih (1935-2009): “Nas terras esplendorosas do Irão, um bom escritor é um escritor morto”.

A casa de artistas do músico Maziar Ale Davoud, no deserto de Garmeh
© Marisol González

Este artigo foi publicado originalmente na revista LER, edição de Abril-Maio-Junho de 2016 | This article was originally published in the Portuguese magazine LER, April-May-June 2016 edition

“O Daesh está a morrer, mas ainda vai matar”

Em seis meses, o autoproclamado “estado islâmico” perdeu 40% do território que controla na Síria e no Iraque. Foi isso que desencadeou os atentados em larga escala na Europa, diz Robert Pape, fundador e director do Chicago Project on Security and Terrorism, considerado a maior base de dados de ataques suicidas do mundo. (Ler mais | Read more…)

Os ataques reivindicados pelo Daesh em Bruxelas, em 22 de Março de 2016, causaram pelo menos 34 mortos e mais de cem feridos © Reuters

Os ataques reivindicados pelo Daesh em Bruxelas, em 22 de Março de 2016, causaram pelo menos 32 mortos e mais de 300 feridos
© Reuters

Os dois atentados em Bruxelas foram cometidos menos de uma semana depois da captura do alegado cérebro dos ataques em Paris. Ficou surpreendido?

Não. Nos últimos seis meses o ISIS [‘estado islâmico’/Daesh] mudou totalmente a sua estratégia, ao lançar ataques em grande escala fora da Síria e do Iraque. Até então, os seus alvos eram simbólicos, assassínios individuais levados a cabo por ‘lobos solitários’, como os que [em Janeiro de 2015] visaram o jornal Charlie Hebdo.

O objectivo declarado é agora ‘atingir tudo e todos’. Em 10 de Outubro de 2015, um atentado suicida matou 103 civis em Ancara. Seis semanas depois, a 31 de Outubro, morreram todas as 224 pessoas a bordo de um avião russo abatido sobre o Sinai [Egipto].

Duas semanas depois, a 13 de Novembro, vários ataques, quase simultâneos, causaram 130 mortos em Paris. Agora, Bruxelas. Por que é que o ISIS decidiu visar civis na Europa? Porque está a perder território.

Controlará apenas 40 por cento das áreas com população no Iraque e na Síria. Essa perda deve-se às ofensivas aéreas da coligação formada pelos Estados Unidos, com apoio de forças terrestres locais.

Pela primeira vez, e isto é muito importante, temos um desertor do ISIS [Mohamad Jamal Khweis, 26 anos, cidadão americano, filho de imigrantes palestinianos residente em Alexandria, no estado de Virgínia].

Rendeu-se a combatentes curdos em Sinjar, no Iraque. [Entrou na Síria, a partir de Istambul, depois de ter viajado por Londres e Amesterdão]. Os ataques na Bélgica, em França e na Turquia são uma tentativa de inverter uma derrota inevitável.

Estes ataques são apenas uma decisão estratégica? Não há uma relação com o fundamentalismo islâmico? O bairro de Molenbeek em Bruxelas foi identificado por investigadores como a base principal de terroristas na Europa…

Não posso dizer que os ataques nada têm a ver com o fundamentalismo islâmico. Posso garantir que não os explicam. O ISIS está a atacar os Estados que fazem parte da coligação internacional que lhe declarou guerra. Deixou isso bem claro num comunicado. A Bélgica faz parte da coligação, mesmo que a sua presença seja mínima [cem militares de apoio e conselheiros].

A França e a Turquia são membros da coligação. A Rússia é visada porque permite a sobrevivência de Bashar al-Assad. Com ataques em grande escala, o grupo pretende afastar da equação países membros da aliança internacional, e forçá-los a uma reacção desproporcionada.

Interessa-lhe que as comunidades muçulmanas sejam marginalizadas, porque isso facilita o recrutamento para as suas fileiras.

Homenagem às vítimas dos ataques de Paris, à porta do Restaurante Le Carillon © Charles Platiau Reuters

Homenagem às vítimas dos ataques de Paris, à porta do Restaurante Le Carillon
© Charles Platiau Reuters

Depois de Bruxelas, ainda devemos estar preparados para mais ataques?

Sim. Pelo menos nos próximos seis ou doze meses. Mas eu acredito que, com a continuação das campanhas aéreas da coligação, os territórios dominados pela ISIS acabarão por se desintegrar – e antes de o próximo Presidente dos Estados Unidos tomar posse [em Janeiro de 2017].

A Indonésia é o maior Estado muçulmano do mundo e não faz parte da coligação internacional. No entanto, o Daesh reivindicou vários ataques em Jacarta, em Janeiro. Há perigo de outros países, como Portugal, virem a ser alvo?

Há sempre esse risco. O ISIS não é um Estado. Não é um Exército. Não tem propriamente um quartel-general. O grupo tem incluído apenas os membros da coligação na sua lista de alvos. Podemos dizer que o risco é zero? Não. Mas é muito baixo.

Qual deve ser a resposta das forças de segurança, dos serviços de informação, dos governos?

Acima de tudo, devem explicar a razão e o timing destes ataques do ISIS. Se não fizerem isso, a resposta será muito confusa, com erros atrás de erros. Foi o que aconteceu quando definimos a Al-Qaeda como uma organização religiosa, depois do 11 de Setembro. Com um diagnóstico errado, invadimos o Iraque [em 2003] e criámos mais terroristas do que matámos.

Precisamos de maior vigilância e um reforço dos orçamentos dos serviços de segurança internos. Não são necessários mais carros de combate nas ruas e sim investir num número maior de peritos capazes de decifrar toneladas e toneladas de informação recolhida.

Câmaras de filmar são baratas, mas custa dinheiro pagar a quem sabe interpretar as imagens correctamente. Não admira que, tantas vezes, os factos nos ultrapassem.

Fotos com cravos vermelhos foram usadas nas manifestações de homenagem às vítimas do Daesh em Ancara © Lefteris Pitarakis | AP

Fotos com cravos vermelhos foram usadas nas manifestações de homenagem às vítimas do Daesh em Ancara, em Outubro de 2015
© Lefteris Pitarakis | AP

Está a construir um banco de dados de atentados suicidas. Quantos é que já catalogou, e a que conclusões chegou?

Neste momento, temos quase 5000 atentados organizados e avaliados. Todos os meses são cometidos centenas, sobretudo na Síria e no Iraque. Passam despercebidos na comunicação social. Não têm o impacto mediático de atentados em Paris ou em Bruxelas.

Ao contrário da percepção generalizada, o que 95 por cento dos ataques estudados desde 1980 têm em comum não é a religião, embora esta seja usada como ferramenta de recrutamento. Na sua maioria, são uma resposta a intervenções estrangeiras.

A al-Qaeda nasceu da resistência à invasão soviética do Afeganistão [de 1979 a 1989]. O ISIS apareceu no Verão de 2014, na sequência de uma insurreição contra a ocupação do Iraque por tropas americanas. Não encontro ligação directa entre terrorismo suicida e fundamentalismo islâmico. Quase todas as operações suicidas têm um objectivo secular e estratégico.

Os Tigres Tâmil no Sri Lanka [derrotados em 2009, depois de uma guerra iniciada em 1983, com 80.000-100.000 mortos] e o PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão] na Turquia têm um passado de ataques suicidas, mas são organizações seculares. Até o Hezbollah libanês.

Identificámos 38 dos seus 41 bombistas: só oito eram muçulmanos fundamentalistas, 27 pertenciam ao Partido Comunista Libanês e à União dos Árabes Socialistas.

Havia também três cristãos, um deles uma professora do Ensino Secundário. O que os unia era a resistência à ocupação estrangeira [forças francesas, americanas e israelitas]. Não esqueçamos que o ISIS também integra gente secular. Um terço dos seus comandantes militares são antigos oficiais do regime de Saddam Hussein.

Devemos ter medo?

Sim. Um medo moderado. Preocupemo-nos com os próximos seis ou 12 meses.

O homem que estuda os ataques suicidas

Robert Pape

Robert A. Pape é o fundador e director do Chicago Project on Security and Terrorism (CPOST), considerado a maior base de dados de ataques suicidas do mundo, – quase 5000, recolhidos e analisados desde 1980.

Os ataques são organizados por data, alvo, armas usadas e número de vítimas mortais. O primeiro relatório, publicado em 2014, contabilizou 4300 mortos em 15 países, sendo o Iraque e o Afeganistão os que mais sofreram.

O CPOST é também um instituto de segurança internacional. Funciona na Universidade de Chicago onde Robert Pape é professor de Ciência Política.

Dos vários livros publicados por este académico, que foi consultor das campanhas presidenciais de Barack Obama e do republicano Ron Paul, dois são considerados obras de referência: Cutting the Fuse: The Explosion of Global Suicide Terrorism and How to Stop It (2010) (com o analista de defesa James Feldman) e Dying to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism (2005).

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 25 de Março de 2016 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on March 25, 2016