100 anos de Sykes-Picot:  “Não existem Estados homogéneos no Médio Oriente”

Em Maio de 1916, Mark Sykes e François-Georges Picot dividiram os territórios árabes do dissoluto Império Otomano em “esferas de influência” britânica e francesa. Mas não foram eles que desenharam as fronteiras actuais do Médio Oriente, garante a historiadora Sara Pursley. Entrevista por e-mail. (Ler mais | Read more…)

Mapa do Acordo de Sykes–Picot, onde se vêem as áreas de controlo e influência delimitadas por britânicos e franceses © Royal Geographical Society | The National Archives (UK)

Mapa do Acordo de Sykes–Picot, onde se vêem as áreas de controlo e influência (A + B) delimitadas por britânicos e franceses
© Royal Geographical Society | The National Archives (UK)

Na manhã de 16 de Dezembro de 1915, Sir Mark Sykes apressou-se a comparecer no Nº 10 de Downing Street, em Londres.

O baronete de 36 anos, “especialista em assuntos do Médio Oriente”, foi chamado à residência oficial pelo primeiro-ministro, H. H. Asquith, para o aconselhar sobre como evitar o colapso da “frágil aliança” entre a Grã-Bretanha e a França após a dissolução do Império Otomano, derrotado na I Guerra Mundial.

Para a reunião com Asquith e os membros do gabinete de guerra, o deputado conservador, que morreria de gripe espanhola quatro anos depois, “levou um mapa e um resumo em três páginas do que pretendia dizer”, escreve James Barr, em A Line in the Sand: Britain, France and the struggle that shaped the Middle East (Simon & Schuster, 2011).

Durante a audiência, Sykes defendeu vigorosamente um acordo em que Londres e Paris dividiriam entre si os despojos otomanos. Ele era “o homem certo” para chegar a esse compromisso.

Entre os que ouviram o “conselheiro” com muita atenção estava Arthur Balfour, que chefiara o Executivo entre 1902 e 1905.

“Que tipo de entendimento sugere com os franceses?”, perguntou. Sykes fez deslizar um dedo pelo mapa sobre a mesa, descreve Barr. “Gostaria de traçar uma linha do ‘e’ em Acre [hoje uma cidade em Israel] até ao último ‘k’ em Kirkuk” [no Norte do Iraque], disse ele.”

mapa actual

O parceiro de Sykes seria o advogado François Georges-Picot, 43 anos, um homem que, segundo Barr, “tinha no sangue a crença da missão civilizadora da França imperial”. Em 16 de Maio de 1916, depois de muitas negociações, divergências e rupturas, os dois homens assinaram um  acordo secreto“vergonhoso”.

“O território a Norte da linha desenhada por Sykes – de Acre, na costa mediterrânica, até Kirkuk, próximo da fronteira persa – ficaria sob protecção [ou “esfera de influência”] francesa; o território a sul, sob protecção britânica. Dentro de cada uma destas áreas, a França e a Grã-Bretanha assumiriam poderes plenos. A zona ‘azul’, francesa, integraria a costa libanesa e a Síria, penetrando na moderna Turquia, a Norte. A zona ‘vermelha’, britânica, expandiria a zona ocupada no Sul do Iraque até Bagdad e, separadamente, abrangeria o porto de Haifa. À Palestina seria atribuída a cor castanha. Ambas as partes procuraram o apoio da Rússia.”

Cem anos depois, o Acordo de Sykes-Picot continua a ser considerado por muitos analistas “a fonte de todos os males”, mas uma historiadora do Iraque na Universidade de Princeton, nos EUA, Sara Pursley, deita por terra estes mitos prevalecentes.

“Há a ideia muito esquisita de que as fronteiras actuais são menos reais do que as fronteiras imaginárias, que não existem e sobre as quais nunca houve acordo”, diz-me, numa entrevista por e-mail, a antiga professora do Programa de Estudos do Médio Oriente da City University of New York (CUNY).

Por exemplo, “as fronteiras do Iraque são as que temos; não foram desenhadas, em 1916, com uma caneta. Não se assemelham, por isso, ao mapa de Sykes-Picot, um facto que é, estranhamente, ignorado. As fronteiras do Iraque foram criadas ao longo de várias décadas, com o recurso a muita violência.”

“As fronteiras de todos os Estados-nação foram criadas assim. E as pessoas deveriam pensar nisto antes de defenderem que as fronteiras sejam ‘redesenhadas’, seja lá o que isto for.”

“A ideia de que o Iraque é uma imposição colonial é simplesmente falsa, do ponto de vista histórico”, sublinhou. “É certo que os curdos reivindicavam não serem incluídos no Iraque, mas não havia exigências para criar Estados separados xiitas e sunitas.”

“Tanto os iraquianos como os chamados nacionalistas árabes apoiaram as fronteiras do Iraque nos anos 1920. Nessa altura, a noção do Iraque como entidade artificial era um discurso totalmente colonial, usado para argumentar que [o país] não era suficientemente coerente para se governar a si próprio e deveria, portanto, ser administrado pela Grã-Bretanha.”

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A questão do Curdistão iraquiano é diferente, admite a historiadora. “Os curdos iraquianos têm muito boas razões históricas para considerarem inaceitável estarem sob o domínio de Bagdad.”

“É uma tragédia com raízes históricas específicas, mas não uma inevitabilidade por serem um povo com diferentes etnias a viver dentro das mesmas fronteiras. Aliás, o argumento repetido pelos curdos é o de que não procuram homogeneidade dentro do seu Estado; aceitam cristãos, árabes e outras minorias.”

“Os curdos são um movimento nacionalista local, com uma longa história de luta por um Estado independente”, anotou Sarah Pursley.

“Não podem ser comparados aos ocidentais que imaginam Estados separados no Iraque para sunitas e xiitas como uma boa ideia, porque se tornarão mais estáveis e menos ‘artificiais’. É uma ideia horrível, sem qualquer fundamento histórico e que tem ajudado a desviar a atenção das questões reais por detrás da guerra em curso. Sem a guerra, a artificialidade das fronteiras do Iraque não seria invocada.”

“Não existem Estados-nação com populações etnicamente e/ou religiosamente homogéneas, e a sua criação deve ser desencorajada”, frisou Sarah Pursley, reafirmando o que detalhou em dois artigos no site Jadaliyya (aqui e aqui).

“A lógica da narrativa do Estado artificial ‘é’ a lógica da limpeza étnica. Seguir a narrativa do Estado artificial não conduz à paz no Médio Oriente mas à violência etno-confessional.”

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Em 10 de Junho de 2014, logo após a conquista da cidade iraquiana de Mosul, o autoproclamado “estado islâmico” (EI/Daesh) anunciou “a morte de Sykes-Picot”, mas Sarah Pursley corrige a certidão de óbito. “As fronteiras da região que o EI clama estão mais próximas do mapa de Sykes-Picot do que das fronteiras internacionais reconhecidas entre o Iraque e a Síria.”

“A razão é simples: Sykes-Picot colocou a metade ocidental de Mosul – região que o EI considera a ‘província de Nínive’ – na Síria e não no Iraque. Ao integrar esta província na Síria, o EI está a cumprir Sykes-Picot, não a eliminá-lo.”

Um século depois de Sykes-Picot, “há uma convicção ocidental generalizada de que o Médio Oriente é dominado por sentimentos etno-confessionais e que, de certa maneira, cabe ao Ocidente criar fronteiras que confirmem essa convicção”, refere a historiadora.

“Não há muitas pessoas a dizer que os Estados no Ocidente devem ser homogéneos, pelo menos não depois de os nazis o terem tentado. No entanto, muitos ocidentais parecem acreditar que é uma fórmula adequada ao Médio Oriente. É, essencialmente, uma ideia racista, sugerindo que identidades cívicas só são possíveis com determinados povos. É uma forma de não se falar da violência ocidental na região.”

“O que é relevante sobre Sykes-Picot – 1916 – é que foi o ano em que a Grã-Bretanha ocupou militarmente a província otomana de Bassorá e estava prestes a ocupar Bagdad. Foi, sublinhe-se, uma ocupação violenta”, conclui Sara Pursley.

“No que concerne a essas províncias, Sykes-Picot ilustra bem a realidade militar no terreno. Então porquê tanto ênfase no mapa? Ao imaginarem-se responsáveis por traçar um mapa, como se fossem deuses, e ao fingirem que o impõem, os agentes ocidentais fogem à responsabilidade pelos actos de violência mais tangíveis, hoje e no passado.”

Sir Mark Sykes (esq.) e François Georges-Picot

Sir Mark Sykes (esq.) e François Georges-Picot 

Este artigo, aqui na íntegra, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 14 de Maio de 2016 | This article, here the uncut version, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on May 14, 2016

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