Afro-iranianos: Uma minoria especial

Conhecidos como “negros do Sul”, muitos serão descendentes de escravos que Portugal levou para o Golfo Pérsico. Dentro e fora do país, poucos saberão da existência desta comunidade singular. O fotógrafo Mahdi Ehsaei foi à procura deles, na província de Hormozgan, para que sejam reconhecidos pela História. (Ler mais | Read more...)

Sanaz - Minab, Hormozgan Province This Afro-Iranian woman with her baby is a perfect example of Afro-Iranian and Western culture colliding. © Cortesia de Mahdi Ehsaei | Courtesy of Mahdi Ehsaei

Sanaz e o seu filho, em Minab, na província de Hormozgan. Esta mulher “é o exemplo perfeito da fusão entre as culturas afro-iraniana e ocidental”, diz o autor de Afro-Iranians, livro que homenageia uma comunidade singular
© Mahdi Ehsaei

Os iranianos conhecem bem o rosto (maquilhado de) negro de Haji Firuz, o arauto do Ano Novo Persa (Nowruz) que, com roupas coloridas e chapéu coniforme, desfila pelas ruas cantando e desejando boas novas.

Poucos saberão, porém, que este personagem é “a continuação das tradições da era sassânida, quando escravos negros entretinham audiências com música e dança”, segundo o sociólogo Ja’far Shahri.

E como é que uma figura que, devido às suas vestes geralmente vermelhas alguns comparam ao Pai Natal e situam no passado zoroastra pré-islâmico, ainda hoje, depois da abolição da escravatura em 1928, entoa rimas como Meu Senhor, eleva a tua cabeça/ Meu Senhor, olhe para si próprio/ Meu senhor, por que não ri?

A historiadora Beeta Baghoolizadeh, da Universidade da Pensilvânia (EUA), explica: “É o produto do nacionalismo, o resultado de Reza Pahlavi [o primeiro Xá desta dinastia] ter enfatizado um passado ariano. Muitos dirão, ‘Nunca tivemos escravos’, Ciro, o Grande, libertou-os todos. Prevalece o sentimento de que o Antigo Irão marcou o começo de um ‘verdadeiro Irão’. Isto apaga a compreensão da história recente.”

In Bandar Abbas, Eshagh is leaning against one of the most sold cars in Iran, a Kia Pride. The nearly extinct cult car is the Peykan. © Courtesy of Mahdi Ehsaei

In Bandar Abbas, Eshagh posa junto de um carros mais vendidos no Irão, o Kia Pride, que tem vindo a suceder ao Peikan, um “automóvel de culto”
© Mahdi Ehsaei

Haji Firuz, representado pelos trovadores que continuam a espalhar alegria e felicidade no equinócio da Primavera, foi um dos rostos negros que levou o fotógrafo alemão-iraniano Mahdi Ehsaei, 27 anos, a ir ao encontro de uma comunidade “desconhecida e ignorada”, no Sul do Irão. O outro foi um homem que o cativou no estádio de Hafeziyeh, na cidade de Shiraz, de onde é originário o seu pai.

“Em 2010, nas férias de Verão, visitava os meus avós quando fui a assistir a um jogo de futebol”, conta Mahdi Ehsaei, autor de Afro-Iranians, um livro de fotografias que resultou da sua tese de doutoramento e tem merecido aplauso internacional.

“A equipa adversária vinha de Hormozgan, e o chefe da claque era um iraniano de pele negra que animava os jogadores de uma forma que, para mim, era nova. Gravei o momento em vídeo, e decidi conhecer os iranianos com raízes africanas.”

Mahdi Ehsaei, que partilha a opinião de Beeta Baghoolizadeh sobre Haji Firuz – “o olhar, o modo como canta e dança evocam a fisionomia e o dialecto africanos” – não estava sozinho na ignorância.

“Muitos iranianos com quem falei desconheciam que negros viviam no país há séculos”, disse-me, numa entrevista por e-mail. “Tive dificuldade em encontrar documentação visual sobre esta minoria. Cheguei à conclusão que era uma injustiça. A história destas pessoas exigia uma plataforma global que lhes desse a visibilidade devida. Empenhei-me, por isso, em tentar mostrar ao mundo uma comunidade fascinante.”

Khaje-Ata area in Bandar Abbas, Hormozgan Province Women walking into an alley. The 'Chador Bandari' is a lightweight garment worn on the outside by women in the southern parts of Iran © Cortesia de Mahdi Ehsaei | Courtesy of Mahdi Ehsaei

Afro-iranianas numa das ruelas de Khaje-Ata, em Bandar Abbas: O “chador bandari”, leve e colorido é característico do vestuário usado pelas mulheres no Sul do Irão
© Mahdi Ehsaei

A principal fonte de inspiração foi Antoin Sevruguin, iraniano-arménio. Nasceu e morreu em Teerão (1830-1933), de cidadania russa, foi o primeiro a documentar os muitos grupos étnicos e demográficos no Irão. A sua reputação de retratista fez dele um dos fotógrafos oficiais da corte do Xá Nasser al-Din.

Para fotografar os afro-iranianos em Hormozgan, no Estreito de Ormuz, Golfo Pérsico, Mahdi Ehsaei esteve aqui dois meses. A capital da província é a cidade portuária de Bandar Abbas, que os portugueses conheciam por Cambarão. “Fui muito prudente na abordagem das pessoas”, referiu.

“Algumas mostraram-se desconfiadas; outras, sobretudo mulheres, recusaram colaborar. Procurei a naturalidade, para que as imagens fossem autênticas, não encenadas. Houve momentos em que precisei de ajustar a posição dos retratados, de modo a incluir o maior número possível de informação sobre o seu espaço, como se este fosse uma moldura.

No prefácio de Afro-Iranians, escreve Joobin Bekhrad, fundador e director da revista cultural REORIENT: “Em vez de apresentar espécies bizarras para chamar a atenção, Mahdi Ehsaei faz o contrário, mostrando simplesmente iranianos. Talvez os orientalistas se sintam desiludidos. O ‘elemento’ iraniano destaca-se no facto de esbater questões como raça, cultura e cor da pele.”

“Não há nada de ostensivamente ‘afro’ nas pessoas fotografadas nem nas paisagens captadas, excepto em pormenores superficiais. Seja qual for o interesse antropológico, sociólogo ou de curiosidade, este é um projecto que celebra as muitas dimensões da cultura iraniana, antiga e vasta, multifacetada e rica.”

Quem são, afinal, os afro-iranianos? O termo terá sido cunhado por Behnaz Mirzai, que há duas décadas estuda esta comunidade. Muitos deles desconhecem as suas próprias origens e ressentem com “insulto” serem considerados africanos, afirmou a historiadora iraniana ao site Middle East Eye. “Muitos chamam-lhes ‘negros do Sul’, atribuindo a pele negra ao calor abrasador nesta região.”

De um modo geral, porém, os afro-iranianos estão integrados na sociedade. No Sistão e no Baluchistão falam baluchi, a língua local. Em Hormozgan, falam bandari. Também misturam tradições africanas com a cultura iraniana, designadamente o misticismo sufi. Um dos seus principais rituais, é a cerimónia do “Zar”, semelhante a danças tribais na Tanzânia ou na Etiópia, que serve de “exorcismo dos espíritos e demónios”.

Mohammad Ali - Bandar Abbas, Hormozgan Province The Khaje-Ata Beach in Bandar Abbas rests against the Persian Gulf. It is a popular place for inhabitants and tourists. Afternoons are filled with children playing on the beach. © Courtesy of Mahdi Ehsaei

Mohammad Ali brina na praia de  Khaje-Ata, em Bandar Abbas, um lugar muito popular no Irão
© Mahdi Ehsaei

“É importante salientar que nem todos os escravos na Pérsia eram africanos e que nem todos os africanos chegaram à Pérsia como escravos”, esclareceu Ehsaei. “A Pérsia também tinha escravos do Sul da Rússia e do Cáucaso do Norte, enquanto alguns marinheiro africanos vieram para trabalhar no Golfo Pérsico.”

“A partir do início do século X, portugueses e espanhóis ocuparam gradualmente as ilhas de Qeshm [Queixume] e Ormuz, de grande interesse estratégico no Estreito de Ormuz. A ocupação da costa africana ocidental deu aos portugueses acesso ao comércio de escravos, que controlaram durante os mais de cem anos, a partir do século XVI, que dominaram o Golfo Pérsico.”

Ehsaei citou os manuscritos de Lady Mary Sheil, a primeira mulher que escreveu um livro de viagens sobre a Pérsia (Glimpses of Life and Manners in Persia, 1846), para especificar que chegaram ao Irão três tipos de escravos negros: “Os bambassis, os núbios e os habashi. Os bambassi ou zanj, vieram de Zanzibar (actual Tanzânia), e países vizinhos – possivelmente Moçambique e Quénia (Mombaça). Os núbios vinham da Núbia e da Abissínia. Os habashi eram originários da Etiópia.

“Os afro-iranianos pertencem a uma sociedade cultural variada, tal como os restantes grupos étnicos do país: azeris, curdos, árabes, arménios, baluchis…”, anotou Mahdi Ehsaei, que já levou o seu projecto para uma exposição em Calí, na Colômbia [e, posteriormente, em Roma, Itália, e em Nairobi, Quénia]. “O principal objectivo é revelar esta comunidade, contar uma parte desconhecida da história da diáspora africana.”

Mahdi Ehsaei, the author of Afro-Iranians © Todos os Direitos Reservados | All Rights Reserved

Mahdi Ehsaei, o autor de Afro-Iranians
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Este artigo, aqui na versão integral e actualizada, foi originalmente publicado na revista VISÃO em 25 de Agosto de 2016 | This article, here the uncut and updated version, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on August 25, 2016

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