Fethullah Gülen: O pregador contra o presidente

A luta pelo poder na Turquia trava-se entre dois antigos aliados de conveniência com diferentes tradições islâmicas. (Ler mais | Read more…)

Retratos bordados de Fethullah Gülen e de Recep Tayyip Erdoğan expostos numa loja em no mercado de Gaziantep em 17 de Janeiro de 2014 (antes do golpe na Turquia) © Ozan Kose | AFP | Getty

Retratos bordados de Fethullah Gülen e de Recep Tayyip Erdoğan expostos numa loja em no mercado de Gaziantep, em 17 de Janeiro de 2014: imagens proibidas depois da tentativa de golpe na Turquia
© Ozan Kose | AFP | Getty

O “inimigo número um” na Turquia já não é Abdullah Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, separatista). Esse lugar pertence agora a um teólogo que vive na Pensilvânia, acusado pelo Presidente, Recep Tayyip Erdoğan, de “inspirar” o golpe falhado de 15 de Julho.

O pregador Fethullah Gülen, de 75 anos e saúde débil, isolado nas montanhas Pocono desde 1999, desmentiu o seu envolvimento na conspiração. E insinuou que a quinta tentativa de golpe no país que tem o segundo maior exército da NATO terá sido encenada por Erdogan.

Quem é, afinal, o homem cuja extradição foi pedida aos EUA, aventando Erdoğan a possibilidade de fechar a base de Incirlik – maior depósito de armas nucleares na Europa e de onde são lançados ataques ao Daesh na Síria?

Muhammad Fethullah Gülen nasceu em Korucuk, aldeia da Anatólia, em Novembro de 1938, o mês e ano em que morreu Mustafa Kemal Atatürk, fundador da moderna nação turca. O seu nome terá sido recusado como “demasiado islâmico” e, por isso, o pai, Ramiz Efendi, só o registou em 27 de Abril de 1941.

No percurso religioso que fez de Gülen um imã (quem conduz as orações), destaca-se a figura de Said Nursî (1878-1969), um curdo sunita de tradição sufi. É o autor de Risale-i Nur, antologia de comentários corânicos que, discutidos em “círculos de leitura” por todo o país, contribuiu para a formação do movimento Nurcu.

Foi deste movimento que coloca a ênfase na fé e professa uma economia de mercado, que emergiu, nos anos 1960-70, a Cemaat/Congregação (mais tarde Camia/Círculo e, agora, Hizmet/Serviço), de Gülen.

A sua filosofia diverge da de Erdoğan, cujo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) tem seguido a tradição Milli Gorus (Visão Nacional), da confraria Naksibendi (ou Naqshbandi), um dos expoentes do islamismo.

Soldados turcos de guarda na Praça de Taksim, em Istambul, em 16 de Julho de 2016, no dia seguinte à tentativa de derrube do Governo © Sedat Suna | EPA

Soldados turcos de guarda na Praça de Taksim, em Istambul, em 16 de Julho de 2016, no dia seguinte à tentativa de derrube do Governo
© Sedat Suna | EPA

O Cemaat/Hizmet define-se como movimento da sociedade civil, ecuménico e sem ambições políticas. Críticos vêem-no como uma rede secreta com objectivos obscuros. Venerado quase como um messias por cerca de 5 milhões de fiéis, o Hoacefendi (honorável professor) Gülen tem defendido uma “democracia secular” que assenta, sobretudo, na educação.

O seu “império”, no valor de muitos milhões de dólares, inclui escolas e universidades (das principais fontes de rendimento), onde se aposta na Ciência e na Matemática, em mais de 150 países; hospitais e seguradoras; um conglomerado de media e um banco (estes confiscados por Erdogan).

O Presidente “precisa de um bode expiatório para galvanizar a sua base de apoio e legitimar acções que abrem caminho a um partido único e ao poder de um só homem”, diz-me, numa entrevista, Ali H. Aslan, antigo correspondente em Washington do jornal Zaman, uma das publicações ligadas ao Hizmet e que o Presidente expropriou.

O que aconteceu para que Gülen, que trocou os partidos de centro-direita em que habitualmente votava pelo AKP, criado em 2001, entrasse em colisão com Erdogan?

“Ao contrário do que geralmente se supõe, as relações mútuas nunca foram cordiais”, observa Aslan. “Foram raros os seus encontros. Gülen apoiou Erdoğan porque este se comprometeu com valores democráticos e a adesão à União Europeia.”

“Os dois mantiveram as divergências em privado, mas Erdogan nunca gostou da presença de simpatizantes de Gülen no aparelho de Estado [exército, polícia, tribunais, academia…]. No entanto, como não tinha uma base política optou por colaborar com eles por recear mais os rivais kemalistas.”

Confronto entre um soldado e um oficial da Polícia na Praça de Taksim, em Istambul: as forças de segurança dividiram-se © Sedat Suna | EPA

Confronto entre um soldado e um oficial da Polícia na Praça de Taksim, em Istambul: as forças de segurança dividiram-se na lealdade ao primeiro-ministro
© Sedat Suna | EPA

A ruptura consumou-se em 2013, com um escândalo de corrupção, exposto por magistrados fethullahci (gulenistas), envolvendo o Irão, dirigentes do AKP, ministros e até um dos filhos de Erdogan.

“Nem todos os sectores da sociedade gostam de Gülen”, admite Aslan. “Alguns receiam que não seja suficientemente secular; grupos religiosos lamentam que seja pouco conservador. Curdos nacionalistas detestam-no porque ele não apoia a luta armada por direitos políticos.”

Para Henri Barkey, director do Programa de Médio Oriente no Woodrow Wilson Center, em Washington, a aliança frágil entre o pregador e o presidente começou a desfazer-se precisamente com “a oposição de Gülen à política de Erdoğan de aproximação ao PKK, em 2011-2012”. Os curdos não gostam dele “porque procuradores e juízes os têm perseguido implacavelmente”, diz Barkey .

Com o escândalo de corrupção em 2013, “Erdogan passou à ofensiva, conseguindo desviar a atenção” de um caso que o fragilizava. “Até então, ambos tinham sido parceiros contra os militares [nos processos Ergenekon e Sledgehammer]. Depois, Erdoğan uniu-se aos militares contra Gülen.”

Barkey não acredita que o golpe tenha sido encenado pelo político a quem detractores chamam “sultão neo-otomano”. A responsabilidade é de “jovens oficiais incompetentes que não tiveram apoio das chefias militares.”

Sobre o pedido para que os EUA extraditem Gülen, o académico Barkey exprime reservas. “Tem de haver um processo judicial e é preciso apresentar provas concretas, o que será difícil.”

Quanto ao fecho base de Incirlik, cujo comandante foi preso após o golpe, alerta que “seria um acto suicida por parte da Turquia.” Ali Aslan concorda: Erdoğan “não se pode arriscar” a uma tal decisão. “Ele sabe que os EUA têm o potencial de desestabilizar o seu regime.”

Um soldado turco suspeito de ter participado na tentativa de golpe é agredido na Ponte do Bósforo, em Istambul (16 de Janeiro de 2016). Recep Tayyip Erdoğan encorajou actos de represália e pôs em marcha uma campanha de repressão para vingar os mais de 300 mortos e 2100 feridos na intentona que envolveu ataques ao Parlamento, ao palácio presidencial e a outros edifícios governamentais © Selcuk Samiloglu | AP

Um soldado turco suspeito de ter participado na tentativa de golpe é agredido na Ponte do Bósforo, em Istambul (16 de Janeiro de 2016). Erdoğan encorajou actos de represália e pôs em marcha uma campanha de repressão para vingar os mais de 300 mortos e 2100 feridos na intentona que envolveu ataques ao Parlamento, ao palácio presidencial e a outros edifícios governamentais
© Selcuk Samiloglu | AP

A vingança em números

Milhares de pessoas, suspeitas de pertencerem ou serem simpatizantes do movimento de Fethullah Gülen têm sido vítimas da purga ordenada pelo Presidente, Recep Tayyip Erdoğan, desde a tentativa de golpe em Julho de 2016:

134.610 foram despedidas;

94.982 foram detidas;

47.128 foram presas;

7.317 cargos académicos foram extintos;

4.272 juízes foram demitidos;

2099 escolas, universidades e residências universitárias foram encerradas;

149 jornais e outras publicações foram encerrados;

162 jornalistas foram presos.

 

Fonte: turkeypurge.com (dados recolhidos até 19 de Março de 2017)

Ali H. Aslan, antigo correspondente em Washington do jornal Today's Zaman, um dos alvos da fúria do Presidente turco

Ali H. Aslan, antigo correspondente em Washington do jornal Zaman, um dos alvos da fúria do Presidente turco

Henri Barkey, director do Programa de Médio Oriente do Woodrow Wilson International Center for Scholars. Foi entretanto acusado pela Turquia de ser "um dos conspiradores"

Henri Barkey, director do Programa de Médio Oriente do Woodrow Wilson International Center for Scholars. Foi entretanto acusado pela Turquia de ser “um dos conspiradores”

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal EXPRESSO em 23 de Julho de 2016 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on July 23, 2016

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